HISTÓRIA DAS PRÁTICAS DE ENSINO DE FÍSICA: O EXEMPLO DA FACULDADE DE MEDICINA DE SÃO PAULO (1913-1943)
Roberto Bovo Nicioli Junior, Cristiano Rodrigues De Mattos
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XI
- Ano
- 2008
- Data
- 22/10/2008
- Linha de pesquisa
- Ensino-Aprendizagem De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## HISTÓRIA DAS P PRÁTICAS DE ENSINO DE FÍSICA: O EXEMPLO DA FACULDADE DE MEDICINA DE SÃO PAULO (1913 -1943) HISTORY OF THE PHYSICS TEACHING PRACTICES: THE EXAMPLE OF SÃO PAULO FACULTY OF MEDICINE (1913 -1943)
Roberto Bovo o Nicioli Junior 1 Cristiano Rodrigues de M Mattos 2
1 FEUSP/P/Programa de Pós -Graduação em Educação/o/robnj@ig.com.br 2
IFUSP/Departamento de Física Experimental/mattos@if.usp.br
## Resumo
O trabalho pretende investigar como foi i realizado o ensino de Física na, então, Faculdade de Medicina de São Paulo entre o período de 1913 até 1943. Para isso foram levantados documentos oficiais e pedagógicos que resgatatam a organização e o cotidiano escolar da época. Em nossa análise procuramos observar quais foram os principais conteúdos estudados, formas de avaliação, principais ferramentas pedagógicas e os enfoques curriculares dado no o ensino da Física nesse período. São destacados, , também , a organização curricular da Faculdade e os professores que a organizaram. Fica claro que a instituição foi muito importante para o enensino de Física uma vez que provocou profundas mudanças curriculares que apresentam traços até os dias de hoje . Também destacamos que a disciplina Física se organiz ou de acordo com as finalidades impostas pela sociedade através de suas necessidades . Pretendemos assim resgatar, r, além da historicidade do ensino de Física brasileiro, a importância dessa instituição e de sua contribuição através da história de suas práticas escolares . Sugerimos que o olhar sobre o passado vem carregado de interesses na compreensão de fenômenos que estão relacionados com as preocupações e os desafios do presente, tentando identificar r padrões que possam dar indícios de como resolver as problemáticas recentes da área educacional.
Palavras -chave:Ensino de Física, Práticas Escolares, , História da Educação Abstract
The main objective of this work is to expose a study y of how was Physics teaching at Faculty of Medicine of São Paulo in the period of 1913 to 1943 . In order to accomplish this target we assessed official and pedagogic documents that point out the organization and the daily school practice e at that t time. The analysis we presented here we observed which were the main studied contents, evaluation forms, pedagogic tools and curricula given in the Physics teaching in that time. We also point out the curricular organization of Faculty and the teachers that organized it. It is clear that this institution had a major role o on the history of f Physics teaching since it provoked deep changes in curricula, which are present nowadays. . We also point out that the discipline of Physics was organized in agreement with the purposes imposed by the society through their needs . In benefit of the history of Physics teaching in the Brazil we recovered the importance of that institution and its contribution through the history of its school practices. Then, we looked to the past, in the sense of revealing phenomena that are related with concerns and challenges of the present, looking for to identify patterns to give indications of how to solve the some of the current problems of Physics teaching.
Keywords: Physics Teaching, School Practices, History of the Education
## INTRODUÇÃO
Cada vez mais c cresce o número de pesquisas em história da educação cuja contribuição não se limita à historiografia. Isto significa que o olhar sobre o passado vem carregado de interesses na compreensão de fenômenos que estão relacionados com as preocupações e desafios do presente . Assim, surge a pretensão de se identificar r padrões que possam dar indícios de como resolver as problemáticas recentes da área educacional. Pesquisas atuais apontam para a necessidade da análise do cotidiano escolar e sobre o conhecimento nele produzido, denominado por Hamilton (1992) como o campo da história da educação escolar r ou história da escolarização . Dessa forma, os dados quantitativos da história da educação escolar se tornaram insuficientes para responder questões sobre a vivência escolar, r, implicando na necessidade de se e explorar fontes históricas que resgatem esse cotidiano.
Historicamente a escola construiu condutas, valores e comportamentos próprios das relações histórico-o-culturais estabelecidas com o meio social a qual pertence, o que lhe atribuiu uma identidade própria. Identidade esta que foi se modificando ao longo do tempo à medida que novas necessidades iam surgindo . Compreendê-la é importante , pois ajuda a d delimitar o universo em que a escola está inserida atualmente. Juliá (2001) salienta que devemos explorar a "caixa preta" da escola e, para isso, temos que levar em consideração as práticas cotidianas sobre o funcionamento interno da escola. Deste ponto de vista , deveríamos recusar uma visão essencialmente externalista , na qual as histórias do meio escolar se fundamentam em textos legais. Desta forma deveríamos explorar mais as organizações internas da escola e o que Juliá (2001) define como cultura escolar , conceito ligado à diversas variáveis :
- " "... poder-r-se-i-ia descrever a cultura escolar como um conjunto de normas que definem um conhecimento a ensinar e condutas a inculcar, e um conjunto de práticas que permitem a transmissão desses conhecimentos e a incorporação desses comportamentos; normas e práticas coordenadas a finalidades que podem variar segundo as épocas (finalidades religiosas, sóciopolíticas ou simplesmente de socialização). Normrmas e práticas não podem ser analisadas sem se levar em conta o corpo profissional dos agentes que são chamados a obedecer a essas ordens e, portanto, a utilizar dispositivos pedagógicos encarregados de facilitar sua aplicação, a saber, os professores primários e os demais professores". (JULIÁ 2001, p. 10)
- O autor r ainda propõe que , para esse tipo de abordagem , a história das disciplinas preenche essa lacuna a partir de uma ampliação das fontes tradicionais. Dessa forma não se pretende eliminar as variáveis externalistas (políticas, econômicas e sociais), mas aproximá-las às normas e práticas internas da escola. A história das disciplinas, discutida por Chervel (1991), mostra que a escola tem a capacidade de produzir uma cultura específica. A escola não realiza uma simples vulgarização do saber erudito, ela elabora métodos e conhecimentos específicos cujos efeitos refletem sobre a sociedade e a cultura. Possuem, portanto, uma cultura escolar que não se estrutura pela ciência erudita, mas para uma necessidade da da sociedade.
"Desde que se compreenda em toda a sua amplitude a noção de disciplina, desde que se reconheça que uma disciplina escolar comporta não somente as práticas docentes de aula, mas também as grandes finalidades que
presidiram sua constituição e os os fenômenos de aculturação de massa que ela determina, então a história das disciplinas escolares podem desempenhar um papel importante não somente na história da educação mas também na história cultural. Se se pode atribuir um papel "estruturante" à função educativa da escola na história do ensino, é devido a uma propriedade das disciplinas escolares". (CHERVEL 1990, p. 184)
Nesse sentido, , o pesquisador deve estar atento às inovações e os diferentes registros devem ser r analisadados de diversas formas sejam eles de diferentes níveis hierárquicos como, por exemplo, documentos oficiais, livros, planos de ensino, provas, materiais didáticos em geral etc. Além disso, a disponibilidade e qualidade dos registros, na maioria das vezes estão ligadas a eventos que criam turbulências na dinâmica histórica escolar: "mais que nos tempos de calmaria é nos tempos de crise e de conflitos que podemos captar melhor o funcionamento real das finalidades atribuídas à escola" (JULIÁ 2001, p. 19). O que aponta para o quão equivocado o seria analisar uma cultura escolar r desconsiderando as diversas as camadas sociais hierárquicas que a cercam e compõem .
Outro constituinte importante do sistema escolar e que deve ser considerado na análise de uma cultura escolar é o professor. Sua formação tatambém deve ser levada em consideração , uma vez que delimita o enfoque das práticas escolares. Isto remete novamente à história das disciplinas escolares, pois ilustra que as "adaptações" dos professores ao meio escolar específico, não são reflexos de uma ciência de referência, mas um produto específico da escola, que por sua vez, numa causalidade circular, é produto desse professor . Além disso , temos que levar em consideração a interação dos elementos que compõem um nível hierárquico o e uma forma de explorar esses conteúdos é por meio dos livros didáticos, porém vale destacar que " "o manual escolar não é nada sem o uso que dele for realmente feito, tanto pelo aluno como pelo professor " (Juliá 2001, p. 34) . Dessa forma, o conteúdo existente e como ele é trabalhado em sala de aula e a avaliação parece estar r no coração da "caixa preta" das práticas de ensino. Seu registro histórico pode apresentar r uma historicidade das modalidades de relacionamento entre professor e aluno com o que é ensinado (J(Juliá 2001, Chervel 1991).
Temos, portanto, como objetivo principal, destacar as principais práticas pedagógicas usadas na época, quais os tipos de conteúdos estudados, se sofreram modificações e, de uma forma geral, qual a importância dessa instituição para o ensino de Físicica no Brasil .
## Desenho da pesquisa
Este trabalho é uma etapa de nossa pesquisa que se iniciou no mestrado, através da história do conteúdo de cinemática nos livros didáticos de 1810 e 1930 (NIC IC IOLI & MATTOS 2008). ). Para compreender suas mudanças foi necessário resgatar a história da disciplina Física, no qual percebemos que durante essa época tinha uma finalidade diferente dos dias atuais, com uma formação mais profissional (NICIOLI & MATTOS 2007). A partir disso destacou-s-se, primeiramente o ensino militar, depois o politécnico e por fim o ensino médico. Agora , no doutorado , ampliamos nossa pesquisa para, além dos livros didáticos, abranger as práticas escolares e o novo período se inicia no século XVIII até o século XX. Atualmente estamos imersos no ensino médico apresentando neste trabalho , alguns resultados de nossa pesquisa.
O levantamento feito na atual Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo . Foram analisados regimentos, regulamentos, memórias históricas, bem como documentos didáticos como notas de aula e provas arquivadas desde o ano de 1913, quando se iniciou o curso de Física, , até 1943, último ano em que foram encontrados documentos referentes ao ensino de Física na Faculdade. Sobre a estrutura educacional encontramos informações no museu hihistórico localizado na própria Faculdade. Nele obtivemos autorização de acesso a livros e regulamentos , muito bem guardados pela bibliotecária. Um deles é é o livro Physica Acústica a de 1933 do professor Dr. Luiz Cintra, com 33 aulas taquigrafadas por Pedro Janini, contendo ricas informações sobre as aulas de Física na Faculdade. No arquivo permanente da Faculdade de Medicina, encontramos os prontuários de praticamente todos os alunos da faculdade desde sua fundação, já que um incêndio no ano de 1999 destruiu uma pequena parte do acervo. Nesses prontuários encontram-s-se desde fotos dos alunos, históricos escolares e recibos, até as provas realizadas pelos alunos e corrigidas pelos professores.
Por meio desses documentos pudemos resgatar importantes dados sobre o cotidiano escolar dos alunos bem como informações sobre a estrutura curricular ao longo dos anos, os conteúdos estudados, os livros didáticos e os critérios para a avaliação e correção das provas. Foram averiguados aproximadamente 500 prontuários, dos quais foram fotografadas 185 provas. Inserimos, também, neste trabalho algumas conclusões obtidas em nosso mestrado através da análise de livros didáticos do mesmo período. Elencamos , também, , na bibliografia um total de 9 livros de 5 autores diferentes citados em algumas provas realizadas por candidatos ao curso pré-medico1 o1 de 1934 .
## A Faculdade de Medicina de São Paulo
## Analise política-o-organizacional
A Faculdade de Medicina de São Paulo foi resultado da necessidade e do reconhecimento social que já se instalara em São Paulo no século XX. Com um desenvolvimento econômico e político digno das cidades grandes, São Paulo sofria com a falta de médicos. A realidade educacional do Brasil naquela época era bem diferente dos dias de hoje, uma vez que a escola foi exc lusivamente criada pelas e para as elites burguesas (BITTENCOURT 2003). ). Portanto o candidato a qualquer curso superior pertencia a uma classe social privilegiada.
No que diz respeito ao ensino de Física no secundário, a disciplina se tornou obrigatória para ingresso no ensino superior somente no final do século XIX e, mesmo assim, tardou a ganhar destaque no ensino secundário brasileiro devido ao forte tradicionalismo do ensino humanísticooliterário que havia na época . No início do século XX São Paulo e Rio de Janeiro eram os "pólos científicos" do Brasil, uma vez que formavam engenheiros e médicos. Para isso, esses cursos necessitavam iniciar o aluno às disciplinas científicas, justificanando o a disciplina Física de nível secundário estar, inicialmente, no pririmeiro ano do ensino superior. Por isso , essas instituições foram muito importantes para o ensino brasileiro, já que foram as pioneiras do ensino científico no Brasil. Em 1913, no primeiro ano de funcionamento da Faculdade de Medicina de São Paulo, as únicas três cadeiras que compunham o
quadro curricular era Física Médica, Química Médica e Historia Natural Médica 2 (Biologia)2 )2 , que juntas denominavam o "ano único" (LEIS E REGULAMENTO 1913) .
Apesar disso, mesmo com sua criação em 1912, a Faculdade sofreu dive rsas dificuldades para o estabelecimento de sua continuidade, pois não dispunha de um prédio para ministrar as aulas e formar novas gerações de médicos . A A primeira cede , provisória , da Faculdade "foi instalada na Escola de Comércio Álvares Penteado, cedida gentilmente pela sua diretoria. Nela tiveram lugar as primeiras inscrições para o exame de admissão que ficaram abertas de 14 a 21 de fevereiro de 1913" (FARINA 1972, p. 20). Os exames eram aplicados por professores do Ginásio do Estado da Capital . A aula inaugural foi realizada em 2 de abril de 1913 e foi proferida no salão da escola Politécnica pelo professor Edmundo Xavier, professor r da cadeira de Física e Química Médica .
No primeiro ano do curso havia 180 alunos dos quais 70 terminaram o ano e somente 34 foram aprovados 3 . Eram realizadas quatro provas parciais durante o período letivo "cuja média era somada à nota do exame oral para, por meio dos coeficientes ponderais, ser calculada nova média final de aprovação e reprovação" (FARINA 1972, p.23) . Nesse se primeiro "ano único" houve um acontecimento que nos chamou a atenção quanto ao cotidiano escolar daquela época e que justifica , em parte , o pequeno número de 70 alunos (dos 180 matriculados) que chegaram ao final do ano. Já na primeira prova do primeiro ano quase todos os alunos tiveram notas insuficientes, provocando uma grande insatisfação por parte dos alunos. Para manifestar sua indignação os alunos vaiaram os professores. "Queixavam-se unanimente do julgamento da provas, ninguém acusa ninguém e todos condenavam o insólito procedimento" (FARINA 1972, p. 28). O então diretor r repreendeu os alunos prometendo que em caso de reincidência medidas drásticas seriam tomadas. Infelizmente o fato voltou a acontecer, fazendo com que 52 alunos fossem suspensos os por um ano e, evidentemente, perdessem o ano letivo (FARINA 1972) .
Analisando os documentos históricos vimos que o Prof. Edmundo Xavier, além de ocupar a cadeira de Física e Química Médica, foi o responsável pela implantação desse curso na Faculdade, viajando à Europa para estudar o ensino teórico e as práticas laboratoriais em alguns países. Com uma grande experiência na área , Xavier foi professor de Física e Química no antigo curso anexo da Faculdade de Direito de São Francisco, ' o curso dos bichos' como era conhecido por abrigar calouros da velha Academia. Xavier lelecionou por muitos anos no ginásio do Estado, de de onde saiu para a cátedra de Física na Faculdade de Medicina . Além disso, Prof. Xavier tinha uma f formação específica dedicando-s-se "além do magistério, à aplicação de eletricidade na terapêutica e teve seu estabelecimento sempre procurado por pacientes. Depois do advento do raio X, foi um dos primeiros a introduzi -lo em São Paulo, não só para obra diagnóstica como para tratamento" (FARINA 1972, p. 152) . Além disso, Farina (1972) ao comentar alguns acontecimentos importantes na área de Física Médica destaca a especialização no exterior dos professores em medicina e também uma exigência da Faculdade em
preencher o quadro de professor preferencialmente com m 4édicos, o que justifica as aulas e provas com conteúdos muito específicos4 s4 .
Quanto às aulas de Xavier, as mesmas estavam de acordo com o caderno de Leis e Regulamentos de 1913 onde era exigido aos professores a exposição do conteúdo na forma de conferência com uma hora de duração e com uma preleção de 40 minutos. Farina (1972, p. 32, 33 e 34) resgata as difíceis aulas e provas do Prof. Xavier, r, com o depoimento de Jaime Candelária, aluno da época:
"As aulas de Xavier eram do tipo conferência. Era fluente, fafalava depressa não podíamos acompanhá-lo em seu raciocínio (...) adademais, enquanto falava ia enchendo o quadro negro com complicadas fórmulas de Química (...) estavam as coisas nesse pé, quando veio em nosso socorro um moço chamado Ericson. Habilíssimo taquígrafo do Congresso, Ericson não perdia uma palavra nem fórmula das exposições do mestre (...). No dia da da prova estávamos mergulhados em um profundo silêncio, quando o professor Xavier escreveu no quadro negro as seguintes questões: Qual a reação a que o ácido amino succínico pode dar lugar com o ácido azototoso?; ?; Qual a reação a que pode dar lugar o ácido amino succínico quando aquecido com o álcali. Qual a substância que por esse meio pode ser preparada? Estabelecer as analogias existentes entre a reação que nos dá na uréia pelo aquecimento do carbonato de amenia e que é empregado na preparação da oxamida.
Parece -m -me que a turma decepcionada ao extremo estava à beira de um colapso. E não era por menos, pois que em aulas práticas nunca fizeram experiências comomo aquelas sobre os quais teríamos de dizer nas provas".
Esse depoimento mostra como os alunos ficaram indignados com as primeiras avaliações ocorridas naquele primeiro ano da Faculdade e que havia uma distância entre o que era trabalhado na sala de aula e e o exigido pelo professor. Identificamos esse descompasso através das provas dos alunos realizadas nesse ano, no qual muitas avaliações de Física apresentavam notas baixas. . O conteúdo das provas era definido por pontos sorteados dos quais cada um , apresentava um grupo de conteúdos que deveriam ser descritos pelo aluno. Muitas dessas provas com notas insatisfatórias tinham escrito na folha de avaliação "FORA DO PONTO", anulando toda a resposta feita pelo aluno que não tratava do assunto especificado. Outra observação é que, pela citação acima , podemos perceber que o conteúdo da prova de Química era qualitativo, por meio de dissertações. Em nossa pesquisa, encontramos inúmeras provas de Física , desde 1913, na qual a forma de avaliação também é qualitativa. Mais adiante faremos uma discussão mais elaborada dessas provas.
Foi somente em 1926, "em virtude do estatuído na Reforma Pedro Dias a cadeira de Física Médica passa a denominar-se simplesmente Física " (NOTAS PARA MEMÓRIA HISTÓRICA 1926, p. 43). Essa lei é um reflexo da Reforma Rocha Vaz de 1925, que divide a Física e a Química em duas cadeiras distintas (MACHADO 2002). ). Apesar disso, em nossa análise e das provas o termo "Física" foi citado somente nos exames de admissão, sendo a disciplina do primeiro ano do
curso chamada de "Física Médica" até o ano de 1932 5 . Entre os anos de 1926 e 1933 foram exigidos para ingresso na faculdade exames de admissão de Física, Química e História Natural (Biologia).
Em 1931, depois de parcerias para a construção do prédio, foi inaugurado a cede localizada na avenida Dr. Arnaldo, em frente ao cemitério do Araçá. Nesse mesmo ano tivemos a Reforma Francisco Campos de 18 de abril de 1931 (decreto nº 19890), dando ao exame de admissão um caráter nacional, ou seja, em todo o país começou ou a ocorrer uma seleção para ingresso no curso secundário (MACHADO, 2002). Além disso, a Reforma de 1931 dividiu o curso secundário em fundamental e complementar. "Concluído o curso fundamental os alunos podiam optar por uma das três alternativas oferecidas no curso complementar de acordo com a carreira pretendida: 1º curso jurídico; 2º curso de medicina, farmácia e odontologia; 3º curso de engenharia e arquitetura. O curso complementar era na verdade um curso pré-universitário, no sentido de que preparava os alunos para o ensino superior, com disciplinas obrigatórias ligadas às suas diversas áreas" (PILETTI 1987, p. 62).
No caso da medicina esse curso complementar se chamava pré-médico. Dessa forma , os conteúdos dos anos introdutórios do curso superior médico foram transferidos para o curso pré-médico fazendo parte, finalmente, do ensino secundário, sendo os programas "organizados pelos professores do curso prémédico, os quais, em direto entendimento com a comissão de ensino, estabelecerão a necessária orientação didática e científica, harmonizando o ensino com as disciplinas do curso normal de ciências médicas" (REGULAMENTO 1932, p. 54). Isso fez com que fosse abolido o exame de admissão diretamente para o curso superior médico o em 1933 .
No primeiro ano de e implantação houve uma adaptação quanto aos candidatos inscritos , "no presente ano de 1932, os exames vestibulares ao primeiro ano médico serão feitos em conjunto com os exames de admissão ao curso prémédico (...) os candidatos classificados serão divididos em duas séries, cabendo aos que obtiveram médias elevadas o direito de matricular no primeiro ano do curso médico e reservando -se aos restantes o direito de classificar entre os candidatos no cursrso pré-médico". (REGULAMENTO 1932, p. 56).
Inicialmente o curso pré-médico teve a duração de um ano "diferenciando da lei federal [Reforma Campos], o qual propunha um curso de dois anos" (SILVA 2006, p.83). Segundo o artigo 371 do Regulamento " ... oportunamente, o regime efetivo do decreto federal n° 19890 de 14 de abril de 1931, o ensino do curso pré-m-médico será reorganizado e desdobrado em dois anos letivos, de modo a corresponder aos objetivos do curso "complementar" de instrução secundária ou pré-universitária prevista pelo referido decreto " . (REGULAMENTO 1932, p. 57)
No dia 25 de janeiro de 1934 a Faculdade de Medicina passou a integrar a Universidade de São Paulo através do decreto 6.283 e a partir dessa data a Faculdade recebeu a denominação que mantém até os dias de hoje. Além disso , o curso complementar pas sa a ser denominado de Colégio Universitário e o curso prémédico passa a ter duração de dois anos (SILVA 2006) , sendo a Física ensinada nas duas séries. . Entre os anos de 1934 e 1941, para o ingresso no colégio universitário eram exigidos exames de admissão ão de Física, Química, Zoologia e
Botânica. O exame de admissão ao superior foi implantado a partir de 1938 , sendo exigido Física, Química, História Natural, Sociologia, Inglês e Desenho.
## Análise p pedagógica-o-organizacional
Para compreendermos nossa análise dodocumental organizamos a Tabela 1. Nela pretendemos s proporcionar uma visão ampla de como foi estruturarada a grade curricular da disciplina Física bem como foram introduzidos novos sistemas de avaliação, séries e exames de admissão. Esses dados foram organizadados a partir da análise do cabeçalho das avaliações realizadas na disciplina na qual apareciam, basicamente, o ano, o nome do estudante e a questão a ser respondida . Muitas provas eram repetidas, já que a turma toda realizava a mesma prova.
Tabela 1: Organização curricular do curso de Física da Faculdade de Medicina
Analisando as provas pudemos observar que nos primeiros anos do curso eram realizadas três provas anuais. Em alguns d destes anos foram encontradas mais de três tipos de prova , porém em menor número, nos levando a acreditar que o excedente era aplicado aos alunos faltosos ou em recuperação. A partir de 1915 começaram a ser realizadas 4 provas anuais. Em alguns prontuários dos alunos existem provas realizadas em janeiro, o que presumimos serem provas de recuperação para alunos que não atingiram a média no ano anterior. Somente em 1926 começaram a ser realizados exames de admissão.
No ano de 1932, de acordo com o Regulamento de 1932 citado anteriormente, o curso pré-medico tinha um ano letivo, sendo a Física uma das disciplinas. Além de uma prova de admissão para ingressar no curso pré-medico , o aluno realizava duas provas anuais. A partir do ano de 1934 o curso pré-medico, chamado de Colégio Universitário, passa a ter dois anos sendo a Física enensinada em ambos. Em uma das provas de admissão do ano de 1934 notamos um fato curioso e, e, ao mesmo tempo , importante para nossa pesquisa. O candidato citou alguns livros didáticos como bibliografia consultada. Provavelmente durante a prova o responsável pela sala ou algum professor pediu para que os alunos citassem os livros nos quais haviam estudado. Somente nesse ano houve essas citações. Foram citados livros de autores como Ganot t (1872; 1923), Nobre (1896; 1911) , Langlebert (1892; 1934), Raul Romano o (1928) e Pádua Dias (1922; 1933) . Todos livros consagrados na época , mostrando a grande importância que este material tinha , já em épocas anteriores, c como um dos principais apoios pedagógicos .
A partir do ano de 1938 começa a ser exigida uma prova de admissão ao ensino superior. Antes disso , a aprovação no curso pré-médico era suficiente para dar direito ao ao ingressar na faculdade. O conteúdo dessas provas era de caráter
secundário. A seguir iremos explorar mais detalhadamente o tipo de abordagem encontrado nas p provas.
## O conteúdo das provas
Conforme íamos avançando na escala temporal da análise, novas provas iam surgindo e uma nova organização se estabelecia, evidenciando outro período letivo . Em alguns casos foi difícil perceber essas ordenação o já que as provas não estavam organizadas de acordo com as turmas, sendo nossa tarefa, através das datas e comparação entre conteúdos das provas. Quando analisados os conteúdos de todas as provas pudemos perceber duas etapas curriculares com duas características distintas. A primeira com uma abordagem do conteúdo quase que exclusivamente qualitativo e com um conteúdo específico da área médica. A outra apresentando um conteúdo com abordagens quantitativas s e com um conteúdo de caráter geral, sem a especificidade médica. Para esse trabalho, serão apresentadas algumas partes a a fim de exemplificar nossas conclusões e análises.
Analisando o conjunto das provas percebememos que seus conteúdos sofreram expressivas transformações ao longo dos anos. Primeiro com relação aos critérios de avaliação. Durante muitos anos as avaliações eram realizadas por meio de dissertações, ou seja, sem exercícios com desenvolvimentos matemáticos. Dado um tema, o aluno dissertava sobre o assunto escrevendo várias páginas. As As provas do início do período estudado, além da metodologia de avaliação, apresentam um conteúdo particularmente diferenciado. Como já destacamos, os professores estavam ligados à à área médica, quando não eram médicos. Como o conteúdo de Física ensinado deveria dar suporte aos alunos para cursarem as disciplinas dos próximos anos, o conteúdo do curso de Física tinha um enfoque específico nessa área. Entre os assuntos avaliados, por exemplo, estavam a capilaridade , isotonia , colóides orgânicos, pressão sanguínea média, causa da submersão do corpo na água, etc.
Além desses assuntos existiam, evidentemente, conteúdos de eletricidade, termodinâmica, hidrostática e principalmente ótica. Por exemplo , as provas de 6 de junho de 1918 8 apresentavam as seguintes questões: "Como interpretar as ascenções es e depressões capilares?; Que diferença existe entre infiltração capilar e a imbibição constitucional?l?; Dissolução nos gases e nos líquidos. Qual sua importância sobre o ponto de vista da física médica?a?". Várias outras provas, com este enfoque, puderam ser encontradas nesse mesmo período .
Ao longo dos anos esses tipos de conceito são cada vez menos citados desaparecendo por completo no ano de 1931, quando a Reforma Francisco Campos torna o ensino secundário obrigatório para ingresso no superior, r, já que até então era necessário somente apresentar certificados em algumas disciplinas específicas . Acreditamos que por essa Reforma dar um caráter nacional ao ensino secundário o conteúdo de Física passa de específico para um caráter geral, sendo modificado principalmente pelos cursos introdutórios existentes na época como o curso prémédico . Por exemplo, na prova de 25 de julho de 1941, temos a seguinte questão: "Dissertar sobre o Movimento Retilíneo Uniforme . Qual a diferença entre movimento e deslocamento? O que é hodógrafo de um movimento?". Apesar de ainda existirem exercícios qualitativos, é nessa época que começam a surgir os exercícios quantitativos (praticamente inexistentes anteriormente) e cobrados em todas as provas.A nova abordagem quantitativa do exerc ício pode ser observada nas provas a partir de 1935, no Colégio Universitário, como na prova de 5 de fevereiro de 1935
"Qual o trabalho realizado por um ponto de 5 gr. de massa em 11 oscilações completas com um movimento senoidal cuja amplitude é 2 centímetetros e cujo período é 12 segundos". Outros exercícios desse tipo e de outros assuntos aparecem freqüentemente . Identificamos essa época como o início de uma nova abordagem de avaliação, com traços próximos do que temos atualmente.
Outros dados complementares puderam ser obtidos com o livro de Pedro Janini (1933), no qual se encontram as aulas do Prof. Luiz Cintra, taquigrafadas integralmente . Este material está disponível no museu da Faculdade de Medicina . Pela transcrição podemos notar r que as aulas do professor eram bem discursivas com alguns desenvolvimentos algébricos e geométricos para a explicação dos fenômenos. Não existe nenhum exercício no livro. O conteúdo ensinado nas aulas se assemelha muito aos atuais , porém alguns conceitos, hoje abandonados ou raramente tratados, eram discutidos pelo professor, r, tais como a lei do tautocromatismo, o prisma de Nicol e Glazebrook, os cristais biaxiais, , os meios anisotropos e a birefringência. Mesmo apresentando alguns conceitos ensinados atualmente as aulas tinham um caráter diferenciado dos dias de hoje, como a resolução de exercícios.
A partir de 1938 as provas do curso pré-médico adquirem um novo padrão , apresentando três questões . A A primeira questão era uma dissertação sobre o tema sorteado, a segunda , também discursiva, porém mais breve e sobre um outro tema e a última um exercício. Nas provas do ensino superior os exercícios começam a ocupar uma parte dos exames , na qual começa a ser composta com cinco exercícios e cinco questões.
Comparando os livros didáticos analisados no mestrado e as provas, de uma forma geral , há uma similaridade no tipo de abordagem (qualitativo) e nos conteúdos tratados. Na maioria dos livros as abordagens sobre o conteúdo de Física apresentam-s-se de forma descritiva, com algumas deduções es algébricas e figuras geométricas. Esses livros fazem os desenvolvimentos teóricos a partir de aparatos e experimentos físicos e, assim, chegam às conclusões conceituais. O curioso é que esses mesmos livros apresentam, desde o começo do século, exercícios (normalmente no final do capítulo ou do livro) que necessitam de desenvolvimentos matemáticos para s sua resolução, fato que não é observado nas primeiras provas da Faculdade de Medicina. Dessa forma, temos como hipótese e que, muito provavelmente , os exercícios que aparecem nas últimas provas encontradas na Faculdade de Medicina têm como fonte os livros didáticos , uma vez que se apresentam o mesmo tipo de abordagem (quantitativo). ).
Dada essa hipótese podemos argumentar que a mudança do sistema de avaliação o se modifica em função dos livros disponíveis na época. Aqui podemos inferir que havia uma concepção diferente do livro didático, pois, mesmo que não consultado diretamente em sala de aula pelos professores do início do século, era consultado como referência para a construção das avaliações. Vale comentar que, em contraponto, atualmente, o livro se tornou um mero espelho dos exames vestibulares, seja na construção curricular, seja nos modos de avaliação, corroborando a importância social desses filtros sócio-educacionais.
## Conclusão
Neste trabalho para apresentar r uma análise do ensino de Física na Faculdade de Medicina, analisamos a as relações entre os dados de natureza políticoeducacional com os de e natureza pedagógica. A análise de uma vertente não deve
ser realizada sem a outra, uma vez que ambas dialogam entre si i como destaca Juliá (2001) . No nosso caso, por meio de uma a visão externa, pudemos compreender o enfoque curricular que foi dado ao ensino de Física na Faculdade. Esta instituição foi criada em virtude de uma necessidade social (São Paulo já se destaca pelo forte desenvolvimento político e industrial) e, e, sendo a escola a grande responsável pela formação de indivíduos para essa emergente sociedade, as as disciplinas científicas se adequaram às finalidades, o que lhe confere um papel "estruturante" do processo educativo escolar (CHERVEL , 1990). Compreender as relações entre a disciplina, o curso e as instituiç ão , é tentar explicar não só porque o ensino se realizava, mas também como se realizava. Aqui mergulhamos nas práticas escolares por meio das relações microroscópicas entre o que se estudava. Felizmente encontramos essa prática escolar materializada nas avaliações do conteúdo o de Física. Assim, pudemos esboçar a diferença entre o que se propõe e o que realmente foi realizado em sala de aula .
Como elemento principal da disciplina, Chervel (1990) coloca o conteúdo e os exercícios, vertentes que contemplamos analisando as provas e , anteriormente , os livros. Tiramos dessas análises duas conclusões importantes e destacamos como eixo principal desse trabalho. Primeiro é com relação ao tipo de conteúdo trabalhado ao longo do período estudado. Percebemos uma grande diferença entre o conteúdo de Física nas décadas de 1910 e 1920 (formação profissional), época em que havia muitos conceitos de Física aplicados à Medicina e a partir de 1931, quando os conceitos exigidos nas provas tinham um caráter de cultura geral sem aplicação específica à alguma profissão. Explicamos essa mudança através da Reforma Francisco Campos de 1931 que nacionaliza a obrigatoriedade do ensino secundário no Brasil. A segunda diz respeito à mudança da abordagem qualitativa para a quantitativa.
Outro fator importante é o livro didático. Muitos livros apresentam conteúdos descritivos a partir de aparatos e experimentos físicos, fato que coincide com os conteúdos das provas. Porém os exercícios (quantitativos) já aparecem em épocas anteriores nos livros didáticos, mas não são usados nas avaliações até o final da década de 30. Sendo assim, colocamos a hipótese do livro didático ser uma das principais fontes dos exercícios introduzidos nas avaliações , surgindo, assim , uma nova metodologia de avaliação (através de exercícios quantitativos) que foi aos poucos sendo a ampliada .
Concluindo , destacamos a importância dos cursos introdutórios ao ensino superior, como o ensino pré-médico, no qual o ensino de Física começou a ser modificado quando a disciplina Física é excluída no introdutório superior e, finalmente, chega ao ensino secundário.
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