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Teoria e Epistemologia em Monografias de Graduação em Física: um Estudo de Caso

José Carlos Oliveira De Jesus, José Luís Michinel, Teresinha Fróes Burnham

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XIX
Ano
2011
Data
01/02/2011
Linha de pesquisa
Linguagem E Cognição No Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## Teoria e Epistemologia em Monografias de Graduação em Física: um Estudo de Caso

## José Carlos Oliveira de Jesus , José Luís Michinel , Teresinha Fróes Burnham 1 2 3

- 1 Universidade Estadual de Feira de Santana/Departamento de Física, aprendizfaced@gmail.com
- 2 Universidad Central de Venezuela/Escuela de Física, jmichine@hotmail.com
- 3 Universidade Federal da Bahia/Faculdade de Educação, teresinhafroes@uol.com.br

## Resumo

Neste trabalho, analisam-se as concepções teórico-epistemológicas contidas em uma monografia de final de curso de Graduação em Física, modalidade Licenciatura, na perspectiva do discurso científico e das instituições imaginárias e sociais subjacentes. A análise do discurso de linha franco-brasileira é o referencial teórico-metodológico dessa investigação. O corpus da pesquisa é formado a partir de enunciados extraídos do Trabalho Acadêmico de Final de Curso (monografia), exigido curricularmente como requisito de Grau. O dispositivo analítico do trabalho de tese está referenciado em Thomas Kuhn, com as noções de paradigma, ciência normal, ciência revolucionária e comunidades científicas, e em Gaston Bachelard, com as noções de obstáculo, perfil e ato epistemológicos, bem como a noção seminal de ruptura, contribuindo em um denso diálogo sobre Formação. Metodologicamente, buscou-se explicitar como os pressupostos teóricos e epistemológicos dos estudantes contribuem para a definição, a caracterização e a resolução do problema de pesquisa implicado na Monografia. Os resultados obtidos foram analisados a partir das noções de autoria, texto, discurso, comunidades e práticas discursivas, e condições de produção. No trabalho analisado, encontrou-se uma predominância do racionalismo clássico no processo de racionalização/interpretação do estudante, fruto da emergência do préconstruído nas formações discursivas dominantes. Encontrou-se também o fenômeno de dispersão teórico-epistemológica dos sujeitos. A teorização por repetição e por citação são os processos determinantes e estão ligados à idéia de formação como treinamento.

Palavras-chave : Epistemologia; Análise do Discurso; Escrita; Autoria; Formação Inicial

## Introdução

A análise do discurso (AD) de linha francesa tem se mostrado um referencial teórico-metodológico bastante útil aos pesquisadores da área de ensino de ciências na última década (ALMEIDA, SILVA e MICHINEL: 2001; ALMEIDA: 2004; MICHINEL E FRÓES BURNHAM: 2007; MARTINS: 2007). Nascida do esforço intelectual de Michel Pêcheux em construir uma teoria do social (HENRY, 1997) que contemplasse a opacidade da história, do sujeito e da linguagem, a AD se debruça sobre os efeitos de sentido que os enunciados produzem ou podem produzir. Essas opacidades se ligam com o sentido pelo trabalho da ideologia, porque é ela ' que produz o efeito de evidência, e da unidade, sustentando sobre o já dito os sentidos institucionalizados, admitidos como 'naturais' ' (ORLANDI: 2007, p.31); ou seja, a ideologia ' é interpretação de sentido em certa direção, direção determinada pela relação da linguagem com a história em seus mecanismos imaginários ' (idem p.31). Isso significa dizer que a AD pode auxiliar o pesquisador a interpretar/compreender os processos de significação dos enunciadores a partir do reconhecimento das

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30 de janeiro a 04 de fevereiro de 2011

condições de produção dos enunciados. Aqui a AD se conecta à pesquisa relatada nesse artigo. Do ponto de vista teórico serão trabalhadas as noções de Formação Discursiva (FD), Pré-construído, Interdiscurso, Sujeito, Autoria e Texto.

Porém, para explicitar os processos de racionalização é preciso estabelecer um marco teórico-epistemológico que relacione os gestos de interpretação contidos nos enunciados com o processo formativo dos sujeitos enunciadores. Para tanto, optou-se por construir um lugar de análise a partir da perspectiva epistemológica de Bachelard (2006), contemplando as noções de obstáculo e perfil epistemológico, e da abordagem sociológica de Thomas Kuhn (2006), com as noções de paradigma, ciência normal, ciência revolucionária e suas inter-relações com a comunidade científica que produz os discursos de ciência e direciona - pela ideologia - a interpretação. O esforço metodológico consistiu de trazer esses elementos em diálogo com as categorias teóricas da AD para extrair do texto monográfico e objeto discursivo e compreender, a partir do corpus , a formação inicial de estudantes e seus reflexos na escrita dos trabalhos de conclusão de curso.

## Descrição do trabalho

Esse trabalho é parte de uma pesquisa interessada nas permanências, ausências e mudanças nas concepções teórico-epistemológicas de estudantes de graduação em Física durante o processo institucional de formação inicial, tanto na Licenciatura quanto no Bacharelado. Parte-se da premissa de que os textos das monografias de final de curso podem ser tomados como 'fixador de experiências', lugar onde os reflexos da formação acadêmica nas concepções podem ser buscados. Por essa razão, o arquivo dessa investigação consiste de monografias de conclusão de curso elaboradas por estudantes de uma universidade estadual baiana. Essas monografias são produzidas tanto como resultado de trabalhos de iniciação científica contemplados com bolsas quanto por iniciação voluntária ou simplesmente como parte dos trabalhos para obtenção de grau.

## Desenvolvimento

Do ponto de vista metodológico, os resultados que podem ser alcançados com a AD dependem fundamentalmente da elaboração do corpus . Porém, a despeito de sua importância capital na análise, o corpus não pode ser obtido a partir de um algoritmo. E isso se deve ao fato de que a AD trabalha com um dispositivo teórico, próprio de seu campo, e com um dispositivo analítico, próprio do campo onde se insere a questão de investigação do analista. Nesse caso, o interesse repousa sobre as relações entre física, ensino de física, formação inicial e concepções teórico-epistemológicas.

## Construção do corpus

Aqui, em vez de apresentar uma extensa lista de recomendações sobre a construção do corpus , optou-se por selecionar um único caso de análise de uma monografia elaborada por um estudante de licenciatura. De acordo com as questões de investigação, buscaram-se no texto monográfico as marcas das concepções teóricas e epistemológicas presentes em diferentes etapas do processo investigativo, a saber, na definição/colocação, na caracterização e na resolução do problema de pesquisa. Para tanto, optou-se pelo Esquema Paradigmático, que

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organiza a leitura de um trabalho científico em seus níveis técnico-instrumental, metodológico, teórico, epistemológico, gnoseológico e ontológico (GAMBOA: 2007). Evidentemente, esses níveis apenas orientam a construção do corpus , mas não podem ser tomados como categorias absolutas.

## Características da monografia

A monografia analisada nesse trabalho é nomeada institucionalmente por Trabalho Acadêmico de Final de Curso (TAFC), defendido em 1997, caracterizado como um dos requisitos de grau (Licenciado ou Bacharel em Física). O texto é apresentado sob o título Estudo dos estados de energia de pontos quânticos cúbicos na presença de campo magnético externo e se insere na grande área da Física do Estado Sólido, sub-área de Materiais Semicondutores, com ênfase em heteroestruturas semicondutoras, mais especificamente, e remonta à Dissertação de Mestrado do Professor Orientador (RIBEIRO: 1994).

Ao estudar os pontos quânticos na presença de campos magnéticos estáticos, o autor amplia a discussão nessa área, do ponto de vista teórico, investigando os efeitos, no espectro de energia, da competição entre o confinamento de elétrons devido ao campo magnético uniforme, por um lado, e as barreiras de potencial formadas pelas heteroestruturas semicondutoras, por outro. Seus resultados são comparados à literatura corrente, envolvendo pontos quânticos de diferentes geometrias.

## Extração do objeto discursivo

Para resolver o enigma da construção do corpus o analista põe em jogo as noções da AD - pertencentes ao dispositivo teórico - e as contribuições de Gaston Bachelard e Thomas Kuhn bem como conceitos de Física - que compõem o dispositivo analítico. Uma primeira impressão do trabalho de elaboração do corpus pode ser obtida da leitura do enunciado abaixo, extraído da monografia sob análise.

Neste trabalho apresentamos um estudo dos estados de energia de pontos quânticos cúbicos, formados pelo semicondutor Arseneto de Gálio (GaAs), na presença de campo magnético uniforme. (p.10) (Grifo nosso).

Aqui aparece uma metáfora : um ponto quântico de forma cúbica . Na geometria euclidiana o ponto, a reta e o plano são conceitos primitivos. O primeiro não tem dimensão - porque não tem extensão -, o segundo tem uma dimensão, e o terceiro tem duas dimensões. Assim, se o ponto quântico tem forma cúbica, então possui arestas, isto é, extensões; logo, não pode ser um ponto. É, portanto, um conceito metafórico, um deslizamento de sentidos.

- O mais importante, porém, é o contexto epistemológico dessa metáfora. Dentro do racionalismo clássico (Newtoniano) uma partícula é já um objeto de pensamento, no sentido bachelardiano, porque fala-se de algo sem extensão, isto é, sem volume ou capacidade, mas que pode conter uma quantidade de carga ou de massa. Porém, no contexto epistemológico do racionalismo completo, o princípio de incerteza de Heisenberg coloca uma situação muito mais complexa sobre o significado de uma coisa, um corpo, um corpúsculo ou uma partícula. Vê-se, pois, que a noção mecanicista de corpúsculo ou partícula constitui-se em obstáculo epistemológico ao estudo da mecânica quântica.

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Assim, diferentemente da utilização dessas noções de partícula ou corpúsculo (por necessidade de linguagem) na Física Newtoniana, um objeto quântico não pode ter uma descrição clássica no sentido mecanicista ordinário do termo, porque segundo Barbosa e Bulcão (2004, p.36-37):

'o corpúsculo não pode ser pensado como um corpo pequeno (...). O corpúsculo não tem dimensões assinaláveis, ele não tem forma assinalável. (...) 'o elemento não tem geometria''.

Portanto, a noção de ponto quântico coisifica aquilo que não pode ser coisificado , porque os objetos do mundo atômico - no contexto do racionalismo completo - são construções mentais, são objetos de pensamento, e como tais são noumeno . Para Bachelard (2006, p.17) 'agora, são os objetos que são representados por metáforas, é a sua organização que passa por realidade'. Desse modo, os objetos não se oferecem à percepção imediata, marca do primeiro obstáculo epistemológico. Antes, eles podem somente ser descritos a partir de leituras de suas relações matemáticas , de categorias da abstração (teoria) que os criou. Ainda segundo Barbosa e Bulcão (2004):

- (...) é preciso compreender uma coisa/não coisa que se singulariza por propriedades que nada têm a ver com as propriedades das coisas comuns. É preciso renunciar à noção de objeto, de coisa, pelo menos no estudo do mundo atômico. (BARBOSA & BULCÃO: 2004, p.37). (Grifo nosso).

Assim, pois, dá-se o salto do fenômeno, do objeto de percepção - daquilo que aparece, que pode ser descrito, portanto interpretativo - para o noumeno, objeto de pensamento .

Um enunciado que revela o processo de formação do autor da monografia está reproduzido logo abaixo:

Devido a seu diminuto tamanho os QD's [quantum dots - pontos quânticos] se comportam como um poço de potencial que confina os elétrons nas três dimensões espaciais. Os elétrons confinados em um poço quântico têm sua energia quantizada em valores discretos , como em um átomo. E por esta razão, pontos quânticos são por vezes chamados de átomos artificiais. (Grifo nosso).

Com esse enunciado, o autor desloca-se do pensamento metafórico para o conhecimento teórico, trazendo uma definição operacional de ponto quântico dentro do racionalismo completo. É aqui que trabalha a teoria quântica na definição de seu problema de pesquisa.

- O processo de racionalização do autor da monografia em relação à teoria quântica - que a usa enquanto a apreende, por estar em processo de formação inicial, sendo apresentado a essa disciplina, e a apreende quando a usa, porque desenvolve um trabalho monográfico ou um projeto de iniciação científica - fica marcado pela repetição de significado da expressão: ' quantizada em valores discretos '. Sabe-se que quantizado é já discreto, descontínuo, que muda por saltos. Mas essa repetição , aqui, não se trata simplesmente de um erro, mas de um reforço (ao esforço) de compreensão da natureza da mecânica quântica.

Um primeiro exemplo da forma de teorização usada pelo estudante é a citação. No enunciado abaixo, o trabalho teórico começa com a apresentação do hamiltoniano:

- O hamiltoniano de um elétron sob a influência de um campo magnético uniforme externo, negligenciando o momento magnético intrínseco e dentro da aproximação

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de massa efetiva , é dado por (Landau, 1997 ) ) ( ) ( ˆ ˆ * 2 1 2 r V r A c e P m H v v + ⎟ ⎠ ⎞ ⎜ ⎝ ⎛ -= , onde P v

é o operador momento, A v é o potencial vetor magnético, sendo o campo magnético escrito como A B r r r × ∇ = . O termo ) ( r V v é a barreira de potencial que é tomada como [Aparece a função definida por várias sentenças representando o potencial de uma 'caixa'].

No enunciado acima, nota-se o uso do recurso da teorização por citação (ORLANDI: 2007, p.143). O autor traz a referência de Landau (1997) para justificar a escolha do hamiltoniano. Todavia, por não problematizá-lo, silencia que se trata de uma ' simplificação ', de um modelo . Essa característica do conhecimento que ele produz está marcada pelos verbos negligenciar ( deixar de lado quantidades ou relações que não são a causa mais forte ou mais evidente de um dado efeito ) e aproximar ( substituir funções por expansões polinomiais , e.g. ), bem como pela noção de massa efetiva ( algo que se comporta como se ...). Essa é a forma ordinária de resolução de problemas na perspectiva empírico-analítica. Não se quer dizer com isso que há problemas em trabalhar com modelos. De fato, os modelos são formas de realização da teoria; é neles e por meio deles que a teoria manifesta sua materialidade.

Mais um exemplo do processo de racionalização do estudante, marcando também o trabalho da teoria sob a forma de citação está mostrado abaixo:

Aplicando a equação de autovalores (...) e considerando a função de onda como o produto de três funções independentes para cada variável, utilizamos o método de separação de variáveis (ARFKEN, 2001; EISBERG, 1979).

Aqui também ocorre, pela repetição de significados, o reforço. É o processo próprio de racionalização do estudante, um trabalho (cognitivo) de compreensão. Fala-se do método, que é na verdade uma técnica particular de resolução de equações sob certas condições, de duas maneiras distintas, como para garantir ou convencer-se de que o enunciado produzirá o efeito de sentido desejado. A teorização ou justificação está presente na forma de citação , trazendo os nomes de Arfken e Eisberg, autores bem conhecidos da comunidade de físicos.

Alguns enunciados, como no excerto abaixo, relacionam conceitos que significam diferentemente dentro do espectro epistemológico. É o caso dos conceitos de estado e confinamento , que remetem a sentidos distintos no racionalismo clássico e no racionalismo completo.

Neste trabalho estamos interessados na energia do estado fundamental devido ao elétron confinado em um QD de barreira de potencial infinita, sob a influência de um campo externo.

Aqui a expressão ' estado fundamental ' significa aquele que tem o menor valor possível de energia. Essa expressão tem/produz sentido dentro do racionalismo completo, sob os auspícios da teoria quântica. Porém, no contexto do racionalismo clássico, onde predomina o paradigma mecanicista, sob a hegemonia das idéias de Newton, fala-se antes de mínimo de energia , porque nesse caso a energia é entendida como um continuum , assim como as demais variáveis. A expressão ' confinado ' também tem sentidos distintos nas duas regiões do espectro epistemológico. No racionalismo clássico uma partícula que está restrita a uma dada região do espaço não pode escapar dela se sua energia total não superar a energia da barreira de potencial. Já o racionalismo completo prevê a possibilidade de uma partícula escapar de uma dada região, mesmo que sua energia não supere a da

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barreira. Esse fenômeno é conhecido como tunelamento de barreira ou efeito túnel. No enunciado acima, o confinamento está garantido pela expressão ' barreira de potencial infinita '.

Admitir a influência de um campo externo pressupõe a realidade ou existência do campo, como um dado empírico, disponível no nível fenomenomênico. Mas o conceito de campo é antes uma abstração físicomatemática boa porque ajuda a entender muitos fenômenos e a prever outros, como aconteceu para as ondas eletromagnéticas a partir das equações de Maxwell.

Outro aspecto dessa investigação refere-se ao papel dos manuais nas permanências (obstáculos epistemológicos). Um deles é a associação da teoria quântica exclusivamente ao mundo atômico e subatômico.

A tecnologia utilizada na fabricação de computadores começa a esbarrar nas dificuldades imposta (sic) pela redução do tamanho dos componentes eletrônicos. Os efeitos quânticos interferem no funcionamento dos componentes à medida que eles se tornam cada vez menores. (MBT: 2003, p.8)

Aqui aparece a influência da física dos manuais na formação do autor. Os livros ligam geralmente a mecânica quântica ao mundo atômico, quase exclusivamente. Quando o autor relaciona ' os efeitos quânticos ' à redução de tamanho , pode estar restringindo o campo de atuação da mecânica quântica, que é uma teoria para a natureza e não somente para os objetos atômicos e sub-atômicos.

- O peso dos manuais sobre a formação inicial se revela também na emergência do pré-construído, como no enunciado a seguir:

Na direção z o elétron está sempre confinado pelas barreiras de potencial. Já no plano xy, além das barreiras de potencial, o campo magnético confina o elétron, classicamente, em uma órbita circular de raio aB . Um campo magnético intenso pode fazer com que os efeitos devido á barreira de potencial nas direções x e y desapareça, visto que confinaria o elétron numa órbita de raio muito pequeno em comparação com a largura do poço.

Nesse enunciado se percebe claramente a tentativa de mudança, de transição entre esquemas de explicação e compreensão do problema de pesquisa, que o autor empreende. Quando o autor escreve - entre vírgulas, porque posposto o advérbio classicamente, está dizendo que se distancia dessa forma de interpretação. Aqui, para um autor situado em um conjunto de FDs em torno da teoria quântica, ' classicamente ' significa 'de acordo com o determinismo newtoniano, com o racionalismo clássico'. E isso fica ainda mais claro quando aparece o conceito de órbita , que tanta glória rendeu a Newton com seu modelo de gravitação e descrição do sistema solar. Órbita é a trajetória do corpo no espaço, conceito fundamentalmente mecanicista. Talvez por isso mesmo nosso autor, aprendiz de físico teórico contemporâneo, não queira identificar-se com esse discurso, embora não consiga ainda, porque confina ' o elétron numa órbita de raio muito pequeno em comparação com a largura do poço '.

Esse processo de racionalização do autor, essa tentativa de livrar-se de concepções antigas - mas ainda refém da mistura de mecânica racional e mecânica quântica - tem profundos reflexos no processo ensino-aprendizagem, na formação inicial do estudante. Um registro encontrado na literatura, devido a Villani et al. (1997) respalda essa interpretação:

As dificuldades históricas da comunidade científica durante o processo de mudança conseguiram chamar a atenção sobre a natureza e as dificuldades, não desprezíveis

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e profundas dos estudantes, ao aprender uma nova teoria. Notamos também que o aprender é gradual, compatível com a presença simultânea de saber antigo e saber novo, e que a estabilização desse último passa por uma articulação conceitual ampla, que deve ser explicitamente promovida pelo ensino . (VILLANI et al.: 1997, p.15) (Cursivo nosso).

Esse aprender gradual, ' compatível com a presença simultânea de saber antigo e saber novo ' é o trabalho da epistemologia, a presença do perfil epistemológico na interpretação/compreensão de problemas de física.

- O sentido é recorrente no texto, como se observa também no seguinte enunciado:

Podemos observar que quanto maior for Ly, (...), menor será o valor de B para que o regime linear seja atingido. Este regime acontece quando a soma de y0 com o raio de Landau é menor que Ly/2, isto é, é necessário que a coordenada do centro da órbita esteja dentro QD , e que o raio de Landau seja pequeno o suficiente para que a órbita também esteja contida dentro do QD. (MBT: 2003, p.36) (Grifo nosso).

No enunciado acima o autor trabalha a teoria para interpretar seus resultados numéricos. Dá particular atenção às relações entre parâmetros geométricos do problema: de um lado o confinamento por barreiras e de outro o confinamento magnético. E aqui o uso do conceito de órbita (Newton, racionalismo clássico, determinismo) é importante para entender os resultados da equação de Schrödinger (racionalismo completo) para o estado fundamental. O contexto é de teoria quântica, mas a noção de órbita é da mecânica clássica de Newton. Aqui ocorre uma relação de sustentação de discursos, bem como a migração de sentidos de uma FD para outra. E nesse caso o processo de racionalização se completa somente porque o autor transita no espectro epistemológico, ocupando posições de interpretação em FDs muito distintas.

## Resultados obtidos

Os enunciados extraídos da monografia e desuperficializados no contato com Gaston Bachelard e Thomas Kuhn foram organizados no Quadro 01 , mostrado abaixo. Este é o corpus dessa pesquisa.

Quadro 01. Corpus da pesquisa: síntese dos eventos discursivos e teóricoepistemológicos observados na monografia.

## EVENTOS

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## Considerações finais

A partir do corpus mostrado no Quadro 01 , os achados desse trabalho implicam que, devido à dispersão do sujeito (autor) sobre várias Formações Discursivas (mecânica racional, teoria eletromagnética, teoria quântica, nanotecnologia) e sobre várias regiões do espectro epistemológico (empirismo, racionalismo clássico, racionalismo completo), sua forma de racionalização é basicamente mediada pela construção, utilização ou referenciação a modelos híbridos. Esse efeito se deve à heterogeneidade intrínseca à noção de Formação Discursiva, que se liga à dispersão discursiva e teórico-epistemológica do sujeito.

Mas se deve também à emergência do pré-construído nas Formações Discursivas dominantes no processo de pesquisa; nesse caso, um problema de Mecânica Quântica interpretado a partir de conceitos Newtonianos. E isso não é um erro, mas, antes, uma solução cognitiva encontrada pelo estudante.Também como um achado geral, mas não menos importante, o pré-construído, herança do processo formativo do sujeito constitui-se em um obstáculo epistemológico na construção de conhecimento. Aqui tem um papel importante a tendência, na formação, a considerar uma continuidade epistêmica, qual seja: a idéia de que as teorias mais modernas contêm as teorias mais antigas como casos particulares. A vacina contra a continuidade epistêmica é o conceito kuhniano de incomensurabilidade.

A escrita de monografia está sujeita também a coerções sociais e discursivas. A institucionalidade que dá suporte à elaboração da monografia lhe impõe limites que vão se refletir na estrutura do documento e na escrita formalista, para diferençá-la do ensaio ou do romance. Ela é uma prática discursiva da comunidade como forma de admitir, pelo diploma, por exemplo, o ingresso de mais um membro.Particularmente, essa escrita tem um funcionamento marcado pela repetição e pela citação. A repetição se liga ao Esquecimento Nº1 de Pêcheux e dá ao estudante a ilusão de ser a origem do dizer. Do ponto de vista da formação, ele

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se assujeitou ao discurso da comunidade, que fala em sua fala e escreve em sua escrita, pelo treinamento no processo de formação (graduação).

A citação também aparece porque garante, enquanto prática discursiva, por um lado, uma forma de teorização dos trabalhos acadêmicos, e, por outro, preserva o lugar de autoridade dos citados, dando ao iniciante a noção de quem pode e quem não pode interpretar dentro da comunidade onde ele está sendo aceito ou está se inserindo: a interpretação é interditada.

Em resumo, o estudante significa o teórico e o epistemológico dispersandose sobre várias discursividades, construindo modelos híbridos (teóricos e epistemológicos) que os situam em entre-lugares, enquanto realizam suas travessias das comunidades de estudantes para as comunidades de especialistas.

## Referências

ALMEIDA, Maria José P. M. de; SILVA, Henrique; MICHINEL, José Luis. Condições de produção no funcionamento da leitura na educação em física . Revista Brasileira de pesquisa em educação em ciências . v.1, n.1, pp. 5 - 17. 2001

ALMEIDA, Maria José P. M. de. Discursos da Ciência e da Escola : ideologia e leituras possíveis. Campinas: Mercado de Letras, 2004.

BACHELARD, Gaston. A Epistemologia . Lisboa: Edições 70, 2006.

BARBOSA, Elyana; BULCÃO, Marly. Bachelard : pedagogia da razão, pedagogia da imaginação. Petrópolis: Vozes, 2004.

GAMBOA, Silvio S. Pesquisa em Educação : métodos e epistemologias. Chapecó: Argos, 2007.

HENRY, Paul. Os Fundamentos Teóricos da 'Análise Automática do Discurso' de Michel Pêcheux (1969). In Françoise Gadet; Tony Hak (Orgs.). Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux . Campinas: Editora da UNICAMP, 1997.

KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas . Trad. Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira. 9. ed. São Paulo: Perspectiva, 2006.

MARTINS, André Ferrer P. Tempo físico : a construção de um conceito. Natal: Editora da UFRN, 2007.

MICHINEL, José Luís; FRÓES BURNHAM, Teresinha. A socialização do conhecimento científico : um estudo numa perspectiva discursiva. Investigações em Ensino de Ciências - V12(3), pp.369-381, 2007.

ORLANDI, Eni P. Interpretação : autoria, leitura e efeitos do trabalho simbólico. Campinas: Pontes Editores, 5. ed., 2007c.

RIBEIRO, Fábio de Jesus. Impurezas em Pontos Quânticos : um estudo comparativo. 1994, 58f. Dissertação (Mestrado em Física) - Universidade Federal Fluminense. Niterói, RJ, 1994.

VILLANI, Alberto; BAROLLI, Elisabeth; CABRAL, Tânia; C. B.; FAGUNDES, Maria B.; YAMAZAKI, Sérgio C. Filosofia da ciência, história da ciência e psicanálise : analogias para o ensino de ciências. Florianópolis: Caderno Catarinense de Ensino de Física, v.14, n.1: p.37-55, abr.1997.

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