ELEMENTOS MOTIVADORES PARA A EVASÃO NO CURSO DE FÍSICA DA UFPA
Roberto Peixoto Joele¹, Licurgo Peixoto De Brito1, Cláudia Silva De Castro2
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XIX
- Ano
- 2011
- Data
- 01/02/2011
- Linha de pesquisa
- Formação E Prática Profissional De Professores De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## ELEMENTOS MOTIVADORES PARA A EVASÃO NO CURSO DE FÍSICA DA UFPA
## Roberto Peixoto Joele¹, Cláudia Silva de Castro , Licurgo Peixoto de 2 Brito 3
- ¹ Universidade Federal do Pará/Faculdade de física, rjoele@ufpa.br.
- ² Universidade Federal do Oeste do Pará/Programa de física Ambiental, claus.castro@hotmail.com.
- ³ Universidade Federal do Pará/Faculdade de física, licurgo@ufpa.br.
## Resumo
Este trabalho tem por objetivo discutir e analisar, de maneira qualitativa e quantitativa, fatores que podem contribuir para a evasão no curso de Física da Universidade Federal do Pará (UFPA), em Belém-PA. A pesquisa foi realizada com aplicação de questionários a 98 graduandos ingressantes no curso entre 2002 e 2008. Buscamos caracterizar o perfil dos estudantes de física da instituição, bem como aspectos relacionados ao curso que possam ter relação com a desistência do mesmo. Os resultados estão expostos por meio de gráficos e a discussão foi feita através de comparações com estudos semelhantes em departamentos de física de outras instituições de ensino superior. Identificamos elementos que podem contribuir para a evasão por meio das modificações das expectativas iniciais com relação ao curso, aspectos que os estudantes menos gostam, além das motivações para sentir vontade de desistir do curso. Os resultados encontrados apresentam semelhanças com outros estudos referentes a evasão nos cursos de Física, bem como apresenta elementos que possibilitam apontar caminhos para a superação da problemática da evasão na graduação em física na UFPA.
Palavras-chave : Evasão, formação em física, ensino superior
## Introdução
Este trabalho trata de um estudo sobre elementos motivadores da evasão indicados por estudantes do curso de Física da UFPA-Belém. A pesquisa foi proposta como atividade avaliativa na disciplina de 'Técnicas de Preparação do Trabalho Científico', no segundo período letivo de 2009.
Foram escolhidos temas para pesquisa e elaboração de trabalhos científicos que tinham como motivação o conhecimento sobre o nosso próprio curso de formação. A atividade proposta serviu para muitos estudantes como o primeiro contato com uma atividade de pesquisa e produção de um trabalho científico.
Dentre os temas definidos para a produção dos trabalhos está evasão no curso em virtude da freqüência com os estudantes desistem deste. Neste sentido, buscamos contribuir para a compreensão dos fatores que tem causado os altos índices de evasão nos cursos de Física da UFPA, bem como identificar mecanismo de superação desta problemática.
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30 de janeiro a 04 de fevereiro de 2011
## A evasão: um panorama da problemática
A evasão é um problema enfrentado por inúmeras Instituições de Ensino Superior (IES) públicas nacionais e internacionais. Tal problema implica em prejuízos de ordem econômica, social e acadêmica (FILHO et al., 2007).
Estudos indicam que a maior taxa de evasão está localizada nos primeiros do curso e são apontados como principais fatores as dificuldades financeiras acompanhado dos fatores de ordem acadêmica como: expectativas com relação ao curso, além da falta de integração dos estudantes ao ambiente acadêmico e social da instituição. (FILHO et al., 2007; TINTO, 1975, 1987).
Nesse sentido, Gouveia, Albuquerque e Solha (1994) asseveram que é recorrente as pessoas terem decepções e frustrações ao ingressarem no ensino superior, ao se depararem com uma instituição diferente do que idealizavam. Em muitos casos, a frustração começa logo no primeiro semestre na universidade. No caso particular dos cursos de baixa procura (relação candidato/vaga no vestibular é baixa), o maior índice de abandono no primeiro ano de curso, também está associado ao fracasso no início da vida acadêmica devido às insuficiências formativas do ensino médio e a inadequada seleção do vestibular (BARROSO e FALCÃO, 2004).
Com relação aos cursos da área de Ciências Naturais, pesquisas realizadas pela Secretaria de Educação Superior (BRASIL, 1996), indicam que estes apresentam elevadas taxas de evasão quando comparada ao outras áreas. No caso dos cursos de Física, estes estudos apontam que encontram-se entre as maiores taxas de evasão - acima de 60% - (ARRUDA et al., 2006; BRASIL, 2007; FAZZIO et al., 2007; FILHO et al., 2007), além de baixo índice de procura.
- O baixo índice de titulação nos cursos de Física contribui para outro problema histórico no contexto nacional, o déficit de professores de Física para atuar na Educação Básica (FAZZIO et al., 2007; GOMES e MOURA, 2008).
No estado do Pará, segundo os dados do Educacenso 2007, havia 1.098 funções docentes no ensino de Física desenvolvidas por professores sem a qualificação adequada de acordo com a LDB (Lei 9.394/96), isto é, sem curso completo de licenciatura em Física. Se considerarmos as funções não preenchidas, ou seja, as turmas que não possuem professor de Física, o déficit é ainda maior.
Dada a relevância da problemática da evasão no ensino superior e particularmente, nos cursos de Física, buscamos neste trabalho investigar os motivos que levam acadêmicos de graduação em Física da UFPA a sentir vontade de abandonar o curso, e daí identificar elementos que podem contribuir para a evasão no referido curso.
## Metodologia
A pesquisa realizada teve duas etapas: a) I - que consistiu da aplicação do questionário a estudantes que ingressaram no curso de Física da UFPA entre os anos de 2002 e 2008 e b) II - em que os estudantes fizeram a tabulação dos dados e a produção de textos acadêmicos com a análise dos dados obtidos com a aplicação
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do questionário a partir de temáticas que emergiram das respostas, e dentre elas a evasão.
- O questionário era constituído de duas partes. A primeira procura caracterizar o graduando do curso de física da UFPA, por meio de oito perguntas objetivas, e a segunda parte do questionário conta com oito perguntas mistas (objetivas e subjetivas) e abrange diversos aspectos que serviram como motivação para produção dos trabalhos dos estudantes.
Em especial, a primeira parte do questionário e as questões 4, 5, 6 e 7 da segunda parte do questionário - que tratam de assuntos como: expectativas iniciais em relação ao curso, informações quanto a formação que está recebendo, o que menos e o que mais gosta no curso, vontade de desistir do curso - serviram como apoio a este trabalho.
Na segunda etapa da pesquisa cada estudante ficou responsável por tabular e digitalizar os dados obtidos por meio de seus questionários. O material resultante da tabulação dos dados obtidos pelos estudantes foi organizado com a colaboração de uma estagiária de docência , em um único arquivo de dados em forma de 1 tabelas, as quais foram disponibilizados a todos os estudantes para a identificação de informações como número de estudantes por ano de entrada, sexo e modalidade de curso (licenciatura e bacharelado), dentre outros.
A terceira etapa abrange a análise dos resultados e desenvolvimento do trabalho, feito pelas duplas referentes a cada tema da pesquisa. Para isto, foi feita a categorização dos dados, onde agrupamos respostas comuns encontradas nas perguntas que interessam ao nosso tema de trabalho para facilitar a análise.
## Resultados e Discussões
Para as discussões que segue organizamos os resultados segundo o perfil dos estudantes (parte I do questionário), e em seguida, as análises das questões referentes as expectativas e percepções dos estudantes com relação ao curso (questões 4, 5, 6 e 7 da parte II do questionário).
Foram aplicados 98 questionários entre os graduandos ingressantes entre 2002 e 2008, que incluem aqueles que estavam cursando a disciplina, cuja distribuição está indicada na figura 1.
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Ensino de Ciências e Matemática Figura 1: Quantidade de alunos por ano de ingresso
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1 (PPGECM / IEMCI / UFPA)
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Ressaltamos que o curso de física na UFPA tem duração de 8 semestres letivos. Assim, os alunos dos anos de 2002 a 2005 já deveriam ter se formado, o que justifica o menor número de entrevistados desses anos. Outra consideração a se fazer é que o questionário foi distribuído para os alunos regularmente matriculados no segundo período letivo de 2009. Desse modo, alunos evadidos, com matrícula trancada ou concluintes não foram contemplados na pesquisa.
Apenas 15,31% dos entrevistados são do sexo feminino, resultado muito próximo dos dados obtidos em estudo realizado pelo grupo PET-Física sobre o curso de física na Universidade de Brasília (RIBEIRO et al, 2008), bem como os obtidos no curso de física da Universidade Federal do Rio de Janeiro (BARROSO e FALCÃO, 2004). Assim, podemos verificar que o baixo índice de ingressantes de pessoas do sexo feminino no curso de física não é uma característica local.
A idade média dos alunos do curso é de 23,71 anos e a distribuição do número de alunos por idade está representada na figura 2.
Figura 2: Distribuição do número de sujeitos que participaram da pesquisa por faixa etária.
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## Modificações nas expectativas iniciais em relação ao curso
A quarta pergunta do questionário respondido pelos estudantes fazia referência às expectativas iniciais em relação ao curso. Na análise dos dados, percebe-se uma distribuição da seguinte forma: 56 alunos afirmaram que suas expectativas com relação ao curso sofreram mudanças e 40 alunos afirmaram que não houve mudanças significativas. A figura 3 mostra as justificativas mais presentes dos alunos quanto a mudanças de expectativas iniciais em relação ao curso.
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_ Figura 3: Modificações negativas nas expectativas em relação ao curso
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Dentre os 5 alunos que responderam que outros motivos modificaram suas curso é pouco voltado para a realidade social, bem como a falta de adaptação e perda de interesse. Contudo, houve alunos que destacaram mudanças positivas em relação as suas expectativas como: grande quantidade de eventos científicos, incentivo a pesquisa, apresentação de novas áreas da física e possibilidade de fazer uma pós-graduação.
A justificativa mais presente no estudo foi que o curso de licenciatura não é voltado para a formação do professor. Isto suscita a necessidade de uma análise do projeto pedagógico e uma avaliação do curso, aspectos que estão fora do escopo desta pesquisa.
## Quanto à formação recebida no curso
A sexta questão da segunda parte do questionário possibilitou os alunos exporem o que mais estão gostando e o que menos estão gostando na formação recebida no curso de física da UFPA. Para esta discussão centramos nossa atenção no que se refere aquilo que os alunos menos gostam (Figura 4).
Figura 4: O que os alunos menos gostam na formação recebida no curso
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É importante verificar que entre os itens mais citados estão as 'disciplinas pedagógicas'. Sabendo que a maioria dos alunos está num curso de licenciatura, e comparando com os resultados obtidos na figura 3 (em que 23% responderam que a maior mudança a respeito da expectativa que tinham em relação com o fato do curso não ser voltado para a formação do professor), podemos concluir que o encaminhamento e desenvolvimento das disciplinas pedagógicas podem não estar
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atendendo as expectativas dos alunos. Podemos reafirmar o mesmo quando analisamos a questão 7 do questionário a respeito das matérias que mais gosta e menos gosta. Nesta, 32 alunos citaram que as matérias que menos gostam são as pedagógicas.
## Vontade de desistir do curso
Dentre os graduandos que responderam o questionário, 47 responderam que já sentiram vontade de desistir do curso. As justificativas dos estudantes estão apresentadas na figura 5.
Figura 5: Motivos que levaram a sentir vontade de desistir do curso
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Os motivos colocados não constituem uma característica local. Em um estudo na Universidade Federal do Maranhão (PEREIRA e LIMA, 2007), constatouse que os motivos que mais fazem com que os alunos sintam vontade de desistir do curso são: dificuldades em conciliar trabalho e estudo; frustração das expectativas relacionadas ao curso; exigência de dedicação exclusiva ao curso é incompatível com a necessidade profissional, familiar e pessoal; decepção com a instituição formadora; em ordem decrescente de relevância.
As 'dificuldades no curso' apontadas pelos entrevistados geralmente estão associadas às disciplinas que envolvem bastante cálculo. Essa dificuldade está intimamente ligada com as expectativas em relação ao curso, visto que muitos esperam um curso mais experimental e filosófico, enquanto o curso é bastante teórico e com forte embasamento matemático.
A necessidade de aliar o trabalho ao estudo é evidenciada quando sabemos que a maioria dos estudantes de física da UFPA provém de escolas públicas e famílias de baixa renda. Levando em conta que o curso de física exige um grande tempo de dedicação, como foi colocado na pesquisa feita na UFMA, o trabalho, em muitos casos, acaba atrapalhando o rendimento do graduando.
Outro fator significativo presente nos resultados refere-se aos os professores, os quais são indicados por uma parcela considerável dos estudantes (22) como o que menos gostam no curso e como um dos motivos para sentir vontade de desistir do curso (indicado por 28 dos estudantes). Contudo, este estudo não propicia melhor detalhamento desta questão, assim, entendemos que este é um
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ponto que precisa de maior aprofundamento em outros estudos sobre a evasão nos cursos de física.
## Considerações Finais
As elevadas taxas de evasão no ensino superior contribuem para os graves problemas enfrentados pelo sistema educacional brasileiro, sobretudo nos cursos de física, uma vez isso implica na continuidade de um problema histórico no que se refere ao ensino desta área na educação básica. Este problema é freqüentemente atribuído à formação recebida pelos estudantes no ensino fundamental e médio. Contudo, verificou-se que os fatores que podem contribuir para os alunos evadiremse são diversos, tais como: dificuldades e decepções com o curso, problemas referentes ao currículo do curso, problemas pessoais, descaso dos professores, dentre outros.
Assim, cabe às instituições formadoras atentar para a problemática, de modo a fazer as devidas adequações em seus projetos pedagógicos, além de realizarem avaliações continuas sobre múltiplos focos, para que possam identificar os problemas e assim tomar medidas para a melhoria considerando também os sujeitos em processo formação.
Diante disso, entendemos que este trabalho apresenta muito pontos que podem ser aprofundados em outros estudos e assim contribuir de maneira mais efetiva para melhor compreensão do problema da evasão, bem como trazer elementos que possam subsidiar discussões sobre a melhoria da formação no curso investigado.
## Referências
ARRUDA, Sérgio de Melo et al. Dados Comparativos sobre a Evasão em Física, Matemática, Química e Biologia da Universidade Estadual de Londrina: 1996 A 2004. Caderno Brasileiro de Ensino de Física, Florianópolis, v. 23, n. 3, p. 418438, dez. 2006 . Disponível em: <http://www.periodicos.ufsc.br/index.php/fisica/article/view/6270/5806 > Acesso em: 15 jul. 2010.
BARROSO, Marta Feijó e FALCÃO, Eliane B. M. Evasão Universitária: O Caso do Instituto de Física da UFRJ. In. IX ENCONTRO DE PESQUISA EM ENSINO DE FÍSICA, 2004. Jaboticatubas. Disponível em: <http://www.if.ufrgs.br/gra/agenda/co12-2.pdf>. Aceso em: 10 set. 2009.
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