O CASO ''PLUTÃO" E A NATUREZA DA CIÊNCIA
Vanessa Nóbrega De Albuquerque, Cristina Leite
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XIX
- Ano
- 2011
- Data
- 01/02/2011
- Linha de pesquisa
- Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## r O CASO 'PLUTÃO' E A NATUREZA DA CIÊNCIA
## Vanessa Nóbrega de Albuquerque 1 , Cristina Leite 2
1 Mestranda em Ensino de Ciências - Pós-Graduação Interunidades- USP, vanessan@usp.br 2 Instituto de Física da USP, crismilk@if.usp.br
## Resumo
Em 2006 o astro Plutão que até então era definido como 'planeta' teve sua classificação alterada para a recém-criada nomenclatura 'planeta anão'. Esta mudança teve grande repercussão na mídia, foi e ainda é alvo de polêmica. Considerando que o entendimento sobre a complexidade que envolve a definição dos corpos celestes poderia auxiliar os alunos a perceberem a ciência como empreendimento histórico, social, coletivo, não linear e não neutro, apresenta-se neste artigo um levantamento histórico dos episódios que envolveram as várias definições para planeta, comentando sobre as primeiras observações do céu realizadas por nossos ancestrais, até chegar às resoluções que definiram quais seriam os atributos de um 'planeta' na 26ª Assembleia Geral da União Astronômica Internacional. E de modo a contribuir com subsídios para que os professores realizem discussões sobre a natureza da ciência com seus alunos, mediada por temas de Astronomia, explicita-se quais elementos da natureza da ciência ficam evidentes ao se estudar tais episódios. Este estudo pode mediar discussões sobre a complexidade que envolve a investigação sobre o céu, problematizar a relação ciência e sociedade neste contexto e trazer elementos que permitam uma reflexão sobre caráter dinâmico e transitório do conhecimento científico.
Palavras-chave : Natureza da Ciência, Ensino de Física, Astronomia, Plutão
## Introdução
Há muitas divergências entre estudiosos da filosofia da ciência no que diz respeito à caracterização do fazer científico. No entanto, existem alguns elementos que são recorrentes da literatura contemporânea que hoje fundamentam o que significa a ideia de ciência. Entre tais atributos, considera-se o caráter provisório desse conhecimento, que não se origina por simples observação, mas possui uma carga teórica associada à sua construção, sofre influências do contexto social e cultural no qual está inserido e é produzido por atos criativos da imaginação aliado aos métodos da investigação científica (CLEMISON, 1990, apud CACHAPUZ et al., 2005, p.74, LEDERMAN et al., 2002, p. 499)
Algumas pesquisas apontam que muitos alunos do Ensino Básico formamse com uma visão distante ou deformada da natureza da ciência, considerando as características já mencionadas. (KÖHNLEIN; PEDUZZI, 2002; SOUZA et al, 2007; LUZ; LEAL, 2007; FERNANDES; FILGUEIRA, 2009). A partir disto, defende-se a importância de promover discussões sobre a natureza da ciência com alunos do Ensino Básico. Acredita-se que os alunos teriam uma postura mais crítica e menos dogmática em relação a este saber (GAMA; ZANETIC, 2009; WESTPHAL; PINHEIRO; PINHEIRO, 2005; LOPES; JAFELICE, 2009) e poderiam estabelecer uma relação mais significativa com este conhecimento. (CACHAPUZ et al., 2005; WETPHAL; PINHEIRO; TEIXEIRA, 2005; LOSS; MACHADO, 2005; SANTILLI, 2000)
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30 de janeiro a 04 de fevereiro de 2011
Para se promover tais discussões no ensino, propõe-se, neste artigo, o uso de temas da astronomia. Um dos motivos desta escolha é a contemporaneidade de alguns de seus temas. Trata-se de uma área científica em plena expansão e com grande repercussão na mídia, o que permite que os alunos não só verifiquem, mas também vivenciem a transitoriedade do conhecimento científico.
Um episódio recente foi a mudança da categorização do 'ex-planeta' Plutão. Esta mudança teve grande repercussão na mídia, foi e ainda é alvo de polêmica. Ainda há divergências entre os astrônomos sobre a aceitação ou não de tal mudança, decida na XXVIth Assembléia Geral da União Astronômica Internacional, que ocorreu entre 14 e 25 agosto de 2006, em Praga, na República Checa. (MONTES; COSTA, 2006)
Já que os alunos têm observado estas mudanças, acompanhando as alterações dos livros didáticos, transitando entre as concepções antigas sobre o planeta e as novas imagens provindas da recente categorização, acredita-se que este tema da astronomia, inspirando-nos no caso 'Plutão', pode ser um tema problematizador interessante para se discutir a natureza da Ciência.
Além disso, o assunto vai ao encontro das Orientações Educacionais Complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN+ - Ensino Médio) que sugerem o tema 'Universo, Terra e Vida' como um dos temas estruturadores para organizar o ensino de Física.
Confrontar-se e especular sobre os enigmas da vida e do universo é parte das preocupações freqüentemente presentes entre jovens nessa faixa etária. Respondendo a esse interesse, é importante propiciar-lhes uma visão cosmológica das ciências que lhes permita situarem-se na escala de tempo do universo, apresentando-lhes os instrumentos para acompanhar e admirar, por exemplo, as conquistas espaciais, as notícias sobre as novas descobertas do telescópio espacial Hubble, indagar sobre a origem do universo ou o mundo fascinante das estrelas, e as condições para a existência da vida, como a entendemos no planeta Terra. (PCN+, p.30).
Dadas estas considerações, com a expectativa de contribuir com subsídios para que os professores realizem discussões sobre a natureza da ciência com seus alunos, apresenta-se um breve relato histórico sobre a construção da definição 'planeta' e sobre o episódio Plutão, explicitando as características da natureza da ciência que podem ser trabalhadas no ensino através da promoção de tal discussão com os estudantes.
## Influência do contexto social e cultural nas primeiras observações do céu
A relação do homem com a natureza ocorreu por vários motivos. Kneller (1980) e Zanetic (1995) conjecturam alguns deles. Acreditam que de um lado estariam os mistérios e a paixão que envolveu as descobertas de um mundo novo, de outro, a necessidade de se conhecer a natureza por uma questão de sobrevivência. Acredita-se que as observações do céu foram instigadas por estas mesmas motivações. (FARES et al, 2004)
Diferentes civilizações, cada uma a sua maneira, teriam observado o céu para localização (FARES et al, 2004), controle da passagem do tempo ou das condições climáticas (ZANETIC, 1995; WEINTRAUB, 2007; PAIXÃO, 2008), conhecimento importante para o desenvolvimento da agricultura ou retorno à casa após a caça, exemplos de atividades realizadas para a própria sobrevivência.
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Conforme Martins (1990) e Weintraub (2007), ao observarem o céu, o homem, desde a Antiguidade, já havia percebido algumas regularidades: o nascer e o por do Sol, as diferentes fases da Lua, o aparecimento das constelações. As constelações foram mapeadas de maneiras distintas pelas diferentes culturas:
Em lados opostos do mundo, os astrônomos maias e babilônicos, independentemente, organizaram e nomearam estes agrupamentos, principalmente utilizando imagens de animais. Os maias incluíram a cascavel, uma tartaruga, três pássaros, um sapo, um porco, um escorpião, um peixe-cobra, um bastão, um esqueleto, e uma jaguatirica, enquanto os babilônicos escolheram um carneiro, um touro, a figura de gêmeos, um caranguejo, um leão, uma virgem, uma balança, um escorpião, um arqueiro, uma cabra, um aquário, e um peixe. Os gregos passaram a chamar esse bando que habitavam o céu por criaturas do zodíaco e as figuras imaginárias formadas de constelação do zodíaco. (WEINTRAUB, 2007, p.9, tradução nossa)
Afonso (2006) nos conta sobre alguns registros de constelações nomeadas por comunidades indígenas brasileiras. As principais constelações indígenas da etnia tupi-guarani, grupos encontrados em todas as partes do Brasil, foram localizadas na Via Láctea. Conforme expõe o pesquisador, encontrou-se mais de 100 constelações nomeadas por estas tribos, que ao serem indagada sobre quantas constelações existem, afirmam que cada animal terrestre tem seu correspondente celeste, em forma de constelação.
Pode-se inferir, a partir das descrições dos pesquisadores mencionados, que independentemente da forma como cada civilização registrou suas observações, todas buscavam utilizar esta organização e sistematização do conhecimento como meio para prever os fenômenos relacionados ao seu cotidiano.
A partir da articulação entre os fenômenos celestes e os do cotidiano, os egípcios, por exemplo, conseguiram, através de observações da posição da estrela Sirus, prever as cheias do rio Nilo. (ZANETIC, 1995; PAIXÃO, 2008). Já os indígenas tupis-guaranis utilizavam e ainda utilizam observações das fases da Lua para escolher os períodos de caça, plantio e corte da madeira, além de associarem a Lua e as marés às estações do ano, conhecimento importante para a pesca artesanal (AFONSO, 2006).
Desta forma, percebe-se que no decorrer da história das constelações há o reflexo direto da busca humana pelo conhecimento do seu meio físico-natural, necessário à sua sobrevivência, sendo esta busca marcante em toda e qualquer organização social. Assim, da mesma forma que vimos os povos europeus mapeando o céu para resolverem seus problemas diários, vamos também visualizar isto em outros grupos étnicos. (FARES et al, 2004, p. 82-83)
A análise destes registros, que apresentam como as civilizações organizaram seu conhecimento sobre o céu de diferentes maneiras, representando as constelações com simbologias diversas, pode permitir uma primeira discussão sobre a influência de fatores culturais e sociais na organização do conhecimento científico.
E o estudo destes primeiros registros da observação do céu, nos leva a discussão sobre a primeira definição para planeta: 'as estrelas errantes'.
Conforme Weintraub (2007) e Martins (1990), já na antiguidade, enquanto nossos ancestrais faziam as observações do movimento do céu, perceberam que havia pontos de luz, parecidos com as estrelas fixas, que se moviam entre estas estrelas. Hoje sabemos que se tratava da observação de alguns planetas: Mercúrio, Venus, Marte, Júpiter, Saturno. (TANCREDI, 2007; MELLO, 2010). Na época, eles
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foram chamados de 'estrelas errantes', uma primeira definição para planeta. E conforme nos aponta Zanetic (1995) e Martins (1990), os astrônomos observaram que o movimento dos planetas não parecia circular nem uniforme visto da Terra, ao contrário dos movimentos das estrelas.
Em seu lento movimento em relação à esfera de estrelas, os planetas, em certos pontos, invertem o sentido de seu movimento ('retrogressão'), depois retornam o movimento normal ('direto'). (MARTINS, 1990, p. 46)
Assim, conforme Martins (1990), alguns problemas se apresentavam na Antiguidade: Como descrever matematicamente estes movimentos? Como prever a posição dos planetas? Como explicar esses movimentos irregulares?
Para compreender como se resolveu tais questões, apresenta-se a seguir algumas informações sobre os modelos de universo de Aristóteles a Copérnico, utilizados para descrever o céu daqueles tempos.
## De Aristóteles a Copérnico
Aristóteles assumia que os corpos celestes eram perfeitos e, portanto, descreviam movimentos circulares, já que os gregos consideravam o círculo a forma bidimensional mais perfeita (WEINTRAUB, 2007). Também haveria a crença que estes corpos celestes giravam em torno de uma Terra imóvel (MARTINS, 1990; ZANETIC, 1995), centro do universo (MARTINS, 1990; TANCREDI, 2007).
Nos séculos seguintes, segundo Weintraub (2007), muitos astrônomos, como Aristarco, Hiparco, Ptolomeu, construíram modelos matemáticos para a versão geocêntrica do universo, que teriam permitido, aliado a outros estudos e observações, previsões cada vez mais rigorosas dos movimentos dos corpos celestes. No entanto, Zanetic (1995) nos chama a atenção de que o modelo não conseguiu resolver uma série de questões, como oferecer uma explicação convincente sobre o movimento retrógrado dos planetas ou explicar a ordem de afastamento dos planetas com relação ao Sol. Mas, utilizando-se de diferentes artifícios geométricos para tentar driblar tais dificuldades, esta visão de mundo se estendeu por mais de um milênio e meio (ZANETIC, 1995; WEINTRAUB, 2007).
Esta concepção teria se fortificado não só pelo sucesso de algumas previsões baseadas nos modelos matemáticos do universo geocêntrico, destacandose o construído por Ptolomeu, um trabalho que sintetizou a astronomia grega daquele período (ZANETIC, 1995), mas também, porque os valores do modelo geocêntrico iam ao encontro das crenças do cristianismo (WEINTRAUB, 2007).
Neste contexto, Copérnico, em torno de 1510, teria redigido sua primeira apresentação pública do seu sistema heliocêntrico (MARTINS,1990; ZANETIC, 1995), o Commentariolus , onde apresentou suas sete exigências ou axiomas revolucionários:
- 1. não existe um centro único de todos os orbes celestes ou esferas.
- 2. O centro da Terra não é o centro do mundo, mas apenas o da gravidade e do orbe lunar.
- 3. Todos os orbes giram em torno do Sol, como se ele estivesse no meio de todos; portanto, o centro do mundo está perto do Sol.
- 4. A razão entre a distância do Sol à Terra e à altura do firmamento é menor do que a razão entre o raio da Terra e a sua distância ao Sol; e com muito mais razão esta é insensível confrontada com a altura do firmamento.
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- 5. Qualquer movimento aparente no firmamento, não pertence a ele, mas à Terra. Assim a Terra, com os elementos adjacentes, gira em torno dos seus pólos invariáveis em um movimento diário, ficando permanentemente imóveis o firmamento e o último céu.
- 6. Qualquer movimento aparente do Sol não é causado por ele mas pela Terra e pelo nosso orbe, com o qual giramos em torno do Sol como qualquer outro planeta. Assim, a Terra é transportada por vários movimentos.
- 7. Os movimentos aparentes de retrogressão e progressão dos errantes não pertencem a eles mas à Terra. Apenas o movimento desta é suficiente para explicar muitas das irregularidades aparentes no céu. (COPÉRNICO, 1990, p. 114-117)
Segundo Zanetic (1995), com o modelo heliocêntrico foram resolvidos vários problemas que levaram o geocentrismo à crise. Martins (1990) aponta que a maior contribuição de Copérnico foi sua tentativa de explicar as observações de céu a partir de uma Terra em movimento e elaborar uma matemática detalhada para tais observações. Porém, conforme estes pesquisadores, muitas argumentações, discussões e trabalhos foram feitos por outros pensadores, após a morte de Copérnico, para que suas ideias viessem a suplantar o sistema aristotélicoptolomaico.
A vitória da revolução copernicana, de qualquer forma, só ocorreu após a articulação do paradigma de Copérnico realizada por figuras do porte de Giordano Bruno, Galileu, Kepler, Isacc Newton e muitos outros que, dos mais diferentes modos deram consistência a ideias e conceitos ainda frágeis, forjaram uma nova metodologia, resolveram problemas velhos e novos, enfim, começaram a construção de um mundo novo. (ZANETIC, 1995, p. 67)
Estes episódios, sobre a transição do modelo geocêntrico para o heliocêntrico, trazem alguns elementos que podem mediar um retorno à discussão sobre a natureza da ciência. Pode-se destacar, por exemplo, que este processo não foi linear e obra de gênios isolados, mas que envolveu a contribuição de inúmeros cientistas ao longo da história.
Muito mais haveria a dizer sobre este fantástico episódio da história da física. Porém, uma das lições que devemos reter do que acima foi apresentado é que a construção do conhecimento não percorre trajetórias suaves, lineares e sem choques e contradições. (ZANETIC, 1995, p.65).
## O encontro de mais objetos no céu
Após as muitas idas e vindas e divergências envolvendo os modelos de Universo, Weintraub (2007) afirma que em 1650 os astrônomos já haviam se convencidos de que a Terra não era o centro do universo, e sim mais uma planeta de onze que compunham o universo: seis deles orbitando em torno do Sol (Mercúrio, Venus, Terra, Marte, Júpiter e Saturno); um em torno da Terra, a Lua; e quatro em torno de Júpiter, os satélites de Júpiter.
A descoberta de mais um planeta, segundo Weintraub (2007) e Tancredi (2007), ocorreu em 1781, quando o astrônomo Willian Herschel observou Urano. A princípio, Herschel acreditou que teria descoberto um novo cometa, mas após novas observações e medições realizadas pela a comunidade científica, Urano foi declarado planeta.
Aproximadamente 20 anos mais tarde, Tancredi (2007) e Weintraub (2007) narram que o astrônomo Giuseppe Piazzi observou Ceres, localizado entre Marte e Júpiter. A princípio, Ceres foi considerado planeta. No entanto, Weintraub (2007), Tancredi (2007) e Mello (2010) informam que quando outros corpos celestes similares a Ceres foram encontrados na mesma região, o astrônomo Herschel sugeriu uma nova nomenclatura para estes objetos: asteroides. Porém, de acordo
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com Weintraub (2007), muitos astrônomos discordaram desta proposta, pois consideravam que estes novos objetos eram planetas. Mas, com o aumento do número de corpos celestes encontrados nesta região, os anuários astronômicos, pouco a pouco, passaram a utilizar a nova denominação proposta por Herschel (MELLO, 2010). Weintraub (2007) afirma que a descoberta de Netuno, em 1846, também pode ter influenciado a aceitação da nova nomenclatura.
Netuno foi localizado a partir de previsões baseadas na análise dinâmica da órbita de Urano. Muitos astrônomos teriam contribuído com previsões relativas à localização deste astro (WEINTRAUB, 2007) até que Johanm Gottfried Galle o observou pela primeira vez, localizado a menos de um grau da posição prevista pelos cálculos teóricos do astrônomo francês Urbain Le Verrier. (WENTRAUB, 2007; TANCREDI, 2007)
Após a observação de Netuno, muitos astrônomos se animaram pela busca de novos planetas, através da análise da órbita de Netuno (WEINTRAUB, 2007). Iniciou-se uma nova caçada ao próximo Planeta X.
## Em busca do Planeta X: Plutão
Segundo Stern; Mitton (1998) e Weintraub (2007), Percival Lowell foi um dos personagens que se destacou na busca pelo Planeta X, além do astrônomo Willian H. Pickering, que fizeram, independentemente, várias previsões da possível localização do planeta. No entanto, Lowell teria sofrido um derrame cerebral e falecido em novembro de 1916, sem localizar Plutão (STERN; MITTON, 1998), enquanto Pickering continuou as buscas, também sem sucesso (WEINTRAUB, 2007). Contudo, conforme Stern; Mitton (1998), os assistentes de Lowell, dirigidos por Vesto M. Slipher, teriam continuado às pesquisas por ele iniciadas.
Stern; Mitton (1998) nos contam que em 1925, um familiar de Percival contribuiu financeiramente para a compra de um novo telescópio para o Lowell Observatório, em prol da busca pelo Planeta X, obcessão de Percival. Com isso, o diretor Sliper, em 1928, próximo à chegada do novo telescópio, contratou um novo técnico para auxiliar nas pesquisas, Clyde Tombaugh, que observou Plutão pela primeira vez em 1930. (STERN; MITTON, 1998; WEINTRAUB, 2007, TANCREDI, 2007, MELLO, 2010)
A procura pelo Planeta X por longas décadas foi impelida por duas motivações - uma científica e outra mais instintiva. Primeiro, a existência de numerosas evidencias observacionais no começo daquele século de que algum objeto invisível estava arrastando Urano e Netuno, causando-lhes um curso no céu diferente das previsões. Segundo, havia uma atração intrínseca - a atração de se encontrar um novo mundo, de se fazer uma marca nos anais imortais de descobertas, inspirados no velho moinho de Quixote. (STERN; MITTON, 1998, p.9, tradução nossa)
## Plutão: mais um planeta no céu?
A categoria planeta para Plutão sempre foi questionada. Segundo Weintraub (2007), a massa de Plutão seria menor do que o previsto por Lowell e Pickering. Tancredi (2007) afirma que a pequena dimensão de Plutão e a inclinação de sua órbita, muito maior em relação ao plano onde se encontram os demais planetas, também eram motivos para colocarem a classificação atribuída a este corpo celeste em dúvida.
Em 1978, James Christy, descobriu que Plutão tinha uma lua, Caronte. Mello (2010) relata que o estudo do movimento de Caronte permitiu determinar o diâmetro
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de Plutão e a percepção de que Plutão seria maior que asteroides, mas menor que a Lua. E em 1999, ainda segundo Mello (2010), teria ocorrido uma primeira tentativa de mudar o status de Plutão, sem sucesso, pois julgaram que tal decisão não prejudicava ninguém e evitava confusão entre os estudantes e professores de todo mundo.
No entanto, desde 1992, um número cada vez maior de corpos celestes foi localizado na região após o planeta Netuno, região conhecida como Kuiper Belt, com órbitas muito similares a de Plutão. Em 2005, Eris foi localizado, um KBO (objeto da região do Kuiper Belt ) com diâmetro maior do que o de Plutão. E conforme ressalta Mello (2010), a história de Ceres se repetiu: ou Plutão tornava um dos maiores asteroides da região do Kuiper Belt ou Ceres e Eris também deveriam ser considerados planetas.
Para pensar nestas questões, Tancredi (2007) relata que a União Astronômica Internacional (UAI) formou uma comissão que elaborou uma proposta com critérios que caracterizariam um planeta. A proposta foi apresentada e aceita na 26ª Assembleia Geral da UAI, que ocorreu em Agosto de 2006. (UNIÃO ASTRONOMICA INTERNACIONAL, 2006)
## A reunião da União Astronômica Internacional (UAI)
Conforme registros da UAI, de três em três anos, eles promovem uma Assembleia Geral que inclui reunião de cunho administrativo e um programa científico. A 26 Assembleia Geral da UAI ocorreu em 2006, e entre várias ° discussões, foram decididas seis resoluções. Acreditamos que duas delas nos ajudam a entender a nova categoria de Plutão: Resolução 5: Definição de planeta e Resolução 6: Definição dos objetos da classe de Plutão. (UNIÃO ASTRONOMICA INTERNACIONAL, 2006)
Os membros da UAI na Assembléia Geral de 2006 concordaram que um planeta é definido como um corpo celeste que (a) está em órbita ao redor do Sol, (b) tem massa suficiente para sua auto-gravidade supere as forças de corpo rígido de modo que ele assume uma forma de acordo com o equilíbrio hidrostático (aproximadamente redondo), e (c) limpe a vizinhança em torno de sua órbita.
Isto significa que o Sistema Solar consiste de oito 'planetas' Mercúrio, Vênus, Terra, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno. Uma nova categoria de objetos chamados 'planeta anão' também foi decidida. Concordou-se que 'planeta' e 'planeta anão' são duas categorias distintas. Os primeiros membros da categoria 'planeta anão' são Ceres, Plutão e 2003 UB313 (nome temporário). (UNIÃO ASTRONOMICA INTERNACIONAL, 2006)
Contudo, a discussão sobre a definição de planeta ainda não acabou.
Montes; Costa (2006), ao compilarem as informações do boletim informativo da Astronomia On-line, enumeram uma série de críticas que Alan Stern, pesquisador que chefia a missão New Horizons da NASA, com destino Plutão, apresentou para nova definição de planeta.
Ele diz que apenas quatro dos oito planetas mencionados na definição da UAI na realidade encaixam nos critérios da definição - a Terra, Marte, Júpiter e Netuno, não. Isto é devido à definição estipular que para ser um planeta, um objeto tem que ter "limpo" a sua vizinhança em torno da sua órbita. Mas os arredores orbitais da Terra estão cheios de milhares de asteroides, diz Stern. (...) Stern é também crítico do fato de apenas os astrônomos presentes poderem ter votado, que ocorreu no fim da assembleia de duas semanas. Não foi permitido o voto por e-mail na decisão - foi um levantar de mãos - e isso significa que menos de 5% dos quase 9,000 membros da UAI realmente votaram. (MONTES; COSTA, 2006)
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Apesar de discussões desta natureza, Mello (2010) afirma que seria conveniente acatar a orientação representada pela resolução aprovada pela UAI para que um padrão comum seja adotado pelos livros didáticos e ensinado aos mais jovens.
Para entendermos e acompanharmos as futuras decisões envolvendo a organização do conhecimento sobre o céu cabe a nós compreendermos esta história e acompanharmos os próximos acontecimentos.
## O caso Plutão e a natureza da ciência
Alguns episódios envolvendo a investigação sobre o céu foram sugeridos neste texto como meio para se iniciar discussões sobre a natureza da ciência no ensino, pois acreditamos que eles evidenciam algumas características que ajudaria a promover uma visão mais abrangente do trabalho científico.
Entre estes elementos destaca-se uma visão histórica e menos dogmática da ciência, já que alguns dos problemas e dificuldades enfrentados pelos cientistas foram apresentados, evitando-se estudar apenas os conhecimentos já elaborados.
- O estudo sobre a organização e nomeação das estrelas de diferentes maneiras, de acordo com a cultura de cada povo, pode evidenciar a influência de fatores culturais e sociais na organização do conhecimento científico. Além disso, os episódios sobre a localização de planetas baseados em modelos teóricos podem mostrar o papel das hipóteses e das teorias como orientadoras da investigação, destacando a não neutralidade das observações.
Os conflitos entre os modelos de universo geocêntrico e heliocêntrico ou as polêmicas relacionadas à definição de planeta podem mostrar que a ciência não se constrói por um processo linear e cumulativo, mas envolve muitos conflitos e divergências.
- E finalmente, perceber o trabalho cooperativo dos cientistas ao longo dos séculos, através da organização das observações do céu, construção de modelos ou previsões das posições de possíveis planetas, pode promover uma visão menos individualista e elitista da ciência, evitando-se a crença de uma ciência construída por gênios isolados.
Tais proposições revelam o potencial do uso desses episódios no ensino, com o intuito de promover um maior entendimento da natureza da ciência. Acreditamos que levar tal discussão para a sala de aula ajudaria a evitar uma concepção aproblemática, ahistórica, dogmática e fechada da ciência, relacionada ao ensino como uma retórica de conclusões. Além da possibilidade de se evitar uma visão acumulativa, no qual o crescimento do conhecimento científico é visto como um processo linear; uma ideia individualista e elitista do trabalho científico, na qual a ciência é vista como obra de gênios isolados e uma concepção socialmente neutra e descontextualizada da ciência. Visões que Pérez et al (2001) sugere que devem ser evitadas para uma melhor compreensão da forma como se constroem e produzem os conhecimentos científicos.
- A expectativa é que o artigo possa contribuir com subsídios para que os professores possam realizar discussões sobre a natureza da ciência com seus alunos mediados por temas de Astronomia. Espera-se que uma maior compreensão do fazer científico torne os estudantes menos dogmáticos e mais críticos em relação
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a este saber, percebendo a ciência como mais uma forma de interpretação do mundo.
## Referências
AFONSO, G. Mitos e Estações no céu Tupi-Guarani. Scientific American Brasil , edição 45, fev. 2006. Disponível em: < http://www2.uol.com.br/sciam/reportagens/mitos\_e\_estacees\_no\_ceu\_tupi-guarani.html > Acesso em: 15 set, 2010.
BRASIL, Secretaria de Educação Média e Tecnológica. PCN+ Ensino Médio: Orientações Educacionais complementares aos Parâmetros Curriculares Nacionais. Linguagens, códigos e suas tecnologias . Brasília: Ministério da Educação/Secretaria de Educação Média e Tecnológica, 2002.
CACHAPUZ, A.; GIL-PÉRZ, D., CARVALHO, A.M.P.; PRAIA, J.; AMPARO, V. A necessária renovação no ensino das ciências . São Paulo: Cortez, 2005
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