A EXPERIÊNCIA DE YOUNG: A PEDRA DA ROSETA DA NATUREZA DA LUZ?
Boniek Venceslau Da Cruz Silva, André Ferrer Pinto Martins
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XI
- Ano
- 2008
- Data
- 23/10/2008
- Linha de pesquisa
- Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## A EXPERIÊNCIA DE YOUNG: A PEDRA DA ROSETA DA NATUREZA DA LUZ?
## THE YOUNG'S EXPERIENCE: THE ROSETTA TA STONE FOR THE NATURE OF LIGHT?
Boniek Venceslau da Cruz Silva 1 André Ferrer Pinto Martins 2
1 Pós -graduação em Ensino de Ciências Naturais e Matemática/ Esc. Est. Presidente Roosevelt, boniekvenc@yahoo.com.br
2 Departamento de Educação/ UFRN, aferrer34@yahoo.com.br
## Resumo
O estudo de e episódios da História da Ciência pode colocar em evidência fatores não incorporados nas salas de aula pelas práticas pedagógicas mais tradicionais, as quais costumam deixar r de lado aspectos históricos e socioculturais relevantes para o entendimento do surgimento e desenvolvimento de modelos e teorias . A ausência desses aspectos favorece, habitualmente , o desenvolvimento de uma visão distorcida da ciência, muitas vezes repleta de erros conceituais e visões equivocadas do fazê-ê-la. Este trabalho baseoeou-s-se numa pesquisa bibliográfica sobre a história da óptica, com destaque, em especial, para a natureza da luz , privilegiando as divergências existentes entre as teorias corpusculares e ondulatórias . Objetivou-s-se analisar esse episódio da História da Ciência, evidenciando seu potencial pedagógico e apontando as implicações para o ensino . Em nossa análise, problematiza-a-s-se uma visão ingênua do desenvolvimento histórico da ciência, geralmente descrita de forma linear, exclusivamente racional e neutra . Acreditamos que, com a inserção de de elementos históricos e filosóficos , possamos criar novos materiais e novas práticas para o ensino da óptica, que se afastem da forma algorítmica e sem significação muitas vezes apresentada em nossas salas de aula .
Palavras - chave: história da ciência , óptica, natureza da luz, Y Young .
## Abstract
The ststudy y of f episodes of the History of Science may show aspects not incorporated by pedagogical practices characterized by y traditional approaches (which leave aside historical, cultural and s social factors important for understanding the birth and development of models and theories). The absence of such aspects usually favors a distorted vision of science, very often full of conceptual mistakes and equivocal perceptions regarding the "make of science". This paper r is based on a bibliograraphical research on the history of the optics, with prominence, on the nature of light, and on the existing divergences between the particle and w wave theories. The objective w was to analyze an episode of the History of Science, in order to evidence its pedagogical potential and its implications to teaching . Our analysis detaches and
questions the naïve vision of the historical development of science, generally described of linear, rational and neutral. We believe that the adoption of the History and the Philosophy of Science approach offers opportunities to create new practical and new materials for the teaching of the optics, that departs from the algorithmic , often meaningless, form t that optics is today presented in our classrooms .
Keywords: history of science, optics, nature of light, Young .
## Introdução
A História e a Filosofia da Ciência (HFC) têm servido de aportes relevantes para saber e ensinar ciência. Geralmente, elas nos fornecem uma visão a respeito da natureza do conhecimento científico diferente da que costumamos encontrar nos livros -texto.
A literatura especializada já aponta e reconhece, há algum tempo, a relevância da HFC para o ensino de ciências, em geral, e de Física, em particular (ver, p.ex.: MATTHEWS, 1995; VANNUCCHI, 1996; BARROS; CARVALHO, 1998; CAMPANARIO, 1998; BATISTA, 2004; MARTINS, 2006; MARTINS, 2007). A HFC pode contribuir para uma melhor compreensão de diversos aspectos relativos à natureza da ciência, como a relação entre a ciência e a sociedade, a percepção da ciência como atividade humana, a falibilidade dos cientistas, entre outros. Além disso, a utilização da HFC pode propiciar um melhor aprendizado dos próprios conceitos científicos.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) já contemplam a perspectiva de inserção da HFC no ensino de ciências, apontando, inclusive, a contextualização sócio -cultural do conhecimento como um dos eixos de competências a serem desenvolvidas pelos estudantes (BRASIL, 2002).
A análise de um episódio histórico pode fornecer elementos que ficam obscuroros nas abordagens didáticas mais tradicionais, acarretando uma visão distorcida da ciência, muitas vezes repleta de erros conceituais e visões equivocadas do fazê-ê-la.
De fato, que imagem é feita do cientista? Existe um cientista racional, neutro e objetivo? Fatos sociopolíticos interferem nas suas decisões? Então, que ciência é essa, a qual se estuda? Deseja-se desmascarar essa visão da natureza, na qual ela é vista de forma ingênua. Qual deveria ser o papel da HFC em busca de uma melhoria no ensino de ciências?
O objetivo desse trabalho é analisar um episódio da História da Ciência, evidenciando seu potencial pedagógico e suas implicações ao ensino. Para tanto, escolhemos a controvérsia a respeito da natureza da luz (onda ou partícula) e a experiência da fenda dupla de Young (reconhecida como um dos mais belos experimentos da ciência). Este trabalho é baseado em uma pesquisa bibliográfica sobre a temática acima referida e demonstrarrse-á , nele , como ocorreu o embate em torno da natureza da luz, mostrando o seu potencial pedagógico e de que forma colaborará para o ensino da física.
Pretendemos, com a análise desse episódio, problematizar uma visão ingênua do desenvolvimento histórico da ciência, geralmente descrita de forma
linear, racional e neutra, sendo o cientista encarado como um ser que não falha e nem possui emoções, dando-lhe uma visão mítica. Consideramos, ainda, que episódios como esse possam colaborar no aprendizado de teorias físicas.
## AnAntecedentes: a natureza da luz antes do século XVII
Já na Antigüidade , a luz, por sua importância para algumas civilizações, foi associada a divindades. Para os antigos hebreus, quem a fez foi Deus, como é visto nas primeiras páginas do livro do Gênesis. Para os egípcios, ela era uma deusa - Maât -, filha do deus Sol - Rá. Com os Gregos, a luz passa a não mais ser vista sob esse aspecto, e ganha uma característica mais objetiva com o surgimento de perguntas intrigantes para a sociedade grega antiga. Segundo Bassalo (1986), a pergunta básica partia da preocupação dos gregos antigos em compreender o que existe entre o espaço dos nossos olhos e objeto visto.
Para responder a isso foram criados três modelos distintos: a tese dos raios visuais, segundo a qual os olhos emitiam partículas luminosas; a noção de que os olhos recebiam raios emitidos pelos corpos; e a terceira concepção, formulada pelo filósofo grego Platão (c.428 - - c.348), de que a visão de um objeto era devida a três jatos (raios) de partículas: um proveniente dos olhos, outro do objeto e o último da fonte iluminadora. De acordo com Bassalo (1986, p.139), um feixe de raios luminosos sai dos olhos até o objeto a ser visto, combinando-s-se com raios emitidos pela fonte e, por fim, retornando aos olhos. Todas as concepções filosóficas acima descritas utilizavam a idéia d da luz composta por partículas.
No âmbito das visões atomistas gregas, destacamos as idéias de Leucipo e Demócrito, os quais entendiam a luz como sendo composta por átomos arredondados e velozes que se deslocavam no vazio. A visão dar-se-ia devido a um fluxo de partículas emanado dos objetos e assimilado pelos nossos olhos (STAUB, 2007).
Aristóteles (384-322) foi um dos primeiros a tentar dar uma explicação não corpuscular para a natureza da luz. Para ele, a luz era resultado da atividade de um determinado meio, cuja vibração provocaria o movimento de humores presentes nos olhos (ROCHA, 2002). Para os contínuos - uma corrente filosófica contrária à idéia do atomismo em relação à explicação dos fenômenos da natureza - a visão é produto da luz que sai da alma do observador, propaga-s-se pelo corpo através do "pneuma", que o preenche, até alcançar os nossos olhos.
Cláudio Ptolomeu (85 - 165), ainda na Antiguidade, descreve as leis da reflexão e da refração em seu livro "Ótica". Ele também descreve a refração solar r da luz e das estrelas ao atravessar a atmosfera terrestre. Já na idade média, por volta de 1038 d.C., Al-Hazen melhoraria as leis da reflexão e da refração, e rejeitaria a idéia de raio visual, adotando uma postura mais próxima à de Aristóteles (ROCHA, 2002). Contudo, os estudos sobre a ótica ainda permaneciam como uma característica marcadamente filosófica.
Segundo Martins (1995), Santo Tomás de Aquino (1225-1274), que funde as teses da Igreja com a filosofia de Aristóteles, discute a própria noção de luz , tanto no seu sentido físico quanto metafísico. Para falar sobre sua imaterialidade, ele se vale de um bom argumento: dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo, porém a luz ou qualquer objeto transparente pode. Portanto, a luz não seria algo material (MARTINS, 1995). Provavelmente, sua aversão à materialidade da luz
decorresse das idéias advindas de Aristóteles sobre a sua natureza. Todavia, a característica do conflito ainda permaneceria em um âmbito filosófico, em que as idéias aristotélicas e as pitagórico-platonistas continuariam a circular até o século XVII.
## Mudança de cenário: revoluções e mais controvérsias
- A Revolução Científica do século XVII critica, fortemente, as idéias de Aristóteles, que, ainda, predominavam nas universidades. As ciências naturais se consolidavam como um campo independente da Filosofia e da tutela religiosa (SILVA, 2007). A experimentação, por um lado, e a matematização dos fenômenos, por outro, passam a compor o universo dos novos pesquisadores.
- O desenvolvimento da teoria física da luz, durante o Século XVII, está associado à construção de modelos mecânicos (SILVA, 2007). Portanto, é nesse cenário oportuno que o debate sobre a natureza da luz deixa o âmbito puramente filosófico e entra no caráter científico.
Descartes (1596-1650), um dos primeiros a caracterizar a natureza da luz como problema científico, acreditava que a luz tinha uma tendência natural ao movimento ou pressão, a qual se transmitia com velocidade infinita (PIETROCOLA, 1993). Já Robert Hooke (1635-1703), em 1672, afirma que:
A luz é produzida por vibrações de um meio sutil e homogêneo e este movimento se propaga por impulso ou ondas simples e de forma perpendicular à linha de propagação (HOOKE apud ROCHA, 2002, p.230).
Devido ao seu descontentamento com idéias anteriores acerca de experiências sobre óptica, o cientista holandês Christiaan Huygens (1629-1695) reforça a hipótese ondulatória, proposta anteriormente por Hooke, com a publicação, em 1678, do livro "Tratado sobre a luz". Nes sa obra , Huygens se e posiciona contra o modelo corpuscular , como verificamos na passagem a seguir:
- [...] quando vemos um objeto luminoso, isso não poderia ocorrer pelo transporte de uma matéria que venha do objeto até nós, como uma flecha ou bala que atravessa o ar (HUYGENS, 1986 , p.12).
Valendo -se de analogias com o som, ele formula sua hipótese ondulatória para a luz. Destacamos esse trecho contido no seu livro:
Sabemos que, por meio do ar, que é um corpo invisível e impalpável, o som se propaga em toda a volta do lugar onde foi produzido, por um movimento que passa sucessivamente de uma parte do ar a outra. A propagação desse movimento se faz com igual velocidade para todos os lados e devem se formar como superfícies esféricas que crescem e que chegam a atingir nossas orelhas. Ora, não há dúvida de que a luz também não venha do corpo luminoso até nós por algum movimento impresso à matéria que está entre os dois, pois já vimos que isso não pode ocorrer pelo transporte de um corpo que passe de um até o outro. (HUYGENS, 1986, p. 12).
Entretanto, surgiria um problema para a analogia de Huygens: a luz se propaga no vácuo, mas o som não. Para resolver este problema, ele concebe a idéia de um meio luminoso, responsável por preencher todo o espaço, que explicaria a grande velocidade da luz. Essa, por sua vez, seria finita, diferente do que afirmava Descartes. Já a sua constância seria explicada pela elasticidade desse meio. O meio propagador seria um fluido chamado de éter luminífero (ROCHA, 2002). A idéia de éter r (Huygens recorre à matéria etérea citando experiências de Boyle e Torricelli) remete à Grécia Antiga. Aristóteles concebia o éter como uma substância eterna e imutável, que preenchia o mundo supralunar. No século XVII o éter assume uma conotação diversa, surgindo outros trabalhos a esse respeito, como os de Descartes e Newton, por exemplo.
Os primeiros artigos de Newton (1642-1727) sobre óptica são, provavelmente, inspirados no atomismo da época, representado na figura de Pierre Gassendi (1592-1655). Neles, Newton apresenta idéias corpusculares, mas não explicitamente (COHEN; WESTFALL, 2002). Críticas ao seu artigo sobre luz e cores e sobre a hipótese da luz adiariam a edição do seu livro "Óptica" para 1704, curiosamente, após a morte de Hooke (grande rebatedor de suas idéias corpusculares), o qual recebeu apenas uma referência superficial nessa obra (COHEN; WESTFALL, 2002).
No Livro III da "Óptica" constam as famosas questões de Newton. Na questão 28, ele rebate as críticas de Hooke e sua hipótese de que a luz consisistiria em uma pressão ou movimento propagado através de um fluido. Newton diz: "Se a luz consiste apenas em pressão propagada sem movimento real, ela não seria capaz de agitar e aquecer os corpos que a refratam e refletem" (NEWTON, 2002, p.265). Na questão o 29, em especial, Newton apresenta o caráter corpuscular da luz: "Os raios de luz não são corpos minúsculos emitidos pelas substâncias que brilham?" (NEWTON, 2002, p.271).
Todavia, Newton não defendeu, abertamente, a materialidade da luz (MOURA; SILVA, 2007), e, como observamos em STAUB (2007), apesar da caracterização do caráter corpuscular da luz, idéias ondulatórias não lhe eram alheias. Segundo Bachelard: "A óptica de Newton é corpuscular em sua imagem mais simples e pré-ondulatória em sua teoria mais sásábia" (BACHELARD apud STAUB, 2005, p.89).
Existiam muitas diferenças entre as idéias de Newton e Huygens. Enquanto, por exemplo, Huygens dava conta, perfeitamente, da reflexão e da refração, essa última era explicada com maior esforço pela visão corpuscular. Para Newton, a velocidade da luz aumentaria, por exemplo, ao passar do vácuo para os corpos . Como destacadado na proposição 10 do seu livro " " Óptica" a" :
Se a luz for mais veloz nos corpos do que no vácuo, na proporção dos senos que medem a refração dos cor pos, as forças dos corpos para refletir e refratar a luz serão muito aproximadamente proporcionais às densidades dos mesmos corpos (Newton, 2002, p.204)4).
Já Huygens acreditava que ela diminuiria. Contudo, as principais controvérsias em relação às teorias corpusculares e ondulatórias residiam em dois
fenômenos, conhecidos hoje como difração e interferência. A grande influência da autoridade de Newton, adquirida pelo sucesso da publicação dos "Principia", contribuiu, certamente, para que uma interpretação mecânica da luz, constituída por corpúsculos, prevalecesse (SILVA, 2007). Após a morte de Huygens, as idéias ondulatórias ficaram, praticamente, esquecidas durante o século XVIII.
As primeiras décadas do século XVIII foram marcadas pela maior aceitação das idéias newtonianas sobre a óptica, e, também , pela aplicação de suas teorias em diversos campos do saber. Entretanto, a óptica corpuscular do século XVIII era bem diferente daquela defendida por Newton (MOURA; SILVA, 2007). Vários filósofos naturalistas daquela época, como John Harris (1666-1719), Jacob 'sGravesande (1688-1742), Robert Smith (1689-1768), John Rowning (1701-1771) tentaram constantemente unir o "Principia" ao "Óptica" no intuito de criar um modelo dinâmico para a luz.
Todavia, as incertezas c riadas pelas indagações de Newton relacionadas à defesa do modelo corpuscular (Newton escrevia na forma de perguntas ao leitor)r), como observamos no " Óptica " , não foram levadas em consideração pelos seus seguidores , como sugere Harris na sua afirmação:
Portanto, os raios de luz são certamente pequenas partículas, realmente emitidas do corpo luminoso e refratados por alguma atração, pela qual a luz e o corpo sobre o qual ela cai agem mutuamente um no outro, pois tais partículas ou corpúsculos serão transmiti dos através de meios uniformes em linha reta, sem qualquer inflexão, como os raios de luz fazem (HARRIS, 1723, apud Moura; Silva, 2007, p.5) .
Embora ainda vivêssemos o forte obstáculo caracterizado pelas idéias mecanicistas na concepção da natureza da luz, na segunda metade do século XVIII os estudos sobre a ótica se reiniciam, com destaque para a "óptica vibracional" (ondulatória), com os trabalhos, principalmente, de Leonhard Euler r (1707-1783), os quais começam a constatar problemas na concepção corpuscular (por exemplo, o caso dos "anéis de Newton"). Esses e outros problemas (massa e volume dadas partículas , o conceito de força dos corpos para refletir e refratar , o conceito de inflexão, a influência da gravitação, entre outros) encontrados na perspectiva corpuscular, entrelaçados com as melhores explicações dos modelos vibracionais, serviram de estímulo para o ressurgimento da teoria ondulatória e para o desenvolvimento de novos trabalhos.
## Ressurgimento da teoria ondulatória: a experiência de Young
A grande aceitação da teoria corpuscular da luz deveu-se, em parte, à forte oposição feita contra sua a teoria rival (ondulatória) quanto à à medição do comprimento de onda da luz, algo que não conseguia ser determinado experimentalmente e que, também , não possuía ía uma boa fundamentação teórica.
Thomas Young (1773-1829), físico, médico, lingüista e e egiptólogo , nasceu em 16 de junho de 1773 , na aldeia inglesa de Milverton. Com o seu grande conhecimento lingüístico , Young foi de suma importância para decifrar os códigos contidos na " Pedra de Roseta", descoberta em 1799 pelas tropas de Napoleão. Ela continha o segredo de um corpo desconhecido de conhecimentos . Metaforicamente,
a questão da natureza da luz também teria, em Young, um perito que encontraria a sua "P"Pedra da Roseta" e decifraria certos "c"códigos " " da luz , ainda invisíveis para muitos no seu tempo .
No século XIX , a interferência em ondas de água e som foi completamente aceita. Young pretendia raciocinar por analogia e explicar de forma mais clara o que os seguidoreres de Newton - que ignoravam aspectos problemáticos do "Óptica" - não teriam se preocupado em explicar, como, o, por exemplo, o fenômeno dos "anéis de Newton". Hoje , esse fenômeno é explicado a partir do conceito de interferência.
Young teria realizado, no início do século XIX, uma experiência que evidenciou aspectos da natureza da luz, demonstrando que ela pode sofrer interferência, propriedade exclusiva de ondas (BASSALO, 1989; SILVA, 2007; STAUB, 2007). Essa experiência, conhecida como experiência da fenda dupla de Young, abalou os alicerces da da teoria corpuscular, pois uma partícula não sofreria interferência.
Uma figura possível que representa a experiência da fenda dupla de Young, a partir da luz solar, encontra-se a seguir (Figura 1). Após o orifício S o verificamos o fenômeno da difração. A luz, ao atravessar os orifícios S1 e S2, sofre interferência. Figuras e esquemas de interferência como o citado são facilmente encontrados nos livros -texto de óptica do ensino médio e superior.
Figura 1: Esquema da experiência de Young. Os pontos S o , S1 e S2 são orifícios.
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A figura efetivamente utilizada por Young foi a que se encontra a seguir (Figura 2):
Figura. 2: Esquema feito por Young (SHAMOS apud MOZENA, 1999, p.14).
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Young apresentou alguns trabalhos na Royal Society com extremo cuidado , destacando o que Newton também argumentou sobre a possibilidade da luz possuir algumas características ondulatórias, fato que foi desconsiderado pelos seus defensores .
Entretanto, RoRothman (2005) discute se a famosa experiência da fenda dupla de Young foi realizada em 1800, 1801 , ou , ainda , 1802. Segundo esse autor (ROTHMAN, 2005, p.39), nas "Philosophical Transactions" e nas "Bakerian Lectures", Young comenta a repetição feita por ele das experiências de Grimaldi e apresenta resultados mais precisos . É possível encontrar a explicação para os " anéis de Newton " e, ainda , os valores precisos obtidos para os comprimentos de onda , calculados com base nos valores do próprio Newton. Contudo, não se encontra nenhuma referência à expxperiência da fenda dupla.
Para Rothman, Young , no período em que lecionou física na Royal Institution, teria proferido, em um período de dois anos , palestras populares que abrangiam o conhecimento científífico da época. Em especial, na palestra XXIII (s(sobre a teoria da hidráulica), Young teria descrito um aparato experimental que hoje conhecemos como "t "tanque de ondas" , com o propósito de demonstrar o padrão de interferência das ondas de água. Rothman (2005, p.41) declara que, nas "Bakerian Lectures" , o padrão apresentado é o de interferência de ondas de água, o qual ocorre quando jogamos duplas pedras em um lago. E , ainda, os diagramas de interferência apresentados em alguns livros-texto seriam, sim , estes publicados nos "Lectures", portanto padrões de interferência para a água e não para a luz.
O experimento da fenda dupla poderia ter sido apenas um exercício mental? Ou, ainda, diante dos dados de Newton , Young poderia ter visto algo que muitos não viram diante da complexidade do problema? De qualquer forma, o importante para esse belo cacapítulo da história da óptica é: os resultados de Young foram de suma importância para o ressurgimento da teoria ondulatória, e que esses dados, ainda, dariam base para Augustin Fresnel (1788-1827) formular um modelo matemático para a luz, corroborando com os trabalhos de Young e fazendo avançar a teoria ondulatória.
## A controvérsia sobre a natureza da luz e o ensino de física
Estudos apontam dificuldades manifestas por professores e licenciandos para a inserção da HFC no ensino mémédio. MaMartins (2007) enumera algumas dadas as principais dificuldades: a falta de material didático adequado, o pouco hábito de leitura dos alunos , o currículo escolar r (geralmente , voltado para os exames vestibulares) , além da falta de tempo para o planejamento das aulas e a possibilidade de torná-las monótonas. Neste mesmo trabalho, Martins verific ou que a maioria dos professores e licenciandos pesquisados apontaram a óptica como sendo o assunto mais difícil de tratar em sala de aula.
Acreditamos que o estudo de de episódios históricos, com vistas à criação de materiais didáticos, possa ser uma maneira de superar algumas das dificuldades enfrentadas por professores. A elaboração de materiais didáticos intencionalmente estruturados para a exploração das mudanças ocorridas com as teorias, ao longo da história da ciência, ajuda a compreender desde o seu nascimento até o seu desmoronamento (PRAIA; CACHAPUZ; GIL -PÉREZ, 2002) , resgatando fatores sóciopolíticos importantes na sua construção, e contribuindo para uma visão da da ciência como atividade humana . Considera -se que , com novas práticas e
metodologias que se utilizem de elementos da HFC, os alunos possam superar uma visão de ciência simplista, distorcida, exata e infalível que rodeia nossas salas de aula.
A HFC é recheada de episódios de alto poder pedagógico e didático. o. AlAlgumas práticas educativas como debates, teatros, feiras de ciências, vinculadas à utilização da HFC , podem resgatar fatores humanos, sociais e políticos que são esquecidos ao ensinar-r-s-se ciência (ver , p.ex.x.: GUERRA; REIS; BRAGA, 2002).
Em relação ao ensino de óptica, Vannuchi (1996) nos mostra que a forma pela qual esse tema é normalmente trabalhado torna-o sem significação. A autora sugere que a introdução de problemas e características históricas de seu processo de construção poderia dar uma maior significação ao seu estudo. Com a inserção da HFC pode-se c criar novos materiais e novas práticas para o ensino da óptica, que se afastem do ensino algorítmico muitas vezes presente nos livros e nas escolas (BARROS; CARVALHO, 1998; BATISTA; 200 4) .
Mas o que aprendemos, em particular, com a controvérsia histórica a respeito da natureza da luz, e que pode ser explorado em sala de aula?
Com a análise dedesse episódio da da história da óptica a esperamos evidenciar que o conhecimento científico tem um caráter dinâmico, e as teorias e e modelos não são atemporais, mudando ao longo do tempo em função de uma série de fatores (PRAIA; CACHAPUZ; GIL-PÉREZ, 2002), como foi visto na aceitação da teoria ondulatória. É importante perceber que a ciência não é obra do acaso e muito menos feita por somente uma pessoa. É preciso combater o mito do " gênio " , e, com uma breve análise desse capítulo da História da Ciência, verificamos que ue ele não tem sustentabilidade.
Vimos, também, como a autoridade de Newton serviu para que a visão corpuscular da luz perdurasse durante quase todo o século XVIII. Devido ao seu prestígio , algumas de suas idéias - mesmo que com incorreções ou, ainda , falhas nas suas explicações - sobreviveram durante muito tempo no cenário científico daquela época. Com isso aprendemos que argumentos de autoridade podem influir na aceitação de modelos e teorias que, posteriormente, venham a ser contestados.
As As idas e vindas das concepções ondulatória e corpuscular ao longo da história da óptica evidenciam uma série de fatores interessantes sobre a natureza da construção do conhecimento científico . Em primeiro lugar, fica evidente a existência de debates e controvérsias entre cientistas, o que nem sempre é mostrado no ensino de ciências. O episódio também nos ajuda a perceber que nem sempre há "evidências" ou "experimentos disponíveis" que sejam decisivos em favor de uma teoria ou modelo.
Além disso, a controvérsia histórica sobre a natureza da luz mostra a não existência de uma teoria isenta de contestações. O erro faz parte da prática da ciência. Entretanto, a epistemologia mais tradicional trata o erro científico como algo a ser evitado, desvinculando-o de qualquer processo de evolução. Bachelard (1996) , por outro lado, considera o erro como inevitável, e como parte integrante das etapas a serem superadas. É o afastamento gradativo dos erros que permite o avanço do conhecimento. Por seu turno, no campo da didática das ciências , a literatura especializada (v(ver, r, p.ex.: MARTINS, 2006; GARCÍA et al., 2007) já apontotou que , muitas vezes , idéias desenvolvidas por grandes nomes da ciência , no passado, muito se assemelham aos pensamentos desenvolvidos por nossos alunos em sala
de aula . Portanto , a questão do erro - - que tem um papel importante na construção da ciência - deve ser valorizada a também no ensino de ciências, em que o paralelismo com noções históricas deve ser explorado .
Pretendemos que os alunos aprendam uma ciência na qual existe uma luta constante e árdua pela la busca de mais "verdades" científicas , e que estas não se confundem com certezas definitivas (PRAIA; CACHAPUZ; GIL-PÉREZ, 2002). A HFC seria um mecanismo para que nossos alunos superem idéias equivocadas do fazer ciência, e aprendam conceitos, leis e teorias. Nessa direção, algumas dessas discussões podem s ser incorporadas ao ensino de ciências.
Em nosso trabalho como professores , tentamos inserir conteúdos de HFC no ensino de Ciências, criando materiais com tais características para o seu uso no ensino médio. O estudo histórico aqui relatado tem sido usado por nós na criação de textos e outras atividades que possam contribuir no sentido de uma melhoria de nossa prática no que ser refere ao ensino da óptica, em nível médio. As conseqüências e os resultados dessa experiência serão objetos de um próximo trabalho.
## ReReferências
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