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Ciência, uma questão de gênero?

Fabrício Nelson Lacerda, Álvaro Chrispino

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XIX
Ano
2011
Data
03/02/2011
Linha de pesquisa
Ciência, Tecnologia E Sociedade
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## Ciência, uma questão de gênero?

## Fabrício Nelson Lacerda 1 Álvaro Chrispino 2

- 1 Centro Federal de Educação Tecnológica Celso Sukow da Fonseca/Programa de mestrado em Ciência Tecnologia e Educação, bolsista de mestrado da CAPES, bibifisica@yahoo.com.br

## Resumo

Segundo dados do Diretório de Grupos de Pesquisas no Brasil , as mulheres 1 aparecem como maioria na base da carreira científica, porém permanecem minoritárias no topo da carreira e também entre os líderes de grupos de pesquisa. A infra-representação das mulheres na ciência e tecnologia - C&T- é objeto principal desse texto. Reconhecendo o caráter histórico da participação feminina na sociedade, pretende-se aqui contribuir para uma melhor compreensão das relações entre gênero, ciência e tecnologia, discutindo as origens e conseqüências da pequena participação feminina nessa área. Compreende-se a ciência como um empreendimento social, percebendo os sujeitos da ciência como participantes da produção do conhecimento. Homens e mulheres trazem consigo diferentes formas de ver o mundo, diferentes modelos, contextos e experiências. Nessa perspectiva, acredita-se que uma visão androcêntrica da ciência, evidenciada pela pequena participação das mulheres, principalmente em postos de decisão, pode contribuir para um empobrecimento da produção científica. Entende-se que, se desejamos pensar uma relação mais efetiva e crítica entre ciência, tecnologia e Sociedade - CTS, as mulheres não podem ficar de fora desse processo. Também abordaremos no presente artigo os resultados parciais de uma pesquisa desenvolvida com a comunidade escolar do CEFET-RJ, cujo objetivo é explicitar as atitudes e crenças sobre a participação da mulher nos ambientes de produção deC&T. Esses resultados indicam que boa parte dos entrevistados discordam fortemente da idéia ingênua de que homens são mais aptos e interessados pela ciência que mulheres. Por outro lado, percebe-se também uma certa dificuldade entre os respondentes de reconhecer que, por questões sociais, homens e mulheres não enfrentam oportunidades similares para ingressar em uma carreira científica. Os resultados apontam para a necessidade de (re)construção do currículo de ciências, possibilitando um entendimento mais adequado das relações CTS no que tange à questão de gênero.

Palavras-chave : Gênero, Ciência, Estudos Feministas, CTS, Ensino de Ciências.

## A participação da mulher na produção de Ciência e tecnologia

A questão colocada no título desse texto nos remete a uma discussão fortemente presente na nossa sociedade. A participação das mulheres nos ambientes de produção de C&T vem sendo discutida por vários autores

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contemporâneos (KOCHEN et al., 2001; CABRAL, 2008; PORRO 2008). Não é novidade que nos últimos anos a participação das mulheres está crescendo em vários setores da sociedade e também nos ambientes de produção de C&T. É também sabido que essa inserção feminina não é tão significativa em espaços de maior relevância como postos de decisão ou nas áreas que recebem maior financiamento. A presente pesquisa tem o objetivo trazer elementos que contribuam para um melhor entendimento da relação ciência e gênero, apresentando algumas atitudes e crenças sobre a participação da mulher nos ambientes de produção de C&T.

Ao iniciar uma reflexão sobre a produção científica e sua relação com as questões de gênero duas perguntas parecem relevantes. O que é ciência? Como ela é produzida? Ao longo da história, vários filósofos da ciência buscaram responder estas perguntas. Utilizaremos aqui algumas dessas respostas para traçar um caminho que nos ajudará a compreender o papel das mulheres nesse notável empreendimento humano que é a ciência.

Na concepção dos empiro-indutivistas, o conhecimento científico é resultado da observação neutra e desinteressada da realidade que lhes é desvelada através dos sentidos. Desconsidera-se nessa visão o papel exercido pelas hipóteses e teorias como focalizadores da investigação científica. O positivismo de Augusto Comte, que se consolida com o círculo de Viena, reforça essa concepção indutivista e neutra da ciência e acaba por influenciar boa parte dos cientistas.

É possível perceber em vários momentos da História da ciência a influência das teorias e hipóteses na maneira como os cientistas observam o mundo. É igualmente comum a percepção de que a observação despretensiosa da natureza não é o único elemento que o cientista lança mão para elaborar suas teorias, como propunham os positivistas. Não se trata de negar que a observação tenha um papel fundamental no desenvolvimento científico, mas reconhecer que a observação não é e nem pode ser anterior à teoria.

As críticas às visões positivistas da ciência podem nos levar a uma visão antagônica segundo a qual a ciência é apenas mais um tipo de discurso. Em suas versões mais extremas, esse olhar implica em um forte relativismo segundo o qual o discurso científico não tem mais credibilidade que outros como o discurso astrológico ou criacionista (GALLI, 2010, p.81). Esse pensamento, que encontra um radicalismo em Feyerabend, ficou conhecido como 'anarquismo epistemológico' (REGNER, 1993, p.233).

Discordamos de uma concepção positivista de ciência que entende o conhecimento como algo autônomo e neutro, mas também não concordamos com a postura relativista extrema. Propõe-se aqui considerar a ciência uma atividade humana, reconhecendo o seu caráter social e histórico. Com essa visão é inevitável perceber a influência dos valores, crenças e visões de mundo dos cientistas no conhecimento que produzem. É nesse referencial que se discute aqui como as desigualdades de poder associadas à questão de gênero, historicamente observadas em nossa sociedade, estão presentes na produção científica e tecnológica.

'Se não temos mais um sujeito cognoscente neutro, pois já não faz mais sentido tratar-se a objetividade à maneira positivista, buscamos um sujeito que tem laços históricos, culturais, sociais e políticos. [...] Não cabe agora apenas um ponto de vista na forma de alcançar saber ou apenas um

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método que habilite uma cientista ou engenheira a obter resultados, mas várias metodologias, abertas à criatividade das/os pesquisadoras/es, que mostram regras, valores, organizações nem sempre comuns, mesmo que pertençam a uma determinada área.' (CABRAL, 2008, p.198)

Ao longo do tempo, por razões sociais, as mulheres estiveram ausentes de alguns espaços como é o caso da escola. Sedeño (2001) indica três momentos chave nos quais a luta das mulheres pelo acesso à educação obtém algum sucesso. O primeiro se localiza entre o Renascimento e a revolução científica, quando as mulheres pela primeira vez têm acesso à educação elementar (ler e escrever). Segundo ela, é nesse momento que surge a polêmica sobre a capacidade biológica da mulher para os estudos. O segundo momento importante é quando, na segunda metade do século XIX, as mulheres começam a ter acesso às instituições educativas de mais alto nível sem restrições objetivas. Não estamos falando da educação de algumas mulheres apenas, mas que qualquer mulher possa fazer um curso universitário. O terceiro momento se inicia nos anos 60 do século passado. A luta já não é pela educação elementar ou pela educação superior. Agora se trata de investigar os motivos pelos quais, mesmo não havendo discriminação legal, existem tão poucas mulheres estudando ciências em primeiro lugar; em segundo, trabalhando nelas, e, por último, em postos de responsabilidade e tomada de decisões (p. 9-10).

Dados do Diretório de Grupos de Pesquisas no Brasil, produzidos pelo CNPq, revelam o caráter histórico da super-representação masculina entre os pesquisadores no nosso país. (ver tabela 1). Entretanto, é perceptível o aumento gradativo do percentual de participação das mulheres nos ambientes de produção de C&T nos últimos 15 anos. Na mesma base de dados é possível perceber que as mulheres são maioria entre os estudantes de pós-graduação, mestrado e doutorado.

Tabela 01: Distribuição percentual dos pesquisadores segundo o sexo - 1993-2008.

Fonte: Diretório de Grupos de Pesquisas no Brasil.

Quando nos referimos aos líderes de grupos de pesquisa a presença das mulheres em relação aos homens é ainda menor. Em quase todas as faixas etárias as pesquisadoras estão em desvantagem numérica em relação aos pesquisadores. (ver tabela 2). É curioso perceber que entre os líderes mais jovens (abaixo de 34 anos) e os mais velhos (acima de 65 anos) a diferença entre o número de homens e mulheres é ainda maior.

Tabela 02: Distribuição dos pesquisadores líderes por sexo segundo faixa etária em 2008.

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Fonte: Diretório de Grupos de Pesquisas no Brasil.

Nesse contexto, podemos refletir sobre quais são as origens e implicações da infra-representação feminina nos ambientes de produção de C&T. Na tentativa de contribuir para o entendimento dessa questão apresenta-se aqui algumas concepções acerca da participação da mulher na ciência frequentemente expressas na nossa sociedade.

A primeira concepção trabalha com a idéia de que não há diferenças entre homens e mulheres e, portanto, não existe motivo para que as mulheres estejam em menor número em nenhum espaço da sociedade. Essa concepção extremamente simplista desconsidera quaisquer diferenças historicamente construídas entre homens e mulheres. Aplicada à compreensão das questões de gênero na C&T pode favorecer o entendimento ingênuo de que homens e mulheres encontram oportunidades iguais de acesso e crescimento na carreira científica.

Outra forma de ver a questão de gênero é admitir que homens e mulheres são biologicamente diferentes, justificando a presença maior ou menor de qualquer um dos gêneros em áreas da sociedade por essa diferença. Essa visão associada à idéia de ciência neutra e objetiva municiou, em determinados momentos históricos, aqueles que, partindo da premissa que a mulher deve ser bela e o homem sábio, afirmavam que a ciência seria árida demais para as mulheres. Nessa perspectiva se justificaria a pouca participação feminina em carreiras científicas.

Essa concepção também influencia fortemente a imagem do cientista presente no imaginário popular e veiculada nos meios de comunicação. Frequentemente o cientista é representado como um homem velho vestindo jaleco branco e óculos, envolvido em suas experiências, tubos de ensaio e equipamentos eletrônicos. No artigo Superpoderosos, submissos: os cientistas na animação televisiva , Denise Siqueira (2005) ao analisar o conteúdo veiculado em desenhos animados adverte que:

'Exercendo uma tarefa formadora - independente do sentido que essa função possa adotar -, a televisão reforça, através dos desenhos, representações e imagens que já circulam na sociedade.' (p. 30)

A terceira concepção que discutiremos aqui se baseia na idéia de que homens e mulheres são biologicamente diferentes, mas igualmente aptos para o desempenho de atividades de C&T. Portanto, não se pode atribuir a infrarepresentação das mulheres a essa diferença. Assim, a restrita participação das mulheres na ciência é justificada por pressões sociais de origens históricas. Nessa linha, somos levados a crer que as mulheres só estão em menor número nos espaços de produção de ciência, e principalmente das ciências exatas e engenharias, devido à imagem masculina socialmente construída e aceita para essas carreiras. Dessa maneira, as meninas em idade escolar seriam desestimuladas a escolher carreiras científicas, ou outras associadas à figura masculina.

É com esse argumento que atualmente o movimento feminista estrutura a sua ação no sentido de conscientizar a sociedade do papel desempenhado pela

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mulher e pressionar o poder público para a adoção de políticas que contribuam para alcançar a equidade de gênero.

Nessa perspectiva, seria razoável supor que a eliminação das desigualdades numéricas de gênero em C&T resolveria o problema, mas como adverte Cabral (2008),

'Uma presença maior de mulheres na engenharia - algo que algumas ações de incentivo poderiam garantir - seria realmente bem vinda, mas por si só não alteraria as desigualdades. Possivelmente teríamos um maior contingente de mulheres, mas pensando a ciência e a tecnologia como atividades pretensamente neutras, objetivas, imparciais; acreditando que certas atitudes discriminatórias são 'naturais' por estarem numa área dominada por homens.' (p. 199)

Assim, os desafios que se colocam à superação das desigualdades de gênero na ciência e tecnologia ultrapassam a questão da infra-representação feminina.

Para Silvia Porro (2008), a escola exerce um papel fundamental na reprodução dos estereótipos baseados na construção cultural da diferença sexual. Segundo ela,

'a escola marca as pessoas em uma série de dimensões que não se referem unicamente aos conhecimentos, mas também ao estabelecimento de identidades, hierarquias e desigualdades. [...] Por isso é preocupante a existência de visões deformadas dos professores sobre a ciência, a tecnologia e a natureza.' (p.30)

## O que pensam os estudantes e professores sobre a infra-representação feminina na ciência.

## Metodologia

Utilizou-se aqui a metodologia desenvolvida por pesquisadores do Projeto Iberoamericano de Avaliação de Atitudes em Ciência, Tecnologia e Sociedade (PIEARCTS). Baseando-se no uso do Cuestionario de Opiniones sobre Ciencia, Tecnología y Sociedad (COCTS) o PIEARCTS busca conhecer as crenças e atitudes de professores e alunos sobre temas e questões CTS por meio de pesquisa realizada em 6 países ibero-americanos envolvendo alunos e professores.

- O COCTS é um conjunto de 100 questões adaptadas de outros questionários desenvolvidos empiricamente através de entrevistas, enquetes e respostas abertas dadas por estudantes e professores (VÁZQUEZ-ALONSO et al., 2008a, p.19). As questões possuem um formato semelhante, com um enunciado que apresenta a questão CTS que se pretende investigar seguido de algumas frases que expressam opiniões ou atitudes frente à questão colocada. Como descrevem Vázquez-Alonso et al. (2010), a aplicação sistemática e reflexiva do COCTS possibilitou aos pesquisadores do PIEARCTS a elaboração de uma nova metodologia de respostas múltiplas cujos marcos fundamentais são:
- a) A construção empírica e adaptação do COCTS e sua aplicação com um modelo de resposta única.
- b) O escalonamento das frases em cada uma das questões do COCTS em três categorias (Adequada, Plausível e Ingênua) por um grupo de juízes-peritos.

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- c) Um novo modelo de resposta múltipla mais complexo, válido e eficaz que evita escolhas forçadas, baseado no escalonamento de frases e numa métrica que produz índices atitudinais normalizados e invariantes. (p.336-337)

Esse novo modelo de resposta múltipla permite ao respondente apresentar o seu nível de concordância com cada uma das frases que acompanham as questões através da utilização de uma escala de 1 a 9 com os seguintes significados:

Tabela 03: Níveis de concordância com as frases do PIEARCTS.

Uma comparação entre o grau de concordância do respondente com determinada frase e a avaliação dos juízes-peritos sobre a mesma frase possibilitou a construção de um índice atitudinal normalizado, que vai de -1 a +1. Por exemplo, se o respondente marcar 9 em uma frase considerada adequada pelos juízes, seu índice atitudinal se aproxima de +1. Por outro lado, ao marcar 9 em uma afirmativa classificada pelos juízes como ingênua, o índice do respondente cai, se aproximando de -1. Assim, o esperado é que o índice atitudinal fique próximo de +1 em todas as questões, o que indicaria uma concordância majoritária entre os juízes e os respondentes.

Entre as 30 questões escolhidas pelos especialistas dos 6 países para comporem o PIEARCTS (divididas em dois questionários de 15questões cada Forma 1 e Forma 2) uma delas chama a atenção por abordar a questão da infrarepresentação feminina na ciência. A questão mencionada foi aplicada 2 a uma amostra de 470 respondentes entre alunos do ultimo ano do ensino médio, alunos do ensino superior e professores do CEFET-RJ, entre 2007 e 2009. Do total de respondentes 52,1% eram homens e 47,9% eram mulheres.

60611 Hoje em dia, no nosso país, há muitos mais cientistas homens que cientistas mulheres. A PRINCIPAL razão para isto é que:

- A. os homens são mais fortes, rápidos, brilhantes e melhores em concentração nos seus estudos.
- B. os homens parecem ter mais capacidade científica que as mulheres; estas podem sobressair noutros campos.
- C. os homens estão mais interessados pela ciência que as mulheres.
- D. o esteriotipo tradicional existente na sociedade tem sido que os homens são mais aptos e dominantes enquanto que as mulheres são mais débeis e menos lógicas. Esse preconceito tem causado que mais homens que mulheres cheguem a ser cientistas, ainda que as mulheres sejam tão capazes quanto os homens.
- E. as escolas não têm feito o suficiente para encorajar a mulheres a escolher cursos de ciências. As mulheres são tão capazes como os homens em ciência.
- F. até ha pouco pensava-se que a ciência era uma vocação de homens e esperava-se que a maioria das mulheres trabalhasse em casa ou em trabalhos tradicionais; por tanto, a imagem pública do cientista desanimava as mulheres e encorajava os homens, para se tornarem cientistas. Mas este aspecto hoje em dia está mudando: a ciência está a converter-se numa vocação de mulheres e espera-se que estas trabalhem em ciência cada vez mais.

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- G. as mulheres têm sido desencorajadas ou não se lhes era permitido entrar no campo científico. As mulheres estão tão interessadas pela ciência e são tão capazes como os homens; mas os cientistas estabelecidos (que são homens) tendem a desencorajar ou intimidar as possíveis mulheres cientistas.
- H. Não existem razões para ter mais homens cientistas que mulheres cientistas. Ambos são igualmente capazes de ser bom em ciência e hoje em dia as oportunidades são semelhantes.

Ao analisar essa questão, o painel de juízes as classificou as frases das letras A, B e C como ingênuas; D, E, F e G como adequadas e H como plausível.

Pode-se perceber que as três frases classificadas como ingênuas expressam um entendimento das relações de gênero e ciência muito próxima daquela descrita no início desse trabalho. Isso indica que o grupo de juízes acredita ser ingênuo pensar que homens são mais aptos e interessados para a ciência que as mulheres. Apontando para um reconhecimento da discriminação social como fator relevante para a pequena presença das mulheres na ciência, os juízes consideraram adequadas as frases que justificam a infra-representação feminina pela forte influência da imagem masculina associada a essa atividade.

A frase classificada como plausível traz em seu corpo duas afirmações distintas. A primeira é que homens e mulheres são igualmente capazes de ser bons em ciência. A segunda afirmação é que hoje em dia as oportunidades são semelhantes para ambos os sexos. Acredita-se aqui que, ao considerar plausível essa frase, os juízes tenham concordado com a primeira afirmação, mas discordado da segunda. Cabe ressaltar que o processo de discussão entre os juízes-peritos deixou claro que a categorização das frases não foi uma tarefa simples (VázquezAlonso et al., 2008b).

## Resultados e discussão

O índice atitudinal geral da questão foi 0,20, enquanto a questão melhor posicionada entre as 30 possui índice atitudinal igual a 0,34. O gráfico abaixo apresenta os índices atitudinais obtidos em cada uma das frases da questão 60611 .

Gráfico 01: Índices atitudinais por frases da questão 60611.

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É possível afirmar que as frases classificadas como ingênuas pelo painel de juízes (A, B e C) são as que possuem maior índice atitudinal (0,51). Já aquelas

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classificadas como adequadas (D, E, F e G) possuem índice atitudinal mais próximo de zero (0,10).

Esses resultados podem indicar que os alunos e professores pesquisados reconhecem como ingênua a concepção de que os homens estão mais preparados e interessados na ciência que as mulheres, mas ainda apresentam certa dificuldade em perceber a presença de alguns obstáculos à inserção e permanência da mulher nos ambientes de C&amp;T.

Já a alternativa H, classificada pelos juízes como plausível, possui índice atitudinal extremamente baixo (-0,32). Com uma observação mais detalhada podese perceber que a maioria dos respondentes (61,7%) discordou dos juízes, considerando essa afirmativa adequada. Essa discordância justifica o baixo valor do índice atitudinal dessa frase.

É possível que essa forte concordância dos respondentes com a afirmativa do item H esteja relacionada à dificuldade que estes apresentam para reconhecer que homens e mulheres não possuem as mesmas oportunidades de ingresso e permanência em carreiras científicas. Esse resultado está em consonância com o entendimento de que os alunos e professores do CEFET-RJ pesquisados encontram certa dificuldade em admitir a presença de obstáculos subjetivos para uma inclusão qualificada das mulheres na ciência.

Não é estranho que tais obstáculos não sejam reconhecidos claramente pelos alunos e professores, já que como aponta Lima (2008), o processo constante de exclusão do feminino e das mulheres da ciência se dá também de forma menos explícita, através do que essa autora denomina 'sexismo automático'. Para ela, esse tipo de sexismo é aquele que

'(...) está incrustado na cultura, responde ao automatismo de um costume que não se revisa. É tão maquinal que muitas vezes nem é percebido e freqüentemente é reproduzido pelo próprio alvo do sexismo: as mulheres. É um sexismo difuso, tido como natural, de algo que já não mais se questiona, resposta esperada, confunde-se com algo imutável e mesmo 'normal'' (LIMA, 2008, p. 59)

Quando consideramos cada uma das frases que compõem a questão 60611 por gênero, o resultado é:

Gráfico 02 : Índices atitudinais por frases da questão 60611 separados por gênero.

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De uma forma geral, percebe-se que os índices atitudinais das mulheres são melhores que os dos homens. Essa diferença fica ainda mais evidente nas três primeiras frases, onde o índice masculino é significativamente menor que o feminino. O mesmo resultado é informado por Porro e Acevedo (2009) que registram um melhor resultado das mulheres nessa questão.

- É de se esperar que os professores e alunos pesquisados discordem das afirmativas presentes nas frases A, B e C por se alimentarem da idéia ingênua de superioridade masculina para o exercício da investigação científica. Os altos índices atitudinais para ambos os sexos nas três primeiras frases demonstram essa discordância. Percebe-se aqui que os homens, apesar de reconhecer a ingenuidade dessas afirmações não o fazem de forma tão incisiva quanto as mulheres. Possivelmente essa diferença se dá por questões históricas e pode indicar que as mulheres se mostram mais conscientes das questões de gênero e se posicionam de forma mais clara em relação a elas, até por que são afetadas diretamente por essas questões.

## Conclusões

Os resultados apresentados aqui indicam que, em relação às implicações de gênero nas relações CTS, ainda há muito que ser trabalhado no sentido de possibilitar aos cidadãos um entendimento e posicionamento mais adequado. Apesar da boa aproximação entre os índices atitudinais das frases A, B e C com o esperado, não podemos deixar de lado a preocupação com a discrepância entre homens e mulheres nesses mesmos ítens. É necessário compreender que a superação da postura que alija as mulheres da ciência sob a alegação de incapacidade ainda representa um desafio concreto. Ainda que uma maior presença feminina na ciência não represente por si só uma solução para as desigualdades de gênero, acredita-se que a superação da desigualdade numérica é condição 'sine qua non' para outros avanços qualitativos.

- O baixíssimo índice atitudinal observado na frase H e o relativo afastamento da atitude esperada nas frases D, E, F e G são resultados que merecem mais atenção, já que indicam um sério entrave à participação efetiva das mulheres na ciência.

Continuam em pauta questões importantes como: a tradição do ensino de ciência e tecnologia pode ser modificada a fim de que as mulheres recebam o tratamento que lhe é justo? Como os materiais de ensino devem tratar este tema respeitando o passado e suas justificativas, mas projetando para o futuro uma melhor condição de gênero na C&amp;T?

Espera-se que essas reflexões contribuam para a superação das desigualdades que ainda persistem em nossa sociedade, e que nos ajudem a tomar consciência da importância da escola nos mecanismos de transmissão das mesmas. Repensar os currículos de ciências, possibilitando aos alunos uma melhor compreensão das questões de gênero emerge como uma necessidade diante do que foi exposto.

## Referências

BRASIL. Ministério da Ciência e Tecnologia. Conselho Nacional de Pesquisa.

Diretório dos grupos de pesquisa do Brasil. Censos a partir de 2000 e base

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