A IMPLEMENTAÇÃO DE UM CENTRO DE ASTRONOMIA: CARACTERIZANDO OS OBSTÁCULOS EPISTEMOLÓGICOS DOS ALUNOS
Suellen Silveira Moraes, José Ricardo Sabino, Luiz Gonzaga Roversi Genovese
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XIX
- Ano
- 2011
- Data
- 31/01/2011
- Linha de pesquisa
- Formação E Prática Profissional De Professores De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## A IMPLEMENTAÇÃO DE UM CENTRO DE ASTRONOMIA: CARACTERIZANDO OS OBSTÁCULOS EPISTEMOLÓGICOS DOS ALUNOS
## Suellen Silveira Moraes , José Ricardo Sabino , Luiz Gonzaga Roversi 1 2 Genovese 3
## Resumo
O apoio de estudantes acadêmicos em projetos vinculados às escolas pode tornar possível a concretização efetiva destes. Imbuído desse intuito, buscamos em uma escola de ensino fundamental de Goiânia, os projetos que ainda não haviam se concretizados e descobrimos que, desde a sua fundação o Educandário Espírita Eurípedes Barsanulfo tinha a proposta de criação de um espaço para o estudo da Astronomia e que juntamente com outras atividades, servisse como opção aos alunos de permanecessem na escola no turno complementar as aulas, em especial, aqueles que viessem o nono ano, de tal sorte, que dessem continuidade as atividades científicas, artísticas e pedagógicas. Assim sendo, propomos a implantação de um Centro Astronômico que teria como função a formação do conhecimento científico em astronomia, preparando-os para monitorias, observações e pesquisas. Acreditando na internalizarão do conhecimento por meio da formação do espírito científico, empregamos o construto teórico de Gaston Bachelard, neste trabalho de viés qualitativo, de modo a identificar, em cada atividade realizada no Centro Astronômico, a presença dos principais obstáculos epistemológicos presentes no pensamento dos alunos participantes do projeto.
Palavras-chave : Centro Astronômico; ensino fundamental; obstáculos epistemológicos.
## Introdução
A busca pela melhor maneira de envolver e incentivar o ensino e aprendizagem do conhecimento natural é, em geral, a principal fonte de pesquisas na área do ensino de Ciências e, em particular, a da Física. Quando essa busca pelo 'melhor ensinar' está presente, tanto na escola quanto em seu quadro de professores, torna-se mais fácil elaborar e realizar projetos que tenham como objetivo formar aqueles alunos no e pelo conhecimento físico. Desenvolver atividades que levem a esse propósito requer que integremos à tradicional aula no quadro-negro, outros recursos como, por exemplo, a pesquisa e a observação. Não nos referimos à aquela pesquisa ordenada como trabalho valendo nota, mas algo que vai além e que tenha um objetivo maior: o conhecimento. Também não falamos de uma observação descompromissada e desprovida de teoria, mas sim daquela em que o aluno realmente procura por algo que queira, de fato, compreender e mobiliza todos os seus conhecimentos.
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Imbuídos desses entendimentos e uma profunda convicção de que é possível articular os interesses formativos da escola com os da universidade, foi dado encaminhamento ao projeto 'Centro Astronômico' do Educandário Espírita Eurípedes Barsanulfo, uma escola de ensino fundamental, da cidade de Goiânia, numa parceria entre professores e gestores dessa escola e uma futura professora e pesquisadores do Instituto de Física da Universidade Federal de Goiás, que não fosse passageira e indiferente para seus participantes.
- O bom desenrolar da implementação do projeto, com a presença frequente e ativa dos alunos do nono ano do ensino fundamental, no período completar as aulas das disciplinas do currículo, sinalizou para a importância das primeiras experiências para o entendimento dos alunos sobre os fenômenos astronômicos. A problematização de tal aspecto mediante o construto teórico de Gaston Bachelard culminou com a realização desta investigação, que tem como propósito identificar os obstáculos epistemológicos dos alunos do nono ano do ensino fundamental que participaram das atividades realizadas pelo Centro Astronômico Camille Flamarion.
## Contexto da Pesquisa: a implantação do Centro Astronômico e metodologia de coleta de dados
- O intenso e constante apoio dos professores e gestores do Educandário Eurípedes Barsanulfo fez com que começamos imediatamente as discussões e as ações de implementação do projeto Centro Astronômico Camille Flamarion (CACF), no início de 2009.
- A seguir relatamos, ainda que resumidamente, como se deu o processo de implantação do CACF. O primeiro passo foi estabelecer que o CACF deveria permanecer ativo na escola mesmo após a dissociação da parceria entre a escola, sendo o papel deste último selar pelo prosseguimento do projeto.
- O segundo passo foi a da formação de um grupo de estudantes que mais tarde viriam a ser tutores no Centro Astronômico. Para isso a autonomia nos estudos era, sem dúvida, fundamental para derem seguimento, após nossa atuação, nas atividades de seminários e observação junto aos novos integrantes que futuramente fariam também parte do grupo.
Para que essa formação fosse possível, programamos grupos de estudos e seminários os quais eles próprios apresentariam mediante a escolha de alguns temas. Buscamos nessa etapa o desenvolvimento do 'Espírito Científico' apresentado por Bachelard que desde o início fundamentou nossa abordagem de ensino e aprendizagem.
Os encontros do Centro Astronômico foram realizados semanalmente, no segundo semestre de 2009, às terças-feiras das 14h00min ás 16h30min, sendo que, mediante acordos feitos com todos, alguns ocorreram no período noturno para que fossem feitas as observações do céu noturno. Esses encontros culminaram com a seguinte de atividades, como mostra a Tabela de Programação (Tabela01) descrita a seguir.
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Tabela 01: Descrição da programação das atividades desenvolvidas na Implantação do Centro Astronômico Camille Flamarion.
Os seminários, as observações astronômicas do céu e as visitas ao Planetário da Universidade Federal de Goiás, mais do que atividades realizadas pelos alunos, serviram também como situações geradoras de dados carregados de significados e fortemente marcados contexto vivencial dos sujeitos envolvidos, que, articulados ao problema estudado sinalizam para a realização de uma pesquisa de cunho qualitativo (GÓMEZ; FLORES; JÍMENEZ, 1999; CHIZZOTTI, 2006).
Por sua vez, esses dados foram registrados no caderno de campo de um dos autores deste trabalho, tomando sempre o cuidado de discernir as descrições 1 dos eventos ocorridos e relatados das impressões pessoais daquele que registra (BOGDAN; BIKLEN, 1992). Por fim, esses dados foram analisados segundo as categorias teóricas de Gaston Bachelard.
## Referencial teórico: epistemologia bachelardiana
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O conhecimento científico que temos hoje é fruto de uma evolução na forma de pensar do ser humano. A história nos mostra que muitas teorias foram derrubadas e descartadas por sua inconsistência ou por estarem muito à frente de seu tempo, mas sabemos que, mesmo depois de tantas conquistas no campo científico, ainda estamos sujeitos a muitas mudanças em áreas da ciência que diríamos sólidas e fundamentadas. Com base nessa evolução do conhecimento científico encontramos em Gaston Bachelard, um grande estudioso na área do ensino, que publicou várias obras onde desenvolve sua filosofia epistemológica.
Nascido em Bar-sur-Aube, França em 27 de junho de 1884 Gaston Bachelard, que era de família humilde, sempre se dedicou aos estudos mesmo tendo que trabalhar paralelamente a eles. O trabalho desenvolvido por Bachelard é complexo e possui muitos termos criados por ele. Conceitos fundamentados na história da ciência e em suas interpretações criativas da história da vida. Um de seus principais estudos, citados na maioria de seus livros, está relacionado ao que ele chamou de 'espírito científico'. Em 1934 teve na sua primeira obra publicada o termo no próprio título: Le Nouvel Esprit Scientifique , e em 1938 foi publicada a obra em que iremos nos focar: ' A Formação do Espírito Científico: contribuição para uma psicanálise do conhecimento '. É nessa obra que Bachelard ressalta aos professores a necessidade de se conhecer as concepções prévias dos alunos, com a colocação da problemática do obstáculo pedagógico, ou seja, os obstáculos que impedem o professor de entender porque o aluno não compreende. Os obstáculos epistemológicos são:
## A experiência primeira
A experiência primeira são os preconceitos que o indivíduo traz consigo, obtidos através da sua cultura e de suas experiências. Ela é, quase sempre, situada antes e acima da crítica que capta o imediato, o subjetivo, e tem grande dificuldade de ser rompida, pois o pitoresco da observação está sempre subordinada à imagem, à prática científica e aborda fenômenos complexos como se fossem fáceis. Um exemplo disso é a eletricidade no século XVIII, como citado por Bachelard, esse tema foi transformado em diversão em grandes salões de festas, distraindo a atenção dos cientistas dos aspectos essenciais do fenômeno, e por isso cita o trecho de um texto de Dubois .
'Cada Físico repetiu as experiências, todos queriam sentir a emoção. O marquês de X tem, como se sabe,um belo gabinete de física, mas a Eletricidade é sua paixão e, se o paganismo ainda vigorasse, ele decerto ergueria altares elétricos. Ele sabia quais são minhas preferências e não ignorava que também sou fã da Eletromania. Convidou-me, portanto, para um jantar onde estariam presentes, segundo ele, os medalhões da ordem dos eletrizantes e das eletrizantes.' (DUBOIS citado por BACHELARD)
Assim, conceitos tão profundos referentes a esse fenômeno, apresentavamse como doutrinas fáceis o que eram indispensáveis para que interessassem a um público mundano.
Percebe-se então que os textos dedicados à ciência da eletricidade ainda no século XVIII relatavam os obstáculos deixados pela observação primeira e estes por sua vez se perpetuaram por um longo período.
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## O conhecimento geral
O conhecimento geral trata-se de um conhecimento vago, pois resume demasiadamente situações ricas em detalhes fundamentais para sua compreensão. Bachelard coloca que na maioria das vezes o conhecimento geral surge com a necessidade de definições preliminares chegando a leis gerais, e conclui 'Pode-se, entretanto, questionar se essas grandes leis constituem pensamentos de fato científicos, ou, o que dá no mesmo, pensamentos que sugerem outros pensamentos.' (Bachelard, 1938)
Na formação do conhecimento científico o problema da idéia geral se agrava, pois ela aparece imediatamente adaptada à idéia comum, um exemplo e o fato de muitas pessoas pensarem que o agasalho tem a propriedade de aquecer o corpo e não levam em conta a ciência com seus múltiplos conceitos envolvidos. Estas idéias gerais acabam por se tornarem certezas imobilizando a razão privandoas de uma motivação real que as levam a questionar sobre os aspectos particulares dos mesmos fenômenos.
## Obstáculo verbal
No obstáculo verbal tende a ser ainda mais preciso considerar um caso em que uma única imagem, ou até uma única palavra, constitui toda a explicação. Bachelard exemplifica como obstáculo verbal a palavra 'esponja', pois ela é como auxiliar do pensamento, numa grande quantidade de imagens familiares e em uma delas é citada na descrição de Benjamim Flanklin na tentativa de aplicar as experiências elétricas partindo da experiência primitiva da espoja a qual considera como uma verdadeira categoria empírica. Para ele 'A matéria comum é uma espécie de esponja para o fluido elétrico. A esponja não observaria a água se as partes da água não fossem menores que os poros da esponja; (...) enfim, a absorção seria muito rápida se em vez de atração, houvesse entre as partes da água uma mútua repulsão e que ocorresse a atração da esponja. É exatamente o que se encontra a matéria elétrica e a matéria comum.' (FRANKLINC citado por BACHELARD)
A utilização excessiva de imagens é considerada por Bachelard prejudicial à razão pois impede a visão abstrata e nítida do problema real. Para ser coerente, uma teoria de abstração precisa se afastar das imagens primitivas pois quando a aplicação da imagem é utilizada de forma mais rápida e direta e menos controlada, a imagem se explica automaticamente e pode ficar confusa e complicada e adquirir um característica substancialista .'
## O conhecimento unitário e pragmático
O conhecimento unitário e pragmático como obstáculo do conhecimento científico, se dá pelo caráter de se assimilar uma utilidade (aplicações) de um fenômeno como princípio de explicação. Como exemplificação, Bachelard cita algumas obras, ainda numerosas no século XVIII, em que a Física está associada à teologia de várias formas. Como o exemplo aonde De Marivertz e Goussier preocupam-se com a dualidade absolutamente mecânica que poderia ser atribuída ao fundamento de sua cosmologia.
' Como atribuem a Deus o primeiro movimento do Universo, os autores vêem-se diante de uma objeção: a impulsão primeira viria juntar-se, como uma espécie de criação dinâmica, sobre a criação material, e, desse modo, haveria uma criação em dois tempos - as coisas primeiro, o movimento
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depois? Tal dualidade, a seus olhos, é uma enormidade. Responde então que não supuseram que esse Operário tinha sido obrigado a fabricar física e mecanicamente esse mecanismo, isto é, o Sol, por um choque produzido seja no centro da massa, seja em qualquer outro ponto dessa massa, seja no centro e, ao mesmo tempo, em qualquer outro ponto dessa massa. O que eles escreveram foi: Deus disse a esses corpos para girarem em torno dos seus centros. Ora, nisso não há nada de inconcebível. Deduzem dessa ordem, cuja execução torna-se a lei única da Natureza, todos os fenômenos celestes.' (BACHELARD; 1938)
Com isso ele conclui que o que era inconcebível mecanicamente, por uma ação física, torna-se concebível quando ligado a ação divina. O que causa uma acomodação no pensamento lógico que buscaria explicações verdadeiras.
## O obstáculo substancialista
No obstáculo substancialista, Bachelard afirma que ' a necessidade de substantificar as qualidades é tão grande que qualidades metamórficas podem ser postas como essenciais' . Assim ele cita Boerhaave quando este atribui a água como qualidade primordial à suavidade.
'a água é tão suave... que, aplicada nas partes do corpo em que a sensação é a mais delicada,... não provoca nenhuma dor... Se colocarmos um pouco mais de água sobre a córnea - a parte do nosso corpo mais apta a detectar qualquer aspereza por causa da sensação dolorosa ou incômoda que nela logo se manifesta... -não sentiremos o mínimo desconforto. A água também não produz nenhuma sensação desagradável nem um novo odor na membrana do nariz, que é um tecido de nervos quase descobertos. Enfim, uma prova de sua grande suavidade é que todos os tipos de corpos ácidos, diluídos numa boa quantidade de água, perdem a acidez natural que os torna tão inofensivos ao corpo humano. (BOERHAAVE, citado por BACHELARD)
Mesmo que para Boerhaave a qualidade suave sempre indicaria uma qualidade profundamente substantificada, para outros autores essa metabolização pode levar a atribuições que se concretizam causando assim um desvio do espírito científico.
## Psicanálise do realista
Na psicanálise do realista encontramos um obstáculo comum a todas as camadas populares, pois aqui Bachelard referiu-se ao raciocínio que permite atribuir a um objeto em particular as forças mais variadas. O simples sinal fica então provido de inúmeros valores substanciais e cita exemplos contido nos livros de Bacon onde o próprio autor chega a garantir pessoalmente o fato e acrescenta que:
'realizou em si próprio a experiência: desde pequeno tinha uma verruga no dedo e, em Paris, apareceram-lhe muitas outras; a esposa do Embaixador na Inglaterra decidiu tratá-las, esfregando toucinho; depois, ela pendurou esse toucinho fora das janelas, ao sol, até ele apodrecer, e o resultado foi que no
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prazo de sete meses, todas as verrugas desapareceram.' (BACON, citado por BACHELARD)
Os registros de Bacon, como fatos assim, constituem obstáculos e preconceitos mantidos sob a proteção de um nome famoso, o que reforça a credibilidade populacional muitas vezes, a serem inseridas na cultura de toda uma geração, e passando a ser a experiência primeira das outras.
## Resultados e Análise
Os trechos das notas de campo listados abaixo trazem alguns elementos que demonstram a presença de alguns obstáculos na formação do espírito científico.
...finalmente propôs-se um momento de observação do céu, sem nenhum instrumento para que eles se sentissem como os primeiros cientistas e até mesmo os primeiros observadores do céu (...) enquanto eles faziam suas observações um aluno me chamou e disse que gostaria de saber por que as estrelas caem, então sugeri... (Primeiro encontro) . Nesse trecho observamos que o aluno faz referência ao termo 'estrela cadente', o que nos remete ao obstáculo verbal . A ligação de uma palavra a imagem a qual ele se refere é feita imediatamente por nossos mecanismos cerebrais, por isso o obstáculo verbal é, sem dúvida, muito difícil de ser rompido, e o que vemos na maioria das vezes é o reforço a esse obstáculo em livros infantis, desenhos animados e outros, tornado ainda mais concretos esses conceitos.
Iniciamos nossa tarde de estudo com o tema Sistema Solar e os responsáveis pelo seminário fizeram uma apresentação de slides que descrevia as várias teorias do surgimento do universo, quando falou-se da teoria da grande nebulosa os estudantes associaram a teoria do Big Bang (...) um aluno perguntou ainda, onde estava a participação de Deus na Criação do Universo se ele realmente havia criado tudo em sete dias...(segundo encontro) . Podemos observar nesse trecho a presença do obstáculo do conhecimento unitário e pragmático e também poderíamos dizer que os obstáculos da experiência primeira , pois essa forma de ver a criação do universo como providência Divina com toda a cronologia descrita em Gênesis, já está inserido em nossa cultura.
... no inicio do seminário foi perguntado aos jovens se eles já haviam visto um céu noturno em uma região distante das cidades e da poluição luminosa. Alguns poucos disseram que sim, e então a palestrante perguntou aos que se manifestaram, o que sentiram, ao que eles responderam: bem eu me senti muito pequena e ao mesmo tempo muita curiosidade sobre as coisas lá em cima; tudo me parecia tão igual daqui; eu senti que Deus era muito inteligente...; vocês podem me achar louco mas eu acredito em ET e é nisso que eu penso quando olho para o céu e vejo tantas estrelas, acho que existem espaçonaves, outros mundos, coisas desse tipo ... (quarto encontro) . Com essas repostas podemos observar a impressão de alguns alunos quanto ao céu visto daqui da Terra, sabemos que um jovem de hoje não tem, de forma alguma, a mesma visão dos povos antigos, mas observamos que a idéia do conhecimento geral está sempre presente, entretanto cada indivíduo utiliza dos elementos presentes em sua época para definir as coisas ao se seu redor. Nos textos antigos, relacionados à astronomia, vemos o céu descrito como morada dos deuses, ou como páginas de histórias mitológicas, e sabemos que era
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essa a crença que se perpetuava por muitas gerações, e hoje podemos observar que ainda existem pensamentos um tanto equivocados ou muito abstratos, mas os elementos presentes em suas explicações fazem parte do contexto atual referentes à suas vivências tecnológicas e culturais.
Quando o seminarista do dia falava sobre os telescópios em órbita no espaço, uma jovem perguntou o que seria feito dele quando acabasse sua missão ou quando ele fosse considerado ultrapassado(...) e a resposta foi: uma das propostas para o aproveitamento do Hubble é mandá-lo para o espaço, de forma que ele continue enviando informações de regiões mais distantes. Nesse instante sugiram perguntas sobre como a NASA garantiria que ele não iria bater em nada em sua trajetória. Então aproveitamos para falar um pouco de gravitação, mas percebiase a dificuldade em compreenderem que mesmo com a atração gravitacional, a lei de inércia era válida, pois as distâncias entre os corpos celestes são muito grandes e a força gravitacional é inversamente proporcional ao quadrado da distância... (quarto encontro). A busca pela transformação de diversas atividades naturais em manifestações de uma só natureza, ou seja, o que é verdadeiro para o grande deve ser igualmente verdadeiro para o pequeno é uma característica do, pois a unidade é um princípio sempre desejado para o espírito pré-científico. O trecho citado mostra que a dificuldade não está de fato na compreensão das leis físicas envolvidas e sim na avaliação de suas aplicações, ou melhor, no fato de avaliar quais valores são realmente consideráveis. O rompimento desse obstáculo cria uma ciência constituída de sistemas isolados e unidades parcelares, e tem como princípio epistemológico a afirmação de que as quantidades desprezíveis devem ser desprezadas e não unificadas.
Elas se mostraram inseguras quanto ao assunto, pois os artigos que estudaram tinham muitos conceitos que elas não haviam compreendido. Foi então que me procuraram para tirar algumas dúvidas. Reunimo-nos e planejamos quais tópicos seriam discutidos e como seriam abordados . As alunas haviam estudado boa parte do material, mas não conseguiam expressar suas idéias quando iam explicar os tópicos. Planejamos alguns slides e alguns experimentos para uma maior compreensão de conteúdos, principalmente o momento angular pois era citado constantemente durante toda a apresentação... No seminário trabalharam-se tópicos que esclareciam o que eram corpos celestes, falou-se de plasma, esclarecendo que se tratava de um estado da matéria. Nesse momento observou-se que os estudantes ficaram atenciosos pois alguns achavam que não havia outro estado da matéria senão líquido, sólido e gasoso, e foi esclarecido que o estado de plasma só acontecia em temperaturas muito altas. (quinto encontro). A ciência possui fases a qual determina-se que alguns assuntos já estão concluídos e não há mais nada de novo a ser descoberto nestes campos. Quanto aos estados da matéria por muito tempo determinou-se serem apenas três ( sólido , líquido e gasoso ), mas hoje já se estuda a existência do estado de plasma, pois em condições tão extremas como no interior de uma estrela seria impossível encontrar a matéria nesses três estados. O espanto do grupo com a nova informação e a dificuldade de aceitá-la, está no fato deles não conseguirem imaginar a textura, cor ou até mesmo forma para esse estado, já que tudo o que se imagina pode ser classificado em um dos três estados.
Então percebemos a necessidade de substancializar elementos desconhecidos, o que ao contrário do que se pensa, não seria uma solução para a compreensão e sim um obstáculo na formação do conhecimento.
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No que diz respeito à ruptura entre o conhecimento comum e o científico , a mesma se dá de várias formas e quando se percebe que o valor de uma idéia não depende apenas da idéia em si, mas da relação desta idéia com a clareza de outras idéias, surgem às características do espírito científico. O trecho abaixo mostra essa relação:
Dois jovens estavam conversando sobre o tema que trabalhariam no seminário (Galáxia) e então um deles me perguntou se era verdade que havia realmente um buraco negro no centro da Via Láctea. Então sua parceira no seminário falou ' Ai, eu não sei nada de buraco negro como vou falar de Galáxia' então sugeri que ela pegasse textos auxiliares, ela aceitou a proposta e levou também textos de buracos negros ( terceiro encontro).
Quando Bachelard diz que : 'ao descobrir o verdadeiro, o homem de ciência obstrui um irracional. Sem dúvida, o irracionalismo pode brotar de outro lado qualquer. Mas tem, daí em diante, algumas vias interditadas. A história das ciências é a história das derrotas do irracionalismo', ele mostra que uma vez compreendido que, o que se considerava correto é falso, e o que é verdadeiro lhe é interiorizado, perde-se a ignorância, ou seja, uma vez superado o irracionalismo ele não retorna . E os trechos a seguir ilustram essa idéia:
Quando os alunos palestrantes falaram que os telescópios não aumentam a imagem e sim apenas as aproximam do observador houve certa perturbação nos semblantes dos espectadores demonstrando surpresa com essa informação, aproveitei para perguntar se eles sabiam disso e a maioria disse que não, ou seja, na concepção deles a imagem era sim aumentada (quarto encontro)
Uma vez perguntado ao grupo sobre qual seria a menor divisão da matéria, alguns responderam que era o átomo, mas a reposta menos esperada também foi citada (...) que até agora, já se tem notícia que existem outras partículas que são divisões dos prótons e elétrons sendo assim a matéria poderia ser dividida ainda mais. (quinto encontro)
Ao falar do proto-estrela as garotas retomaram o assunto de conservação do memento angular então elas convidaram os colegas para experimentarem como se dava e conservação do memento angular com a cadeira giratória e a distribuição da massa de um corpo girando em torno de um eixo. Todos participaram e mesmo sem a demonstração de equações eles demonstraram compreendê-lo basicamente, entretanto, quando apresentadas as equações que relacionam a conservação do momento angular, um dos alunos logo disse que na formação da estrela era necessário avaliar o sistema completo (ele quis dizer estrela e planeta caso existisse), para que houvesse a conservação do momento angular, e esse comentário surgiu antes de entrarmos neste tópico. (quinto encontro)
## CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES
As conclusões deste trabalho vêm de encontro às nossas expectativas, pois quanto à implantação do Centro Astronômico, as atividades planejadas foram todas concluídas. Os integrantes do grupo se mostraram incentivados a dar continuidade ao projeto e a escola mostrou-se interessada em investir na criação de um espaço e na compra de equipamentos para novos trabalhos que serão vinculados ao Centro Astronômico. Enquanto trabalhávamos no projeto o grupo escolar já buscava parcerias e voluntários que estivessem dispostos a participar desse trabalho. A
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valorização por parte de todo grupo escolar diante de nossa proposta foi fundamental pra a percepção da seriedade de nosso projeto tanto para os participantes quanto para a comunidade em geral. Recebemos a congratulação da secretaria municipal de educação em uma cerimônia de entrega dos certificados da Olimpíada Nacional de Astronomia onde importantes representantes estiveram presentes.
Com relação ao objetivo geral de nossa pesquisa percebemos que Bachelard está certo quanto a existências dos obstáculos epistemológicos e que o rompimento desses não é uma tarefa fácil, exige tempo para que o indivíduo perceba primeiramente seus erro e que a evolução do seu conhecimento se dá com o rompimento desses obstáculos.
Considerar a filosofia Bachelardiana na construção do espírito científico nos auxiliou a desenvolver a motivação dos alunos pelo conhecimento. Quando eles percebem que são peças fundamentais no desenvolvimento das atividades, com responsabilidades como: o planejamento dos seminários, a opção pelos conteúdos e as formas de pesquisas, abrimos uma janela na qual eles possam trilhar o seu próprio caminho para o conhecimento. Sabemos das dificuldades que atividades assim enfrentariam em um grupo maior e sem muita estrutura, mas percebemos que é possível desenvolver atividades científicas mais voltadas à pesquisa e à observação nas escolas públicas e que muitos valores éticos e culturais podem surgir em atividades assim.
## Referências
BACHELARD, Gaston (1996). A formação do espírito científico: contribuição para uma psicanálise do conhecimento . Tradução de Estela dos Santos Abreu, Rio de Janeiro/BRA: Contraponto, 316p. Tradução de: La formation de l'espirit scientifique: contribution a une psychanalyse de la connaissance. Paris/FRA: Librairie Philosofique J. Vrin, 1938.
BACHELARD, G. (1972) A Filosofia do não (Filosofia do Novo Espírito Científico Título da tradução portuguesa); Editorial Presença, Lisboa.
BARBOSA LIMA, L.C. & LINS DE BARROS, M. (1996) Calor e Temperatura à Luz de Bachelard, Caderno de Resumos do V EPEF: 7, Águas de Lindóia, São Paulo.
BOGDAN, R.; BIKLEN, S. Investigação qualitativa em educação: uma introdução a teoria e aos métodos. Porto: Porto Editora, 1992.
CASIMIRO LOPES, A. R. (1996), Bachelard: o filósofo da desilusão. Cad.Cat.Ens.Fis., v.13,n3: p.248-273, dez.1996 .
CHIZZOTI, A. Pesquisa qualitativa em ciências humanas e sociais. Petrópolis: Vozes, 2006.
GÓMEZ, G. R.; FLORES, J. G.; JÍMENEZ, E. G. Metodologia de la investigación cualitativa . Málaga: Aljibe, 1999.
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