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SNCT: QUANDO EXPOSIÇÕES DE FÍSICA SÃO PLANEJADAS E APRESENTADAS POR ALUNOS DA EDUCAÇÃO BÁSICA

Ângela Maria Hartmann, Erika Zimmermann

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XIX
Ano
2011
Data
03/02/2011
Linha de pesquisa
Divulgação E Comunicação De Física Em Espaços Formais E Não Formais
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## SNCT: QUANDO EXPOSIÇÕES DE FÍSICA SÃO PLANEJADAS E APRESENTADAS POR ALUNOS DA EDUCAÇÃO BÁSICA

## Ângela Maria Hartmann 1 , Erika Zimmermann 2

1 Universidade Federal do Pampa/Campus Caçapava do Sul, RS, angelahartmann@unipampa.edu.br

2 Universidade de Brasília/Faculdade de Educação, erika@unb.br

## Resumo

Um dos principais objetivos das exposições realizadas durante a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) desde 2004, em Brasília, é popularizar o conhecimento científico e tecnológico, promovendo sua divulgação e ampliando a cultura científica da população. Com essa perspectiva, desde 2007, escolas da rede pública e particular do Distrito Federal têm sido convidadas a participar da SNCT, levando seus alunos como expositores. A pesquisa relatada neste trabalho teve por objetivo examinar em que aspectos a cultura científica de estudantes de Ensino Médio (EM), que planejaram e apresentaram exposições de Física produzidas por eles durante a SNCT realizada em 2008, aprofundouse e/ou ampliou-se devido à participação como expositores. Baseada em uma pesquisa de campo de natureza qualitativa, em que se acompanhou o trabalho na área de Física de duas escolas públicas de EM, é possível levantar alguns pontos indicadores de que a cultura científica dos estudantes expositores desenvolveu-se devido a essa participação mais intensa que a simples visitação das escolas à exposição que acontece durante a SNCT. Esses pontos indicam o desenvolvimento de competências da área científica como: (1) o hábito de pesquisar; (2) a capacidade de compreender o conhecimento científico e comunicá-lo para o público; (3) a capacidade de elaborar projetos próprios de pesquisa. Esses estudantes caracterizam-se por sua curiosidade e humildade diante do conhecimento, pelo seu prazer em investigar, experimentar e comunicar ao público seus trabalhos. É importante ressaltar que o desenvolvimento da cultura científica desses estudantes foi acelerado pela possibilidade de apropriar-se de um conhecimento e apresentá-lo durante a exposição, interagindo com um público diverso da escola. Vale lembrar que essa apropriação foi iniciada na escola a partir do trabalho dos docentes que os desafiaram a problematizar e reconstruir seu conhecimento de Física.

Palavras-chave : cultura científica; educação não-formal, exposições de ciência; ensino de física, Ensino Médio.

## INTRODUÇÃO

A popularização da ciência e da tecnologia (C&T) tem feito parte das agendas dos governos federal e estaduais 'dos movimentos sociais, de ações da comunidade científica e mesmo no discurso dos projetos de grupos privados sensibilizados e interessados pelo tema' (MARANDINO, 2001, p. 4). Atualmente consideradas como um canal de educação científica, o número dessas iniciativas tem aumentado de forma consistente.

A Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT) é um exemplo dessas iniciativas, acontecendo anualmente desde 2004. As atividades realizadas durante a SNCT são programadas para incentivar a aproximação da sociedade com a ciência e ampliar a cultura científica dos cidadãos. As atividades têm por objetivo ampliar o interesse e o conhecimento da população sobre idéias e inovações científicas e tecnológicas, mostrando sua importância para a vida pessoal e o desenvolvimento do país. Entre as atividades promovidas durante a SNCT, em Brasília, estão as

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exposições de C&T, nas quais a população tem oportunidade de discutir com os expositores os resultados, a relevância e o impacto das pesquisas científicas e tecnológicas, bem como suas aplicações.

Abertas gratuitamente ao público, em Brasília, essas exposições têm sido direcionadas para crianças e jovens que freqüentam as escolas de Educação Básica. Além de fazer com que os estudantes conheçam as novidades da área científica, espera-se que esse público desenvolva o interesse por carreiras nas áreas de C&T.

Vale lembrar aqui que o hábito de freqüentar exposições ou locais que promovam atividades culturais, científicas ou não, parece ainda não estar consolidado entre professores e alunos da Educação Básica. Pesquisa realizada pela Rede de Informação Tecnológica Latino-Americana (Ritla) com professores e estudantes do Ensino Médio (EM) no Distrito Federal revela, por exemplo, que alunos da rede pública raramente freqüentam atividades culturais (KLINGL; AMORIM, 2008). Entre os alunos, 97,1% nunca ou pouco foi a um teatro, 94,7% a um museu e 87,2% a um cinema. Entre os professores, a situação não é muito diferente: a maior parte (89,1%) não possui o hábito de freqüentar teatros, visitar museus (82,2%) ou ir a um cinema (78,6%). A ausência de hábito entre os alunos e professores de freqüentar locais de incentivo à cultura pode ser, nesse caso, um reflexo da falta de oportunidade. Uma das ações da Secretaria de Estado de Educação do Distrito Federal (SEDF) para mudar essa situação é promover saídas escolares para que os alunos freqüentem atividades culturais como teatros e exposições (KLINGL; AMORIM, 2008).

A visita à exposição científica promovida durante a SNCT foi incluída nas iniciativas da SEDF para estimular em alunos e professores o hábito de frequentar atividades culturais e científicas. Essas visitas são uma oportunidade para que a comunidade escolar descubra novas facetas do conhecimento científico e tecnológico, ampliando, dessa forma, sua cultura científica. Além disso, desde 2007 as escolas públicas e particulares têm sido convidadas a participar como expositoras do evento. Além de os estudantes passarem a desempenhar um novo papel no âmbito da cultura científica, essa oportunidade abre nova perspectiva de aprendizagem e de formação científica, pois ao invés de meros visitantes, consumidores das novidades de C&T, eles atuam como disseminadores dessa cultura. Para tal, estudantes e professores planejam e expõem trabalhos realizados na escola num evento no qual se fazem presentes diferentes instituições de pesquisa em C&T.

Tendo em vista esse novo contexto de participação das escolas na SNCT, busca-se entender o envolvimento dos estudantes com a cultura científica e como se desenvolve sua educação científica. Assim, este trabalho de pesquisa teve como meta examinar em que aspectos a cultura científica de estudantes de EM, que participaram em outubro de 2008 da exposição, planejando e apresentando trabalhos produzidos por eles em Física, aprofundou-se e/ou ampliou-se devido a essa forma de participação. Para isso, escolheram-se dois grupos de alunos que participaram da exposição apresentando atividades expositivas que esses alunos desenvolveram em suas aulas de Física.

## POPULARIZAÇÃO DA CIÊNCIA E DA TECNOLOGIA

Diante da velocidade com que se acumulam novos saberes científicos e tecnológicos, a popularização da ciência e da tecnologia tem exercido o papel de

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aproximar o público desse conhecimento, fazendo com que ideias, descobertas e criações da área se tornem de domínio público. A popularização da ciência e da tecnologia visa incluir socialmente as pessoas, não só para que participem politicamente das decisões tomadas em C&T, mas também para que possam usufruir desse conhecimento e melhorar a qualidade de suas vidas. O desenvolvimento científico e tecnológico de qualquer país, por sua vez, pressupõe a formação de profissionais qualificados. Contudo, para que surjam pessoas interessadas em seguir carreiras científicas, é preciso aumentar o interesse da população pela C&T, de preferência dos jovens. A popularização da ciência deve, portanto, estimular os jovens a seguir carreiras nessa área, da mesma forma que eles são estimulados para carreiras da área artística, desportiva, da saúde ou da advocacia e administração.

Nessa perspectiva, a popularização da ciência desempenha um importante papel na formação da cultura científica da população. De um lado, ela pode contribuir para ampliar e atualizar, de modo geral, o conhecimento dos cidadãos. De outro, ela pode contribuir para apoiar a formação da cultura científica escolar, provendo professores e alunos com informações atuais sobre C&T. De acordo com Moreira (SBPC, 2007, p. 1), diretor do Departamento de Difusão e Popularização da Ciência e da Tecnologia do MCT, os desafios para popularizar a ciência e a tecnologia, através de eventos como a SNCT, são: (1) promover a aproximação de escolas de Educação Básica da C&T; (2) atingir a população mais carente; (3) inovar as atividades, tornando-as mais interessantes para os jovens; (4) promover maior interação entre ciência, cultura e arte.

Em relação ao primeiro desafio, a SNCT tem incrementado a visitação das escolas, além de promover a participação de estudantes no evento como planejadores e apresentadores da exposição. A participação ativa dos estudantes na SNCT tem tido, efetivamente, uma repercussão direta nas escolas, em particular, nas disciplinas da área de Ciências da Natureza. A participação desmistifica a ciência, que parece, para uma boa parte dos alunos, algo apenas para 'gênios' (HARTMANN, ZIMMERMANN, 2008).

## CULTURA CIENTÍFICA E EDUCAÇÃO AO LONGO DA VIDA

A cultura caracteriza-se pela capacidade de expressar formas simbólicas e de desenvolver relações orgânicas entre as dimensões individuais e sociais da atividade humana. Representa a maneira pela qual um grupo se organiza, cria e desenvolve suas tradições e seus costumes, como os transmite e como são constituídas as formas de acesso a essa produção cultural. O conceito de cultura abrange, portanto, uma variedade de fenômenos e interesses partilhados por estudiosos de diversas disciplinas como a sociologia, a história, a crítica literária, além da própria antropologia. É, portanto, um conceito construído interdisciplinarmente (THOMPSON, 2009). Nessa perspectiva, entendemos que C&T, mesmo constituindo formas simbólicas com um significado particular, são parte da cultura e, portanto, parte da herança a ser apropriada pelas pessoas para tornarem-se cidadãs com capacidade integral de exercer seus direitos e deveres. Considerando que a humanidade tem produzido um conjunto de símbolos e artefatos cada vez mais numeroso e complexo, torna-se necessário que o indivíduo - para compreender e intervir na sociedade - possua formação para fazer uso deles com autonomia e competência. O papel da educação básica no processo de inserção dos indivíduos na cultura científica é a promoção do letramento da população, de modo que, como

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cidadãos, façam um uso social eficiente das informações e conhecimentos científicotecnológicos adquiridos (MAMEDE; ZIMMERMANN, 2005; SANTOS, 2007).

A construção da cultura científica é um processo complexo e contínuo porque depende de uma educação que não começa nem termina na escola. Esta, contudo, pode contribuir para que a cultura científica seja desenvolvida de forma sistemática e consistente, difundindo-a durante os anos em que a população passa dentro do sistema formal de educação. A escola deve encaminhar os alunos a desenvolver competências científicas e a interessar-se pela ciência, de forma que continuem a se atualizar, mesmo depois de terem concluído sua formação básica. Para complementar e ampliar a educação escolar, instituições não escolares podem contribuir para essa formação.

## EDUCAÇÃO CIENTÍFICA

Sem negar a importância da transmissão do conhecimento, Demo (2007) defende que a tarefa do professor é realizar o 'questionamento reconstrutivo do conhecimento' (p. 26) do aluno, aproveitando o que ele já sabe e acumulou culturalmente. Segundo o autor, o questionamento reconstrutivo apóia-se em dois fundamentos: (1) a pesquisa como princípio científico e educativo, e (2) a elaboração própria. Como princípio educativo, a pesquisa pressupõe que o aluno seja incentivado a buscar dados, procurar fontes e a manejar o conhecimento disponível. Para tal, é importante que ele seja estimulado a questionar sistematicamente o material que pesquisa, desenvolvendo seu espírito crítico. Como princípio educativo, a pesquisa deve acontecer de forma permanente, como atitude cotidiana no trabalho escolar do aluno e do professor. A elaboração própria tem por finalidade a formulação de propostas, sendo essencial para isso que o aluno escreva o que pensa e o que quer fazer.

Introduzir o princípio do educar pela pesquisa em uma sala de aula representa, de acordo com Moraes, Galiazzi e Ramos (2002), conduzir o processo em um ciclo constituído por três momentos: (1) o questionamento; (2) a construção de argumentos; e (3) a comunicação. O movimento do aprender através da pesquisa inicia com o questionar, pois 'toda pesquisa inicia com um problema' (MORAES; GALIAZZI; RAMOS, 2002, p. 12). A problematização tem por objetivo a construção de novas hipóteses sobre o que é conhecido. É importante nessa etapa que o próprio aluno se envolva nesse perguntar, pois as perguntas que faz partirão do seu conhecimento anterior.

- O segundo momento caracteriza-se pela reunião de argumentos para fundamentar as hipóteses. Esse momento abarca atividades como ler, discutir, argumentar, reunir dados, analisá-los e interpretá-los. Para produzir argumentos, o aluno pode buscar informações em bibliotecas ou bancos de dados, contatar pessoas ou realizar experimentos. Os resultados dessa busca precisam ser explicitados, de preferência por escrito, o que implica, também, torná-los mais rigorosos. Por fim, é preciso compartilhar as novas compreensões. Nesse sentido, a comunicação é um esforço de tornar compreensível para outros, especialmente àqueles que não participaram diretamente da pesquisa, os argumentos que foram construídos ao longo da pesquisa.

A aplicação dos princípios da pesquisa conduz o aluno, a nosso ver, a desenvolver projetos próprios de investigação, contribuindo para sua educação científica. Ao desenvolver a capacidade de envolver-se criticamente com questões

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cotidianas, o aluno aplica conhecimentos científicos e tecnológicos para resolver problemas reais e não meramente ideais.

## CARACTERÍSTICAS DA PESQUISA E DOS SUJEITOS

Examina-se neste trabalho como a cultura científica de dois grupos de alunos de EM, com idade entre quinze e dezoito anos, de duas escolas públicas diferentes, que planejaram e apresentaram artefatos e experimentos de Física, durante a exposição da SNCT de 2008, em Brasília, foi se reconstruindo pela participação deles como expositores. O objetivo da pesquisa foi examinar quais aspectos da cultura científica aprofundam-se e/ou ampliam-se devido a essa forma de participação. Além disso, examinou-se o posicionamento dos estudantes diante do conhecimento científico, e se questionou quais eram suas escolhas profissionais, com o objetivo de saber se a participação na exposição, de alguma forma, intervém nessa escolha. Para tal, realizou-se uma pesquisa de natureza qualitativa (OLIVEIRA, 2005), tanto pelos seus objetivos como pela sua metodologia. A pesquisa de campo foi realizada na escola e durante a SNCT, observando a participação e entrevistando os alunos, para encontrar evidências de mudanças em sua cultura científica. Os dois grupos participantes da pesquisa apresentavam particularidades comuns como: 1) serem formados por estudantes do EM de escolas públicas; 2) ter planejado e apresentado na SNCT, em 2008, experimentos de Física; 3) os dois grupos foram convidados a participar da SNCT pois, duas semanas antes, haviam participado da Feira de Ciências da SEDF.

Um dos grupos (Grupo 1), composto por nove alunos da primeira série do EM, apresentou experimentos que ilustravam leis e princípios da Física, em especial da Mecânica: 1) uma mesa com pratos e talheres da qual puxavam a toalha para demonstrar o princípio da inércia; 2) um conjunto de roldanas que dividia a forçapeso de modo que os visitantes podiam se pendurar nele e serem facilmente erguidos por outros visitantes; 3) um experimento que mostrava o princípio do torque com o uso de uma cadeira giratória e uma roda de bicicleta. O segundo grupo (Grupo 2), composto por oito alunas da segunda série do EM, apresentou experimentos que ilustravam possíveis transformações de energia: (1) um carrinho que se movia pela transformação de energia solar em energia mecânica; (2) um protótipo de aquecedor de água por energia solar feito com canos e placas; e (3) um conversor de energia química para produção de oxigênio e hidrogênio.

## O DESENVOLVIMENTO DA CULTURA CIENTÍFICA DOS ESTUDANTES

Destacamos a seguir três aspectos que, de acordo com esta pesquisa, mostram-se fundamentais para a formação da cultura científica dos alunos: (1) o lançamento de desafios cognitivos e técnicos por parte dos professores de Física; (2) a formação do hábito de pesquisar; e (3) a satisfação em comunicar a ciência para outros.

## 1. Lançando um desafio

Os dois grupos de alunos relataram formas bastante semelhantes de seus professores iniciarem a abordagem do conteúdo da Física. Os professores lançaram um desafio que se transformou em uma tarefa a ser cumprida. Para cumpri-la, precisaram planejar e construir um artefato ou experimento. O professor de Física do Grupo 1 trouxe para as turmas algumas sugestões e incumbiu os alunos de fazer com que funcionassem. O conteúdo foi sendo estudado à medida que os alunos se interessavam em explicar o fenômeno físico manifestado na montagem que

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construíam. Já o professor do Grupo 2 desafiou os alunos a montar um experimento que envolvesse conhecimentos da Física e fosse socialmente útil.

- O propósito dos dois professores era apresentar os trabalhos construídos pelos alunos em eventos escolares. Nenhum dos dois grupos imaginava que iria apresentá-los na SNCT. O Grupo 2 contou com detalhes como foi difícil responder ao desafio proposto pelo professor:

A gente queria fazer um controle remoto de carro que vibrasse. A idéia era, se estivesse em um lugar fechado e o alarme tá disparando lá fora, prá não sair todo mundo, você vai saber que é o seu. Aí, a gente chegou lá nos crânios lá da Mecânica da UnB. Aí eles desarmaram a gente. Falaram que não era possível a gente fazer porque isso já era um trabalho pra quem tava terminando Mecatrônica...

As alunas contam que foram apresentadas, então, a um estudante de Ciências da Computação que mostrou várias possibilidades de construção de dispositivos e artefatos.

Aí, ele deu um monte de idéias e a gente escolheu essa do carrinho. Aí, a gente ficou mexendo, mexendo até que virou o carrinho. Aí, a gente veio apresentar na feira, aqui na escola. Tinha três turmas lá na sala de Física e mais três professores. Aí, a gente foi e apresentou pra todo mundo. E a gente apresentou morrendo de medo...

Os dois professores, talvez sem ter isso claro, pautaram-se pelo princípio do educar pela pesquisa. Ao colocar para os alunos o desafio de construir um experimento, artefato ou dispositivo e explicar o princípio do seu funcionamento, os docentes encaminharam seus alunos para a pesquisa. Os desafios propostos pelos docentes pautam-se pela pesquisa como princípio científico e educativo (DEMO, 2007), que pressupõe que o estudante seja incentivado a buscar dados, procurar fontes e a manejar o conhecimento disponível, duas competências importantes na educação científica para a formação de uma cultura científica.

## 2. Desenvolvimento do hábito de pesquisar

Os dois grupos tiveram que realizar pesquisas para entender e explicar os experimentos e artefatos que construíram. Em vários momentos, durante a exposição, os estudantes foram questionados a respeito de pontos sobre os quais seu conhecimento era limitado. Então, à medida que suas explicações não respondiam os questionamentos do público, eles sentiram necessidade de buscar mais informações. Como contam as alunas do Grupo 1:

Às vezes, a gente se embaraçava um pouco. Porque a gente falava sobre uma coisa e eles [o público visitante] vinham com outro ponto. Aí, acabava contrariando a gente e a gente ficava meio confuso... (...) Então, se a gente não sabia ou tinha dúvida, não se interessou em perguntar ou de pesquisar, ou a gente não viu como necessidade de explicar, a gente acabou tendo que ir atrás, pra apresentar pras outras pessoas.

Pesquisar tornou-se um hábito, mas com uma peculiaridade. Ao invés de pesquisar somente na rede internacional de computadores ( internet ), cuja linguagem nem sempre é compreensível para estudantes da Educação Básica, fazendo-os repetir coisas que podiam não entender, eles passaram a buscar explicações junto aos seus professores. Como contam as alunas do Grupo 1:

Com a Feira, a gente acabou tendo de alguma forma de procurar. (...) E pesquisando, tudo depois da Feira [SNCT], a gente criou... adquiriu o hábito de pesquisar com outros professores, de ir atrás de coisas (...) a gente faz

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uma pesquisa no campo que a gente tem, a gente vem para tirar as dúvidas [com os professores] e junta todas as teorias e forma a nossa.

As alunas deixam claro que, a partir da experiência como expositoras, além de adquirir o hábito da pesquisa, importante para um aprendizado autônomo e constante, aprenderam a reconstruir seu o conhecimento. Isso é um dos fundamentos do educar pela pesquisa e acaba acontecendo espontaneamente, pela confiança que os estudantes adquirem em sua capacidade de elaborar pensamento próprio a partir de diferentes fontes de conhecimento.

## 3. Satisfação por explicar a ciência para outros

Comunicar o conhecimento é um passo importante dentro de uma educação científica que se apóia na pesquisa como princípio educativo e científico. É tornando compreensível para outros o conhecimento construído durante a pesquisa que os estudantes aprofundam o próprio conhecimento. Para os alunos, explicar os fenômenos para um público bastante heterogêneo revelou-se um prazer, pois constataram que tinham um papel social importante. Como contam alunos do Grupo I:

Porque lá, praticamente, tinha uma junção de pessoas, de todos os jeitos, de todas as raças, onde levava o quê? Conhecimento pra vários tipos de pessoas, sem diferença de classe social. E aquilo era muito interessante. A gente ajudar as pessoas, levando conhecimento pra quem nunca viu, até mesmo pra quem já viu.

(...) o povo ficava empolgado, assim, sabe? De ver como é. Aí, quando terminava o término [sic] da explicação, fazia uma cara assim: 'Nossa! Que interessante!' Aí, tipo, toda vez que eu fazia isso, era legal, porque eu conseguia transmitir uma mensagem legal do que eu queria passar.

Comunicar resultados de pesquisa tem a função social de popularizar o conhecimento científico, enriquecendo culturalmente, em alguma medida, os visitantes. Contudo, a ação de comunicar o conhecimento científico enriquece culturalmente, de forma extraordinária, aqueles que se esforçam em explicá-lo de forma compreensível para os outros, pois, para isso, é necessário reconstruí-lo. Esse esforço é empreendido pelos estudantes expositores, ampliando sua cultura científica.

## O QUE DIZEM OS SUJEITOS SOBRE SUA PARTICIPAÇÃO NA EXPOSIÇÃO

Para os estudantes, sujeitos desta pesquisa, a experiência de apresentar-se em uma exposição de C&T como a da SNCT, é empolgante, mas isso parece não modificar suas escolhas profissionais.

## 1. Escolha profissional

Questionados sobre sua escolha profissional, os estudantes desta pesquisa revelaram já ter tomado decisões em relação a ela antes de participar da SNCT. Mesmo aquele aluno que ainda tem alguma dúvida em relação a qual profissão escolher não se pauta pela participação na exposição da SNCT para defini-la.

Todo mundo me pergunta: 'O que você quer ser?' Quero ser médica. É difícil, mas não impossível. Sei que o que eu tenho de fazer é pegar pesado, me empenhar, estudar... e, assim, eu tô fazendo isso.

Até os últimos dias desses [sic], eu queria ser jornalista, porque, tipo assim, é sonho, porque direto eu falava isso, 24 horas. Mas, ultimamente, eu tenho me interessado muito por Psicologia...

## 2. Realização de um sonho

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Durante a entrevista, dois estudantes revelaram o quanto ser expositor é uma oportunidade especial em suas vidas.

Quando eu estudava no [Ensino] Fundamental, eu já tinha ido, mas só para ver a exposição. Aí, uma coisa que achei interessante. Quando eu tava lá, eu pensei: 'Eu acho que nunca vou estar aqui apresentando'. Aí, quando eu fui apresentar, eu me senti assim tão especial... 'Nossa! Eu tô aqui!' Porque aquele dia, eu vi outras pessoas perguntando e hoje eu estou aqui.

Eu tenho um sonho de ser cientista, entendeu? E, pra mim, o maior prazer mesmo é mostrar que eu posso ser um cientista e falar das coisas que eu mesmo fiz.(...) Então, se eu não continuar isso, é a mesma coisa que tá negando a mim mesmo. Então, lá [na SNCT], eu tava como [que] realizando um sonho meu.

Sabe-se que o interesse dos estudantes em aprofundar seus conhecimentos de Física é fortalecido pelo aumento da auto-estima em relação à sua capacidade de explicar conceitos e fenômenos físicos a outrem (HARTMANN; ZIMMERMANN, 2008). O que se constata com esta pesquisa é que além do aumento na autoestima, os estudantes sentem-se valorizados socialmente.

## AS CARACTERÍSTICAS DOS ESTUDANTES EXPOSITORES

Pesquisa de Hartmann e Zimmermann (2008) aponta que, durante uma exposição de C&T, os alunos esforçam-se para aprender Física para: (a) responder às perguntas feitas pelo público; (b) montar os experimentos que apresentam, e (c) interagir com o público, explicando adequadamente os fenômenos. Contudo, essa pesquisa não responde a pergunta de qual é a atitude dos alunos diante do conhecimento. Os depoimentos dos alunos desta pesquisa apontam para quatro características da atitude desses jovens expositores: (1) humildade diante do conhecimento; (2) curiosidade científica; (3) prazer em investigar e experimentar; e (4) responsabilidade para com o público.

## 1. Humildade diante do conhecimento

Ter noção da própria ignorância é um passo importante para buscar o conhecimento necessário para movimentar-se com desenvoltura no âmbito científico e social. Os jovens expositores reconhecem que ainda precisam ampliar seu conhecimento, possuindo a humildade para admitir isso.

Eu não tenho nem cinco por cento do que eu queria. Preciso reconhecer que tem gente que conhece muito, muito, muito mais do que eu. A única coisa que eu tenho, é só um pouco de vontade, assim, de fazer...

## 2. Curiosidade científica

Outra qualidade importante no âmbito científico é a curiosidade. É ela que mobilizou os estudantes. Sempre que tinham oportunidade, saíam do estande para conhecer o que os outros expositores apresentavam. A sua curiosidade e a presença assídua deles na exposição lhes permitiu conhecer trabalhos que numa visita rápida talvez não percebessem.

Eu sou bem curioso. Eu pergunto, pergunto, pergunto e pergunto mesmo! (...) Porque eu quero muito um avião de controle remoto. Aí, eu falei: 'Já que não tenho dinheiro pra comprar um, eu mesmo vou fazer o meu. Aí, eu tô vendo. (...) Só que eu quero fazer um avião novo, entendeu? Lá na... quando eu participei da Feira [SNCT], já peguei um monte de idéia nova, e quero incrementar...

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O que mobiliza a curiosidade do estudante são as dúvidas. Os experimentos que os estudantes apresentaram durante a exposição foram o produto de um processo que os levou a reconstruir seu conhecimento, mas que, na verdade, instigou suas curiosidades.

Quando a gente tem uma dúvida, a gente tem (...) mais vontade de querer saber, mesmo que não seja uma coisa daquele momento, mas a gente tem vontade de saber, pra saber mais, pra aprofundar mais. [Participar da SNCT] Trouxe, de certa forma, mais curiosidade pra gente.

## 3. Prazer de investigar e experimentar

Os alunos expositores demonstraram gosto pela investigação e prazer em construir experimentos e artefatos que eles mesmos criam. Assim afirmam gostar de envolver-se em projetos desafiadores e envolver-se em problemas práticos, investigando e experimentando.

Eu tô tentando tirar energia de um motorzinho lá, mas eu tenho que estudar mais pra ver como... Porque eu acho que tem alguma coisinha lá que não tá deixando a energia voltar...

## 4. Responsabilidade para com o público

Os estudantes sentem-se responsáveis por informar com correção e precisão o conhecimento científico para o público visitante. Essa é uma característica importante dentro do mundo da ciência e que foi assimilada pelos jovens ao se colocarem na posição de planejadores e apresentadores da exposição.

A gente aprendeu pra passar pra outras pessoas, porque vinham muitas perguntas das pessoas que estavam assistindo e a gente tinha que saber responder todas.

## CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pesquisa realizada com os estudantes expositores aponta alguns elementos indicativos de que a cultura científica dos estudantes é desenvolvida a partir do esforço que realizam para participar de uma exposição de C&T como a realizada em Brasília durante a SNCT. O primeiro elemento indicativo é que os estudantes desenvolvem o hábito de investigar quando são desafiados pelos seus professores a buscar o conhecimento para construir um artefato ou experimento de Física.

- O lançamento de um desafio cognitivo e técnico pelos professores de Física é o elemento que mobiliza os alunos a buscar informações e a reelaborar o conhecimento científico que possuem. Essa mobilização acentua-se quando são desafiados a apresentar e explicar os trabalhos que produzem a um público que não é o escolar, que lhes faz perguntas instigantes ou provocativas.

Esta pesquisa mostra que os alunos reconstroem seus conhecimentos, produzindo um novo discurso, como diriam Marandino (2001) e Zamboni (2001). O que pode acontecer, no entanto, é que esse novo discurso, pela tentativa de fazê-lo compreensível, seja permeado por interpretações diferentes daquela formulada cientificamente e induza a compreensões equivocadas da parte de quem o ouve. De qualquer forma, o discurso expositivo pode mostrar o que os expositores compreendem do conteúdo científico e tecnológico. O aluno tem um ganho ao fazer esse trabalho de reformulação, ou de construção do novo discurso, pois ele necessita lançar mão do conhecimento de ciência que já possui e sair em busca de mais informações, o que contribui para ampliar sua cultura científica. Eles

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desenvolvem, além disso, uma importante competência para a formação da cultura científica: a de aprofundar o conhecimento científico que possuem. Nesse sentido, sua curiosidade e humildade diante do conhecimento, seu prazer em investigar, experimentar e comunicar ao público suas descobertas contribui para seu aprendizado de Física.

Uma terceira competência desenvolvida pelos alunos que planejam e apresentam experimentos ou artefatos construídos por eles é a capacidade de elaborar projetos próprios de pesquisa. Essa capacidade atesta o desenvolvimento da sua cultura científica. É importante ressaltar que o desenvolvimento da cultura científica desses estudantes foi acelerado pela possibilidade de apresentar-se durante a exposição e interagir com um público diverso da escola, mas foi iniciado com o trabalho dos docentes que os desafiaram a problematizar e reconstruir seu conhecimento de Física.

## REFERÊNCIAS

DEMO, P. Educar pela pesquisa . 8. Ed. Campinas, SP: Autores Associados, 2007.

HARTMANN, A. M.; ZIMMERMANN, E. O impacto da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia sobre o conhecimento de Física de alunos de ensino médio. In: XI Encontro de Pesquisa em Ensino de Física, 2008, Curitiba. XI Encontro de . São Paulo: Sociedade Brasileira de Física, 2008. v.

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<http://www.sbf1.sbfisica.org.br/eventos/epef/xi/lista\_trabalhoasp?sesId=28> Acesso em 16 nov. 09.

KLINGL, E. AMORIM, D. Cultura, só a que passa na TV. Correio Braziliense . Brasília, 28 out. 2008, Caderno Cidades, p. 37.

MAMEDE, M. A.; ZIMMERMANN, E.. Letramento Científico e CTS na Formação de Professores para o Ensino de Ciências. Enseñanza de las Ciencias , Barcelona, v. extra, n. 1, p. 03-21, 2005.

MARANDINO, M. O conhecimento biológico nas exposições de museus de ciências: análise do processo de construção do discurso expositivo . 433f. Tese (Doutorado em Educação), Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, São Paulo, 2001.

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