FÍSICA NA HISTÓRIA: UM PROJETO PEDAGÓGICO CONCRETO DE INSERÇÃO DE UM CURSO HISTÓRICO-FILOSÓFICO DE FÍSICA NO ENSINO MÉDIO
João Ricardo Quintal, Andréia Guerra
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XIX
- Ano
- 2011
- Data
- 01/02/2011
- Linha de pesquisa
- Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## FÍSICA NA HISTÓRIA: UM PROJETO PEDAGÓGICO CONCRETO DE INSERÇÃO DE UM CURSO HISTÓRICO-FILOSÓFICO DE FÍSICA NO ENSINO MÉDIO
## João Ricardo Quintal , Andréia Guerra 1 2
1 Colégio Pedro II, joaoricardoquintal@yahoo.com.br
2 CEFET-RJ/Programa de Pós-graduação em Ensino de Ciências e Matemática, amoraes@cefet-rj.br
## Resumo
O presente artigo irá descrever uma metodologia concreta de inserção da História da Ciência no ensino, particularizando para a educação básica. Para tal fim, os autores elaboraram o projeto 'FÍSICA NA HISTÓRIA', que foi parte integrante de uma dissertação de mestrado em ensino de Ciências e Matemática, no CEFET-RJ, concluída em julho de 2008. A sua proposta foi a de realizar uma pesquisa em ensino sobre a relevância da implementação da História da Ciência, como agente influenciador no processo de ensinoaprendizagem dos conteúdos do eletromagnetismo, em nível de Ensino Médio. O curso, de caráter histórico-filosófico-sociológico, utilizou a História da Ciência como eixo condutor e apresentou a evolução do pensamento científico no estudo do eletromagnetismo, desde as principais descobertas sobre os fenômenos elétricos e magnéticos da Antiguidade Clássica até o conceito de campo criado por Maxwell em meados do século XIX. Ao longo do projeto, os resultados da pesquisa sobre a inserção da História da Ciência foram relatados e avaliados através de uma abordagem qualitativa e quantitativa, avaliando o seu impacto sobre os alunos. Entretanto, para o momento, devido à grande extensão de assuntos tratados na dissertação, houve a necessidade de se fazer um recorte focando em partes específicas dessa pesquisa. Então, construiu-se o presente artigo, oriundo do desejo dos autores de transmitirem aos professores-leitores uma exemplificação de uma estrutura de curso histórico-filosófico de física realizável na prática, sem o pragmatismo acadêmico, pois os autores, além de serem pesquisadores na área de ensino, também são professores de física e aplicaram o método nas suas turmas, contrastando esse método com mais de uma década de aplicação de um curso tradicional.
Palavras-chave : história da ciência, curso histórico-filosófico, eletromagnetismo, ensino de física.
## Introdução
A motivação inicial para a construção de um projeto pedagógico para um curso de Física de nível médio veio do desejo de buscar caminhos que propiciassem uma mudança na impressão negativa que a física, muitas vezes, causa nos alunos. Acreditando que a contextualização da ciência poderia ser um fator de melhora no desempenho e na assimilação da física por parte dos alunos, os autores criaram o projeto pedagógico 'FÍSICA NA HISTÓRIA'. A construção e avaliação do referido projeto teve o propósito de analisar a relevância da inserção da história da ciência como agente influenciador no processo de ensino-aprendizagem dos conteúdos do eletromagnetismo no ensino médio [1].
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A elaboração do projeto foi norteada pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN's) de Física para o Ensino Médio [2] e esteve de acordo com o projeto político pedagógico (PPP) vigente da instituição. A aplicação ocorreu em três turmas da terceira série do Ensino Médio de um Colégio pertencente à rede Pública Federal de Ensino do Rio de Janeiro. Nesse estabelecimento de ensino, a disciplina de física para a 3ª série é composta de quatro tempos semanais, de quarenta e cinco minutos cada, distribuídos ao longo de três trimestres. O conteúdo de física para essa série (em 2007) foi organizado pelo professor, obedecendo à divisão de dois tempos semanais para a eletricidade e eletromagnetismo e os outros dois para óptica e ondas. Junto aos alunos, ao longo do curso, foram aplicados vários mecanismos qualitativos [3] e quantitativos de avaliação, cujos resultados visavam investigar a relevância da inserção da História da Ciência como agente influenciador no processo ensino-aprendizagem e o seu impacto sobre os alunos no que se refere à verificação de uma Aprendizagem Significativa da Ciência [1]. Para isso, foi implementado um curso que levantou os principais aspectos histórico-filosóficos inerentes ao processo do desenvolvimento do eletromagnetismo [4].
O curso foi composto de várias partes: aulas expositivas sobre conteúdos de eletricidade e eletromagnetismo, demonstrações de experiências históricas confeccionadas pelo professor, realização de experiências históricas executadas pelos alunos, debate histórico com a turma e exercícios. Os exercícios foram elaborados a partir de questões de vestibular, de questões históricas e outros a partir das conclusões das experiências realizadas em sala de aula [1].
Para dar suporte didático ao curso proposto, o professor adotou a estratégia de construção de textos históricos que apresentassem a evolução do pensamento científico no estudo do eletromagnetismo, desde as principais descobertas sobre os fenômenos elétricos e magnéticos da Antiguidade Clássica até o conceito de campo criado por Maxwell em meados do século XIX [5]. O texto foi construído de forma diferente da encontrada nos mais diversos livros didáticos, em que usualmente apenas são destacados os resultados científicos, sem uma conexão com o contexto histórico-social da época das descobertas. Os conteúdos do eletromagnetismo foram trabalhados de forma contextualizada, no sentido de levantar questões internas e externas ao processo de produção científica [6]. Estas questões levaram ao ambiente dos alunos as inquietações filosóficas que permearam as investigações científicas sobre a natureza, num espaço e tempo específicos da história. As discussões acerca do tema foram conduzidas focando o processo evolutivo das principais teorias eletromagnéticas [7].
## Descrição do conteúdo do curso histórico-filosófico
O material didático foi dividido em dez módulos, os quais foram acrescidos de exercícios de vestibulares relativos ao assunto tratado e roteiros históricoexperimentais. Os módulos foram assim divididos:
Quadro 01: Estrutura do curso histórico-filosófico [4]
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Nas aulas referentes ao décimo módulo, não houve abordagens históricas, sendo apresentada a lei de Ohm, associação de resistores e circuitos. Encerrando, assim, toda a matéria proposta para o ensino de eletromagnetismo da 3ª série do ensino médio.
Para tornar o presente artigo um exemplo mais concreto de inserção de um material didático com caráter histórico-filosófico, optou-se por isolar um único módulo e apresentá-lo ao leitor, analisando as principais características do texto. Porém, essa descrição não se trata de um manual, como uma receita de bolo a ser seguida, ela tem a pretensão de exemplificar um modelo de texto histórico que foi planejado durante dois anos e depois executado repetidas vezes com sucesso em turmas da 3ª série do ensino médio.
Dentro desse panorama, o módulo IV será apresentado e analisado no intuito de clarificar e exemplificar o material didático utilizado durante as aulas de física. No que se refere à implementação do material didático em sala de aula, a estratégia pedagógica elaborada pelo professor pretendeu trilhar um caminho eficaz em direção a uma aprendizagem significativa. Nesse sentido foi utilizada a seguinte tática: 1) O material era entregue aos alunos com antecedência, para que eles pudessem ler em casa; 2) No início da aula era perguntado aos alunos informações sobre o texto para esclarecimento de possíveis dúvidas; 3) O conteúdo do material
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era formalmente apresentado à turma; 4) Após a formalização do conteúdo, a idéia de levar ao ambiente dos alunos as inquietações filosóficas que permearam as investigações científicas sobre a natureza já tinha sido cumprida. Entretanto, o professor também reservou um espaço para debates durante a aula no sentido de levantar questões internas e externas ao processo da produção científica e de reflexões históricas e filosóficas sobre o processo evolutivo da descoberta das principais teorias eletromagnéticas [4].
Todos os módulos tiveram a mesma estrutura metodológica apresentada no módulo IV, sendo que, durante todo o curso, eles estiveram apoiados também por várias experiências históricas que permearam o desenvolvimento do eletromagnetismo. A seguir, será apresentada uma breve análise da estrutura básica do texto distribuído aos alunos no referido módulo, assim como informações sobre o objetivo e composição de partes específicas do texto:
- · O objetivo do módulo foi o de introduzir o conceito de corrente elétrica através das reflexões históricas, sociológicas e filosóficas dos caminhos trilhados pelos cientistas no desenvolvimento de suas teorias científicas, que contribuíram para a construção da teoria que é hoje aceita em nossa época contemporânea.
- · Para situar o aluno no espaço e tempo, o texto histórico continha informações relevantes sobre a época e o contexto sócio-cultural no qual viveu os principais cientistas que pesquisaram sobre a corrente elétrica.
- · Para dar maior credibilidade ao material, também houve a inserção de pequenos textos de pesquisadores em história da ciência.
- · Para exemplificar a evolução do pensamento inerente a produção científica, o texto apresentou as principais pesquisas realizadas por Galvani sobre eletricidade animal.
- · Para demonstrar que a construção do conhecimento científico não é um ato isolado relacionado a um determinado gênio da ciência, também foi explicitado que os experimentos de Galvani (e também de Volta) tiveram como base estudos anteriores de outros cientistas.
- · Para relacionar a ciência com outras áreas do conhecimento humano e produções intelectuais, destacou-se que as pesquisas de Galvani tiveram influência na literatura através da criação da estória de Victor Frankenstein, de Mary Shelley, relacionando as antigas idéias de Galvani com algo concreto, um conto que o aluno conhece hoje em dia.
- · Situando o aluno no contexto sócio-político da época, destacou-se a relação entre Galvani e Napoleão, apresentando aspectos sociais que possivelmente afetaram a produção deste cientista.
- · Para tornar o texto um instrumento vivo de construção do conhecimento foram abertos espaços para a discussão das reflexões filosóficas entre Galvani e Volta.
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- · Para exemplificar as inquietações pessoais que levaram determinado cientista pesquisar sobre aquele assunto e não outro qualquer, o texto citou as motivações e as várias tentativas de Volta em descobrir um artefato que produzisse eletricidade sem a necessidade de nenhum tipo de tecido animal.
- · O texto também mostrou a pesquisa e os caminhos que levaram a descoberta da pilha elétrica por Volta, e suas principais conseqüências nas pesquisas futuras de outros cientistas.
- · Para que as descobertas do passado se ancorassem de forma mais significativa na estrutura cognitiva do educando, o texto também apresentou aplicações tecnológicas contemporâneas para a utilização da pilha.
- · Após a descrição histórica, o texto apresentou a definição atual de corrente elétrica e a teoria moderna da eletrodinâmica, relacionando-as aos antigos conceitos. Este confronto de concepções possibilitou ao aluno a compreensão de que a ciência não é construída de verdades imutáveis.
- · Para viabilizar a execução do projeto e mostrar que a abordagem histórica e as práticas de ensino podem caminhar lado a lado, o professor inseriu também exercícios de vestibular no material didático.
Em resumo, o texto serviu para apresentar o conceito de corrente elétrica com uma metodologia que apresentou as reflexões e inquietações daqueles que foram responsáveis pela construção desse conhecimento científico.
## MÓDULO IV - RESUMO HISTÓRICO DE GALVANI ATÉ VOLTA
Na mesma época que Franklin e Coulomb desenvolviam as suas pesquisas sobre eletricidade e magnetismo, outros cientistas de outras áreas também desenvolviam experimentos sobre o mesmo tema, porém as suas linhas de pesquisas possuíam outro enfoque. Nestas, a eletricidade era utilizada na tentativa de obter novas conclusões sobre a origem e manutenção da vida [4] [5].
Com o aprimoramento e construção de novas máquinas eletrostáticas e de garrafas de Leyden, o mundo científico observou a geração de descargas elétricas com potências cada vez maiores. Isso permitiu a concretização de experimentos inéditos, como a observação dos efeitos das descargas elétricas sobre músculos de órgãos vivos e mortos. Esse tipo de experiência passou a ter grande importância naquela época, pois segundo Braga, Guerra e Reis [8]:
'Nas décadas finais do século XVIII, havia duas teses antagônicas em debate sobre a essência da vida. A primeira propugnava que havia uma eletricidade animal, um fluido neuroelétrico, como se denominava na época, que, ao circular nos nervos, provocava as diferentes contrações observadas nos músculos. A segunda preconizava que as contrações eram provocadas por uma força interna e específica da fibra muscular, de natureza puramente mecânica, independente da vida e da sensibilidade, agindo assim num domínio distante da consciência'. (Braga, Guerra & Reis, 2005)
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Um forte defensor dessa primeira tese sobre a essência da vida foi Luigi Galvani, filósofo natural italiano que nasceu em 1737, na cidade de Bolonha.
Por orientação de seu pai, o médico Domenico Galvani, Luigi ingressou na Universidade de Bolonha e em 1759, com apenas 22 anos, completou o curso de medicina. E três anos mais tarde, em 1762, passou a ocupar a cátedra de anatomia nessa universidade.
Na Universidade de Bolonha, por volta de 1780, realizou uma série de experimentos na área da eletro-fisiologia, defendendo a tese de que o corpo possuía eletricidade animal, e passou a investigar com maior profundidade a relação entre a eletricidade e a vida. Em sua concepção, existia um fluido neuroelétrico que, ao circular nos nervos, provocava as diferentes contrações observadas nos músculos. Então, ele passou a se dedicar ao estudo das descargas elétricas em músculos de órgãos mortos e vivos para confirmação de sua teoria. Em seus experimentos, Galvani observou que as descargas elétricas liberadas por máquinas eletrostáticas e garrafas de Leyden causavam contrações nos músculos das pernas de rãs mortas.
Figura 01: Laboratório de Galvani. Repare na figura o uso da máquina eletrostática e da garrafa de Leyden em seus experimentos com as rãs.
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Na busca de novas evidências experimentais que embasassem a sua teoria, Galvani passou a diversificar as suas experiências, e em uma delas ele demonstrou ser possível eletrizar uma caveira (calma gente, ele era médico!!), assim como era feito com uma garrafa de Leyden. Com o sucesso desse experimento, o próximo passo foi tentar provar que um corpo acumulava eletricidade animal. E, para legitimar tal idéia, ele fez um arranjo experimental sem nenhuma descarga elétrica externa. Tal experimento consistia na associação de um arco bimetálico (arco confeccionado com dois metais diferentes) às pernas de uma rã morta, que produzia espasmos musculares semelhantes aos que eram obtidos quando submetida a uma descarga elétrica.
Galvani interpretou esses novos resultados comparando a rã a uma garrafa de Leyden, concluindo que seu corpo tinha a capacidade de armazenar eletricidade animal. Assim, quando o arco bimetálico era ali associado havia a liberação da eletricidade animal acumulada, resultando nas contrações observadas [5].
Entre seus experimentos, também fez parte o estudo das contrações musculares através de choques originados pela eletricidade atmosférica, sendo que estes já eram baseados nas experiências anteriores de Benjamin Franklin. (que descobriu que a eletricidade produzida pelas máquinas eletrostáticas e garrafas de Leyden possuía a mesma natureza que a dos raios)
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Figura 02: Experiência atmosférica com rãs, descrita no livro de Galvani De Viribus electricitatis in motu musculari , de 1791
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As experiências com eletricidade animal mexiam com o imaginário popular. E não foi por acaso que uma jovem inglesa chamada Mary Wollstonecraft Shelley (1797-1851), quando desafiada por Lord Byron, em Genebra, a escrever a mais terrível estória de terror de sua época, buscou inspiração nos debates entre o marido, o poeta inglês Percy Shelley, e Byron sobre o galvanismo e as experiências de Luigi Galvani com choques elétricos para movimentar os músculos de rãs mortas. Embora os resultados das pesquisas de Galvani fossem mencionados por Mary Shelley como parte de uma lista de recomendações de leitura direta, ela escreveu na edição de 1831 que tirou a estória de um sonho.
Em seu livro (1817), Shelley narrou a estória de Victor Frankenstein, um jovem médico de Genebra que construiu um ser com partes de diversos cadáveres. Para dar vida a tal criatura, ele utilizou uma descarga elétrica fornecida por um raio, acreditando que dessa forma seria possível devolver a esse corpo inerte, a sua eletricidade animal (Troque a rã da Figura 02 pelo monstro da estória do Frankenstein e verá que existe alguma semelhança no método utilizado para reconstrução da vida). Essa obra literária é conhecida até os dias de hoje pelo nome de Frankenstein. Além da publicação de várias edições da obra, o tema também possui diferentes versões cinematográficas.
Em 1797, o exército napoleônico ocupou a Itália e fez a implantação da República Cisalpina. Por motivos religiosos, Galvani, em 1798, recusou a prestar juramento de submissão a Napoleão, sendo despedido de sua cátedra de anatomia na Universidade de Bolonha. Alguns meses após esse episódio, ele morreu na pobreza, em 04 de dezembro de 1798, antes que tivesse sido reconhecido o seu direito de receber uma aposentadoria como professor pensionista emérito por suas contribuições à ciência.
As experiências e as teorias de Galvani, assim como a sua hipótese sobre a eletricidade animal entusiasmaram alguns cientistas da época a adotar tal idéia, porém outros elaboraram contra-argumentos na tentativa de refutar tal teoria. Esse foi o caso do filósofo natural italiano Alessandro Volta.
O Conde Alessandro Giuseppe Antonio Anastasio Volta nasceu em Como, na Lombardia (atual Itália), em 1745. Era o sexto dos sete filhos do Conde Filippo Volta e da Condessa Maria Madalena. Com a morte de seu pai, em 1752, Alessandro vai viver com um tio que planejara para o sobrinho a carreira de advogado. Porém, ele decidiu que iria trabalhar com a física e com apenas dezesseis anos abandonou o Colégio dos Jesuítas. E a partir daí, passou a ser autodidata e estudou latim, francês, alemão, inglês, além de física e matemática.
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Volta obteve o cargo de professor de física experimental na escola secundária de Como, em 1774. E inventou, no ano seguinte, o eletróforo, uma máquina que acumulava eletricidade estática. Em 1776, separou o gás metano, que emanava das fermentações subaquáticas dos pântanos. Tais estudos o tornaram famoso e por consequência disso, em 1779, recebeu o cargo de professor da Universidade de Pávia, onde posteriormente, em 1785, se tornou reitor.
No início de sua carreira, assim como vários outros, Volta aceitava a teoria da eletricidade animal de Galvani. Porém, à medida que foi desenvolvendo seus próprios trabalhos nessa área, ele passou a rejeitar tal hipótese. Isso fez com que passasse a buscar outra explicação para as contrações que ocorriam na musculatura da rã.
No intuito de demonstrar experimentalmente que as conclusões de Galvani eram equivocadas, Volta construiu um aparato experimental no qual associou a rã a várias garrafas de Leyden. Com esse experimento, verificou que não houve aumento de carga elétrica devido à introdução da rã no experimento. Então, concluiu que a rã não possuía eletricidade armazenada no seu corpo, logo não poderia ser comparada a uma garrafa de Leyden, conforme modelo de Galvani.
Na tentativa de aumentar a intensidade da descarga elétrica produzida em seus experimentos, Volta, em 1794, decidiu construir um artefato feito de metais diferentes e que não tivesse nenhum tipo de tecido animal. Porém, só obteve êxito anos mais tarde, em 1799, quando empilhou várias placas de zinco e cobre, colocando entre cada par um papel umedecido em solução ácida. Esse arranjo permitiu produzir uma grande faísca quando foram ligadas às suas extremidades por um fio. Devido à sua forma, o artefato recebeu o nome de pilha elétrica.
Com o seu invento, Volta abalou fortemente a teoria da eletricidade animal. Posto que a eletricidade foi produzida pelo simples empilhamento de metais, ou seja, ela possuía natureza puramente inorgânica. Esse fato provou que a rã era um mero elemento condutor das descargas elétricas, e não sua fonte de produção. Embora sua conclusão fosse bastante coerente, não eliminou os debates teóricos realizados ao longo do século XIX a respeito das experiências e teorias sobre a eletricidade animal. Porém, a invenção da pilha fortaleceu a visão mecanicista, e reforçou a hipótese de que a eletricidade era um fenômeno único provocado pelo movimento de fluidos elétricos materiais. Essa teoria passou a ser predominante nos meios científicos em detrimento da idéia de que a vida e a eletricidade estavam relacionadas.
Por ser a pilha um dispositivo que produzia uma corrente contínua, a sua descoberta era mais poderosa que a garrafa de Leyden e as máquinas eletrostáticas. A pilha rapidamente passou a fazer parte dos laboratórios e revolucionou o desenvolvimento da ciência, principalmente da química, da eletricidade e do magnetismo [7].
Nesse contexto histórico-cultural, havia um grande interesse em torno da eletricidade e suas possíveis aplicações práticas. Então, devido ao seu invento, em novembro de 1801, Alessandro Volta foi convidado por Napoleão Bonaparte, Cônsul da França, para demonstrar-lhe os efeitos elétricos da pilha, no Instituto Nacional da França. Napoleão homenageou Volta em honra ao seu trabalho no campo de eletricidade e o nomeou senador e posteriormente, conde da Lombardia. Em 1819, com 74 anos de idade, Volta retirou-se da vida ativa para morar em Cammago, onde morreu em 1827.
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Mesmo após a morte de Volta, a sua invenção continuou influenciando o meio científico, embora os modelos de pilhas de hoje em dia sejam diferentes daquelas construídas por Volta e a sua teoria sobre a eletricidade não ser considerada verdadeira atualmente. O seu experimento veio para modificar a vida cotidiana dos seres humanos em geral. Você já parou para pensar como seria sua vida sem a pilha? Ou a bateria? Ou sem os aparelhos portáteis (aquele MP3, Ipod, Diskman e etc) que necessitam de tais elementos e que você tanto utiliza. Pare e reflita como a física é importante em seu dia-a-dia!
O nome de Volta ficou imortalizado como sendo a unidade da d iferença d e p otencial ( ddp ) entre dois terminais elétricos. A atual definição da corrente elétrica não foi desenvolvida por Volta, e estabelece o seguinte:
Corrente elétrica é definida como sendo o movimento ordenado de cargas elétricas (íons ou elétrons livres).
Esse fluxo de elétrons (nos metais) ou íons (nos líquidos e gases) é estabelecido quando existe uma d iferença d e p otencial ( ddp ) ou tensão elétrica (popularmente chamada de voltagem) criada por um gerador elétrico como a bateria ou a pilha elétrica, por exemplo. Por convenção, o sentido da corrente elétrica é o do movimento das cargas elementares positivas. Quando os portadores de cargas são elétrons (carga negativa), como, por exemplo, nos metais, o sentido convencional da corrente elétrica é oposto ao do movimento dos elétrons e quando os portadores de cargas são íons positivos e negativos, como em um gás ou em uma solução, mantém-se a convenção do sentido de movimento dos portadores de carga positiva.
A intensidade da corrente elétrica i é definida como a razão entre a quantidade de carga Δ Q que atravessa a secção transversal de um condutor e o tempo Δ t gasto nessa passagem.
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A unidade de intensidade de corrente é a unidade fundamental elétrica do Sistema Internacional de unidades (SI) e é chamada de ampère (símbolo A).
Pela eq.7 é possível verificar que Δ Q = i . Δ t e pelo gráfico da corrente versus o tempo, temos que a sua área = i . Δ t, logo conclui-se que a área fornece o valor numérico da variação da carga elétrica [9].
Figura 05: Gráfico da corrente elétrica no tempo
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Ao fim do texto foram anexados de 10 a 14 exercícios de vestibulares de universidades públicas de todo o Brasil. É mister destacar que a cobrança inerente da realização de um vestibular no término da educação básica é um fator importante em qualquer planejamento de um curso de física, seja ele tradicional ou não. Logo, esse foi um fator levado em conta na construção e aplicação da metodologia.
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## Conclusão
- O projeto 'Física na História' proporcionou uma oportunidade de reflexão a respeito das vantagens e desvantagens da inserção da história da ciência no ensino [1]. Para avaliar o projeto, foram propostas aos alunos questões conceituais sobre os conteúdos trabalhados nos textos e experimentos históricos, assim como, questões de exames de vestibular. O trabalho, principalmente na parte da realização das experiências históricas, mostrou que o desempenho dos alunos nas respostas a essas questões foi positivo, além de evidenciar que uma metodologia históricofilosófica não necessariamente impossibilita a inclusão de questões de vestibular em seu planejamento, ponto este de grande importância para os alunos da escola em que o projeto foi desenvolvido.
- A avaliação ocorreu, também, com base em anotações feitas pelo professor ao longo do curso, de filmagens e fotos obtidas durante a execução por parte dos alunos das diferentes atividades. As análises desses registros permitem afirmar que a inserção da história ciência em sala de aula é um elemento eficaz na geração de uma aprendizagem significativa no educando. Entretanto, é fato destacar que a produção e aplicação de materiais didáticos, em ensino, aplicados a história da ciência não é algo simples [10]. E que uma prática pedagógica com essa abordagem exige do professor conhecimento de história geral, de física, de filosofia, de sociologia e também de história da ciência e da tecnologia.
## Referências
- [1] J.R. Quintal e A. Guerra. A história da ciência no processo ensinoaprendizagem . A Física na Escola. v. 10, p. 21-25, 2009.
- [2] Ministério da Educação, Parâmetros Curriculares Nacionais: Ensino Médio - Ciência da Natureza, Matemática e suas Tecnologias . (MEC/ Brasília, 1999).
- [3] H.M. Vianna, Pesquisa em Educação - A Observação (Líber Livro, Brasília, 2007).
- [4] A.G. Moraes, Contextualizando o Fazer: Subsídios para uma Educação Científica com Enfoque Histórico-Filosófico . Tese de Doutorado, COPPE, RJ, 2002.
- [5] A. Guerra, M. Braga e J.C. Reis, Faraday e Maxwell, Eletromagnetismo: Da Indução aos Dínamos (São Paulo, Atual, 2004).
- [6] A. Guerra, M. Braga e J.C. Reis. Uma abordagem histórico-filosófica para o eletromagnetismo no ensino médio . Caderno Brasileiro de Ensino de Física, 21(1), pp. 224-248, 2004.
- [7] HEILBRON, J. L.; Electricity in the 17 th and 18 th Centuries: a study in early modern physics , 1ª ed, New York, Dover Publications Inc., 1999.
- [8] Braga, M.; Guerra, A.; Reis, J.C.; Breve História da Ciência Moderna , 1ª ed, vol 3, Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 2005.
- [9] Júnior F. R.; Ferraro, N. G.; Soares, P.A.T.; , Os Fundamentos de Física , 8ª ed, vol.3, São Paulo, Moderna, 2003.
- [10] MARTINS, R.A. in: Estudos de História e Filosofia das Ciências: Subsídios para Aplicação no Ensino , organizado por C.C. Silva (Livraria da Física, São Paulo, 2006).
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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.