ALFABETIZAÇÃO CIENTÍFICA DOS ALUNOS EM DIFERENTES CONTEXTOS ESCOLARES
Amanda Mendes Afonso, Anna Maria Pessoa De Carvalho, Lúcia Helena Sasseron
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XIX
- Ano
- 2011
- Data
- 03/02/2011
- Linha de pesquisa
- Ciência, Tecnologia E Sociedade
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## ALFABETIZAÇÃO CIENTÍFICA DOS ALUNOS EM DIFERENTES CONTEXTOS ESCOLARES
## Amanda Mendes Afonso 1 , Anna Maria Pessoa de Carvalho , Lúcia Helena 2 Sasseron 3
- 1 Instituto de Física e Faculdade de Educação/Universidade de São Paulo, amanda.afonso@usp.br
- 2 Faculdade de Educação/Universidade de São Paulo, ampdcarv@usp.br
- 3 Faculdade de Educação/Universidade de São Paulo, sasseron@usp.br
## Resumo
Diante de inúmeras propostas de ensino de ciências no Ensino Fundamental que visam explorar a curiosidade e o caráter investigativo dos alunos, trabalhando problemas sociais, ambientais e naturais, esse projeto propõe analisar uma proposta de seqüência didática criada pelo LaPEF (Laboratório de Ensino e Pesquisa de Física da USP) que propõe o envolvimento dos alunos em atividades de caráter investigativo, promovendo uma reflexão e discussão acerca de resolução de problemas, e que foi aplicada na Escola de Aplicação da Faculdade de Educação da USP por Sasseron (2008) em sua tese de doutorado. Nosso objetivo é, através dos resultados positivos encontrados por Sasseron (2008) com esse material, observar se a mesma seqüência didática possui resultados significativos se aplicada em outro contexto escolar: uma escola na periferia de São Paulo. A seqüência didática utilizada tem o propósito de promover o processo de conhecimento científico, e de mundo, dos alunos, além de discutir temas globais e atuais, como meio ambiente e tecnologia. Para que esse processo ocorra em sala de aula, o papel de professor é fundamental, e, portanto esse trabalho também tem como proposta investigar as ações do professor durante as aulas que promovam e auxiliem esse processo de construção de conhecimento.
Palavras-chave : Alfabetização Científica, Ensino Fundamental, Ensino de ciências.
## Introdução
Um dos maiores desafios de quem se propõe a trabalhar com ensino de ciências é como tornar acessíveis os conhecimentos científicos. Ou seja, como, de fato, o aluno aprende ciências, e qual a prática do professor que ajuda nesse processo. Obviamente, as pesquisas ajudam muito a desenvolver esse tema, mas também se torna necessária a prática, para se observar se essas pesquisas estão resultando nos objetivos esperados.
Esse trabalho se baseou nos resultados positivos apresentados por Sasseron (2008), em sua tese de doutorado, acerca da aplicação de uma seqüência didática, criada por pesquisadoras do LaPEF - Laboratório de Pesquisa e Ensino de Física da FEUSP, na Escola de Aplicação da FEUSP. Sasseron (2008) propõe indicadores de Alfabetização Científica para observar se de fato esse processo está ocorrendo em sala de aula. Utilizaremos esses mesmos indicadores para analisar se o processo de Alfabetização Científica também ocorre quando a mesma seqüência didática é aplicada em outra escola, localizada na periferia da cidade de São Paulo.
Também analisaremos a argumentação dos alunos como processo de construção de conhecimento em sala de aula e, ao mesmo tempo, uma ferramenta
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de análise de dados orais. Para isso, utilizaremos os padrões de argumentação propostos por Toulmin (2006) e o padrão hipotético-dedutivo proposto por Lawson (2002).
## Embasamento da proposta desta pesquisa.
Como queremos comparar os dados obtidos em uma escola municipal na periferia de São Paulo com os resultados obtidos por Sasseron (2008) na Escola da Aplicação da USP, traremos alguns pontos principais desta pesquisa já realizada. Sasseron (2008) tinha como problema as seguintes questões: 'De que modo uma seqüência didática pode auxiliar no início da AC? Como isso ocorre? Quais as evidências desse processo?'. Para responder a estas questões, a autora se utilizou de três fontes de dados: a seqüência didática 'Navegação e Meio-ambiente', as gravações em vídeo das discussões estabelecidas em sala de aula e os registros escritos e/ou desenhados produzidos pelos alunos da escola que pesquisou ao término das atividades.
Em diversos trabalhos da área de Ensino de Ciências, encontramos algumas proposições sobre o que seja importante e necessário de se considerar quando se pretende identificar o que seja uma pessoa alfabetizada cientificamente (Fourez, 1994, Hurd, 1998, Laugksch, 2000, Bybee, 1995). Inúmeros são os pontos destacados, mas, em sua pesquisa, Sasseron (2008) agrupou algumas características consideradas necessárias para que se observe o processo de AC. em três blocos, chamados E ixos Estruturantes da Alfabetização Científica: compreensão básica de termos, conhecimentos e conceitos científicos fundamentais, compreensão da natureza das ciências e dos fatores éticos e políticos que circundam sua prática, entendimento das relações existentes entre ciência, tecnologia, sociedade e meio-ambiente.
Havendo esses três eixos, a autora afirma ser capaz que a Alfabetização Científica ocorra, já que os alunos poderão solucionar problemas propostos que envolvam o conceito de CTSA, e terão subsídios para discutir as ciências envolvidas nesses processos. Também é importante estudar como o problema que foi proposto pelo professor e será trabalhado pelos alunos se relaciona com a construção do conhecimento dos mesmos.
O processo de AC é uma construção, que não se findará no Ensino Fundamental, já que a própria ciência está em constante evolução devido a novos fatos e acontecimentos naturais que são estudados pelos cientistas, contribuindo para o avanço tecnológico. E à medida que essa evolução ocorre, novas relações são estabelecidas, fazendo com que a AC acompanhe esse processo de mudanças, mas que desenvolve nos alunos certas habilidades. Segundo Sasseron (2008), existem indicadores que apontam essas habilidades trabalhadas e desenvolvidas entre os alunos, que chama em seu trabalho de indicadores da Alfabetização Científica. Os indicadores criados por Sasseron (2008) mostram algumas características que a autora julgou necessárias para a observação do processo de AC dos alunos, que só é possível com atividades abertas e investigativas que desafiem e motivem os alunos. Com isso, os alunos fazem uso de diferentes indicadores , conforme cada situação em que se encontram. Alguns dos indicadores devem surgir quando se pretende estabelecer bases para essas ações, por exemplo: ao organizar , seriar e classificar informações. Antes que haja essas
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ações, é preciso que o levantamento e o teste de hipóteses sejam empregados para a resolução do problema.
Se a investigação é importante para determinar se uma pessoa é alfabetizada cientificamente, saber reportar os acontecimentos vislumbrados nesta investigação e apresentar elementos que lhe permitam confirmar ou refutar a opinião defendida também faz parte deste processo. Assim, os indicadores também podem aparecer como forma de articular ideias e explicações sobre o mundo natural ao se fazer uso do raciocínio proporcional e do raciocínio lógico como requisito para a argumentação em busca de uma explicação e justificativa de ideias sobre o mundo natural e o modo como os conhecimentos científicos se relacionam com a sociedade e com o meio-ambiente. Outro indicador importante é a capacidade de previsão , que não ocorre se não estiver sustentada por meio das hipóteses, dos dados e/ou das evidências levantadas ao longo da investigação.
No trabalho de Sasseron (2008), a seqüência didática foi aplicada entre outubro e dezembro de 2006 em uma classe de 30 alunos entre 9 e 10 anos de idade de uma terceira série do Ensino Fundamental da Escola de Aplicação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo. Foram 11 aulas gravadas. A seqüência didática utilizada é intitulada 'Navegação e Meio Ambiente', e propõe problemas que discutem tópicos de Ciência, Tecnologia, Sociedade e MeioAmbiente. O início da seqüência acontece por meio de atividades e discussões sobre a importância da distribuição uniforme de massa em um corpo para sua flutuação. Depois, começam pesquisas e discussões sobre história da navegação e meios de transportes aquáticos. Também é apresentada aos alunos a ideia de água de lastro, que garante estabilidade às embarcações. A discussão sobre os problemas ambientais causados por introdução de espécies de outros habitats em áreas nas quais os navios despejam a água de lastro também faz parte das discussões propostas na seqüência. No jogo 'Presa e Predador' os alunos constroem uma tabela com os dados obtidos e discutem a dinâmica das populações e a relação existente entre os diferentes seres vivos personagens do jogo. Deste modo, torna-se possível discutir em sala de aula temas que variam de fenômenos científicos e adventos tecnológicos implicando melhorias à sociedade e ao modo de vida, até questões e preocupações ambientais suscitadas devido à intervenção humana na natureza.
Após analisar episódios da aula 7 (a mesma analisada neste trabalho), Sasseron (2008) chega a algumas conclusões e resultados importantes. A fala dos alunos revelou frases com argumentos bem desenvolvidos e informações que revelam de onde as ideias expostas surgiram e como elas podem ser tomadas como verdadeiras.
O papel da professora foi muito importante para que os alunos trabalhassem mais com as informações existentes, de modo a ocorrer a tomada de consciência dos alunos acerca de quais são as variáveis presentes nos problemas e de que modo elas podem ser agrupadas. Sasseron (2008) acredita que isso se deva ao fato de que o próprio texto foi responsável por realizar tais ações e, sendo assim, os alunos já conheciam a organização, a seriação e a classificação das mesmas. Com as informações organizadas de forma coerente, os alunos possuem referências que permitem a elaboração de argumento onde as variáveis são trabalhadas na busca pelas relações existentes entre elas.
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Sasseron (2008) mostra como as questões instigantes da professa fazem com que os alunos exponham suas idéias sobre o que acontece quando a água de lastro é introduzida na embarcação. Os alunos apontam questões interessantes, como o fato de que o animal pode se reproduzir rapidamente e se alimentar de alguma espécie do novo habitat, gerando assim o risco de os animais deste local sofrerem uma redução na espécie com a presença do predador. A professora, aproveitando essa fala, retoma o conceito de predador, já tratado anteriormente. Quando os alunos trazem hipóteses que não podem ser comprovadas pelo texto, a professora faz com que os alunos reflitam sobre essas questões, para que possam estruturar melhor suas falas.
Outro posicionamento da professora é concordar com as idéias do alunos, de modo a permitir que eles consigam seriar informações e introduzir novas idéias a um conhecimento prévio. Ou seja, nos momentos iniciais da aula, a atitude da professora de incentivar a fala dos alunos, retomar palavras e termos já abordados, dar a palavra a vários alunos, faz com que surjam indicadores da Alfabetização Científica como levantamento de hipóteses, previsão, justificativa e raciocínio lógico, além de aumentar a quantidade de informações trazidas para a discussão.
Com isso, em um momento mais adiante da aula, os alunos começam a estruturar melhor sua fala, organizando as informações obtidas inicialmente, para que possam construir argumentos mais completos. Os alunos, através do raciocínio lógico, passam a acrescentar também previsões e explicações para suas reflexões,, já que possuem novos elementos para acrescentar às suas idéias iniciais. Nessa hora, questões como 'por quê' partindo da professora são importante para que o aluno construa seu argumento de forma a ser compreensível e ter sentido sua construção do conhecimento. Portanto, nessa parte da aula, surgem mais indicadores: além de levantamento de hipóteses, justificativa e raciocínio lógico, também aparecem explicação e previsão, os alunos tomam consciência não só das ações trazidas no texto, mas das suas conseqüências também.
Um exemplo dessa etapa da atividade está na fala do aluno Daniel: em um momento de análise trazido por Sasseron (2008), ela mostra como a professora passa a introduzir novas variáveis trabalhadas pelos alunos. Como nessa fase os alunos já possuem argumentos melhor estruturados, e já ouviram as opiniões dos alunos sobre a discussão, eles organizam suas idéias, de modo a incorporar os novos pontos trazidos na discussão, em sua construção de argumentação. Portanto, a partir dos argumentos que já possuíam, os alunos passam a utilizar mais termos vistos na discussão como forma de melhoria de sua argumentação. Como se fosse a conclusão do pensamento dos alunos, a professora ouve as argumentações, concordando ou dando algum sinal de 'aprovação':
'Por causa que, é, se um, se um animal come o outro no lastro, quando o lastro vai ser despejado, ou pode poluir aquela parte, senão prejudica os outros seres que estão vivendo ali.'
Segundo a entonação utilizada pelo aluno (e observado por Sasseron (2008) essa fala mostra que se trata de uma explicitação de dois possíveis acontecimentos após o despejo da água de lastro: a poluição do local pelos restos dos peixes mortos dentro do tanque ou os prejuízos que podem ser enfrentados por animais que já vivem naquela região quando da introdução de uma nova espécie nestas águas. Sasseron (2008) conclui então que Daniel apresentou dois indicadores: o levantamento de hipótese e o uso do raciocínio lógico na estruturação de sua
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fala. Sasseron (2008) afirma que, após as aulas da seqüência didática, considerando as relações existentes entre os conhecimentos das ciências e suas tecnologias com a sociedade e meio-ambiente, os alunos participantes das discussões mostraram-se inseridos no processo de AC.
## A aplicação da mesma seqüência didática em um diferente contexto.
A seqüência didática 'Navegação e Meio-Ambiente' foi aplicada em uma Escola Municipal de Ensino Fundamental da periferia da cidade de São Paulo. Essa escola sempre buscou melhorar a formação no campo científico, mas a escola não apresenta todas as condições necessárias para os professores aprofundarem seus conhecimentos e estudos teóricos, até porque a rotina de um professor é bastante puxada e cansativa! Isso se tornou bastante claro e se tornou como um incentivador na hora da parceira: melhorar essas condições de aprendizagem também para as professoras, possibilitando que a proposta metodológica para o ensino de ciências em construção junto aos professores da escola seja reafirmada, uma vez que seus pressupostos teóricos muito se assemelham aos apresentados pelas pesquisadoras do LaPEF. Portanto o grupo do LaPEF propôs encontros formativos, para ajudar na aplicação da seqüência didática, utilizando as atividades e problemas com os professores.
As pesquisadoras do LaPEF, através da implementação das seqüências didáticas em diversas escolas, buscam evidências de bons resultados para a aprendizagem dos alunos do Ensino Fundamental. Também foi possível discutir com as professoras suas reflexões acerca de cada uma das atividades, ou seja, as críticas, apontamentos e sugestões provenientes da aplicação das seqüências em sala de aula, com o intuito de aprimorar cada vez mais o trabalho.
As aulas da seqüência foram filmadas (com autorização dos pais dos alunos), para, posteriormente, serem transcritas e analisadas. As reuniões entre os envolvidos também foram filmadas e transcritas, tudo com o propósito de analisar aspectos positivos e negativos desse projeto. O papel das professoras seria aplicar, em suas aulas de Ciências, uma seqüência didática elaborada no LaPEF e concordariam com que as aulas fossem filmadas para serem posteriormente analisadas pelas pesquisadoras da FEUSP.
Com esse trabalho, nosso principal objetivo é responder à questão 'Em outro contexto escolar, chegaremos às mesmas conclusões se aplicada à mesma seqüência didática?' Em nossos dados preliminares, analisamos um episódio que faz parte das discussões ocorridas durante a atividade 7 da seqüência didática. Os debates desta aula são sobre a leitura do texto "Vida Marinha na Água de Lastro". A professora começa esta atividade perguntando aos alunos o que eles entendem por 'vida marinha' e retomando discussões feitas anteriormente sobre vida marinha no fundo do mar, e vida marinha na água de lastro Em seguida, a professora inicia a leitura do texto, que é acompanhada pelos alunos propondo, logo em seguida, que cada aluno leia um trecho do texto em voz alta. Durante a leitura do texto, a professora realiza algumas pausas para discutir os temas abordados, deixar que os alunos comentem os pequenos trechos lidos e retomar discussões anteriores.
## Quadro de dados 01: Transcrição do episódio 1
Turno Falas Transcritas
Indicadores
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Nesse momento da discussão os alunos estão trazendo a tona suas hipóteses sobre o destino dos animais que têm seu habitat alterado. Discutem sobre o que pode acontecer com os animais, sua alimentação, seu modo de vida, e as conseqüências desse novo ambiente.
No turno 64, o aluno Saulo apresenta uma hipótese sobre a vida dos seres vivos em outro habitat, que pode até ser melhor do que a vivida no habitat natural, mostrando um dos indicadores da AC que é o levantamento de uma hipótese.
Depois dessa fala, a professora questiona se realmente o animal irá levar uma vida melhor nesse novo habitat, e se esse futuro é certo. Ou seja, ela questiona se não há outras possibilidades para essa nova vida dos animais.
No turno 67, o aluno Márcio faz um levantamento de hipótese ao falar que esses animais podem não achar parceiro nesse novo ambiente e, sendo assim, podem não sobreviver. Ele traz uma informação sobre outro destino possível para os seres vivos, mas essa afirmação não possui uma justificativa. Na fala de Márcio, também fica evidente o uso de levantamento de hipóteses como indicador da AC.
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Logo na fala 68 encontramos uma justificativa, de outro aluno, para a hipótese do Márcio, quando Tiago afirma que 'por causa que eles não acham comida'. Ou seja, ele está justificando a afirmação do colega de que os seres vivos não sobrevivem.
No turno 70, o aluno Wellington levanta outra hipótese, a de que o ser vivo pode ter uma vida melhor, sua justificativa é justamente o fato de ele não ter predador nesse novo habitat.
No turno 74, a aluna Tatiana também levanta a hipótese de que os animais podem morrer, que é uma previsão do que irá acontecer no novo habitat. No turno 74 ela justifica sua hipótese, comentando o fato de que o tanque de lastro pode ser prejudicial aos animais. Seu raciocínio é retomado no turno 78 pelo aluno Fábio quando ele explicita sua argumentação com a frase:
'Os seres vivos podem morrer dentro do tanque de lastro porque mesmo lá dentro ele não tem comida.'
Percebemos que as ideias são estruturadas segundo o padrão de Lawson (2002), reestruturando a fala da seguinte maneira:
Se (está) dentro do tanque de lastro, então lá dentro ele não tem comida, portanto os seres vivos podem morrer.
Observamos na fala do aluno Fábio o uso dos seguintes indicadores de AC: Raciocínio Lógico, Levantamento de Hipótese, Previsão, Justificativa, e o raciocínio lógico.
No turno 80, o aluno Luciano apresenta os aspectos negativos e positivos de existir as embarcações com o tanque de lastro. Há um levantamento de hipótese, uma previsão (de algo bom ou ruim acontecer) e a justificativa para ambos.
Outro episódio selecionado foi um momento mais adiante dessa mesma aula, quando os alunos voltam do intervalo e a professora pede que os alunos escrevam o que eles acham que vai acontecer com os peixes que foram transportados dentro da água de lastro e chegam a um novo habitat que tem os alimentos que os peixes estão acostumados e não possui seus predadores naturais.
Quadro de dados 02: Transcrição do episódio 2
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Andréia: Eu entendi que o tanque de lastro pode levar animais e quando chega na China ele tem comida e não tem predador para poder comer ele.
Levantamento de hipótese, Previsão, Justificativa
O aluno Hugo já começa sua fala fazendo uma hipótese do que aconteceria com o peixe nessa nova situação. A previsão é de que o peixe ficaria sempre no mesmo habitat e a justificativa é que há o alimento que ele come. Ou seja, se há o alimento que o peixe como no novo habitat, então ele vai ficar por lá 'para sempre'.
Na fala dos outros alunos deste episódio também notamos essa informação de que esse novo habitat vai ser bom para o peixe, pois se há comida e não tem predador, então o peixe irá sobreviver.
No turno 239 encontramos uma nova informação trazida pelo aluno Wellington:
Quadro de dados 03: Transcrição do turno 239
Aqui o aluno também faz a hipótese de que essa nova vida seria 'melhor', e a previsão é que o peixe iria sobreviver, sendo a justificativa de haver muita comida no novo habitat. O aluno apresenta raciocínio lógico e traz uma nova informação quando diz que o peixe, como não tem seus predadores, é 'o rei daquele mar', e tendo outros peixes dessa mesma espécie, é possível que ocorra a reprodução da espécie. Até então os alunos não tinham trazido essa informação para a discussão.
## Comparando duas pesquisas
A análise dos episódios de ensino das aulas ocorridas em duas escolas diferentes, permitiu-nos encontrar indicadores da alfabetização científica, propostos por Sasseron (2008), nestes dois contextos escolares distintos. Como todos os turnos foram extraídos da atividade 7 das aplicações das seqüências, que é uma atividade de leitura de texto, podemos perceber que em ambos os casos o papel do professor foi essencial para o fomento da argumentação dos alunos.
Os trechos analisados, nos dois contextos, tratam de um momento da discussão em que os alunos estão trazendo à tona suas hipóteses sobre a chegada de seres vivos trazidos pela água de lastro para um local diferente do seu habitat natural, e traz discussões acerta de vários problemas, como: alguns destes seres podem ter morrido dentro do tanque de lastro; as condições ambientes do novo local podem ser diferentes daquele lugar em que antes habitavam; e a possível inexistência de outros indivíduos da espécie em questão no local em que chegaram.
Comparando as análises deste trabalho com o de Sasseron (2008), notamos que os indicadores utilizados pelos alunos foram bem parecidos.
Nos dois contextos, os alunos levantam hipóteses acerca do destino dos animais em novos habitats. Eles também apresentam raciocínio lógico ao explicar o porquê de alguns animais poderem morrer e outro não. Outro ponto evidente na
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análise é o levantamento da questão da reprodução dos animais. Nos dois contextos, os alunos apontam a importância de existir seres vivos da mesma espécie para que haja a reprodução.
Percebemos nas falas dos alunos, como as informações vão aumentando com o passar da discussão, e os alunos criam um trabalho inicial de seriar essas informações, ou seja, num primeiro momento a preocupação maior é adquirir elementos que possibilitem uma futura argumentação dos alunos. Com as indagações da professora, os alunos vão se apropriando de idéias, trabalhando com variáveis, de modo a organizar as idéias e criar um raciocínio lógico.
A argumentação vai sendo construída com o passar da aula, sendo que a princípio os alunos fazem um levantamento de hipótese e justificativa. Como as professoras dão a palavra a diversos alunos, um busca na fala do outro aprimorar suas conclusões. Ao longo das discussões, o aparecimento de previsões sobre o que vai acontecer com os animais também é destaque. Ou seja, depois de seriar e organizar as informações iniciais, que passam a ser os dados dos alunos, eles criam uma estrutura de argumento mais completo, apresentando, por exemplo, as conseqüências de haver muitos peixes em um diferente habitat, o fato de alguns animais morrerem e outros não, a importância da reprodução da espécie, tudo isso através de previsões pautadas no raciocínio lógico utilizado.
Esse 'aprimoramento' é notado nas duas realidades escolares, através dos indicadores da alfabetização científica, que aparecem em boa medida numa e noutra realidade escolar. Isso porque o argumento passa a se tornar mais completo a partir do momento que os alunos se apossam de novos saberes e termos, discutidos em aula, de modo a enriquecer suas falas.
Algumas falas dos alunos podem ser reescritas na forma dos padrões de argumentação de Toulmin (2006) e Lawson (2002), o que torna ainda mais evidente o uso do raciocínio lógico por parte dos alunos. O fato de muitos alunos levantarem hipóteses sobre o problema em questão mostra que a elaboração do conhecimento e, assim, da argumentação dos alunos foi favorecida com o tipo de atividade utilizada.
## Conclusões e encaminhamentos futuros
Respondendo à questão proposta em nosso trabalho, chegamos às mesmas conclusões quanto à aplicação da seqüência didática escolhida, apesar dos diferentes contextos escolares. Evidenciamos que, apesar de todas as diferenças, as respostas e participação dos alunos em sala de aula apresentam resultados positivos, tal qual o intuito das seqüências didáticas.
Essas seqüências didáticas favorecem o processo de alfabetização científica, pois, através de atividades investigativas, promovem maior participação dos alunos nas aulas. Isso, como mostrado, independe do contexto escolar em que o aluno se encontra. Depende apenas das atividades propostas e discussões feitas em sala de aula e como elas vão se desenrolar. Com essa comparação, notamos que a Alfabetização Científica se trata sim de um processo, que vai aumentando a partir das discussões e informações presentes nas aulas, onde os alunos apresentam indicadores desse processo a partir do momento que conseguem elaborar argumentações cada vez mais completas, chegando a conclusões plausíveis sobre os problemas propostos nas atividades da seqüência, que foram elaboradas de
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maneira a favorecer essa construção do conhecimento dos alunos, e, analisando os dados, percebemos que isso de fato ocorre, pois com as atividades e problemas propostos, os alunos articulam suas falas, ideias, conhecimentos, de forma a solucionar os desafios propostos.
Com ambos os resultados positivos apresentados, buscamos evidenciar como esse tipo de atividade favorece essa participação dos alunos. Torna-se visível o importante papel que o professor assume no decorrer das atividades, quando faz questionamentos para a reflexão dos alunos, ou mesmo quando apenas concorda com as afirmações dos alunos, encorajando assim que esse aluno continue com seu raciocínio. Esse 'aval' do professor também é muito importante dentro da sala de aula.
Outro ponto que tratamos aqui é que os encontros e reuniões entre professoras e pesquisadores apresentam um papel importante no resultado da aplicação da seqüência, independente do contexto escolar de qual tratamos. A preparação pedagógica do professor pode ser melhorada, e suas dúvidas sanadas nessas reuniões, de modo que a professora se sinta mais confiante e melhor preparada na aplicação da seqüência, preparada para trabalhar com questões que surjam no decorrer das atividades.
Uma proposta de trabalho futura é analisar quais as habilidades do professor que são necessárias na aplicação das seqüências didáticas de modo que favoreça o surgimento do processo de alfabetização científica. Não apenas questionar o aluno, mas saber ouvi-los, incentivar a fala deles em sala de aula, a discussão em grupo, são alguns pontos importantes para a professora trabalhar esse tipo de atividade.
## Referências Bibliográficas
Bybee, R.W., 'Achieving Scientific Literacy', The Science Teacher , v.62, n.7, 28-33, 1995.
Fourez, G., 'Crise no Ensino de Ciências?', Investigações em Ensino de Ciências , v.8, n.2, 2003.
Hurd, P.D., 'Scientific Literacy: New Minds for a Changing World', Science Education , v. 82, n. 3, 407-416, 1998.
Laugksch, R.C., 'Scientific Literacy: A Conceptual Overview', Science Education , v.84, n.1, 71-94, 2000.
Lawson, A.E., 'What does Galileo's Discovery of Jupiter's Moons Tell us about the Process of Scientific Discovery?', Science & Education , v.11, n.1, 1-24, 2002.
Sasseron (2008), L. H. Alfabetização Científica no Ensino Fundamental: Estrutura e Indicadores deste processo em sala de aula . Tese de Doutorado apresentada à Faculdade de Educação da USP, 2008.
Toulmin, S.E., Os Usos do Argumento , São Paulo: Martins Fontes, 2ª. Edição, 2006.
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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.