DISCUSSÕES ATUAIS SOBRE A INTERDISCIPLINARIDADE NO ENSINO DE CIÊNCIAS
Roseli Adriana Blümke Feistel, Sylvia Regina Pedrosa Maestrelli
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XIX
- Ano
- 2011
- Data
- 01/02/2011
- Linha de pesquisa
- Formação E Prática Profissional De Professores De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## DISCUSSÕES ATUAIS SOBRE A INTERDISCIPLINARIDADE NO ENSINO DE CIÊNCIAS
## Roseli Adriana Blümke Feistel , Sylvia Regina Pedrosa Maestrelli 1 2
- 1 Universidade Federal de Santa Catarina/Programa de Pós-Graduação em Educação Científica e Tecnológica, roselifeistel@gmail.com
## Resumo
O presente trabalho tem como objetivo apresentar um panorama das atuais discussões sobre interdisciplinaridade no ensino de Ciências, particularmente buscando evidenciar a inserção da interdisciplinaridade no contexto da formação inicial de professores de Ciências. Para a localização de trabalhos que apresentam tal discussão foram revisados os principais periódicos brasileiros da área de ensino de Ciências, quais sejam: Revista Ciência e Educação, Revista Investigações em Ensino de Ciências, Revista Brasileira de Pesquisa em Ensino de Ciências e Revista Ensaio e considerados todos os artigos publicados no período de janeiro de 2005 a agosto de 2010. Dentre esses, foram selecionados os artigos que apresentavam a palavra interdisciplinaridade no título ou no resumo. Para análise dos dados, classificou-se os artigos de acordo com os níveis de ensino e focos temáticos (SALEM e KAWAMURA, 2007) abordados. O foco temático que mais agregou trabalhos foi 'Formação inicial e continuada de professores', seguido pelo foco 'Processos de ensino-aprendizagem' e 'Materiais, métodos e estratégias de ensino'. Com relação aos níveis de ensino, verificou-se que há uma predominância de trabalhos voltados ao ensino médio, que correspondem a mais da metade do total de trabalhos identificados, seguido pelo ensino superior. Esse trabalho mostra que, apesar de existir uma preocupação da comunidade científica com a interdisciplinaridade no ensino de Ciências, ainda são poucos os estudos sobre esse tema, principalmente em relação à formação inicial de professores de Ciências.
Palavras-chave : Interdisciplinaridade, ensino de Ciências, formação de professores.
## Palavras iniciais
No contexto educacional, cada vez mais aumentam os debates em torno da questão da interdisciplinaridade, principalmente no âmbito da educação básica. Há uma necessidade emergente de integrar as disciplinas e de contextualizar os conteúdos de ensino de forma mais significativa. Em virtude disso, o termo interdisciplinaridade está cada vez mais presente em referenciais teóricos, documentos oficiais e no próprio vocabulário dos profissionais da educação. Contudo, a construção de um trabalho verdadeiramente interdisciplinar no contexto educacional, seja na educação básica ou no ensino superior, ainda encontra muitas dificuldades.
As discussões acerca do ensino interdisciplinar fundamentam-se em importantes referenciais teóricos, como Japiassu (1976), Santomé (1998), Lück (2007), Fazenda (2008; 2005) e Moraes (2008). É também referendada em documentos oficiais propostos pelo Ministério da Educação (MEC), como os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) (BRASIL, 2000; 1998) que são documentos normativos elaborados para serem trabalhados no ensino fundamental e médio em todo o país, e as Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs) para a formação de professores da educação básica, em nível superior, curso de licenciatura, de graduação plena (BRASIL, 2002). Tanto os referenciais teóricos como os documentos oficiais remetem à necessidade de discussão e reflexão em torno dos cursos de formação de professores na área de Ciências, de modo a ultrapassar a organização curricular disciplinar e avançar em direção a propostas interdisciplinares cada vez mais contextualizadas.
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Com base em Fazenda (2008), as discussões sobre a interdisciplinaridade surgiram na 1 Europa, especialmente na França e na Itália, em meados da década de 1960, num período assinalado pelos movimentos estudantis que, dentre outras reivindicações, exigiam um ensino mais sintonizado com as questões de ordem social, política e econômica da época. Diante disso, a interdisciplinaridade teria sido uma resposta a tal reivindicação, na medida em que os grandes problemas da época não poderiam ser resolvidos por uma única disciplina ou área do saber. Em outras palavras, os estudantes da época lutavam por uma nova universidade, uma nova escola.
No final da década de 60, a interdisciplinaridade chegou ao Brasil e logo exerceu influência na elaboração da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) Nº 5.692/71. Desde então, sua presença no cenário educacional brasileiro tem se intensificado, o que fica evidente, com a nova LDB Nº 9.394/96, com os PCNs e as DCNs para a formação de professores da educação básica.
No Brasil, segundo Fazenda (2008), a primeira produção sobre interdisciplinaridade é de Hilton Japiassu que, por sua vez, já alertava para a necessidade de uma postura interdisciplinar 2 mais crítica do cientista, sendo este um sujeito que pensa na sua produção como uma totalidade, não como o fragmento de um processo unilateral. Com relação às discussões sobre interdisciplinaridade destaca-se que Japiassu (1976) veio a trabalhar o conceito no campo epistemológico, enquanto Fazenda (2008) continua a produzir uma obra extensa no campo pedagógico.
Na concepção de Japiassu (1976), a interdisciplinaridade exige uma reflexão profunda e inovadora sobre o conhecimento, que demonstra a insatisfação com o saber fragmentado que está posto. Para tal, a interdisciplinaridade propõe um avanço em relação ao ensino tradicional, com base na reflexão crítica sobre a própria estrutura do conhecimento, com o intuito de superar o isolamento entre as disciplinas e repensar o próprio papel dos professores na formação dos alunos para o contexto atual em que estamos inseridos. Georges Gusdorf (1975, p. 27) apud Japiassu (1976), ressalta que a 'exigência interdisciplinar impõe a cada especialista que transcenda sua própria especialidade, tomando consciência de seus próprios limites para acolher as contribuições das outras disciplinas'.
Nessa perspectiva, Delizoicov e Zanetic (1993) enfatizam que a interdisciplinaridade 'respeita a especificidade de cada área do conhecimento, isso é, a fragmentação necessária no diálogo inteligente com o mundo e cuja gênese encontra-se na evolução histórica do desenvolvimento do conhecimento'. Além disso, ressaltam que 'ao invés do professor polivalente, a interdisciplinaridade pressupõe a colaboração integrada de diferentes especialistas que trazem a sua contribuição para a análise de determinado tema' (DELIZOICOV e ZANETIC, 1993, p. 13).
Pode-se afirmar que os autores estão em sintonia com o pensamento de Japiassu (1976, p. 74), o qual acredita que a 'interdisciplinaridade se caracteriza pela intensidade das trocas entre os especialistas e pelo grau de integração real das disciplinas, no interior de um projeto específico de pesquisa'.
A interdisciplinaridade aparece como um novo modo de reorganização das disciplinas científicas e de reformulação de suas estruturas de ensino podendo, muitas vezes, provocar atitudes de insegurança e de recusa, por se constituir num desafio. Frente a isso, seria adequado
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introduzir o ensino interdisciplinar utilizando as interfaces possíveis no espaço curricular disponível sem prejudicar o conteúdo curricular de cada disciplina, promovendo um processo de ensino e aprendizagem mais motivador para os alunos dentro de um contexto epistemológico, social e histórico. Paulo Freire (2006) dá respaldo nessas afirmações, pois, ao considerar o homem um sujeito histórico, afirma que o homem é um ser da práxis, da ação e da reflexão. Nas relações com o mundo, através de sua ação sobre ele, o 'homem se encontra marcado pelos resultados de sua própria ação. Atuando, transforma; transformando, cria uma realidade que, por sua vez, envolvendo-o, condiciona sua forma de atuar' (FREIRE, 2006, p. 28).
Assim, considerando tais discussões, o objetivo desse trabalho é apresentar um panorama sobre as atuais tendências da interdisciplinaridade no ensino de Ciências, particularmente buscando evidenciar a inserção da interdisciplinaridade no contexto da formação inicial de professores de Ciências, em periódicos nacionais, no período compreendido entre janeiro de 2005 e agosto de 2010.
## Procedimentos metodológicos
Procurou-se na revisão identificar os trabalhos publicados nos últimos cinco anos da comunidade de pesquisa em ensino de Ciências que referenciam a interdisciplinaridade. Para a localização desses estudos foram utilizados os principais periódicos brasileiros da área de ensino de Ciências avaliados pelo sistema Qualis, quais sejam: Revista Ciência e Educação (C & E), Revista Investigações em Ensino de Ciências (IENCI), Revista Brasileira de Pesquisa em Ensino de Ciências (RBPEC) e Revista Ensaio. Para o trabalho considerou-se os artigos publicados no período de janeiro de 2005 a agosto de 2010. A escolha desses periódicos se justifica por representarem um importante meio de divulgação da área de ensino de Ciências, ou seja, selecionou-se revistas que são representativas para a comunidade e que tem uma periodicidade estabelecida. Além disso, estas revistas também atendem a um critério de acessibilidade, uma vez que, todas estão disponíveis online. O período de seleção dos trabalhos foi adotado de forma arbitrária.
Inicialmente, localizou-se os artigos publicados nos periódicos da área de ensino de Ciências que tratavam do tema 'interdisciplinaridade" por meio da identificação da referida expressão nos campos título e resumo. Posteriormente, realizou-se uma leitura minuciosa do título e resumo de cada trabalho selecionado. Por fim, foram analisados somente os artigos que contemplam a interdisciplinaridade, produzindo uma descrição que permitisse evidenciar os níveis de ensino e categorizar os trabalhos de acordo com os focos temáticos descritos por Salem e Kawamura (2007), que analisaram os trabalhos de alguns Simpósios Nacionais de Ensino de Física. Importa destacar foram incluídos apenas textos nos quais a interdisciplinaridade era ponto central da discussão. Nos casos em que isso não ficou claro no resumo do trabalho realizou-se a leitura do texto completo.
A partir da identificação dos artigos nos diferentes níveis de ensino e da organização dos mesmos nos focos temáticos, apresenta-se a análise a respeito de como a interdisciplinaridade está sendo abordada nos trabalhos selecionados, evidenciando a importância de discussões acerca dessa temática na formação inicial de professores de Ciências.
## Estudos sobre interdisciplinaridade no ensino de Ciências
As revistas selecionadas publicaram 466 (quatrocentos e sessenta e seis) artigos no período de janeiro de 2005 a agosto de 2010. Dentre estes, somente quinze artigos apresentaram a palavra interdisciplinaridade em seus títulos, resumos e/ou palavras-chave, como mostrado na tabela 1.
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Tabela 01: Número total de trabalhos por periódico e de trabalhos analisados.
Os quinze artigos que articulam a interdisciplinaridade com o ensino de Ciências localizados nas quatro revistas são:
## Revista Ciência e Educação (C & E)
- 1) Apropriação discursiva do tema 'interdisciplinaridade' por professores e licenciandos em fórum eletrônico. REZENDE, F.; QUEIROZ, G. R. P. C. v. 15, n. 3, p. 459-478, 2009.
- 2) Mapeamento conceitual como estratégia para romper fronteiras disciplinares: a isomeria nos sistemas biológicos. CORREIA, P. R. M.; DONNER JUNIOR, J. W. A.; INFANTEMALACHIAS, M. E. v. 14, n. 3, p. 483-495, 2008.
- 3) Subsídios para o uso da história das Ciências no ensino: exemplos extraídos das geociências. SILVA, C. P.; FIGUEIRÔA, S. F. M.; NEWERLA, V. B.; MENDES, M. I. P. v. 14, n. 3, p. 497-517, 2008.
- 4) A construção coletiva interdisciplinar em educação ambiental no ensino médio: a Microbacia Hidrográfica do Ribeirão dos Peixes como tema gerador. LUCATTO, L. G.; TALAMONI, J. L. B. v. 13, n. 3, p. 389-398, 2007.
- 5) Interdisciplinaridade em ensino de Ciências e Matemática no ensino médio. LAVAQUI, V.; BATISTA, I. L. v. 13, n. 3, p. 399-420, 2007.
- 6) A interdisciplinaridade e o trabalho coletivo: análise de um planejamento interdisciplinar. WEIGERT, C.; VILLANI, A.; FREITAS, D. v. 11, n. 1, p. 145-164, 2005.
## Revista Investigações em Ensino de Ciências (IENCI)
- 1) Interdisciplinaridade escolar no ensino médio por meio de trabalho com projetos pedagógicos. BATISTA, I. L.; LAVAQUI, V.; SALVI, R. F. v. 13, n. 2, p. 209-239, 2008.
- 2) Os Parâmetros Curriculares Nacionais para as Ciências do ensino médio: uma análise a partir da visão de seus elaboradores. RICARDO, E. C.; ZYLBERSZTAJN, A. v. 13, n. 3, p. 257-274, 2008.
- 3) Dificuldades para a implantação de práticas interdisciplinares em escolas estaduais, apontadas por professores da área de ciências da natureza. AUGUSTO, T. G. S.; CALDEIRA, A. M. A. v. 12, n. 1, p. 139-154, 2007.
- 4) Os Parâmetros Curriculares Nacionais na formação inicial dos professores das Ciências da Natureza e Matemática do ensino médio. RICARDO, E. C.; ZYLBERSZTAJN, A. v. 12, n. 3, p. 339-355, 2007.
- 5) Desenvolvimento e avaliação de um sistema hipermídia que integra conceitos básicos de mecânica, biomecânica e anatomia humana. REZENDE, F.; GARCIA, M. A. C.; COLA, C. S. D. v. 11, n. 2, p. 239-259, 2006.
## Revista Brasileira de Pesquisa em Ensino de Ciências (RBPEC)
- 1) Física para uma saúde auditiva. BASTOS, P. W.; MATTOS, C. R. v. 9, n. 3, p. 1-29, 2009.
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- 2) O trabalho interdisciplinar no ensino médio: a reaproximação das 'duas culturas'. HARTMANN, A. M.; ZIMMERMANN, E. v. 7, n. 2, p. 1-16, 2007.
## Revista Ensaio - Pesquisa em Educação em Ciências
1) A inserção de conceitos científicos no cotidiano escolar. MANECHINE, S. R. S.; GABINI, W. S.; CALDEIRA, A. M. A.; DINIZ, R. E. S. v. 8, n. 1, p. 39-48, 2006.
- 2) Perspectiva pós-moderna e interdisciplinaridade educativa: pensamento complexo e reconciliação educativa. BATISTA, I. L.; SALVI, R. F. v. 8, n. 2, p. 147-160, 2006.
Como seria de esperar, as áreas do ensino mais presentes nos quinze artigos selecionados são de Física, Química, Biologia e Matemática. No entanto, foram observados também estudos que fazem articulações com a Educação Física, a Geografia, a História e as Artes. Com relação aos níveis de ensino, verificou-se que onze trabalhos estão voltados para o ensino médio, apenas dois trabalhos têm como foco o ensino superior e dois trabalhos referemse ao ensino médio e superior.
Para a classificação dos trabalhos utilizou-se os focos temáticos descritos por Salem e Kawamura (2007) para o ensino de Física, ligeiramente modificados nesse trabalho de forma que se adequassem ao ensino de Ciências. A tabela 2 apresenta esses dados.
Tabela 02: Número de trabalhos por foco temático e por periódico.
O periódico que mais publicou artigos sobre o tema interdisciplinaridade foi a Revista Ciência e Educação, seguido pela Revista Investigações em Ensino de Ciências. O foco temático que mais agregou trabalhos foi Formação inicial e continuada de professores (quatro trabalhos direcionados ao ensino médio, um para o nível superior e um trabalho para o ensino médio e superior), seguido por Processos de ensino-aprendizagem (dois trabalhos voltados para o ensino médio, um para o ensino superior e um para o ensino médio e superior) e Materiais, métodos e estratégias de ensino (três trabalhos voltados somente para o ensino médio). Os focos temáticos Currículo: diretrizes, seleção e organização do conhecimento e História, filosofia e sociologia da Ciência apresentam trabalhos com ênfase no ensino médio. A seguir, apresentam-se as principais ideias dos autores, por foco temático.
## Formação inicial e continuada de professores
Este foco temático agregou seis dos quinze trabalhos selecionados. Destaca-se o trabalho de Rezende e Queiróz (2009) o qual apresenta um projeto de formação docente entre professores da Universidade, licenciandos em Física e professores de várias disciplinas da escola pública buscando a implementação de um projeto pedagógico interdisciplinar nas escolas por meio do ambiente virtual InterAge. Nesta mesma direção, de parceria entre universidades e escolas, enfatiza-se o trabalho de Weigert, Villani e Freitas (2005) que apresenta o processo de
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construção de um trabalho coletivo e interdisciplinar desenvolvido entre escolas de ensino médio e instituições de nível superior. E, ainda, sob o mesmo enfoque, da formação continuada de professores, Lucatto e Talamoni (2007) discutem os resultados da realização de um curso de formação interdisciplinar de educadores voltado a Educação Ambiental.
Estudos que discutem como acontece a interdisciplinaridade entre os professores das áreas das Ciências Naturais e Humanas e quais são os fatores que a tornam eficaz fazem parte do trabalho de Hartmann e Zimmermann (2007). Ainda nesse sentido, Augusto e Caldeira (2007) analisam as principais dificuldades para a realização de projetos interdisciplinares nas escolas, apontadas por docentes da área de Ciências.
Os estudos apresentados até o momento discutem trabalhos que relacionam a interdisciplinaridade na formação continuada de professores de Ciências voltados ao ensino médio. Somente o trabalho de Ricardo e Zylbersztajn (2007) aborda a questão da interdisciplinaridade na formação inicial de professores de Ciências. Os autores investigam como estão sendo tratados os PCNs na formação inicial dos futuros professores de ensino médio nas disciplinas da área das Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias, bem como, verificam a opinião dos seus formadores acerca desses documentos e sua compreensão a respeito dos principais conceitos neles contidos, a saber, competências, interdisciplinaridade e contextualização.
Tal situação leva ao processo de reflexão acerca da inserção da interdisciplinaridade na formação inicial de professores de Ciências, uma vez que há pouca discussão sobre o assunto, apesar dos documentos normativos propostos pelo MEC, como os PCNs (BRASIL, 2000; 1998) e DCNs para a formação de professores (BRASIL, 2002) remeterem à necessidade de que a interdisciplinaridade faça parte da organização e desenvolvimento curricular na formação de professores.
## Processos de ensino-aprendizagem
Quatro trabalhos do total dos quinze relacionam a interdisciplinaridade ao processo de ensino-aprendizagem na área de Ciências. Correia, Donner Junior e Infante-Malachias (2008), por meio da utilização de mapas conceituais, buscam verificar as mudanças conceituais de estudantes de ensino médio após a realização de atividades didáticas. Os autores consideram que o processo de ensino-aprendizagem sob esta perspectiva auxilia a realização de práticas didáticas interdisciplinares. Rezende, Garcia e Cola (2006) apresentam um sistema hipermídia de aprendizagem (Biomec) que busca integrar conceitos físicos, biomecânicos e anatômicos envolvidos no movimento humano. O sistema hipermídia foi elaborado para ajudar no processo de ensino-aprendizagem com relação à abordagem interdisciplinar do conhecimento.
Bastos e Mattos (2009) mostram como os conhecimentos da Física podem ser utilizados como critérios para compreensão de aspectos de uma vida saudável. Para isso, utilizaram um enfoque interdisciplinar relacionando os conhecimentos da Física, da Fisiologia da audição e da Fonoaudiologia no sentido de compreender melhor as situações do cotidiano no que se refere a uma vida auditiva saudável apresentando a apropriação de um conhecimento interdisciplinar na representação de problemas ligados à poluição sonora. Por fim, Batista e Salvi (2006) discutem a perspectiva pós-moderna e a interdisciplinaridade educativa como uma prática possível de ser implementada no contexto escolar.
## Materiais, métodos e estratégias de ensino
Neste foco temático há maior preocupação com a implementação da estratégia de ensino enquanto recurso metodológico do que com a análise do processo de ensinoaprendizagem de Ciências de forma mais abrangente, como no foco anterior. Lavaqui e Batista (2007) apresentam propostas para a prática interdisciplinar no ensino de Ciências e de Matemática no ensino médio. Assim sendo, estabeleceram uma compreensão a respeito da
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interdisciplinaridade como prática educativa e, posteriormente, analisaram formas de entendimento e efetivação dessa temática no âmbito escolar. O estudo de Batista, Lavaqui e Salvi (2008) segue a mesma linha de raciocínio, ou seja, a realização de trabalhos com projetos interdisciplinares na escola. Os autores explicitam o resultado da investigação teórica, bem como da análise quanto à pertinência e possibilidade de implementação da proposta de trabalho interdisciplinar realizada em uma escola. Ainda com relação à esse foco temático, Manechine, Gabini, Caldeira e Diniz (2006) destacam a valorização do processo de aprendizagem enfatizando a integração de disciplinas e a contextualização do ensino por meio da produção de óleos essenciais, envolvendo conceitos científicos relacionados às disciplinas de Química, Matemática, Biologia e Geografia. Nos três trabalhos encontrados nesta temática percebe-se que há uma inquietação com a abordagem do ensino interdisciplinar nas escolas e que cabe, principalmente, ao professor planejar, organizar, dirigir e controlar o processo de ensinoaprendizagem com a finalidade de estimular e instigar os alunos a envolverem-se e apropriaremse do saber científico.
## História, filosofia e sociologia da Ciência
O trabalho de Silva, Figueirôa, Newerla e Mendes (2008) discute a relevância da utilização da História das Ciências no ensino de diferentes disciplinas, como: História, Língua Portuguesa, Ciências e Matemática. Os autores procuraram evidenciar a importância da História das Ciências, entendida como uma história que apresenta a ciência em toda a sua historicidade, como uma prática social e cultural que propicia a interdisciplinaridade.
## Currículo: diretrizes, seleção e organização do conhecimento
Apenas o trabalho de Ricardo e Zylbersztajn (2008) contempla o foco temático Currículo: diretrizes, seleção e organização do conhecimento . Nesse trabalho são abordados os pressupostos fundamentais presentes nos PCNs, a saber: a noção de competências, interdisciplinaridade e contextualização, sob o ponto de vista dos seus autores, na área das Ciências da Natureza, Matemática e suas Tecnologias. Afirmam que tais noções passaram a fazer parte do discurso de educadores, no entanto, isso não significa que suas práticas educacionais estejam em consonância com as propostas desses documentos, e uma das razões para isso é a dificuldade de compreender tais pressupostos e implementá-los em sala de aula.
## Interdisciplinaridade na formação inicial de professores de Ciências
Apesar da interdisciplinaridade ser um conceito que já vem sendo discutido há algum tempo (JAPIASSU, 1976; SANTOMÉ, 1998; FAZENDA, 2005, 2008; LÜCK, 2007; MORAES, 2008), ainda são poucos os trabalhos no sentido de mostrar sua legítima prática no âmbito da educação, conforme evidencia-se na revisão bibliográfica. Além disso, constata-se que o debate com relação às práticas interdisciplinares ainda continua sendo mais intenso na educação básica, particularmente no ensino médio, com poucos trabalhos voltados para o ensino superior, o que leva ao entendimento de que é preciso encontrar espaços para essa discussão, especialmente no âmbito da formação inicial de professores.
Considera-se que é, principalmente, na formação inicial dos professores que a perspectiva interdisciplinar de ensino precisa ser colocada em discussão de forma intensa. O caráter interdisciplinar do educador não se justifica como um modismo atual, mas sim, como uma necessidade inerente ao contexto educacional. Nessa perspectiva, reitera-se a ideia de que para desenvolver o ensino interdisciplinar torna-se necessário, entre outros aspectos, uma mudança de atitude do educador diante de uma nova forma de compreender o mundo, o que, consequentemente, provocará mudanças em sua prática pedagógica (FAZENDA, 2008; MORAES, 2008). A interdisciplinaridade apresenta-se como um grande desafio a ser assumido pelos educadores que buscam a superação de uma prática de ensino e aprendizagem
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tradicionais, pois apenas a partir da mudança conceitual no pensamento e na prática docente poderá ser apresentado aos alunos um saber não-fragmentado e contextualizado, o que lhes dará condições de pensar interdisciplinarmente.
Diante do exposto, é esperado que, aos poucos, os cursos de formação de professores revejam o seu papel junto à educação básica, buscando compreender aspectos da realidade escolar que estão em constante modificação. A exemplo disso, referencia-se o Curso de Licenciatura Plena em Ciências Naturais e Matemática da Universidade Federal de Mato Grosso - Campus Universitário de Sinop, em que já existe, por parte do grupo de professores formadores, a conscientização da necessidade de buscar condições teóricas e práticas para a atuação interdisciplinar na formação inicial de professores, ainda que apresentando dificuldades face às limitações de sua própria formação, concebida disciplinarmente.
Entende-se que a prática interdisciplinar exige envolvimento e comprometimento do professor, de modo a estar aberto para a troca de experiências e o diálogo coletivo, pois a interdisciplinaridade emerge da coletividade e da interação e troca de saberes entre os envolvidos no processo educativo. Sendo assim, a prática interdisciplinar pressupõe a superação do individualismo tanto dos sujeitos envolvidos no trabalho educativo quanto dos conhecimentos que necessitam da articulação e inter-relação das diversas áreas do saber no processo de ensino-aprendizagem.
As DCNs para a formação de professores da educação básica afirmam que a interdisciplinaridade é um dos elementos da organização e desenvolvimento curriculares, porém ainda persistem limitações. Desta forma, muito ainda há que se buscar para que se consolidem as propostas curriculares que envolvam práticas interdisciplinares na formação de professores. Em consonância com Libâneo (1998), entende-se que trabalhar interdisciplinarmente requer uma mudança conceitual no pensamento e na prática docente, pois não se pode exigir que os atuais licenciandos desenvolvam no exercício de sua profissão docente um ensino interdisciplinar se, em sua formação inicial, lhes apresentaram um saber fragmentado e descontextualizado, sob uma visão positivista do conhecimento. Nas palavras de Kleiman e Moraes (1999), o professor 'se sente inseguro de dar conta da nova tarefa. Ele não consegue pensar interdisciplinarmente porque toda a sua aprendizagem realizou-se dentro de um currículo compartimentado' (p. 24).
Considerando que o ensino superior pouco tem contribuído para que os alunos construam conhecimentos amplos e gerais, já que são levados a compreender partes de um todo distanciadas umas das outras, sem a preocupação em estabelecer relações entre elas sinaliza-se a importância de os profissionais envolvidos no processo de formação de professores refletirem constantemente sobre a sua prática e dialogarem coletivamente com seus pares, com a intenção de avançar cada vez mais em direção a propostas curriculares interdisciplinares no ensino superior. Assim, fundamentados em Delizoicov e Zanetic (1993), compreende-se que é possível a implementação de uma prática interdisciplinar que supere, aos poucos, a fragmentação dominante em relação à forma de selecionar os conteúdos escolares, frequentemente desvinculados dos aspectos históricos que lhes deram origem e afastados das questões atuais que estão presentes no cotidiano dos alunos.
## Considerações Finais
Esta revisão permitiu conhecer um pouco mais a respeito das discussões sobre interdisciplinaridade no ensino de Ciências no Brasil, identificando seus autores, alguns de seus conceitos e abordagens, e desta forma evidenciando os rumos que os estudos com enfoque na interdisciplinaridade estão tomando no país, bem como suas contribuições teóricas e práticas para o ensino de Ciências.
- O estudo mostra que a comunidade científica tem se preocupado com a interdisciplinaridade no ensino de Ciências, contudo ainda são poucas as pesquisas que a
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discutem, especialmente durante a formação inicial de professores de Ciências. Por outro lado, vale ressaltar a importância das discussões encontradas nos trabalhos selecionados, pois apresentaram contribuições significativas para a prática do ensino interdisciplinar na área de Ciências.
Em conformidade com a concepção de Fazenda (2005), entende-se que assumir a perspectiva interdisciplinar na educação é ter presente a ousadia da busca, da pesquisa, da transformação da insegurança num exercício do pensar, do construir permanentemente. Portanto, enfatiza-se a real necessidade de que os cursos de formação inicial de professores de Ciências levem em consideração nas suas propostas curriculares as características de um ensino interdisciplinar, de modo a oferecer possibilidades de formação de profissionais reflexivos aptos a promover um processo de ensino e aprendizagem mais significativo, com abertura para o diálogo crítico e transformador.
Em síntese, tendo em vista a revisão bibliográfica realizada nos principais periódicos brasileiros e os referenciais teóricos abordados e discutidos no decorrer desse trabalho, considera-se que, em geral, os cursos de formação de professores têm a tarefa de possibilitar a abertura de um espaço que favoreça a reflexão, a prática coletiva e o diálogo entre as diferentes disciplinas, visando a construção de um aprendizado contextualizado e significativo para os alunos que serão os futuros professores em nosso contexto educacional.
## Referências
AUGUSTO, T. G. S.; CALDEIRA, A. M. A. Dificuldades para a implantação de práticas interdisciplinares em escolas estaduais, apontadas por professores da área de ciências da natureza. Investigações em Ensino de Ciências, v. 12, n. 1, p. 139-154, 2007.
BASTOS, P. W.; MATTOS, C. R. Física para uma saúde auditiva. Revista Brasileira de Pesquisa em Ensino de Ciências, v. 9, n. 3, p. 1-29, 2009.
BATISTA, I. L.; LAVAQUI, V.; SALVI, R. F. Interdisciplinaridade escolar no ensino médio por meio de trabalho com projetos pedagógicos. Investigações em Ensino de Ciências , v. 13, n. 2, p. 209-239, 2008.
BATISTA, I. L.; SALVI, R. F. Perspectiva pós-moderna e interdisciplinaridade educativa: pensamento complexo e reconciliação educativa. Ensaio - Pesquisa em Educação em Ciências, v. 8, n. 2, p. 147-160, 2006.
BRASIL, Conselho Nacional de Educação. Ministério da Educação. Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica. Resolução CNE/CP nº 1, de 18 de fevereiro de 2002.
\_\_\_\_\_. Secretaria de Educação Média e Tecnológica. Parâmetros Curriculares Nacionais: Parte I, II, III e IV. Brasília: MEC, 2000.
\_\_\_\_\_. Secretaria de Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: Ciências Naturais. Terceiro e Quarto Ciclos. Brasília: MEC, 1998.
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