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FÍSICA NAS SÉRIES INICIAIS: UMA ÁREA EM CONSOLIDAÇÃO

Ana Paula Solino Bastos, Wagner Duarte José

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XIX
Ano
2011
Data
01/02/2011
Linha de pesquisa
Formação E Prática Profissional De Professores De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## FÍSICA NAS SÉRIES INICIAIS: UMA ÁREA EM CONSOLIDAÇÃO

## Ana Paula Solino Bastos , Wagner Duarte José 1 2

1 Universidade Estadual de Santa Cruz/Depto. de Ciências da Educação, anapaula\_solino@hotmail.com

## Resumo

Este trabalho tem como objetivo investigar o que se tem pensado e pesquisado atualmente a respeito das inserções curriculares de Física nas series iniciais do ensino fundamental, veiculado nos três principais eventos nacionais de ensino de Física e de Ciências dos últimos anos: VI ENPEC (2007), XI EPEF (2008) e XVIII SNEF (2009). Tomamos como referência a pesquisa realizada por Mozena e Ostermann (2008) junto aos principais periódicos nacionais das áreas de Educação, Ensino de Ciências e Ensino de Física, na qual, as autoras elegem as categorias metodologia, livro didático e natureza do ensino. Porém, no contexto de nosso trabalho, elegemos duas novas categorias além destas, considerando outras vertentes a serem investigadas que podem resultar em inserções curriculares de conhecimentos de Física nas séries iniciais, quais sejam: a formação de professores (inicial e continuada) e os espaços não-formais de educação (museus, centros ou feiras de ciências). Procedendo desta forma, encontramos 24 trabalhos de metodologia, 02 de livro didático, 18 de natureza do ensino (compreendendo as concepções de ensino e sobre conteúdos de ensino), 14 trabalhos de formação de professores e 02 de espaços não-formais, totalizando 60 trabalhos que formam nosso Corpus. Nossas conclusões indicam que há um número significativo de trabalhos na área debatendo a temática em importantes fóruns de trocas de experiências, mas são quase inexistentes os trabalhos que analisam livros didáticos, como observado por Mozena e Ostermann (2008) no recorte dos periódicos nacionais. O espectro de trabalhos existentes mostra que a pesquisa em ensino de física nas séries iniciais estará se consolidando na próxima década.

Palavras-chave : Séries iniciais, Física, Ensino

## Introdução

Atualmente, um dos grandes desafios da educação básica é promover a educação científica e tecnológica. Neste sentido, ensinar conhecimentos de física para crianças desde o início dos seus anos escolares - séries iniciais do ensino fundamental - pode fazer com que compreendam melhor o mundo a sua volta, desde os fenômenos físicos mais simples até as tecnologias que interagem conosco. Afinal, elas conhecem o mudo a partir do contato físico, através da interpretação de imagens e códigos, da manipulação de objetos e observação de fenômenos (SCHROEDER, 2007).

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30 de janeiro a 04 de fevereiro de 2011

Realizar atividades e experiências com objetos tecnológicos e valendo-se da ludicidade, além de proporcionar ao aluno um conhecimento mais proveitoso e prazeroso, pode contribuir para o desenvolvimento de uma postura curiosa e menos avessa às ciências.

Isto requer pensar a formação do profissional que interage com a criança já no início de sua vida escolar, em geral, a professora formada em Pedagogia, incluindo também a coordenadora pedagógica. Infelizmente, a física ensinada no Ensino Médio nos dias de hoje e o pequeno contato que as futuras professoras têm com as ciências durante a graduação, normalmente na disciplina de Metodologia do Ensino de Ciências, tende a afastá-las parcial ou totalmente do trabalho com esse campo do saber.

Por outro lado, a densidade de trabalhos de pesquisa acadêmica relacionando conhecimentos próprios da Física com o contexto de sala de aula das séries iniciais é relativamente baixa. Os primeiros trabalhos datam da década de noventa, sendo referências principais os livros de Delizoicov e Angotti (1990, 1991). Em anos mais recentes, há alguma proeminência no grupo coordenado pela professora Ana Maria Pessoa de Carvalho (CARVALHO, 1998) e em artigos esparsos (mas em número crescente) publicados nos diversos periódicos da área de Ensino de Ciências e de Física, (MOZENA E OSTERMANN, 2008). É importante pontuarmos que a área de pesquisa em ensino de ciências vem realizando nos últimos anos, uma autocrítica a respeito das contribuições/distanciamentos relacionadas com a incorporação das teorias científicas no escopo da sala de aula (DELIZOICOV, 2005).

Este trabalho tem como objetivo mapear o que se tem pensado e pesquisado atualmente a respeito das inserções curriculares de física nas séries iniciais do ensino fundamental, veiculado nos três principais eventos nacionais de ensino de física e de ciências dos últimos anos: VI Encontro Nacional de Pesquisa em Ensino de Ciências (VI ENPEC), XI Encontro Nacional de Pesquisa em Ensino de Física (XI EPEF) e XVIII Simpósio Nacional de Ensino de Física (XVIII SNEF). Esperamos contribuir nesse campo explicitando, na pesquisa em ensino de física, um leque de caminhos construídos entre a Universidade e as professoras das séries iniciais que, via de regra, se vêem numa encruzilhada entre 'aplicar' o livro didático e afastar de sua prática a educação científica e tecnológica.

## Metodologia

Recentemente, Mozena e Ostermann (2008) analisaram artigos de pesquisa envolvendo o ensino da física nas séries iniciais publicados nos treze principais periódicos no país, das áreas de educação, ensino de ciências e ensino de física, qualificados como 'Qualis A' (antiga classificação CAPES), ao longo de vários anos (e em alguns periódicos, por décadas). Nesta pesquisa exploratória, as autoras encontraram somente 15 artigos, dividindo-os em três grupos: natureza do ensino (1 artigo), livro didático (2) e metodologia (12). Este último grupo ainda foi redividido buscando-se especificar melhor como se daria o trabalho de ensinar, chegando a 4 artigos de experimentação/investigação, 3 de interação dialógica e 5 referentes ao

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uso de historinhas para motivar e estimular as crianças na busca por explicações conceituais próximas às da ciência.

Frente ao pequeno espectro de temas encontrados, as autoras concluem que o ensino da física nas séries iniciais ainda se configura como um campo em desenvolvimento, chamando a atenção para a necessidade de se ampliarem as pesquisas na área. Assim, destacam como possíveis temas de pesquisa, as estratégias de ensino-aprendizagem, a avaliação, a adequação dos conteúdos, estratégias e atividades com relação à faixa etária ou ao nível cognitivo do aluno, os livros didáticos, as concepções das crianças sobre a ciência, e como levar os resultados das pesquisas para a sala de aula.

Num enfoque complementar, identificamos os trabalhos referentes ao ensino de física nas séries iniciais ou Ensino Fundamental, publicados no VI ENPEC (2007), XI EPEF (2008) e XVIII SNEF (2009) a partir de palavras-chaves encontradas no título e nos resumos de cada um. Estes resumos foram lidos na íntegra e analisados segundo a Análise Textual Discursiva proposta por Moraes (2003), a qual vem sendo bastante utilizada em pesquisas cientificas. Segundo este autor, a análise textual cria espaços de reconstrução de significados dos fenômenos estudados, sendo estruturada a partir das seguintes fases: unitarização - fase em que os textos selecionados são fragmentados ou recortados a partir da interpretação do pesquisador, construindo unidades elementares de significados; categorização -essas unidades elementares de significados são reorganizadas e agrupadas a partir de suas semelhanças; metatexto - construções de textos interpretativos acerca das categorias emergentes.

Em seguida, construímos categorias que possibilitassem mapear as inserções curriculares de física nas séries iniciais, partindo inicialmente das categorias estabelecidas por Mozena e Ostermann (2008): metodologia - abrange os métodos que são utilizados durante o processo de ensino e aprendizagem; livro didático -trata dos conteúdos presentes nesses materiais, uso de analogias, adequação da linguagem e a articulação entre conteúdo e atividades e natureza do ensino - aborda as posturas, práticas, concepções do professor e conteúdos de ensino em relação à Ciência/Física, ou seja, como é e como acontece o ensino.

Entretando, tendo em vista as diretrizes metodológicas que utilizamos, elegemos duas novas categorias além daquelas trabalhadas pelas autoras formação de professores e espaços não-formais de educação - que entendemos ser pertinentes aos objetivos deste trabalho.

Conceituamos a categoria formação de professores como aquela referente aos trabalhos que abordam ou focam a formação inicial e continuada dos educadores buscando uma melhoria no ensino de ciências/física através da capacitação profissional. Este é um espaço fundamental de diálogo em prol da educação científico-tecnológica que requer o ensino de conhecimentos da física e da tecnologia, em conjunto com as diversas metodologias.

Compreendemos os espaços não-formais como aqueles que estabelecem processos educacionais fora da sala de aula, sem vínculos com os currículos, como

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por exemplo, os museus, centros e feiras de ciências, bem como as próprias escolas quando seus espaços são utilizados para atividades extra-curriculares.

## Resultados e discussão

Organizamos na tabela abaixo a quantidade total (T) de trabalhos publicados em cada evento (entre parênteses na coluna à esquerda) e os selecionados em nosso mapeamento para cada uma das categorias estabelecidas acima. A última coluna à direita refere-se ao total de trabalhos por nós analisados em cada evento.

Tabela 01: Número de trabalhos selecionados por evento segundo as categorias eleitas.

Observando a tabela 01, encontramos 24 trabalhos a respeito de metodologia, 02 de livro didático, 18 de natureza do ensino, 14 trabalhos de formação de professores e 02 de espaços não-formais, totalizando 60 trabalhos que formaram nosso Corpus . Foram encontrados também outros 07 trabalhos sobre espaços não-formais e 04 que realizam levantamento de pesquisas sobre a temática, importantes referências para nossas consultas, mas que não foram incluídos, por não atenderem aos objetivos deste mapeamento (não promovem inserção curricular). Na tabela 02, em anexo, destacamos alguns exemplares para cada categoria apresentada.

Dentre esses eventos, o XVIII SNEF foi o de maior proporção de trabalhos publicados. Verificamos também que os eventos apresentam um número bastante significativo de trabalhos qualificados na categoria metodologia e quase inexistentes na categoria livros didáticos, confirmando os resultados encontrados na pesquisa de Mozena e Ostermann (2008). Neste sentido, vemos o quanto os pesquisadores da

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área de ciências/física estão preocupados em criar ou discutir métodos de ensino para as séries iniciais.

Isso nos leva a inferir que os livros didáticos não estão dando suportes metodológicos suficientes para o professor. Sendo o representante da comunidade científica no contexto escolar, o livro didático deveria ser uma obra aberta, problematizadora da realidade, apresentando a ciência como fruto da construção humana, sócio-historicamente contextualizada. No entanto, tem se apresentado como um produto fechado, produzido para uma criança genérica, que não existem, exigindo do professor no momento da seleção do livro, pensar nos alunos reais, nas necessidades e possibilidades que lhe são características, o contexto real de vida dos alunos (NÚÑEZ et. al., 2003).

A esse respeito, Neto e Fracalanza (2003) afirmam que professoras da educação básica cada vez mais têm recusado adotar fielmente os livros didáticos postos no mercado, pois precisam fazer adaptações das coleções, tentando moldálas à sua realidade escolar e às suas convicções pedagógicas, tendo que reconstruir o livro didático adotado.

Diferentemente dos periódicos avaliados por Mozena e Ostemann (2008), os trabalhos encontrados na categoria natureza de ensino e formação de professores também foram bastante discutidos nos eventos, porém em números menores que a categoria metodologia.

Abordar as concepções que os professores têm sobre o ensino de ciências/física e a sua formação profissional continua sendo considerado muito preocupante para os pesquisadores da área, pois existe ainda um numeroso universo de professores das séries iniciais que apresentam concepções equivocadas do ensino de ciências/física por não compreenderem os seus conceitos científicos.

De acordo com Delizoicov e Angotti (1990) há uma lacuna muito grande na formação de professores das séries iniciais, atribuída à sua suposta rejeição ou dificuldade no que tange às disciplinas de cunho científico. Isso se deve ao fato de que, na formação docente um dos objetivos do curso é enfocar os conhecimentos de caráter metodológico e os fundamentos educacionais, deixando de abordar os conceitos específicos das disciplinas ministradas nas séries iniciais.

Por sua vez, os Parâmetros Curriculares Nacionais de Ciências Naturais (BRASIL, 1997) exigem a preparação de um professor de ciências para as séries iniciais do ensino fundamental que compreenda os conceitos físicos, para que evitem a disseminação de erros conceituais e também não se restrinjam a ensinar apenas os conceitos relacionados à Biologia.

O trabalho de Nascimento et al (2008) relata esta dificuldade apontada por professoras que responderam à entrevista realizada em diversas escolas do município de Ilhéus-BA, por exemplo, quando se trata do bloco recursos tecnológicos, dentro do qual os conhecimentos de física são fundamentais. As autoras concluem pela necessidade da Universidade ter uma atuação mais próxima das escolas da educação básica e propõem a realização de cursos de formação

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continuada que discutam a didática das ciências e desenvolvam conteúdos e metodologias próprios das ciências.

Em relação à categoria espaços não-formais com perspectiva de inserção curricular poucos trabalhos se fizeram presentes nesses eventos, talvez por se configurarem como locais de ensino (feiras, museus, centro de ciências) ainda pouco freqüentados ou utilizados por grande parte das escolas. Pensamos que as inserções curriculares podem acontecer efetivamente mediante planos de ação coletivos e colaborativos entre a escola e esses espaços, com ganhos significativos para ambos.

## Considerações finais

Nossas conclusões preliminares indicam que há um número significativo de trabalhos na área debatendo a temática em importantes fóruns de trocas de experiências, mas são quase inexistentes os trabalhos que analisam livros didáticos, como observado por Mozena e Ostermann (2008) no recorte dos periódicos nacionais.

As respostas aos desafios que julgamos serem de fundamental importância na formação do professor das séries iniciais (concepções equivocadas acerca da ciência e de seu ensino, dificuldades em compreender/trabalhar conhecimentos da física/ciências e na escolha do livro didático, metodologias voltadas para a construção do conhecimento a partir da experimentação), apresentadas, por exemplo, nos trabalhos destacados na tabela 02, mostram que a pesquisa em ensino de física nas séries iniciais estará se consolidando na próxima década.

Cabe perguntarmos se e como os resultados apresentados poderão vir a chegar ao professor em larga escala, pois os desdobramentos impõem a necessidade de repensar a formação inicial e continuada de professores para a Educação Básica e ao mesmo tempo reverter a falta de docentes formados no ensino superior para este nível de ensino.

Este movimento pode contrapor-se ao ritual de se ensinar palavras dispostas em livros didáticos sem a necessária significação e conceituação, algo muito presente nas aulas de ciências das séries iniciais. A esse respeito encontramos muitos trabalhos que propõem e avaliam seqüências ou atividades didáticas, mas poucos que avancem nos fundamentos da educação em ciências/física no contexto das séries iniciais.

## Agradecimentos

Ana Paula Solino agradece o apoio do programa PIBIC/UESC/CNPq.

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Tabela 02: Trabalhos exemplares encontrados de acordo com as categorias analisadas.

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