ENSINANDO A ENSINAR FÍSICA NAS SÉRIES INICIAIS: ESTUDO EM MANUAIS DESTINADOS AOS PROFESSORES
Tânia Braga Garcia, , Fernanda Esthenes Do Nascimento
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XIX
- Ano
- 2011
- Data
- 01/02/2011
- Linha de pesquisa
- Formação E Prática Profissional De Professores De Física
- Tipo
- Comunicação
Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do SNEF 2011
Texto completo
## ENSINANDO A ENSINAR FÍSICA NAS SÉRIES INICIAIS: ESTUDO EM MANUAIS DESTINADOS AOS PROFESSORES
Tânia Maria F. Braga Garcia¹ , Fernanda Esthenes do Nascimento² * **
¹UFPR/PPGE, taniabraga@pq.cnpq.br ²UFPR/Licenciatura em Física, esthenes@yahoo.com.br
## Resumo
Relata resultados de investigação realizada no âmbito do projeto 'Ensinando a Ensinar Física: Manuais didáticos de orientação aos professores' que faz parte de um projeto mais amplo denominado 'Ensinar a Ensinar: Manuais destinados à formação de professores no Brasil cujo objetivo é catalogar e analisar manuais de Didática e Metodologia de Ensino. Esses manuais foram concebidos como materiais que poderiam contribuir para formação de professores, ensinando a ensinar, e foram publicados no Brasil desde o século XIX. Assim, são tomados como elementos visíveis do código disciplinar dessas disciplinas e contribuem para a compreensão de formas de ensinar que tem sido utilizadas nas escolas brasileiras, em diferentes disciplinas escolares.Neste caso específico, foram localizados e catalogados livros de Didática Geral que incluem capítulos ou seções de orientação para o ensino de Ciências e Física, de Didática das Ciências, Metodologia de Ciências, de Didática da Física e de Metodologia de Ensino de Física. O texto apresenta os resultados gerais da organização do acervo e analisa dois manuais identificados, sendo o primeiro publicado em 1930 e o segundo publicado em 1998, após a divulgação dos Parâmetros Curriculares Nacionais. Ambos destacam a importância do ensino de Física nas séries iniciais e tem como a finalidade orientar professores dessa etapa da escolarização. A intenção foi verificar em que aspectos os dois manuais, separados em sua publicação por cerca de 60 anos, se aproximam e se distanciam, evidenciando objetivos, temas e estratégias de ensino sugeridas.
Palavras-chave : Manuais didáticos - Formação de professores - Física nas séries iniciais
## Introdução
O livro didático, recurso de grande presença no ensino, mas antes disso, um elemento de grande força na constituição da cultura escolar, é comparado a um caleidoscópio por Johnsen (2001) pela diversidade de olhares que esse objeto abre aos pesquisadores interessados em estudar sua produção, circulação e consumo.
Para a pesquisa educacional, os livros ou manuais didáticos nem sempre foram considerados como objeto científico relevante. Segundo Choppin, negligenciado pelos historiadores e bibliófilos durante muito tempo 'os livros didáticos vêm suscitando um vivo interesse entre os pesquisadores de uns trinta anos para cá', o que evidencia a expansão e o fortalecimento de um campo de investigação específico ao mesmo tempo em que alerta para as dificuldades inerentes a essa situação, mesmo porque, segundo o autor, se trata de um objeto 'complexo'. (2004, p.552).
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
30 de janeiro a 04 de fevereiro de 2011
De forma geral, na produção acadêmica, análises das tendências temáticas de investigação sobre manuais escolares indicam que os livros destinados aos alunos tem sido preferentemente tomados como objeto, seja no campo da pesquisa em História da Educação, seja no campo da investigação da Didática e das Práticas Escolares, constatação que também se aplica ao caso particular das Ciências. Ferreira e Selles (2004), ao examinar dezessete artigos produzidos a partir da década de 1980, onze dos quais referidos a Física, concluem sobre a existência de várias formas de abordagem do objeto, mas apontam, neste caso, a concentração absoluta dos estudos em torno de questões relativas ao conteúdo dos livros para os alunos - erros conceituais, estruturação na forma de apresentação, assuntos/ temas específicos, comparação com idéias alternativas ou espontâneas ou de senso comum dos alunos, presença de analogias, uso do cotidiano, entre outros.
Contudo, segundo Guereña, Ossenbach e Pozo (2005), o estudo sistemático dos manuais usados em instituições de formação de professores, embora incipiente na Iberoamérica, é um tema que vem ganhando espaço, indicando que tais investigações podem contribuir para 'oferecer dados relevantes para conhecer os processos de profissionalização de mestres e professores nos dois últimos séculos' (p. 26). De forma semelhante, no caso brasileiro a pesquisa sobre esse tipo particular de manual é restrita a estudos como os que se referem à leitura de professores e às coleções destinadas a professores (VIDAL, 2001; CARVALHO, 2001; MONARCHA, 1997). Também há estudos sobre os manuais destinados a professores em algumas disciplinas específicas, como a História (SCHMIDT, 2005) ou a Didática (GARCIA, 2003; 2007) e trabalhos que visam (re)construir a história dos manuais brasileiros, como o de Silva (2008).
No entanto, a necessidade de organizar acervos e desenvolver estudos ainda exige esforços de grupos de investigação que buscam relações entre a temática dos livros didáticos e a formação de professores, como apontado por Bufrem, Schimdt e Garcia (2006). Por outro lado, a pouca incidência de estudos estimula a produção de novas abordagens desse objeto, direção escolhida na pesquisa aqui apresentada que toma os manuais como 'elemento visível do código disciplinar', conceito apropriado a partir de Cuesta Fernández (1998) e que abre possibilidades de estudar a construção da Didática Geral e das Didáticas Específicas como disciplinas escolares.
## A pesquisa sobre manuais didáticos: lacunas e possibilidades
Para Choppin (2004, p. 551), o interesse em estudar os livros pode ser justificado pela 'onipresença - real ou bastante desejável - de livros didáticos pelo mundo e, portanto, o peso considerável que o setor escolar assume na economia editorial nesses dois últimos séculos'. Contudo, isso não evita um conjunto de dificuldades, algumas derivadas do caráter recente desse campo de pesquisa, outras da ausência de obras de síntese, ou ainda da impossibilidade de recenseamento das inúmeras obras produzidas em diferentes línguas, em diferentes países.
Quanto à natureza das investigações, estudos que mapearam a produção de pesquisas sobre os manuais permitem identificar a existência de diferentes linhas ou abordagens, que já agregam um número significativo de estudos e permitem constatar o fortalecimento quantitativo e qualitativo desse campo, particularmente com relação aos estudos de natureza histórica sobre livros e edições. (Choppin, 2004).
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
A análise das tendências temáticas de investigação aponta que, no caso brasileiro, o estudo sistemático dos manuais usados em instituições de formação de professores ou a eles destinados ainda revela uma lacuna nesse campo. Em trabalho sobre o tema, Bufrem, Schmidt e Garcia (2006, p. 1) afirmam que 'os estudos sobre publicações didáticas têm sido realizados por pesquisadores e especialistas das várias áreas do conhecimento e têm privilegiado, especialmente, a análise dos manuais destinados a alunos', ao passo que as pesquisas sobre manuais destinados aos professores ainda são pouco numerosas. Particularmente com relação aos manuais das Didáticas Específicas há poucos estudos desenvolvidos, o que justifica a investigação aqui apresentada. 1
Esses manuais podem ser compreendidos na perspectiva de materiais curriculares para a formação docente que, ,a partir do final do século XIX, foram produzidos e comercializados, com a intenção de levar orientações aos professores, ou em outras palavras, para 'ensinar a ensinar'. Enquanto uma categoria particular entre os manuais escolares, uma vez que são diferenciados predominantemente pelos leitores a que se destinam, pode-se defender a posição de que tais obras talvez tenham sido relativamente muito mais importantes do que os livros para alunos. Relembrando que o ensino - do ler, escrever, contar - era inicialmente restrito a poucos, que os livros eram caros e pouco difundidos, e que os professores não eram numerosos e com formação pouco específica, pode-se entender que os manuais para professores tenham tido um importante lugar na construção da cultura escolar, reafirmando-se tal significado em especial nos momentos em que novas disciplinas passam a compor o currículo, ou que se exige uma atualização de conhecimentos pelos professores. (OSSENBACH; SOMOZA, 2001).
Nesta pesquisa coloca-se em evidência a presença de dois tipos de manual na cultura escolar, voltados aos professores e com a finalidade específica de orientá-los em sua função de ensinar, os quais serão tomados como material empírico para análise. Esses manuais não podem ser tratados como um grupo homogêneo, uma vez que sofreram grandes transformações ao longo do último século, em decorrência tanto de determinações legais como de outros elementos da vida social e da cultura escolar.
Desde o início do século XX, no Brasil, um conjunto de manuais de Didática Geral vem sendo produzido e difundido. A preocupação no estabelecimento de 'regras para bem ensinar', herdada da proposição da obra 'Didáctica Magna', de Comenius, escrita no século XVII, mantém-se fortemente presente nos manuais em diferentes momentos da história da educação brasileira. Nessas obras de Didática Geral, nas primeiras décadas do século XX, podem ser encontradas também orientações para o ensino das diversas disciplinas escolares. Eram manuais destinados fundamentalmente ao trabalho nas escolas normais, na formação de
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
professores para atuar no ensino primário. Preocupavam-se em apresentar uma parte geral, de princípios, regras e métodos para o trabalho nas aulas, e muitas vezes apresentavam uma segunda parte em que buscavam mostrar a aplicação de tais idéias nas disciplinas específicas, incluindo-se as Ciências e a Física.
A partir da década de 1940, passam a predominar nos manuais de Didática Geral os conhecimentos sobre finalidades educativas, métodos, planejamento do ensino, orientação e controle da aprendizagem, e gradualmente as orientações metodológicas específicas deixam de ser incluídas. Manuais específicos de cada campo de conhecimento correspondente às disciplinas curriculares, que já existiam desde as primeiras décadas do século XX, passam a ser mais numerosos - ainda que não com igual intensidade em todos eles.
Esse segundo grupo de manuais pode ser destinado tanto a professores das séries iniciais como a professores de disciplinas específicas em outros níveis do ensino, apresentando-se como obras de Didática Específica, de Metodologia de Ensino e, outras vezes, com títulos em torno da idéia de 'Como ensinar ...'. Nesses manuais os conteúdos são tratados de forma didática, ou seja, são estruturados com vistas ao ensinar e aprender. Portanto, os conhecimentos veiculados levam aos professores conteúdos, métodos, estratégias e outros elementos da didatização, incluindo junto aos conhecimentos da ciência de referência os conhecimentos próprios do campo da Didática Específica, uma vez que sua finalidade é orientar o ensino.
O estudo desses manuais tem relevância, segundo Guerreña, Ossenbach e Pozo (2005), por que, diferentemente dos manuais destinados à formação geral, no campo da Pedagogia, eles revelam concepções acerca da Pedagogia enquanto um 'saber prático', sobre as estratégias de ensino de determinadas disciplinas escolares. Sua análise permite ao pesquisador compreender o movimento pelo qual determinados modos de ensinar foram se consolidando ao longo do século, e também permitem traçar a trajetória dos conteúdos a ensinar. Além disso, pode-se compreender a relação das concepções e propostas de ensino com normas e definições legais, bem como as transformações das políticas educativas e as reformas curriculares que compõem o quadro educacional brasileiro no século XX.
Os manuais - entendidos a partir do que a palavra indica - parecem guardar essa função, ao longo do tempo, ou seja, colocar nas mãos do professor, de forma precisa, os elementos garantidores do sucesso do seu trabalho. No início do século XX, os professores eram formados pela Escola Normal, que se manteve ao longo do século como o lugar de formação para atuação nas séries iniciais. Apenas na década de 1990 se passou a exigir uma formação em nível superior para esses profissionais, o que não significa, necessariamente, uma formação em Física ou outra licenciatura. Muitos são formados, a partir de então, em cursos de Pedagogia ou de Magistério Superior, recebendo uma formação 'generalista'.
Nas duas situações, os manuais podem cumprir um papel de instrumento de apoio à formação docente, um recurso no qual podem ser encontradas orientações para ensinar Física. O projeto Ensinar a Ensinar, ao qual está articulada a pesquisa aqui relatada, constituiu uma base de dados que inclui um acervo físico de manuais e uma base virtual de catalogação de manuais destinados aos professores, com a inteção de contribuir para organizar fontes e possibilitar o desenvolvimento de pesquisas, seja no campo da Didática Geral, das Didáticas Específicas ou da História da Educação.
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
No caso especifico de Ciências e de Física, foram desenvolvidas atividades desde 2008, incluindo uma etapa inicial, bibliográfica, para identificação preliminar de obras com as características definidas para a constituição das bases. Paralelamente, foi realizada também uma pesquisa em bibliotecas, em sebos e livrarias. A partir do levantamento inicial, as obras foram catalogadas e se procedeu à aquisição de títulos disponíveis em sebos e livrarias. Doações de acervos pessoais também foram recebidas. Para a catalogação, foi produzida uma ficha a partir de modelos disponíveis em bases internacionais que catalogam livros didáticos, particularmente na base MANES (UNED-MADRID), uma vez que há encaminhamentos feitos no sentido de que a base local seja inserida na base internacional, em médio prazo.
## A pesquisa e seus resultados: manuais que orientam o ensino de Física
Os manuais localizados foram agrupados em diferentes categorias, em função de suas características: títulos de Didática Geral que tratam do ensino de Ciências e do Ensino de Física; títulos de Didática e Metodologia do Ensino de Ciências; títulos de Didática e Metodologia do Ensino de Ciências que possuem enfoque específico na Física, devido à proximidade dos autores com a Física, pela sua formação
Destes manuais localizados no projeto, foram selecionados dois para análise no presente trabalho, por serem voltados a orientar professores a ensinar Física nas séries iniciais: 'Didáctica (nas Escolas Primárias)', de João Toledo, e 'Ciências no ensino fundamental: o conhecimento físico', de Anna Maria Pessoa de Carvalho e colaboradores.
## Manual I: 'Didáctica', de João Toledo
O educador, nascido em 1879 e formado em 1900 na escola Complementar de Itapetininga foi nomeado para a Direção de um Grupo Escolar, em 1901, e transferido para outro em 1908, função que ocupou até 1913 quando assumiu a cadeira de Psicologia Experimental, Pedagogia e Educação Cívica na Escola Normal de São Carlos. Foi também Inspetor Geral do Ensino em São Paulo. Escreveu artigos com objetivos de difundir métodos e processos de ensino e alguns manuais destinados aos professores, entre os quais a obra 'Didáctica' (nas Escolas Primárias), em análise, publicada em 1930 pela Livraria Liberdade, São Paulo. A primeira edição, em janeiro, foi de 2600 exemplares e a segunda edição, revista pelo autor e publicada em agosto do mesmo ano, foi de 5000 exemplares, indicativo de algum grau de aceitação da obra. Nesse livro, João Toledo apresenta orientações para o ensino de Física nas séries iniciais.
## Manual II: 'Ciências no ensino fundamental o conhecimento físico', de Anna Maria Pessoa de Carvalho e colaboradores.
Anna Maria Pessoa de Carvalho é reconhecida pela sua atuação na constituição do campo do Ensino de Física no Brasil, responsável pela formação de muitos pesquisadores e professores. É autora de livros e artigos sobre a formação de professores de Ciências. Quanto à obra 'Ciências no ensino fundamental: o conhecimento físico', é importante ressaltar que foi concebida contemporaneamente
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
aos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), publicada pela primeira vez em 1998 e reimpressa em 2005. Todos os demais autores são mestres em Ensino de Ciências (Física) pela Universidade de São Paulo. Segundo os autores, o livro é apoiado em pesquisas realizadas 'para conhecer como ensinar Ciências para crianças de sete a dez anos (2005, p. 6)', e procura mostrar como ensinar nas séries iniciais do ensino fundamental para tornar o ensino prazeroso e útil, mas também compromissado com a realidade dos alunos. Ao destacar que 'uma parte significativa do programa de Ciências diz respeito ao conteúdo de Física', e que ensiná-lo 'é uma tarefa extremamente complexa', os autores esperam contribuir para que os alunos, em seu primeiro contato com a Física, aprendam a gostar da Ciência desde pequenos.
## Elementos presentes nas obras analisadas
Considerando-se a distância existente entre a publicação dos dois manuais, não se poderia pensar em uma comparação a não ser para entender se e como algum elemento contido nas orientações aos professores permaneceu ao longo do século XX, e como foram entendidas por esses autores as questões relativas ao ensino de Física. Metodologicamente, optou-se por desenvolver uma análise de conteúdo (Franco, 2003). Após a primeira leitura das obras, na perspectiva que a autora define como uma 'leitura flutuante', foram estabelecidas as seguintes categorias, apoiadas em elementos constitutivos da Didática: objetivos para o Ensino de Ciências nas séries iniciais; conteúdos indicados para o ensino; estratégias de ensino sugeridas (orientações para ensinar). A seguir, evidenciam-se no quadro elementos dessa análise.
Quadro 1. Elementos didáticos nos manuais selecionados
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
Fonte: Garcia e Nascimento (2010).
Das 334 páginas que compõem a obra Didáctica (nas Escolas Primárias), de João Toledo, 57 são dedicadas a elementos gerais e, sem seguida, o autor se dedica ao que denomina 'Didática Especial'. Nessa seção, a primeira parte é dedicada às 'Noções Communs', nas quais estão incluidos os conhecimentos físicos:
Sob a rubríca geral de noções communs, o programma enfeixa coisas em cujo contacto, mais ou menos constante, as crianças se acham, e tambem phenómenos naturaes e factos sociaes occorrentes no meio em que ella vivem. Todos os ramos da sciencia entram com seu contigente para a globalização desta parte do currículo primário, e de modo especial a zoologia, a botânica, a phisica, a chímica, a hygiene e a moral. (TOLEDO, 1030, p. 61).
O autor insiste em que o conhecimento das coisas em si mesmas - dos fenômenos como puras manifestações das forças naturais - interessam menos que o conhecimento das relações de interdependência em que nos achamos com respeito a eles. Na obra, um capítulo dedicado ao 'aprendizado ativo' apresenta ideias de educadores como Pestalozzi, Claparède e Dewey, nas quais se apóia para afirmar que '(...) a educação efficiente, real e duradoura, vem de dentro para fora e não vae de fora para dentro; quer dizer, é mais obra do próprio educando que do educador; mais resultado dos esforços do alumno, que do ensino do mestre.' (p. 175). Mas Toledo faz uma ressalva: 'Apesar disso - e salta aos olhos a todo o mundo - faz-se mistér não abandonar a criança a si mesma: ella não saberia coordenar suas acções, como convém a ella e aos mais altos interesses sociaes.' (p. 175).
Em outro capítulo da mesma obra, denominado 'A marcha do aprendizado', Toledo indica os princípios que devem orientar o ensino e que podem ser articulados em uma 'fórmula do conhecido para o desconhecido ' (p. 211, grifos no original).
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
Seguem-se outros capítulos sobre a experiência, sobre a exposição e a arguição, as lições indutivas e as dedutivas. Finaliza a obra uma parte sobre o currículo das escolas primárias, antecedido por uma explicação com o título 'objectos do conhecimento'. Nesse capítulo, o autor apresenta comentários sobre os assuntos que devem ser ensinados, entre eles as 'Noções Comuns', nas quais insere o conhecimento físico, cuja finalidade é 'preparar o indivíduo para as lutas inevitáveis da existência' (p. 344).
A grande recomendação que o autor faz é quanto ao cuidado com a escolha dos assuntos pelo professor, que deve levar em conta o interesse dos alunos. Assim, as experiências com as coisas e com as palavras que designam as coisas devem ser previstas e consideradas pelos professores: não apenas observar, mas comparar - é da comparação que ocorre a generalização, que permite a aplicação na vida prática (p. 112). A idéia de globalização de conhecimentos e dos centros de interesse, apontadas por Toledo para o ensino da Física, permanecem presentes com diferentes abordagens ao longo do século XX, e voltam a ter força nas propostas da década de 1990.
No Manual II, publicado ao final da década de 1990, a escolha dos temas articula tanto a referência na vida dos alunos como a proposição dos programas e livros didáticos, levando em conta as definições curriculares existentes, no Brasil, derivada das políticas públicas que definiram orientações nacionais e que estabeleceram critérios para a produção dos livros didáticos. Mas, para além dos conceitos, os autores associam procedimentos e atitudes que devem ser considerados na definição dos conteúdos a ensinar, formulação compatível com os modelos construtivistas de abordagem psicológica do processo de ensino e aprendizagem, que também estão presentes nos Parâmetros Curriculares Nacionais. Neste manual, os conceitos e temas da Física estão postos de forma mais clara e precisa, fato compreensível em função de todo desenvolvimento ocorrido no século XX, tanto na Física como Ciência, quanto na Física como disciplina escolar.
Do ponto de vista das estratégias de ensino, no Manual I o autor organiza vários exemplos de lições, com o objetivo de mostrar aos professores como estruturar as aulas em cada centro de interesse - a Natureza é um dos centros para as noções comuns, entre as quais o estudo dos fenômenos físicos. As aulas são detalhadas seguindo os elementos do método indutivo-dedutivo defendido por ele. Essa proposta de detalhamento dos conteúdos em 'lições' foi causa de críticas ao autor, por educadores que consideravam que os 'modelos' não contribuíam para necessária renovação do ensino desejada pelos escolanovistas, de forma geral.
Esse mesmo elemento- a apresentação de alguns modelos de organização do ensino - pode ser encontrado no segundo manual analisado: a idéia é mostrar aos professores como estruturar as aulas, seguindo as etapas constitutivas da proposta. Destaca-se a ideia de escola ativa e da importância da atividade dos alunos para a aprendizagem, que está presente nos dois manuais examinados, embora decorrentes de fundamentos diferenciados. A defesa da observação como primeira etapa para o ensino, presente ao início do século como parte do método indutivo-dedutivo, perde espaço para a idéia de problematização como ponto de partida para o trabalho de ensino, segundo os autores do Manual II. Neste caso, trata-se de perspectiva decorrente da compreensão do ensino como processo de construção do conhecimento, que deve ser sustentado nos conhecimentos prévios e
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
propor desafios cognitivos, posições que ganharam força nas discussões no campo do ensino de Física nas últimas décadas.
Diferentemente do primeiro manual, que situa tanto elementos da Didática Geral como das Metodologias Específicas, o segundo manual é proposto por especialistas no Ensino de Ciências, e particularmente no Ensino de Física, correspondendo portanto a um outro modelo de livro para professores que passou a ser produzido e difundido na segunda metade do século XX, ainda que com a mesma preocupação de construir uma referência para orientar as práticas de professores generalistas que atuam nas séries iniciais de escolarização.
Finalizando, destaca-se a importância de tomar os manuais destinados a professores como objeto de investigação, pela potencialidade que os estudos tem de esclarecer elementos relacionados à formação de professores, expressas pelos autores desses materiais que se destinam a ensiná-los a ensinar. Por meio deles, pode-se compreender o valor atribuído aos conteúdos, bem como os movimentos em direção a determinadas concepções de ensino e de aprendizagem que se revelam nas sugestões de como ensinar, neste caso em particular as Ciências e a Física.
## Em síntese
Este trabalho possibilitou entender a Física como um conhecimento que é considerado necessário e útil ao desenvolvimento dos alunos, desde os primeiros manuais de Didática do século XX localizados na pesquisa. Permitiu também compreender como as ideias gerais do ensino, tratadas na Didática Geral, influenciam a presença de determinados conteúdos e métodos nas Didáticas Específicas, neste caso as Ciências e a Física. Foi possível verificar como permanecem presentes hoje, ainda que com características específicas, elementos da escola ativa ou moderna, que colocam o aluno como centro do ensino, bem como a preocupação em situar os conhecimentos em relação aos interesses e à vida dos alunos. No limite deste trabalho, essas são as contribuições apontadas pela análise dos dois manuais.
## Referências
ABREU, M. Leitura, história e história da leitura , Campinas, São Paulo: Associação de leitura do Brasil/ Fapesp, 1999.
BUFREM, L. S.; SCHMIDT, M. A.; GARCIA, T. M. F. B. Os manuais destinados a professores como fontes para a história das formas de ensinar. Revista HISTEDBR On-line , Campinas, SP, v. 22, p. 120-130, 2006.
CARVALHO, M.M.C. de. A caixa de utensílios e a biblioteca: pedagogia e praticas de leitura. In. VIDAL, D.G. y HILSDORF, M. L.S. Brasil, 500 anos . Tópicos em História da Educação São Paulo: Edusp, 2001. .
FERREIRA, M. S.; SELLES, S. E. Análise de Livros Didáticos em Ciências: entre as Ciências de Referência e as Finalidades Sociais da Escolarização. Educação em Foco , Juiz de Fora, v. 8, n. I e II, p. 63-78, 2004.
FRACALANZA, H. e MEGID NETO, J. (orgs.). O livro didático de Ciências no Brasil . Campinas: Komedi, 2006.
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
FRANCO, M. L. Análise do Conteúdo . Brasília : Plano Editora, 2003.
GARCIA, T. M. F. B. Ciência do ensino e doutrina do método: a Didática e os manuais para formação de professores nas escolas normais (1890-1990). In: VI Congreso Iberoamericano de Historia de la Educación Latinoamericana: Historia de las Ideas, actores e instituiciones educativas. Anais… San Luis Potosi, México : Colegio San Luis/ CESU-UNAM/SOMEHIDE, 2003. v. 1, p. 1-14.
GARCIA, T. M. F. B. Esquemas de trabalho para o domínio dos conhecimentos:módulos instrucionais de Didática Geral para formar professores na década de 1980. In: VIII Congreso Iberoamericano de Historia de la Educación Latinoamericana: contactos, cruces y luchas en la historia de la educación latinoamericana. Anais… Buenos Aires, Argentina.: Sociedade Argentina de Historia de la Educación, 2007, p. 1-23.
GARCIA, T. M. F. B.; GARCIA, N. M. D. ; PIVOVAR, L. E. O uso do livro didático de Física: estudo sobre a relação dos professores com as orientações metodológicas.. In: MORTIMER, E. F. (ORG.). VI ENCONTRO NACIONAL DE PESQUISA EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS. Anais... Belo Horizonte, MG : ABRAPEC, 2007. v. 1. p. 1-12.
GARCIA, T.M. F. B; NASCIMENTO, F. E. A didática e os manuais para ensinar a ensinar física. IX EDUCERE Congresso nacional de educação, III encontro sul brasileiro de psicopedagogia. Curitiba, 2009. Anais... Curitiba - Paraná, PUC-PR, 2009.
GUEREÑA, J.; OSSENBACH, G.; POZO, M. (Directores). Manuales escolares en España, Portugal y América Latina (Siglos XIX e XX) . Madrid: Universidad Nacional de Educación a Distancia-UNED, 2005.
JOHNSEN, E. B. Textbooks in the Kaleidoscope : a critical survey of literature and research on educational texts. Translated by Linda Sivesind. Tønsberg: Vestfold College, 2001
MONARCHA, C. Lourenço Filho e a Bibliotheca de educação. (1927-1941). In: MONARCHA, C. (org.) Lourenço Filho : Outros aspectos, mesma obra. Campinas: Mercado de Letras/UNESP, 1997, p.27-45.
NAGLE, J.. Educação e Sociedade na Primeira República . 2.ed. Rio de4 Janeiro: DP&A, 2001.
SCHMIDT, M.A. 'O método é a maravilha da escola e a delícia do professor'. Os manuais didáticos e a construção da prática de ensino de história. In. GUERENA, J./ OSSENBACH, G.; POZO, M. (Directores). Manuales escolares en España, Portugal y América Latina (Siglos XIX e XX) . Madrid: Universidad Nacional de Educación a Distancia-UNED, 2005, pp.215-231.
SILVA, V. B. da. Os livros das normalistas: os manuais pedagógicos na história da formação dos professores no Brasil (1930-1971). QUAESTIO , Sorocaba, SP, v.10, n.1/2, maio/nov. 2008, p. 115-132.
VIDAL, D.G. O exercício disciplinado do olhar : livros, leituras e práticas de formação docente no Instituto de Educação do Distrito Federal. (1932-1937). Bragança Paulista: Universidade São Francisco, 2001.
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.