A PESQUISA EM ENSINO DE FÍSICA E O ENSINO NA SALA DE AULA: MEMÓRIAS DE PROFESSORES
Andréa Cristina Souza De Jesus, Sérgio Rykio Kussuda, Roberto Nardi, Maria José P. M. De Almeida
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XIX
- Ano
- 2011
- Data
- 31/01/2011
- Linha de pesquisa
- Formação E Prática Profissional De Professores De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## A PESQUISA EM ENSINO DE FÍSICA E O ENSINO NA SALA DE AULA: MEMÓRIAS DE PROFESSORES
## *Andréa Cristina Souza de Jesus , Sérgio Rykio Kussuda , Roberto 1 2 Nardi , Maria José P. M. de Almeida . 3 4
1 UNESP/ Programa de Pós-graduação em Educação para a Ciência / Apoio: CAPES [andreacsj@fc.unesp.br]
2 UNESP/ Programa de Pós-graduação em Educação para a Ciência / Apoio: CNPq [sergiokussuda@gmail.com]
- 3 UNESP / Departamento de Educação e Programa de Pós-graduação em Educação para a Ciência / Apoio: CNPq [nardi@fc.unesp.br]
## Resumo
A pesquisa em ensino de ciências mostra-se hoje consolidada no país, tal fato pode ser verificado através da existência de dezenas de grupos de pesquisa atuantes, a frequência de eventos específicos e do crescimento de cursos de pós-graduação na área. Assim, o país possui uma produção razoável de dissertações, teses, livros, comunicações em eventos e publicações em revista especializadas. Entretanto, apesar de toda essa produção decorrente dos avanços acima citados, não parece estar claro qual a interferência desse volume de produção gerado pela pesquisa na prática de ensino de professores da educação básica. Nesta pesquisa, procuramos entrevistar uma amostra de professores atuantes nas últimas décadas, em várias cidades do Estado de São Paulo, e em diversas disciplinas da área de ciências. Buscamos verificar como esses docentes, que atuaram ou vêm atuando no ensino de ciências, vêm praticando significações a respeito de procedimentos e resultados de pesquisa na área e suas possíveis implicações para o ensino que têm praticado. Nesta comunicação, destacamos trechos de discursos dos professores de Física, os quais apontam que, apesar de estar claro o conceito de pesquisa em ensino, há dificuldades e receios de adotarem resultados das mesmas em suas práticas docentes.
Palavras-chave : pesquisa em ensino de física, ensino básico, memórias de professores.
## Introdução
A pesquisa em ensino de ciências mostra-se hoje consolidada, tendo em vista a existência de dezenas de grupos de pesquisa atuantes em todo o país, a frequência de eventos específicos e o crescimento de cursos de pós-graduação na área. Assim, o país possui uma produção razoável de dissertações, teses, livros, comunicações em eventos e publicações em revista especializadas. De acordo com Delizoicov (2004) a pesquisa em ensino de física pode ser considerada pioneira no país, pois deu início às suas atividades no início da década de 70 do século passado, através de cursos de pós-graduação em ensino de física da Universidade Federal do Rio do Sul (UFRGS) e da Universidade de São Paulo (USP), ambos cursos foram instituídos a partir de iniciativas dos Institutos de Física das universidades.
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30 de janeiro a 04 de fevereiro de 2011
Foi neste mesmo período que apareceram e se consolidaram as primeiras revistas da área no país, como a Revista de Ensino de Física, ligada à Sociedade Brasileira de Física e o Caderno Catarinense de Ensino de Física, junto à Universidade Federal de Santa Catarina. Surgiram ainda, eventos que têm continuidade até hoje como o SNEF - Simpósio Nacional de Ensino de Física, cuja primeira edição ocorreu em 1970, e conta com a participação de professores de física, estudantes e pesquisadores; e o EPEF - Encontro de Pesquisa em Ensino de Física, originado em 1986, destinado apenas aos pesquisadores que produzem nesta área. Além dessas, diversos periódicos foram surgindo na década de 90, trazendo questões do ensino de ciências em geral (DELIZOICOV, 2004). Apesar de toda essa produção decorrente dos avanços citados, não parece estar claro, qual a interferência que o volume de produção da pesquisa acadêmica tem causado na prática de ensino de professores da educação básica.
Esta preocupação, de verificar se está havendo interferência no processo de ensino dos resultados da pesquisa de ensino de Ciências foi levantada nos trabalhos de Nardi (2005) e Nardi e Almeida (2004, 2007), onde foram entrevistados pesquisadores considerados, por seus pares, importantes para a constituição dessa área no país, e que, em seus discursos, demonstravam certa incerteza se os resultados das pesquisas da área estavam atingindo a sala de aula. Diante desta indagação, foi gerada a presente pesquisa, na qual entrevistamos uma amostra de 27 professores que atuaram, ou vêm atuando nas últimas décadas em escolas de educação básica no Estado de São Paulo, em diversas áreas de ensino de ciências (Biologia, Ciências, Física, Química e Matemática).
Sendo assim, procuramos responder à seguinte questão: 'Como professores que atuaram, ou vêm atuando no ensino de disciplinas relacionadas à área de Ensino de Ciências, e não fazem parte da comunidade de pesquisadores da área, vêm praticando significações a respeito de procedimentos e resultados de pesquisa na área e suas possíveis implicações para o ensino que têm praticado?'. Diante desta questão, a pesquisa tem como principal objetivo investigar se os resultados das pesquisas em ensino de Ciências têm causado impactos nas salas de aulas do ensino básico. Entendendo impacto como os efeitos e as implicações surtidas na prática do professor em decorrência do conhecimento gerado através do contato com essas pesquisas, e não como uma aplicação desses resultados de maneira simplista e pragmática.
Esta comunicação constitui-se, portanto, em um recorte de pesquisa mais ampla, já divulgada parcialmente (Nardi et al., 2009), que vem sendo desenvolvida pelos autores desta comunicação, e se encontra em sua fase final. Destacamos aqui apenas trechos de discursos dos professores de Física.
## A Pesquisa
Na pesquisa foram entrevistados 27 professores que vêm atuando, ou atuaram, no caso dos aposentados, nas disciplinas de Física, Química, Biologia, Ciências e Matemática, em escolas publicas e particulares em cidades de diversas regiões do Estado de São Paulo, tendo, portanto, iniciado suas atividades docentes em diferentes décadas. A escolha dos professores entrevistados ocorreu de forma aleatória, através de consulta à Diretorias de Ensino as quais pertencem as escolas onde os professores atuam ou atuaram. Porém, tomou-se o cuidado de selecionar apenas docentes que não fizeram/fazem parte da comunidade científica, ou seja,
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buscamos professores que não haviam cursado pós-graduação stricto sensu na área e, portanto, que não pertenciam a grupos de pesquisa em ensino de ciências. Verificamos ainda, se os professores não haviam publicado em revistas especializadas da área, e também, se não possuíam vínculo empregatício em instituição de ensino superior.
As entrevistas tinham forma semi-estruturada e foram registradas com câmera digital, com o consentimento dos entrevistados, ficando claro para estes que as imagens e os conteúdos dos depoimentos seriam utilizados unicamente para fins de pesquisa, assim como suas identidades seriam mantidas no anonimato. As entrevistas foram iniciadas com questões centrais, referentes às características do ensino e o modo como o professor vem atuando, ou atuou em sala de aula. Passando por questões de materiais utilizados para preparar a aula, traços da formação inicial e continuada do professor, mudanças ocorridas no período em que vem atuando ou atuou e a importância dos estudos realizados na graduação em sua atuação. Se até certo ponto da entrevista não ocorressem indícios sobre a pesquisa em ensino na fala do sujeito, o questionamento sobre o conhecimento de pesquisas na área e/ou se o docente havia feito uso de materiais derivados da pesquisa em sua prática era realizada de maneira direta.
Nesta comunicação, apresentaremos um recorte dos resultados obtidos nesta pesquisa. Trata-se da interpretação das falas apenas dos docentes formados em cursos de Licenciatura em Física. Dentre os 27 sujeitos entrevistados, quatro possuem a formação indicada. Segue uma breve caracterização desses sujeitos:
Quadro 01: Perfil dos professores
Cabe destacar que estes quatro sujeitos atuam/atuaram tanto em escolas públicas, como em particulares.
Observa-se a grande diferença do intervalo dos anos de formação dos docentes P1 e P4, em relação aos professores P2 e P3. Apesar das escolhas dos sujeitos terem sido aleatórias, este dado pode ser utilizado num sentido de verificar, a partir das falas dos sujeitos, se houve fatores presentes na formação inicial destes docentes que possibilitaram um maior ou menor acesso a resultados de pesquisa em ensino de Física.
## A Análise do Discurso na Interpretação das Falas dos Docentes
Para realizar a interpretação dos discursos dos sujeitos investigados neste estudo procuramos usar princípios e procedimentos da Análise de Discurso de linha
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francesa, de acordo com Orlandi (1999). Para a autora, a fala, em si, não consiste em um discurso, ela precisa estar situada em uma posição que depende de vários fatores como, o momento histórico, a posição do sujeito, a ideologia, o dito e o não dito, a história de vida e a sociedade. Logo, entendemos discurso como 'um conjunto de idéias, um modo de pensar ou um corpo de conhecimentos expressos em uma comunicação textual ou verbal, que o pesquisador pode identificar quando analisa um texto ou fala' (CHIZZOTTI, 2006).
Para a Análise do Discurso, um discurso nunca é transparente, é sempre contido de significações, de sentidos diferentes. Cabe ao analista criar um dispositivo analítico para saber como um discurso produz sentido, quais são as condições de produção, estabelecer regularidades presentes e o funcionamento das possíveis interpretações. Em qualquer estudo, a explicitação do dispositivo teórico colocado a funcionar é fundamental, e quase sempre seu papel vai além daquilo que frequentemente é suposto pelos autores do estudo (ALMEIDA, 2004). Nesse sentido, a própria formulação de questões aos professores foi pensada a partir de algumas considerações sobre linguagem e seu funcionamento.
No caso dos discursos dos professores, buscamos acontecimentos, em suas trajetórias profissionais, que possam ter aproximado ou distanciado esses sujeitos de resultados de pesquisa em ensino. E ainda, procuramos entender os significados que estes sujeitos constroem ao longo de sua carreira, pois, para Delizoicov (2005), é preciso que os investigadores considerem e problematizem a história de formação profissional dos docentes. Sendo assim, é preciso compreender o conceito de condições de produção de um discurso, que podem ser analisadas em dois momentos (ORLANDI, 1999): em um primeiro momento, trata-se de analisar o contexto imediato em que o discurso foi proferido; no caso dos professores, o contexto está relacionado aos fatos ocorridos na escola. Já no segundo momento, refere-se às condições de produção em seu sentido amplo, que pode ser entendido pelo contexto sócio-histórico, e as ideologias correntes nesse momento que, na análise dos discursos dos docentes, também consideramos as políticas públicas vigentes no decorrer de seu desenvolvimento profissional e as instituições em que ocorreram sua formação inicial e continuada. Para compreender o processo de produção dos sentidos de um discurso e sua relação com a ideologia, é preciso remeter esse discurso a sua formação discursiva. Cardoso (2003) define a formação discursiva como sendo um operador de coesão semântica do discurso que, por sua vez, é formado por um conjunto de enunciados. Dessa forma, entendemos que a formação discursiva determina o que pode ser dito em um discurso.
Ao analisar as condições de produção de um discurso, também levamos em conta três fatores importantes: o primeiro é a relação de sentidos que o discurso possui, ou seja, em todo discurso podemos encontrar relações com outros discursos já produzidos; o segundo refere-se à antecipação , que é a capacidade do sujeito que fala se colocar no lugar de seu ouvinte, para pensar quais os efeitos de suas palavras em quem lhe ouve - essa antecipação influenciará na escolha do sujeito em seu modo de falar. E, por fim, temos a relação de forças que constitui um discurso, que é o lugar de onde fala o sujeito; falar a partir de lugares diferentes, portanto, produz discursos diferentes.
Outro ponto a ser considerado ao realizar a análise do discurso, é que o pesquisador deve ter em mente que os discursos são criados de acordo com as memórias dos pesquisados, contendo sua perspectiva do presente momento, e não
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do período em que ocorreu o evento descrito. Esses conceitos deverão ser considerados ao analisar as falas dos professores.
## Discursos dos professores de Física
As entrevistas se iniciavam buscando informações sobre as características gerais das aulas ministradas pelos docentes, suas metodologias de ensino e materiais utilizados nas aulas. O objetivo era verificar manifestações iniciais de utilização da pesquisa em ensino de física ou de seus resultados, de uma maneira espontânea nos discursos dos docentes. Em um primeiro momento, apenas um docente (P3) manifestou utilizar 'pesquisas' para preparar suas aulas: '[Uso] livros, apostilas, imagens da internet, pesquisas, trabalhos, às vezes já... assim, algumas imagens montadas pra você mostrar em seu data-show ou só apresentação .' (P 3). Mas quando lhe foi perguntado de maneira direta se ele adota resultados de pesquisa em ensino de física na sua prática docente, o professor alegou que raramente trabalha com material de pesquisa em suas aulas. Pois, de acordo com o docente, isso exigiria maior dedicação em sala de aula, mas a necessidade de cumprir o cronograma escolar dificulta esta abordagem.
[…] uma, porque, às vezes, você não tem um tempo viável pra aproveitar tudo. E você tem um material a ser cumprido, tal, e um tempo curto. É mais por causa dessa escassez de tempo mesmo. Tanto na particular, como no estado, você tem um cronograma pra ser seguido, então é difícil você aproveitar de todos os dados. (P3)
Através deste fragmento da fala do docente, nos parece que em seu imaginário existe uma idéia de pesquisa em ensino como algo desvinculado da prática cotidiana em sala de aula. De acordo com esse professor, seria preciso parar a atividade que segue o cronograma escolar, para fazer o uso de resultados de pesquisas em sala.
A colocação inicial do professor P3, ao dizer que utiliza 'pesquisa' para preparar sua aula, demonstra um sentindo inscrito numa formação discursiva de senso comum, ou seja, o sentido do termo 'pesquisa', neste caso, está relacionado à uma idéia de revisão bibliográfica, uma busca a diferentes fontes à procura de informações sobre um determinado assunto. O mesmo ocorre no seguinte fragmento de discurso, na fala da docente P4, ao ser questionada sobre quais as fontes que ela utiliza para preparar suas aulas: ' A gente fazia pesquisa, mas (...) era muito limitada, sabe. Então, você ficava ali com duas aulas de física... então, você não consegue 'bolar' todo o conteúdo de física que está faltando... '. A professora coloca que sente certa dificuldade para 'bolar' suas aulas de física, então surge a necessidade de realizar 'pesquisas'. A confusão do termo 'pesquisa' pode ser reforçada no seguinte fragmento:
'O curso de licenciatura é para formar o professor, e a pesquisa é para o bacharelado. Essa divisão... Porque a licenciatura, nem está pra licenciatura, nem bacharelado. Está formando pessoal que falta a habilidade; fica uma lacuna.' (P4)
Neste caso, a entrevistada demonstra, em sua formação discursiva, que a pesquisa deve ser voltada apenas para cursos que formam bacharéis, contrariando, no mínimo, a concepção de 'professor pesquisador', conforme defendido por Stenhouse (1984, apud CONTRERAS, 2002). Segundo o autor, um professor
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pesquisador é aquele que examina 'com senso crítico e sistematicamente a própria atividade prática'. (STENHOUSE, 1984, apud CONTRERAS, 2002, p.117).
Em relação aos demais docentes, não houve indícios, em suas falas, da presença da pesquisa em ensino nas suas práticas docentes. Sendo assim, foi necessário questioná-los, explicitamente, sobre a utilização de resultados de pesquisas em ensino de física na sala de aula, ou quais conhecimentos eles possuíam sobre o assunto. Seguem as respostas dos docentes sobre o tema:
Olha, a gente começou na década, final da década de 80 com a década de 90, que começou a aparecer muita coisa [pesquisas], mas muitas das coisas apareciam na escola e a grande maioria do pessoal olhava de... de nariz virado (...) mas tinha tanta balela naquele negócio, mas tanta balela, e muitas perguntas que não tinham respostas... (P1)
Eu já considerei mais [utilizar resultados de pesquisa em sala de aula]; ultimamente estou utilizando menos isso. Eu já considerei mais, principalmente nessa época que eu disse que eu estava [lecionando] no cursinho (…) principalmente porque a coordenadora do cursinho era responsável pelo ensino de Ciências... muitos professores [são] titulados em ensino de Ciências (...) Então, ela trazia bastante coisa dessa área, que era área dela, ela trazia para todas as áreas, mas era área dela, então ela achava interessante. (...) Mas, por questão de tempo, e por questão de ter um pouco enveredado para outra área, eu acabei nos últimos dois anos... (P2)
Olha, eu sou uma pessoa um pouco sem fé nesta parte. Por que? A gente tem visto em reunião, mesmo com professor e coordenador, cada um vem e conta que fez um milagre, operou um milagre.. o pastor... e, na prática, isso não aconteceu, porque cada um quer fazer uma pesquisa, cada um vem com uma idéia... Isso 'bagunçou' a cabeça do professor. Eu acho que consegui sobreviver mantendo uma postura, porque eu realmente acreditava... eu mantive meu modo de ensinar, quem seguiu o motivo de pesquisa, assim, terminou se perdendo porque a pesquisa ficou ali, e depois não veio a sequência... e lógico, alguém que vem na sua casa, você mostra o melhor da sua casa, você vai mostrar que comprou algo bom, mas não vai falar que está devendo aquilo ali... Então, tem que tomar cuidado por este motivo... É lógico... a gente tem que estar aberto, algumas sugestões posso parar e refletir (...) então a gente tem que estar aberto pra isso, não estar aberto para qualquer coisa... (P4).
Estes fragmentos das falas dos docentes de física demonstram o entendimento do conceito de pesquisa em ensino em seu sentido stricto sensu , ou seja, pesquisa que geram dissertações de mestrados e teses de doutorados, assim como outras formas de divulgação, como os artigos publicados em revistas da área, ou cursos de formação continuada que abordam estes materiais. Os sujeitos, porém, revelam não considerar a pesquisa em sua prática docente.
Na fala do docente P2, assim como no do P3, pode-se notar que, apesar de terem entrado em contato com a pesquisa em ensino e considerarem sua importância, justificam a falta de tempo como sendo o principal fator para não abordarem resultados de pesquisa em sala de aula, já que existe um calendário para ser cumprido ao longo do ano letivo.
As considerações feitas pelos professores P1 e P4 manifestam certa descrença e falta de crédito em relação às pesquisas, pois, de acordo com suas falas, elas não trazem as possíveis soluções para os problemas enfrentados pelos
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professores em seu cotidiano. Na pesquisa realizada por Rezende e Ostermann (2005), as autoras confrontam os problemas da prática pedagógica de professores de física, com o que a pesquisa tem produzido nos últimos anos. A pesquisa revela que os resultados de pesquisas em ensino de física, embora relevantes, muitas vezes, são insuficientes para levar o professor a se apropriarem deles em sua prática, devido suas reais condições de trabalho. O discurso do sujeito P4 também manifesta uma crítica em relação aos pesquisadores que realizam suas pesquisas nas escolas. De acordo com a fala da docente, pode-se entender que muitas vezes o pesquisador entra em contato com o professor, propõe alguma modificação em sua prática, mas após a recolha dos dados o pesquisador não dá continuidade na pesquisa junto ao professor, que acaba se perdendo em sua prática. Em sua fala, a professora revela que teve a oportunidade de se envolver com pesquisas em ensino, mas preferiu manter sua forma de lecionar.
A fala do docente P1 revela que é preciso haver uma maior adequação das pesquisas com a realidade vivida pelo professor e todos os problemas por ele enfrentados. Em diversos fragmentos discursivos o professor traz para a discussão a questão da indisciplina por parte dos alunos: '... dar importância à disciplina, que sem disciplina não acontece nada, nada chega no seu ponto, e é uma verdade isso. ' (P1), ' enquanto você chegava pra mandar o aluno ascender uma espiriteira aqui, o outro estava pondo fogo no outro lá do outro lado, e você é um, eles são quarenta e é muito difícil, mas muito difícil mesmo .' (P1 ). ' e se o moleque falar 'não faço' o quê que você faz? Essa parte eu questionei um dia lá na escola, e aí ninguém soube me responder se o garoto falar 'eu não vou fazer'. (P1 ). O professor revela em seu discurso, a necessidade de haver disciplina entre os alunos, até para que se possa trabalhar diferentes atividades em sala de aula. Para Rezende e Ostermann (2005):
Os problemas relacionados ao comportamento do aluno, que traz desafios para o professor como educador, não têm sido preocupação dos pesquisadores em ensino de Física. Provavelmente, aspectos afetivos e sociais envolvidos nesse problema têm sido negligenciados em decorrência da ênfase no aspecto cognitivo do ensino-aprendizagem. (REZENDE; OSTERMANN, 2005, p. 335).
Os exemplos de fragmentos, da fala do docente P1, colocados acima, revelam a ocorrência de processos parafrásticos, que são dizeres que se mantém ao longo do discurso, e que possuem relação com a memória do que já foi dito e experienciado (ORLANDI, 1999). No caso, o docente P1, traz bastante ativo em sua memória a questão da disciplina por parte dos alunos. Fica evidente que, para ele, não há como trabalhar resultados de pesquisas em sala de aula, sem antes discutir essa questão.
Ainda sobre o questionamento da consideração de resultados de pesquisas em seu trabalho docente, a professora P4 revela que: ' A gente não tem muito acesso. Talvez, se for na Internet, eu puxo e acho ' (P4). Neste fragmento há um 'não dito' presente na fala da docente, que confirma uma disponibilidade para acessar materiais disponíveis na Internet. Essa disposição e a crescente facilidade de acesso à rede pode ser um fato decisivo a se levar em conta no processo de aproximar resultados de pesquisa do trabalho docente.
Os docentes também foram questionados sobre sua formação inicial, e a importância desta formação em suas práticas docentes, ou seja, de que forma esta formação contribuiu para a atuação deles como professores. O objetivo desta
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questão era buscar traços na formação inicial que pudessem ter colaborado para um maior ou menor contato com a pesquisa em ensino de física. Porém, apenas o docente P2, que concluiu seu curso mais recentemente que os outros entrevistados, citou que houve certo contato com a pesquisa em ensino, em seu curso de graduação, através da participação como voluntário em cursinhos preparatórios para o vestibular, que, no caso da instituição onde se formou, estes cursos eram coordenados por professores ligados à pesquisa em ensino de Ciência.
eu estava no cursinho da UFSCar (...) ...me vinham no cursinho, já me traziam várias situações prontas, principalmente porque a coordenadora do cursinho era responsável pelo ensino de Ciências. Muitos professores titulados em ensino de Ciências lá na UFSCar. Então ela trazia bastante coisa dessa área, que era área dela, ela trazia para todas as áreas, mas era área dela então ela achava interessante (...) ...e nisso eu acabei procurando algumas coisas. (P ) 2
Já os professores P1 e P4, trazem poucas revelações sobre as características da formação inicial que tiveram. De qualquer forma, sabemos que os cursos de licenciaturas vêm sofrendo modificações ao longo da história; as mais recentes são as exigências propostas pelas Diretrizes Curriculares Nacionais para Formação de Professores, de 2002, e a Lei de Diretrizes e Bases, de 1996. Ao fazer uma revisão das reformas educacionais ao longo dos últimos anos, Cortela e Nardi (2008) sugerem que a formação do professor deve deixar de possuir apenas uma habilitação técnica fundamentada nos conhecimentos científicos, no domínio dos conteúdos e no uso de métodos e técnicas de ensino. Além disso, é necessária uma formação política e filosófica.
Cabe destacar, que no final da entrevista, a docente P4, solicita que haja um retorno dos pesquisadores do presente trabalho: ' Eu gostaria assim, de ter o retorno da conclusão, até pra gente saber como é que está a cabeça. Talvez eu penso de um jeito, outro pensa de outro ...' (P 4). Na pesquisa realizada por Nardi et al (2008), os autores apontam:
[...] diversas situações nas quais os professores (e mesmo a direção da escola) reagiram de forma negativa à solicitação de colaboração e, em alguns casos, recusaram-se a responder aos questionários, alegando a falta de retorno da universidade em situações similares ocorridas anteriormente. (NARDI et al, 2008, p.14)
Ao longo das entrevistas, os sujeitos ainda trouxeram à memória temas em comum, que vão além de nossa proposta neste trabalho, como, principais materiais utilizados pelos docentes para o preparo das aulas, suas percepções sobre os cadernos da Proposta Curricular do Estado de São Paulo, implantados na rede pública em 2008, a questão do uso do laboratório no ensino de física, críticas às políticas públicas educacionais, os diversos cursos realizados, oferecidos pelas diretorias de ensino ou por universidades e relatos de algumas experiências vivenciadas no cotidiano. Esperamos analisar e divulgar estas demais questões em outra comunicação.
## Considerações Finais
Partindo das análises das entrevistas realizadas, foi possível perceber, em um primeiro momento, que parece haver certa confusão na compreensão do termo
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'pesquisa', entendendo esta atividade como sinônimo de revisão bibliográfica, ou como uma atividade realizada apenas por bacharéis. Porém, diante de uma maior explanação do termo pelo entrevistador, os sujeitos revelam que, em algum momento de sua trajetória profissional, tiveram contato com resultados da pesquisa em ensino de Física, seja através dos cursos de formação inicial, ou de outros contatos ao longo de suas práticas docentes.
No entanto, os professores justificam que não utilizam os resultados destas pesquisas no preparo de suas aulas, por falta de tempo ou por acreditarem que tais pesquisas não lhe auxiliarão a trazer as respostas que eles precisam para enfrentar seus problemas no ensino, evidenciando certo descrédito em relação aos trabalhos acadêmicos.
No imaginário dos professores existe grande discrepância entre o conhecimento trabalhado na universidade e a que é exigido na prática docente na educação básica. É importante refletir sobre a fala da docente P4, que diz que as pesquisas 'bagunçam a cabeça do professor'. Entendemos aí uma crítica à atitude de investigadores que tomam as escolas de educação básica para realizar a coleta de dados da pesquisa, chegando a interferir na prática do professor e, após o término de seus trabalhos, não dão continuidade ou retorno dos resultados dos estudos aos docentes ou às escolas.
Diante dessas considerações, é preciso visar propostas de pesquisas que considerem o contexto real da sala de aula, ou seja, pesquisas que levem em conta as dificuldades enfrentadas por eles no cotidiano, como a escassez de tempo para melhor preparo da aula, o número excessivo de alunos por sala, a indisciplina e o desinteresse dos alunos e as políticas educacionais vigentes. Esta colocação vai ao encontro do que foi colocado por Rezende e Ostermann (2005); de acordo com essas autoras, mesmo quando o tema trabalhado na pesquisa coincida com o problema enfrentado pelo professor, a pesquisa não coloca como esse tema pode ser trabalhado dentro das reais condições de um professor em uma escola pública, o que pode ser uma dificuldade para que as pesquisas cheguem a essas escolas.
No entanto, é preciso cuidado ao fazer críticas sobre os motivos dos professores não considerarem os resultados de pesquisa em ensino de física em sua prática cotidiana. Delizoicov (2005) aponta que é preciso tomar este cuidado, pois o pesquisador está sujeito a um complexo contexto educacional, sobre o qual não é possível ter maior controle sobre o uso de suas pesquisas.
## Referências
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pedagógicas no ensino de ciências: contribuições da pesquisa na área. São Paulo: Escrituras, 2008. p.33-51.
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