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Popularização e Comunicação Pública das Ciências: argumentos e controvérsias.

Marcelo Gomes Germano, Morgana Lígia De Farias Freire

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XIX
Ano
2011
Data
03/02/2011
Linha de pesquisa
Ciência, Tecnologia E Sociedade
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## Popularização e Comunicação Pública das Ciências: argumentos e controvérsias.

Marcelo Gomes Germano 1 (mggermano@ig.com.br ) Morgana Lígia de Farias Freire (morganafreire@uepb.edu.br) 2

1,2 Universidade Estadual da Paraíba - UEPB

## Resumo

A negação histórica do acesso ao conhecimento científico e tecnológico vem se constituindo em uma das mais perigosas formas de exclusão social, estando presente nas relações entre indivíduos, grupos sociais, e até entre nações. Enquanto o conhecimento científicotecnológico avança em grande escala, a maioria da população vai se tornando alienada às estranhas conquistas de uma cultura que parece não ser mais a sua. Com base nessa constatação, sustentam-se os argumentos de Popularização e Comunicação Pública das Ciências como forma de inclusão social. Mas, outros argumentos menos plausíveis parecem concorrer em meio a essa controvertida questão. O necessário controle social da ciência, o desenvolvimento científico e tecnológico do país e a garantia de novos financiamentos para ciência e tecnologia são outros pontos fortes no contexto desse debate. Neste trabalho, construído em torno de uma revisão bibliográfica, objetivamos apresentar a essência desses quatro argumentos e discutir as limitações e possibilidades de algumas de suas principais convicções.

Palavras chave: ciência, popularização, comunicação, argumentos

## 1. Introdução

Não são poucas as publicações de pesquisas e relatos de experiências relativos a iniciativas em torno da controvertida questão da Popularização e Comunicação Pública das Ciências. Mas, se interessa mesmo popularizar as ciências, parece imprescindível popularizar, junto aos cientistas, alguns argumentos sociais e filosóficos que, seguramente influenciarão no seu quefazer e na compreensão dos limites impostos ao seu universo de atuação. Considerada essa premissa, é importante reconhecer que, longe de uma conseqüência casual, este distanciamento entre ciência e público tem suas bases no divórcio entre teoria e prática, entre as origens materiais do conhecimento e sua formulação teórica.

Se nos surpreende a contradição do analfabetismo em uma sociedade altamente avançada em conhecimentos científicos e tecnológicos, a realidade histórica do processo de produção capitalista nos revela de maneira clara e dramática a arquitetura maquiavélica de construção desse projeto que, direta ou indiretamente, sempre contou com a ciência e tecnologia como uma de suas principais forças propulsoras. E as forças que conduziram a tal processo continuam em disputa no mesmo jogo de poder que privatiza os conhecimentos estratégicos e essenciais, enquanto prescreve, quando muito, doses homeopáticas de ensino para a maioria da população.

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30 de janeiro a 04 de fevereiro de 2011

É na contra corrente desse movimento que deveriam situar-se as políticas e ações de Popularização e Comunicação Pública das Ciências , sobretudo concentrando esforços para auxiliar a escola em sua gigantesca tarefa na formação básica, além de buscar o público que encontra-se à margem desse universo. Se, como observa Gaspar (1993, p.3), 'a distância entre o saber abrangido pela escola e aquele gerado e acumulado pelo homem cresce assustadoramente' e cada vez mais a humanidade torna-se alheia àquelas que são alardeadas como suas maiores conquistas, o aprofundamento da discussão em torno de uma pretensa e necessária Popularização e Comunicação Pública das Ciências torna-se recorrente e necessário.

Neste artigo trazemos a tona quatro dos principais argumentos que parecem concorrer em meio a esse debate. Três dos quais consideramos mais explícitos e conhecidos e um terceiro menos evidente, mas com certeza, muito forte entre a comunidade científica nacional e internacional. Depois de explicitar o conteúdo destes argumentos, nas considerações finais, acrescentamos uma sucinta discussão em torno de suas limitações.

## 2. Popularização da ciência e inclusão social

No contexto oficial brasileiro, o enfrentamento da questão está diretamente vinculado às políticas públicas de inclusão social. E não é sem razão que, no espaço do Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT) encontra-se uma Secretaria para Inclusão Social, no interior da qual, situa-se o Departamento de Popularização e Difusão da Ciência. Evidentemente, os argumentos principais que orientam os programas nacionais em Difusão e Popularização do conhecimento científico e tecnológico estão diretamente vinculados à questão da inclusão social. Nesse sentido, além das atividades desenvolvidas através da educação formal vinculada ao Ministério de Educação, contamos agora com uma Secretaria destinada a apoiar iniciativas no universo da educação não formal em ciências e tecnologia.

Conforme Ildeu de Castro Moreira, atual Diretor do DEPDIC,

Um dos aspectos da inclusão social é possibilitar que cada brasileiro tenha a oportunidade de adquirir conhecimento básico sobre a ciência e seu funcionamento que lhe dê condições de entender o seu entorno, de ampliar suas oportunidades no mercado de trabalho e de atuar politicamente com conhecimento de causa (2006, p.1).

Nesse sentido, considera fundamental para a educação mínima do cidadão a aquisição de alguns conhecimentos básicos em ciência e tecnologia. Noções que lhe permitam conhecer os métodos e usos da ciência, bem como os riscos e incertezas de suas construções, além dos vários interesses e determinações de natureza econômica, política, militar e cultural que às influenciam. Mas, o quadro que se apresenta não é dos mais animadores, e os desafios neste, como em muitos outros campos relacionados à desigualdade e exclusão social, é imenso.

De acordo com o professor Candotti (2003), presidente da SBPC em uma fala de 2003, apenas cinco, ou no máximo 10 milhões de brasileiros teriam acesso a

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um conhecimento mínimo de questões científicas. Mesmo contando com os meios de comunicação de massa, jornais, revistas, Museus de Ciências e computadores ligados à Internet; mesmo diante de todas as novas possibilidades de comunicação, ainda contamos com um déficit aproximado de 160 milhões, o que se constitui em um enorme desafio para a nação brasileira. Mesmo as poucas iniciativas, consideradas as desigualdades regionais na distribuição da riqueza, acabam concentrando-se em algumas regiões; a maioria dos museus e centros de ciências brasileiros está concentrada nas grandes capitais e nas regiões Sul e Sudeste do país. De acordo com Moreira (2006), um número muito pequeno de brasileiros, cerca de 1% da população, visita algum centro ou museu de ciências a cada ano, enquanto em alguns países europeus a média chega a ser de 25% da população.

Nesse caso, é importante levar em consideração o tamanho das populações, o número de Museus e Centros disponíveis e a qualidade da infra-estrutura econômica, bem como formação básica do povo. No caso brasileiro, contamos com problemas em todos esses níveis: uma grande população, comparada com alguns países da Europa; um número muito pequeno de Museus e Centros disponíveis; e uma população com baixos níveis de renda e escolaridade.

Em dados de 2001, as pesquisas revelavam que o número de analfabetos funcionais no Brasil era de aproximadamente 33,1 milhões, cerca de 27% da população em idade escolar. Somando-se a estes, mais 14,9 milhões de analfabetos universais, tínhamos naquele ano um total aproximado de 46 milhões de brasileiros excluídos do processo elementar da leitura e da escrita. No Nordeste, a situação é ainda mais grave com 42,8 % de analfabetos funcionais e um total aproximado de 22 milhões de analfabetos. Na Paraíba, estado onde desenvolvemos nossa pesquisa, os números são ainda piores: 47,1% de analfabetos funcionais num total aproximado de 1,77 milhões de paraibanos analfabetos (INEP, 2003).

Além disso, ainda enfrentamos uma dificuldade adicional: a qualidade da educação formal em ciências e tecnologia é, via de regra, bastante precária. Embora este seja um problema antigo que remonta aos debates contra o ensino tradicional vivenciados na década de sessenta do século passado 1 , o ensino de ciências continua precário, carente de recursos e desatualizado. O antigo modelo tradicional, caricaturado com algumas inovações, persistiu e as sonhadas atividades experimentais, valorizando a criatividade e despertando a curiosidade e o interesse dos estudantes, praticamente não existem. Os baixos níveis salariais dos professores que, ao longo de vários anos vêm acumulando perdas substanciais, resultaram numa enorme carência de profissionais da educação, sobretudo nas áreas das ciências naturais. Embora a situação das escolas privadas não seja muito diferente, este quadro se refere fundamentalmente à educação pública, sobretudo, porque são as escolas públicas as grandes responsáveis pela educação de mais 85% de toda a população brasileira. No caso do ensino fundamental esse número supera a marca dos 90% (INEP, 2003). Se de um ponto de vista quantitativo podemos verificar avanços na oferta da educação pública, o mesmo não se verifica na qualidade dos serviços oferecidos.

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Embora constatando uma acelerada expansão do ensino médio, Moreira (2006) reconhece que uma parcela muito pequena de brasileiros consegue concluir esta etapa do ensino formal e que a média de escolaridade dos brasileiros é muito baixa quando comparada a dos países desenvolvidos e mesmo com alguns países latino-americanos. No que se refere ao ensino universitário, apenas 11% alcançam esta etapa, e somente 1% segue carreira na área de ciências e tecnologia.

Por outro lado, conforme pensa Candotti (2005), para fazer divulgação científica é necessário certo conhecimento mínimo que deveria ser desenvolvido ao longo do ensino médio, de modo que para fazer divulgação científica seria necessário universalizar o segundo grau.

Mas, na opinião de Moreira(2006) é justamente pelas dificuldades enfrentadas no âmbito da educação formal, com demandas gigantescas em termos de inclusão, tanto no que se refere à alfabetização universal como ao novo conceito de inclusão digital, que o desenvolvimento de políticas públicas de apoio a iniciativas no campo da Popularização e Comunicação Pública das Ciências, é uma importante via alternativa de ação educacional inclusiva.

Como fica evidente, o argumento principal que orienta as ações do governo brasileiro em matéria de PopC&T, está fundamentado no reconhecimento da desigualdade social e exclusão de grande parte da população do acesso a um conhecimento mínimo em ciências e tecnologia, o que demandaria um esforço conjunto em torno das políticas de inclusão social. Isto não significa que a ciência possa, sozinha, dar conta de uma série de problemas e conflitos que disputam interesses no conjunto da sociedade. Nesse sentido, outros argumentos apoiados em interesses diferentes podem aliar-se a uma mesma fala no sentido de garantir presença na disputa de recursos e de poder.

## 3. Por um Controle Social da Ciência

Uma das fortes razões relacionadas ao porquê de popularizar a ciência é, sem dúvida, o necessário controle social dessa forma de conhecimento pela população. Os argumentos apresentados pela comunidade científica britânica são bastante contundentes nesse sentido.

Primeiro, a ciência é possivelmente a maior realização da nossa cultura e o povo merece conhecê-la; segundo, a ciência afeta a nossas vidas cotidianas e o povo precisa estar a par dela; terceiro, muitas decisões de política pública envolvem a ciência e estas só serão genuinamente democráticas se forem fruto de um debate público esclarecido e quarto, a ciência é financiada por verbas públicas e este apoio é (ou ao menos deveria ser) baseado num nível minimamente aceitável de conhecimento popular (DUARNT, EVANS E THOMAS, apud KULESZA, 1998, p. 49).

Embora reconheçamos as dificuldades envolvidas nessa tarefa, sobretudo, considerando que a pesquisa científica não é algo facilmente controlável, é possível enfrentar a discussão partindo do controle dos desenvolvimentos e aplicações da ciência, para em seguida avançarmos no debate sobre a necessária influência da população em um controle prévio dos rumos das pesquisas.

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Não é novidade que encaminhamentos de questões relacionadas com ciência e tecnologia envolvem riscos e custos, além de aspectos simbólico-culturais que deveriam necessariamente passar pelo crivo da população. Questões como: produção de alimentos transgênicos, clonagem humana, eutanásia, utilização de células troncos e muitas outras, são exemplos de como um conhecimento mínimo de assuntos pertinentes à ciência e suas aplicações é fundamental para a garantia de uma democracia, pelo menos, representativa e de qualidade razoável.

Em face dessa urgência, é importante refazer as perguntas de Candotti (2003): 'Tudo que está ao nosso alcance, em termos de desenvolvimento e aplicações do conhecimento científico, deve ser realizado? Tudo o que é possível fazer, deve ser feito'? Podemos clonar, devemos clonar? Se sabemos fabricar uma bomba atômica, devemos fabricá-la? Se podemos chegar até a lua, devemos desenvolver um projeto espacial para chegar até lá? Enfim, se dominamos o conhecimento necessário ao alcance de determinados objetivos, estes objetivos devem ser alcançados? Quem deve decidir isso? Na atual conjuntura, quem tem definido essas questões são as elites científicas fortemente aliadas aos interesses de mercado, a quem pouco interessa as opiniões e anseios das maiorias e minorias excluídas.

Para Candotti (2002, p.17), 'a circulação das idéias e dos resultados de pesquisas é fundamental para avaliar o seu impacto social e cultural, como também para recuperar, por meio do livre debate e confronto de idéias, os vínculos e valores culturais que a descoberta do novo, muitas vezes rompe ou fere'.

Embora concordemos com a parte inicial da argumentação, que diz respeito ao controle das aplicações tecnológicas do conhecimento científico, verificamos a existência de um fio muito tênue entre o que podemos fazer e o que já fizemos ou estamos fazendo. Depois de construído um determinado tipo de conhecimento, é muito pouco provável que não seja desenvolvido e concretizado em termos de aplicações tecnológicas e práticas. Na maioria dos casos, o sonho de materialização das hipóteses já se encontra nos objetivos iniciais da pesquisa.

Desse ponto de vista, é necessário interferir previamente nos rumos que devem ser dados às investigações, definindo, a priori, para onde devemos dirigir os nossos olhares e quais as perguntas para as quais devemos concentrar esforços de resposta. Se devemos participar de um projeto conjunto para o lançamento de um satélite, que envolve gastos da ordem de 100 milhões de dólares, ou se é preferível usar esse recurso para equipar os hospitais públicos, em grande maioria sucateados, é uma questão de estabelecer prioridades, o que numa sociedade democrática exige a participação de cada vez mais interlocutores, com razoável soma de conhecimentos que lhes permitam opinar diretamente ou delegar as pessoas certas à responsabilidade desse tipo de decisão . 2

A Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento ocorrida no Rio de Janeiro em 1992 (Agenda 21, 1997), chama atenção para um outro aspecto da questão, ressaltando que a popularização não é importante apenas para o povo conhecer as criações da ciência, mas, principalmente para poder

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influenciar nos rumos das pesquisas. De modo que, nos termos da referida conferência, 'deve-se ajudar o público a comunicar à comunidade científica e tecnológica suas opiniões sobre como a ciência e a tecnologia podem ser melhor gerenciadas para influir beneficamente na vida dele'.

Para Sagan:

... as conseqüências do analfabetismo científico são muito mais perigosas em nossa época do que em qualquer outro período anterior. É perigoso e temerário que o cidadão médio continue a ignorar o aquecimento global, por exemplo, ou a diminuição da camada de ozônio, a poluição do ar, o lixo tóxico e radioativo, a chuva ácida, a erosão da camada superior do solo, o desflorestamento tropical, o crescimento exponencial da população (1996, p.21).

- O desconhecimento das conquistas culturais humanas é prejudicial em qualquer momento da história. No caso de uma sociedade cada vez mais submetida aos domínios da ciência e tecnologia, esse desconhecimento assume, de fato, prejuízos ainda maiores. Nesse particular, a pergunta de Sagan (1996, p.22) referindo-se ao problema americano é semelhante a nossa: 'como é que os norteamericanos decidem essas questões? Como é que instruem os seus representantes? Quem de fato toma suas decisões, e baseando-se em que fundamentos?'.

Conforme o professor Candotti (2003), quando presidente da SBPC, um dos sérios problemas enfrentados pela instituição era a permanente cobrança dos governos em busca de pareceres da comunidade científica sobre questões polêmicas , como no conhecido caso dos transgênicos e da clonagem de seres 3 humanos. Para ele, não se trata de questões simples, triviais e que exigiriam apenas um parecer técnico. Pelo contrário, são problemas que envolvem outras variáveis, como por exemplo, as dimensões simbólico-culturais da população e outros interesses de natureza econômica e política. Portanto, deveriam levar em consideração o parecer da maioria da população. No entanto, para poder opinar, o povo precisaria dominar um conhecimento mínimo dos assuntos em pauta, o que não é o caso.

## 5. - PopC&T: Inovações Tecnológicas e Desenvolvimento Econômico

Um outro argumento, não menos utilizado em favor da necessidade de um maior acesso da população à ciência e a tecnologia, está diretamente relacionado ao desenvolvimento econômico das nações. Nesse caso, o atraso em ciência e tecnologia é considerado uma das fortes razões para a dependência econômica e a pobreza de alguns países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento.

Na opinião de Dantas (2002), os mecanismos de desenvolvimento sócioeconômicos de uma nação são definidos hoje através de parâmetros bem diferentes daqueles de algum tempo atrás. E, dentre estes parâmetros, a questão da ciência e

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tecnologia assume um lugar fundamental. Nesse particular, a posição de 43 lugar o nos estudos da Unesco que mede o Índice de Desenvolvimento Tecnológico - IDT dos países do mundo, não foi das mais animadoras para a comunidade científica brasileira, sobretudo considerando que outros países de menos potencial tecnológico assumiram posições melhores. De acordo com Dantas (Idem, p. 94), a questão está na forma como a ONU estabeleceu os índices. A classificação não foi feita somente em função da excelência tecnológica - o Brasil teria melhor desempenho - mas levando em conta parâmetros que mediam como estas tecnologias são apropriadas em benefício da melhoria da qualidade de vida da maioria do povo. Nesse caso, embora possuindo pólos de grande excelência e boa inserção mundial em termos de novas tecnologias, tais como a Embraer, Petrobrás e Embrapa, só para citar três exemplos, o Brasil ainda convive com situações de miséria e desigualdade incompatíveis com seus níveis de desenvolvimento científico e tecnológico.

Um exemplo apresentado como contrário ao brasileiro é o caso do Japão e de outros países asiáticos a quem se atribui à aceleração do desenvolvimento econômico aos investimentos massivos em ciência e tecnologia. Nesse caso, a popularização serviria para despertar novo interesse pela ciência, atraindo um maior contingente de jovens para a carreira científico-tecnológica e libertando a nação da dependência em relação aos países desenvolvidos. O caso da Coréia é um exemplo. Enquanto o Brasil solicitou o registro de 130 patentes no ano 2000, a Coréia do Sul registrou, no mesmo ano, 6000 patentes. Assim, de acordo com Dantas (Idem, p.96), embora ainda haja falhas no modelo coreano, principalmente no que se refere à distribuição dos benefícios tecnológicos à população, não resta dúvidas que o nível de vida do povo coreano melhorou umas cinco vezes mais que no Brasil.

Esse tipo de argumento fica evidente logo no primeiro item da Conferência Mundial sobre a Ciência para o Século XXI , 4

Estes novos conhecimentos, fonte de enriquecimento educativo, cultural e intelectual, geram avanços tecnológicos e benefícios econômicos. A promoção da investigação fundamental e orientada para os problemas é essencial para alcançar um desenvolvimento e um progresso endógenos (UNESCO, 1999, p.9, tradução nossa).

Para além da inclusão social, a PopC&T também é vista como importante fator de crescimento econômico e desenvolvimento endógeno, isto é, auto-suficiente e independente do auxílio tecnológico de outras nações. Nos termos da referida conferência, é necessário reconhecer que a investigação científica, bem como suas aplicações tecnológicas, pode conduzir a importantes e consideráveis repercussões no crescimento econômico e no desenvolvimento humano sustentável. Nesse sentido, o desenvolvimento da humanidade dependerá mais do que nunca da produção e difusão eqüitativa do saber.

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É com base numa visão desenvolvimentista, associada a maior aceleração do conhecimento científico e tecnológico das nações que se fortalece a idéia de Popularização e Comunicação das Ciências no sentido de atrair um maior contingente de jovens para as carreiras científico-tecnológicas. Nesse sentido, Fazzio (2006, p.1) afirma que, mesmo com um número reduzido de pesquisadores:

Não há como negar o grande sucesso da pesquisa em Física no Brasil, responsável por colocar o país em posição privilegiada no ranking científico das nações [...] Mas esse sucesso torna-se modesto quando se avalia o impacto dessa disciplina na economia brasileira... a Física está no alicerce da inovação e do desenvolvimento tecnológico e deve ser utilizada como instrumento de geração de riqueza e de solução de problemas da sociedade (FAZZIO, 2006, p.1).

Ao lembrar que nos Estados Unidos um terço do PIB em 2001 foi proveniente de tecnologias derivadas da física quântica, Fazzio lamenta que no Brasil, salvo poucas e recentes iniciativas, não há divulgação de ciência visando à educação científica do cidadão. Como se percebe, esse argumento, embora nem sempre tão explicito, é uma das motivações mais fortes para os investimentos em Popularização e Comunicação Pública das Ciências.

## 4. Para a garantia do financiamento público e privado da ciência.

Um argumento muito próximo do apresentado na seção anterior e talvez o mais forte junto aos cientistas brasileiros e de muitos outros países é a Popularização e Comunicação Pública das Ciências como possibilidade de garantir o sempre necessário financiamento para os projetos e pesquisas científicas. Se em um regime democrático, em última instância, é o povo, através de seus representantes, quem decide sobre a liberação, ou não, de recursos para a ciência, torna-se necessário esclarecer a comunidade sobre as vantagens das pesquisas e projetos científicos para que os governantes sintam-se forçosamente compelidos a apoiarem tais iniciativas. Um povo basicamente informado sobre assuntos de ciências teria maiores chances de apoiar os grandes empreendimentos científicotecnológicos.

Na maioria dos países do mundo, o Estado tem um grande peso no financiamento da ciência. No contexto brasileiro, em que as empresas ainda investem muito pouco em pesquisas científicas voltadas para o desenvolvimento científico-tecnológico, a presença estatal no financiamento de projetos e pesquisas científicas é ainda maior. E mesmo se assim não fosse, a própria iniciativa privada trabalha considerando as demandas públicas.

De acordo com Freire Júnior(2006), num estado democrático os cientistas não podem achar que vão conseguir um financiamento por que está escrito na Constituição, ou designo divino, ou porque um certo governante é mais favorável à ciência. Não é assim. Em um estado democrático, o financiamento para a ciência só

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se sustenta se a sociedade estiver convencida da importância de seus projetos. É preciso que a sociedade apóie a decisão. Nesse caso, a Popularização e Comunicação das Ciências conduziria a um maior esclarecimento da população quanto à importância das pesquisas científicas, conquistando o apoio popular e, consequentemente, a liberação dos recursos financeiros pelo poder público e pela iniciativa privada.

Se o financiamento da ciência necessita do apoio da população, é necessário esclarecê-la sobre os benefícios e vantagens da ciência para que, de uma forma democrática, os recursos estatais sejam distribuídos. Para Freire Junior (2006), se rejeitamos as ditaduras, se queremos um regime democrático, se queremos que a ciência seja apoiada dentro de um regime democrático, só existe uma saída: convencer o povo de maneira que a opinião pública consiga chegar aos governantes, interferindo assim, na decisão final. Nos Estados Unidos essa compreensão é maior que no Brasil e, talvez por esse motivo, a divulgação e o jornalismo científico sejam mais fortes por lá.

## 5. Considerações finais

A primeira questão refere-se ao conceito de inclusão e, por conseguinte, ao problema da exclusão social. Nesse caso, é necessária certa cautela para não incorporar a idéia da existência de um povo ávido por incluir-se nos mistérios de um conhecimento científico e tecnológico que lhes é negado. Ao que parece, o processo é mais complexo e não permite escolhas. Estamos diante de um modelo de civilização em que uma minoria se impõe e exige que seu estilo seja universalizado por todas as culturas. Em outras palavras, não se trata de desejar incluir-se, mas de necessitar fazê-lo, sob pena de perder-se nos limites de uma cultura que já não é mais a sua.

Mas, seriam mesmo necessários conhecimentos científicos e tecnológicos básicos para o cidadão comum poder transitar no interior de uma cultura científicotenológica? Do ponto de vista de Sánchez Mora (2003), o senso comum serve muito bem na maioria das situações cotidianas e podemos viver satisfatoriamente na nossa sociedade tecnologizada mesmo sem saber quase nada de ciência. Se isso é mesmo verdade, a questão assume outro patamar de complexidade, envolvendo a necessidade de popularizar algo que, para a maioria da população, é supérfluo e desnecessário.

No que se refere ao controle social da ciência pela população, outro argumento que, a primeira vista, revela-se bastante coerente e oportuno, não nos parece ser tão factível do ponto de vista prático. Decerto que a intromissão do povo em questões polêmicas envolvendo ciência e tecnologia, apesar de reconhecidamente necessária, reclamaria um conhecimento mais do que elementar e uma forma de organização da sociedade que garantisse mecanismos de participação e controle, o que ainda está muito aquém de nossas reais possibilidades.

De um ponto de vista pragmático, os argumentos mais exeqüíveis em curto prazo são aqueles relacionados aos próprios interesses do mercado e da ciência. Nesse caso, a popularização do conhecimento científico e tecnológico estaria orientada para atrair novo interesse da sociedade pela ciência, despertando novas vocações científicas, maior contingente de pesquisadores, maior quantidade de

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pesquisas e aplicações tecnológicas com geração de divisas para o país e novas remessas de verbas destinadas à ciência e tecnologia. Os argumentos de inclusão e apelos à cidadania, também estão imbuídos de interesses pela própria consolidação da ciência junto à sociedade. Não é apenas por uma questão de solidariedade que se faz divulgação científica; não é somente o povo que precisa da ciência, a ciência também necessita do apoio popular para dar continuidade a seus projetos.

## 6. Referências

AGENDA 21 , Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Brasília, Senado Federal, 1997.

CANDOTTI, E. Ciência na Educação Popular . In MASSARANI, L.; MOREIRA, ILDEU DE C. & BRITO, F. (orgs.) Ciência e Público: caminhos da divulgação científica no Brasil. Rio de Janeiro, Casa da Ciência. UFRJ, 2002.

CANDOTTI, E. Como Fazer da Ciência um Patrimônio Público ? In. Depoimentos de Divulgadores da Ciência no Brasil. CD-ROM Produzido pela Fundação Osvaldo Cruz (FIOCRUZ), Rio de Janeiro - RJ, 2005.

CANDOTTI, E. Os desafios da Popularização da Ciência . In. CANDOTTI, E., BARROS, H., GERMANO M., (membros convidados). Mesa Redonda realizada durante a Reunião Regional da SBPC, UFCG, novembro de 2003. (material gravado a pertencente ao nosso arquivo).

CANIATTO, R. Com ciência na educação; ideário e prática de uma alternativa brasileira para o ensino de ciências . Campinas, SP, Editora Papirus, 1987.

DANTAS, AGAMENON S. L. Conhecimento científico e desenvolvimento tecnológico - Para quê e para quem? In. Ciência e Inclusão Social. Cauê Matos (Org.) . São Paulo, Editora Terceira Margem, 2002.

FAZZIO, A ; Entrevista: A física deve gerar riqueza para o país . . Jornal da Ciência (JC) email 3110, de 27 de Setembro de 2006 .

FREIRE, JUNIOR, O . Sobre os limites e possibilidades de PopC&T. Entrevista concedida ao autor durante visita a UEPB em Novembro de 2006. (Material pertencente ao nosso arquivo pessoal).

GASPAR, A. Museus e centros de Ciências: conceituação e proposta de um referencial teórico. Tese de Doutorado. São Paulo, FE-USP, 1993.

INEP. Mapa do Analfabetismo no Brasil. Brasil, Ministério da Educação, 2003.

KULESZA, W. Ciência e Educação Popular. In COSTA MARISA, V. (org.). Educação popular hoje. São Paulo, Loyola, 1998.

MOREIRA, I., A Inclusão Social e a popularização da ciência e tecnologia no Brasil. Revista Inclusão Social , Vol.1, N o 2 , 2006.

REZENDE, S. O Brasil no espaço, um programa estratégico. Ciência na Mídia, Textos sobre divulgação científica, http://www.mct.gov.br/index.php/content/view/14463.html, capturado em outubro de 2006.

SAGAN, C., O mundo Assombrado Pelos Demônios : A ciência vista como uma vela no escuro . 13 ed. Traduzido por Rosaura Eichemberg. São Paulo, Companhia das Letras, a 1996.

UNESCO, La Ciência para el Siglo XXI: Una Nueva Visión y un Marco Para la Acción , Budapeste (Hungria), 1999.

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