ARTICULAÇÕES NACIONAIS PARA A EDUCAÇÃO EM ASTRONOMIA
Rodolfo Langhi, Roberto Nardi
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XIX
- Ano
- 2011
- Data
- 01/02/2011
- Linha de pesquisa
- Formação E Prática Profissional De Professores De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## ARTICULAÇÕES NACIONAIS PARA A EDUCAÇÃO EM ASTRONOMIA
## Rodolfo Langhi , Roberto Nardi 1 2
- 1 Professor Adjunto. Departamento de Física. Centro de Ciências Exatas e Tecnologia. Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências. UFMS, Campo Grande. Apoio parcial: CAPES. [e-mail: rodolfo@dfi.ufms.br]
- 2 Professor Adjunto, Livre Docente. Grupo de Pesquisa em Ensino de Ciências. Departamento de Educação. Programa de Pós-Graduação em Educação para a Ciência. Faculdade de Ciências. UNESP, Campus de Bauru. Apoio CNPq. [e-mail: nardi@fc.unesp.br]
## Resumo
Este artigo considera brevemente algumas das potencialidades, ainda pouco exploradas em nosso país, referentes às atividades desenvolvidas em ambientes não formais de ensino de astronomia, tais como os observatórios astronômicos, planetários, clubes de astronomia e demais estabelecimentos relacionados. Apresentamos um modelo que procura aproximações entre a comunidade científica, a comunidade amadora em astronomia e a comunidade escolar, composta de professores e alunos. A partir das relações entre estas três instâncias, exemplificamos possíveis caminhos a serem trilhados, seguindo um movimento de sentido contrário à dispersão e pulverização de esforços pontuais destes órgãos e da realização de suas atividades embasadas no senso comum, visando o desenvolvimento nacional da educação em astronomia e de sua pesquisa. Defendemos que o incentivo maior destes tipos de atividades não formais e de popularização deveria partir das próprias universidades e das instituições formadoras de professores, comprometidas com os resultados de pesquisas sobre a educação em astronomia. Reforçamos, ainda, a importância do papel conjunto exercido pelas associações amadoras, observatórios e planetários em se mobilizar nacional e coletivamente para promover mudanças e pressionar setores governamentais da educação no sentido de incitar atitudes que resultem em reformas nacionais para o desenvolvimento da pesquisa, ensino e popularização da astronomia.
Palavras-chave : educação em astronomia; formação de professores; relações comunidade científica/amadora/escolar; instituições e iniciativas dedicadas à astronomia; popularização e divulgação da astronomia.
## Introdução
O aumento das pesquisas na área de educação não formal, embora em quantidade relativamente reduzida no Brasil, deve-se ao crescimento do movimento de divulgação científica nos últimos anos, inclusive no Brasil, que vem contribuindo para o movimento de alfabetização científica, segundo Marandino et al (2004). Por isso, esta autora alerta para a necessidade de se discutir as formas e as estratégias pela qual a divulgação científica vem ocorrendo fora do espaço escolar, o que tem produzido um crescimento no volume de pesquisas na área de educação em ciências extra-escolar. Museus de ciências e locais semelhantes (incluindo planetários e observatórios astronômicos) tem sido lócus importante das investigações no campo do ensino de ciências e alguns trabalhos têm procurado discutir os aspectos educativos desenvolvidos nestes espaços, incluindo fundamentações teóricas da área de formação de professores, conforme Jacobucci (2006).
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30 de janeiro a 04 de fevereiro de 2011
Este trabalho representa um esforço de discussão neste sentido, ao demonstrar e exemplificar as potencialidades que estabelecimentos podem apresentar no âmbito da educação formal, não formal, informal e divulgação da astronomia. Como problemática inicial, apresentamos os apontamentos de levantamentos bibliográficos acerca de estudos recentes sobre Educação em Astronomia (LANGHI, 2009): declínio histórico de conteúdos de astronomia no ensino básico e superior; deficiência na formação de professores acerca destes conteúdos; propagação de concepções alternativas e mitos; falta da prática observacional; potencial dos estabelecimentos (observatórios, planetários, associações e clubes) pouco aproveitado (atividades pontuais e locais); subutilização da forte componente motivacional e interdisciplinar da astronomia no ensino (falta de instrumentação metodológica e instrumental). Portanto, a questão central é: como as instâncias nacionais poderiam articular-se no sentido de promover a inserção da astronomia nos âmbitos da educação formal, não formal, informal e da divulgação científica (popularização)?
Assim, abordaremos, neste texto, a problemática da metodologia de trabalho empregada nestas instituições em suas atividades de educação não formal e de popularização da astronomia, cujos objetivos, se embasados no senso comum, conduz a uma desconsideração dos resultados de pesquisas até hoje desenvolvidas na área de Educação em Astronomia. Como resultado, apresentamos um modelo que procura aproximações entre a comunidade científica, a comunidade amadora em astronomia e a comunidade escolar, composta de professores e alunos. A partir das relações entre estas três instâncias, exemplificamos possíveis caminhos a serem trilhados.
## Atuações decisivas de estabelecimentos não formais de ensino
As potencialidades dos estabelecimentos ligados à astronomia (observatórios, planetários e clubes de astronomia) envolvem atuações, na área de educação em astronomia, que podem superar todas as suas funções de popularização (LANGHI e NARDI, 2009). Uma breve análise sobre o contexto histórico da evolução da educação em astronomia em alguns países (EUA, Alemanha, França, Itália e Polônia) aponta para a profunda influência que associações, sociedades, clubes de astronomia, planetários, observatórios astronômicos e grupos de pesquisa na área de ensino de astronomia exercem sobre mudanças de programas e currículos escolares oficiais nacionais, incluindo a elaboração de programas de formação continuada de professores (HOFF, 1990; NEUMANN, 1990; GOUGUENHEIM et al, 1990; PESTELLINI, 1990; IWANISZEWSKA, 1990).
No Brasil, em tempos anteriores, a astronomia possuía uma tradição privilegiada dentre as áreas nobres do conhecimento humano, mas hoje está relegada a uma posição menos do que secundária em relação a outras muitas áreas do saber. Atualmente, pela Lei de Diretrizes e Bases (LDB), de 1996, e pelos documentos oficiais da educação nacional dela derivados, a astronomia está presente essencialmente na disciplina de ciências, conforme indicam os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), deixando assim de ser definitivamente uma disciplina específica nos cursos de formação de professores, e em pouquíssimos casos, superficialmente trabalhada em seus conteúdos básicos em tais cursos (LANGHI, 2004 e 2009).
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Atualmente, os estudos de Maluf (2000), Bretones (1999), Ostermann e Moreira (1999), Barros (1997), Langhi (2009) e Langhi e Nardi (2005, 2007, 2007a e 2008), comprovam a existência de falhas ligadas diretamente à formação inicial do professor com relação a tópicos de astronomia. É preocupante imaginar quais noções de astronomia tais docentes revisaram em sua formação para se sentirem competentes e habilitados ao trabalhar com conteúdos dessa natureza com seus alunos. Um professor de ciências no ensino fundamental, por exemplo, ver-se-á confrontado com o momento de trabalhar com conteúdos de astronomia. No entanto, o docente dos anos iniciais do ensino fundamental geralmente é graduado em pedagogia, e o dos anos finais geralmente em ciências biológicas, e conceitos fundamentais de astronomia não costumam contemplar estes cursos de formação, levando muitos professores a simplesmente desconsiderar conteúdos deste tema em seu trabalho docente (LIMA e MAUÉS, 2006).
Visando mudanças para se reverter este quadro, os exemplos internacionais apontam caminhos para possíveis alterações na estrutura educacional brasileira a partir de ações ativistas de clubes de astronomia, associações, sociedades, observatórios, planetários e demais estabelecimentos a favor da inserção do ensino da astronomia na educação básica e na formação inicial e continuada de professores, apoiada no potencial pouco explorado destes estabelecimentos no Brasil. Por isso, atividades de educação não formal e de popularização, realizadas em instituições desta natureza, podem contribuir para o ensino e a formação docente, desde que comprometidas com os resultados de pesquisas na área de ensino de ciências e de astronomia, não devendo ser elaboradas na base do senso comum.
## Aproximações CIAMES: alguns resultados
Observatórios astronômicos, planetários, clubes de astronomia e associações de astronomia amadora, no Brasil, poderiam empenhar-se seriamente em criar e desenvolver o interesse e a curiosidade da comunidade pela pesquisa, ensino e extensão da astronomia e ciências afins, sobretudo quando são vinculados ou instalados em instituições de ensino superior de formação de professores. Estas instituições poderiam prestar uma valiosa contribuição para a popularização e o ensino da astronomia, suprimindo carências específicas nesta área. No Brasil, atividades semelhantes têm sido realizadas de modo pontual e isolado, ou sob o domínio de conhecimento obtido à base pessoal, como fruto de leituras autodidatas, sem formação específica na maioria dos seus membros (TREVISAN, 2004; BRANDÃO, 2006).
Porém, conforme já mencionado, em muitos países o papel de observatórios, sociedades e associações de astrônomos amadores, comprometidos com o conhecimento de cunho científico e os resultados das pesquisas na área de educação em astronomia (e não em senso comum), tem sido fundamental para a formação continuada de professores em conteúdos de astronomia e para mudanças educacionais no sistema de ensino de ciências em seus países, através de sua influência sobre os órgãos governamentais, promovendo a colaboração entre seus membros, compostos de astrônomos profissionais, astrônomos amadores e professores. De fato, a atuação de clubes e associações de astrônomos amadores é decisiva, e, muitas vezes, o principal meio para mudanças na educação formal, na
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divulgação e educação não formal em astronomia, visando a população e professores (PESTELLINI, 1990; IWANISZEWSKA, 1990).
Com trabalhos contextualizados e embasados em resultados de pesquisas da área, os observatórios e clubes de astronomia amadora no Brasil também poderiam utilizar suas potencialidades a fim de contribuir significativamente para a prática docente, o que faria de tais locais um dos únicos estabelecimentos confiáveis como fonte de informações a respeito de conteúdos de astronomia, constituindo-se em um notável apoio ao educador. Não se pode negar, portanto, este potencial existente em nosso território nacional.
Assim, o ensino da astronomia conta com um potencial pouco explorado em nosso país: os estabelecimentos dedicados à astronomia (planetários, observatórios, sociedades, universidades). Por isso, parece-nos plausível a união dos seus esforços, os quais, atualmente, constituem-se como pontos isolados e distribuídos pelo território nacional. Caso este potencial, rarefeito em todo o Brasil, pudesse ser aproximado mais à escola, talvez se constituísse em um pilar triplo: comunidade astronômica profissional, comunidade astronômica semiprofissional (amadores) e comunidade escolar (professores e alunos), sobre o qual estariam embasadas futuras discussões relacionadas à atuação destas instâncias em promover mudanças ativistas na estrutura curricular, de forma a proporcionar mais efetivamente a educação em astronomia na formação inicial e continuada de professores, bem como nos bancos escolares (um trabalho voltado nesta linha, e que levantou subsídios nesta direção, é o relatado em Langhi (2004a e 2009a), que exemplificou, mediante um eclipse lunar total, como a educação em astronomia e a importância da colaboração de amadores podem ser incentivadas desde o ensino fundamental e médio, com atividades que podem despertar a motivação e a cultura científica, através de aproximações entre as comunidades científica, amadora e escolar). Cimentando a base da atuação destas três instâncias, haveria o papel do pesquisador em ensino de ciências (mediador), proporcionando a mediação e tutoria na formação continuada de professores através desta tripla aproximação.
Provisoriamente, podemos nomear este modelo, que propõe possíveis articulações entre as comunidades científica, amadora e escolar, de 'CIAMES' (conforme as duas letras iniciais de cada comunidade envolvida), fazendo uma alusão ao gentílico siamês , cujo significado envolve o conceito de pares idênticos e, portanto, uma relação muito íntima entre suas identidades. Embora, neste caso, os objetivos das comunidades ci entífica, am adora e es colar possam ser bem distintos, e atualmente bem dispersos pelo território nacional, lembramos que resultados de pesquisas sobre educação em astronomia, tais como os relatados em Langhi (2009), apontam para a necessidade de possíveis esforços em implementar relações, articulações e atuações bem íntimas entre tais instâncias, com a finalidade de aumentar a proximidade entre suas identidades, através da ação pavimentadora do pesquisador (mediador), que leve em conta os resultados de investigações sobre educação em astronomia, num movimento contrário ao paradigma vigente nacional voltado a uma educação não formal e popularização da astronomia embasadas no senso comum.
Neste sentido, a fim de exemplificar a fundamentação até agora abordada, apresentamos, a seguir, algumas ações que contém os caminhos do modelo das aproximações CIAMES em sua estrutura de funcionamento:
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Ano Internacional da Astronomia (IYA2009): a resolução 62/200 da 62ª Assembléia Geral da ONU, que declarou 2009 como o Ano Internacional da Astronomia, gerou apoio financeiro a partir de órgãos públicos para projetos de divulgação científica na área de astronomia e ciências afins, visando estimular a popularização da ciência e tecnologia e promover a melhoria da educação científica no País (por exemplo, o edital MCT/SECIS/CNPq Nº 63/2008, historicamente diferenciado por levar em conta o trabalho de astrônomos amadores).
Rede Brasileira de Astronomia (RBA): após uma reunião especial no 12º ENAST (Encontro Nacional de Astronomia), em novembro de 2009, decidiu-se, mediante aprovação dos representantes locais do IYA2009, pela continuidade, nos anos seguintes, das atividades nacionais de divulgação e ensino da astronomia, iniciadas com o Ano Internacional da Astronomia, através da criação da Rede Brasileira de Astronomia, tornando-se um ponto de partida importante para a popularização e ensino da astronomia no Brasil. Assim, a RBA é considerada a herança nacional do Ano Internacional da Astronomia, estruturada nas seguintes comissões: ensino, astrônomos amadores (semiprofissionais), astrônomos profissionais e planetários.
Projeto Eratóstenes : visa resgatar didaticamente o procedimento histórico do bibliotecário de Alexandria há quase 2.300 anos atrás, ao medir o raio da Terra usando a sombra de uma haste vertical. Escolas do Brasil e do mundo envolvem-se em atividades de socialização e motivação ao aprendizado das ciências, através da utilização das TIC (Tecnologias da Informação e Comunicação), num ambiente de interdisciplinaridade com a astronomia.
Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica (OBA): com uma proposta diferenciada das demais olimpíadas, este evento anual tem mobilizado professores e alunos do Brasil a buscar fontes de informações acerca de conteúdos de astronomia e práticas de ensino sobre o tema, embora haja considerações para debate na Educação sobre a questão das olimpíadas.
Portanto, fundamentando-se no exposto acima, apresentamos os seguintes encaminhamentos de articulações nacionais para a Educação em Astronomia: resgatar conteúdos de astronomia no ensino básico e superior através de atividades de âmbito nacional, envolvendo simultaneamente as instâncias: astronomia profissional, amadores, planetários, observatórios e professores (CIAMES); investir na formação continuada de professores através destas comunidades (CIAMES), instrumentalizando as escolas para o ensino da astronomia; levar em conta as concepções alternativas e mitos mais comuns em astronomia, desmistificando-as através de ações nacionais e divulgação midiática; incentivar a prática observacional pública e escolar a olho nu e através de telescópios, criando campanhas nacionais de observação do céu, especialmente quando ocorrem determinados fenômenos astronômicos (ex.: eclipse lunar total durante o lançamento da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, solstício de inverno do Projeto Eratóstenes, conjunção da Lua com os planetas Marte, Saturno, Mercúrio e Vênus em agosto de 2010, etc); aproveitar nacionalmente o potencial dos estabelecimentos (observatórios, planetários, associações e clubes); pressionar poderes públicos quanto a mudanças educacionais propostas, através das articulações unificadas destas instâncias (CIAMES), apoiando-se nos exemplos internacionais.
## Considerações finais
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O incentivo maior destes tipos de atividades não formais e de popularização deveria, acreditamos, partir das próprias universidades e das instituições formadoras de professores, comprometidas com os resultados de pesquisas sobre a educação em astronomia, inclusive aquelas que são contempladas com um acervo de instrumentos específicos, tais como telescópios e planetários itinerantes. Reforçamos, ainda, a importância do papel conjunto exercido pelas associações amadoras, observatórios e planetários em se mobilizar coletivamente para promover mudanças e pressionar setores governamentais da educação no sentido de incitar atitudes que resultem em reformas nacionais para o desenvolvimento da pesquisa, ensino e popularização da astronomia. Este tipo de ação unificadora, movimentando-se em sentido contrário à dispersão e pulverização de esforços locais destes estabelecimentos, coloca-se em favor do desenvolvimento da educação em astronomia e de sua pesquisa, e justifica-se pelo fato desta ciência desenvolver o importante papel em promover no público o interesse, a apreciação e a aproximação pela ciência em geral, pois normalmente surgem questões de interesse comum que despertam a curiosidade das pessoas, tais como buracos negros, cosmologia e exploração do sistema solar, levando-as a uma educação em astronomia, seja ela formal, informal, não formal, ou no âmbito da popularização.
Portanto, atividades de investigações sobre a educação em astronomia, articuladas com a formação de professores e as potencialidades de estabelecimentos ligados à astronomia, conforme exemplificado neste artigo através das articulações CIAMES, poderão abrir um lastro de oportunidades de linhas norteadoras que visem o aprimoramento do ensino deste tema no Brasil.
## Referências
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