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DISCURSO NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE FÍSICA: UMA PROPOSTA METODOLÓGICA DE ANÁLISE EM NÍVEIS

Rodrigo Drumond Vieira, , Silvania Sousa Do Nascimento

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XIX
Ano
2011
Data
01/02/2011
Linha de pesquisa
Formação E Prática Profissional De Professores De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## DISCURSO NA FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE FÍSICA: UMA PROPOSTA METODOLÓGICA DE ANÁLISE EM NÍVEIS

## Rodrigo Drumond Vieira 1 , Silvania Sousa do Nascimento , 2

1

UFMG/FAE/DMTE, rodrumond@gmail.com

2 UFMG/FAE/DMTE, silnascimento@fae.ufmg.br

## Resumo

Neste trabalho situamos a questão dos métodos de segmentação do discurso em níveis no campo mais amplo das análises discursivas em salas de aula de ciências. Devido às especificidades na formação de professores de física, defendemos que metodologias específicas devem ser desenvolvidas para analisar o discurso neste campo, de modo que tais análises sejam realizadas em níveis e de maneira integrada. Argumentamos que essa abordagem em níveis oferece ensejo para que os segmentos discursivos dialoguem e ofereçam recortes relevantes para análises em uma perspectiva êmica. A seguir descrevemos a estrutura de segmentação em níveis para o discurso em sala de aula de formação de professores de física que o nosso grupo desenvolveu nos últimos anos. O referencial que informa nossa proposta é o da teoria da atividade, a partir do qual adaptamos os níveis de análise da atividade propostos por Leont'ev (1978) (atividade, ação, operação) de modo a fornecer os níveis de segmentação do discurso que propomos, aos quais incluímos um nível adicional - o episódio, entre os níveis da atividade e a ação. Finalmente, discutimos as possibilidades dessa proposta para as análises do discurso em salas de aula de ciências e formação de professores.

Palavras-chave : análise do discurso; níveis de análise; teoria da atividade; formação de professores de física.

## Introdução

A análise do discurso em sala de aula de ciências constitui atualmente um campo consolidado de pesquisa (KELLY, 2007). Alguns dos resultados desse campo apontam para características discursivas específicas em aulas de ciências, como os padrões de interação IRF e IRE, a dominância do discurso de autoridade e a predominância de formulações de questões pelo professor para as quais ele espera a resposta 'correta' (cf. LEMKE, 1990; MORTIMER & SCOTT, 2003). Com base nesses resultados, a comunidade de pesquisadores tem sugerido a necessidade de promover mais práticas argumentativas (JIMÉNEZ-ALEIXANDRE & ERDURAN, 2008) e dialógicas (MORTIMER & SCOTT, 2003) na educação em ciências.

Apesar de existir boa quantidade de literatura sobre o discurso na educação básica em ciências, relativamente pouca pesquisa tem sido investida na formação de professores (KELLY, 2007), em especial na formação de professores de física. Devido a especificidades discursivas no contexto de formação de professores, avaliamos que metodologias de análise específicas devem ser desenvolvidas para investigar o discurso em tais contextos. Dentre as várias questões inerentes ao desenvolvimento de uma metodologia para análise do discurso, vamos nos concentrar neste trabalho em apresentar um método para segmentar o discurso no contexto de formação de professores de física.

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Consideramos importante que as análises discursivas sejam realizadas em diferentes níveis de análise, cada qual responsável por um determinado tipo de segmentação do discurso. Nossa posição se justifica ao reconhecermos que o mapeamento do discurso em diferentes níveis é um aspecto metodológico fundamental para que os analistas possam realizar inferências e interpretações informadas por pistas contextuais de natureza diversa (e.g. CASTANHEIRA et. al, 2001; KELLY & CHEN, 1999).

Em consonância com essa perspectiva de mapeamento em níveis, nossa pesquisa tem se direcionado em compreender a emergência dos Procedimentos Discursivos Didáticos (PDDs) no discurso no espaço de formação de professores de física (cf. VIEIRA & NASCIMENTO, 2009). Fundamental para apresentar e compreender os PDDs de maneira situada, em acordo com o quadro da teoria da atividade que nos referencia (LEONT'EV, 1978), desenvolvemos um método para mapear o discurso segundo segmentações em diferentes níveis. Cada nível é relacionado aos outros e oferece ensejo para feedbacks que informam novas interpretações em um esquema auto-regulador (BEDNY & HARRIS, 2005). Na próxima seção apresentaremos em detalhes esse método.

## Método para segmentação do discurso em níveis

O corpus analisado que possibilitou a emergência do nosso método é composto de 44 horas de gravação em vídeo de uma disciplina de Prática de Ensino de Física. Notas de campo foram registradas ao longo de todo o curso e foram realizadas duas entrevistas com o professor formador (daqui em diante chamado apenas de 'formador') da disciplina, a primeira antes do início do curso e a segunda após o seu término.

Para realizar a segmentação do discurso em níveis, de maneira a compor um mapeamento auto-regulador (BEDNY & HARRIS, 2005), adaptamos os conceitos de níveis de análise de uma atividade, propostos por Leont'ev (1978). Nossa escolha se justifica pelo caráter estrutural da atividade humana que a proposta do autor representa.

De acordo com Leont'ev, toda atividade humana pode ser analisada segundo diferentes níveis: atividade (relacionada a um motivo/necessidade), ação (relacionada à satisfação de um objetivo consciente), e operação (relacionada a condições e métodos de realização da ação). Para a análise em sala de aula, modificamos ligeiramente esse modelo ao incorporar entre a atividade e a ação o nível do episódio (relacionado um tema comum e a uma cadeia de ações em que se possa identificar uma seqüência temporal e lógica de começo, meio e fim). O nível do episódio não é obrigatório, posto que nem sempre existe uma seqüência temática de ações com começo, meio e fim. Os demais níveis são obrigatórios.

Para cada nível temos um critério distinto para determinarmos um segmento específico. Apresentaremos resumidamente cada um desses critérios para todos os níveis.

## Nível da atividade (obrigatório) - motivo/necessidade/objetivo geral

Neste nível, o analista, a partir da leitura das notas de campo, infere para cada aula um motivo que surge de uma necessidade do formador. O motivo é o objeto (ideal ou material) que preenche uma necessidade e que caracteriza uma

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atividade (LEONT'EV, 1978). As notas de campo, pela possibilidade de poderem ser lidas em alguns minutos, dão ao analista uma perspectiva ampla dos eventos ocorridos em uma aula, daí o fato de as utilizarmos preferencialmente para inferências relacionadas à atividade. Ademais, o registro de notas de campo é prática comum em coleta de dados para análises discursivas de interações em salas de aula. Portanto, vamos considerar que elas formam um elemento constitutivo desse tipo de abordagem que não deve ser dispensado.

Optamos por considerar o segmento da atividade como uma aula, para a qual inferimos um motivo, necessidade e objetivo geral. Com essas informações o analista constrói o 'quadro de apresentação das aulas', o qual é construído para o conjunto de todas as aulas de um curso. Um pequeno trecho desse quadro para a aula que vamos utilizar como exemplo é apresentado no quadro 01.

Quadro 01 : 'Quadro de apresentação das aulas' caracterizando a atividade para a aula 9

## Nível da ação (obrigatório) - objetivo pragmático

Neste nível, o analista deve delimitar um objetivo pragmático para cada ação. Mas como segmentar as ações? Devido a dificuldades em delimitar um segmento de discurso a partir de um objetivo, optamos por delimitar o segmento primeiro para depois lhe atribuir um objetivo.

Nossa opção para recortar as ações se sustenta nas pistas de contextualização, conceito central à abordagem sociolingüística (GUMPERZ, 1982) que busca compreender as interações e significados produzidos discursivamente sob a ótica de uma perspectiva êmica, ou seja, a partir da perspectiva dos sujeitos envolvidos. Nessa perspectiva, buscamos recortar o discurso a partir da referência primária 1 ao vídeo por meio da identificação de pistas de contextualização, tais como entonação, pausas, movimento dos olhos, as quais podem também marcar mudanças no conteúdo e na direção do discurso.

Deste modo, montamos os quadros de narrativas (cf. VILLANI & NASCIMENTO, 2003) e nele delimitamos as fronteiras dos clipes, aos quais

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atribuímos modos de organização da linguagem, que chamamos de 'orientações discursivas', conceito adaptado da literatura sobre lingüística textual (reconhecemos as seguintes orientações discursivas: argumentação, explicação, descrição, narração, injunção, diálogo, cf. ADAM, 2008; BRONCKART, 1999; WERLICH, 1976). Atribuímos também, para cada clipe, narrativas das interações discursivas. Neste momento o analista busca ser mais imparcial, evitando julgamentos de valor. Após esse primeiro procedimento e a partir da leitura das narrativas de cada clipe, atribuímos em uma coluna separada um nome para cada clipe. Esse nome representa um resumo do clipe e constitui a sua ação principal. Na mesma coluna o analista acrescenta comentários, momento de maior parcialidade do analista.

Com base no nome do clipe e nas narrativas de clipes adjacentes, o analista atribui, em outra coluna, um objetivo pragmático para cada clipe. Este é um objetivo geral sob a perspectiva do formador que é inferido e confirmado pelo analista ao monitorar as correlações discursivas entre as condições imediatas (o que é de fato realizado discursivamente). Este objetivo pode ser explícito (enunciado pelo formador) ou implícito (não enunciado pelo formador). Chamamos esse procedimento de uma 'abordagem pragmática' para inferir objetivos.

Consideramos que a nossa 'abordagem pragmática' para inferir objetivos é um passo metodológico relevante para lidar com a tarefa de delimitar objetivos na pesquisa sobre o discurso em sala de aula de ciências. De fato, apesar de ser consolidada a perspectiva de que os seres humanos tentam satisfazer objetivos quando agem, um grande problema relaciona-se com a identificação e isolamento de tais objetivos. A teoria da atividade é fortemente baseada no conceito de ações humanas direcionadas por objetivos, mas essa teoria não nos provê ferramentas metodológicas para lidar com a identificação desses objetivos. A nossa 'abordagem pragmática' em parte supera essas dificuldades quando inferimos objetivos a partir do que é discursivamente realizado. De fato, não estamos preocupados se o formador tinha tais objetivos em sua mente quando ele agiu, mas estamos primariamente focados em como podemos lidar com objetivos através de correlações entre segmentos discursivos.

Todos esses passos metodológicos para o nível da ação estão ilustrados no quadro 02, em que apresentamos o 'quadro de narrativas' em que as categorias são explicitadas (pistas de contextualização, clipes, orientações discursivas, narrativas das interações, objetivos pragmáticos, ações). Nesse quadro, cada clipe representa uma ação específica do formador. O quadro de narrativas é construído para aulas selecionadas, geralmente seguindo critérios oriundos do 'quadro de apresentação das aulas' ou de outras escolhas do analista. No nosso caso, selecionamos a aula representada no 'quadro de narrativas' devido à presença de argumentação nessa aula.

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## Quadro 02 : O quadro de narrativas caracterizando as ações para a aula 9

## Nível da operação (obrigatório) - condições e métodos

Este nível relaciona-se às interações momento-a-momento entre os sujeitos. As operações são geralmente automáticas e buscam satisfazer o objetivo da ação à qual se vinculam (LEONT'EV, 1978). Consideramos que este nível e suas características estão em concordância com as características usuais do discurso momento-a-momento quando as pessoas interagem e falam. Isto é, as pessoas não são completamente conscientes dos significados que constroem quando falam e agem (GEE, 1999). Esses significados se subordinam ao objetivo de sua ação, às condições imediatas (palavras dos outros; as próprias palavras prévias do sujeito que fala; as condições materiais, etc.), ao gênero discursivo e à orientação discursiva a que pertencem.

É neste nível que recortamos os Procedimentos Discursivos Didáticos (PDDs) a partir de proposições unitárias de significado. Primeiramente, realizamos a transcrição dos clipes selecionados para análise. Terminada a transcrição, segmentamos o discurso em proposições unitárias de significado, montando assim os quadros proposicionais (cf. NASCIMENTO, 1999). Cada proposição é considerada a menor unidade de significado que podemos identificar através de características sociolingüísticas como as pistas de contextualização e também através de características lingüísticas, como a presença de verbos. Esse processo, por se respaldar em critérios sociolingüísticos, nos dá uma perspectiva êmica no recorte das proposições.

Após esse procedimento, as proposições cujos significados são 'convergentes ' são agrupadas e ganham um nome, constituindo assim um PDD 2

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específico. Os PDDs são, dessa forma, situados em uma atividade mais ampla, constituída por ações diversas (clipes) com seus objetivos e orientações discursivas específicas. A importância de segmentar o discurso deste modo se evidencia quando o analista pode perceber diferentes conjuntos ou funções dos PDDs para diferentes ações (clipes). Nossas análises evidenciaram que para um clipe (ação) argumentativo, os PDDs assumem funções bastante distintas daquelas de um clipe apenas dialogal. Estamos trabalhando no momento para especificarmos e contrastarmos PDDs explicativos com PDDs argumentativos. O quadro 03 ilustra uma parte desse recorte no clipe argumentativo da aula 9 em unidades proposicionais e o seu agrupamento em PDDs. As proposições constam numeradas no lado esquerdo e os PDDs do lado direito, sendo que a numeração no lado direito do quadro se refere ao conjunto de proposições que compõem um determinado PDD.

Quadro 03: Trecho do quadro proposicional para o clipe argumentativo da aula 9

## Nível do episódio (facultativo) - conjunto de ações com começo, meio e fim com tema comum

Nós acrescentamos este nível à estrutura de níveis proposta por Leont'ev de modo que ele se situa entre o nível da atividade e da ação, sendo composto por um conjunto de ações com um tema comum que compõe um todo com começo, meio e fim, ou seja, um episódio. Nossa opção em acrescentar este nível se deve ao nosso reconhecimento de que o discurso em sala de aula é episódico por natureza (MCDONALD & KELLY, 2007; LEMKE, 1990), e que nem sempre uma ação (clipe) representa um episódio.

- O conteúdo temático é central para a definição deste recorte, juntamente com o reconhecimento da estrutura lógica de começo, meio e fim. A figura 01 representa a aula (atividade), os clipes (ações), os PDDs (operações) e o episódio como a soma dos clipes argumentativo e dialogal.

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Figura 01: representação esquemática do fluxo dos níveis de análise para a aula 9

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## A estrutura dos níveis analíticos

A partir das considerações realizadas, podemos sintetizar a nossa proposta em uma estrutura de análise em níveis. Esta estrutura é similar e se baseia na estrutura de Leont'ev, (1978), mas se diferencia dela porque foi desenvolvida especificamente para análise em níveis de salas de aula de formação de professores de física. Temos expectativas de essa estrutura em níveis possa ser utilizada também em salas de aula de física e ciências na educação básica. A tabela 01 abaixo representa a nossa estrutura de análise em níveis.

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Tabela 01: Estrutura dos níveis de análise propostos

## Considerações finais

A análise do discurso em sala de aula em níveis é uma prática comum em abordagens etnográficas (cf. KELLY &amp; CHEN, 1999; CASTANHEIRA et. al, 2001). Nossa proposta de análise em níveis se destaca por se basear em uma teoria do desenvolvimento humano - a teoria da atividade - e na sua adaptação para o contexto específico de sala de aula de formação de professores de física. Deste modo, a teoria da atividade nos informa, ao mesmo tempo em que as adaptações que dela fizemos colaboram para informar a sua aplicabilidade em contextos específicos de ensino e aprendizagem formais. Numa perspectiva de análise do discurso, as modificações a adaptações de uma teoria são sempre esperadas (GEE, 1999), posto que diferentes analistas se orientam por problemáticas e objetivos distintos. Essas adaptações constituem o que Gee (1999) chama de 'sopa' metodológica.

A nossa 'sopa' metodológica tem se mostrado útil para compreender o 'ritmo discursivo' em salas de aula de formação de professores de física a partir da compreensão dos PDDs do formador de maneira integrada e auto-reguladora (cf. VIEIRA &amp; NASCIMENTO, 2009; VIEIRA &amp; NASCIMENTO, aceito). Consideramos que o processo de análise em níveis é fundamental para a análise e compreensão desse 'ritmo', de modo que cada nível oferece contexto e feedback para o próximo nível, além de oferecer pistas interpretativas e critérios de seleção para ovos recortes analíticos.

Nossa inclusão de um quarto nível - o episódio, facultativo - na estrutura de análise em níveis se deve à natureza episódica do discurso nos contextos de salas de aula de ciências, conforme documentado na literatura que consultamos (LEMKE, 1999; MCDONALD &amp; KELLY, 2007).

Por fim, somente o uso e adaptação dessa proposta para outros contextos de pesquisa (ensino de ciências para o ensino fundamental e médio e outros contextos de formação de professores de física e ciências) podem sinalizar para a sua validez e flexibilidade. Estamos atualmente em fase de aumentar as análises qualitativas para outros corpus e aplicar a nossa estrutura de maneira mais exaustiva ao corpus que dispomos.

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## Referências

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XIX Simpósio Nacional de Ensino de Física - SNEF 2011 - Manaus, AM 10

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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.