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A Natureza da Ciência e o Imaginário de Estudantes de Física do Ensino Médio

Mônica Maria Biancolin, Nelson Fiedler-Ferrara

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XIX
Ano
2011
Data
01/02/2011
Linha de pesquisa
Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## A NATUREZA DA CIÊNCIA E O IMAGINÁRIO DE ESTUDANTES DE FÍSICA DO ENSINO MÉDIO

## Mônica Maria Biancolin , Nelson Fiedler-Ferrara 1 2

1 USP/IFUSP/monicabiancolin@usp.br

2 USP/IFUSP/ferrara@if.usp.br

## Resumo

O trabalho tem por objeto buscar relações entre as concepções sobre a natureza da ciência e o imaginário de estudantes de física do Ensino Médio, para tal utiliza o trabalho de Lederman, Khalick, Bell e Schwartz (2002) com a aplicação de um questionário e de entrevistas semiestruturadas, bem como utiliza o questionário construído por Chen (2006). Após o levantamento das concepções sobre a natureza da ciência dos estudantes de física procedeu-se à aplicação do Teste At-9 de Yves Durand (1988) com o objetivo de desvelar o imaginário destes estudantes. O referencial teórico que embasa a concepção de imaginário está alicerçado nas Estruturas Antropológicas do Imaginário de Gilbert Durand (2002). O questionário de Lederman et al. (2002) e as entrevistas foram aplicados a um grupo de 20 alunos da terceira série do Ensino Médio da escola pública estadual localizada na cidade de Poá-SP. O questionário construído por Chen (2006) e o teste AT-9 foram aplicados a um conjunto de cinco alunos do grupo inicial.

Palavras-chave : natureza da ciência, imaginário, ensino médio.

## Intodução

As pesquisas atuais em Ensino de Física tem apresentado preocupações com as concepções sobre a natureza da ciência dos alunos e dos professores de física. Acreditamos que a formação científica dos alunos deve primar pelo ensino/aprendizagem dos conceitos e pelo domínio da linguagem matemática, mas acreditamos também que a enculturação científica requer elementos que ultrapassem esses conhecimentos e culminem com a visão do modo como se dá a construção do conhecimento científico.

Acreditamos também que o processo de ensino necessita da compreensão de componentes da formação do aluno que nos conduzam a compreender o modo como ele constrói suas representações sobre o mundo, ou seja, o modo como o seu imaginário está estruturado.

Essas duas questões nos fazem tentar buscar compreender algumas relações entre o modo como os imaginários de alunos de física estão estruturados e a visão destes alunos sobre a natureza da ciência.

## Natureza da Ciência

A Natureza da Ciência reflete uma preocupação antiga nas pesquisas em Ensino de Ciências. Encontramos na literatura trabalhos de revisão sobre o tema que apontam, desde a década de 90, que as pesquisas sobre a Natureza da Ciência estavam se desenvolvendo há aproximadamente 40 anos (Lederman, 1992). Recentemente Abd-El-Khalick e Lederman (2000) em artigo de revisão da literatura sobre as concepções dos professores sobre a Natureza da Ciência afirmam que um entendimento adequado da Natureza da Ciência é um componente central na alfabetização científica e é um dos objetivos mais comumente estabelecidos para a educação de ciências, sendo esse objetivo acordado pela maioria dos cientistas e dos educadores de ciência nos últimos 85 anos (Abd-El-Khalick, 2005).

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30 de janeiro a 04 de fevereiro de 2011

Contudo não há um consenso sobre uma definição específica para o termo 'Natureza da Ciência' entre os filósofos da ciência, os historiadores da ciência, cientistas e educadores em ciências. Em linhas gerais, o termo 'Natureza da Ciência' refere-se tipicamente à epistemologia da ciência e a ciência como um modo de conhecimento, ou os valores e crenças inerentes ao desenvolvimento do conhecimento científico (Lederman, 1992).

As mudanças nas concepções sobre a Natureza da Ciência estão alicerçadas nas pesquisas da filosofia, sociologia e história da ciência. Percebe-se, no entanto, que A Estrutura das Revoluções Científicas, de Kuhn (2003), foi um marco divisório no século vinte para a compreensão da Natureza da Ciência. Na primeira metade do século prevalecia a visão empírica lógica da ciência, que estava interessada no desenvolvimento de relatos lógicos e normativos para justificar as afirmações científicas. Após o trabalho de Kuhn (2003) a natureza do conhecimento científico passou a englobar elementos sociológicos, psicológicos e culturais.

Neste trabalho, compreendemos a importância da Natureza da Ciência no processo ensino/aprendizagem da ciência, pois além do conhecimento científico requerer o ensino/aprendizagem de conceitos, habilidades e técnicas, o aluno está sendo posto em contato com a cultura científica e portanto está sofrendo um processo de enculturação científica, o que exige uma alfabetização científica, a qual engloba elementos que se relacionam diretamente ao modo como o conhecimento científico é produzido e por quais fatores é influenciado.

Apesar da diversidade de aspectos da Natureza da Ciência, assumiremos, seguindo o pensamento de Abd-El-Khalick (2005) que há um conjunto de aspectos aceitáveis, pertinentes aos alunos de Ensino Médio, que devemos acessar para conhecer as concepções sobre a Natureza da Ciência: a natureza tentativa do conhecimento científico (sujeito a mudanças), a natureza empírica do conhecimento científico (baseado em/ou derivado de observações do mundo natural), o conhecimento científico como produto da inferência humana, a presença da imaginação e da criatividade na construção do conhecimento científico (envolvendo a invenção de conceitos e explicações), a imersão social e cultural do conhecimento científico e a distinção entre teorias científicas e leis científicas.

## Questionário VNOS -C (2002) e Questionário CHEN (2006)

Para acessar as concepções dos alunos de Ensino Médio de física, este trabalho utiliza o Questionário sobre Visões da Natureza da Ciência -Forma C (figura 01), construído por Lederman et al. (2002), além de entrevistas semiestruturadas para esclarecer as respostas dos alunos. Este questionário objetiva acessar os seguintes aspectos da Natureza da Ciência: o caráter empírico, a inferência e as entidades teóricas da ciência, a natureza das teorias científicas, a distinção e a relação entre teorias científicas e leis científicas, a criatividade e a imaginação na ciência, a teoria científica vinculada por crenças dos cientistas e valores subjetivos e as influências sociais e culturais sobre o conhecimento científico.

Além do trabalho de Lederman et al. (2002) utilizamos parte do Questionário construído por Chen (2006), do qual utilizamos as dez primeiras questões em um universo de 15 questões. O questionário de Chen (2006) apresenta perguntas ou afirmações, seguidas por respostas ou novas afirmações que explicam os argumentos que levam o entrevistador a concordar ou discordar da afirmação ou da pergunta. Cada 'resposta' admite cinco possibilidades: DF (discordo fortemente), D (discordo), I (incerto ou nenhum comentário), C (concordo) ou CF (concordo

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fortemente). Este questionário foca sete aspectos da Natureza da Ciência: a tentativa do conhecimento científico, a natureza da observação, o método científico, as hipóteses, leis e teorias, a imaginação, a validação do conhecimento científico e a objetividade e a subjetividade na ciência. O Questionário de Chen (2006) pode ser acessado no endereço eletrônico: http://homepage.ntust.edu.tw/SUFCHEN/.

- 1. O que é ciência na sua opinião ? O que torna a ciência (ou uma disciplina científica como a física, biologia, etc) diferente de outras disciplinas de investigação (por exemplo, religião, filosofia)?
- 2. O que é uma experiência?
- 3. A evolução do conhecimento científico requer experimentos?
- Se sim, explique por quê. Dê um exemplo para defender sua posição.
- Se não, explique por quê. Dê um exemplo para defender sua posição.
- 4. Após os cientistas desenvolveram uma teoria científica (ex, a teoria atômica, a teoria da evolução), a teoria nunca pode mudar?
- Se você acredita que as teorias científicas não mudam, explique o por quê. Defenda sua resposta com exemplos.
- Se você acredita que as teorias científicas mudam: (a) Explique por que as teorias sofrem mudança; (b) Explique por que se preocupar em aprender teorias científicas. Defenda sua resposta com exemplos.
- 5. Existe uma diferença entre uma teoria científica e uma lei científica? Ilustre sua resposta com um exemplo.
- 6. Os livros de ciência frequentemente representam o átomo como um núcleo central constituído de prótons (partículas de carga positiva) e nêutrons (partículas neutras) e elétrons (partículas carregadas negativamente) orbitando o núcleo. Qual a certeza que os cientistas têm sobre a estrutura do átomo? Que provas específicas você acredita que os cientistas usaram para determinar a estrutura (a forma) do átomo?
- 7. Os livros didáticos de ciências, muitas vezes definem uma espécie como um grupo de organismos que compartilham características similares e podem cruzar uns com os outros para produzir descendentes férteis. Quão certos estão os cientistas sobre sua caracterização do que é uma espécie? Que provas específicas você acredita que os cientistas usaram para determinar o que é uma espécie?
- 8. Acredita-se que cerca de 65 milhões de anos os dinossauros foram extintos. Da hipótese formulada pelos cientistas para explicar a extinção, duas gozam de amplo apoio. A primeira, formulada por um grupo de cientistas, sugere que um enorme meteorito atingiu a Terra há 65 milhões de anos atrás e levou a uma série de eventos que provocou a extinção. A segunda hipótese, formulada por um outro grupo de cientistas, sugere que as enormes e violentas erupções vulcânicas foram responsáveis pela extinção. Como são possíveis essas duas conclusões diferentes se os cientistas em ambos os grupos têm acesso e utilização do mesmo conjunto de dados para obter suas conclusões?
- 9. Alguns afirmam que a ciência está repleta de valores sociais e culturais. Ou seja, a ciência reflete os valores sociais e políticos, os pressupostos filosóficos, intelectuais e normas da cultura em que é praticada. Outros afirmam que a ciência é universal. Ou seja, a ciência transcende as fronteiras nacionais e culturais e não é afetada por valores sociais, políticos, filosóficos e normas intelectuais da cultura na qual ela é praticada.
- Se você acredita que a ciência reflete valores sociais e culturais, explique o por quê. Defenda sua resposta com exemplos.
- Se você acredita que a ciência é universal, explique o por quê. Defenda sua resposta com exemplos.

10.

Os cientistas realizam experiências / investigações na tentativa de encontrar respostas para as

- perguntas que colocou. Os cientistas usam sua criatividade e imaginação durante suas investigações? Se sim, então em quais fases da investigação você acredita que os cientistas usam sua imaginação e criatividade: no planejamento e no projeto, na coleta de dados, após a coleta de dados? Por favor, explique por que os cientistas usam a imaginação e a criatividade. Forneça exemplos se for apropriado.
- Se você acredita que os cientistas não usam a imaginação e a criatividade, por favor, explique o por quê. Forneça exemplos se for apropriado.

Figura 01: Questionário sobre Visões da natureza da ciência-FormaC.

## A Antropologia do Imaginário de Gilbert Durand

Para a concepção de imaginário a pesquisa utiliza a Antropologia do Imaginário de Gilbert Durand (2002) a qual concebe a imagem a partir do seu

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caráter simbólico, contrariando os pressupostos do pensamento cunhado na lógica binária do certo-errado.

- O caminho adotado para o estudo do imaginário é o trajeto antropológico, que admite a incessante troca que existe em nível do imaginário entre as influências objetivas do meio e as pulsões subjetivas do sujeito. Para a classificação do imaginário adota-se o ponto de partida psicológico (centrado no sujeito) e admite-se que as imagens convergem, formando constelações de símbolos isomórficos, por terem um mesmo tema arquetipal. Além desses dois pressupostos utiliza-se a teoria de Piaget (1990) que considera a imagem simbólica a interiorização de um esquema de representação, ou seja, a imagem simbólica é em qualquer momento a abstração dinâmica do gesto.

Durand (2002) fundamenta a bipartição das imagens em dois Regimes: o Diurno (dominante postural) e o Noturno (dominante digestiva e dominante cíclica). Um Regime do Imaginário é constituído pelo agrupamento de estruturas vizinhas.

- O Regime Diurno definido, de modo geral, como o regime das antíteses está estruturado pela dominante postural, apresentando as suas implicações manuais e visuais. Está relacionado com a tecnologia das armas, com o elemento paterno, com as implicações sociológicas relativas ao guerreiro e ao soberano, com a busca da luz, da elevação e da purificação. Seus principais símbolos são: os símbolos da ascensão, os símbolos especulares e os símbolos diairéticos.
- O Regime Noturno caracteriza-se por estar constantemente sob o signo da conversão e do eufemismo. Ele apresenta uma organização de imagens que une os opostos. A preocupação com a morte, enfocada na passagem do tempo, não é atacada buscando-se a transcendência do humano, porém busca-se a eufemização dos medos brutais e mortais. Este regime se subdivide em:
- a) Regime Noturno Místico - estruturado segundo a dominante digestiva, tem características relacionadas às técnicas do continente e da habitação, aos valores alimentares, à sociologia matriarcal e alimentadora. Os símbolos que representam esse regime são: os símbolos da inversão e os símbolos da intimidade.
- b) Regime Noturno Sintético - estruturado segundo a dominante sexual, este regime apresenta como característica marcante a complementaridade dos pólos e o caráter cíclico para a superação do tempo e da morte. A estrutura sintética representa os ritos usados para assegurar os ciclos da vida, equilibrando os contrários através de uma trajetória histórica, utilizando os símbolos cíclicos.

## O Teste Arquetípico de Nove Elementos AT-9

Para o desvelamento do imaginário dos estudantes de física utilizamos o teste arquetípico de nove elementos de Yves Durand (1988), o qual concebe o estudo da imagem num espaço vago entre a reprodução funcional oferecida e a representação mental, ou seja, se localiza no interregno da percepção e da representação.

- O teste At-9 é um teste projetivo proposto como modelo experimental para a análise das estruturas imaginárias propostas por Gilbert Durand (2002). O teste é composto por um desenho (utilizando papel sulfite A4 e lápis preto, sem uso de borracha), uma narrativa e um questionário. O desenho é proposto a partir de nove palavras estímulo: queda, espada, monstro devorador, refúgio, elemento cíclico, personagem, água, animal e fogo. A narração deve explicar o desenho construído e o questionário objetiva esclarecer os símbolos utilizados.

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Cada elemento do teste tem uma função específica: a personagem é o elemento que vive o episódio dramático; a queda e o monstro devorador buscam evidenciar a angústia existencial diante da morte; a espada, o refúgio e o elemento cíclico objetivam ativar as estruturas imaginárias heróica, mística e sintética, respectivamente; a água, o fogo e o animal, são elementos complementares que objetivam reforçar a estrutura simbólica do indivíduo.

Yves Durand (1988) segue a categorização dos regimes e das estruturas imaginárias proposta por Gilbert Durand (2002) e propõe a categorização do teste AT-9 a partir de conhecimento do universo mítico do sujeito, que pode ser classificado como:

- 1. Microuniverso mítico heroico, no qual as imagens constelam em torno do combate;
- 2. Micro-universo mítico místico, no qual as imagens gravitam em torno da harmonia e do equilíbrio;
- 3. Micro-universo mítico sintético, no qual há convivência do combate e da harmonia, quer de forma sincrônica ou de forma diacrônica.

Devido as interferências entre os regimes e estruturas Yves Durand (1988) propõe a seguinte sub-divisão dos universos míticos:

- 1. Micro-universo mítico heróico:
- 1.1. Micro-universo mítico heróico integrado: ocorre a integração dos 9 elementos na cena do combate;
- 1.2. Micro-universo mítico heróico impuro: há organização em torno do combate, no entanto, alguns elementos divergem da organização;
- 1.3. Micro-universo mítico heróico descontraído: apesar da presença perigosa do monstro não há combate, pois o monstro encontra-se provisoriamente afastado da personagem;
- 1.4. Micro-universo mítico super-heróico: representação centrada na espada, no monstro e na personagem, enquanto os outros elementos aparecem desfuncionalizados.
- 2. Micro-universo mítico místico:
- 2.1. Micro-universo mítico místico integrado: não há combate, todos os elementos se integram em torno da vida harmoniosa;
- 2.2. Micro-universo mítico místico impuro: os elementos espada e monstro aparecem sem função para a personagem;
- 2.3. Micro-universo mítico místico lúdico: o monstro e a espada integram-se num cenário lúdico (espada de brinquedo);
- 2.4. Micro-universo mítico super-místico: as imagens estão organizadas em torno do refúgio, pode não aparecer a espada e o monstro e geralmente a personagem goza a paz da natureza.
- 3. Micro-universo mítico sintético:
- 3.1. Micro-universo mítico sintético existencial:
- 3.1.1. Micro-universo mítico sintético existencial diacrônico: a personagem vive sucessivamente dois episódios: o heróico e o místico;
- 3.1.2. Micro-universo mítico sintético existencial sincrônico: a personagem vive simultaneamente dois episódios: o heróico e o místico.
- 3.2. Micro-universo mítico sintético simbólico de forma diacrônica:

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- 3.2.1. Micro-universo mítico sintético simbólico de evolução cíclica: a existência humana é representada por fases cíclicas;
- 3.2.2. Micro-universo mítico sintético simbólico de evolução progressiva: a ação se desenvolve de modo a evidenciar progresso para atingir um objetivo.
- 3.3. Micro-universo mítico sintético simbólico de forma sincrônica:
- 3.3.1. Micro-universo do dualismo: conteúdo abordado de forma antagônica;
- 3.3.2. Micro-universo da mediação: personagem situa-se como ponto de articulação para conduzir uma mediação.
- 4. Micro-universo da não-estruturação:
- 4.1. Não-estruturado verdadeiro: não há ligação entre os elementos (no desenho e na narrativa);
- 4.2. Pseudo-desestruturado: não há articulação dos elementos no desenho, mas há articulação na narrativa.

## Desenho da pesquisa

A pesquisa foi realizada com alunos da 3ª série do período noturno do Ensino Médio da Escola Estadual Professora Maria Aparecida Ferreira, localizada na cidade do Poá, estado de São Paulo. A Questionário construído por Lederman et al (2002) foi aplicado a um grupo de vinte alunos, com acompanhamento da pesquisadora para esclarecimento de dúvidas. O tempo de preenchimento do questionário foi livre, com média de 60 minutos para o grupo. Posteriormente a pesquisadora realizou entrevistas semiestruturadas com os alunos para esclarecimento das respostas. Objetivando verificar a pertinência das respostas dos alunos a pesquisadora aplicou o Questionário Chen (2006) a um subgrupo de cinco alunos do grupo inicial e na sequência aplicou o Teste AT-9 para acessar as estruturas imaginárias destes cinco estudantes de física.

## Análise dos Dados

Vamos realizar a análise dos dados de cada aluno. Os dados referentes as concepções sobre a Natureza da Ciência serão englobados em 7 questões, as quais serão analisadas a partir dos dois questionários (tabela 01) e posteriormente faremos a análise do imaginário dos alunos. Por falta de espaço só conseguiremos reproduzir a análise de três alunos.

Tabela 01: Questões da pesquisa e suas correspondentes nos questionários de Lederman (2002) e de Chen (2006).

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Para tornar clara a utilização dos questionários e do teste AT-9 realizamos a análise do primeiro aluno e a transpomos para a tabela 2 abaixo.

Aluno: Czg

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<!-- image -->

- O aluno descreve o seu desenho da seguinte forma:

'Meu desenho é uma floresta sendo destruída. Os animais fugindo e acabando parar na cidade, onde provavelmente morrerão. E os bombeiros chegando para ver se conseguem salvar esses animais e dar uma salvação para o mundo'.

Nesse desenho a espada é representada pela mangueira dos bombeiros, a queda pela queda da árvore, o refúgio pela cidade, o monstro pelos cortadores de árvores, o elemento cíclico pela serra elétrica, a personagem pelo bombeiro, a água pela água que sai da mangueira, o animal pelos esquilos, cobras e pássaros, e o fogo pela queimação da floresta(conforme indicado pelo aluno no quadro final do protocolo do teste AT-9).

Há uma representação de luta entre o bem e o mal, travada indiretamente entre o monstro (cortadores de árvores) e o personagem (bombeiro), o qual tem por função apagar o fogo provocado pelos destruidores da natureza. Observamos estruturas do micro-universo sintético simbólico de forma sincrônica da mediação, no qual a personagem situa-se como ponto de articulação para conduzir a mediação.

Tabela 02: Resultado das análises do aluno Czg.

## Aluno: Jon

- 1. Caráter empírico da ciência:
- - O aluno acredita que a evolução do conhecimento científico necessita de experimentos.
- - A ciência estuda as coisas verdadeiras, as coisas descobertas pelos seres humanos.
- - O método científico assegura resultados válidos, claros, lógicos e precisos e é usado pelos cientistas porque ele é um processo lógico, contudo não existe o método científico fixo, o conhecimento científico pode ser descoberto acidentalmente.
- - Os cientistas precisam realizar muitos experimentos científicos para provar uma afirmação científica.
- 2. A inferência e as entidades teóricas:

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- - O aluno não consegue perceber que algumas teorias são construídas através da inferência e tem dificuldades para compreender a construção das entidades teóricas.

## 3. A natureza das teorias científicas:

- - As teorias científicas não mudam de forma revolucionária, elas evoluem.
- - Através de um processo cumulativo as teorias sofrem evoluções, sem descartar a velha teoria.
- -A teoria evolui com o acúmulo de dados e informações, não sendo descartada.

## 4. Teorias e leis Científicas:

- - Uma teoria é algo que ainda não foi provado pelos cientistas, enquanto uma lei já foi provada.
- - A lei é mais importante do que a teoria.
- - As teorias e leis científicas são descobertas e não são inventadas pelos homens.

## 5. A criatividade e a imaginação:

- - Os cientistas usam a criatividade e a imaginação após a coleta de dados, quando eles estão perdidos e não sabem o que fazer.
- - No planejamento e na coleta de dados os cientistas usam a lógica e o seu conhecimento.
- - A imaginação é a principal fonte de inovação.
- - Os cientistas usam a imaginação mais ou menos na investigação científica.

## 6. Crenças e valores subjetivos dos cientistas:

- -Os cientistas são treinados para ficar livres de valores e não são influenciados por valores socioculturais.

## 7. Influências socioculturais sobre a ciência:

- - Os cientistas não são influenciados por valores socioculturais e com um bom treinamento ficarão livres de valores.
- -Os valores socioculturais influenciam a direção e os temas das investigações científicas, mas a ciência exige objetividade, que é contrária a subjetividades dos valores socioculturais.

## 8. Universo Mítico:

A análise do teste At-9 indica que o imaginário do aluno está estruturado segundo as características do microuniverso mítico sintético existencial sincrônico no qual o personagem vive simultaneamente dois episódios: o heroico e o místico, pois o personagem pode tanto se refugiar nos braços da mãe (referência explícita as estruturas místicas) como pode tomar a espada e matar o monstro (referência clara das estruturas heroicas).

## Aluno: Mar

## 1. Caráter empírico da ciência:

- - A ciência se baseia na lógica e na experimentação.
- - O método científico assegura resultados válidos, claros, lógicos e precisos, ele é utilizado pelos cientistas por ser um processo lógico.
- - O método científico é útil na maioria dos casos, mas não garante os resultados e, portanto, os cientistas inventam novos métodos.
- -O método científico não é fixo, o conhecimento científico pode ser descoberto acidentalmente.

## 2. A inferência e as entidades teóricas:

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- - O aluno não expressa a ideia de inferência e nem de entidades teóricas na ciência.

## 3. A natureza das teorias científicas:

- -O aluno acredita que a ciência sofre mudanças através de processo cumulativo e com o acúmulo de dados da pesquisa e de informação a teoria vai evoluir mais precisamente.
- - O aluno não acredita que as investigações científicas sofram mudanças revolucionárias.

## 4. Teorias e leis Científicas:

- - Para o aluno a teoria é uma hipótese e a lei científica é algo comprovado, algo concreto.
- - A lei é mais difícil de mudar e a teoria não.
- - Para o aluno as teorias e leis científicas são igualmente descobertas pelo homem e está incerto quanto ao fato das teorias e leis serem inventadas pelos homens.

## 5. A criatividade e a imaginação:

- -Os cientistas devem usar a imaginação e a criatividade em todas as fases da pesquisa científica.
- - A imaginação é a principal fonte de inovação.

## 6. Crenças e valores subjetivos dos cientistas:

- - A investigação científica não deve ser totalmente independente da crença pessoal e dos valores subjetivos.
- - Os cientistas devem considerar tanto a investigação científica como os valores sociais simultaneamente.

## 7. Influências socioculturais sobre a ciência:

- - O aluno não concorda que com um bom treinamento os cientistas ficarão livres de valores e também não concorda que a ciência exige objetividade que é contrária a subjetividade dos valores socioculturais.
- - O aluno está incerto quanto ao fato dos cientistas serem influenciados por valores socioculturais, bem como está incerto quanto ao fato de que um bom treinamento pode livrar os cientistas de valores durante a realização dos experimentos.

## 8. Universo Mítico:

- A análise do teste AT-9 indica que o imaginário do aluno está estruturado segundo o microuniverso mítico heroico descontraído, no qual, apesar da presença perigosa do monstro não há combate, pois o monstro encontra-se provisoriamente afastado da personagem. O personagem não tem medo e usa a sua arma para matar o animal que o ameaçava e refugia-se do monstro, que é o medo, em um abrigo, utilizando o fogo como uma arma para enfrentar o perigo representado pelo medo (o monstro).

## Aluno: Dig

## 1. Caráter empírico da ciência:

- - A ciência é algo que estuda sobre os seres vivos e que quer provar coisas novas; o conhecimento científico requer experimentos para a sua evolução, mas o aluno não sabe afirmar se os dados utilizados nos experimentos são sempre dados concretos; o aluno acredita que o método científico assegura resultados válidos,

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claros, lógicos por isso a maioria dos cientistas utilizam o método científico, que é um método lógico.

## 2. A inferência e as entidades teóricas:

- - O aluno não apresenta ideia clara sobre inferência e sobre as entidades teóricas.

## 3. A natureza das teorias científicas:

- - O aluno acredita que as teorias podem mudar, mas tem dificuldades para explicitar essas mudanças; o aluno pensa na evolução do homem a partir do macaco; o aluno não acredita que as teorias sofram mudanças revolucionárias, na sua opinião as mudanças ocorrem através de um processo longo e cumulativo, sendo a teoria antiga preservada.
- - O aluno acredita na evolução da teoria através de um acúmulo de dados de pesquisa e de informação, não sendo descartada.

## 4. Teorias e leis Científicas:

- - O aluno acredita que há uma diferença entre as teorias científicas e as leis científicas: as teorias se referem a algo não provado e as leis se referem a algo que já foi provado; o aluno acredita que as leis são mais importantes do que as teorias científicas.
- -O aluno não tem uma visão clara do que é teoria científica e lei científica no que se refere a 'descoberta' e a 'invenção'

## 5. A criatividade e a imaginação:

- - O aluno acredita que os cientistas usam a imaginação em todas as etapas da pesquisa científica e que a imaginação é a principal fonte de inovação e que os cientistas usam a sua imaginação mais ou menos.
- - O aluno discorda fortemente que os cientistas não usam a imaginação porque ela não tem confiabilidade.

## 6. Crenças e valores subjetivos dos cientistas:

- - O aluno não consegue explicar numa situação concreta a influência das crenças pessoais na observação dos cientistas.
- - O aluno apresenta uma visão positivista das observações, pois acredita que as observações são exatamente o que vemos e nada mais. Fatos são fatos. As interpretações podem ser diferentes, mas as observações devem ser as mesmas.
- -O aluno apresenta contradições nas respostas: ele acredita que as observações dos cientistas não são influenciadas por crenças pessoais porque na formação científica dos cientistas os valores pessoais podem ser abandonados e segundo porque embora a subjetividade não possa ser totalmente evitada na observação, os cientistas usam métodos diferentes para verificar os resultados e melhorar a objetividade.

## 7. Influências socioculturais sobre a ciência:

- - O aluno se refere inicialmente às influências socioculturais sobre a ciência citando as verbas necessárias para a realização das pesquisas, logo conclui que a ciência precisa de ajuda social.
- -Os valores socioculturais influenciam a direção e os temas das investigações científicas, no entanto os cientistas com um bom treinamento ficarão livres de valores quando da realização da pesquisa.
- - O aluno também acredita que a ciência exige objetividade, que é contrária à subjetividades dos valores socioculturais.

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## 8. Universo Mítico:

- O imaginário do aluno está estruturado segundo as características do microuniverso mítico místico impuro, no qual os elementos espada e monstro aparecem sem função para o personagem.

## Conclusões:

A análise preliminar da pesquisa nos faz acreditar que as estruturas sintéticas do imaginário corroboram como uma visão de ciência que admite, em alguns momentos, sua natureza impregnada de valores menos positivistas e em outros momentos de valores mais positivistas.

Já a estrutura heroica apresenta elementos que conduzem a um maior grau de abstração, com visões que concebem a ciência imersa em relações sociais, culturais, políticas e filosóficas, bem como admite a influência das crenças dos cientistas.

- A estrutura mística está permeada por características que não remetem a uma visão mais abstrata da ciência, havendo uma certa dificuldade de categorizar e classificar alguns aspectos da ciência.

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