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A CONSTRUÇÃO DO CURRÍCULO DE FÍSICA NA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL TÉCNICA INTEGRADA AO ENSINO MÉDIO

Jomar Apolinário Pereira

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XIX
Ano
2011
Data
03/02/2011
Linha de pesquisa
Didática, Currículo E Avaliação No Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## A CONSTRUÇÃO DO CURRÍCULO DE FÍSICA NA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL TÉCNICA INTEGRADA AO ENSINO MÉDIO

## JOMAR APOLINÁRIO PEREIRA

Instituto Federal do Espírito Santo - IFES/ Pró-Reitoria de Pesquisa e Pós-Graduação - PRPPG/ jomarfisicaprolicen.ufes@gmail.com

## Resumo:

Propomos uma reflexão dos critérios adotados no momento da seleção e implementação do currículo de Física no Ensino Médio Integrado a Educação Profissional Técnica de Nível Médio. Abordamos a dualidade existente entre discriminação social e ocupações técnicas, a formação integral do cidadão e a formação para o mundo do trabalho. Identificamos elementos que tem subsidiado este processo seletivo apontando a existência de questões que ultrapassam a epistemologia do professor e interferem na sua ação pedagógica de modo a determinarem regras próprias de direcionarem o ensino. Destacamos a relevância do currículo de Física no Ensino Médio Integrado a Educação Profissional Técnica de Nível Médio, partindo do pressuposto que o ensino de Física não pode ficar alheio aos demais saberes, frente às mudanças do conhecimento, da globalização e das legislações educacionais pertinentes. Fizemos uma análise bibliográfica e documental das políticas públicas para a educação profissional no Brasil, as quais culminaram na promulgação do Decreto nº 5.154/04, abstraindo suas essências para a argumentação teórica da importância de um ensino de conteúdos que sejam de fato significantes para o aluno, possibilitando assim, a sua inclusão no mercado de trabalho. Nas entrelinhas das propostas e documentos analisados, verificamos que a Educação Profissional não só prepara o aluno para o mercado de trabalho, mas também para desenvolver suas habilidades e competências a fim de viver de forma integral no seio da sociedade vigente, sendo o foco principal a formação básica do ser humano. Ficou evidente a necessidade de repensar a proposta a fim de dar significado às práticas dos atores envolvidos, através de debates e de construção coletiva de um currículo integrado. Assim, como contribuição final, deixou-se um espaço aberto para novos subsídios e outras discussões, entendendose que a presente abordagem foi o início de um debate, podendo fornecer elementos para futuros trabalhos.

Palavras chaves: Educação Profissional. Currículo. Ensino de Física.

## 1. INTRODUÇÃO

A construção de um currículo de física, como um plano único e consolidado, neste contexto, sem dúvida, é um dos projetos considerados mais importantes e de impacto inigualável para o alcance da melhoria da qualidade do ensino público e das oportunidades de aprendizagem oferecidas aos alunos. O ensino com as especificidades das diversas matérias que compõe o currículo deve atender a uma diversidade de interesses dos educandos no seu processo de formação junto à escola básica - ensino médio integrada à educação profissional técnica. O foco principal deste estudo está relacionado ao processo de seleção dos conteúdos de modo a envolver os critérios utilizados pelos docentes neste processo seletivo.

Defendemos uma formação integral, plena e completa do indivíduo. Para tanto, faz-se necessário o diálogo permanente entre as disciplinas que formam o currículo, sob o princípio da formação humana integral. Diálogo esse, que propicie a construção de um currículo que promova a equidade como oportunidade a todos de alcançar e manter um nível desejável de aprendizagem. É sabido que a maior transformação da dinâmica escolar acontecerá por meio do currículo.

## Nessa perspectiva, Sacristán (2000) esclarece que

Podemos considerar que o currículo que se realiza por meio de uma prática pedagógica é o resultado de uma série de influências convergentes e sucessivas, coerentes ou contraditórias, adquirindo, dessa forma, a característica de ser um projeto preparado num processo complexo, que se transforma e constrói no mesmo (GIMENO SACRISTÁN, 2000, p. 102).

Diante disso, como educadores, precisamos nos empenhar em ter um novo olhar sobre o processo de ensino e de aprendizagem, levando em consideração a necessidade do educando em adquirir conhecimentos que o insiram no mundo contemporâneo. Concebendo currículos que levem em consideração o principal objetivo do ensino médio integrado que vai além de formar técnicos prontos a enfrentar o mercado de trabalho, mas formar pessoas que saibam atuar como cidadãos plenos transformadores do seu entorno social.

É impossível continuar a caminhada sem rever as práticas que favoreçam o desenvolvimento de pessoas que se encontram imersas em um mundo contemporâneo e vêm de diferentes origens sociais e culturais. Devemos verificar ainda, suas relações com a sociedade e com a instituição escolar. Esse sujeito estará aprendendo no ambiente físico e social da escola, ambiente de aprendizagem.

Em vários países, incluindo o Brasil, nota-se que a educação pública voltouse para a busca e o entendimento da tecnologia, assumindo uma concepção de ensino e currículo que tenha como fundamentos principais o trabalho, a cultura, a ciência e a tecnologia, numa perspectiva de escola unitária e politécnica. A politecnia responderia criticamente às novas demandas que surgem entre a educação e o mundo do trabalho. Dessa forma, a educação média deveria ser concebida a partir das múltiplas técnicas se constituindo como uma base para o processo produtivo.

## 2. REFLETINDO A EDUCAÇÃO PROFISSIONAL NO BRASIL

Devemos repensar a situação atual da educação profissional no Brasil com base na história passada. Objetivando assim, resgatar os fundamentos de uma dualidade entre uma educação para a elite e outra para as classes desfavorecidas que foram construídas desde o período da colonização. Ao longo da história da educação no Brasil, pode-se perceber que o ensino médio e a educação profissional são marcados por uma ambiguidade: deseja-se preparar o cidadão, de um lado para o mundo do trabalho e, de outro, para a continuidade dos estudos. Para Kuenzer (2005), o grande desafio é conseguir formular uma concepção de ensino médio que faça, de forma competente, essa articulação, rompendo com a dualidade e garantindo o acesso ao trabalho simultaneamente à continuidade da formação, com a possibilidade do ingresso no ensino superior para aqueles que desejarem.

Segundo Ferreira e Garcia (2005), desde a última reforma dos anos 90, desejavam-se estabelecer novos rumos para a educação e voltar todos os esforços para a implantação de uma nova educação no país. No início do mandato Lula, foi realizada uma série de debates, encontros e seminários a fim de discutir essa temática. Entendendo a urgência de uma concepção que resgatasse a formação humana em sua totalidade, integrando ciência e cultura, humanismo e tecnologia, visando a uma formação integral do ser, tentou-se concretizar essa concepção de um novo decreto, o Decreto N°. 5.154/04. Nesse documento, reafirmou-se a importância de uma educação profissional, nos diferentes níveis, estar integrada à educação básica sem, no entanto, substituí-la. Veio ainda, estabelecer a consolidação de uma formação unitária e politécnica voltada tanto para o trabalho manual quanto para o intelectual.

- A procura pela educação profissional é cada vez maior, tendo em vista que atende uma grande parte da população que necessita se capacitar para o mercado de trabalho de forma eficiente e rápida. A educação profissional, nos dias de hoje, tem como um de seus objetivos principais levar o educando ao permanente desenvolvimento de aptidões para a vida produtiva. O conhecimento é hoje o principal fator da produção.
- O mercado de trabalho está à procura de um profissional que busque a excelência, que seja flexível e adaptável a essa nova realidade, pois, as empresas passaram a exigir mais qualificação dos trabalhadores, que tenha um perfil de: criatividade, inovação, trabalho em equipe e autonomia na tomada de decisões. Ou seja, um cidadão empreendedor.
- A Educação Profissional e Tecnológica está sendo convocada não só para atender às novas configurações do mundo do trabalho, mas, igualmente, a contribuir para a elevação da escolaridade dos trabalhadores.

## 3. O CURRÍCULO

Considerando que o currículo constitui o elemento principal de um projeto pedagógico e que é a base para uma aprendizagem significativa, percebemos que uma das grandes preocupações quando se fala em currículo, é a necessidade de melhoria qualitativa. Mas, para entender melhor é necessário precisar o que se entende por qualidade de ensino. Para isso é necessário que a escola defina sua identidade. Uma visão crítica de currículo reflete a maneira em que a educação contribui para a formação de uma sociedade mais igualitária, enfatizando a escola pública. A escola visualiza o indivíduo adequando suas necessidades ao contexto social no qual está inserido.

A partir dessas considerações, percebe-se uma articulação entre o currículo e o seu papel na formação do aluno, levando em conta que a dimensão ético-política está presente naquele professor que, além de ensinar, sente a responsabilidade de formar integralmente o seu aluno. Parafraseando Freire (1996), ter compromisso ético-político é aquele professor que ensina a ler o mundo e não apenas se restringe a ensinar a leitura das palavras, contribuindo assim, significativamente para que o jovem ocupe o seu espaço na sociedade com consciência crítica.

Desta forma, surge a proposta da construção de um currículo democrático que leve em consideração os interesses dos alunos, colocando-os em atividade solidária com os professores na constituição das atividades curriculares; um currículo que propicie a formação de conceitos e valores, fundamentais para que haja uma verdadeira inserção dos sujeitos na sociedade; um currículo crítico e democrático em contraposição ao ensino tradicional (bancário); um currículo que promova o envolvimento de toda comunidade escolar, desde a sua criação até a sua implementação.

Apoiando-se nas ideias de Frigotto (2005, p. 74), defendemos uma educação integrada que 'articule cultura, conhecimento, tecnologia e trabalho como direito de todos e condição de cidadania e da democracia efetivas' (sem segregação na formação do sujeito). O que se quer resgatar com a proposta do Ensino Médio Integrado é o direito do cidadão de ter uma formação científica e tecnológica capaz de suprimir as dívidas de uma educação dual e fragmentada e aquela deverá vir acompanhada de um compromisso por parte do Estado e da sociedade.

## 4. APROXIMAÇÕES TEÓRICAS

Estudos e pesquisas relacionadas aos temas currículo e ensino integrado estão em evidência na atual conjuntura educacional brasileira. Estar informado e atualizado é condição primordial para se desenvolver uma pesquisa na área educacional. Para a elaboração deste projeto, buscamos referenciais nas leis brasileiras que tratam do ensino médio e da educação profissional, nas diretrizes curriculares nacionais e apoio em autores que tratam de currículos, do conceito de competências, do ensino de física e da educação profissional x educação básica.

Optamos por trabalhar a investigação do ensino de física em seu processo de formação junto à escola básica - ensino médio integrado à educação profissional técnica tomando como parâmetro a atual LDB e o Decreto n.º 5.154 de 23 de julho de 2004, que estabelece que tal modalidade de educação deve ser desenvolvida por meio de cursos e programas para a formação inicial e continuada de trabalhadores, educação técnica de nível médio e educação profissional tecnológica de graduação e pós-graduação.

Algumas pesquisas na área de ensino de física têm contribuído com propostas que apontam caminhos para um ensino de física mais atual, eficaz e contextualizado. Coaduna-se com essas reflexões Terrazzan e Rosa quando ressaltam que os professores precisam ser os atores principais no processo de mudança curricular, pois serão eles que as implementarão na sua prática pedagógica.

Dessa forma, o professor engajado nessa proposta necessita ultrapassar o conhecimento meramente propedêutico e se preocupar com os problemas sociais relacionados com o científico e o tecnológico. Assim, favorece a construção em conjunto com seus alunos de atitudes, valores e condutas que permitam a eles atuar com fundamento e responsabilidade nas questões sociais, seja de forma individual, seja de forma coletiva.

Oliveira (apud Terrazzan, 1992, p. 209) afirma que

[...] a divisão curricular adotada no ensino de física nas escolas do ensino médio segue, basicamente, a seqüência ditada pelos modelos estrangeiros, o que na prática exclui a física desenvolvida no último século e não permite que os alunos a compreendam como um empreendimento humano. Adverte ainda que qualquer proposta que vise uma reformulação no currículo dessa disciplina deve respeitar a inserção dos professores que atuam nesse nível de ensino no processo de desenvolvimento dessa tarefa.

Segundo Rosa (2005), o estudo de física pode provocar no aluno uma transformação em seu modo de ver o mundo. Ainda, segundo Rosa (2005), quando se estuda questões curriculares, faz-se necessário compreender os mecanismos pelos quais um conhecimento é transformado em objeto de ensino, de forma a identificar as diferentes formas como esta relação ocorre.

Sobre currículo, consultamos os PCN's do ensino médio que trata da base nacional e autores como: J. Gimeno Sacristán que se preocupa com a prática de elaboração e propõe uma reflexão dos processos por meio dos quais o currículo se transforma em prática pedagógica contextualizada, Michael W. Apple que trata do currículo como um instrumento ideológico e William E. Doll Jr. que trata voltando-se a uma perspectiva pós-moderna.

Skovsmose destaca que o currículo crítico visa o desenvolvimento da competência crítica 'a partir de qualificações necessárias para a [...] participação [dos estudantes] no processo de democratização da sociedade de uma forma mais ampla' (SKOVSMOSE, 1994, p. 61).

Vale ressaltar que Freire enfatiza que 'a educação é o ato de depositar, de transferir valores e conhecimentos' (FREIRE, 1987, p. 59) e utiliza a expressão 'educação bancária' para indicar aquela que mantém a contradição educadoreducandos. Opondo-se a essa prática, a educação libertadora, problematizadora, propõe a superação da dicotomia educador-educandos: 'Estes, em lugar de serem recipientes dóceis de depósitos, são agora investigadores críticos, em diálogo com o educador, investigador crítico, também'. (FREIRE, 1987, p. 69).

Os estudos apontados anteriormente caracterizam-se como procedimentos que devem ser revistos, pois no que se refere ao estudo de física e aos conteúdos curriculares vigentes, percebe-se a necessidade de uma mudança que propicie o desenvolvimento de habilidades e competências para que o aluno egresso dessa modalidade de ensino possa encontrar seu lugar na sociedade, bem como transformá-la. Tal abordagem será propiciada pela maneira como foram conduzidas as reflexões, de modo que possam ser concretizadas as características propostas pelos autores citados, contribuindo para a construção de um currículo crítico e democrático.

## 5. O CAMINHO METODOLÓGICO DA PESQUISA

Realizamos uma pesquisa junto a professores que atuam no Ensino Médio Integrado no Instituto Federal do Espírito Santo (IFES) - Vitória, com o objetivo de coletar dados que permitissem discutir e analisar a implementação do Currículo de Física no Curso Técnico Integrado ao Ensino Médio regular. O universo da pesquisa é representado por três professores em exercício na docência de Física no ensino médio integrado, um coordenador de área, com formação em Física e um

pedagogo. Os professores apresentam formação associada a cursos de graduação, de pós-graduação: lato sensu e strictu sensu , na área específica de Física.

Os professores citados não possuem formação específica em Ensino Médio Integrado, contudo são obrigados a atuar no mesmo, sendo que, apesar da dificuldade em apresentar um processo pedagógico que atenda às especificidades, percebe-se que estão em constante busca.

Na presente pesquisa, realizamos um estudo de caso a respeito de como a proposta curricular do Ensino de Física, está sendo aplicada no Curso Técnico em Eletrotécnica Integrado ao Ensino Médio Regular no IFES/Campus Vitória e qual a sua contribuição para a formação integral dos alunos.

Portanto, escolhemos a pesquisa qualitativa para a realização desse estudo, voltado para conhecer a visão dos sujeitos da pesquisa, por se entender que essa perspectiva de pesquisa poderia fornecer uma visão mais detalhada e planejada do problema investigado por meio da interação entre os sujeitos e a análise de todo o contexto que a configurou.

Adotamos como instrumento no processo investigatório, entrevistas semiestruturadas, priorizando o diálogo entre pesquisadores e entrevistados, permitindo que o entrevistado explanasse suas ideias de forma livre. As entrevistas foram guiadas por essa questão principal (tema de investigação), mas sofriam indagações sempre que o pesquisador julgasse merecer maiores esclarecimentos nas colocações dos entrevistados.

A escolha por esse instrumento teve como objetivo permitir uma coleta de dados mais significativa, possibilitando cercar a investigação de elementos que, por ventura, não estivessem sido contemplados na elaboração do projeto. Na perspectiva de André (1999), a escolha por uma pesquisa qualitativa deve-se ao tipo de dado que se deseja coletar, como no caso deste estudo, que envolve uma investigação sobre os critérios adotados por um grupo de professores na seleção de conteúdos.

Para analisar a condução do processo de seleção de conteúdos para o Currículo de Física do Curso Técnico em Eletrotécnica Integrado ao Ensino Médio Regular no IFES/Campus Vitória a partir da análise documental, do resultado da pesquisa aplicada, obtendo assim, um referencial teórico da visão dos interlocutores, em consonância com a opção metodológica, fez-se necessário um estudo profundo e detalhado de alguns conceitos de currículo, ensino de física e ensino médio integrado.

Nas discussões cotidianas quando pensamos em Currículo pensamos apenas em conhecimento, esquecendo-nos de que o conhecimento que constitui o Currículo está centralmente e intrinsecamente envolvido naquilo que somos, na nossa identidade, na nossa subjetividade.

Dentre os princípios norteadores do currículo, podemos destacar: a vinculação com o mundo do trabalho e a prática social; a flexibilidade - adaptar-se às novas condições; o efetivo preparo para enfrentar novos desafios ocupacionais; o aprender a pensar, a aprender e a continuar aprendendo; compreender os fundamentos científicos e tecnológicos dos processos produtivos; relacionar teoria e prática em todo o processo educativo; desenvolver capacidade de analisar, explicar, prever, intervir e fazer sínteses pessoais orientadoras da ação pessoal e profissional.

Neste texto, será dado o limite de abordar os resultados de forma mais generalizados, não cabendo a descrição pormenorizada dos vários aspectos contemplados no estudo, mas sim, fazer referências aos resultados julgados mais significativos para a reflexão proposta. Desta forma, as discussões apresentadas a seguir são decorrentes da análise feita pela transcrição dos dados obtidos com as entrevistas, de forma a buscar uma fundamentação mais próxima aos aspectos didáticos da esfera interna do processo de seleção dos conteúdos.

## 6. ANÁLISE DAS INFORMAÇÕES OBTIDAS

Tendo os professores consciência da gravidade dos problemas impostos pelo sistema educacional ao ensino das diversas disciplinas nas escolas de ensino integrado, e para que haja mudança no quadro, precisamos levar em consideração fatores que transcendem a lógica interna do ensino. Entre estes fatores, destacamos: infra-estrutura de laboratórios e espaço físico nas escolas; formação continuada para professores e gestores; inibir a rotatividade de professores, a fim de que eles possam acompanhar o processo de implementação curricular; espaços e tempos específicos para reflexões coletivas; busca por reflexão da sua ação docente e a flexibilidade nas discussões em torno do fazer pedagógico; ao ensinar um conceito, deve-se ter clareza da dimensão dos elementos que ele irá abranger; oportunizar um aprimoramento do aluno enquanto pessoa e; resgate histórico do Currículo - permite avaliar o que deu certo e o que não funcionou.

Se nós, professores e gestores escolares, tomarmos consciência acerca destes fatores, estaremos permitindo uma melhor adequação do saber que chega à escola a um saber a ser ensinado aos alunos. Nesse sentido, estaremos nos oportunizando atingir mais rapidamente o nosso objetivo no processo ensinoaprendizagem.

Em relação a implementação da proposta curricular do Ensino de Física no Curso Técnico em Eletrotécnica Integrado ao Ensino Médio Regular no IFES/Campus Vitória, verificamos através do depoimento de uma professora que esse processo não ocorreu de forma a atender as demandas impostas pelas legislações específicas que orientam a implementação curricular para o ensino médio integrado.

Em entrevista com a primeira professora, que a título de citação chamaremos de 'A', ao pedirmos para falar sobre o Ensino Médio Integrado, a entrevistada disse que:

'Gostaria de salientar apenas que não vejo o ensino médio integrado com o curso técnico da mesma forma que você. Penso que o curso que damos de física corresponde ao ensino médio. Os conteúdos que ministramos devem sim servir de base para as matérias técnicas, entretanto nem todos os conteúdos que ensinamos serão aproveitados no curso técnico. Penso que isso não deve nos frustrar, pois não estamos trabalhando com um currículo interdisciplinar. Temos que lembrar que fazemos parte da formação do Ensino médio do aluno. O que gostaria que ficasse claro é que nem pra mim, nem pra escola, nem para o país seria conveniente que o aluno terminasse seu estudo apenas com o curso técnico. Nesse sentido, faço parte de uma formação bem mais ampla que a formação meramente técnica'.

No fragmento acima, recortado das entrevistas realizadas com um dos professores do Curso Técnico em Eletrotécnica Integrado ao Ensino Médio regular IFES/Campus Vitória, notamos que não houve um embasamento teórico para tomada de decisão na seleção de conteúdos e/ou elaboração da proposta curricular para o Ensino de Física dessa modalidade de ensino.

Na seleção de conteúdos e a forma como são aplicados, de acordo com o depoimento da professora 'A', percebemos que não houve um planejamento mais aprofundado nas discussões com a equipe técnica, com os professores, os alunos e a comunidade educacional de forma mais abrangente.

Uma proposta de um curso integrado requer um trabalho demorado, minucioso que busque um desenho curricular que congregue a prática, o que neste caso, especificamente, ficou prejudicado em favor do desejado pioneirismo no processo de formação do aluno para o ingresso no ensino superior em detrimento de questões voltadas ao cotidiano do educando e que de fato contribuam para a sua formação, envolvendo aspectos humanos, sociais e éticos, ficando assim, a desejar a integração no sentido literal do termo. Nesse sentido, ocorre uma divergência com a avaliação dos professores, que consideram o vestibular apenas uma etapa posterior ao ensino médio e não elemento norteador dos currículos do ensino médio.

Ficou evidente, ainda, na presente pesquisa, de acordo com os depoimentos, o desconhecimento dos professores da real proposta do ensino médio integrado, de acordo com as concepções dos Referenciais Curriculares Nacionais da Educação Profissional de Nível Técnico e das bases teóricometedológicas para a efetiva implantação do Ensino Médio Integrado e suas implicações para a formação plena do cidadão e sua inserção na comunidade em geral.

- A realidade vivenciada no Currículo de Física no curso integrado na escola faz refletir a respeito do papel e da responsabilidade dos gestores educacionais na qualidade de deliberadores e mediadores das políticas públicas, que, neste contexto, oscilam entre um 'cumpra-se', o desejo de pioneirismo e o desconhecimento de grande parte dos protagonistas do processo pedagógico. Também é possível depreender desse contexto analisado a resistência natural dos docentes frente ao desconhecido.
- A LDB assinala um caminho para viabilizar a adoção de métodos multidisciplinares e interdisciplinares, através do inciso IV do Art. 35, que trata do relacionamento entre a teoria e a prática no ensino de cada disciplina. Neste contexto, uma pedagoga do Curso Técnico de Mecânica assinala para a concepção de uma proposta curricular que concebe o currículo como um norte para a aprendizagem. Assumindo assim, que um currículo completo e elaborado coletivamente é indispensável em redes que fazem questão de garantir o avanço dos alunos.

Segundo o depoimento de duas professoras, quando questionadas sobre sua prática pedagógica da disciplina de Física no integrado, verificamos que não existe a percepção da diferença entre a modalidade de ensino médio integrado e o regular.

Verificamos certa resistência dos professores de física em 'dialogar' com as outras disciplinas, na realidade percebemos a dificuldade de interdisciplinarizar, de

integrar, de contextualizar de forma que o aluno veja uma disciplina dentro da outra e aprenda de forma mais prazerosa, saindo da memorização ou do 'trauma' que tem sido para muitos alunos o aprendizado de física.

Pedagogos, coordenadores e professores entrevistados na unidade IFES/Campus Vitória, pareciam ter buscado ampliar uma proposta ao mesmo tempo em que buscavam compreendê-la para então se apropriar devidamente dela. Observamos que para que ocorra esta apropriação, faz-se necessário que sejam propiciados modos singulares de construí-la coletivamente em processos dialógicos, dialéticos e democráticos.

Na concepção de um currículo integrado, deve-se ter em mente que não há receitas prontas e que o trabalho é uma construção de muitas mãos, envolvendo experiências anteriores. Deve-se ter a flexibilidade como categoria principal, obedecendo aos mínimos critérios fixados pelos Conselhos de Educação, submetendo-se constantemente a avaliações para que sejam aprimorados dia-adia.

- O formalismo e a fragmentação dos saberes característicos da grande maioria das propostas curriculares que conhecemos poderiam ser superados se: a escola estiver disposta a atender as demandas da sociedade; produzir uma matriz curricular flexível, construída em parceria com a sociedade em geral; propiciar um ensino médio e técnico integrados, de fato; produzir um currículo que seja alvo na aquisição de competências e habilidades para a formação plena do cidadão.

## 7. CONSIDERAÇÕES FINAIS

O ensino, de um modo geral, ao longo de sua história até o momento presente, tem sido descontextualizado. Realidade a ser modificada por meio de uma reestruturação do currículo. Com relação às políticas públicas, cabe ressaltar que vem acenando para que isso aconteça. A Secretaria Estadual de Educação do Estado do Espírito Santo (SEDU-ES) em parceria com a Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) nos últimos três anos têm orientado um estudo para elaborar e implantar uma nova proposta curricular para o ensino público. Iniciativas como essa tomada pela SEDU e sua equipe de colaboradores, favorecendo encontros com técnicos e professores referências espalhados por todo o Estado a fim de elaborar de forma coletiva e dialogada o novo currículo para a rede estadual de ensino, a partir da realização de seminários e grupos de estudo para a elaboração de ementas de cada disciplina, é de grande valia para ocorra uma mudança efetiva.

A realidade vivenciada no Currículo de Física no curso integrado nas escolas faz refletir a respeito do papel e da responsabilidade dos gestores educacionais na qualidade de deliberadores e mediadores das políticas públicas, que, neste contexto, oscilam entre um 'cumpra-se', o desejo de pioneirismo e o desconhecimento de grande parte dos protagonistas do processo pedagógico. Também é possível depreender desse contexto analisado a resistência natural dos docentes frente ao desconhecido.

Em pesquisa realizada a uma escola que oferta o Curso Técnico em Eletrotécnica ao Ensino Médio Regular, verificamos que o ensino de Física não segue os preceitos que a atualidade requer, ou seja, este é ofertado de forma descontextualizada, a interdisciplinaridade é inexistente e muitos dos recursos

didáticos existentes no estabelecimento deixam de ser utilizados. Em suma, a escola ainda preconiza uma metodologia tradicional. Nesta escola, pudemos perceber ainda, que os profissionais não dispõem de autonomia de decisão, parecem coadjuvantes dentro do processo ensino aprendizagem, fazem o que determinam sem questionar ou tentar melhorar sua prática docente. Percebemos ainda, que os aspectos quantitativos (conteúdo) se sobrepõem aos qualitativos. Ficou evidente ainda, que a escola prepara o aluno com ênfase para o vestibular e não ao ensino profissionalizante. Portanto, a teoria e a prática nessa escola são desvinculadas.

Nesse sentido, nos dias atuais, cabe ao Ensino Médio Integrado a difícil função de anular os antigos modelos de uma educação dualista: de um lado, tecnicista e voltada para formação de trabalhadores para atender o mercado capitalista neste mundo globalizado e, de outro, uma formação científica com a função de preparar jovens para o ingresso nas universidades por meio de projeto curricular emancipador, que propicie aos jovens estudantes uma socialização crítica dos conhecimentos.

Finalmente, percebemos que, mesmo em meio a todos os percalços e dificuldades que cada instituição de ensino apresenta, as particularidades e singularidades devem ser levadas em consideração no momento de implantar as novas políticas educacionais. É preciso, tirar as vendas dos olhos, permitindo que se abra um amplo e democrático espaço de discussão que favoreça os reais interesses, anseios e necessidades da comunidade escolar. Isso demanda sensibilidade administrativa e pedagógica por parte dos profissionais das instituições de ensino profissional.

## REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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SACRISTÁN, J. Gimeno. O currículo : uma reflexão sobre a prática. 3 ed. Porto Alegre: Armed, 2000.

SKOVSMOSE, O. Towards a philosophy of critical mathematics educacion. Kluwer Academic Publishers, Dordresht , 1994. 246p.

TERRAZZAN, Eduardo Adolfo. A Inserção da Física Moderna e Contemporânea no Ensino de Física na Escola de 2 grau. o Caderno Catarinense de Ensino de Física , Florianópolis, v.9, n.3, p. 209-214, 1992.

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