Possibilidades criadas pela utilização do Filme Pu 239 (Plutônio 239), no ensino de conceitos de Radiações Ionizantes com turmas de 2ª Série do Ensino Médio, sob o olhar da Teoria Sócio-Interacionista de Lev Vygotsky
Ronaldo Conceicao Da Silva
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XIX
- Ano
- 2011
- Data
- 01/02/2011
- Linha de pesquisa
- Aprendizagem Em Física
- Tipo
- Comunicação
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Possibilidades criadas pela utilização do Filme Pu 239 (Plutônio 239), no ensino de conceitos de Radiações Ionizantes com turmas de 2ª Série do Ensino Médio, sob o olhar da Teoria Sócio-Interacionista de Lev Vygotsky
Ronaldo Conceição da Silva Mestrando em Ensino de Ciências da UFMS Área de Concentração: Física Campo Grande, MS
Endereço eletrônico: rconsilva@hotmail.com
## RESUMO
Este artigo apresenta alguns tópicos possíveis de serem trabalhados em sala de aula, utilizando-se cenas do filme Pu 239 (Plutônio 239), no ensino de Radiações Ionizantes, planejada à luz da teoria de Vygotsky. Não se trata dos resultados da aplicação de uma sequência didática executada, mas sim de buscar evidenciar as possibilidades criadas a partir de cenas do filme, auxiliando o professor a elaborar sua própria sequência didática.
## ABSTRACT
This article presents some possible topics to be worked in the classroom, using scenes from the movie Pu 239 (Plutonium 239), in the teaching of Ionizing Radiations, planned under the light of Vygotsky's theory. It's not of the results of the application of a sequence didactic implemented, but to seek evidence the possibilities created from scenes from the movie, helping the teacher to draw up its own sequence didactic.
## INTRODUÇÃO
A educação tem por desafio encontrar novas intervenções pedagógicas, buscando proporcionar maior abrangência e acessibilidade ao conhecimento. As matérias componentes da área de Exatas, principalmente a Física, requerem urgentemente o uso dessas metodologias, devido às muitas dificuldades dos alunos na aprendizagem de conceitos, causada muitas vezes pela não compreensão da linguagem utilizada pelo professor em suas aulas. A duas décadas e meia FERREIRA & JUNIOR (1986), orientavam para o uso de novas tecnologias associadas ao uso de computadores
e vídeos com fins pedagógicos, por tratarem-se de tecnologias de massificação de conhecimento, possibilitando às pessoas uma participação ativa dentro deste processo de construção de conceitos.
Passados estes anos, deparamo-nos com dias em que o acesso à informação é rápido, fácil e em grande escala. Entretanto, cabe a todos, principalmente aos alunos, saberem 'selecionar' informações, aproveitar o que existe de eficaz à aprendizagem. O professor passa a ter então papel diferenciado neste contexto. Deixa de ser aquele que ensina para ser aquele que orienta o processo. Do detentor único da disciplina lecionada para o ser o mediador entre o aluno e o conhecimento. Desta forma, o trabalho de ensinar solicita novas ferramentas de ensino, buscando aproximar professor e aluno e a utilização de uma linguagem comum e atual.
Como ferramenta auxiliar ao professor no ensino de Física, SOUZA E MOREIRA (2005), defendem a utilização de vídeos, uma vez que permitem discutir conceitos físicos observados e motivando o questionamento e a compreensão. Descrevem a utilização de trechos do filme '007', para discussão de conceitos físicos ligados às Leis de Newton.
Já PEREIRA et al (2005), relata a utilização de vídeos filmados sobre experiências do dia-a-dia no ensino de Física Térmica. Tais vídeos eram acompanhados de material impresso contendo o resumo conceitual e perguntas sobre os tópicos abordados.
Em seu artigo, COZENDEY et al (2005) descreve o desenvolvimento do projeto de produção de vídeos de Física relacionados ao cotidiano. Entretanto tais vídeos não tinham sido avaliados nem aplicados. Entretanto os autores possuíam 'indicativos' de sucesso na utilização.
Analisando esta situação TONIATO et al (2006), ressaltam que a utilização de vídeos em sala de aula tem se mostrado um recurso promissor para o Ensino de Física.
Em se tratando da utilização de filmes, os ditos 'comerciais' têm duração de duas horas aproximadamente e, em quase todas as escolas, as aulas têm duração de 50 minutos. A própria TV Escola, canal de televisão com caráter pedagógico, tem procurado compor sua grade com programas curtos que podem ser utilizados por professores e alunos, dentro do tempo previsto de aula. Sendo assim, os longasmetragens são utilizados por meio de recortes que permitam visualizar os aspectos mais fundamentais que se deseja demonstrar (COUTINHO, 2005).
Os vídeos de curta duração, chamados micro-vídeos ou vídeos clipes, podem então ser utilizados visando abordar conteúdos pedagógicos e tratamento de conceitos básicos de Física e de sua relação com o cotidiano dos estudantes (COZENDEYA et al, 2005).
Os chamados vídeos pedagógicos já trazem o modelo de aula pronto, cabendo ao professor fazer adaptação da sua aula ao material audiovisual disponível. O vídeo passa a ser então um instrumento de trabalho pré-feito e pouco flexível (SARTORI & RAMOS, 2006).
Esta forma de utilização de vídeos no ensino, na maioria das vezes, obriga o professor a utilizá-los, apenas como elemento motivador, o que não causa diferenças significativas nas notas dos alunos que passam por este tipo de intervenção pedagógica (CLEBSCH & MORS, 2004).
Sobre a realidade do Ensino de Física no contexto atual do ensino, pesquisas recentes mostram que o ensino desta disciplina não associa seus conceitos à realidade do aluno. O aluno não consegue compreender e explicar a sua realidade de mundo a partir do que aprende em sala de aula. O ensino não é prático, contextualizado. Baseiase, na maioria das vezes, em fórmulas e equações matemáticas (PEDUZZI, 1997).
Educar com novas tecnologias é um desafio que até agora não foi enfrentado com profundidade. Temos feito apenas adaptações, pequenas mudanças. O aluno necessita sentir-se responsável pela construção do conhecimento, agente ativo, capaz de 'poder fazer' de maneira colaborativa com os outros ao seu redor.
A Teoria Sócio-Interacionista de Lev Vygotsky, oferece suporte para desenvolvimento deste tipo de atividade. As interações ocorrem buscando elevar os conhecimentos cotidianos a científicos. As interações entre as diferentes Zonas de Desenvolvimento Proximal buscam ampliar a Zona de Desenvolvimento Real de cada aluno. Os processos interpsicológicos possivelmente são apropriados intrapsicologicamente por cada indivíduo envolvido no processo. A aquisição de nova linguagem e novos signos é possibilitada e podem favorecer a internalização destes conceitos.
A utilização do filme 'Pu 239' (Plutônio 239) no ensino de Radiações com 2ª Série do Ensino Médio
O ensino de radiações é de total importância no Ensino Médio, pois fornece suportes para compreensão do funcionamento de vários artefatos tecnológicos presentes em nossa vida atualmente, bem como explica várias situações que envolvem nossa saúde.
Apesar disto, muitos alunos não têm acesso a estas informações e conceitos no Ensino Médio, devido à quantidade reduzida de aula, falta de conhecimento sobre o tema por parte dos professores que ministram aulas de Física, muitas vezes não formados na área.
A utilização deste filme, em sua totalidade ou em fragmentos, possibilita ensino e aprendizagem de conceitos relacionados às Radiações, bem como possibilita discussões de diversos tópicos, o que abre o campo de discussões interdisciplinares com Biologia, Geografia, Atualidades, História e Química.
A ficha técnica do filme é a seguinte:
Título original: PU-239
Ano de Produção: 2006
País de origem: EUA
Gênero: Drama
Duração: 98
Direção: Scott Z. Burns
Roteiro: Scott Z. Burns (tendo como base o conto que está no livro de Ken Kalfus)
Elenco: Paddy Considine, Radha Mitchell, Oscar Isaac
O filme narra da situação de Timofey, um engenheiro químico que recebe, acidentalmente, uma elevada dose de radiação na usina em que trabalha. Não conseguindo entrar em acordo com seus patrões e sabendo dos efeitos biológicos que sofreria, teme pela segurança financeira de sua mulher e do seu filho. Desesperado ao ser demitido por seus diretores, que buscavam esconder da fiscalização a precariedade dos equipamentos e da segurança da usina, ele rouba uma quantidade de 100 gramas de Plutônio 239 e tenta vender no mercado negro na cidade de Moscou, por tratar-se do isótopo primário usado na fabricação de armas nucleares.
Na viagem tentando vender o material radioativo, o qual carrega escondido junto a seu próprio corpo, ele conhece em Moscou o jovem Shiv, que também encontra-se em desespero, por dever razoável quantia de dinheiro a um mafioso local. Shiv passa
então a cumprir o papel de negociador entre Timofey e os possíveis compradores do plutônio.
- O filme possibilita a abordagem de vários conceitos físicos e situações relacionadas às Radiações Ionizantes. Sugere-se realização das atividades após a abordagem do conteúdo de Ondulatória, que na maioria das escolas acontece na 2ª Série do Ensino Médio.
A partir do filme várias discussões podem ser levantadas e conceitos serem abordados, tanto pela disciplina de Física, como também, proporcionar a comunicação com outras disciplinas como Geografia, História, Atualidades e Química, como por exemplo:
- a) Diferenças entre radiações ionizantes e não ionizantes Buscar informações nas cenas do filme sobre as razões que tornam a radiação oriunda do Plutônio 239 perigosa se comparada com as radiações às quais estamos expostos diariamente.
## b)
- Elementos radioativos O filme aborda a contaminação causada pelo elemento Plutônio. Pode ser realizada pesquisa sobre outros elementos radioativos e os principais tipos de
- radiação existentes, seja por partículas ou ondas.
- c) Conceito de meia vida Cenas do filme sobre contaminação do personagem e também do próprio ambiente podem ser utilizadas na abordagem sobre o tempo de atividade dos
efeitos da radiação.
- d) Efeitos biológicos no ser humano Existem várias cenas que mostram os efeitos imediatos sentidos pelo personagem e sua preocupação com os efeitos tardios que podem ocorrer. Tais cenas podem ser utilizadas numa discussão mais aprofundada sobre efeitos biológicos causados por elementos radioativos e sua utilização na
Medicina Nuclear.
- e) Radioproteção de funcionários em trabalhos com materiais radioativos O filme apresenta cenas do local de trabalho, do crachá 'dosímetro' e de um contador Geiger, que podem ser usadas na abordagem sobre o estudo dos níveis limites de radiação para o homem.
- f) Contrabando de materiais radioativos
Cenas do recipiente confeccionado pelo próprio personagem para transportar o plutônio junto ao seu corpo para outro local podem ser úteis à abordagem de assuntos como armazenamentos e contrabandos de materiais radioativos.
- g) Segurança nacional quanto a acidentes radioativos
- O filme apresenta uma cena na qual o material radioativo é espalhado sobre uma mesa e cheirado por engano, como se fosse cocaína, por dois desconhecedores do material. Ela possibilita uma pesquisa sobre as ações dos órgãos governamentais para controle e descontaminação do ambiente e das pessoas atingidas.
- h)
- Benefícios e malefícios da utilização das radiações ionizantes O filme dramatiza sobre um contrabando desastroso de Plutônio. Muitas cenas evidenciam os efeitos maléficos desencadeados pelo material. A partir destas cenas, abre-se a possibilidade de abordagem sobre as aplicações benéficas dos materiais radioativos
- i) Contexto histórico e social dos principais acidentes radioativos do Brasil e do mundo.
- As cenas que motivaram o roubo e o contrabando podem ser utilizadas para um estudo mais aprofundado das condições econômicas e sociais vividas pelo personagem.
Buscando conhecer a Zona de Desenvolvimento Real de cada aluno, o professor pode colher inicialmente suas respostas individuais a um questionário sobre os conceitos e as situações envolvendo Radiações Ionizantes a serem abordadas nas atividades que serão propostas. Utilizando cenas do filme, o professor poderá elaborar atividades de pesquisa, discussão e resolução de forma colaborativa entre os alunos, buscando promover interações entre as diferentes Zonas de Desenvolvimento Proximal existentes. Aconselha-se que, se possível, sejam montados grupos aleatoriamente, evitando existência de grupos formados por indivíduos igualmente 'capazes'. Caso sejam montados vários grupos o professor poderá solicitar que em alguns as respostas sejam construídas coletivamente, e em outros, cada elemento do grupo responderá individualmente às atividades propostas, após evidentemente interagir com seu grupo. Desta maneira o professor notará a dinâmica de formação da resposta de grupos e de indivíduos componentes de grupos.
Outra possível atividade é solicitar resolução a aquelas questões que os alunos não conseguiram resolver no teste inicial. Caso forem questões abertas, importante será observar a provável melhora na qualidade de resposta, agora com uma riqueza maior de signos especificamente científicos, que antes os alunos não possuíam. Isto pode sinalizar uma expansão da Zona de Desenvolvimento Real do aluno.
A incessante busca por melhoria na qualidade da aprendizagem, passa inicialmente pela utilização de novas ferramentas de ensino. Esta atividade, ao utilizarse de uma linguagem atraente aos estudantes, possibilita um diálogo entre várias disciplinas. O aluno pode ver-se rodeado de desafios de aprendizado e discussões, possibilitadas pela aula de Física. É um bom caminho para tornar a disciplina de Física naquilo que ela realmente é: muito interessante.
## REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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