UMA VIAGEM NO TEMPO: A ANÁLISE DE UMA EMISSÃO RADIOFÔNICA
Ana Paula Bossler Da Costa, , Silvania Sousa Do Nascimento
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XIX
- Ano
- 2011
- Data
- 03/02/2011
- Linha de pesquisa
- Divulgação E Comunicação De Física Em Espaços Formais E Não Formais
- Tipo
- Comunicação
Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do SNEF 2011
Texto completo
## UMA VIAGEM NO TEMPO: A ANÁLISE DE UMA EMISSÃO RADIOFÔNICA
## Ana Paula Bossler da Costa , Silvania Sousa do Nascimento , 1 2
1 UFTM/ICENE, paula.bossler@gmail.com
2 UFMG/FAE/DMTE, silnascimento@fae.ufmg.br
## Resumo
O presente trabalho analisou uma emissão do programa de rádio 'Ciência na Favela' (Rádio Educativa Favela FM/ 106. 7 Mhz, Belo Horizonte -MG), cujo tema foi 'viagem no tempo'. Procuramos evidenciar os recortes discursivos realizados pela instância da produção, nos quais buscamos definir o dito e o não dito. Inferindo o percurso discursivo realizado pela Apresentadora, identificamos os modos de organização do discurso predominantes e a presença da voz do ouvinte na enunciação. O modo de organização com uma finalidade argumentativa foi aquele predominante em oito unidades de sentido definidas. Internamente, em cada unidade, os modos narrativos e argumentativos foram os mais utilizados pela Apresentadora. Dessa forma podemos inferir que a Apresentadora assume uma posição de educadora na instância de produção do episódio analisado. Constatamos que o discurso foi construído partindo-se de um arcabouço hipotético de pressupostos pertencentes a um ouvinte ideal, escolhido entre as possibilidades de ouvintes do programa. Tal arcabouço visou, segundo nossa hipótese a criação de um espaço dialógico com diferentes vozes orquestradas pela Apresentadora.
Palavras-chave : rádio; divulgação científica, dialogia, ensino de ciências, organização discursiva.
## Introdução
Nos últimos cem anos, a humanidade tem sido apresentada a novidades científicas e tecnológicas, que ultrapassam as fronteiras da ciência e se aventuram pelo cotidiano do homem comum. Tais novidades, ao longo do tempo são incorporados e levam à humanidade a configurar novos costumes e re-elaborar conceitos e valores.
- A erudição e a especificidade da linguagem científica, uma espécie de 'cientificês', configuram-se como obstáculos tanto para o ensino quanto para a divulgação científica. A ciência possui um corpus lingüístico característico, que confere legitimidade ao discurso científico, mas que o torna incompreensível e distante da maioria dos espectadores.
- O papel do divulgador científico seria o de tradutor, reformulando o que o cientista diz, procurando evitar o uso de termos técnicos? Que estratégias discursivas podem ser utilizadas pelo divulgador para que o 'cientificês' seja decodificado? Nossa equipe de pesquisa vem, desde 2002, investigando aspectos discursivos de textos de divulgação científica em ambientes escolares e não escolares e suas implicações para a formação de professores da Educação Básica (NASCIMENTO, 2006). Nesta presente comunicação apresentamos os resultados da investigação concluída sobre o discurso em emissões radiofônicas (COSTA, 2004).
Na segunda metade dos anos 1990, assistimos no Brasil a renovação dos museus de ciências e uma grande proliferação dos Centros de Ciências (CRESTANA et al, 1998, KREINZ, 2000). Este movimento abriu a fronteira para a
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
30 de janeiro a 04 de fevereiro de 2011
discussão de processos educativos nos diferentes espaços sociais, e a comunidade científica debateu amplamente as diferenças entre educação formal, não formal, informal (PARK et al, 2007) e os conceitos de divulgação, disseminação e difusão científica (ARAÚJO et al, 2006). Podemos dizer que nossa trajetória do movimento, que atualmente podemos chamar de popularização das ciências, se diferencia daquele que estudamos na esfera do terceiro setor francês o qual tem suas origem nos movimentos sociais de 1968 e ecoam de um lado estratégias já consolidadas da Educação Popular e, de outro lado movimentos políticos de universalização do acesso à cultura científica.
Para Authier-Revuz (1998:108), a divulgação científica traduz-se como uma 'prática de reformulação' de um discurso fonte (o discurso científico, originado no seio da comunidade científica) em um discurso segundo. Sob essa perspectiva, a divulgação científica inscreve-se em um conjunto de textos que compreendem a tradução, o resumo, a resenha e, também, textos com finalidades pedagógicas adaptados para diferentes níveis de ensino. A divulgação científica exerce a função de comunicação e também de transmissão de conhecimentos, operando em diversos domínios das práticas sociais. Complementando, Braga (2003) ao analisar a estruturação de textos de Biologia em livros didáticos de Ciências, define que a divulgação científica apresentaria principalmente elementos dos gêneros de discurso científico, didático e cotidiano. Essa posição nos incomoda por colocar em um mesmo plano a intenção de comunicação pública das ciências, expressa em textos produzidos na esfera do jornalismo científico, da literatura de ficção, mas também os textos de manuais técnicos de livros didáticos. Esferas de produção e intenções educativas bastante distintas, de nosso ponto de vista, com interpelações aos leitores igualmente diferenciadas. Tomando assim a intenção como uma forma de posicionamento discursivos do autor, por exemplo, um texto de jornalismo científico não expressa uma intenção educativa de mesma natureza que um texto de um manual técnico de um rádio. Logo não podem ser igualmente tratados como textos de divulgação científica.
Zamboni (2001) vê no discurso da divulgação científica um gênero discursivo particular, que dissociado do campo científico, adquire vida própria no campo dos discursos. Assim, a divulgação científica configura-se como um 'novo discurso', no que diz respeito à instância da produção. Trata-se de um gênero de discurso específico e plurilíngüe, que ao passar por um processo de re-elaboração, se reapresenta como uma nova produção discursiva. De nosso ponto de vista a divulgação científica procura mediar conhecimentos e propiciar ao leitor nãoespecialista o contato com o universo da ciência buscando transposições didáticas de uma linguagem que lhes seja familiar a outras não essencialmente familiares. Dessa forma buscamos problematizar a divulgação científica, no que se refere ao discurso produzido, no campo da comunicação pública das ciências, independente da intenção educativa de educação formal, informal ou não formal e mesmo da intenção de público de pares (difusão), de não pares (disseminação) ou do público geral ou de comunicação de massa (popularização). Sendo um discurso secundário, as diferentes esferas de produção produzem camadas discursivas que a partir de uma 'dissecação' desnuda a presença de manifestações de aspectos característicos de vários gêneros discursivos, em maior ou menor grau. Em um discurso secundário é praticamente impossível observar uma produção isenta de outras influências discursivas. Em nossas pesquisas tais influências são estudadas na perspectiva de
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
horizontes de pontos de vistas, nos quais adotamos o conceito de vozes para sua identificação.
Ao empregar como suporte os meios de comunicação de massa, como a televisão e o rádio, a divulgação científica assume questões próprias dessas mídias e importa para esses espaços estratégias e recursos característicos do discurso escolar, constituindo o que identificamos na recepção como um gênero educativo. Nesse caso, discurso que aparece como produto final da divulgação científica integra o conjunto de escolhas realizadas pela produção do programa. Essas escolhas determinam o que vai ser dito e o que será omitido no discurso, em uma espécie de orquestração na qual a produção pode conferir destaque, iluminar aspectos específicos, aprofundar e ser superficial, dar voz a alguns sujeitos envolvidos e calar outros, realizar sobreposições espaciais e temporais, etc. (COSTA, 2004). Para apresentação do assunto parte-se, portanto, de um núcleo central preservado e diretamente ligado à ciência, em direção a múltiplas frentes discursivas que correspondem às escolhas feitas pelo sujeito presente na instância da produção. A intenção educativa implícita ou explícita na produção dos programas de televisão e rádio que têm como mote a ciência, determina que esses programas sejam identificados pela recepção como programas de caráter educativo.
Destacamos, nessa análise, um episódio do programa de rádio Ciência na Favela'. Esse programa foi veiculado pela Rádio Favela (106,7 Mhz), em Belo Horizonte (MG) entre 1999 e 2005, acontecendo uma vez na semana, com uma hora de duração. A Rádio Educativa Favela FM existe há mais de 20 anos e recebeu a concessão para funcionar como educativa em 2000. Localizada no aglomerado da Serra ela é dirigida por moradores da própria comunidade e tem-se destacado por manter o forte caráter social e desenvolver programas cujas marcas são a autenticidade e espontaneidade. O programa contava com a presença de uma Apresentadora fixa, que eventualmente divide a cena sonora com outros sujeitos e busca incluir histórias, poemas, músicas, etc.
Definimos como episódio a fração do programa, como começo e fim explicitado pela Apresentadora, que trata exclusivamente de um tema. Em cada episódio um assunto ligado à ciência era desenvolvido. O episódio em questão buscou desenvolver o assunto 'viagens no tempo', pretendendo trabalhar alguns conceitos e significados da física moderna. Este episódio faz parte de uma pesquisa concluída que trabalhou com um acervo pessoal de 184 temas diferentes, preservado em mini disk, do programa veiculado no segundo semestre de 2002. Nesse sentido, pretendemos na presente comunicação conhecer parte das escolhas feitas pela Apresentadora do programa 'Ciência na Favela' ao desenvolver o tema 'viagem no tempo', buscando identificar tanto o que está explícito, quanto o que se encontra silenciado.
## A análise da emissão radiofônica
O programa selecionado foi submetido a uma primeira escuta, na qual identificamos os dados, que somados àqueles fornecidos pelos registros da rádio, compõem o Quadro 1:
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
Quadro 1: Caracterização Do Episódio Analisado
Em seguida, de posse da transcrição completa do áudio do episódio selecionado, realizamos uma atenta varredura buscando identificar as evidências discursivas de cada proposição (sujeito, verbo e predicado). O episódio foi então dividido em subtemas considerados a partir do desenvolvimento conceitual de perguntas enunciadas sobre a viabilidade de uma viagem no tempo. O conjunto de proposições em um mesmo subtema foi organizado em unidades. Todas as categorias aqui apresentadas foram construídas a partir da análise desse corpus em um constante ir e vir de ajustes aos nossos objetivos. Buscamos caracterizar os modos de organização do discurso (argumentativo, narrativo e descritivo), de acordo com Charaudeau (1992), localizando em cada proposição manifestações referenciais que caracterizassem a argumentação, a narração e a descrição. O modo de organização argumentativo se compõe da razão demonstrativa e razão persuasiva. Já o modo narrativo tem como princípio de organização uma situação de falta e pretende descrever o mundo do ponto de vista das ações e das qualificações humanas. E o modo descritivo consiste, em ter um olhar sobre o mundo nomeandoo (classificação fazendo nascerem seres significantes), localizando-o (inseri-los numa dimensão espaço-temporal) e atribuindo-lhe qualidades (inserções em classes e subclasses dando-lhes substância e forma particularizada). A finalidade discursiva define escolhas de estratégias discursivas categorizadas dentro da pragmática discurso-enunciativa como argumentativa, descritiva ou narrativa.
Para identificar o modo de organização discursiva predominante, visto que pode ocorrer uma co-ocorrência e superposição desses modos discursivos, procuramos reconhecer a intenção do sujeito responsável pela organização do discurso dentro de cada unidade e seu respectivo subtema. Assim, em uma mesma unidade, podemos encontrar a descrição e a narração contribuindo para que uma finalidade argumentativa se manifeste. Neste formato de análise, privilegiamos o aspecto intencional do ato comunicativo, o que representa buscar compreender a convergência da esfera de produção-emissão e de recepção-interpretação em sua alteridade de co-produção de significado. No caso dessa emissão radiofônica, a polifonia se manifesta unicamente pela fala da Apresentadora.
Por último, buscamos recuperar e identificar as vozes presentes no programa no nível da enunciação. Ducrot (1987) considera que a polifonia pode ocorrer tanto no nível do locutor, quanto do enunciador. O sujeito cujo ponto de vista predomina na apresentação dos acontecimentos é identificado como o enunciador, e aquela que na emissão do enunciado se apresenta como responsável por ele, o locutor. Dessa forma, temos o sentido backhtiniano de enunciação, no qual o enunciado é povoado por diferentes pontos de vista. A voz no nível da locução acontece quando a Apresentadora alterna sua fala com aquela de algum
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
personagem evocado, presente ou ausente na cena discursiva. O rádio viabiliza, portanto que o indivíduo ausente no momento em que o discurso se materializa se torne um locutor, visto que a Apresentadora viabiliza essa presença em um personagem. Normalmente, as vozes no nível da locução, podem ser identificadas graças a análise da cena sonora que pontuam mudanças no uso de 'tom de voz' e na 'velocidade da fala', que antecedem a manifestação, visando o esclarecimento à recepção.
O som inclui padrões rítmicos criados pela repetição e variação de fonemas, morfemas, frases, figuras de linguagem e de seqüências discursivas mais longas e sobrepostas a traços paralinguísticos e prosódicos, levando a audiência a ficar ritmicamente envolvida. Já o sentido, promove o envolvimento conduzindo a audiência à participação, através da co-construção de significados, do diálogo construído, da descrição de cenas, das narrativas e dos relatos de experiências pessoais. É possível investigar no discurso o som e o sentido.
Ao investigarmos o som, procuramos localizar e caracterizar nas unidades a série sonora (linguística, não linguística e para-linguística). A série sonora lingüística é caracterizada pelo uso da linguagem oral (uso de rimas, a repetição de palavras, alongamento de vogais e consoantes). Já a série sonora para-linguística caracterizase pelo uso dos elementos prosódicos (entonação, ritmo, timbre, volume, etc) e risadas. E por fim, a série sonora não linguística: caracteriza-se pelo uso de ruídos (palmas, farfalhar de folhas, etc) e músicas. A construção do discurso, o uso da expressão 'Ó', uma contração da palavra 'olha', pode indicar que o porvir possuirá um significado que merece atenção. Já a ausência de fala, enquanto o som provocado pelo gesto acontece, pode evocar a imagem no ouvinte de alguém protagonizando a cena.
As vozes que aparecem no nível da enunciação, e que aqui mais nos interessa, são responsáveis pela ideia expressa e não têm suas palavras inscritas no enunciado, mas têm a possibilidade de materializar diferentes opiniões.
Um único sujeito enunciante pode contemplar em sua fala diferentes vozes. Algumas vozes podem ser de antemão esperadas, conhecendo-se a identidade dos enunciadores em cena. Um mesmo enunciador, com identidade fixa, pode convocar muitas vozes para compor sua fala. Portanto a fala do enunciador identificado como Apresentador não seria composta apenas pela Voz do Apresentador, mas por múltiplas vozes.
Nessa comunicação, foi nosso interesse identificar a voz do ouvinte manifesta no nível da enunciação. Quando a Apresentadora insere uma questão como ' a humanidade poderá um dia realizar viagens no tempo ?' ela está de fato contemplando uma possível pergunta dos ouvintes, ou ao explicar de antemão um determinado conceito, ' mas, afinal o que essa contração do tempo ?' pode estar antecipando uma dúvida que o ouvinte, segundo a expectativa da Apresentadora, poderá ter.
## Discussão dos Resultados
A dificuldade encontrada na passagem da linguagem científica para a linguagem comum é inerente à própria natureza formal e abstrata da linguagem e envolve não apenas a escolha das palavras, mas também o 'recorte' realizado no corpus científico, determinado o conteúdo a ser explicitado. Nossa análise, ao
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
explicitar as escolhas feitas pela Apresentadora, dialoga com o não dito e representa apenas uma interpretação do episódio.
Ao analisarmos o episódio, cujos resultados apresentamos no quadro 2, constatamos que a Apresentadora empregou a argumentação como o modo de discurso predominante ao considerarmos a finalidade do discurso. O modo descritivo aparece apenas quando há a necessidade de organização de um subtema. Esta estratégia, a nosso ver, é própria do rádio e visa sinalizar para a audiência o início do programa ou de um bloco do mesmo. O episódio foi recortado em 8 unidades que possuem uma abertura e um fechamento bastante marcado. Notamos que os modos de organização argumentativos e narrativos são os mais presentes nas unidades aparecendo muitas vezes (4 vezes) com uma finalidade argumentativa. Isto representa que a Apresentadora constrói uma narrativa para apresentar argumentos visando convencer a audiência de algum ponto de vista.
A predominância do modo argumentativo pode indicar a intenção educativa da Apresentadora, pois este modo é característico da cultura escolar. A escola busca narrar e descrever para convencer o aprendiz do vigor do discurso científico na construção de explicações sobre o mundo. Logo a finalidade predominante é argumentar a favor do discurso científico.
Quadro 2: Modo De Organização Do Discurso em cada subtema
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
## Legenda
- D: Descritivo A: Argumentativo N: Narrativo
No exemplo 1 podemos verificar uma narrativa colaborando para que a argumentação fosse construída.
## Exemplo 1
Apresentadora: Há uma máquina bastante colorida que lembra a caixa de um elevador e o mocinho entra na máquina e programa uma espécie de computador de bordo para que a viagem aconteça para uma determinada data, uma data escolhida por ele.
A voz do ouvinte está presente, enquanto voz nos enunciados todas as vezes que a Apresentadora utiliza um pressuposto para organizar o discurso. No exemplo 2, a Apresentadora reúne-se ao grupo dos cinéfilos que assistem filmes de ficção científica sobre viagens no tempo e em seguida, ao mostra-se incrédula sobre a possibilidade dessas viagens vir a acontecer um dia, revela um movimento supostamente presente nas reflexões do ouvinte:
## Exemplo 2
Apresentadora: Os filmes de ficção científica que a gente vê no cinema e na televisão mostram essas viagens acontecendo, né, pro passado e pro futuro....Mas fica sempre uma perguntinha, será que realmente um dia a humanidade poderá usufruir desse tipo de passeio no tempo?
A apresentadora constrói o discurso em função de um receptor hipotético e idealizado, procurando antecipar não apenas as dúvidas e as questões que poderiam surgir na recepção do programa, mas também pressupostos, preconceitos, concepções alternativas, experiências e vivências anteriores, dificuldades e preferências por certas abordagens metodológicas dos ouvintes do programa. O que vai ser dito deve ser anteriormente presumido, considerando-se o que o enunciado poderá evocar no receptor no momento da transmissão: tanto os aspectos que poderão dificultar a compreensão, quanto àqueles que facilitarão. Aí aparece materializado o ouvinte do programa Ciência na Favela.
Se considerarmos que a recepção no momento da escuta estabelecerá um 'diálogo' com o sujeito enunciador e suas inquietações, dúvidas, as questões dos ouvintes precisam aparecer no discurso para que a recepção assuma ativamente a interlocução. A presença da voz do ouvinte assim, explicita uma tentativa de materializar na cena sonora o ouvinte ausente, através da interlocução presumida.
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
As questões deflagradoras que aparecem no episódio 'alicerçando' os desempacotamentos planejados pela produção do programa constituem exemplos da voz do ouvinte. Nós reunimos as perguntas 9 grupos de questões, todas partindo de um pressuposto atribuído implicitamente à instância da recepção. Assim, a questão número 1, ao perguntar 'será que algum dia viajaremos no tempo ?' admite que os ouvintes vislumbram essa possibilidade. No quadro 3 apresentamos as questões deflagadoras das discussões travadas entre as vozes visando uma dialogia com a recepção. Nos casos das questões 2, 4 e 7, por exemplo, no grupo da questão 2 'Se a resposta for sim (para a questão anterior), poderemos viajar tanto para o futuro quanto para o passado? Seria a mesma coisa? Parece que não... Será que é mais fácil viajar para o passado ou para o futuro?' aparecem associadas à questões levantadas pela Apresentadora a partir da questão proposta pelo ouvinte ao telefone.
## Quadro 3: Questões deflagadoras
- 1.Será que algum dia viajaremos no tempo?
- 2. Se a resposta for sim (para a questão anterior), poderemos viajar tanto para o futuro quanto para o passado? Seria a mesma coisa? Parece que não... Será que é mais fácil viajar para o passado ou para o futuro?
- 3. Para quando será a primeira viagem no tempo?
- 4. Em que pé estão as pesquisas: na fase de testes, no papel, como idéias organizadas na cabeça dos cientistas?
- 5. Qual é o cientista que trabalha com esse assunto?
- 6. Os filmes mostram máquinas: como será a máquina de viagem no tempo?
- 7. Se a viagem de fato acontecer, poderá interferir no presente? Poderemos mudar a história? Isso seria certo ou errado? Deveremos criar regras?
- 8. Se vir a acontecer ou será que isso já não acontece e não estaríamos cercados por homens do futuro aqui no presente?
- 9. O que a ciência nos diz hoje sobre viagem no tempo?
A voz do ouvinte aparece ainda no discurso, quando a Apresentadora busca ampliar uma determinada explicação. Nesse caso parece haver a antecipação de uma dúvida do ouvinte, e a Apresentadora garante o esclarecimento. Ao falar sobre a velocidade da luz, por exemplo, a Apresentadora parece considerar que a recepção teria dificuldades para dimensionar a grandeza e busca estratégias visando garantir a compreensão, estabelecendo relações de distância com marcos físicos, provavelmente, familiares para a recepção presentes na cidade de Belo Horizonte.
Ao cruzarmos os dados referentes ao desempacotamento, ou seja, o desdobramento do conteúdo em uma trama conceitual, verificado que a argumentação como finalidade discursiva predominante e a voz do ouvinte manifestada no discurso, então intimamente relacionadas. Ao convocar a voz do ouvinte e dialogar com ele objetivando a argumentação, a Apresentadora define o percurso discursivo delineado na trama conceitual com vista a construir uma explicação dos conceitos em questão. A voz do ouvinte pode ser atribuída também à responsabilidade pela definição dos subtemas desenvolvidos no programa. Já o
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
desenvolvimento desses subtemas, indica as intervenções consideradas importantes pela Apresentadora para que o conteúdo fosse explorado.
Apesar de não ter sido nosso objetivo, nesse trabalho, realizar um levantamento e nomear as vozes presentes no discurso, é importante destacar que a voz do ouvinte encampa de maneira homogeinizante a gama de ouvintes possíveis que comporiam a audiência do programa 'Ciência na Favela'. O ouvinte que se manifesta aqui, é um ouvinte razoavelmente bem informado, com experiência escolar, um cidadão comprometido com a ética e com o bem estar da humanidade. A Apresentadora não convoca à cena sonora, por exemplo, um ouvinte para o qual o assunto seja novidade absoluta ou que não se interesse pelas novidades trazidas pela ciência. Não há a necessidade de se utilizar uma estratégia de sensibilização, visto que o ouvinte que se manifesta já se encontra envolvido com o tema proposto pelo programa. Assim, observamos um ouvinte ideal tendo a manifestação da sua voz garantida na enunciação, enquanto outros são mantidos em silêncio, mesmo que integrem a recepção do programa.
A Apresentadora ao fornecer os conceitos que garantiriam a realização de uma viagem no tempo para o futuro e para o passado, limita-se a apresentar os aspectos que inviabilizariam os projetos e como os cientistas envolvidos pretendem superar o problema.
## Conclusão
Walter Benjamin (1987), afirmou em O Narrador, que o mérito da informação é ser nova e desconhecida, vivendo para a revelação. A informação transmite a substância pura do conteúdo apresentada de forma inteligível. Reunida em conteúdos, a informação permitiria que todo o mundo a nossa volta fosse explicado e compreendido. As escolas, a mídia convencional e aquelas que encerram a finalidade educativa, têm se esforçado em levar o maior número possível de informações até as pessoas. Acreditariam, assim, estar instrumentalizando os sujeitos para os futuros embates sociais que estariam por acontecer.
Nossos resultados indicam que pode haver na produção de um programa sobre ciência mais do que a intenção de disponibilizar informações sobre ciência. Isto significa para nós que o objetivo possa ser o de contribuir para que o ouvinte, a partir das informações acessadas, estabeleça conexões e construa redes de significado que contemplem elevado número de pontos de vista. Inferindo o percurso discursivo realizado pela Apresentadora, identificamos os modos de organização do discurso predominantes e a presença da voz do ouvinte na enunciação. O modo de organização com uma finalidade argumentativa foi o predominante nas oito unidades de sentido definidas. Internamente, em cada unidade, os modos narrativos e argumentativos foram os mais utilizados pela Apresentadora. Dessa forma podemos inferir que a Apresentadora assumiu uma posição de educadora na instância de produção do episódio analisado. A argumentação e o uso da voz do ouvinte ausente auxiliam na tessitura discursiva que leva a informação 'avulsa' a converter-se em um possível conhecimento.
Além disso, convocar o sujeito que ocupa a instância da recepção, incluindo suas prováveis demandas não é apenas uma estratégia de envolvimento, mas uma real valorização do outro, aquele a quem desejamos nos dirigir. É muito importante ao realizar as escolhas e os recortes no conteúdo, manter o objetivo da produção em mente, o que de fato pretende-se alcançar e desencadear no sujeito aprendiz. O que pretendemos enquanto educadores? Para as produções midiáticas, que
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
apropriações gostaríamos que os telespectadores e ouvintes realizassem e que demandas pretenderíamos criar e deixar em aberto nestes sujeitos? Estas e outras questões merecem ser ainda investigadas.
## Referências Bibliográficas
ARAÚJO, Elaine S. N.N, CALUZI, João J. e CLADEIRA. Ana Maria de A. Divulgação Científica e ensino de ciências: estudos e experiências. Escrituras: Bauru. 2006.
AUTHIER-REVUZ, Jacqueline. A encenação da comunicação no discurso de divulgação científica. In: AUTHIER-REVUZ, Jacqueline, Palavras Incertas: as não coincidências do dizer, Campinas: Editora da Unicamp, p. 107-131, 1998.
BAKHTIN, Michael. Marxismo e Filosofia da Linguagem. Tradução de M. Lahud, Y. Frateschi São Paulo: Hucitec, 1929/1986.
BENJAMIN, Walter. O narrador. Considerações sobre a obra de Nikilai Leskov. In: Magia e técnica, arte e política. São Paulo: Brasiliense, 1987.
BOSSLER, Ana Paula. Indicadores do gênero educativo na mídia radiofônica. Dissertação de mestrado, Belo Horizonte:UFMG/FaE, 2002.
BRAGA, Selma Ambrosina de M. O texto de biologia do livro didático de ciências. Tese de Doutorado, Belo Horizonte: UFMG/FaE, 2003.
DUCROT, Oswald. O dizer e o dito. Campinas: Pontes, 1987.
CRESTANA, S, CASTRO, M.G. de , PEREIRA, G.R. dE. (org). Centro e museus de Ciências: visões e experiências: subsídios para um programa nacional de popularização da Ciência. Saraiva-Estação Ciências: São Paulo. 1998.
KREINZ, G. Teoria e prática da divulgação científica. In: KREINZ, G. e PAVAN, R. Os donos da paisagem - Estudos sobre divulgação científica. São Paulo: Núcleo José Reis de Divulgação Científica da ECA/USP, 2000.
NASCIMENTO, Silvania Sousa do. Situações argumentativas na formação de professores de ciência da Educação Básica. Relatório de pesquisa parcial. Mineo. 2006.
PARK, Margareth B., FERNANDES, Renata S. e CARNICEL, Amarildo. Palavras chaves em Educação Não- Formal. Editora Setembro: Campinas. 2007.
ZAMBONI, Lílian Márcia Simões. Cientistas, jornalistas e a divulgação científica: subjetividade e heterogeneidade no discurso da divulgação científica. Campinas: Autores Associados, 2001.
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.