ATIVIDADE INVESTIGATIVA NO ENSINO DE CIÊNCIAS - UMA EXPERIÊNCIA NO ESTÁGIO DE LICENCIATURA EM FÍSICA
Renata Naporano Bicev, Alessandra Marques Ferreira Dos Santos, Vera Bohomoletz Henriques
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XIX
- Ano
- 2011
- Data
- 31/01/2011
- Linha de pesquisa
- Formação E Prática Profissional De Professores De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## ATIVIDADE INVESTIGATIVA NO ENSINO DE CIÊNCIAS - UMA EXPERIÊNCIA NO ESTÁGIO DE LICENCIATURA EM FÍSICA
Renata Naporano Bicev , Alessandra Marques Ferreira dos Santos , 1 2 Vera Bohomoletz Henriques 3
1,2,3 Universidade de São Paulo/Instituto de Física, renatabicev@usp.br, 1 2 alessandra.santos@usp.br , 3 vhenriques@if.usp.br
## Resumo
No Instituto de Física da Universidade de São Paulo, a implantação do estágio curricular na Licenciatura levou a uma parceria com escolas públicas da região nas cercania do campus. Uma das escolas parceiras, de ensino fundamental, desenvolve um projeto pedagógico baseado na Escola da Ponte de Portugal, em que a aula expositiva é substituída por pesquisa orientada por parte dos alunos, que são independentes para escolher, individualmente, a sequência de conteúdos que estudam. A parceria entre a universidade e a escola, dada a demanda pela experimentação, levou à implantação de um laboratório móvel fornecido pelo Instituto de Física, cujas atividades são desenvolvidas por estagiários, ao longo do ano escolar, com conteúdos definidos pela escola. Os roteiros de atividades, para ação participativa e investigativa dos alunos, são trabalhados pelos alunos organizados em pequenos grupos. Houve preocupação com a linguagem dos roteiros desenvolvidos e com a organização da atividade visando favorecer a discussão das observações e das idéias. Neste trabalho serão analisados os objetivos e os resultados obtidos a partir de duas atividades, uma aplicada na quinta série, e outra na sétima série. Além disso, serão tratados alguns dos problemas encontrados, de maneira geral, na implantação do projeto e delineadas possíveis ações futuras.
Palavras-chave: atividade experimental, ensino de Ciências, ensino participativo.
## Introdução
Este estudo trata de uma tentativa de análise de atividades envolvendo experimentos de ciências que foram desenvolvidas em turmas de uma escola de ensino fundamental na cidade de São Paulo, em horário regular, durante o estágio curricular de alunos da Licenciatura em Física do Instituto de Física da USP, no contexto do Programa de Formação de Professores da USP [1]. A análise empreendida poderá contribuir para nortear modificações na ação dos futuros estagiários.
A escola de ensino fundamental EMEF Desembargador Amorim Lima, localizada na Zona Oeste da cidade de São Paulo, é uma escola diferenciada, com uma comunidade ativa e participativa [2]. No início de 2003, a Comissão e o Conselho de Escola examinaram o Projeto Político Pedagógico para o período letivo,
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o que vem ao encontro dos Parâmetros Curriculares Nacionais que sugerem '...a renovação e reelaboração da proposta curricular, reforçam a importância de que cada escola formule seu projeto educacional, compartilhado por toda a equipe, para que a melhoria da qualidade da educação resulte da co-responsabilidade entre todos os educadores' [3]. Neste período de reformulação, os membros do Conselho tomaram conhecimento do projeto aplicado numa escola em Portugal, a Escola da Ponte [4]. Vislumbrou-se a possível adequação da prática desenvolvida naquela escola aos valores propostos no Projeto Pedagógico da Escola. O novo projeto de ensino colocou o desafio de modificar a relação entre alunos e professores, bem como destes com os saberes escolares: 1) a prática seria compartilhada e solidária, sendo que o professor deixa de trabalhar com uma turma específica; 2) o trabalho de formação seria diversificado e múltiplo, tendo como objetivo incentivar e acompanhar a transversalidade curricular pretendida, sem, contudo abrir mão do conhecimento numa área específica; 3) haveria uma mudança do foco na relação professor aluno, uma vez que as aulas expositivas dão lugar ao incentivo à pesquisa; 4) haveria a descentralização do professor como detentor do saber, cabendo a ele o papel de facilitador do aprendizado.
- O Programa de Formação de Professores da Universidade de São Paulo, elaborado em 2003 [1], propõe que as unidades de ensino responsáveis pelo estágio curricular organizem parcerias com escolas públicas, a fim de que o estágio seja efetuado de forma coordenada, em um trabalho de colaboração entre a universidade e a escola. No caso do IFUSP, a escola Amorim Lima é uma das seis escolas públicas parceiras, em um projeto que teve início em 2009. Neste projeto, o trabalho dos estagiários na escola consiste em levar atividades com experimentos e roteiro de discussão às aulas regulares da escola, quinzenalmente, ao longo da maior parte do ano letivo (abril a novembro), com conteúdo previamente acertado com o professor. Todo o material experimental necessário para a aplicação da atividade, sendo estes em quantidade suficiente para os alunos organizados em grupos de quatro ou cinco alunos, é de responsabilidade do Instituto de Física, não recaindo nenhum ônus sobre a escola.
Na parceria com a escola Amorim Lima, foi acordado que as atividades levadas pelos estagiários compreenderiam temas do conteúdo curricular da escola para as quatro séries do ciclo II do ensino fundamental. Nas seções a seguir, será apresentados a forma pela qual os roteiros de atividades são elaborados, a preparação dos estagiários e o desenvolvimento da atividade na escola. Para ilustração e análise mais detalhada, foram selecionadas duas atividades desenvolvidas na escola Amorim Lima, em 2009, na 5ª e 7ª série (atuais 6o e 8o ano), respectivamente, em relação às quais serão discutidas as dificuldades na implantação e alguns resultados obtidos.
## Trabalho com roteiros de pesquisa (RP) na escola Amorim Lima
Os alunos da escola Amorim Lima trabalham com roteiros de pesquisa (RP) por eixos temáticos, que incluem o conteúdo de ciências [5]. A cada eixo temático
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correspondem cerca de dez a quinze roteiros, que orientam o trabalho de pesquisa dos alunos ao longo do ano letivo. Os roteiros enumeram um conjunto de temas e elencam atividades a serem desenvolvidas pelo aluno (leitura, redação de texto, atividades de grupo, a partir de textos indicados nos livros didáticos adotados pela escola [6]). Os alunos podem escolher a ordem em que querem trabalhar os roteiros, que são desenvolvidos em pequenos grupos inter-séries, no espaço denominado 'salão', sob supervisão de professores. Isto significa que os diferentes alunos da mesma turma desenvolvem, ao longo do ano, seqüencias de conteúdos distintas, embora, ao final do ano, todos devam ter finalizado o conjunto completo de roteiros. O acompanhamento do trabalho realizado por cada aluno é efetuado semanalmente em reuniões de 'tutoria', em que cada professor é responsável por doze alunos.
Neste estudo, serão apresentadas duas atividades levadas pelos licenciandos à escola: uma se insere nas atividades associadas ao roteiro da escola denominado Camada de Ozônio , para a 5ª série, no eixo temático Nosso Planeta ; a outra se insere nas atividades associadas ao roteiro da escola denominado Esqueleto , para a 7ª série, no eixo temático Saúde .
## Os roteiros de atividade (RA) dos estagiários do Instituto de Física
Os roteiros de atividades (RA) para aplicação pelos estagiários na escola Amorim Lima foram elaborados por alunos de iniciação científica no projeto com o título: Ensino de Física no Ensino Fundamental - observação, experimentação, ação e linguagem, desenvolvido por alunas de Licenciatura do Instituto de Física, autoras deste trabalho, orientação terceira autora. O projeto tem por objetivo levar aos alunos do ensino fundamental a observação de fenômenos, experimentos qualitativos e a discussão de conceitos, através de roteiros que permitam atividade investigativa [7, 8] que auxiliem na construção dos conceitos científicos através da participação ativa dos alunos, com expressão verbal espontânea e sugerida, teste e troca de idéias, a partir de conceitos introduzidos pelo professor ou estagiário [9]. No desenvolvimento dos roteiros, leva-se em conta que a atividade deve ser desenvolvida em grupos de aproximadamente cinco alunos, possibilitando e valorizando a discussão entre os membros.
## Atividades na escola - preparação, implementação e avaliação
A aplicação das atividades é realizada por alunos-estagiários de licenciatura em física, coordenados por professora e monitores da disciplina de Práticas em Ensino de Física. Desta feita, é de responsabilidade dos licenciandos a avaliação do roteiro (RA), a partir da realização prévia da atividade, e de sua análise, com o objetivo de sugerir melhorias e reformulações. Duas preocupações adicionais nortearam esta reformulação e a preparação para aplicação na sala de aula: (i) levar em conta os conceitos prévios dos alunos, pois '... a função do ensino não é acabar com as idéias espontâneas, porém fortalecer as idéias científicas, estruturando-as e ampliando seu poder de explicação até onde é razoavelmente
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possível e viável' [10]; (ii) preocupação com a linguagem, tanto a do roteiro escrito, quanto com aquela utilizada pelos estagiários com os alunos da escola. Deste modo optou-se por utilizar uma linguagem simples numa abordagem qualitativa e reflexiva, sendo indispensável o incentivo do professor e dos estagiários em despertar a curiosidade na busca de soluções, da parte dos alunos, para os problemas levantados.
As duas atividades escolhidas para análise neste trabalho são baseadas nos roteiros (RA): (i) A interação da radiação ultravioleta com a nossa pele , que se insere no tema desenvolvido no roteiro de pesquisa (RP) da escola, intitulado Camada de Ozônio , para a 5ª série; (ii) O que há entre os ossos?, que se inclui entre os assuntos abordados no roteiro de pesquisa (RP) da escola, intitulado Esqueleto , para a 7ª série.
Nos dois casos, a atividade elaborada pelo grupo de iniciação cientifica foi reelaborada pelos licenciandos-estagiários que a levaram, em duplas, à sala de aula.
Na seqüência são discutidos os objetivos de duas atividades, bem como o seu desenvolvimento na sala de aula.
## Luz Ultravioleta - reelaboração e aplicação da atividade
O objetivo desta atividade foi de explorar conceitos relacionados à função da camada de ozônio na atmosfera. Abordando especificamente a interação da radiação ultravioleta com a camada de ozônio e com a nossa pele.
Reelaboração. O roteiro que fora preparado pelo grupo de alunos de iniciação cientifica foi adaptado para alunos da 5º série, portanto houve a necessidade modificar a linguagem, bem como de se fazer alguns recortes focalizando o tema escolhido. A atividade foi reelaborada pensando-se que informações, relacionadas ao tema, seriam importantes e quais seriam interessantes na faixa etária dos alunos. O roteiro original tratava das diversas radiações emitidas pelo Sol os raios ultravioleta, os infravermelho e a radiação visível. A necessidade de recortes se dava também ao fato de que o roteiro deveria ser aplicado em uma aula de sessenta minutos.
O teste dos experimentos envolvidos na atividade mostrou-se essencial. Em uma parte da atividade, os alunos deveriam recobrir um interruptor fosforescente com protetor solar e comparar seu brilho com o de outro interruptor. Após secar o produto um dos estagiários deveria incidir luz UV sobre os interruptores. Na sequência os alunos deveriam fazer uma comparação entre o efeito do protetor solar sobre o interruptor e sobre a nossa pele. Esta atividade veio a apresentar problemas no momento dos testes, que foram feitos na semana que antecedeu a aplicação na escola. Na compra dos interruptores não se observou se os seus botões eram de fato fosforescentes estes apenas apresentavam a mesma cor dos desejados, no entanto ao fazer os testes verificou-se que estes não 'brilhavam' no escuro. Este problema pôde ser remediado fazendo a substituição deste item por
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enfeites adesivos que são colados nos tetos de quartos infantis. Outro problema para a implantação desta atividade em sala de aula foi observar que com a iluminação diurna, apesar de se apagar as luzes ou fechar as cortinas, o ambiente não era suficientemente escuro para observar a fosforescência dos adesivos, desta forma houve a necessidade de se providenciar alguns metros de tecido escuro e grosso para se improvisar uma barraca na sala de aula, utilizando algumas carteiras e cadeiras. As simulações se mostram essenciais para uma melhor aplicação das atividades em sala de aula, pois é nestes momentos que surgem as dúvidas, ou os problemas.
Aplicação. Na parte inicial do roteiro, um texto explicava de maneira sucinta as interações dos raios ultravioleta com o ozônio atmosférico. Os alunos relutaram em ler o texto em grupo, a fim de discutir sobre o que cada um havia entendido. Foi então sugerido que um dos alunos lesse em voz alta para toda a classe, mas como se sentiram intimidados, um dos estagiários fez a leitura. Muitas das crianças se manifestaram, dizendo que já haviam ouvido falar sobre o buraco na camada de ozônio. A fim de se obter informação acerca do que os alunos haviam entendido sobre o conteúdo do texto, pediu-se que representassem, através de um desenho, aquela informação. Foi incentivado que os alunos pensassem no que já ouviram falar sobre o assunto em sala de aula e através dos meios de comunicação. Por meio desta simples atividade foi possível observar a dificuldade que os alunos apresentam em resgatar conhecimentos que anteriormente foram apresentados e relacioná-los com novas informações. Na realidade deve-se ter consciência de que: '... para aprender bem é preciso 'pensar'. Deixar que as informações penetrem e se confrontem com tudo aquilo que já conhecemos. É preciso fazer sínteses e traduzilas em imagens. Sobretudo, é preciso deixar que surjam dúvidas, pois elas são o sintoma de que está havendo uma reformulação interior.' [11] Ao transpor as informações para o desenho deu-se a impressão de que se tratava do primeiro contato com o conteúdo abordado na atividade. Houve a necessidade de interferência por parte dos estagiários nos grupos, na tentativa de motivá-los a concentrar-se no tema, na leitura do texto, e a discutirem entre os membros do grupo o assunto tratado. O desenvolvimento da primeira parte da atividade permitiu a verificação de alguns problemas: os alunos relutam em se envolver na atividade; a leitura do texto não possibilitou que fizessem relação com o conteúdo abordado em sala de aula; alguns alunos copiavam desenhos dos seus colegas.
Na segunda parte da atividade, foi apresentada uma ilustração da pele humana, destacando as camadas da epiderme e da derme. No mesmo desenho, estavam representados por flechas os raios UVA e UVB, e as profundidades que atingiam. Foram disponibilizados aos alunos frascos de protetores solares, e os estagiários incentivaram-nos a observar o esquema da pele e o rótulo do protetor, a fim de que executassem as tarefas pedidas no roteiro:
' 2) Verifique, no rótulo do protetor solar, quais são os tipos de raio contra os quais ele protege a nossa pele.
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- 3) Coloque esses raios em ordem da profundidade que atingem.
- 4) Com base no desenho e no esquema da pele, explique como os raios atingem a nossa pele. '
De uma maneira geral, observou-se que os alunos conseguiram relacionar melhor esta segunda parte da atividade com os seus conhecimentos prévios, e que a discussão gerada em torno da atividade inicial acabou facilitando o entendimento do restante do roteiro. Foram obtidas respostas interessantes dos alunos para a questão 4, como as seguintes:
'Ele sai do Sol bate na camada entra só um pouquinho e um pouco volta e o que passa e atingem a Terra e a nossa pele.'
- 'Eles passam pelo buraco e atingem nossa derme e epiderme.'
- 'Uma parte dos raios passam pela camada atinge e ultrapassam a nossa pele.'
No entanto, na análise posterior dos roteiros, observou-se que apesar da maioria dos alunos terem respondido as questões com coerência, uma conclusão atingida por alguns deles, como a de que os raios ultravioleta somente chegam até a nossa pele porque passaram pelo buraco na camada de ozônio, não foi percebida durante a atividade. Portanto, pode ocorrer que, apesar do diálogo durante a atividade, a interpretação do aluno sobre o conteúdo apresentado só seja percebida posteriormente, através de seu registro escrito.
Na última parte do roteiro foi proposta uma atividade que consistia em observar dois adesivos fosforescentes, sendo que um devia ser recoberto com protetor solar. Os alunos deveriam observar, desenhar e descrever suas observações. Os alunos se mostraram mais empolgados nesta parte da atividade. Em nossa interpretação, isto se deu porque puderam colocar a 'mão na massa' e fazer observações inesperadas. Foi um momento de descontração e brincadeiras, visto que para se observar a fosforescência do material e a proteção obtida com o protetor solar houve a necessidade de entrar na barraca improvisada. 'A possibilidade de participar de atividades nas quais os estudantes manipulem, explorem, interajam com materiais concretos, ao invés de somente se dedicar a aulas expositivas e leituras de textos, é essencial para o desenvolvimento e o aprendizado das crianças.' [12].
Até mesmo os alunos mais céticos se renderam e quiseram observar o fenômeno dentro da barraca. A observação dos adesivos, no formato de estrelas, que 'brilhavam', sem o protetor solar, e que não 'brilhavam', com o produto, aliada às discussões, parece ter permitido que os alunos fizessem a relação entre os dois fenômenos, um observado, o outro abstraído, relacionados pela passagem ou não dos raios UV, o brilho ou sua ausência, nas estrelas fosforescentes, e a queimadura ou proteção da nossa pele. Algumas respostas à solicitação do roteiro, de que os alunos comparassem o efeito do protetor solar sobre o interruptor e sobre a nossa pele, foram as seguintes:
'A nossa pele queima e a estrela acende'
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- 'A parte brilhante seria nossa pele queimada e a com protetor é nossa pele protegida.'
- 'O protetor protege a estrela como protege a nossa pele.'
## O que há entre os ossos? Elaboração e aplicação da atividade
A atividade foi elaborada para ser aplicada na sétima série, para trabalhar a função do fluido sinuvial e da cartilagem entre nossos ossos. Optou-se por explorar qualitativamente o conceito de atrito.
- O roteiro estava dividido em três partes, sendo que nas duas primeiras trabalhava-se a idéia da necessidade da lubrificação entre os ossos para que haja continuidade do movimento e, na terceira, a idéia de que sem essa lubrificação, além da perda de movimento, pode ocorrer também o desgaste do osso.
Na primeira parte da atividade pediu-se aos alunos que: (i) que observassem um bloco de madeira escorregar sobre uma placa também de madeira; (ii) a seguir, embrulhassem tanto o bloco quanto a placa com papel celofane e observassem novamente o escorregamento; (iii) por último, que fosse colocado óleo na placa e observassem o deslizamento. Quando os alunos foram indagados do que ocorreria, a maioria disse que o bloco deslizaria, com mais facilidade, quando estivesse embrulhado em celofane. Esse pensamento foi comum também entre os licenciandos, na preparação da atividade. Porém, ao realizar o experimento, os estudantes se surpreendiam ao ver que isso não ocorria. Ainda assim, a maioria dos alunos registrou no roteiro a situação anterior ao cessamento do movimento, e que na situação celofane-celofane, o bloco deslizava mais rapidamente do que a situação madeira-madeira e na situação celofane-óleocelofane. Na figura 1 está a resposta de um aluno que representa a maioria dos alunos.
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Figura 1: Roteiro preenchido por um aluno da sétima série.
A intenção da atividade era que os alunos pudessem observar que dois objetos de mesmo material tem mais dificuldade de deslizar do que quando há um fluido entre eles, como nos nossos ossos. No entanto, os alunos dirigiram o olhar para a velocidade inicial de descida, que era maior para o caso do celofane, e não para a continuidade do movimento, que só ocorria no caso da 'lubrificação' com óleo.
A segunda parte do experimento era similar à primeira, mas o atrito e a lubrificação deveriam ser observados em uma situação que imitava uma dobradiça. No primeiro momento, era solicitado o seguinte: 'Coloquem o cabo de vassoura horizontalmente entre duas carteiras. Enrolem o suporte de metal e o cabo de vassoura com fita crepe. Amarrem a garrafa com água bem firme no gancho. Pendurem o gancho com a garrafinha no cabo de vassoura, formando um pêndulo. Observem o movimento dele. Contem o número de oscilações até que pare.' Na segunda etapa, era pedido o seguinte: 'Feito isso, você passará óleo no cabo de vassoura e no suporte metálico. Repitam novamente o procedimento anterior. Observem novamente o movimento e contem o número de oscilações até que o pêndulo pare.' Pretendia-se que os alunos observassem que o óleo entre os objetos realmente fazia com que o atrito diminuísse. Essa segunda parte do experimento foi um pouco mais difícil, pois exigia que os alunos tomassem o cuidado de soltar o pêndulo da mesma altura nas duas situações, o que alguns grupos esqueciam e tinham que repetir. No roteiro, pedia-se que os alunos dissessem a diferença entre as duas situações, mas poucos responderam. Um deles escreveu o seguinte: 'O pêndulo com óleo é mais lento, mas dura mais'. Apesar de nem todos terem respondido por escrito, no roteiro, houve bastante discussão na sala, sendo que pôde ser percebido que a maioria dos grupos conseguiu distinguir as situações.
Na terceira parte, foi pedido para os alunos esfregarem dois pedaços de giz e descreverem o que observavam. A seguir, solicitava-se que colocassem creme dental entre os pedaços de giz, e descrevessem o que viam acontecer. Essa parte do experimento foi mais fácil de ser realizada, pois os alunos esperavam que ocorresse o contrário. Houve discussão acerca do desgaste dos ossos, porém nenhum aluno preencheu o roteiro - como a aula estava no final, os estagiários optaram por discutir o final do roteiro, em que era pedido o seguinte: 'Veja no livro de ciências o que temos entre os nossos ossos. Escreva um pequeno texto abaixo, relacionando com os experimentos que fizemos'. A maioria dos alunos quando indagados sobre o que temos entre os ossos, respondia que era a cartilagem e fazia relação com o impedimento de desgaste do osso, fazendo referência à terceira parte do experimento. Porém não conseguiam relacionar o movimento e a lubrificação, propiciada pelo líquido, com a primeira parte do experimento.
## Resultados e conclusões
Através da análise de dois roteiros aplicados aos alunos da escola Amorim Lima foi possível levantar algumas das dificuldades na elaboração e na implantação de atividades investigativas com experimento para o ensino de Ciências.
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Uma particularidade do projeto pedagógico da escola envolvida, conforme explicado na introdução, permite aos alunos que escolham a sequência de conteúdos que estudam, o que tem como conseqüência o fato de que, se o tema da atividade já foi objeto de estudo de alguns alunos, certamente não foi de todos. Esta característica do trabalho da escola implica na necessidade de que o estagiário prepare-se para introduzir o conteúdo da atividade, que, para alguns, estará sendo visto pela primeira vez.
Na aplicação da atividade pôde ser observado o problema que os alunos têm em se expor. Em diversas ocasiões foi possível verificar as seguintes dificuldades: 1) os alunos se sentem intimidados em ler em voz alta, seja para a sala toda, seja em pequenos grupos; 2) muitos deles discutem as questões apresentadas no roteiro, mas não conseguem colocar as suas conclusões na forma escrita, não se fazem compreender; 3) os estudantes não apresentam o mesmo envolvimento nas diferentes partes da atividade. Desta forma exige-se, do estagiário, articulação no intuito de motivar os alunos e expressar a importância de que a atividade seja trabalhada na sua inteireza. Já no que diz respeito aos pontos 1) e 2), talvez uma melhor comunicação entre o professor e o estagiário, permitisse que as dificuldades de cada aluno fossem tratadas não apenas no momento da atividade, mas também ao longo das aulas, no convívio com o estudante.
No que diz respeito à elaboração, podemos destacar a necessidade de adaptação da linguagem do roteiro escrito apresentado ao aluno. Muitas vezes o estagiário, o responsável pela escrita do roteiro, se encontra imerso no mundo acadêmico, com seu vocabulário próprio, e sente dificuldade em adaptar a linguagem para o seu público, que no caso seriam os alunos do ensino fundamental - ciclo II. Transpor este problema faz toda a diferença, uma vez que se espera que o aluno compreenda a questão apresentada, para que a observação do fenômeno imaginada pelo estagiário aconteça, e que seja possível a discussão no pequeno grupo de alunos. Acredita-se que um maior convívio entre o estagiário e os alunos possibilite conhecê-los melhor, compreendendo sua forma de pensar, permitindo que seja possível à elaboração de atividades numa linguagem mais próxima dos alunos.
Foi possível observar também que, mesmo para atividades aparentemente bem elaboradas, existe a necessidade de avaliação das respostas que retornaram dos alunos, a fim de verificar se os objetivos foram alcançados. Muitas vezes somente é possível constatar a dificuldade dos alunos no momento da leitura dos roteiros, que retornam preenchidos das escolas, e nem sempre é possível a retomada do assunto em outro dia, a fim de esclarecer um ponto específico, dada a periodicidade quinzenal das participações dos estagiários nas aulas. A análise das respostas ainda permite verificar se o conteúdo novo aprendido fez modificar as concepções que os alunos têm a respeito de determinado fenômeno. Talvez seja necessário um maior envolvimento entre estagiário e professor, e que o estagiário reportasse ao professor as dificuldades individuais que os alunos têm, cabendo ao docente o esclarecimento, numa aula posterior, de pontos que geraram dúvidas nos alunos no dia da aplicação da atividade experimental.
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## Referências
- [1] Programa de Formação de professores Disponível em: <http://www.if.usp.br/coclic/pratica.html> Acesso em 01 out. 2010.
- [2] EMEF Desembargador Amorim Lima Disponível em: <http://www.amorimlima.org.br/tiki-index.php> Acesso em 01 out. 2010
- [3] Parâmetros Curriculares Nacionais Disponível em: <http://www.zinder.com.br/legislacao/pcn-fund.htm> Acesso em 01 out. 2010.
- [4] PACHECO, José. Escola da Ponte: Formação e Transformação da Educação. Petrópolis: Vozes, 2008.
- [5] Roteiros de pesquisa Disponível em: <http://www.amorimlima.org.br/tiki- index.php?page=Roteiros+de+Pesquisa> Acesso em 01 out. 2010
- [6] BORTOLOZZO, Silvia; MALUHY, Suzana. Projeto Educação para o século XXI. São Paulo: Moderna, 2002. (Link da ciência 5 série, 6 série, 7 série, a a a 8 a série ).
- [7] BORGES, A. T. Novos rumos para o laboratório escolar de Ciências. Caderno Catarinense de Ensino de Física, v. 19, n. 3,291-313, 2002.
- [8] NATIONAL ACADEMY OF SCIENCE. National Science Education Standards. Washington: National Academy Press, 1996.
- [9] VIGOTSKI L.S. , Pensamento e Linguagem .São Paulo: Martins Fontes,1996.
- [10] VILLANI, A. As Idéias Espontâneas e o ensino de Física. Revista Brasileira de Ensino de Física 11, 1989.
- [11] VILLANI, A., Reflexões sobre o ensino de Física no Brasil: prática, conteúdos e pressupostos. Revista de Ensino de Física , V. 6, n.2, 76-95, 1984.
- [12] SCHROEDER, C ., A Importância da Física nas Quatro Primeiras Séries do Ensino Fundamental. Revista Brasileira de Ensino de Física. Vol. 29, n. 1, 89-94, 2007.
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