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MÁQUINAS TÉRMICAS EM LIVROS DIDÁTICOS DE FÍSICA (1950 - 1990): UM PRIMEIRO OLHAR

Roseline Beatriz Strieder, Giselle Watanabe Caramello, Yassuko Hosoume

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XIX
Ano
2011
Data
03/02/2011
Linha de pesquisa
Didática, Currículo E Avaliação No Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

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## MÁQUINAS TÉRMICAS EM LIVROS DIDÁTICOS DE FÍSICA (1950 - 1990): UM PRIMEIRO OLHAR

## Roseline Beatriz Strieder , Giselle Watanabe Caramello , Yassuko Hosoume 1 2 3

- 1 Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências/ Universidade de São Paulo e Universidade Católica de Brasília, roseline@if.usp.br
- 2 Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências/ Universidade de São Paulo, gizwat@usp.br

## Resumo

Nesse trabalho é apresentada uma análise do conteúdo de máquinas térmicas presente em livros didáticos de Física do ensino médio, publicados no período de 1950 a 1990. Foram analisados seis aspectos que dizem respeito à (i) estrutura curricular, (ii) ao desenvolvimento do conteúdo, (iii) a presença de ilustrações, (iv) exercícios e problemas, (v) experiências e (vi) aspectos relacionados ao cotidiano, história, tecnologia e sociedade. A partir dessa análise foi possível identificar algumas mudanças que ocorreram na abordagem desse conteúdo, além de traçar breves considerações sobre a influência das orientações educacionais vigentes nesse período. Dentre os resultados, destacam-se as alterações que ocorreram na forma de tratar os conceitos que, inicialmente, volta-se à apresentação detalhada do funcionamento e estrutura das máquinas, passando por um período em que esse conteúdo é praticamente inexistente, ganhando destaque, novamente, em livros mais recentes, porem com uma nova abordagem. Associado a essa nova abordagem, destaca-se a tentativa de aproximar os conteúdos científicos da realidade do aluno por meio da inserção de textos históricos e de situações cotidianas.

Palavras - chave: livro didático, ensino de física, máquinas térmicas.

## Introdução

O ensino brasileiro historicamente tem passado por mudanças em direção a uma educação preocupada em incorporar um número cada vez maior de alunos na sala de aula. Essa inclusão crescente de estudantes de classes sociais menos privilegiadas, que coincidiu com a abertura de mais escolas, representou um grande avanço para a sociedade, mas também evidenciou as dificuldades do nosso sistema educacional em atender um número cada vez maior de alunos (SAVIANI, 2007).

Nesse processo de democratização do ensino, o livro didático passa a exercer um papel importante no contexto escolar, passando a representar, de certa forma, um retrato do conteúdo abordado nas escolas. Segundo Moreira e Axt (1986), o uso do livro didático vem associado principalmente à necessidade de assegurar um mínimo de qualidade ao ensino massificado, e, além disso, tem servido também para complementar a formação deficiente do professor ou para mantê-lo atualizado. Na mesma direção, Lajolo (1996) afirma que ele pode ser considerado o material de maior influência no ensino, sendo um dos instrumentos que orienta a seleção do conteúdo e a metodologia a ser desenvolvida nas escolas.

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De acordo com Bittencourt (2004), além de suporte para diferentes disciplinas, o livro didático pode ser considerado um veículo de valores ideológicos e culturais, podendo representar um retrato das transformações sociais. Nessa compreensão é possível encontrar aspectos relevantes e característicos de um período da história da educação analisando os livros didáticos publicados ao longo do mesmo (NICIOLI, 2007). Para Correa (2000) eles podem ser utilizados como fonte de pesquisa, principalmente por dois aspectos,

- (...) primeiro, trata-se de um tipo de material de significativa contribuição para a história do pensamento e das práticas educativas ao lado de outras fontes escritas, orais e iconográficas e, segundo, ser portador de conteúdos reveladores de representações e valores predominantes num certo período de uma sociedade que, simultaneamente à historiografia da educação e da teoria da história, permitem rediscutir intenções e projetos de construção e de formação social. (CORRÊA, 2000:12)

As pesquisas sobre a história do livro didático apresentam uma diversidade muito grande de abordagens e, de acordo com Chopin (2004), as mesmas podem ser classificadas em dois grandes grupos: (i) as que concebem o livro como um documento histórico, cujo foco é o conteúdo presente nos mesmos, e (ii) as que o concebem como objeto físico que, dirigindo seu olhar para o livro propriamente dito, buscam reconstruir sua história. É no primeiro grupo que se situa o presente trabalho, cujo interesse se volta a forma como um determinado conteúdo vem sendo apresentado nos livros em um período da história da educação brasileira.

Particularmente, nosso interesse recai sobre o conteúdo de máquinas térmicas presente em livros didáticos por evidenciar, em parte, a sua influência na história dos tempos modernos. O motor a vapor, primeira máquina térmica, foi uma das bases da Primeira Revolução Industrial, iniciada em meados do século XVIII na Inglaterra e disseminada pelo mundo a partir do século XIX, com profundo impacto no processo produtivo estabelecendo uma nova relação entre capital e trabalho. Na Segunda Revolução Industrial, que tem inicio em meados do século XIX e vai até meados do século XX, o motor de combustão interna foi sem dúvidas um dos desenvolvimentos a alavancar o avanço tecnológico desse período e, ainda hoje, ele é utilizado em processos tecnológicos que envolvem máquinas térmicas.

Nesse trabalho não procuramos identificar e analisar a abordagem conceitual voltada ao 2ª Princípio da Termodinâmica (ou aspectos da entropia), mas tão somente analisar a forma de apresentar o assunto. Assim, nosso objetivo é identificar as transformações que ocorrem na abordagem e apresentação do conteúdo de máquinas térmicas em um determinado período da educação brasileira, analisando livros didáticos de Física. Ao expor parte da história desse conteúdo pretendemos contribuir com as pesquisas que buscam compreender como a disciplina de Física se desenvolveu ao longo dos anos.

Para a análise dos exemplares, partimos do pressuposto de que os autores e editoras de livros didáticos são influenciados pelas políticas educacionais vigentes propostos através leis e reformas. Nessa perspectiva, olhar as mudanças presentes nos livros didáticos também envolveu estudar as principais leis e reformas educacionais promulgadas no período em que os exemplares didáticos foram publicados. Tomamos como referência de análise o período entre os anos 50 e 90, por corresponder, respectivamente, ao momento que antecede e sucede a 1ª Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional de 1961(1ª LDB/61). Dentre os momentos

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marcantes desse período temos a Lei nº 4.024 (1ª LDB/61), a Lei 5.692/71 e a Lei 7.0441/82.

O período que perdura de 1950 e 1964 é marcado pela queda do Estado Novo; o país passa por um processo de redemocratização, retornando ao estado direto, com governos novamente eleitos pelo povo. Associado a isso, há uma esperança no progresso e desenvolvimento industrial do país. Nesse contexto é promulgada, em 1961, sob Lei nº 4.024, a 1ª LDB. Essa lei manteve a mesma estrutura da educação básica, mas permitiu a equivalência dos cursos profissionalizante e secundário, possibilitando que alunos de quaisquer áreas tivessem acesso ao ensino superior, por meio do vestibular. Além disso, essa lei flexibilizou e descentralizou o currículo permitindo a diversidade de currículos (AZANHA, 1996). Em relação às disciplinas científicas a lei reflete o espírito da época, que via o conhecimento científico como um modo de incentivar o progresso e o desenvolvimento da nação (DIOGO e GOBARA, 2008).

Em 1964 inicia-se o período do Regime Militar e com a Lei 5692, de 11 de agosto de 1971, é promulgada uma nova grande reforma da educação que, para responder às demandas do desenvolvimento, passa a visar à formação do trabalhador e não mais a do futuro cientista ou o profissional liberal. Com isso, ocorre uma mudança no currículo, que se subdivide o ensino básico em duas partes: uma voltada para educação geral (1º grau) e outra para a formação profissionalizante (2º grau), de visão utilitarista objetivando a habilitação e qualificação para o mercado de trabalho de forma absoluta e universal (ZOTTI, 2004).

No bojo do fracasso do projeto educacional da Ditadura Militar termina a profissionalização obrigatória e a ' qualificação para o trabalho ' da Lei 5692/71 é substituída pela ' preparação para o trabalho' , através da Lei 7.0441/82 (GHIRALDELLI, 2008). No final da década de 70 e nos anos 80 a educação brasileira inicia um processo de mudança pautado pelo crescimento da literatura em educação, em diferentes âmbitos e questões, e as atenções voltam-se ao papel da escola enquanto uma esfera de apropriação do saber elaborado socialmente (AZANHA, 1996). De acordo com Krasilchick (1987), as novas conjecturas mundiais exigem decisões e mudanças curriculares, tanto em termos dos conteúdos como da metodologia empregada. Assim, nesse momento, passa-se a defender um ensino de ciências que possibilite a análise das implicações sociais do desenvolvimento científico-tecnológico. Esse último período de nossa análise, marcado pela decadência do Governo Militar e ascensão da democracia, que se estabelece em 1985, traz novos rumos à educação brasileira que vai se concretizar na promulgação da 2ª LDB, em 1996.

A partir desse breve histórico sobre as leis e reformas educacionais vigentes no período selecionado procuramos buscar, ao longo da nossa análise, elementos que permitam compreender, em parte, as abordagens presentes nos livros didáticos.

## Desenvolvimento da pesquisa

Para a seleção dos livros didáticos de Física realizamos visitas à biblioteca de ensino do Instituto de Física da Universidade de São Paulo (PROFIS-IFUSP) e à Biblioteca do Livro Didático da Faculdade de Educação, da mesma universidade (BLD-FEUSP). De posse da relação de livros, foram selecionados os exemplares que abordam máquinas térmicas e destes escolhemos 10 coleções, que de certa

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forma representam este período de 40 anos. Optamos por utilizar exemplares tanto do tipo volume único quanto seriado (cerca de três volumes que abrangem o conteúdo programático da Física) em função de uma análise preliminar que evidenciou que as diferenças entre livros de uma mesma época não são significativas.

Temos consciência de que essa amostragem de livros é apenas um primeiro passo em direção a um trabalho mais completo, onde será analisado um número maior de livros de cada período de referência. No Quadro 1 estão expostos o ano de publicação, título, volume, autor (es) e editora dos exemplares. Os três primeiros livros, publicados antes da LDB/61, são aqueles que mais permaneceram no mercado editorial representando de certa forma o currículo do ensino da física da época (MARTINS e HOSOUME, 2007); o 4º exemplar se situa exatamente entre a LDB/61 e a lei 5692/71; os exemplares da década de 1970 e inicio de 1980 (5º. ao 8º.) correspondem ao período da profissionalização do ensino médio ( entre as Lei 5692/71 e Lei 7.0441/82) e os dois últimos exemplares representam o período rico de estudos e reflexões sobre educação anterior à LDB/96.

Quadro 1 : Livros didáticos analisados

Para a investigação desses exemplares utilizamos como referência os parâmetros de análise utilizados por Wuo (2000), que se referem à (i) estrutura curricular, (ii) abordagem do conteúdo, (iii) ilustrações, (iv) exercícios e problemas, (v) experiências e (vi) relações que consideram aspectos do cotidiano, história e ciência, tecnologia e sociedade (CTS).

Para cada parâmetro selecionado há um olhar específico, pautado pela metodologia de análise de conteúdo de Bardin (1988). Na estrutura curricular são observados os índices de cada livro, procurando identificar os conteúdos que antecipam a discussão sobre máquinas térmicas e quais deles podem influenciar o tipo de abordagem que será feita após tal desenvolvimento. Na abordagem do conteúdo são analisadas a disposição e a forma de tratamento dos conceitos vinculados às máquinas térmicas, em especial o 2º Princípio da Termodinâmica. Nas

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ilustrações são observadas as principais características das figuras relacionadas às máquinas térmicas e as características das representações de, por exemplo, o ciclo de Carnot. No parâmetro denominado exercícios e problemas é identificado o enfoque dado ao ensino por meio das possíveis respostas esperadas (somente cálculos ou interpretações pautadas no texto de referência - abordagem conceitual). Quanto às experiências , são analisadas características como a dificuldade de reprodutibilidade e sua relação com o conteúdo (experiências que elucidam o trabalho do cientista). Por fim, na diretriz vinculada aos aspectos do cotidiano, história e CTS , procura-se identificar os enfoques dados às discussões que aparecem em caixas de textos ou ao longo do texto.

## Resultados da análise dos livros

Os resultados da análise dos livros didáticos selecionados estão organizados no Quadro 2 . Esse quadro traz os parâmetros de análise, apresentadas anteriormente, que orientaram a pesquisa.

Quadro 2 : Panorama do assunto Máquinas Térmicas (MT)

## Categorias de análise

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Do Quadro 2, em relação à estrutura curricular , constatamos que nos livros 6, 7 e 8 o conteúdo Máquinas Térmicas (MT) não está presente nos sumários, embora esses sejam discutidos ao longo dos capítulos que tratam a Termodinâmica. Nesse caso, o tema está diluído/ incorporado numa problemática maior. Nos demais livros (1, 2, 3, 4, 5, 9 e 10) há menção explícita ao conteúdo, que em alguns (1, 2 e 3) abarca um capítulo inteiro e encontra-se depois do capítulo de Termodinâmica, e em outros (4, 5, 9 e 10), abarca parte de capítulos ou textos de leitura complementar. O número de páginas destinadas ao conteúdo, em relação ao total de páginas do livro, representa entre 2,5 e 4% nos livros 1, 2, 3, 9 e 10 e menos de 1% nos livros 4, 5, 6, 7 e 8. Isso mostra que houve algumas mudanças quanto à valorização do tema, que era maior nas décadas de 50, 60 e final de 80/início de 90 e menor na década de 70 até meados de 1980.

No que se refere à abordagem do conteúdo , nos livros 1, 2 e 3 é discutido o conteúdo de Termodinâmica com referência às MT; em seguida, há um capítulo sobre as máquinas, no qual o foco passa a ser entender seu funcionamento do ponto de vista técnico. Nos livros 4 e 5 o conteúdo é abordado entre a discussão do 1º e do 2º Princípios da Termodinâmica, no primeiro caso com o intuito de exemplificar o processo de conversão de calor em trabalho e no segundo de apresentar como funcionam diferentes máquinas. Nos livros 6, 7 e 8, MT é discutido dentro do conteúdo de Termodinâmica, como um exemplo de tais princípios ou como ponto de partida para discuti-las. Em geral, esses livros enfatizam, além dos Princípios da Termodinâmica, discussões sobre a relação calor-trabalho, o Ciclo de Carnot e o cálculo do rendimento de MT. Em geral o termo 'máquinas térmicas' é apenas mencionado, sem a devida explicação do que se trata. Nesse caso, a intenção parece ser a de exemplificar determinado conceito ou processo, como por exemplo, o 2º Princípio da Termodinâmica. Nos livros 9 e 10, MT recebe novamente um destaque maior, embora inserido nas discussões sobre os Princípios da Termodinâmica. A intenção deixa de ser somente a abordagem dos conceito mas, também, o desenvolvimento histórico ou o funcionamento das máquinas.

As ilustrações, nos livros 1, 2 e 3, possuem destaque considerável, ocupando, algumas vezes, páginas inteiras. Retratam partes constituintes das MT e, em poucos casos, processos de funcionamento. Em geral, são complementares ao texto, desempenhando um papel importante em sua compreensão. Já nos livros 4 e 5 as ilustrações, embora em número elevado, diminuem em relação aos livros anteriores e são compostas por esquemas que representam máquinas a vapor, as fases do motor a explosão e/ou refrigeradores, enfatizando principalmente os processos de transformação que ocorrem no interior de tais máquinas. Nos livros 6, 7 e 8 as ilustrações são praticamente inexistentes e representam, a partir de esquemas, as transformações de energia que ocorrem no interior de uma MT ou, a partir de gráficos, o ciclo de Carnot. No livro 9, as ilustrações também enfatizam o conceito; no entanto, como a discussão está pautada por um viés histórico, há uma ilustração que faz referência à máquina de Heron. Vale ressaltar que nesse exemplar, há esquemas simplificados de funcionamento da MT, tal como ocorre nos livros 7 e 8. No livro 10, as ilustrações parecem buscar relação com o cotidiano, trazendo detalhes do motor a explosão e dos refrigeradores. Também é interessante notar a ilustração de um menino (soltando um objeto) usada para exemplificar as transformações reversíveis e irreversíveis.

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Quanto aos exercícios e problemas, nos livros 1, 2, 3 e 4, quando presentes, se resumem a poucos cálculos de rendimento. Já nos demais livros, em geral, há mais de uma página com questões, exercícios e problemas. É interessante notar que nos últimos livros (8, 9 e 10) há uma preocupação com os exercícios de fixação e vestibulares. No exemplar 10, há uma seção somente voltada aos testes provenientes de vestibulares.

Em praticamente todos os exemplares analisados as atividades experimentais, quando comparecem, são utilizadas para explicar determinado conceito ou se referem a métodos realizados por cientistas. Apenas no livro 9 há uma experiência que sugere a reprodução da máquina de Heron. Nesse mesmo exemplar, os autores sugerem 5 experiências simples que podem ser reproduzidas pelos alunos. Essas experiências abarcam assuntos tratados no capitulo, tais como condução de calor e calorímetro.

Por fim, no que se refere aos vínculos entre o conteúdo e exemplos próximos do cotidiano dos alunos e/ou discussões relacionadas à história e CTS, nota-se a ausência dessa discussão nos livros 1, 2, 4, 6 e 7. No livro 3, comparece a preocupação em citar aparatos tecnológicos atuais tidos como inovadores para a época. No livro 5, em um texto complementar, comparecem discussões que apontam para uma abordagem de natureza mais social. Nos livros 8 e 9 parece haver uma preocupação com as questões históricas enquanto que no livro 10 há um destaque para as questões relacionadas ao cotidiano próximo dos alunos. Esses aspectos muitas vezes são inseridos em textos complementares ou caixas de textos, presentes ao longo do texto propriamente dito.

De forma geral, podemos reconhecer que os exemplares analisados indicam que o ensino do conteúdo de MT mudou ao longo dos anos, tendo nas décadas de 1950/60 posição privilegiada, perdendo seu destaque nas décadas de 1970/80 e voltando a ter, com outro olhar, no final da década de 80 e na década de 1990. Também houve mudanças no que se refere à abordagem desse conteúdo: os livros de 1950/60 enfocam, para além dos conteúdos científicos, questões de natureza técnica; já nos livros da década de 1970/início de 80 a ênfase está somente nos conceitos científicos. Nesse caso, as máquinas são usadas para exemplificar os conceitos e, por fim, nos livros do final da década de 1980/início de 1990, é retomada a articulação entre os conteúdos científicos e aspectos outros, nesse caso, o desenvolvimento histórico ou o funcionamento geral das máquinas. Associado a isso, as ilustrações enfocam as partes constituintes das máquinas nos livros de 1950/60, os conceitos nos livros de 1970/início de 1980 e aspectos históricos ou cotidianos nos livros do final de 1980/90. Também é importante destacar a ausência de aspectos relacionados ao cotidiano, história e CTS em praticamente todos os livros publicados entre 1950 e início de 1980 e a presença, ainda que embrionária, nos exemplares do final de 1980 e início de 1990. Por fim, constatou-se que, com o passar dos anos, houve um aumento considerável no número de exercícios propostos, diferente das sugestões de atividades experimentais, que não são valorizadas nos exemplares analisados, com exceção do exemplar de 1987.

## Algumas inferências e considerações finais

Os resultados oriundos dessa análise nos permitiram construir um panorama geral sobre a forma como o conteúdo de MT é abordado em livros das décadas de 1950 a 1990 e quais mudanças ocorreram ao longo desses anos. Algumas dessas

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mudanças ou permanências podem ser compreendidas se olhadas através das políticas educacionais propostas nas leis vigentes de cada período da história da educação.

Os primeiros livros analisados (pertencentes ao final da década de 50) apresentam discussões detalhadas sobre as partes que compõem as MT e seu processo de funcionamento, possivelmente influenciados pelos objetivos educacionais propostos nesse período, ainda sob vigência da Reforma Capanema , 1 que tinha como preocupação central preparar os alunos para o ensino superior e formar uma elite instruída. Dessa forma, além de conteúdos de Física, era necessário estudar o que havia de mais moderno na ciência, desde teorias até equipamentos tecnológicos. Acreditava-se que o estudo de 'coisas concretas' e o contato com a natureza e a vida contribuíam para desenvolver uma cultura científica (KRASILCHIK, 1987).

Já os livros publicados na década de 60 e 70, foram suprimidas as discussões mais detalhadas sobre as MT, ocorrendo a redução de conteúdos, possivelmente por influência da 1ª LDB e, posteriormente da Lei 5692/71. Nesse período, como destacado por Krasilchik (1987) o país estava passando por um processo de industrialização o que implicava na necessidade, por um lado, de mão de obra especializada e por outro, de um público consumidor minimamente informado em conhecimentos da ciência.

Nos livros publicados na última década de vigência da 1ª LDB foi possível identificar uma tentativa de aproximar as MT do cotidiano (livro de 1990) e de uma abordagem histórica (livro de 1987). No exemplar de 1990, há discussões que procuram trazer explicações sobre os aparatos do dia a dia como os refrigeradores e motores à explosão. Essa tentativa de aproximação do cotidiano e de uma nova abordagem (viés histórico) pode ser reflexo das mudanças que começavam a despontar no âmbito social, em especial mudanças de políticas públicas. Podemos dizer que tais aspectos serão definitivamente contemplados somente em 1996, quando os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) entram no contexto educacional nacional.

Questões relacionadas ao cotidiano, à história e à CTS não eram valorizadas nas leis vigentes entre as décadas de 50 e 80 e comparecem, nos livros analisados, de forma isolada indicando estar relacionado à preocupação de autores em específico. Há indícios de que essas questões passam a receber destaque a partir da década de 80, possivelmente devido às preocupações com o meio ambiente, que ocorrem a nível mundial e às visões de educação da época que começam considerar como conteúdo disciplinar as implicações sociais do desenvolvimento científico e tecnológico (KRASILCHICK, 1987).

Outro aspecto a destacar é que, embora no período inicial (décadas de 50 e 60) houvesse uma ênfase no método científico nos programas das disciplinas e, como destaca Krasilchick (1987), a partir dos projetos curriculares (década de 70) esse objetivo passou a ter preponderância sobre as demais atividades, nos livros analisados não comparece uma preocupação com a realização de atividades experimentais. Sugestões de atividades experimentais aparecem apenas no livro 9, de 1987, mas esse exemplar já se apresenta como um livro à frente de sua época,

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tanto pela ousadia dos autores em promover uma discussão com viés histórico quanto por tratar o assunto numa seção 'extra'.

Embora tenham ocorridos mudanças na valorização, na abordagem e no desenvolvimento dos conteúdos relativos às MT foi possível identificar a existência um conteúdo nuclear, quase um currículo mínino, que se mantém ao longo dos 50 anos, como os enunciados de Clausius, Kelvin, Ciclo de Carnot, dentre outros, estão presentes em todos os livros, mesmo que numa seqüência diferente.

Por fim, destacamos que embora a amostra de livros tenha sido pequena, foi possível identificar algumas influências das diretrizes oficiais ao longo dos anos no ensino de MT. No entanto, essas influências também apontam para outros aspectos como os interesses dos autores, as políticas de editoração e a compreensão dos documentos oficiais (releitura) por parte de autores e editoras. Além disso, é importante destacar que, embora publicados em determinado ano, os livros podem ser edições de versões passadas e, dessa forma, possivelmente não apresentarão mudanças significativas.

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