Pular para o conteúdo
Buscador da Pesquisa em Ensino de Física Busca em texto completo · v0.3.0

Leitura e Ensino de Física: considerações e possibilidades.

Fernanda Marchi, Cristina Leite

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XIX
Ano
2011
Data
03/02/2011
Linha de pesquisa
Linguagem E Cognição No Ensino De Física
Tipo
Comunicação

Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do SNEF 2011

Texto completo

## Leitura e Ensino de Física: considerações e possibilidades.

## Fernanda Marchi 1 , Cristina Leite 2

1 Mestranda em Ensino de Ciências da Pós-Graduação Interunidades da USP fernanda.marchi.oliveira@usp.br

## Resumo

Dado o crescente interesse por temas relativos às linguagens nas pesquisas da área de Ensino de Física, neste trabalho é realizada uma reflexão acerca da leitura e sua prática em aulas relacionadas ao ensino desta disciplina. Levantam-se alguns objetivos e finalidades possíveis de serem alcançados através da leitura, apontados por pesquisadores de diferentes áreas, seja ela realizada dentro ou fora da escola, tais como a busca pelo conhecimento e informações, a compreensão do mundo, o preenchimento de um momento de lazer, entre outros, pretendendo-se, assim, estimular o uso de textos e a prática da leitura no ensino de Física. Com base nesses argumentos, são apontadas motivações para a prática da leitura e possibilidades de uso de textos de diversos gêneros no ensino de Física indicadas por pesquisadores da área de Ensino de Física, tais como o contato dos alunos com assuntos não tratados usualmente durante as aulas, a discussão de temas da história da ciência e temas sociais, acreditando-se também, que o contato com esses materiais pode aumentar o interesse dos alunos pela disciplina. Especificamente sobre os livros de divulgação científica escritos por cientistas, são levantadas algumas de suas características, que, aliadas aos objetivos que podem ser alcançados através da leitura, podem levar os alunos (leitores) a 'terras distantes', propiciando a ampliação de seus mundos vivenciais. Sobre o papel do professor como mediador da leitura destes materiais, conclui-se que, apesar de escritos em linguagem comum, exige-se muito mais de seu ato pedagógico do que a simples inserção do livro em sala de aula.

Palavras-chave : Leitura, Textos não-didáticos, Ensino de Física.

## Introdução

Ao se pensar na prática de leitura realizada na escola, logo nos vem à mente a disciplina de Língua Portuguesa, ou, no mínimo, alguma ligada às Ciências Humanas. Por outro lado, se pensarmos nas aulas de Física do Ensino Médio, podemos imaginar uma prática enfadonha de memorização de fórmulas para aplicação em problemas idealizados, muito distantes da realidade dos alunos, e que, em geral, não representam a atividade científica.

Sobre o ensino da leitura e o papel do professor na realização desta prática, Silva (2004, p.29) nos diz que 'todo professor, em razão da essência de seu ofício, é (ou deveria ser) um orientador de leitura' , assumindo a possibilidade de participação de todos os docentes no processo de formação de leitores, sejam eles ligados às disciplinas chamadas 'humanas' ou 'exatas'. Em consonância com esta idéia, Solé (1998) defende que o ensino da leitura não se limita a um único curso ou professor, mas trata-se de uma questão de todas as matérias e de projeto curricular, questionando a existência de alguma disciplina na qual não seja necessário ler.

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

Complementa, ainda, que o trabalho da leitura deve ser realizado ao longo de toda a escolaridade, não se restringindo somente ao ciclo inicial.

A atribuição aos professores das linguagens como responsáveis pela incapacidade dos alunos interpretarem os textos com os quais se deparam em outras disciplinas, não se considerando que cada uma possui seu vocabulário e linguagem próprios, é um discurso amplamente reproduzido. No ensino de Física, esta concepção se reflete no 'fracasso' dos alunos na resolução dos problemas propostos, pois acredita-se que, em muitos casos, o aluno é incapaz de resolvê-los pois não sabe ler. Será mesmo a leitura responsável por este fracasso?

Outras questões podem ser pensadas sobre a leitura, tanto a presente na escola, quanto a realizada fora dela. Uma delas consiste na ideia que se tem dos alunos como avessos a essa atividade e que a realizam somente sob pressão ou por obrigação. Outra é a que os jovens, de maneira geral, estão se afastando da leitura. Sobre este suposto afastamento, o historiador da leitura Roger Chartier, em A aventura do livro , nos chama a atenção, pois podemos concordar com esta questão se considerarmos 'não leitores' aqueles que lêem, mas não o que for estabelecido ou definido pela escola como leitura legítima. Pensar que os jovens estão distantes da leitura parece não corresponder à realidade, pois vive-se hoje um momento em que multiplicam-se as ofertas de textos através dos meios eletrônicos, distinguindose dos presentes nos livros pela materialidade do objeto que serve como suporte para leitura e pela relação estabelecida entre o leitor e o texto. O problema talvez não esteja no suposto afastamento da leitura, mas no que estes jovens lêem. Mas, o que se lê no ensino de Física?

Sem dúvida a leitura está presente em aulas de Física, uma vez que seu ensino está, geralmente, pautado no uso de livros didáticos, que apresentam a Física de maneira linear, a-histórica, ou, caso ele não seja utilizado como suporte nas aulas, estas podem se caracterizar pela cópia de exercícios e conceitos expostos pelos professores, o que obrigatoriamente levaria os alunos a uma suposta prática de leitura. Quando presentes nos livros didáticos, as indicações de atividades de leitura restringem-se a textos denominados complementares ou suplementares sobre biografias de cientistas renomados, grandes fatos, experimentos e descobertas da ciência ou episódios da História da Ciência, comprometendo a importância desses textos para a compreensão dos conteúdos que os antecedem (RIBEIRO & MARTINS, 2007). Os livros didáticos de Física, assumindo sua função instrumental, propõem exercícios e atividades que pretendem facilitar a compreensão (ou memorização?) dos conteúdos e o desenvolvimento de competências e habilidades dentro desta disciplina (CHOPPIN, 2004). Esta prática de leitura está muito distante de estimular os alunos ao hábito da leitura e levá-los a se interessarem por temas científicos atuais ou pela história da ciência. Esta, ao contrário do que se apresenta nos manuais didáticos, não é linear, não consiste em verdades absolutas e é realizada por cientistas, que, em alguns casos, buscam traduzir as descobertas, inquietações e ideias científicas ao público não especializado e que não possui o aparato matemático formal para a compreensão da linguagem na qual a Física se expressa.

De que maneira as disciplinas relacionadas às Ciências da Natureza contribuem para o estabelecimento do que pode ou não ser considerado 'legítimo'? Se levarmos em consideração 'o desgosto e a aversão pela leitura, incorporados pelos alunos ao longo de seu percurso escolar' (Silva, 1998, p.38), podemos

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

verificar a urgência na revisão dos métodos e posturas utilizados para a orientação e formação de leitores. Neste breve cenário apresentado, verifica-se um crescente interesse por questões referentes à linguagem, leitura e o uso de textos dos mais variados gêneros nas pesquisas em Ensino de Física, fazendo-nos pensar nas contribuições da disciplina de Física para o estímulo à leitura, bem como nas contribuições da leitura de textos não didáticos para o seu ensino.

## Por que ler?

A linguagem escrita está presente em muitas atividades que exercemos diariamente. Para que possamos agir com autonomia nas sociedades letradas, a escola enfrenta um grande desafio de fazer com que os alunos sejam capazes de ler corretamente e aqueles que não conseguem realizar esta aprendizagem podem sofrer profundas desvantagens (Solé, 1998, p.32).

Em um contexto que não se restringe apenas ao âmbito escolar, Silva (1998, p.88-89) aponta como algumas finalidades da leitura a busca pelo conhecimento, o alargamento e adensamento de experiências, o refinamento da compreensão, a inteligência do mundo, a curiosidade, a imaginação e a fantasia, entre outras, redimensionando as percepções que o sujeito possui de suas experiências e do seu mundo.

Petit (2008, p.60), ao questionar 'por que ler é importante?' , argumenta que um dos aspectos mais conhecidos que se pode atribuir à leitura é o 'acesso ao saber, aos conhecimentos formais' , possibilitando ao indivíduo modificar seu destino escolar, profissional e social. Para ela, a leitura não isola do mundo, pois podemos pensar na relação individualista estabelecida entre o leitor e o livro, mas esta prática pode nos introduzir de forma diferente no mundo e nos permitir o acesso a espaços mais amplos e a elaboração de um mundo próprio. Já para Solé (1998), os objetivos e finalidades da leitura são também variados:

[...] devanear, preencher um momento de lazer e desfrutar; procurar uma informação concreta; seguir uma pauta ou instruções para realizar uma determinada atividade [...]; informar-se sobre um determinado fato [...]; confirmar ou refutar um conhecimento prévio; aplicar a informação obtida com a leitura de um texto na realização de um trabalho, etc. (p. 22)

Para Lajolo (2002, p. 7) 'lê-se para entender o mundo, para viver melhor' , acrescentando que a leitura é uma fonte de prazer e sabedoria e 'em nossa cultura, quanto mais abrangente a concepção de mundo e de vida, mais intensamente se lê' , como um espiral infinita, que pode ser iniciada, mas não deve ser encerrada na escola.

Nos argumentos apresentados, a busca pelo conhecimento e pelo saber se repete, e, no contexto escolar, Silva (1998) acrescenta que, através da docência, uma das responsabilidades da escola é proporcionar condições para que os alunos possam conhecer ou recriar o conhecimento que já existe em diferentes áreas. O lugar ocupado pela leitura no ciclo de criação e recriação do conhecimento, próprio da vida escolar, é, sem dúvida, de grande destaque, e sobre ele:

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

Vale dizer que esse lugar não decorre somente das funções que a escola visa atingir, mas confunde-se com a própria caracterização dos atos de educar-se e de ler, que são, em essência, atos de conhecimento de objetos colocados à indagação de sujeitos (professores, alunos, administradores, escolares, etc...) em estado de curiosidade e de busca. Assim, tanto o processo de educação como o de leitura, quando criticamente levados a efeito, indicam um movimento dos sujeitos (envolvidos naqueles processos) de um lugar para outro, procurando compreender e conhecer a razão de ser das coisas. (p. 2).

Quando se trata do ensino de Física, um dos recursos mais utilizados no cotidiano escolar, quando não o único, é o texto escrito. Através deste, os alunos podem interagir com o conhecimento da Física dentro da sala de aula, ou também atualizar seus conhecimentos científicos fora da escola (ALMEIDA et al., 1998). Entretanto, em meio a tantos objetivos e finalidades apresentados que podem ser alcançados através da leitura, é preocupante a constatação feita por Almeida (1998) de que a leitura em aulas das chamadas 'ciências exatas' está em associar o ato de ler somente à busca de informações em um texto. Além disso, existe a necessidade de se erradicar o significado dado à leitura como a memorização de princípios, teorias, fórmulas ou conceitos, que não leva à compreensão e ao conhecimento daquilo que se pretende ensinar (DEYLLOT & ZANETIC, 2004). Algumas propostas parecem querer modificar esta cena, conforme apontam as diretrizes curriculares nacionais e as pesquisas em Ensino de Física.

## Por que ler nas aulas de Física?

Dentre as competências e habilidades a serem desenvolvidas no Ensino Médio na área de Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias, destaca-se dos PCNEM (1999) a capacidade de comunicação através da leitura e interpretação de textos de interesse científico e tecnológico. Especificamente em Física, assinalase o conhecimento de fontes de informações e formas de obtenção de informações relevantes, capacitando o aluno a interpretar notícias científicas. Nessas mesmas diretrizes curriculares, o texto escrito é caracterizado da seguinte forma:

Um texto apresenta concepções filosóficas, visões de mundo, e deve-se estimular o aluno a ler além das palavras, aprender, avaliar e mesmo se contrapor ao que lê. A leitura de um texto deve ser sempre um dos recursos e não o essencial da aula. Assim, cabe ao professor problematizar o texto e oferecer novas informações que caminhem para a compreensão do conceito pretendido. (BRASIL, 1999, p. 268)

Discute-se também nos PCN+ Ensino Médio (2002) o estímulo à presença do diálogo entre o conhecimento, os alunos e os professores, sendo necessário levar em consideração o universo presencial do aluno. Uma das possibilidades para que ocorra esse diálogo pode se dar através da análise e interpretação de textos de ciência e tecnologia, utilizando-se os meios de comunicação e informação presentes na realidade do aluno, ' como notícias de jornal, livros de ficção científica, literatura, programas de televisão, vídeos, promovendo diferentes leituras e/ou análises críticas ' (BRASIL, 2002, p. 83).

As motivações apresentadas pelos pesquisadores na área de Ensino de Física para o trabalho em sala de aula com a leitura de textos não didáticos são as

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

mais variadas, relacionadas à possibilidade de abordagem de conteúdos curriculares, o contato dos alunos com assuntos que não são tratados usualmente durante as aulas ou até mesmo a realização de atividades diferenciadas que promovam o debate entre alunos e professores. Desta forma, acredita-se que os alunos, em contato com esses materiais, possam se interessar mais pela disciplina.

Uma das possibilidades apresentadas por Deyllot e Zanetic (2004) para tornar o ensino de Física mais significativo, considerando o universo cultural dos alunos, é através de uma aproximação entre duas culturas que aparentemente não se misturam: a ciência e a literatura. Através desta, pode-se trabalhar a criatividade e a imaginação, aspectos importantes no desenvolvimento da ciência. Associando o trabalho da literatura ao ensino de Física, os pesquisadores acreditam que este possa ser um caminho para a leitura do mundo que nos cerca.

Os materiais de divulgação científica, sejam eles de revistas, jornais ou livros, permitem o contato com informações sobre as inovações tecnológicas e os avanços da ciência e, segundo Almeida e Ricon (1993), a escola deveria proporcionar condições para aumentar o número de leitores que se interessam por temas da Física e das Ciências de maneira geral. A linguagem comum, ou mais próxima da linguagem dos alunos, é uma das características levantadas em defesa da presença de textos de divulgação científica nas aulas, o que possibilitaria maior envolvimento e participação dos alunos nas atividades em classe. Ribeiro (2007) constata que alguns educadores utilizam textos de divulgação científica para o aprimoramento da leitura dos alunos, além desse tipo de texto possibilitar a discussão do fazer científico.

Almeida e Mozena (2000) argumentam que o ensino da leitura não pode ficar a cargo de um único professor, posto que, a partir dela, é possível que o cidadão obtenha uma diversidade de informações, exercitando sua visão crítica. Através de uma crítica aos livros didáticos utilizados no ensino fundamental, que basicamente apresentam os resultados da ciência, acreditam ser difícil contribuir significativamente para o gosto pela leitura se somente esse tipo de material for utilizado no ensino.

As narrativas presentes em livros didáticos como textos complementares podem servir como elementos que estruturam a cultura e o pensamento científicos, trabalhando a História da Ciência e apresentando a relação existente entre as atividades científicas e as demais atividades humanas (RIBEIRO & MARTINS, 2007). Neste sentido de humanização da prática científica, Pinto (2009) ressalta que alguns materiais de divulgação científica apresentam possibilidades de leitura que levam os alunos ' aos terrenos da imaginação e criatividade científica ' (p.11), permitindo a reflexão sobre a ciência ' como fazer e não como resultado verdadeiro, pronto e irrefutável ' (p.15).

A discussão de temas sociais ligados à ciência e à tecnologia e os seus desenvolvimentos pode ser promovida a partir leitura de textos de ficção científica, levando os alunos à reflexão sobre o seu presente e futuro e a relação por eles estabelecidas com a ciência (PIASSI, 2007).

De maneira complementar a essas motivações e justificativas, Benjamin e Teixeira (2001) acreditam ser imprescindível a presença de atividades envolvendo textos alternativos aos didáticos na prática docente, levando à criação do hábito de leitura nos alunos e os motivando a buscar novas fontes de informações .

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

## A mediação da leitura e os livros de divulgação científica

A concepção de que o aluno alfabetizado é um aluno leitor ainda é presente nas escolas. Conforme crítica feita por Silva (1998, p. 50), esta é uma concepção reducionista, pois os professores das variadas áreas de conhecimento podem compartilhar os momentos de pós-alfabetização, ' sem o que não há como formar o leitor crítico e maduro '. Como esperar que um aluno seja capaz de compreender sozinho um texto científico simplesmente por saber decodificar as palavras? Se pretendemos formar um aluno capaz de compreender os conteúdos científicos presentes nos diversos meios de comunicação, devemos pensar no professor de Ciências como aquele que atua como formador e mediador da leitura, construindo sentidos e práticas no contexto de ensino-aprendizagem.

Sabe-se que o texto escrito não é o único recurso possível para ser utilizado em sala de aula, mas são irrefutáveis a importância e a necessidade do ato de ler para professores e alunos, fazendo-se necessária uma análise crítica das condições e formas através das quais este ato é conduzido no âmbito escolar. Conforme expusemos anteriormente, a leitura de textos pode permitir a busca pelo conhecimento, mas ' o ato pedagógico vai exigir muito mais do que isso ' (SILVA, 1998, p.7). Mesmo que seja um leitor com alguma experiência, deve-se considerar a existência de textos que exigem maior reflexão e instrumentos, pois sua compreensão não se dá de maneira fácil e rápida.

A leitura de diferentes tipos de texto exige do educando o domínio de habilidades, que resulta de prática e de aprendizagem no transcorrer de sua trajetória escolar. Para questionar, discutir e criticar um texto, por exemplo, os educandos precisam vivenciar situações de questionamento, discussão e crítica junto com os seus companheiros e com a participação do professor (SILVA, 1998, p. 87).

A fim de proporcionarmos aos alunos a busca pelo conhecimento científico mediada pela leitura de livros de divulgação científica, devemos tomar os cuidados levantados anteriormente, bem como levar em conta algumas considerações feitas pelos cientistas Albert Einstein e Leopold Infeld no prefácio do livro de divulgação 'A Evolução da Física':

Não escrevemos um livro didático de física. Não se encontra aqui curso sistemático algum de fatos e teorias físicos elementares. A nossa intenção foi, antes, esboçar, em traços largos, as tentativas da mente humana de encontrar uma conexão entre o mundo das ideias e o mundo dos fenômenos.

[...]um livro científico, embora popular, não deveria ser lido da mesma maneira que um romance. (EINSTEIN & INFELD, 2008, p. 9-10)

O despertar pelo prazer da leitura e o estímulo a este hábito são motivações presentes em diversos trabalhos em Ensino de Física relacionados à leitura. No entanto, devemos dar atenção especial a estas questões, pois o simples contato com novos materiais de leitura não implica a motivação ou o interesse por esta prática.

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

O gosto pela leitura não pode surgir da simples proximidade material com os livros. Um conhecimento, um patrimônio cultural, uma biblioteca, podem se tornar letra morta se ninguém lhes der vida. Se a pessoa se sente pouco à vontade em aventurar-se na cultura letrada devido à sua origem social, ao seu distanciamento dos lugares do saber, a dimensão do encontro com um mediador, das trocas, das palavras 'verdadeiras' é essencial (PETIT, 2008, p. 154).

Desta forma, o papel desempenhado pelo professor neste contato dos alunos com 'novos' materiais, no estímulo ao hábito de leitura e sua interação com os livros é de extrema importância. Sobre isso, Silva (1998) nos diz que:

Sem que o professor transmita e faça ver aos seus alunos a importância dos livros (e da linguagem verbal escrita) nas suas formas de ser e de se posicionar no mundo, pouco ou nada será conseguido em termos de desenvolvimento de hábitos de leitura. (p. 85-86)

Sendo o leitor 'um caçador que percorre terras alheias', (CHARTIER, 1999, p. 77), por que não levarmos os alunos a 'terras' distantes, como os limites extremos do universo observável, ou ao mundo infinitamente pequeno, fazendo-os olhar para a realidade de maneira diferente? Sem a pretensão de substituir os livros didáticos, uma possibilidade para a alteração do cenário existente no ensino de Física e na sua contribuição para o estímulo ao hábito da leitura pode consistir na introdução de livros de divulgação científica escrita por cientistas como recursos nas práticas em sala de aula.

A escolha por livros de divulgação científica escritos por cientistas justificase, pois estes são especialistas que dominam os conhecimentos de física ou participam da própria prática científica sobre a qual escrevem. Trazem, também, em seus textos, características nas quais os livros didáticos pecam. Como exemplos: a preocupação com o leitor; a sugestão de caminhos de leitura; a busca pela linguagem adequada, criando cumplicidade, utilizando-se de uma variedade de recursos e valorizando a reflexão, o questionamento, procurando imagens e acrescentando informações, situando, localizando, utilizando situações concretas, familiares, abordando temas atuais ou mesmo trazendo relatos sobre a história da ciência (SALÉM & KAWAMURA, 1996).

Grandes cientistas dedicaram-se à divulgação científica, e esta, como gênero literário, iniciou-se nos séculos XVII e XVIII, sendo muito difícil apontar uma obra como marco inicial. Uma das precursoras deste gênero, sem dúvida, é a obra de Galileo Galilei 'Diálogo sobre os dois máximos sistemas do mundo Ptolomaico e Copernicano' (1632), escrita em linguagem 'vulgar' e em forma de diálogo entre três personagens: Salviati, representando as opiniões de Galileo, que defende as idéias revolucionárias de Copérnico; Sagredo, que faz perguntas e se deixa convencer por Salviati, e Simplicio, defendendo a teoria clássica de Ptolomeu, e em cujas palavras, coloca os argumentos do papa Urbano II (RON, 2002). Outro grande cientista, Albert Einstein, conhecido pela Teoria da Relatividade, foi uma figura importante na divulgação da ciência, principalmente na difusão de suas próprias ideias. Autor de diversas obras e artigos de divulgação científica, entre eles 'Teoria da Relatividade Especial e Geral' e 'A Evolução da Física', era conhecido pelo seu estilo próprio na escrita de seus livros. Ao contrário de tentar simplificar suas ideias, a fim de torná-las inteligíveis àqueles considerados 'não especialistas', convida os leitores a

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

percorrem a trajetória de seus raciocínios (ROQUÉ, 2002), alertando-os para que tenham paciência, força de vontade, ou informando-os que as leituras dos livros científicos não devem ser feitas da mesma maneira que os romances, pois, para a compreensão de qualquer página, o leitor deve ler cuidadosamente as precedentes. Interessante é observar que, ao contrário do que podemos pensar ao pegarmos seu livro sobre a teoria da relatividade especial e geral, é seu alerta para que sua leitura pressupõe que o leitor tenha formação equivalente à do ensino médio. Este fato poderia ser tomado como estímulo para a inserção da leitura deste tipo de texto em aulas, levando os alunos ao contato com os escritos de grandes cientistas. No entanto, levando-se em consideração que, mesmo escritos em linguagem que não exijam do leitor (aluno) todo o aparato matemático para a sua compreensão, são necessárias atitudes dos docentes, que, munidos de instrumentos para compreensão destes materiais, levem os alunos à reflexão e compreensão dos textos escritos por cientistas.

## Algumas considerações

Os objetivos que podem ser atingidos através da leitura, tais como o alargamento e adensamento de experiências, a curiosidade, a imaginação, a fantasia e o acesso a espaços mais amplos, podem justificar a presença dos temas abordados em livros de divulgação científica, como a origem do universo, a teoria quântica, a relatividade, entre outros, pois temas desta natureza não fazem parte do mundo vivencial mais próximo dos alunos. Neste caso, a Física 'promove a articulação de toda uma visão de mundo, de uma compreensão dinâmica do universo, mais ampla do que nosso entorno material imediato' , permitindo a cada um transcender seus limites temporais e espaciais (BRASIL, 1999, p. 229).

Quanto à presença dos livros não didáticos no ensino de Física, seu uso deve ser estimulado, pois ninguém pode gostar de um objeto que não tenha a possibilidade de experimentar ou compartilhar e, sem uma proximidade entre o leitor e as diversas formas de literatura, torna-se muito difícil o gosto pela leitura.

Para Roger Chartier (1999, p.77), 'o texto não tem de modo algum - ou ao menos totalmente -o sentido que lhe atribui seu autor, seu editor, seus comentadores' . Quando tratamos de livros de divulgação científica, haverá a possibilidade de seu leitor atribuir novos significados ao que seu autor (cientista) pretende? Quais são esses significados? Como um professor de Física pode trabalhá-los em sala de aula? De que forma o acesso aos espaços mais amplos, proporcionado pela leitura dos livros científicos, podem levar os alunos à elaboração de seus mundos próprios? Como a compreensão da estrutura e organização de um livro de divulgação científica pode auxiliar o professor de Física no uso deste material em sala de aula? Os caminhos para essas respostas pretendem ser percorridos ao longo dos próximos anos.

## Referências

ALMEIDA, M.J.P.M. O texto escrito na educação em Física: enfoque na divulgação científica. In: ALMEIDA, M.J.P.M.; SILVA, H.C. (Orgs.). Linguagens, leituras e ensino de ciência . Campinas, SP: Mercado de Letras: Associação de Leitura do Brasil, 1998.

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

ALMEIDA, M.J.P.M.; MOZENA, E.R. Luz e Outras Formas de Radiação Eletromagnética: Leituras na 8ª Série do Ensino Fundamental. Revista Brasileira de Ensino de Física , v. 22, n. 3, p. 426-433, 2000.

ALMEIDA, M.J.P.M.; RICON, A.E. Divulgação científica e texto literário - uma perspectiva cultural em aulas de Física. Caderno Catarinense de Ensino de Física , Florianópolis, v. 10, n.1, p. 7-13, 1993.

ALMEIDA, M.J.P.M; SILVA, H.C.; MACHADO, J.L.M. Condições de produção no funcionamento da leitura na educação em Física. Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências , v.1, n.1, pp.5-17, 2001.

BENJAMIM, A.A., TEIXEIRA, O.P.B. Análise do uso de um Texto Paradidático Sobre Energia e Meio Ambiente. Revista Brasileira de Ensino de Física , v. 23, n. 1, p. 74-82, 2001.

BRASIL. Secretaria de Educação Média e Tecnológica. Parâmetros Curriculares Nacionais: Ensino Médio . Parte III - Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias, Brasília: MEC/SEMTEC 1999.

\_\_\_\_\_\_\_. Secretaria de Educação Média e Tecnológica. Parâmetros Curriculares Nacionais + Ensino Médio: orientações educacionais complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais - Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias. Brasília: MEC/SEMTEC, 2002.

CHARTIER, R. A aventura do livro: do leitor ao navegador . 1ª ed. São Paulo: Editora UNESP/Imprensa Oficial do Estado, 1999.

CHOPPIN, A. História dos livros e das edições didáticas: sobre o estado da arte. Educação e Pesquisa , São Paulo, v. 30, n. 3, p. 549-556, 2004.

DEYLLOT, M.E.C.; ZANETIC, J. Ler palavras, conceitos e o mundo: o desafio de entrelaçar duas culturas. In: IX Encontro de Pesquisa em Ensino de Física, 2004, Jaboticatubas, MG. Atas do IX EPEF , 2004.

EINSTEIN, A.; INFELD, L. A evolução da Física . Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.

LAJOLO, M. Do mundo da leitura para a leitura do mundo . 6. ed São Paulo: Editora Ática, 2002.

PETIT, M. Os jovens e a leitura: uma nova perspectiva . 2. ed. São Paulo: Editora 34, 2008.

PIASSI, L.P.; PIETROCOLA, M. De olho no futuro: Ficção científica para debater questões sociopolíticas de ciência e tecnologia em sala de aula. Ciência & Ensino , n. 1, número especial, p. 6-11, 2007.

PINTO, G.A. Literatura não-canônica de divulgação científica em aulas de ciências. Revista Ensaio Pesquisa em Educação em Ciências , v. 11, n. 2, p. 262-276, 2009.

RIBEIRO, R.A. Divulgação científica e ensino de física: intenções, funções e vertentes . Dissertação de Mestrado. Instituto de Física, Universidade de São Paulo. São Paulo, 2007.

RIBEIRO, R.M.L.; MARTINS, I. O potencial das narrativas como recurso didático para o ensino de ciências: uma análise em livros didáticos. Ciência & Educação , v. 13, n. 3, p. 293-309, 2007.

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

ROQUÉ, X. Einstein como divulgador científico. Quark, Ciencia, Medicina, Comunicación y Cultura , Barcelona, n.26, 2002. Disponível em: <http://www.prbb.org/quark/26/default.htm>. Acesso em: 12 ago. 2010.

RON, J.M.S. Historia de la ciencia y divulgación. Quark, Ciencia, Medicina, Comunicación y Cultura , Barcelona, n.26, 2002. Disponível em: <http://www.prbb.org/quark/26/default.htm>. Acesso em: 12 ago. 2010.

SALÉM, S.; KAWAMURA, M.R. Os textos de divulgação científica: conhecimentos diferentes? In: V ENCONTRO DE PESQUISA EM ENSINO DE FÍSICA, Águas de Lindóia, 1996. Atas do V EPEF , Belo Horizonte: UFMG/CECIMIG/FAE, 1997.

SILVA, E.T. Elementos de pedagogia da leitura . 3. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

SILVA, E.T. O professor de leitura. In: SILVA, E.T. A produção da leitura na escola: pesquisas x propostas. 2. ed. São Paulo: Ática, 2004.

SOLÉ, I. Estratégias de leitura . 6. ed. Porto Alegre: Artmed, 1998.

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.