Pular para o conteúdo
Buscador da Pesquisa em Ensino de Física Busca em texto completo · v0.3.0

ESPELHO DE DUAS FACES: FÍSICA E POESIA

Maria Da Conceição Barbosa-Lima, Pedro Zille Teixeira Nasser, Bruno Marques Da Silva Costa, Bruno Laert Gomes, Eduardo Da Rocha Emmerick, Rafael Dos Santos

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XI
Ano
2008
Data
22/10/2008
Linha de pesquisa
Ensino-Aprendizagem De Física
Tipo
Comunicação

Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do EPEF 2008

Texto completo

## Espelho de duas faces: Física e Poesia Mirror from two sides: Physics and Poetry

## M. C. Barbosa -Lima*a*, P. Z. T. Nasser 1 * ? * ? ? , B. M. da S. Costa 5 2 * 2 *, B. L. Gomes 3 * 3 *, E. R. Emmerick 4 * 4 * ° & R. dos Santos 5 * 5 *

*Instituto de Física Armando Dias Tavares - Universidade do Estado do Rio de Janeiro , mcablima@uol.com.br

?
C °

?
Colégio Estadual Antônio Houaiss, zille@terra.com.br

Colégio Estadual Manoel Maurício de Albuquerque, rochaemm@yahoo.com.br

## Resumo

Tratamos neste artigo de um projeto inicial que propõe ensinar física através da poesia. Utilizamos o poema intitulado Poema para Galileu de António Gedeão, poeta português, que na vida "civil" foi professor de física e química do nível de ensino que em Portugal correspondente ao nosso ensino médio. O texto escolhido apresenta uma s íntese da vida de Galileu e de seus trabalhos principais. A análise de parte de um questionário, que é o nosso primeiro instrumento de pesquisa e que foi aplicado a alunos regularmente matriculados em duas escolas, uma situada na zona oeste e outra na norte te da cidade do Rio de Janeiro, no ensino médio da rede pública do Estado do Rio de Janeiro, é apresentada neste artigo. Tal questionário procurou conhecer a opinião dos estudantes em relação às disciplinas Física e Português; sua opinião sobre o poema e algumas questões de interpretações induzidas. Concluímos deste estudo preliminar que o poema é indicado para a utilização como material instrucional e que permitirá realizarmos a inclusão do ensino de História da Ciência e trabalharmos de maneira interdisciplinar com Literatura, História e Geografia.

Palavras -c -chave: Física e Poesia, Ensino Médio, Interdisciplinaridade

## Abstract

This article reports an initial project which proposition is to teach Physics using poetry. The chosen poem, named "Poem for Galileo", from António Gedeão, a Portuguese poet who was a high school level Physics and Chemistry teacher in Portugal, shows a summary about Galileo's life and his main projects. An analyses of part of a poll is our first research instrument and it has been done to two groups of high school students from different public schools, one located in the north and the other located in the west side of Rio de Janeiro city. Such poll tried to reach the students' opinion about Physics, Portuguese, the poem and also some induced interpretation questions. We concluded from this preliminary study, that the referred

poem should be used as instrumental material and that it can help us to make the inclusion of History of Science teaching and also to work in interdisciplinary waway with Literature, History and Geography disciplines.

Keywords: Physics and Poetry, high school, interdisciplinary

## Introdução

"A imaginação fantástica, pode tornar -se um guia para a ação mais eficaz do que o simples raciocínio lógico, no mundo de hoje e, sobretudo, no de amanhã" (M. SCHENBERG, apud MARCOVITCH, 2003).

Com referência a epígrafe acima temos a comentar que ninguém mais que Mário Schenberg, no Brasil, uniu Arte e Física. Não pretendemos aqui realizar nenhuma nota biográfica de Schenberg, mas não seria possível passar por este tema sem reverenciá -lo como um dos primeiros, não a trabalhar no tema, mas a encarnar, em suas aulas e em seus interesses tanto uma quanto outra área. Físico de renome internacional, querido por seus alunos de graduação e e pós-graduação, foi também apreciador e crítico de artes plásticas respeitado.

Outra referência como a comentada anteriormente, uma só pessoa que concentra os estudos de Ciência e Arte, é Gaston Bachelard, dedicado estudioso que tem em suas "Obras Diurnas", dedicadas a Epistemologia da Ciência e a Ciência, e suas "Obras Noturnas", sobre devaneios e poética, clássicos estudados e referência de pesquisadores de diversas áreas.

Assim como estes dois personagens, naturalmente existem outros menos conhecidos que também fazem através de interesses pessoais a ligação entre Ciência e Arte em suas mais variadas especificidades. Alguns na Música, na Escultura, na Literatura e outros ainda na Pintura, como por exemplo, João Barcellos, físico reconhecido por seus pares e pintor, hoje, com premiação internacional. Não temos dúvida que esta união os facilita tanto numa quanto em outra atividade, porquanto ativam a imaginação e permitem uma visão de mundo estético necessário ao desenvolvimento da Ciência e da Arte. Ou seja, são, naturalmente, espelhos de duas faces.

Precisamos considerar que há tempos Zanetic vem afirmando que Física também é Cultura, chegando mesmo a colocar esta expressão como título de sua tese (1989), uma vez que ambas são construções humanas. Este autor continua trabalhando na mesma linha, dedicando-s-se com maior interesse à comunhão entre a Física e a Arte Literária, mais especificamente ao estudo da ligação entre Romances e Ensino de Física (ZANETIC, 2005, 2006 a e 2006 b).

Esta discussão sobre os possíveis vínculos entre Ciência e Artes, com vistas à melhoria do ensino dos mais diferentes níveis, está sendo discutida em vários centros de pesquisa: na Estação Ciência, em São Paulo; no Instituto Oswaldo Cruz, onde há estabelecido um grupo de pesquisa na área, que já colocou no mercado alguns mestres e doutores, a Casa de Oswaldo Cruz, ambos institutos da Fiocruz, no Rio de Janeiro, além, naturalmente, da Casa da Ciência, ligada à Universidade Federal do Rio de Janeiro, que, com freqüência, apresenta exposições e peças teatrais com esta ênfase.

Cabe também ressaltar a colaboração de grupos de ensino não-formais que colocam a Arte Cênica a serviço da Ciência, como, por exemplo, o Projeto "Arte e Ciência no Palco" dirigido por Carlos Palma. Este projeto inic iado na cidade de São Paulo, já foi levado a vários palcos do País, divulgando peças como Einstein de Gabriel Emanuel, Copenhagen de Michael Fray e E agora,Sr. Feynman? ? de Peter Parnell (MASSARANI E ALMEIDA, 2006).

Nosso ponto de união entre Arte e Física não são as Artes Plásticas, mas sim a Literatura em uma de suas formas mais antigas, a Poesia, afinal como diz Bronowski (1983, p. 35 apud PIETROCOLA, 2004 p. 131)

"Um físico faz experiências com situações materiais cujas propriedades não conhece totalmente te e um poeta tenta encontrar o seu caminho através de situações humanas que não compreende integralmente. Ambos estão aprendendo através da experiência".

É importante ratificar, apoiados nos exemplos que citamos anteriormente, que entendemos a Ciência, em nosso caso particular a Física e a Cultura, como uma construção humana. Pelo fato de serem construções humanas, não é possível esquecer que a imaginação tem um papel preponderante nesta tarefa. Acreditamos que a união entre Poesia e Física no Ensino Médio pode auxiliar não só no desenvolvimento e na formação cultural de nossos alunos, mas também proporcionar condições de evolução de suas imaginações além de permitir, deste modo, uma forma de estudo interdisciplinar que lhes pode parecer mais interessante.

Afinal, como afirma Pietrocola (op. cit., p. 129), "a arte e as ciências são atividades importantes, pois fornecem material criativo para nossa imaginação. Cada uma delas fufunciona de modo diferente." " E com as palavras de Bronowski (1983, p.18), o autor complementa:

" Na ciência estrutura a nossa experiência em leis em que podemos futuramente basear as nossas ações. Mas a poesia é outro modo de conhecimento no qual nos identificamos com o poeta e entramos diretamente na sua e em toda a experiência humana."

Para esta finalidade estudaremos uma poesia de António Gedeão, poeta português que, assim como os exemplos citados nesta introdução, unia em seus interesses o gosto pelas Ciências, Físicas e Químicas, principalmente seus ensinos, e a Poesia.

## Quem foi António Gedeão

O lisboeta Rómulo Vasco da Gama de Carvalho nasceu em 1906. Licenciou -se pela Universidade do Porto em Ciências Físico-o-Químicas em 1931, vindo a exercer as atividades de professor, pedagogo, cientista e investigador de História da Ciência.

Seu pendor poético revelou-s-se ainda na infância, conhecendo-s-se pelo menos três composições suas autografadas datadas de 1911 (COUTO, 2006), ou seja, com cinco anos de idade. De acordo com Nunes (2006) continuou a escrever poemas até mais ou menos o ano de 1943, quando contava com 37 anos de idade, mas esta produção foi destruída por ele. Só quando Rómulo completa 50 anos nasce António Gedeão, o poeta, que passa a conviver com o nosso já conhecido professor, pedagogo, cientista e estudioso de história da ciência.

De acordo com Castro (2006) seu aluno nos anos 1960:

"Rómulo de Carvalho era metodólogo de Físico -químicas no Liceu Normal Pedro Nunes e uma figura marcante do ensino liceal. Alto, aprumado, sempre cuidadosamente vestido, cordato mas de aparência um pouco disdistante, era um homem exigente consigo e com os outros. Destacava -se pelo profissionalismo reservado e pela cultura superior, que transpareciam nas mais simples conversas." (p. 23).

Rómulo de Carvalho publicou e colaborou em várias revistas e periódicos portugueses, sendo a que mais colaborou foi a Gazeta da Física. Como António Gedeão, sua contribuição foi 178 poesias, 20 cartas e cartões, quatro narrativas, duas peças de teatro, seis ensaios literários, fora aqueles da juventude que foram recuperados e constam de sua Obra Completa.

Muitos destes 178 poemas têm em seus versos conceitos físicos e/ou químicos de maneira explícita ou implícita. Um exemplo deles é o poema que escolhemos, em que o poeta fala claramente sobre a vida e a obra de Galileu.

## Nossa proroposta

Nossa proposta é a de estudar o Poema para Galileu u para utilizá-lo como material instrucional de Física em aulas para o nível médio de escolarização, através da elaboração de mini-i-cursos, com caráter interdisciplinar junto com a Literatura, a História e a Geografia. Pela característica do poema escolhido, a introdução da História da Física e da Astronomia também serão contempladas nos mini-cursos.

Este projeto está sendo desenvolvido em três fases. A primeira pode ser considerada como um trabalho de escritório, o qual já está bastante adiantado: o levantamento e estudo bibliográfico sobre poesia e ciência, interdisciplinaridade, o estudo sobre a vida e a obra de Galileu e o estudo da vida e das obras de António Gedeão, já foram realizados.

Decidimos, em decorrência das discussões dos autores da pesquisa, levar a alguns alunos do Ensino médio um questionário (em anexo a parte do questionário analisada para este trabalho) para podermos verificar a adequação do poema eleito e dar continuidade a nosso trabalho baseados nas respostas coletadas.

No segundo momento, baseados nas respostas dos alunos, iniciaremos a construção dos mini-cursos previstos. A terceira fase será a aplicação das aulas preparadas para turmas de Ensino Médio com o objetivo de validá-los e, em seguida, feitos alguns ajustes se necessários, disponibilizá-los a quem por eles se interessem e elaborarmos um DVD com fins de distribuição para as escolas que desejarem.

## Metodologia

A metodologia que adotamos nesta pesquisa é de ênfase qualitativava, como encontrada em Ludke e André (1986), utilizando nesta fase da pesquisa o questionário como instrumento de coleta de informação.

O questionário (Hill & Hill, 2005), foi aplicado a alunos das três séries do Ensino Médio de duas escolas públicas da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro, uma situada na zona oeste e outra na zona norte da cidade do Rio de Janeiro. Sua finalidade foi conhecer o tipo de relação que têm com a física e o português, se já leram alguma poesia, conhecer suas dúvidas quanto às às palavras empregadas no texto, quais delas poderiam ser relacionadas com a física, suas opiniões sobre o poema, uma interpretação induzida da poesia, quem foi Galileu e se identificavam a física contida no poema.

## O questionário respondido pelos alunos do o ensino médio

O questionário foi aplicado a um total de 166 alunos, dos três anos que compõem o ensino médio, com idades médias aproximadamente compatíveis com seus níveis de escolaridade. Mesmo reconhecendo que a diferença geográfica em relação à localização das escolas apresenta diversidades socioeconômicas e culturais, as informações socioeconômicas não são relevantes para este trabalho, nos interessa apenas as informações escolares e culturais.

Como ainda estamos na fase preliminar de análise apresentaremos os dados sem a análise de discurso das questões abertas contidas no questionário, ficaremos restritos às cinco questões primordiais para a identificação da aplicabilidade do poema como material instrucional no ensino médio.

A primeira parte do questionário tem como objetivo obter informações sobre o aluno: ano de escolaridade, sexo para usarmos em análises posteriores , gosto pela física e pelo português, sobre hábito de leitura de poemas. As questões que se seguem pretenderam perceber a interpretação do texto e o quê os alunos entenderam do poema lido.

Em relação às questões que chamamos de perguntas de identificação encontramos as respostas apresentadas na tabela 1. É conveniente esclarecer que nestas perguntas que chamamos de perguntas de identificação não solicitamos nenhuma a forma de justificativa para o fato de gostar ou não das disciplinas.

Tabela 1 - - Questões de identificação quanto às disciplinas

Para nós é interessante neste ponto identificar o número de alunos por ano de ensino para podermos inferir o quão estão valorizadas ou não as duas disciplinas em pauta. O grupo do primeiro ano conta com 62 alunos, o de segundo é composto por 57 estudantes e, por fim, o terceiro tem 47 componentes. Então, desconsiderando os alunos que deixaram a pergunta em branco, para o grupo de primeiro ano podemos dizer que o gosto pela disciplina física está igualmente distribuído entre gostar e não gostar. Uma possibilidade deste tipo de resposta pode ser imputada aos alunos por estarem ainda no início do ano letivo quando questionados e ainda não terem uma idéia clara. O grupo do segundo ano majoritariamente afirma gostar da disciplina, enquanto os terceiranistas afirmam exatamente o contrário. Com relação à disciplina português, a menos do primeiro ano, podemos afirmar que a distribuição das respostas permanece homogênea. Interessante é o número de alunos que já leram poesia. Quase todos. O que pode indicar que mesmo aqueles que não gostam da disciplina português e literatura, cumprem com os pedidos de seus professores e com possíveis deveres.

Em continuação contabilizamos as respostas da pergunta que procurava conhecer a opinião dos alunos sobre o poema. Nesta questão eles podiam marcar quantas respostas quisessem, além disso, poderiam fazer comentários adicionais. Apesar disso muitos dos estudantes marcaram somente uma opção e não houve comentários. As respostas estão apresentadas na tabela 2.

Tabela 2 - - Opinião sobre o poema

Em relação às respostas que visualizamos na tabela acima, somos obrigados a concordar com a resposta majoritária, realmente o poema disponível em anexo, junto ao questionário é bastante longo e interessante. Os alunos que marcaram a opção outra opinião o não a declararam.

Na quarta questão da segunda parte do questionário desejávamos conhecer quais as informações contidas no poema que os alunos perceberiam e nesta pergunta poderiam ser marcadas quantas opções desejassem. As respostas das turmas são as que seguem na tabela 3.

Tabela 3 - - Interpretação induzida do poema

As respostas a esta pergunta que chamamos de interpretação induzida, porque era uma pergunta fechada, com respostas de escolha, indicam que o grupo de jovens questionados, em maioria, compreendeu o poema, sabe a que se refere a história contada.

Quanto às questões que visam identificar se o poema a informava onde Galileu nasceu e onde viveu obtivevemos as respostas apresentadas na tabela 4.

Tabela 4 - - O que conta o poema sobre Galileu

Quando deixamos a interpretação livre, com opções de resposta sim e/ou não, os alunos apresentaram alguma dificuldade em responder corretamente. Talvez este fato se deva à não explicitação da informação, já que no poema encontramos: " olhando o teu retrato, meu velho pisano", , em lugar de Galileu nasceu em Pisa. Enquanto para a segunda resposta houve mais facilidade de encontrar a informação no texto.

A última pergunta que analisamos é composta por um fragmento do poema e visa a a conhecer o que os alunos perceberiam sobre a física explicitamente contida no poema, então, a frase -" na razão directa do quadrado dos tempos", acrescida da questão, faz você lembrar alguma coisa? O quê? foi utilizada e suas respostas estão apresentadas na tabela 5.

Tabela 5 - - Infere se sabem algo sobre este tema da Física

Assusta -nos o número de respostas em branco nesta questão. Porém, isso talvez esteja associado ao uso constante de uma linguagem matemática, representada exclusivamente pelo uso de fórmulas, não havendo assim uma interpretação do seu significado ou mesmo sua releitura em uma linguagem não matemática, com o uso da língua portuguesa de acordo com a norma culta. Como dissemos anteriormente, a parte escrita dos questionários terá sua análise apresentada em uma próxima ocasião .

## Análise e considerações

Não é a maioria dodos alunos que aprecia a disciplina de física, apesar de termos obtido uma relevante quantidade de alunos afirmando o contrário. Mas devemos esclarecer que pelo menos em uma das escolas pesquisadas, em todas as turmas, foi o próprio professor da disciplina quem aplicou o questionário e na outra os alunos foram informados que os aplicadores eram professores de física e isto pode ter interferido nas respostas. Mas a cultura desta disciplina promove uma inclinação à resposta negativa pela maioria das pessoas. CoComo afirma BARBOSA-ALIMA (2001):

"A imagem que os alunos têm em geral desta Ciência é de se tratar de um estudo com enormes e quase invencíveis dificuldades, capaz de derrotar qualquer um. Essa imagem, normalmente passada de geração a geração provoca o surgimento e a manutenção de um medo "cultural" em relação ao seu estudo básico e a um afastamento bastante significativo de pessoas que a desejem estudar em profundidade, com caráter profissional". (p.4).

Ou ainda como comenta Pietrocola (op.cit, p. 120) conforme o ensino de ciências vai evoluindo com o tempo de escolarização, "o prazer é substituído pelo tédio e a aversão". ". Afirmação esta ratificada por nossos números.

Em relação à disciplina de língua portuguesa nossas respostas indicam uma distribuição equilibrada e nos induzem a pensar que os estudantes cumprem as tarefas solicitadas, já que grande parte deles já leram alguma poesia. O que nos sugere que o caminho da poesia pode ser bem aceito para o ensino da física. Ou como afirma Read, citado por Figueiredo (1988, apud Pietrocola, 2004, p. 121).

"Afinal não faço distinção entre ciência e arte, exceto no que diz respeito aos métodos, e julgo que a oposição criada entre elas no passado se deve a uma mesma visão limitada de ambas as atividades. A arte é a repepresentação, a ciência a explicação da mesma realidade."

Analisando a tabela 6 6 poderemos ver que a maioria dos alunos achou o poema muito longo, que de fato é. Mas praticamente o mesmo número deles o categorizou como i interessante. Podemos inferir daí que nossa escolha de texto está correta, já que apesar de longo é interessante. Além disso, nossa pretensão é a de dividi -lo por assunto nos mini-cursos e não de oferecê-lo completo aos estudantes. As demais opiniões, apesar de menos 'votadas', ratificam nossa decisão.

Tabela 6 - - Distribuição de opiniões sobre o poema

Quanto à pergunta que indica a interpretação da poesia foi possível verificarmos que a maioria dos alunos identificou a vida de Galileu no texto, seguido da indicação que o poema conta os trabalhos do cientista. As demais opções não chegam a merecer considerações. Sendo assim, podemos inferir que os estudantes entenderam esta parte do poema, indicando que ele pode ser usado sem grandes dificuldades como material instrucional.

Quanto ao local de nascimento de Galileu os alunos não pareceram tão seguros e sobre onde ele viveu, alguns deles demonstraram que perceberam a informação no texto, mas estes não chegam a um número expressivo.

Quanto à pergunta - A frase "n"na razão directa do quadrado dos tempos" faz você lembrar alguma coisa? O quê? foi significativo o número de alunos que deixaram a questão sem resposta. O que torna nossa interpretação bastante difícil, a não ser o que já havívíamos comentado e repetimos: talvez o uso constante da linguagem matemática, do uso de fórmulas, dificulte uma interpretação do seu significado em uma linguagem não matemática, com o uso da língua portuguesa de acordo com a norma culta.

## Conclusão preliminar

Consideramos nossa conclusão preliminar pelo simples motivo de termos apresentado parte da análise dos questionários. Mas mesmo assim acreditamos que podemos considerar que o poema de Gedeão, apesar de muito longo, mas interessante como afirmaram os estutudantes, é uma escolha acertada para unir Poesia e Física no ensino médio.

- O poema possibilitará introduzir a História da Ciência no ensino médio, estudá -lo interdisciplinarmente com a Literatura, a História e a Geografia, procurando fazer com que os alunos os percebam que a Física sofre influências socioculturais intensas, que podem mesmo chegar a determinar a velocidade, a maneira e o sentido em que ela irá avançar.

## Agradecimentos

Os autores deste trabalho desejam expressar seus agradecimentos à professora Giselle Faur de Castro e ao professor André Luis Tato pela colaboração prestada, através de opiniões,revisões e auxílio na coleta de dados.

## Referências Bibliográficas

BARBOSAALIMA, M. C. E Explique o que tem nessa história Tese (Doutorado)Faculdade de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2001.

GEDEÃO, , A. Obra Completa Lisboa: Relógio D'Água, 2 2004 .

HILL, M. M. & HILL, A. Investigação por questionário 2ª ed., Lisboa: Sílabo 2005 .

LUDKE, M. & ANDRÉ, M. E. D. A Pesquisa em Educação: abordagens qualitativas São Paulo, SP: EPU 1986.

MARCOVITCH, J. Ciência e Arte - imaginário e descoberta, in: C. Matos (org) C Ciência e Arte: imaginário e descoberta, São Paulo: Terceira Margem, 2003 .

MASSARANI, L. & ALMEIDA, C. A Arte e ciência no palco, entrevista concedida por Carlos Palma História, Ciência, Saúde - - Manguinhos, v. 13 (suplemento) p. 233-4-46, 2006 .

PIETROCOLA, M. Curiosidade e imaginação: os caminhos do conhecimento nas ciências, nas artes e no ensino, in: CARVALHO, A. M. P. de Ensino e pesquisa: unindo a pesquisa e a prática, , São Paulo: Pioneira Thomson, 2004.

CARVALHO, R. de < <<António é o meu nome>> > Catálogo da Biblioteca Nacional de Lisboa, Lisboa, 2006.

ZANETIC J. F Física também é cultura Tese (Doutorado em Educação) Faculdade de Educação. USP , São Paulo, 1989 .

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_ \_ Física e literatura: construindo uma ponte entre duas culturas História, Ciências, Saúde - - Manguinhos , volume 13, Suplemento p. 55-70, 2006 a .

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_ \_ Bachelard diurno e noturno e o ensino de física apresentado em Mesa Redonda A Atas do X XVII Simpósio Nacional de Ensino de Física , São Luís, Maranhão 2006 b. Disponível em http://www.sbfisica.org.br r acesso em 17 mai. 2008.

\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

Física e C Cultura Ciência e Cultura, v. 57, n 3, 2005 .

## Anexo (Questioionário)

Você está no: ( ) primeiro ano ( ) segundo ano( ) terceiro ano

Você é: ( ) uma moça ( ) um rapaz

Qual é tua idade? \_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_

Você gosta de física? ( ) sim

( ) não

Você gosta de português? ( ) sim

( ) não

Você já leu eu alguma poesia? ( )sim

( ) não

Poema para Galileo Estou olhando o teu retrato, meu velho pisano, aquele teu retrato que toda a gente conhece, e,

em que a tua bela cabeça desabrocha e floresce sobre um modesto cabeção de pano. Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da tua velha Florença. (Não, não, Galileo! Eu não disse Santo Ofício. Disse Galeria dos Ofícios.) Aquele retrato da Galeria dos Ofícios da requintada Florença.

Lembras -te? A Ponte Vecchio, a Loggia, a Piazza della Signoria… Eu sei… eu sei… As margens doces do Arno às horas pardas da melancolia. Ai que saudade, Galileo Galilei!

Olha. Sabes? Lá em Florença está guardado um dedo da tua mão direita num relicário. Palavra de honra que está! As voltas que o mundo dá! Se calhar até há gente que pensa que entraste no calendário.

Eu queria agradecer-r-te, Galileo, a inteligência das coisas que me deste. Eu, e quantos milhões de homens como eu a quem tu esclareceste, ia jurar- r- que disparate, Galileo! -e jurava a pés juntos e apostava a cabeça sem a menor hesitação-oque os corpos caem tanto mais depressa quanto mais pesados são.

Pois não é evidente, Galileo? Quem acredita que um penedo caia com a mesma rapidez que um botão de camisa ou que um seixo da praia? Esta era a inteligência que Deus nos deu.

Estava ag ora a lembrar-r-m-me, Galileo, daquela cena em que tu estavas sentado num escabelo e tinhas à tua frente um friso de homens doutos, hirtos, de toga e de capelo a olharem -te severamente. Estavam todos a ralhar contigo, que parecia impossível que um homem da tua idade e da tua condição, se tivesse tornado num perigo para a Humanidade e para a Civilização.

Tu, embaraçado e comprometido, em silêncio mordiscavas os lábios,

e percorrias, cheio de piedade, os rostos impenetráveis daquela fila de sábios.

Teus olhos habituados à observação dos satélites e das estrelas, desceram lá das suas alturas e poisaram, como aves aturdidas - parece -m-me que estou a vê-l-las -, nas faces grávidas daquelas reverendíssimas criaturas. E tu foste dizendo a tudo que sim, que sim senhor, que era tudo tal qual conforme suas eminências desejavam, e dirias que o Sol era quadrado e a Lua pentagonal e que os astros bailavam e entoavam à meia -noite louvores à harmonia universal. E juraste que nunca mais repetirias nem a ti mesmo, na própria intimidade do teu pensamento, livre e calma, aquelas abomináveis heresias que ensinavas e descrevias para eterna perdição da tua alma. Ai Galileo!

Mal sabem os teus doutos juízes, grandes senhores deste pequeno mundo que assim mesmo, empertitigados nos seus cadeirões de braços, andavam a correr e a rolar pelos espaços à razão de trinta quilómetros por segundo.

Tu é que sabias, Galileo Galilei.

Por isso eram teus olhos misericordiosos, por isso era teu coração cheio de piedade, piedade pelos homens que não precisam de sofrer, homens ditosos a quem Deus dispensou de buscar a verdade. Por isso estoicamente, mansamente,

resististe a todas as torturas,

a todas as angústias, a todos os contratempos, enquanto eles, do alto incessível das suas alturas ,

foram caindo,

caindo,

caindo,

caindo,

caindo sempre,

e sempre,

ininterruptamente,

na razão directa do quadrado dos tempos.

- 1. Você achou este poema? (marque quantas opções quiser) ( ) muito longo ( ) bonito ( ) chato ( ) interessante ( ) você já o conhecia ( )gostou ( ) não gostou ( ) outra opinião. Qual?
- 2. Este poema conta... (marque quantas opções quiser) ( ) a vida de Galileu ( ) os trabalhos de Galileu ( ) a história da Lua ( ) fala sobre satélites e cometas ( ) conta uma história qualquer inventada
- 3. Quem você acha que foi Galileu?
- 4. O poema te conta onde ele nasceu? ( ) sim ( ) não
- 5. O poema te conta onde ele viveu? ( ) sim ( ) não
- 6. Você acredita que ele teve alguma importância na física? Qual?
- 7. A frase "na razão directa do quadrado dos tempos" faz você lembrbrar alguma coisa? O quê?
- 8. Se você quiser fazer mais algum comentário utilize o verso das folhas.

Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.