RELATO DE INVESTIGAÇÃO REALIZADA POR ALUNAS DO ENSINO MÉDIO SOBRE CONCEPÇÕES DE CIÊNCIA, FÍSICA, MATEMÁTICA, QUÍMICA E BIOLOGIA
Bruno Marques-Dos-Santos
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XIX
- Ano
- 2011
- Data
- 01/02/2011
- Linha de pesquisa
- Formação E Prática Profissional De Professores De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
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## RELATO DE INVESTIGAÇÃO REALIZADA POR ALUNAS DO ENSINO MÉDIO SOBRE CONCEPÇÕES DE CIÊNCIA, FÍSICA, MATEMÁTICA, QUÍMICA E BIOLOGIA
Bruno Marques-dos-Santos 1
1 Secretaria de Educação do Estado de São Paulo lotado na Escola Estadual Prof. Sebastião Inoc Assumpção e Faculdade de Ciências - UNESP/Bauru - SP, e-mail: brunomarsantos@gmail.com
## Resumo
Este é um relato de uma situação de aprendizagem desenvolvida fora da estrutura convencional da sala de aula. Conversando sobre física com um grupo de quatro alunas da segunda série do ensino médio, um fato inquietante surge. Elas não consideravam física uma ciência e quando questionadas sobre o que seria ciência, a relacionavam com pesquisas sobre remédios, doenças e estudo do corpo humano. Tal foi o incômodo do professor que as próprias alunas questionaram 'O que é ciência então?'. Não querendo dar de pronto uma resposta, mas sim aproveitar o momento para construir e aprofundar conceitos, juntos, professor e alunas, estruturam um projeto de investigação para entender a relação entre ciência e as disciplinas que estudam na escola - física, química, biologia e matemática - e, concomitantemente, investigar se as concepções que elas apresentavam era comum de outros alunos da escola. No presente trabalho serão expostos os dados levantados por meio de questionários e será descrito o processo no qual se estruturou a atividade. São destacados ao final do artigo reflexões oriundas dessa situação de aprendizagem. O fato mais interessante é que nada foi planejado previamente e a participação das alunas foi notória. As concepções de ciência, física e matemática foram significativas, pois dessa atividade resultaram três apresentações que caracterizavam e situavam a física e a matemática dentro das ciências. Como a situação de aprendizagem é recente, o presente trabalho se enquadra na condição de relato. Mas os dados obtidos serão aprofundados com busca de referencial teórico adequado.
Palavras-chave : Ensino por investigação, Relato, Ensino de ciências
## 1. Introdução
Este é o relato de uma experiência ocorrida na Escola Estadual Prof. Sebastião Inoc Assumpção nos meses de agosto e setembro de 2010 e mostra a importância do diálogo entre professor e alunos na construção de situações de ensino/aprendizagem fora dos moldes escolares habituais - Carteiras enfileiradas, alunos ouvindo o professor como se estivessem em uma palestra, ações reguladas por 'vistos' ou notas, salas lotadas que inviabilizam a discussão entre pares.
Em conversa com algumas alunas da segunda série do ensino médio, sem a tensão de se trabalhar conteúdos específicos de física, mas discutindo a física de modo geral, chegou-se à questão: 'Física é ciência?'. Para as alunas, física não era ciências e quando questionadas sobre o que era ciência a final, suas respostas eram: estudo de doenças, corpo humano, desenvolvimento de remédios, ou seja, muito parecido com o currículo de ciências do ensino fundamental anterior à proposta do estado de São Paulo que é de 2008.
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Também podemos atribuir a relação entre cientista e medicamentos devido a ênfase da mídia em desenvolvimento científico na área de busca de medicamentos para doenças. O fato é que essa discussão inquietou tanto professor quanto alunas.
Aproveitando tal motivação e não querendo perder a oportunidade de desenvolver competências de pesquisa e estudo entre elas, o professor de física propõe uma pesquisa para se responder 'O que é ciência?'. As próprias alunas propõem mais, querem saber a relação entre ciência, física, biologia, química e matemática e se as concepções apresentadas por elas estão presentes entre os colegas de turma. Inicia-se, então, uma investigação.
Este trabalho visa analisar a atividade desenvolvida pelas alunas sob a perspectiva da Aprendizagem Baseada em Problemas e relatar os dados obtidos pelas alunas em sua pesquisa sob a orientação do professor. É considerado o mérito das mesmas nos dados levantados, porém não serão colocados seus nomes (por enquanto) devido serem menores de idade e toda a burocracia recorrente.
## 2. Estrutura da Pesquisa e a Aprendizagem Baseada em Problemas
A estrutura da pesquisa foi pensada considerando conceitos da estratégia da Aprendizagem Baseada em Problemas (ABP). Isso foi possível - mesmo a atividade tendo sido desenvolvida espontaneamente em meio a um diálogo sobre ciências sem finalidades objetivas, mas buscando um entendimento coletivo - porque o professor está desenvolvendo uma pesquisa para dissertação de mestrado sobre essa estratégia de ensino/aprendizagem para uso no ensino médio. Será então analisado quais conceitos da ABP foram contemplados por essa atividade.
## 2.1 Problema
- O primeiro conceito utilizado foi o de problema. Este é o elemento mais importante da proposta, pois guiará o aluno na busca de conhecimentos específicos para sua solução. Deve ser acessível, de fácil compreensão, fazendo parte de seus conhecimentos prévios para não desmotivá-los em sua pesquisa, pois, se encontrarem dificuldades logo na compreensão do problema, estes podem desistir da atividade logo em seu início.
Os problemas devem ser tão reais quanto possíveis e podem ser formulados tanto por especialistas (BERBEL, 1998) quanto pelos próprios alunos após o tema ser a eles apresentado por um contexto (PALMA e LEITE, 2006). O importante é a situação ser encarada como um problema, pois
- '... uma situação somente pode ser concebida como um problema na medida em que exista um reconhecimento dela como tal, e na medida que não disponhamos de procedimentos automáticos que nos permitam solucioná-los de forma mais ou menos imediata, sem exigir, de alguma forma, um processo de reflexão ou uma tomada de decisões sobre a seqüência de passos a serem seguidos' (POZO, 1998, p. 15).
A situação contemplou a dimensão de problema, pois foi formulado pelas próprias alunas e gerou inquietação, entretanto, era necessário planejar ações para responder o problema da relação entre ciência e as matérias estudadas na escola física, biologia, matemática e química.
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## 2.2 Grupos Tutorais
- O estudo em grupos tutoriais é outra característica da ABP. A discussão em pequenos grupos favorece o diálogo entre os alunos, uma vez que de outra forma, aqueles que são mais tímidos ou menos confiantes dificilmente se exporiam para toda a turma.
- O número de integrantes especificado na literatura varia com os autores. Segundo os referenciais da pesquisadora Andrade (2007), os grupos tutoriais devem conter de 6 a 7 alunos. Berbel (1998) cita algo entre 11 e 12, mas deve ser levado em consideração para a construção destes grupos o nível de ensino no qual se trabalha e a complexidade dos problemas.
Independente do número de integrantes que contenha o grupo, é necessário que um aluno assuma o papel de coordenador e outro o papel de secretário. O primeiro irá coordenar as discussões e traçar, coletivamente, os passos para a resolução do problema proposto. O segundo anotará as ideias e sugestões do grupo. As funções de coordenador e de secretário devem ser trocadas entre os membros do grupo a cada problema, como em um sistema de rodízio.
Na atividade que está sendo analisada não houve uma divisão de tarefas em grupo. Foi estabelecido coletivamente os objetivos da atividade. O professor sugeriu que as alunas planejassem a investigação entre elas e depois entregassem um planejamento da atividade proposta. O Quadro 01 mostra esse planejamento nos próprios termos das alunas.
Quadro 0 : 1 Plano de Atividades
## Planejamento e Organização do Trabalho
Estabelecer a divisão de tarefas;
Pesquisas;
Criação de perguntas e levantamento de dúvidas;
Entregar as perguntas para o professor;
Correção;
Aplicar o questionário para a sala;
Conferi-lo e ver quais são as dúvidas e curiosidades dos colegas;
Juntar tudo e pesquisar novamente;
Reunir-se para discutir como vai ser o planejamento da apresentação e como será montada;
Montar a apresentação;
Conclusão do trabalho;
Apresentação para a sala.
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Importante ressaltar que foi dado a liberdade para que as alunas se organizassem sozinhas. Ao entregar o planejamento para o professor, junto estavam as questões elaboradas para levantar as concepções de ciência dos colegas.
Foi sugerido que antes de concluir e utilizar o questionário com a própria turma, que era foco da investigação das alunas, fosse utilizar o questionário primeiramente com outros alunos, a fim de melhorar ou modificar algumas perguntas do questionário, tentando prever possíveis complicações na obtenção das informações.
Ficou estabelecido que o questionário teria questões fechadas de caráter quantitativo, seguidas de questões abertas.
## 2.3 Estudo Individual
Na ABP, entre um e outro encontro do grupo tutorial os integrantes devem realizar pesquisas individuais, previamente decididas no grupo, de forma a contribuir na elaboração de uma solução ao problema proposto (ANDRADE, 2007; BERBEL, 1998, Junior et all , 2008).
Não é possível, ainda, analisar essa dimensão adequadamente, pois a relação entre professor e alunas era como o de um tutor, apontando caminhos e suscitando mais questionamentos. Para saber como se deu a pesquisa entre as alunas é necessário uma entrevista particular com cada integrante.
## 3. Dados Obtidos na Investigação
Após o refinamento das questões, e depois de construírem suas próprias concepções sobre ciência e as disciplinas física, matemática, química e biologia, o questionário foi aplicado à 10 alunos da segunda série do ensino médio e 5 alunos da terceira série do ensino médio. Os dados foram organizados pelas próprias alunas em forma de apresentação de slides. Será respeitado aqui a forma como elas preferiram mostrá-los.
Tabela 0 1 : Dados levantados por questionário
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## 4. Discussão
Classificar a atividade realizada pelas alunas como investigação qualitativa não seria de todo errado. O processo como se desenvolveu a atividade, as motivações, as ações de busca por conhecimento e os dados levantados produziram reflexões muito profundas tanto às participantes quanto ao professor. De acordo com Bogdan e Biklen (1999)
Em investigação, o termo 'plano' é utilizado como um guia do investigador em relação aos passos a seguir. Na investigação qualitativa em educação, o investigador comporta-se mais de acordo com o viajante que não planeja do que com aquele que o faz meticulosamente (BOGDAN e BIKLEN, 1999, p. 83).
Assim, o início da estratégia de ensino se deu de forma aberta, sem estruturação, mas a existência de alguns elementos foram fundamentais para o desenvolvimento da atividade como, por exemplo, o contato do professor com a pesquisa em ensino de ciências, a boa relação entre professor e alunos possibilitando o diálogo e o compromisso das participantes com a atividade.
Desse pequeno relato, muitas reflexões podem ser originadas sobre o ensino de ciências e a formação de professores. Por exemplo:
- 1) A que fatores podemos atribuir ao desenvolvimento de uma atividade diferenciada de ensino/aprendizagem como a que se deu, senão ao contato do professor com a pesquisa em ensino de ciências?
- 2) O gênero dos alunos influenciam seu envolvimento em situações de aprendizagem?
- 3) O ensino que envolve o aluno em pesquisa de conceitos seria uma forma de aproximá-los das ciências e desmistificar a física como uma disciplina dedicada a fórmulas sem sentido?
- 4) Quais as limitações da Aprendizagem Baseada em Problemas, desconsiderando as de ordem social e estrutural da escola - como salas com número excessivo de alunos, problemas sociais, etc. - sob uma perspectiva de teoria crítica?
Quanto aos dados coletados durante a atividade, cabem as indagações:
- 5) As concepções de ciência, física, matemática, química e biologia mostradas no levantamento de dados da atividade são encontradas entre os professores que ministram tais disciplinas no ensino médio?
- 6) Será que a prática de sala de aula permite que os alunos construam uma visão correta de ciência?
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Muitos outros dados foram levantado na estratégia de ensino. Para avaliar o aprendizado das alunas, estas organizaram três apresentações que foram realizadas ao professor. A primeira explicitava os dados obtidos pelos questionários respondidos pelos colegas. A segunda explicava suas novas concepções sobre ciências e explicava com certo grau de detalhes a física e suas áreas. A terceira apresentação tratava apenas da matemática e, como foi feito com a física, mostrava pequenas sínteses de suas principais áreas.
Compartilhar essa experiência com pesquisadores da área tem como objetivo mostrar a riqueza de conhecimento que pode ser originado quando professor e alunos se propõem a construírem um ambiente propício à pesquisa. O ganho da atividade não foi os dados levantados, mas sim o processo de formação das alunas estabelecido durante o período da atividade.
Cabe agora uma análise teórica mais profunda, tanto da situação que se descortinou quanto dos dados levantados, para a área de pesquisa em ensino de ciências.
## Referências
ANDRADE, Mariana Aparecida Bologna Soares. Possibilidades e limites da aprendizagem baseada em problemas no ensino médio. 2007. 181 f. Dissertação (Mestrado) - Universidade Estadual Paulista. Faculdade de Ciências, Bauru, 2007.
BERBEL, N. A. N. A problematização e a aprendizagem baseada em problemas. Interface - Comunicação, Saúde, Educação . Botucatu, p. 139-154, Fev. 1998.
BOGDAN, Roberto C. e BIKLEN, Sari Knopp. Investigação qualitativa em educação. Tradução Maria João Alvarez, Sara Bahia dos Santos e Telmo Mourinho Baptista. Porto: Porto Editora, 1999.
JUNIOR, A.C.C. et all. Aprendizagem baseada em problemas: uma nova referência para a construção do currículo médico. Revista Médica de Minas Gerais. v. 18, n. 2, p. 123-131, 2008. Disponível em:
<http://www.medicina.ufmg.br/rmmg/index.php/rmmg/article/viewArticle/11> Acesso em: 20 de jul. 2010.
PALMA, C.; LEITE, L. Formulação de questões, educação em ciências e aprendizagem baseada na resolução de problemas: um estudo com alunos portugueses do 8º ano de escolaridade. In: CONGRESSO INTERNACIONAL PBL, 2006, Peru. Disponível em <http://repositorium.sdum.uminho.pt/handle/1822/5541>. Acesso em: 27 de jul. 2010.
POZO, Juan Ignácio (Org.). Solução de problemas : Aprender a resolver, resolver para aprender. 1. ed. Porto Alegre: Artes médicas Sul, 1998.
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