ENTENDENDO AS INTERAÇÕES EM UM MUSEU DE CIÊNCIA: UM OLHAR PARA A MEDIAÇÃO
Tassiana Fernanda Genzini De Carvalho, Jesuína Lopes De Almeida Pacca
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XIX
- Ano
- 2011
- Data
- 03/02/2011
- Linha de pesquisa
- Divulgação E Comunicação De Física Em Espaços Formais E Não Formais
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## ENTENDENDO AS INTERAÇÕES EM UM MUSEU DE CIÊNCIA: UM OLHAR PARA A MEDIAÇÃO
## Tassiana Fernanda Genzini de Carvalho , Jesuína Lopes de Almeida Pacca , 1 2
¹ Universidade de São Paulo / Pós Graduação Interunidades em Ensino de Ciências / tassiana@usp.br
2 Universidade de São Paulo / Instituto de Física / jepacca@if.usp.br
## Resumo
Fizemos uma análise da atuação de monitores da área de Física, na Estação Ciência, de São Paulo - SP, interagindo com estudantes de Ensino Fundamental II que visitavam o Museu. Levando-se em conta as particularidades do espaço não formal, procuramos identificar, entre vários caminhos possíveis, no discurso desses monitores, ações que favoreciam a ocorrência dos três tipos de interação propostos por Wagensberg (2000): hands on, ou interatividade manual, minds on, ou interatividade intelectual e hearts on, ou interatividade emocional. Pode-se dizer que as interações são todas desejáveis no sentido de estimular socialmente os visitantes, com o objetivo de que eles saiam modificados depois da visita ao museu. Percebemos que a atuação do monitor pode valorizar ou inibir determinado tipo de interação. Do ponto de vista da aprendizagem, considerando-as em seus três pilares: manual, cognitiva e afetiva, verificamos que os tipos de interação podem contribuir de alguma maneira e que a presença do monitor pode ser capaz de induzir essas interações.
Palavras-chave : Interações; Mediação; Monitor; Estação Ciência.
## Introdução
Temos uma hipótese de que museus de ciência são espaços educativos, com potencial para o desenvolvimento de processos de ensino-aprendizagem, mas, com características próprias. Segundo Van-Praët e Poucet (1992, apud. MARANDINO, 2006) as principais particularidades devem ser consideradas com relação ao objeto, espaço e tempo. No que se refere aos objetos, destaca-se a necessidade de promover, junto ao visitante, a possibilidade de sensibilizar, de apropriar, de favorecer sua compreensão (social, histórica, técnica, artística, científica), para uma análise pessoal e para discussão com outras pessoas. Quanto às considerações feitas sobre espaço e tempo no trabalho de Marandino (2006) devemos adaptá-las às condições que serão tratadas aqui. Particularmente, estamos observando visitas escolares. Portanto, a brevidade do tempo está associada, principalmente, aos objetivos da visita, e o espaço é delimitado pelo monitor, que acaba fazendo as escolhas sobre o que mostrar e como fazer isso.
Segundo Falk & Dierking (1992) a aprendizagem engloba componentes relativos ao que se sabe e ao que se sente, logo, ela deve ser considerada nas dimensões afetiva, cognitiva e manual. Eles ressaltam a necessidade de se criar um modelo de aprendizagem para estudar as interações que ocorrem nos museus, enquanto espaços não formais, enfatizando a dimensão social da aprendizagem. Propomos, neste trabalho, um olhar para a dinâmica de interação que esses espaços são capazes de proporcionar, através de seus mediadores. Observemos, então, o que pode significar interação:
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Interação: s.f. Influência recíproca: a interação da teoria e da prática. / Psicologia: Fenômeno que permite a certo número de indivíduos constituir um grupo, e que consiste no fato de que o comportamento de cada indivíduo se torna estímulo para outro. (AURÉLIO, 2010)
Interessa-nos, particularmente, a idéia de que os comportamentos dos indivíduos se influenciam e se estimulam. Paralelamente, as exposições influenciam os indivíduos, conforme vemos em Cazelli e outros:
As exposições são meios peculiares e fundamentais no processo de comunicação com o público. Para isso é crucial que elas sejam atraentes, motivadoras e envolventes, emocional e intelectualmente. No caso particular dos museus de ciência, essas informações são, algumas vezes, provenientes de textos-fonte (saber de referência) ou de textos de divulgação científica. De qualquer forma, essas informações, para terem significado por parte do visitante, necessitam passar por um processo de mediação didática que considere as especificidades das linguagens científica e expositiva. (CAZELLI et. Al, 2003, p.96)
O trecho dá uma ideia de fatores que poderíamos observar para caracterizar interações em museus de ciência. O próprio objeto, os painéis, dioramas, vídeos são alguns dos aspectos que mediam a relação do sujeito com os objetos. Estamos interessados em ver quais interações os mediadores são capazes de promover e o que essas interações, por sua vez, promovem no sentido da aprendizagem, conforme já apresentado. Podemos entender que as formas de interação pretendem promover uma negociação de significados entre aquilo que o visitante traz e aquilo que é desejável como resultado posterior a visita.
Por meio da caracterização de diferentes tipos de interatividade, procurouse, com alguns diálogos entre monitores e estudantes, responder ao seguinte problema de pesquisa: que ações os monitores pretendem promover nos visitantes? Ou seja, de que forma eles estimulam a participação do visitante e como fazem a ponte entre o objeto da exposição e o conhecimento que se deseja apresentar. Ou ainda que tipo de interação é privilegiada? Por quê? Se entendermos que essas interações são no sentido da aprendizagem, devemos considerar que ela pode ocorrer em diferentes níveis, com diferentes profundidades, e é interessante entender quais ações promovem mais uma do que outra interação, e levantar hipóteses sobre o motivo dessa escolha.
Para responder a essa questão foi realizada uma coleta de dados na Estação Ciência, da Universidade de São Paulo, localizada em São Paulo - SP. Para isso, os dados foram coletados através de métodos de observação, com registros pessoais e gravação de áudio. Esses dados foram analisados usando algumas categorias elaboradas a partir de um referencial teórico que define interações em museus e as possibilidades e os limites relativos a elas, que são promovidos ou inibidos pela ação dos monitores.
## Objetivos
- · Identificar as formas de interação que os mediadores promovem junto aos estudantes que visitam a Estação Ciência hands on , minds on e hearts on .
- · Discutir aspectos que promovem ou inibem as interações.
## Metodologia
O problema dessa pesquisa, conforme é indicado para que ocorra em pesquisas qualitativas (MAYRING, 2002), parte de uma problematização importante
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para a área de pesquisa nos espaços não formais de educação, que é o papel do mediador no contexto. As ações do monitor são determinantes para os resultados de uma visita guiada.
A coleta dos dados para este trabalho foi realizada na Estação Ciência da Universidade de São Paulo, localizada no bairro da Lapa, em São Paulo - SP. Atualmente, ela caracteriza-se como um
Centro de Ciência interativo que realiza exposições e atividades nas áreas de Astronomia, Meteorologia, Física, Geologia, Geografia, Biologia, História, Informática, Tecnologia, Matemática, Humanidades, além de cursos, eventos e outras atividades, com objetivo de popularizar a ciência e promover a educação científica de forma lúdica e prazerosa (ESTAÇÃO CIÊNCIA, 2009).
Este é um trabalho qualitativo (BOGDAN&BIKLEN, 1994), que pretende, com alguns dados empíricos, associar um referencial teórico de interações em museus com referenciais teóricos de aprendizagem nesses espaço. Segundo Moraes (2007), os dados vão além de descrições, mas incluem interpretações do pesquisador, quando se pretende teorizar sobre o objeto de pesquisa.
A coleta desses dados foi realizada em maio de 2009, quando uma das pesquisadoras ainda era monitora da Estação Ciência. Foram gravadas 6 sessões de monitorias, com monitores diferentes. Para este trabalho, usaremos apenas 2, das 6, porque notamos que há um padrão entre as apresentações dos monitores, e assim, daremos conta de justificar nossas escolhas com alguns exemplos. As conversas foram transcritas na íntegra, alguns trechos foram selecionados de acordo com aquilo que nos pareceu mais significativo, de acordo com o interesse de pesquisa. As falas indicadas por M são dos monitores, as indicadas por E são de um dos estudantes, e Es são vários falando ao mesmo tempo.
Foram escolhidos momentos em que os monitores estavam apresentando a estudantes de Ensino Fundamental II dois dos experimentos mais 'famosos' da área da Física: o Gerador de Van De Graaff e a Bobina de Tesla. Muitas pessoas já conhecem os experimentos, que são bastante explorados na mídia em geral. Os fenômenos de alta eletricidade têm um grande poder de maravilhar as pessoas, deixando-as curiosas e sensibilizadas.
As gravações foram transcritas e analisadas, buscando algumas categorias que permitem fazer um levantamento sobre as ações dos monitores que favorecem interações entre os visitantes e deles com o fenômeno. Para analisar os dados coletados foram escolhidas categorias a priori (MORAES, 2007), isto é, que foram originadas a partir de um trabalho teórico (WAGENSBERG, 2000). Esse autor define três tipos principais de interação que podem ser proporcionadas dentro de uma exposição em um museu: hands on , minds on e hearts on .
É preciso que tomemos o seguinte cuidado ao usar estas categorias: o autor refere-se a tipos de interação que a exposição pode promover, e muitas vezes, refere-se ao objeto, em si, ou aos textos. Em nenhum momento ele promove a discussão de como a mediação humana (os monitores) entra nessa análise. É nesse ponto que se apresenta o aspecto inovador deste trabalho. Acreditamos que a visita mediada é, sem dúvida, uma experiência ímpar aos visitantes. É esperado que a mediação possa oferecer todos esses tipos de interação, em diferentes níveis, então, é interessante perceber quais aspectos as favorecem ou as inibem.
## Caracterizando as interações
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Em Wagensberg (2000) encontramos uma denominação de três tipos de interações possíveis de ocorrer em exposições de museus de ciência. São elas: hands on ou interatividade manual, minds on ou interatividade mental e hearts on ou interatividade emocional. Resumidamente, temos:
- · Hands on : considera o toque e a manipulação física como a principal forma de interação. Estimula os sentidos, em geral. Pode ser considerada como uma ação de manipular a natureza, como 'apertar de um botão', por exemplo. A manipulação é capaz de com o estímulo, gerar uma provocação e uma pergunta no visitante.
- · Minds on : proporciona situações para que as idéias e pensamentos dos visitantes possam se modificar durante ou depois da visita, suscitando questionamentos e dúvidas. Há também a possibilidade de fazer ligações com fenômenos do cotidiano de mesma natureza.
- · Hearts on : estimula emocionalmente o visitante, mexendo com seus sentimentos, despertando diversão, medo, nojo, competição. Um bom museu é capaz de concentrar diferentes emoções inteligíveis, ou seja, que pretendam estimular o visitante, chamar a atenção para aquilo que está exposto.
Desta forma, em uma análise preliminar é claro que encontraremos os três tipos de interação na relação entre monitor - objeto - estudantes.
Nesse sentido, a relação feita por Hein e Alexander (1998, apud MARANDINO, 2006, p. 97) mostra como se pode pensar na aprendizagem, ressaltando que além das particularidades do espaço não formal, estamos tratando de um 'fenômeno complexo e multifacetado'.
De acordo com Hein e Alexander (1998, p.44) a aprendizagem ocorre no museu por meio da interação entre visitantes, objetos e programas, sendo o desafio para os educadores desses espaços converter esse momentos em oportunidades de aprendizagem. Neste aspecto, indicam que a construção de sentidos e a natureza social das interações que ocorrem com o público nos museus sofrem influencia dos seus conhecimentos prévios, de suas atitudes e interesses, tratando-se de um fenômeno complexo e multifacetado. (MARANDINO, 2006, p. 87)
## I - Hands on
A primeira proposta para interações do tipo hands on , está na origem da própria expressão e remete a interação manual. Normalmente, exposições que contêm o push-bottom , ou seja, objetos que esperam que o visitante aperte um botão, e, então, mostram um fenômeno. As interações desse tipo são as que estimulam o visitante a participar com maior facilidade, pois, quase sempre, a curiosidade o motiva para a ação.
Segundo Wagensberg (2000) exposições do tipo contemplativas também podem ser consideradas interativas. Desta maneira, podemos começar a extrapolar a idéia de utilizar apenas as mãos para interagir, mas considerar que as ações que exploram os sentidos (paladar, olfato, audição, visão e tato) são consideradas hands on .
Os objetos foram escolhidos propositadamente para está análise, uma vez que eles não dão conta, sozinhos, de interagir manualmente com o visitante. Na Estação Ciência, somente os monitores conhecem como ligá-los, e, portanto, só há interação na presença de um monitor.
É interessante notar que, por ter algum conhecimento prévio sobre os objetos, ou porque já viram na televisão, ou porque já vivenciaram aquela
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experiência em espaços semelhantes, os visitantes já possuem expectativas, e os monitores se aproveitam dela para estimular o diálogo e a participação. A manutenção desse processo gera novos estímulos que acabam gerando uma nova postura e novas ações.
Observe como o M1 conduz o diálogo para que os estudantes toquem na esfera do Van de Graaff:
M1: Aqui as cargas elétricas ficam paradas em cima dessa bola, e daí, olha só, quando eu chego perto elas descarregam. (Faíscas) O que que isso daqui parece? Es: Raio, raio!
M1: Um raio. Daí, ó, se eu encostar esse fio aqui, essas cargas são jogadas pra terra. O nome desse fio é fio terra, e daí não dá choque. É... não dá choque. Vocês acreditam nisso? Quem quer vir aqui? (...) Vem (...) Você quer vir também? Depois você vem. Pode subir, por favor. Coloque suas duas mãos na bola. Na parte de cima, ou debaixo. Pode por a mão. Como eu disse a bola estava cheia de cargas elétricas, ela colocou a mão nessas cargas elétricas, e as cargas elétricas, agora, estão aonde? Es: nela.
O fato de tocar uma bola carregada eletricamente não é muito confortável aos estudantes. No entanto, experiências anteriores já os alertaram de que aquela é a máquina que arrepia os cabelos, e mais interessados pelo fenômeno eles se esquecem do medo. Agora, quando falamos da Bobina de Tesla, que é menos conhecida pelo senso comum, as reações não são as mesmas:
M1: Segura aqui, daquele jeitinho. Bom, quais são as regras? As regras são as seguintes: primeira coisa que eu vou pedir é que vocês, principalmente vocês que estão aqui, mais perto dela, irem mais para trás, porque não pode encostar nela, nesse momento. Outra coisa, muito importante: isso daqui (a bobina) é solto, você não pode puxar nem empurrar. E ainda, mais um último aviso, muito importante é que você não pode soltar dessa bolinha, Certo? Fecha bem a sua mão aí, nela. Se você tiver muito medo, pode fechar o olho. Respira.(...) Não, se você prender a respiração, você vai morrer né? E nem vai ser por causa do choque.
E18: Sério?
M1: Não, não, tô brincando! (liga e desliga, rapidamente). Deu choque?
E18: Não
M1: Então, agora, eu vou ligar (liga). Tá dando choque?
E18: Não. Nenhum. (desliga)
O monitor usa sua fala para passar instruções, mas, ao mesmo tempo, ao contrário de um texto informativo, ele é capaz de usar aspectos lúdicos durante sua intervenção. As interações hands on têm o caráter de testar a natureza, e nesse caso, a experiência com o objeto vai contra o senso comum: em geral, as pessoas acreditam não poder tocar em uma esfera que contém duzentos mil volts de diferença de potencial. Outro aspecto positivo é que o monitor compartilha as questões, pondo em dúvida o conhecimento cotidiano, no final desse episódio.
Para demonstrar a semelhança na atuação de diferentes monitores, temos o mesmo momento do que o de cima, mas vivenciado, desta vez, por M2:
M2: Raio roxo? Exatamente, né? Agora, levante a mão quem é corajoso. Só levante a mão, pra eu saber. (os alunos levantam a mão, monitor escolhe um) Vem cá você. (...) Você é corajoso assim, tão corajoso a ponto de segurar aqui na bolinha? (Monitor chama outro estudante) Ela disse que é tão corajosa, mas tão corajosa, tão corajosa que vai segurar aqui na bolinha. A energia vai passar no corpo dela, e ela não vai sentir. (muitos gritos, parece que pedindo pra chamar outra) Isso!Muito bem! Segura bem firme. Pessoal, pessoal, pessoal. Nesse momento ela está segurando a
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máquina, né, e toda energia dessa máquina, cerca de 200 mil V (gritos) vai passar no corpo dela. E nós veremos o que acontecerá com ela. Silêncio (há vozes dizendo "não, não") 1 minuto de silêncio, ela merece. São os últimos momentos dela. Será que é, ou não? Não eu acho que não. Não pode tirar a mão, tá bom? (monitor faz a contagem, engana-os, fazendo suspense) Não tire a mão, eu peço pra você, custe o que custar, vamos lá? (monitor liga a máquina) A máquina está ligada neste momento (...) (desliga) Aconteceu alguma coisa? Não perdeu a memória? E18: Não.
Além de usar a máquina, o monitor que conhece já as potencialidades, sabe explorar um fenômeno de mesma natureza de maneira diferente. No Van de Graaff, por exemplo, espera-se que ao encostar na esfera eletricamente carregada, e estando isolado do chão, os cabelos manifestem o fenômeno de repulsão eletrostática. No episódio a seguir, o M1 explora a atração eletrostática, na mesma máquina, fazendo com que o estudante eletricamente carregado seja capaz de atrair pequenos pedaços de papel:
M1: O teste é o seguinte, ó: tira só uma das mãos da bola. Não, põe essa mão de novo, e tira a outra. Estica ela assim, pra mim. Abre a mão e não mexe, tá bom? Ela está cheia de carga elétrica, só que as cargas que estão nela são todas positivas, e carga positiva não gosta de carga positiva, por isso que elas descarregam. Elas gostam do que, então?
Es: Negativa.
M1: Dá negativa. Olha só (Monitor aproxima alguns pedacinhos de papel picado da mão da E7). Viu só o que você fez?
E8: É foi mágica!
## II - Minds on
As interações que provocam a mente dos visitantes são as mais desejáveis do ponto de vista educacional, que valoriza a aprendizagem cognitiva. A mudança de postura ou, mais desejável ainda, uma mudança conceitual, feita em direção à Ciência é difícil de ser conseguida, por diversos fatores, como, por exemplo, a brevidade do tempo e aspectos comunicativos utilizados, que, às vezes, não favorecem a (re)formulação conceitual.
Quando se pensa em educação, de um modo bem geral, pensa-se em formação de pessoas com espírito crítico, que tenham atitudes que consideram a sociedade em que está inserido e o meio ambiente. É a preocupação em formar um cidadão, no sentido mais utópico que isso possa ter.
Uma estratégia comum aos monitores é tentar relacionar algum conhecimento abordado com coisas do cotidiano, fazendo analogias, ou resgatando fenômenos análogos da vivência dos estudantes. Observe como o M1 relaciona tensão com corrente elétrica, e, em seguida, tenta explorar o conceito de corrente elétrica com os alunos, de maneira quase que intuitiva:
M1: Na tomada vocês falaram, é 110 ou 220V. O que mais tem na tomada que não falei nada aqui? Na tomada tem uma outra medida, muito importante além da voltagem, da tensão. (...) É uma coisa chamada de corrente elétrica. Já ouviram falar de corrente elétrica? (...) A Corrente elétrica é mais ou menos assim, a carga elétrica, elas andam como se fossem fila. Se essa fila está correndo, a gente tem uma corrente o quê? Es: Elétrica.
M1: Elétrica, sim, mas ela é alta ou é baixa?
E2: é alta.
M1: E se a fila anda bem devagarzinho. Se tem pouca gente, significa que a fila anda bem devagarzinho. Então ela também é baixa. E se a fila tem muita gente, significa que ela é alta. A corrente elétrica é ela que dá o
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choque na gente, e mata a gente. Em casa essa corrente é alta, e nesse aparelho aqui, ela é o que? Es: baixa. M1: A corrente elétrica tem a ver com esses 200 mil V que eu falei? Todos: Não M1: Não. Se tivesse, ela seria alta, também, né?
O M2, no episódio a seguir, propõe uma reflexão sobre o transformador. No início, os estudantes dizem não conhecer. Após uma ação de problematização do cotidiano, eles parecem tomar consciência de sua função:
M2: Muito bem, mexe com energia. Pessoal, vocês já ouviram falar em um transformador? Es: Não! M2: Não? Será que não? Um transformador? E9: Eu já. M2: Ele já, né? Quem tem celular levanta a mão! (...) O celular. Será que eu posso pegar um fio, ligar ele diretamente na portinha do celular, naquele buraquinho, pegar o fio e ligar na tomada, direto? Es: Não. M2: Qualquer fio? Es: Não. M2: Não, né? E10: Você pega o fio do celular e liga na tomada M2: No fio do celular tem aquele negocinho grosso, num tem? Aquilo é um transformador. Sabe o que aquela caixinha faz, que está ligada ao fio? E11: Eletricidade M2: Não E7: Carrega o celular. M2: Isso, carrega o celular. Aquela caixinha que tem lá, na pontinha do fio, é um transformador. Pega a energia que tem na parede que é muito alta, e diminui essa energia, pra poder caber energia no celular. Se não fizesse isso, o que aconteceria com o celular?
E12: Explodia.
Além de situações como as anteriores, os monitores costumam sintetizar os conceitos que eles apresentaram, e através de questionamentos conseguem perceber o quanto os alunos assimilaram daquelas informações:
M2: Ele está concentrado agora. Pessoal a pergunta que não quer calar: Será que o ar, conduz energia?
Es: sim...
M2: Como vocês sabem?
Es: por que tem faísca...Tem um imã gigante...por que eu vi
M: Ahh! Eu vi você falando que é porque teve aquela faísca ali. Pessoal, tem ar aqui? Vamos ver.
Es: Temm
M2: ah, ainda bem, tem! Essa energia, ela é tão alta, mas tão alta que ionizou as moléculas de ar e passou pelo ar. Então o ar conduz energia?
Es: Sim!
M2: Conduz, se ela for bem alta.
## III - Hearts on
Esse tipo de interação relaciona-se com as possibilidades que o monitor tem de modificar emocionalmente o visitante. Os sentimentos despertados podem remeter a valores pessoais e culturais, podendo ser capazes de marcar o indivíduo e tornar aquela visita inesquecível. É desejável, no entanto, não despertar qualquer tipo de emoção, mas despertar as emoções inteligíveis.
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- O outro aspecto interessante está relacionado, também, às interações sociais. Os aspectos culturais e sociais são estimulados de diferentes formas, a partir da interação do indivíduo com o objeto e dos indivíduos entre si.
Motivados em buscar emoções, uma das características das apresentações dos monitores é um forte apelo ao show. Diversas atitudes são consideradas a fim de dar dinamismo à atividade, propondo a participação constante dos visitantes. O aspecto lúdico está presente em muitos momentos, mesmo durante falas mais centradas em conceitos.
No episódio a seguir, M1 explora o medo do estudante em participar da interação com o objeto e se aproveita disso para resgatar conhecimentos prévios, colocando-os em dúvida de maneira muito particular. Propõe que testem, e esse teste lhes custaria a vida, caso ele estivesse certo.
M1: E aí? Isso daqui mata? Es: Mata! M1: Mata? Por que mata? E17: A voltagem. M1: A voltagem é muito alta e por isso mata? E17: Ele descarrega tudo na pessoa, passa nos órgãos e por isso mata. M1: Será? Eu vou chamar alguém para vir aqui (gritos, se recusando a ir), e fazer o seguinte, presta atenção: tem que abrir a mãozinha aqui, segurar nessa bolinha, fechar o olho e daí eu ligo a máquina. (Muitos gritos de 'Não!!!')
Mesmo diante das recusas, após algum tempo, os estudantes quase sempre são convencidos a participarem. Isso pode ser um indicativo forte de mudança de atitude, afinal, ele abandona um conhecimento prévio, ao menos, para trabalhar com aquela situação em particular.
No episódio a seguir, M2 propõe aos alunos uma mudança de contexto. Nisso, ele pretende aproximar os estudantes da vivência de um cientista. É uma proposta interessante, ainda que tenha sido pouco explorada:
M2: Pessoal, estamos aqui, neste momento na sala de um cientista, tá bom? Que que o cientista faz? E3: Experiência M2: O E3 falou que o cientista faz experiência. Realmente faz experiências, e o que nós vamos fazer aqui? Es: Experiência! M2: Experiência né? Que legal! A nossa primeira experiência vai ser olhar para essa máquina esquisita. Vamos primeiro só olhar, só olhar. E agora, vamos tentar adivinhar o que que essa máquina faz. Vamos olhar, vamos olhar. Hum, tem um fio aqui. Tem um monte de fio aqui. E o que será que faz?
Na situação a seguir temos o episódio de acender a lâmpada, encostando a mão na Bobina de Tesla. O M1, quando provocou essa ação pareceu-nos mais preocupado com a interação manual. Nessa mesma situação, M2 utilizou-se fortemente do lúdico, e por isso, ela foi caracterizada como uma interação do tipo hearts on :
M2: Pessoal, se a energia passar pelo corpo dela, o que vai acontecer com a lâmpada?
Es: Acende
M2: Vamos ver. Pessoal, três coisas podem acontecer, nesse momento. Opção número 1: lâmpada acender; opção número 2: ela acender;
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(risadas); opção número 3: as duas explodirem, opção número 4: humm, qual é a opção número 4?
Es: ela morrer.
M2: É, ela morrer. O que vai acontecer?
Es: a lâmpada vai acender
M2: Pessoal, pessoal, todos de olhos bem arregalados, pode ser o último momento dela. Não pisquem, se não, podem perder a luminescência da lâmpada. Arregalados. Ligando.
## Considerações Finais
Avançando na própria história dos museus e as funções que eles assumiram desde que foram criados, podemos entender que a função deles, hoje, é diferente do que pretendia, por exemplo, quando se busca a origem do termo museu. Há algum tempo, não cabe mais entender os museus como espaços que guardam coisas velhas. Atualmente, os espaços possuem conhecimentos transbordando, à procura de visitantes sedentos em experimentá-los. Por conta disso, o estímulo à participação vem ganhando cada vez mais força, e em museus de Ciência já quase não existem exposições de apenas contemplação. O que queremos é que o visitante antes de entrar no museu seja diferente do visitante que sai do museu. (WAGENSBERG, 2006, p. 29). Queremos que os visitantes passem por experiências capazes de modificar-lhes.
Foi possível encontrar os três tipos de interação propostas a priori , na análise dos episódios de mediação. Com as devidas particularidades que essa análise proporcionou, observamos a interação manual incentivada pelos monitores como a participação primeira, de contato com o objeto exposto e que acaba gerando um desencadeamento de ações rumo às outras interações. A interação intelectual ocorre, principalmente, nas aproximações com o cotidiano, nas formulações e analogias que pretendem trazer conceitos físicos. E a interação emocional ocorre desde o momento em que se chega ao museu, deparando-se com os experimentos, até com a participação na atividade lúdica. Segundo Wagensberg (2000), concordamos que:
a terceira é muito recomendável, a primeira é muito conveniente e a segunda é sensivelmente imprescindível. Interatividade significa conversação. Experimentar significa conversar com a natureza. Refletir significa conversar consigo mesmo. E um bom museu também incentiva a conversa entre os visitantes. (WAGENSBERG, 2000, p. 16).
Para responder como os três tipos de interação podem ser mais ou menos favorecidos com a presença do monitor, focalizamos cada uma delas. As interações hands on são mais favorecidas, quando o visitante já se vê envolvido com a exposição. São normalmente estimuladas pela curiosidade primeira, de mexer, de tocar, de olhar mais atentamente aquele objeto da exposição. No nosso caso, esta interação é fortemente mediada pelo monitor. Em situações mais usuais ela pode ser inibida quando o visitante é impedido de chegar perto ou quando há longas instruções para participar.
Nas interações minds on , o estímulo é também intelectual: despertar a vontade do visitante em aprender, mostrando-lhe um fenômeno que suas estruturas mentais não são capazes de explicar, por exemplo. Por outro lado, um constrangimento seria a forma mais inibidora desse tipo de interação. Na Estação Ciência, os monitores procuram abrir espaço para as manifestações e evitar constrangimentos.
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Quanto à interação hearts on , é a que, talvez, possua a linha mais tênue entre ações que a promovam ou a inibam. Por despertar emoções e valores nos indivíduos, ela é capaz de se aproximar ou se afastar deles com muita facilidade. Promover interações desse tipo deve acontecer sempre com ações sutis, e não explícitas. Na Estação Ciência o monitor parece conseguir aproximar-se dos estudantes e facilitar a participação.
No que possa ser a maior função de um museu, atualmente, as ações dos monitores podem estimular os visitantes a conversar com a natureza, com a sociedade e com os outros visitantes. Utilizando-se de diversos atributos, os monitores trabalham muito bem com as três formas de interação. Percebe-se uma preocupação grande com a aprendizagem cognitiva, devido à aproximação com o espaço formal, que está vinculado aos objetivos da visita.
## Referências Bibliográficas
- · AURÉLIO. Disponível em : <http://www.dicionariodoaurelio.com/dicionario.php?P=Interacao> - Acesso em 15
de julho de 2010.
- · BOGDAN, R. e BIKLEN, S. (1994) Investigação Qualitativa em Educação: uma introdução à teoria e aos métodos . Porto Editora, Porto.
- · CAZELLI, S.; MARANDINO, M.; STUDART, D. (2003) Educação e Comunicação em Museus de Ciências: aspectos históricos, pesquisa e prática. In: GOUVÊA, G.; MARANDINO, M.; LEAL, M. C. (Org.). Educação e Museu: a construção social do caráter educativo dos museus de ciências . Editora Access/Faperj, Rio de Janeiro, p.83-106.
- · ESTAÇÃO CIÊNCIA. Disponível em: <http://www.eciencia.usp.br/> Acesso em: 03 de outubro de 2009.
- · FALK, J.H.; DIERKING, L.D. (1992) The Museum Experience . Whalesback Books, Washington, USA.
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