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Aventuras de Lucky Starr em Júpiter: atividades didáticas de astronomia com literatura de ficção científica

Rosana Marques De Souza, Alisson Leite Gomes, Luís Paulo Piassi

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XIX
Ano
2011
Data
03/02/2011
Linha de pesquisa
Didática, Currículo E Avaliação No Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## Aventuras de Lucky Starr em Júpiter: atividades didáticas de astronomia com literatura de ficção científica

## Rosana Marques de Souza 1 , Alisson Leite Gomes , Luís Paulo Piassi 2 3

1 Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP

2 Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP

3 Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP

## Resumo

Este trabalho pretende apresentar o livro 'O robô de Júpiter' do escritor norte americano de origem russa Isaac Asimov (1980) como recurso didático capaz de promover reflexões sobre os conceitos de astronomia por parte do leitor, particularmente do estudante das últimas séries do ensino fundamental. A obra de Asimov apresenta uma grande quantidade de conteúdos científicos. Um exemplo é o mencionado romance, publicado em 1957, cuja trama tem como cenário o planeta Júpiter e seus satélites naturais descritos por Asimov com precisão e riqueza de detalhes de acordo com os conhecimentos científicos vigentes na época. Acreditamos que o livro dentro do contexto escolar ajudará os alunos a compreenderem conceitos biológicos e aspectos astronômicos do Sistema Solar. No presente trabalho, apresentaremos algumas atividades de ensino que viabilizam o uso da obra de Asimov como material didático, desenvolvidas a partir da análise do livro e suas possibilidades em termos da discussão de conceitos científicos.

Palavras-chave : Ficção Científica, Ensino de Ciências, Astronomia, Literatura, Isaac Asimov

## Introdução

Surgida das mudanças repentinas ocasionadas pela Revolução Industrial, a Ficção Científica (FC) tem o poder de incitar reflexões sobre as consequências sociais, políticas e psicológicas provocadas por este novo desenvolvimento técnicocientífico (TUCHERMAN, 2004).

A ideia de que a FC pode ter um papel na educação data praticamente da origem moderna do gênero, sendo considerada como veículo de divulgação científica e às vezes como possuindo finalidades educacionais explícitas (FIKER,1985, p. 41). Em 1971, John Brunner, o famoso novelista de ficção científica, publicou um interessante artigo denominado 'The educational relevance of science fiction' (BRUNNER, 1971). Em lugar de simplesmente propor o ensino de conceitos através da ficção científica, Brunner sugere que os problemas sociais retratados neste gênero constituem seu aspecto mais importante. Para ele, a ficção científica:

Não é ficção sobre ciência. É sobre pessoas, como toda ficção. Ela promove um debate no qual perspectivas e riscos para o futuro podem ser examinados em termos humanos. Seus escritores mostram - usando drama, humor, aventura - o impacto criado pela ciência no nosso cotidiano (BRUNNER, 1971, p. 389).

Vários autores (SOUTHWORTH, 1987; DUBCEK et AL., 1990, 1993, 1998; MARTIN-DIAZ et al., 1992; BORGWALD E SCHREINER, 1993; NAUMAN e SHAW, 1994; FREUDENRICH, 2000; SHAW e DYBDAHL, 2000; BRAKE e THORNTON, 2003; FRAKNOI, 2003; DARK, 2005) consideram a ficção científica como um

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importante auxílio para o ensino de ciências. Martin Diaz et al. (1992, p. 22) dá um bom resumo das razões para isso:

Acreditamos firmemente que a ficção científica poderia ser uma ferramenta muito útil para nos ajudar a cumprir alguns objetivos na educação científica, tais como melhorar a motivação e o interesse dos estudantes, desenvolvendo atitudes positivas em relação à ciência, ajudando a criar conflitos cognitivos nos estudantes e promovendo a criatividade e o senso crítico, etc.

Neste trecho, temos quatro tipos diferentes de razões que podem ser resumidas como:

- (1) Razões motivacionais. O uso da ficção científica é justificado por um suposto interesse ou motivação que suscitaria nos alunos. (2) Razões de atitudinais. A ficção científica é considerada como uma maneira de produzir uma relação positiva entre os alunos e a cultura e conhecimento e científicos. (3) Razões cognitivas. A ficção científica auxiliaria os alunos na aprendizagem de conceitos científicos. (4) Razões competenciais. Algumas habilidades como a criatividade e o pensamento crítico, considerados importantes para a aprendizagem da ciência, seriam estimulados pela ficção científica.
- A primeira razão parece ser consenso entre os autores que propõem a utilização da sala de aula de ficção científica. Na maioria das vezes, a intenção dos autores é transformar este suposto interesse dos alunos na ficção científica em um genuíno interesse em ciência como Naumann e Shaw (1994) e Freudenrich (2000: 42) explicitamente apontam. Assim, as razões motivacionais estão estreitamente relacionadas com as atitudinais. Além disso, as razões motivacionais também são apresentadas como uma ajuda importante na aprendizagem conceitual, como defendem Martin Diaz et al. (1992:18), Fraknoi (2003, p. 113) também por Dubcek et al. (1993, p. 47), que desenvolvem de forma mais detalhada os argumentos para o uso da ficção científica.

## A obra utilizada

Pretendemos sugerir o romance 'O robô de Júpiter' de Isaac Asimov como recurso didático para abordar alguns conceitos de astronomia referentes ao Sistema Solar. Vejamos a seguir o perfil do autor dessa obra e as características de seu trabalho que podem determiná-lo como sendo passível de uso no cenário escolar. Isaac Asimov é considerado um dos maiores escritores e divulgadores da ciência do século XX (ASSIS, 2005), nascido na Rússia em 1920, mudou-se para EUA junto com sua família onde mais tarde consagrou-se como escritor. Para alguns críticos a famosa obra 'Eu, Robô' (1950) faz de Isaac Asimov um dos três melhores escritores de FC, ao lado de Robert Heinlein e Arthur Clarke.

Segundo Allen (1974) a obra de Asimov aborda principalmente temas ligados às ciências naturais, o que o classifica como sendo um escritor de ficção cientifica hard, ou seja, Asimov utiliza com profundidade os elementos conceituais para embasar suas estórias. Pois, como apresentaremos a seguir o livro O robô de Júpiter contém inúmeros conceitos astronômicos, sendo que alguns desses estão desatualizados. O livro 'O robô de Júpiter' foi publicado em 1957 e é uma das seis estórias pertencentes à série Lucky Starr escrita por Asimov na década de 1950, destinada ao público jovem, não apenas para distrair, mas para também ensinar conceitos científicos (FIKER, 1985). São obras classificadas como Space Opera,

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pois apresentam aventuras espaciais, mistério, suspense, curiosidades, ação, humor e lutas entre inimigos. Para Fiker (1985), a série é eminentemente didática, servindo de veículo para iniciação científica, já que descreve vários planetas do sistema solar de acordo com os conhecimentos existentes na época. Com o avanço dos métodos de pesquisa o conhecimento sobre o sistema solar também sofreu enormes mudanças, de forma que muitas das descrições dos planetas feitas por Asimov na época, tornaram-se ultrapassadas, como aponta o próprio escritor no prefácio das obras (ASIMOV, 1980, p. 7), o que não invalida, a nosso ver, seu potencial didático.

O personagem principal da série é o herói David Lucky Starr. Corajoso, respeitado e temido, Lucky é membro do Conselho de Ciência, uma organização poderosa que combate os inimigos do planeta Terra dentro e fora do Sistema Solar. David é filho de Lawrence e Barbara Starr. Perdeu seus pais quando ainda era criança em um combate contra piratas. Foi adotado por Hector Conway e Augustus Henree, que fizeram o possível para apagar da memória de David a trágica morte de seus pais, e educá-lo de forma a torná-lo um homem como seu pai. David superou qualquer expectativa. Ele se parece com Lawrence pela altura, que chegava a um metro e oitenta, sendo ágil e robusto, com os nervos tranquilos e os músculos elásticos de atleta, mais o cérebro brilhante e agudo de um cientista (ASIMOV, 1971, p. 19). Por sempre ter sorte em seus feitos, era chamado de Lucky, que significa afortunado.

John Bigman Jones é um marciano baixinho e rabugento. Com um metro e cinquenta e cinco de altura, detesta quando falam de sua estatura. Com cabelos ruivos claros, escovados para trás e uma boca larga, usa um macacão de abotoadura dupla e botas altas até a coxa e muito coloridas, característica marcante dos trabalhadores das fazendas de Marte. É esperto, ansioso, vingativo e muito corajoso, enfrentando qualquer grandalhão com os próprios punhos. Com uma personalidade forte e marcante, é o companheiro inseparável de David. Os Sirianos são terráqueos que, revoltados com a autoridade do planeta Terra, dominaram a estrela Sírio e têm a intenção de dominar a galáxia inteira, afirmando que qualquer mundo desabitado pertence a quem o colonizar primeiro. São os principais inimigos da Terra, detestam o Conselho de Ciências e querem de qualquer forma derrubar o império respeitado pela galáxia e acabar com a autoridade que a organização exerce. Dotados de sabedoria e esperteza, espionam todos os projetos desenvolvidos pelos terráqueos com a intenção de sabotar e se apossar da melhor tecnologia da galáxia.

'O robô de Júpiter' é objeto do presente estudo e sua trama tem como cenário o planeta e seus satélites naturais. É o quinto livro da série e foi escrito em 1957. Nessa estória, o Conselho de Ciência estava desenvolvendo uma tecnologia ultra secreta que iria beneficiar os avanços tecnológicos e progressos científicos terrestres. Esse projeto era chamado de AGRAV, e estava sendo desenvolvido e testado em Júpiter 9, um dos satélites de Júpiter. Porém havia suspeitas de espionagens. Os inimigos Sirianos queriam sabotar o projeto e arruinar os planos terrestres. David Starr e Bigman, estão a bordo da nave Shotting Starr, viajam para Júpiter 9 interessados em conhecer o projeto e desmascarar o espião. Ao aterrissarem nesse local, não foram bem recebidos pelos homens que trabalhavam no desenvolvimento do projeto. Um dos primeiros desafios era ganhar a confiança desses homens, que na Terra eram crimonosos e se refugiaram para o espaço, muitos de forma clandestina, para se livrarem da justiça terrestre.

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Lucky e Bigman levaram consigo a Rã-V, um animal venusiano capaz de ler mentes e transmitir emoções. Usariam o animal para as investigações. Os homens de Júpiter 9 queriam Lucky e Bigman fora do satélite e armaram ciladas para amedrontá-los e afastá-los. Desafiaram Lucky a enfrentar um dos maiores homens no corredor AGRAV, onde a gravidade era ajustada e controlada como desejasse. (ASIMOV, 1980, p. 39 a 42). Bigman, muito astuto, percebe que um dos homens estava trapaceando, e Lucky sente dificuldade para manusear os controles AGRAV. O pequeno marciano muito revoltado, não poderia ver seu amigo naquela situação sem poder interferir, pegou sua pistola de agulhas (uma arma temida, pois não é fácil de ser manipulada) e ameaça o trapaceiro que se rende ao perceber que o baixinho sabe controlar bem a arma. Assim Lucky consegue derrubar o grandalhão, e surpreende a todos os que assistiam a disputa, pois não era fácil lutar em corredor AGRAV.

Após o primeiro desafio Lucky e Bigman conhecem o Sr. Norrich, que aparentou ser bondoso e não ter nada contra os dois amigos. Norrich era cego e perdeu a visão em um acidente no projeto, e explica que muitos homens tinham perdido a vida durante o desenvolvimento do projeto. Tinha um cachorro adestrado que era seu companheiro e guia. Misteriosamente, a Rã-V aparece morta, e sem deixar vestígios. Lucky começa a suspeitar da existência de um robô Siriano em Júpiter 9, afinal um robô não possui emoções, e qualquer ser com emoções não mataria a Rã-V, pois ela teria interferido na mente desse ser. (ASIMOV, 1980, p. 63). A primeira espaçonave com dispositivos AGRAV estava pronta e prestes a ser inaugurada. Havia muita expectativa pois a viagem levaria os homens a Io, estes homens seriam os primeiros seres humanos a pisar no solo desse satélite. Lucky tinha a certeza que o espião era um robô, e que este espião estaria na espaçonave, bastava pensar como encontrá-lo e desmascará-lo..

## Conceitos científicos em 'O robô de Júpiter'

Acreditamos que o professor de ciências poderá usar o livro para tratar de conceitos de astronomia com seus alunos, discutindo a validade dos conceitos científicos contidos na estória, de acordo com os conhecimentos atuais. Trechos que usam ideias científicas são abundantes ao longo da estória, como ocorre nos seguintes trechos:

Bigman olhou novamente para baixo. Cair em velocidade constante não era exatamente o mesmo que cair livre no espaço. No espaço tinha-se a impressão de que nada tinha movimento. Uma espaçonave poderia estar viajando numa velocidade de centenas de milhares de quilômetros por hora e ainda assim permaneceria a impressão de imobilidade total ao redor. As estrelas distantes nunca se movem. (ASIMOV, 1980, p.31)

-Bom demais, Bigman, porém impossível. Existe algo chamado a segunda lei da termodinâmica que diz ser impossível a transformação completa de uma energia térmica em outro tipo de energia. Temos que ter alguma perda. (ASIMOV, 1980, p. 116)

Nesses dois trechos temos duas técnicas diferentes usadas pelo escritor para informar o leitor a respeito de conceitos científicos. No primeiro trecho, os conceitos são enunciados pelo narrador. Eles aparecem como parte da vivência dos personagens. O personagem não é informado a respeito dos conceitos ou

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explicações, apenas as vive. A explicação é dirigida diretamente ao leitor. No segundo trecho, o enunciado sobre conceitos científicos está na fala de um dos personagens. Nas estórias de Lucky Starr, é ele, geralmente, que fornece esse tipo de informação, já que ele é o grande cientista, o representante do conhecimento científico. A estória apresenta muitos conceitos astronômicos e físicos. O narrador descreve Júpiter, dando diversas informações físicas sobre o planeta. Explica que Júpiter se apresenta como um planeta de baixa luminosidade, devido à grande distância do Sol. Se fosse oco, em seu interior caberiam mil e trezentos planetas do tamanho da Terra e ainda sobraria espaço. (ASIMOV, 1980, p. 9). Informa também que o planeta recebe um vinte e sete avos por quilômetro quadrado de luz, tendo um terço de brilho se comparado com a intensidade luminosa da Lua observada da Terra. (ASIMOV, 1980, p. 94).

Também diz que Júpiter representa um perigo letal por possuir uma gravidade insuportável. Além disso, não é um planeta totalmente esférico, tendo os pólos achatados, assim como o planeta Terra. A rotação em torno de seu eixo dura cerca de 10 horas. O diâmetro em seu equador mede nove mil e seiscentos quilômetros. Mede cerca de onze vezes a circunferência da Terra. Sua atmosfera é constituída de Hidrogênio e Hélio, e é assolada por gigantescos e turbulentos temporais. Descreve o planeta como coberto de faixas que mudam de forma conforme são observadas, cujas cores são rosa, verde, azul e púrpura e possuem um brilho deslumbrante. Descreve a Grande Mancha Vermelha como um funil de gás girando preguiçosamente. (ASIMOV, 1980, p. 101) O narrador descreve também, de forma muito criativa, os eclipses de Júpiter e o Sol, como nos trechos a seguir:

Agora era o Sol e Júpiter que se alinhavam entre si. Os homens assistiam avidamente enquanto o Sol, semelhante a uma pérola, elevava-se mais e mais no céu. Após isso, Júpiter entrou em minguante, estreitando-se nas áreas iluminadas, é claro, voltadas para o Sol. Júpiter tornou-se meia-lua, atingiu a fase crescente, e então quarto-minguante. (ASIMOV, 1980, p. 105)

A película luminosa atingia maiores proporções à medida que o Sol continuava sua trajetória afastando-se mais e mais por trás de Júpiter. Curvou-se sobre si mesmo fracamente, muito fracamente, os dois filetes luminosos sobre o lado oposto de Júpiter. O corpo quase imperceptível de Júpiter era delineado luminosamente e um dos seus lados abaulara-se. Era um anel de diamante no céu, grande o bastante para comportar dois mil globos do tamanho da Terra. E o Sol prosseguia ainda em sua trajetória oculto por Júpiter, de forma que a luz começou a desvanecer-se, tornando-se gradualmente mais opaca, até que finalmente desapareceu por completo, e salvo pela pálida fase crescente do Europa, o céu tornara-se negro e agora pertencia às estrelas. (ASIMOV, 1980, p. 106)

Na estória de Asimov os satélites de Júpiter eram conhecidos popularmente através de números conforme foram descobertos. Os quatros grandes satélites de Júpiter eram numerados Um, Dois, Três e Quatro, mas eram mais conhecidos por Io,

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Europa, Ganimedes e Calisto. O narrador explica que Io mostra apenas um lado enquanto gira, e que, portanto, Júpiter nunca nasce em metade de sua superfície e na outra metade nunca se põe. Em uma região intermediária do satélite, Júpiter permanece sempre no horizonte. Gira em torno do planeta em quarenta e duas horas, sendo o mais rápido dos satélites de Júpiter. (ASIMOV, 1980, p. 101, 104). Lucky observa que sua atmosfera é rarefeita, e sua superfície é coberta de amônia congelada, com temperatura semelhante a do ponto de fusão da amônia. (ASIMOV, 1980, p. 108).

- O local em que Lucky inicia sua aventura é Adrastea, atualmente considerado como o satélite Júpiter XV , mas conhecido na estória como Júpiter nove, sendo descrito como um satélite com cento e trinta quilômetros de diâmetro e constituído de rocha íngreme cinzenta que mal desperta a atenção. (ASIMOV, 1980, p. 10). Podemos perceber que as informações são extremamente detalhadas, embora muitas delas estejam desatualizadas. Uma atividade interessante poderia ser justamente solicitar aos alunos que pesquisassem as informações atualizadas sobre o planeta e as confrontassem com as apresentadas no texto. O livro permite abordar aspectos de tecnologia, associando-a com conhecimentos científicos, mas muitas vezes extrapolando o conhecimento da ciência atual. Há, por exemplo, o projeto AGRAV, que é uma tecnologia antigravitacional que pode ser usada para absorver, armazenar, ou transferir energia gravitacional. (ASIMOV, 1980, p. 29). Tal conversor AGRAV converteria energia potencial em outras formas de energia e não necessariamente a energia cinética. (ASIMOV, 1980, p. 71).

Em sala de aula o livro poderá ser uma ferramenta muito útil, pois irá incentivar o hábito de leitura por parte dos alunos, além de auxiliar o professor a trabalhar os conceitos abordados relacionando-os com a proposta da disciplina. O acesso à literatura nas escolas públicas é uma tarefa difícil e raramente há exemplares de livros suficientes, e considerando a possibilidade dos alunos não terem lido o livro, é aconselhável que o professor conte a história para a classe, para que estes fiquem interessados e motivados a ler a história, e entendam o que será estudado, e poderão fazer as atividades lendo os trechos selecionados pelo professor.

## Atividade 1: Dia e noite no espaço?

## Trecho utilizado:

O trecho relata um diálogo entre o comandante Donahue e Lucky Starr que se aproximava com sua nave Shotting Starr de Júpiter 9.

- -Bom dia, Conselheiro Starr -disse Donahue asperamente. - Tem sido sempre um tanto difícil dizer-se "bom dia", "boa tarde", ou "boa noite" no espaço, onde, para sermos exatos, não existe manhã, tarde ou noite (ASIMOV, 1980, p. 18)

Objetivo : Discutir os movimentos de Revolução e Rotação nos planetas do Sistema Solar a partir da literatura e a ficção científica, relacionando com o eixo temático Terra e Universo, uma das propostas dos PCN para as Ciências Naturais (BRASIL, 1998).

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Conteúdos: Conceito de dia astronômico; Rotação e revolução de planetas em torno do Sol.

Procedimentos: (1) Os alunos leem o trecho. (2) O professor inicia uma discussão com a classe sobre o trecho lido, relacionando com os movimentos de rotação e revolução que permitem definir o dia e a noite em nosso planeta. (3) Os alunos são divididos em grupos e cada grupo escreve uma redação elaborando hipóteses para responder a seguinte questão: Por que não existe manhã, tarde ou noite no espaço? (4) A classe discute as hipóteses, e o professor tenta esclarecer as possíveis dúvidas que poderão surgir. (5) O professor propõe um trabalho em grupo e os alunos irão pesquisar o movimento de Rotação e Revolução em cada planeta do Sistema Solar. (6) O trabalho será apresentado em forma de seminários e cada aluno irá escrever as diferenças que perceberam nesses planetas em relação à Terra. Após a leitura, o professor irá discutir o tema 'Dia e Noite' em diferentes planetas de acordo com o movimento de Revolução e Rotação. Assim os alunos entenderão que os planetas são diferentes da Terra em muitos aspectos, como a distância até o Sol e o eixo de inclinação. Assim, a discussão poderá ser ampla e complementada com redações em grupo, pesquisas e seminários referentes ao assunto.

## Atividade 2: Eclipses em Europa

## Trecho utilizado:

A película luminosa atingia maiores proporções à medida que o Sol continuava sua trajetória afastando-se mais e mais por trás de Júpiter. Curvou-se sobre si mesmo fracamente, muito fracamente, os dois filetes luminosos sobre o lado oposto de Júpiter. O corpo quase imperceptível de Júpiter era delineado luminosamente e um dos seus lados abaulara-se. Era um anel de diamante no céu, grande o bastante para comportar dois mil globos do tamanho da Terra.

- E o Sol prosseguia ainda em sua trajetória oculto por Júpiter, de forma que a luz começou a desvanecer-se, tomando-se gradualmente mais opaca, até que finalmente desapareceu por completo, e salvo pela pálida fase crescente do Europa, o céu tomarase negro e agora pertencia às estrelas.
- - Vai permanecer assim durante cinco horas - disse Lucky a Bigman. - E então, tudo irá repetir-se de forma contrária assim que o Sol aparecer.
- - E isso acontece a cada quarenta e duas horas? - perguntou Bigman, admirado.
- - Exatamente - respondeu Lucky (ASIMOV, 1980 p.106).

Objetivos: Fazer com que os alunos compreendam como ocorrem os eclipses. Normalmente apenas os eclipses envolvendo a Terra, Lua e Sol são tratados. Nessa atividade podemos mostrar que os eclipses podem acontecer em quaisquer planetas do Sistema Solar e seus satélites. Conteúdos: Eclipses, Movimento orbital dos satélites

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Procedimentos: (1) Os alunos em grupo leem e interpretam a tabela abaixo com dados (aproximados) sobre Júpiter e o satélite Europa, descritos no trecho da estória. (2) Os grupos apresentam suas interpretações para a classe. (3) Pede-se para os alunos imaginarem que Europa tem um diâmetro de 3mm e determinarem quais seriam, proporcionalmente, a distância entre Europa e Júpiter e o diâmetro de Júpiter (respectivamente 67 cm e 14 cm). (4) Os alunos confeccionam uma bolinha de papel com 3 mm de diâmetro e, usando uma bola de isopor de 14 cm, fazem a simulação da órbita de Europa em torno de Júpiter, mostrando como ocorrem os eclipses. (5) Pede-se para os alunos compararem os tempos descritos no trecho com os dados apresentados na tabela (os dados fornecidos por Asimov não conferem com as medidas atuais).

Tabela 1 - Dados sobre Europa e Júpiter.

O trecho apresenta uma descrição de como seria um eclipse em uma lua de Júpiter. Embora os dados apresentados no livro estejam desatualizados, a narração da estória permite ao aluno imaginar a situação. O uso de uma maquete permite com que o estudante visualize a descrição dada no livro. A comparação com os dados atuais permite ao aluno perceber que as informações apresentadas no livro estão desatualizadas, mas, ao mesmo tempo, perceber que o conhecimento científico não é absoluto, mas que vai sofrendo aperfeiçoamentos ao longo do tempo.

## Considerações Finais

A análise do livro 'O robô de Júpiter' de Isaac Asimov mostrou que há um grande potencial didático no uso de obras de ficção científica para o ensino de ciências. Verificamos que a obra apresenta uma grande quantidade de conceituações científicas que podem ser aproveitadas nas discussões em sala de aula. Entre os principais assuntos abordados na obra estão aspectos da astronomia do Sistema Solar, em particular, sobre o sistema de Júpiter e seus satélites. Também são apresentados muitos conceitos básicos de física, principalmente de mecânica.

Apresentamos como proposta didática três roteiros simples de atividades modelo, que podem ser aplicadas em sala de aula e aperfeiçoadas de acordo com os objetivos de ensino. Nas próximas etapas dessa pesquisa realizaremos um estudo detalhado dos conceitos apresentados na obra 'O robô de Júpiter', comparando os dados e as descrições fornecidos por Asimov com os conhecimentos atuais a respeito de Júpiter e seus satélites. Também serão elaborados roteiros mais detalhados de atividades, que posteriormente serão aplicadas em sala de aula por professores de ciências do ensino fundamental. A

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partir dessa prática, poderemos verificar em que medida o uso da literatura de ficção científica em sala de aula permite verificar aquilo que os diversos autores têm proposto como razão para o uso desse tipo de material: o aumento do interesse dos estudantes pela leitura e pela ciência, o desenvolvimento de habilidades de leitura e interpretação e o favorecimento da aprendizagem de conceitos de ciência de forma integrada.

## Referências

ALLEN, D. L. No Mundo da Ficção Cientifica. Ed. Centennial Press, 1974. 21-29.

ASIMOV, Isaac. O robô de Júpiter. São Paulo, Hemus, [1980?].

ASSIS, J. P. Exploradores do Futuro. Scientific American. Ed. Especial, n. 4, 2005.

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FIKER, Raul. Ficção científica: ficção, ciência ou uma épica da época? Porto Alegre, L&PM, 1985.

FRAKNOI, Andrew. Teaching Astronomy with Science Fiction: A Resource Guide. Astronomy Education Review. Issue 2, Volume 1:112-199, 2003.

FREUDENRICH, Craig. C. Sci-Fi Science: Using Science Fiction to set Context for Learning Science. The Science Teacher v. 67 no. 8, Nov. 2000. 42-45

MARTIN-DIAZ, M .J; PIZARRO, A; BACAS, P; GARCIA, J. P and PERERA, F. Science Fiction comes into the Clasroom: Maelstrom II. Phys. Educ. 27, 1992. 18-23.

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NAUMAN, Ann K. e SHAW, Edward. Sparking Science Interest through Literature: Sci-Fi Science. Science Activities. Vol 31, No. 3. Fall, 1994. 18-20.

SHAW, Donna and Dybdahl, Claudia S. Science and the Popular Media. Science Activities. Vol 37. No. 2. Summer 2000. 22-31.

SOUTHWORTH, Tom. Modern Physics and Science Fiction: a Mini-Unit for High School Physics. The Physics Teacher, Feb. 1987. 90-91.

TUCHERMAN, Ieda. A ficção científica como narrativa do mundo contemporâneo. Acesso em 15/11/2008. Disponível em: http://www.comciencia.br/reportagens/2004/10/09.shtml

ZANETIC, João. Física também é cultura. Tese de doutorado. São Paulo: Faculdade de Educação da USP, 1989.

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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.