A LINGUAGEM DE LIVROS DIDÁTICOS DE FÍSICA: UMA ANÁLISE NO CONTEXTO DO ESTUDO DA MECÂNICA
Sônia Elisa Marchi Gonzatti, Eliana Fernandes Borragini
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XIX
- Ano
- 2011
- Data
- 03/02/2011
- Linha de pesquisa
- Didática, Currículo E Avaliação No Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## A LINGUAGEM DE LIVROS DIDÁTICOS DE FÍSICA: UMA ANÁLISE NO CONTEXTO DO ESTUDO DA MECÂNICA
## Sônia Elisa Marchi Gonzatti , Eliana Fernandes Borragini 1 2
- 1 Centro Universitário UNIVATES, lagonzatti@bewnet.com.br
2 Centro Universitário UNIVATES, borragini@yahoo.com.br
## Resumo
Este trabalho é parte integrante de um projeto maior denominado Ciências Exatas na Escola Básica, em andamento no centro universitário UNIVATES. A parcela aqui apresentada relata a análise de livros didáticos de física quanto ao conteúdo da mecânica, mais especificamente cinemática e dinâmica. Os livros analisados estão entre os mais usados ou mais indicados nas escolas do Vale do Taquari, Lajeado/RS. Em função do espaço limitado para a descrição da pesquisa, foi analisado um número reduzido de livros e apenas algumas das unidades de análise estão sendo contempladas neste relato. Dos cinco títulos aqui discutidos foi possível perceber que apenas um introduz o estudo dos movimentos simultaneamente à dinâmica, enquanto os demais tratam a cinemática e a dinâmica separadamente. A atenção dispensada à cinemática, em um contexto em que o número de períodos semanais para a disciplina de física no ensino médio é cada vez mais reduzido, leva muitos professores a dar menos atenção justamente aos conceitos e relações mais intervenientes nas causas de movimentos e de situações de equilíbrio, que são as Leis de Newton.
Palavras-chave : livros didáticos, ensino de física, trabalho integrado
## Introdução
Este trabalho é parte de um projeto de pesquisa desenvolvido no Centro Universitário UNIVATES (Lajeado/RS), que se preocupa em investigar as ciências exatas na escola básica, tendo, portanto, o foco no ensino de física, química e matemática no ensino fundamental e, em especial, no ensino médio. Este projeto envolve a participação tanto de professores da instituição, quanto de professores de física, química e matemática de escolas da região, constituindo-se assim um coletivo de professores em reflexão. Os professores das escolas que participam do projeto contribuem com discussões acerca das atividades propostas e, na medida do possível, dispõem-se a aplicá-las em sala de aula.
Um dos focos desse projeto é examinar, em livros didáticos de Matemática, Química e Física, que usualmente circulam nas escolas de Ensino Médio da região do Vale do Taquari, os jogos de linguagem que instituem o ensino de Ciências Exatas na Escola Básica (Giongo et al, 2010). Rudá (2010) aponta que qualquer coisa tem o seu significado determinado pela existência desta coisa junto às coisas que a rodeiam. No ensino de ciências exatas, esta perspectiva nos permite identificar o significado das coisas, ou das grandezas físicas, a partir do contexto no qual estão inseridas, e das relações traçadas entre elas.
Neste trabalho, foram selecionados livros didáticos de física para análise. Foram escolhidos os livros mais usados nas escolas de ensino médio da região, conforme indicação dos professores participantes do projeto.
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30 de janeiro a 04 de fevereiro de 2011
O foco da análise é identificar abordagens ou enfoques que indiquem como os assuntos são tratados e se há conexões entre os conceitos que favoreçam a construção dos conhecimentos de uma forma mais complexa e abrangente, contribuindo para uma aprendizagem significativa, na perspectiva ausubeliana. Inicialmente, estão sendo analisados livros da primeira série do ensino médio, e é esta análise que será compartilhada neste trabalho.
## Justificativa
O projeto de pesquisa, do qual este trabalho é parte integrante, nasceu da necessidade de um espaço de discussão, socialização e proposição que integrasse as três disciplinas que compõem a área das ciências exatas. No Centro Universitário UNIVATES, é oferecido o curso de Licenciatura em Ciências Exatas, no qual os professores saem com habilitação integrada para Física, Química e Matemática do Ensino Médio e Matemática do Ensino Fundamental. Assim, as ações de extensão e pesquisa são uma ferramenta importante para acompanhar e oferecer formação continuada aos egressos em serviço, bem como aos demais professores em atuação nessas disciplinas. Visto que, em muitas escolas, são os mesmos professores que lecionam estas três disciplinas, a oferta da licenciatura integrada veio oferecer formação e resolver um problema histórico da falta de qualificação de muitos professores na área de ciências exatas. A partir de reportagens divulgadas na mídia, em nível nacional, a falta de professores habilitados nessas áreas é um problema de larga escala em todo o Brasil e afeta a educação científica e tecnológica de nossas crianças e jovens. Um exemplo deste tipo de divulgação é a reportagem veiculada no Fantástico de 11/07/2010. 1
As diretrizes curriculares em vigência no país têm incentivado a organização em grandes áreas do conhecimento. Em nível estadual, o Rio Grande do Sul também está implantando um referencial curricular que visa a uma maior integração das áreas, através do projeto 'Lições do Rio Grande'. A abordagem proposta acompanha esta tendência e sugere que a formação de professores seja permeada de metodologias diversificadas e de diálogos interdisciplinares que potencializem aspectos comuns das diversas áreas de conhecimento, possibilitando o desenvolvimento de temas integradores de forma mais complexa e menos repetitiva.
Outra tendência observada é a carga horária reduzida na área de ciências exatas. Na região de abrangência do projeto, são geralmente 2h/a semanais para física e para química e 3h/a para matemática. Em vista desta característica, o professor precisa ser muito seletivo e crítico na organização dos planos de estudo e de trabalho. Deve ser capaz de priorizar conceitos estruturantes, que são a base para que o aluno, quando necessário, tenha condições de agregar novos conceitos e informações a esse conhecimento básico.
Para otimizar o tempo disponível para o ensino das disciplinas que compõem as ciências exatas (física, química e matemática), destaca-se algumas possibilidades: integrar disciplinas diferentes com conceitos e fenômenos comuns a
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serem estudados, evitando que sejam trabalhados em duas ou mais disciplinas, em detrimento de outros que não serão trabalhados em nenhuma; trabalhar sincronamente, sob diferentes enfoques, temas que estão contemplados nos currículos de diferentes disciplinas; em uma mesma disciplina, trabalhar de forma mais integradora, favorecendo a percepção das diversas relações entre grandezas e propiciando a construção dos conceitos de forma mais abrangente e dinâmica.
Considerando que os livros didáticos se tornaram a principal ferramenta de trabalho dos professores, avalia-se que uma maneira de contribuir para a melhora nesse cenário é o incentivo ao uso mais racional e crítico dessa ferramenta.
Em vista das questões expostas e da importância a elas atribuídas pela equipe de trabalho, a análise dos livros foi uma das ações planejadas e que está em execução no projeto de pesquisa de Ensino de Ciências Exatas na Escola Básica.
## Análise dos Livros Didáticos
A mecânica é o assunto trabalhado no primeiro ano do ensino médio na maioria das escolas do Brasil. Portanto o foco inicial da análise ateve-se ao estudo da Cinemática e da Dinâmica. Peduzzi (1996) e Harres (2002) defendem que as ideias prévias dos estudantes devem ser consideradas e que o estudo dos movimentos deve ser realizado em conjunto com suas causas. Em consonância com esta proposta, pode-se trabalhar o movimento uniforme juntamente com as condições em que o corpo deve se encontrar para que permaneça neste estado de equilíbrio (primeira lei de Newton).
A disciplina que melhor poderia se integrar à física, na abordagem comumente apresentada pelos livros didáticos, seria a matemática, uma vez que as funções horárias dos movimentos poderiam ser estudadas nessa disciplina, como aplicação e contextualização do estudo das funções. A física poderia, concomitantemente, resgatar a descrição destes movimentos, trabalhando suas causas através dos fenômenos e das conseqüências (variações e conservações) relacionadas às leis do movimento. A otimização do tempo para ambas as disciplinas seria uma consequência lógica. No Referencial Curricular de Física do RS, é sugerido que o conteúdo do primeiro ano do ensino médio seja introduzido pelas noções de força e interação, e pelo estudo dos movimentos. (Referenciais Curriculares, Quadro 3, p. 92).
Os livros didáticos analisados foram escolhidos pelo critério dos mais adotados na região do Vale do Taquari, no RS, como já mencionado. Dentro da mecânica, o foco de análise esteve na abordagem proposta para as Leis de Newton e para movimentos. A apresentação será feita por unidade de análise.
## Unidades de Análise:
Foram criadas três unidades de análise. Para cada livro serão apresentadas, resumidamente, as considerações feitas em cada uma destas unidades. As unidades adotadas são:
- 1ª. De maneira geral, como o conteúdo é abordado?
Nesta unidade buscou-se identificar como o conteúdo está disposto e se permite o trabalho com um número pequeno de períodos de aula.
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- 2ª. Qual é a linguagem matemática utilizada na abordagem dos conceitos?
- O foco desta unidade foi identificar a forma escolhida para a apresentação dos conceitos, se há estímulo à realização de estimativas, à compreensão das proporcionalidades entre grandezas e a forma como as habilidades matemáticas são estimuladas e desenvolvidas.
- 3ª. Qual é o enfoque proposto para o estudo das Leis de Newton?
Pela importância atribuída à compreensão e possibilidades de aplicações das leis de Newton, buscou-se avaliar se a abordagem proposta favorece a construção de conceitos como variações e conservações, se há preocupação em retomar a relação com os movimentos e se o autor considera as concepções prévias frequentemente trazidas pelos alunos.
## Curso de Física, v. 1
- 1ª. Os autores apresentam um capítulo específico para movimentos retilíneos, que não requer tratamento vetorial, dado seu caráter unidimensional. Não faz nenhuma referência às condições dinâmicas para que se mantenha um MRU ou MRUV. No estudo do movimento variado com aceleração constante, explora bastante o movimento da queda livre, propondo experimentos simples e interessantes. Antes de serem introduzidas as leis de Newton, há um capítulo envolvendo o estudo de vetores e o movimento curvilíneo.
Apenas no quarto capítulo é introduzido o tema forças, a partir do estudo da primeira e da terceira leis de Newton. O capítulo seguinte é dedicado à 2ª lei de Newton, com aplicações diversas, e o tratamento de forças em trajetórias curvas é feito no mesmo capítulo.
- 2ª. Ao longo do texto, há o cuidado de estabelecer relações de dependência entre as variáveis. Vários exercícios propostos, especialmente os de fixação, propõem que o aluno estabeleça relações de proporcionalidade. Como exemplo, podemos citar a variação da distância com o quadrado do tempo em um movimento com aceleração constante, apresentado à página 49, ou ainda, o exercício 1, na página 168. Há um cuidado na apresentação do significado físico das grandezas, o que estimularia a compreensão conceitual, e não apenas a resolução de fórmulas e a obtenção de resultados numéricos. Também se avalia como pertinente a análise gráfica das funções dos movimentos; ao apresentar a dependência entre as grandezas, o texto estimula o aluno a avaliar qual é o gráfico típico para aquela relação. Observa-se essa estratégia, por exemplo, no gráfico d versus t, (p. 49). Também avalia-se como positivo que, em vários exercícios, o aluno é solicitado a analisar gráficos para comparar e descrever comportamentos e a evolução de sistemas. Como exemplo tem-se o gráfico do exercício 9 (p. 63).
- 3ª. Apresenta, primeiramente, os conceitos de inércia e a ação-reação, com aplicações, e depois o princípio fundamental da dinâmica. Propõe a importante discussão da diferenciação entre massa e peso, tanto no texto básico quanto em vários exercícios propostos (p. 151, 154).
Não conceitua força como interação, o que é considerado uma necessidade para a adequada compreensão do conceito. Também, não faz nenhuma referência às interações fundamentais, o que seria uma aproximação com as teorias atuais da Física.
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- O conceito de inércia é apresentado como tendência em manter o estado de repouso ou do movimento constante. Sob esse enfoque, são citados vários exemplos, embora a inércia esteja muito mais relacionada à necessidade da inter -ação com outro corpo para provocar qualquer tipo de mudança no próprio movimento. Adotar este enfoque ajudaria a reforçar a noção de interação, através da identificação dos inter-agentes responsáveis pelas forças em um sistema. O enfoque da inércia como a in-capacidade de um corpo, sozinho, alterar seu próprio estado dinâmico, mostra-se mais adequado ao significado atual. (Gardelli, 1999)
De maneira geral, o texto apresenta as leis do movimento com a discussão de exemplos concretos, propõe leituras e questões que levam o aluno a questionar suas concepções alternativas, e isso pode favorecer uma melhor compreensão conceitual. Explora o papel das forças de atrito, presentes em qualquer situação de movimento real. Na página 109, a definição da primeira lei do movimento poderia ser mais rigorosa, pois além da ausência de forças, se a resultante das forças for nula (que é o caso mais comum nos movimentos observáveis), também há equilíbrio.
## Os fundamentos da Física 1
- 1ª. Antes de tratar a dinâmica dos movimentos, esta obra tem nove capítulos dedicados ao estudo mais formal e matemático da cinemática. São cinco capítulos para cinemática escalar e quatro para cinemática vetorial. Para a dinâmica, são dedicados apenas três capítulos do livro, o que é uma divisão desproporcional entre essas áreas: a dinâmica requer mais tempo para que se desenvolva um trabalho que favoreça algum contraste com as concepções alternativas, muito arraigadas quando o tema é força e movimento.
- 2ª. Esta obra utiliza intensamente a ferramenta dos gráficos; há um capítulo exclusivo para o estudo matemático dos gráficos dos movimentos retilíneos (pag. 71-100). Este capítulo tem como aspecto positivo a comparação e a correlação que propõe entre os gráficos das funções matemáticas básicas e as suas aplicações físicas. A apresentação formal o torna mais adequado para utilização em aulas de matemática.
- Os exercícios com gráficos exigem cálculo de velocidades, de áreas (distâncias ou espaços percorridos), determinação de condições iniciais, típico de uma abordagem mais clássica da cinemática.
- O texto explora pouco a proporcionalidade entre as grandezas. As equações são apresentadas com a identificação de cada variável, mas há pouca discussão do seu significado físico. A maioria dos exercícios propostos e dos exemplos resolvidos enfatiza o equacionamento do problema, como a aplicação da 2ª lei de Newton ao movimento de dois blocos, mas estimula pouco a interpretação física dos resultados.
- 3ª. Apresenta o princípio de inércia como tendência. Mas de maneira indireta, menciona a necessidade de interação com outro corpo, por exemplo, "segurar-se no ônibus" ou "ser empurrado pela poltrona" (p. 173), para variar o próprio movimento e adquirir movimento solidário ao veículo. Essa abordagem favorece a compreensão desejável.
Adota a classificação das forças como de contato ou de campo, mas não faz referência às interações fundamentais.
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Apresenta a segunda lei do movimento com ênfase ao caráter vetorial. Propõe resolução de problemas para diferentes diagramas de força, geralmente priorizando a solução matemática em detrimento da análise das conseqüências, das variações ou das conservações observadas.
Toda a descrição cinemática dos movimentos, feita anteriormente, não é retomada. Não é proposta uma conexão explícita entre os movimentos e suas causas.
## As Faces da Física, v. único
- 1ª. Também começa pelo estudo da Cinemática. Dedica três capítulos à cinemática escalar, dois capítulos à cinemática vetorial, e mais três capítulos para os movimentos circulares, composição de movimentos e movimento de projéteis. Portanto são oito capítulos antes de apresentar as relações causais entre força e movimento. Ao estudo das leis de Newton, são dedicados apenas três capítulos.
- 2ª. Esta obra utiliza com frequência a linguagem gráfica, embora o faça de maneira bastante formal. Dá ênfase à interpretação de sinais algébricos, mas não utiliza a comparação dos sentidos entre vetores para avaliar se o movimento é acelerado ou desacelerado.
- O texto não enfatiza a discussão de significados físicos. Apresenta a equação e logo propõe seu uso na resolução de problemas. Há muita ênfase à resolução matemática das equações e, geralmente, os exercícios problematizam pouco o comportamento físico dos sistemas.
- A obra separa a apresentação de um tópico da ferramenta matemática necessária ao seu estudo. Por exemplo, os movimentos em duas dimensões estão em um capítulo, enquanto a análise matemática está em outro (o da composição dos movimentos), e a cinemática vetorial, que define o vetor velocidade, está ainda em um terceiro. É excessivo e improdutivo utilizar tanto tempo desenvolvendo questões com pouco impacto sobre a compreensão conceitual da física. Se o professor optar por desenvolver o estudo dos movimentos bidimensionais, considera-se mais adequado revisar ou apresentar os recursos matemáticos simultaneamente.
- 3ª. Inicia o estudo da Dinâmica citando interações mecânicas, sem mencionar as interações fundamentais. Classifica as forças como de contato e de ação à distância e, nesta última, faz referência às forças de campo, sem contudo definir 'campo'. Define brevemente força como o 'resultado da interação entre dois corpos' (p. 111) e apresenta alguns efeitos. Define vetorialmente o que é força resultante e logo propõe exercícios matemáticos de cálculo. Apenas em dois exercícios é explorada a idéia de interação (exercícios 3 e 5, p. 119).
- A primeira lei é apresentada como o princípio da inércia, que é definida como tendência a manter o estado de movimento e é apresentada como propriedade da matéria (p. 122). Há exemplos em que é mencionada a necessidade de interação para mudar o movimento (p. 120).
- Apresenta a 2ª lei de Newton estabelecendo proporcionalidades entre força e variação de velocidade, massa e intervalo de tempo. Considera-se positiva a apresentação da força resultante em função da variação de velocidade no tempo, ao invés de apenas utilizar a aceleração, pois indica preocupação com as concepções
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prévias dos alunos e as dificuldades de aprendizagem decorrentes. No entanto os exercícios não exploram significativamente essa relação.
## Física Mecânica, v. 1
- 1ª. Há três capítulos introdutórios que apresentam ferramentas e noções gerais relacionadas à física e ao que seu estudo compreende. São dedicados cinco capítulos para a cinemática, sobre movimentos retilíneos e movimentos compostos (lançamentos). Há três capítulos abordando as leis de Newton. Após, há mais um capítulo da cinemática do movimento circular, e outro, subseqüente, sobre a dinâmica do movimento circular. É interessante que, tendo sido feito um trabalho introdutório sobre vetores, o trabalho na cinemática é todo feito já na forma vetorial.
- 2ª. A linguagem matemática utilizada é bastante rigorosa e aprofundada, inclusive com noções de cálculo diferencial e integral. Há uma ênfase significativa para a construção e interpretação formal dos gráficos. Muitos dos exercícios, principalmente da parte descritiva do MRU e do MRUV, poderiam tranquilamente ser realizados nas aulas de matemática sobre funções, pois não exigiriam conhecimentos físicos específicos. Mesmo nesta parte essencialmente matemática, há a preocupação em destacar as confusões conceituais frequentemente trazidas pelos alunos quanto aos significados das palavras que nomeiam os conceitos físicos, como, por exemplo, no quadro "gramática da física" (p. 75).
- Embora haja preocupação com o rigorismo e os significados físicos atribuídos a relações e sinais, não parece haver com a construção das relações de proporcionalidade direta e inversa entre as grandezas. O mesmo se observa na abordagem das leis de Newton. Percebe-se preocupação evidente com as concepções dos alunos e, em alguma medida, procura relacionar a cinemática à dinâmica, mas se limita a utilizar a aceleração dos movimentos para determinar a resultante da forças (p. 131).
- 3ª. Na introdução do conceito de força percebe-se o destaque dado às interações fundamentais. Contudo não é enfatizado que qualquer força é uma interação, e que, portanto, exige sempre a presença de dois corpos. Além disto, passa um capítulo inteiro trabalhando situações em que não há atrito, portanto, situações que dificilmente seriam encontradas na realidade. Afinal, a resultante das forças deve ser obtida a partir de todas as forças presentes em uma situação, e o aluno deve ser capaz de identificar a presença das interações numa situação de interesse, sempre.
## Física e Realidade, v. 1
- 1ª. Similarmente ao livro de Alberto Gaspar, esta obra apresenta um capítulo introdutório, porém de forma menos rigorosa e mais resumida. O segundo capítulo já envolve impulso, momento linear e Leis de Newton (o capítulo sobre movimentos se encontra no final do livro). A formulação da segunda lei de Newton é feita de forma detalhada, dando ênfase à relação entre a resultante das forças e a variação da quantidade de movimento no tempo. Posteriormente é deduzida a forma comumente trabalhada no ensino médio, dada pelo produto entre massa e aceleração.
- 2ª. O tratamento geométrico e vetorial é trabalhado desde o começo, a linguagem gráfica é pouco explorada e o equacionamento é feito de forma simples, mas há discussão sobre como a equação é construída em cada caso.
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- 3ª. Percebe-se, em alguns exercícios, a preocupação com as concepções dos alunos. Por exemplo, o exercício 15 (p. 54), além de trabalhar a concepção alternativa de que força é proporcional à velocidade (Peduzzi, 1996), incita o aluno a perceber a existência de forças cotidianas como o atrito, que não necessariamente estariam explicitadas na questão.
## Reflexões sobre a análise
Dentre os livros analisados, percebe-se que todos utilizam ferramentas matemáticas, embora alguns fiquem mais restritos à resolução formal de equações, com simples substituição de valores para as variáveis, enquanto outros exigem a compreensão física do contexto do problema, para que ele seja devidamente equacionado e resolvido. Todos se utilizam de gráficos, embora com enfoques diferentes; alguns priorizam a análise mais formal do comportamento das variáveis envolvidas no gráfico, enquanto em outros o gráfico é utilizado para avaliar e descrever o comportamento e a evolução de um sistema, do ponto de vista conceitual. Isto pode ser percebido ora ao longo do texto, ora em alguns exercícios específicos de diferentes autores.
- O estudo da mecânica, na primeira série, poderia iniciar diretamente pelo conceito de força, proporcionando uma visão unificadora das forças fundamentais. Dentre os livros analisados, apenas um está estruturado nessa perspectiva, mas o professor pode utilizar o livro em uma seqüência que não aquela proposta pelos autores. No entanto, em uma área em que ainda há carência de pessoal habilitado, o uso do livro acaba sendo supervalorizado e a ordem dos conteúdos no livro é que, frequentemente, determina a organização do plano de trabalho de muitos professores.
Estudar os movimentos no contexto da dinâmica permitiria explorar de maneira mais significativa as relações causais dos movimentos, as variações e as conservações e o que elas provocam. A maioria dos livros, no entanto, trata a cinemática separadamente, com forte enfoque matemático e, no estudo das leis de Newton, não retoma esses movimentos. Como exemplo, pode-se citar o estudo dos movimentos de projéteis. Ao discutir as forças envolvidas, poder-se-ia desenvolver algumas análises que favoreceriam a compreensão conceitual desse movimento, mais que sua descrição estritamente matemática. Alguns aspectos para essa discussão poderiam ser: a) a origem da aceleração na queda livre; b) porque os movimentos bidimensionais têm comportamentos diferentes nas duas direções; entre outras possibilidades que auxiliam na construção das relações causais.
Entende-se que a percepção de relações de proporcionalidade e a realização de estimativas são habilidades que podem ser desenvolvidas conjuntamente, nas três disciplinas da área de ciências exatas. A construção e a análise de gráficos também é uma atividade potencialmente interdisciplinar, que permite ao aluno aplicar os conhecimentos básicos de funções em exemplos contextualizados e reais, utilizando o conhecimento adquirido na matemática como uma ferramenta e um tipo de linguagem muito apropriado à comunicação e à interpretação de dados em química e física. O estudo de funções na matemática, geralmente genérico e restrito às variáveis x e y, pode ser enriquecido com parâmetros de sistemas reais e mais próximos da realidade dos estudantes. Ao adotar esse enfoque, estaríamos aproveitando o potencial interdisciplinar e aproximando as linguagens da Física e da Matemática.
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## Considerações Finais
Este trabalho apresenta a análise de alguns livros didáticos de ampla utilização na região de abrangência da pesquisa, e contém algumas propostas baseadas nas concepções de ensino das autoras, fundamentadas em grande parte, na linha epistemológica construtivista. Neste estudo, em particular busca-se compreender e utilizar melhor a linguagem, para auxiliar a construção do conhecimento físico de forma mais eficiente, integrada e significativa.
Assim pode-se justificar a proposta de que os conceitos e as grandezas físicas sejam trabalhados de forma interrelacionada, tanto no contexto disciplinar quanto no interdisciplinar. A conexão entre os conceitos permite uma melhor compreensão da estrutura do conhecimento físico, o que poderia favorecer a aprendizagem significativa em física.
- A linguagem, por sua vez, tem papel interdisciplinar, interrelacionando conceitos e conteúdos comuns às disciplinas de ciências exatas, integrando-as também com as outras áreas de conhecimento.
Rudá (2010) destaca:
Assim, as palavras, para terem sentido têm de estar junto à outras para formar as frases. Essas sim, possuem o condão de serem verdadeiras ou falsas e, sendo assim, podemos dizer que ela faz parte da estrutura do mundo e, nesse sentido, temos a linguagem como estrutura do mundo e oriunda da conexão entre os objetos e as palavras.
Nesta linha também Vygotsky (apud Vergnaud, 2004, p. 73) destaca o papel da linguagem coerente na construção de significados. Ele distingue o sentido e o significado da palavra, o significado é o que encontramos no dicionário e o sentido 'representa todos os fatos psicológicos que esta palavra faz surgir em nossa consciência'. A partir desta visão concebe-se a crítica a alguns enfoques adotados pelos livros analisados, nos quais não há a preocupação em 'traduzir' a linguagem matemática e científica formal para a linguagem cotidiana, que é familiar aos alunos.
## Referências
CARRON, Wilson. GUIMARÃES, Osvaldo. As faces da Física. v. único. 2ª ed. São Paulo: Moderna, 2002.
GARDELLI, D . A origem da inércia . Caderno Catarinense de Ensino de Física , Florianópolis, v.16, n.1, p. 43-53. 1999.
GASPAR, Alberto. Física , v. 1. São Paulo: Ática, 2001.
GIONGO, Ieda Maria et al. Projeto de Pesquisa: Ciências Exatas na Escola Básica. Centro Universitário UNIVATES - Lajeado/RS. Não Publicado.
GONÇALVES FILHO, Aurelio. Física e realidade / Gonçalves e Toscano, v. 1. São Paulo: Scipione, 1997.
HARRES, J. B. S. Desenvolvimento histórico da dinâmica: referente para a evolução das concepções dos estudantes sobre força e movimento. Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências , Porto Alegre, v. 2, n. 2, p. 89-101, maio/ago. 2002.
MAXIMO, Antônio., ALVARENGA, Beatriz Alvares. Curso de Física - volume 1. São Paulo: Scipione, 2005.
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PEDUZZI, Luiz O. Q. Física Aristotélica: Por Que Não Considerá-La No Ensino Da Mecânica? Caderno Catarinense de Ensino de Física . v.13,n1: p.48-63, abr.1996.
RAMALHO, Francisco; NICOLAU, Gilberto Ferraro; TOLEDO, Paulo Antonio de. Os fundamentos da Física - volume 1. 8ª ed., São Paulo: Moderna, 2003.
Rio Grande do Sul. Secretaria de Estado da Educação. Departamento Pedagógico. Referenciais Curriculares do Estado do Rio Grande do Sul: Ciências da Natureza e suas tecnologias . Porto Alegre: SE/DP, 2009.
RUDÁ, Antonio Sólon. Caracteres da filosofia analítica de Ludwig Wittgenstein. Jus Navigandi, Teresina, ano 15, n. 2568, 13 jul. 2010. Disponível em: <http://jus.uol.com.br/revista/texto/16973>. Acesso em: 6 set. 2010.
VERGNAUD, Gerard. Lev Vygotski: Pedagogo e Pensador do Nosso Tempo . Trad. Ayalla Kluwe de Aguiar./ Porto Alegre: GEEMPA, 2004.
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