ENSINO DE FÍSICA, LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS E O PROJETO ``SINALIZANDO A FÍSICA": UM MOVIMENTO A FAVOR DA INCLUSÃO CIENTÍFICA
Everton Botan, Fabiano César Cardoso
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVIII
- Ano
- 2009
- Data
- 29/01/2009
- Linha de pesquisa
- Ensino De Física E Estratégias Para Portadores De Necessidades Especiais
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## ENSINO DE FÍSICA,LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS E O PROJETO "SINALIZANDO AFÍSICA": UM MOVIMENTO A FAVORDA INCLUSÃO CIENTÍFICA
Everton Botan 1 , Fabiano César Cardoso 2
- 1 Universidade Federal de Mato Grosso, câmpus de Sinop 2 , evertonbt@yahoo.com.br 2 Universidade Federal de Mato Grosso, câmpus de Sinop , fccardoso@ufmt.br
## Resumo
Apesar da legislação brasileira ter realizado avanços significativos a respeito da educação inclusiva, deparamo-n-nos com a ausência de sinais no Ensino de Física, fator que prejudica signgnificativamente a compreensão desta área do saber por parte da comunidade surda. Tal situação contrasta com a proposta de uma sociedade inclusiva e moderna, na qual todo cidadão tem direito ao conhecimento e a uma participação ativa e consciente na sociedadade. Desta forma, apresentamos neste trabalho uma discussão a respeito da alfabetização e do letramento científico de estudantes surdos ou de audição difícil, l, com o objetivo de expor a problemática do ensino de Física para ra esta comunidade e promover a sensibibilização da comunidade acadêmica e em geral . Para tanto, fazemos inicialmente a distinção entre alfabetização e letramento, indicando que apesar de ambos estarem interrelacionados, o segundo representa o objetivo a ser atingido pela educação e pela sociedade. Também apresentamos sucintamente o tema "educação de surdos", em especial o papel da linguagem para o desenvolvimento do estudante surdo. Discutimos , ainda, a importância do Ensino de Física no desenvolvimento e aquisição de habilidades e competências s que permitam ao cidadão compreender, interagir e intervir no ambiente que o cerca. A proposta de elaboração de um glossário de sinais para o Ensino de Física é apresentada como uma das atividades do projeto de pesquisa "Sinalizando a Física", desenvolvido o na Universidade Federal de Mato Grosso, câmpus de Sinop, e que tem por objetivo principal, a elaboração e divulgação de material didático para o Ensino de Física através da Língua Brasileira de Sinais. O glossário busca incorporar sinais presentes nos dicicionários disponibilizados via rede mundial de computadores, sinais presentes na comunicação de surdos de Sinop e sinais encontrados em línguas estrangeiras. Concluímos o trabalho com a apresentação de n nossas s considerações finais.
Palavras -c -chave: : Língua de e Sinais, Ensino de Física, Inclusão Científica.
## Introdução
A lei n° 10.436, publicada em 24 de abril de 2002, dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) como meio legal de expressão e comunicação da comunidade surda no Brasil, promoveu um avanço significativo na perspectiva de Educação Inclusiva e atribuiu aos sistemas educacionais (federal, estadual, municipal e do distrito federal) o dever de garantir a inclusão do ensino de LIBRAS nos cursos de formação docente, bem como nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN). Contudo, apesar de regulamentada pelo decreto n° 5.626, de 22 de
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26 a 30 de Janeiro de 2009
dezembro de 2005, a lei ainda carece de recursos humanos e de material didático e pedagógico para ser plenamente implantada e incorporada pela sociedade.
Mais notadamente, percebemos uma grande carência de materiais na área de Ensino de Física para estudantes surdos ou de audição difícil, apesar de , segundo Schroeder (2007), o Ensino de Física ter lugar de destaque na constituição do ser e no desenvolvimento do senso crítico do cidadão pleno, permitindo-o -o compreender e agir sobre os acontecimentos que o cercam. Percebemos que a LIBRAS ainda não apresenta um número de sinais significativos, ou satisfatórios, ao seu Ensino de Física, principalmente no que refere aos conceititos dos termos tecnocientíficos. Conceitos como Mecânica, Cinemática, Dinâmica, Aceleração, Vetores, Velocidade, Força, Trabalho, dentre muitos outros, não possuem na LIBRAS sinais que permitam a abrangência de seus significados. Estes pontos se fazem presentes no dia -a-d-dia do professor, do intérprete e mais profundamente, na vida do aluno surdo, impondo dificuldades ao processo de compreensão e desenvolvimento de seus conceitos. Contudo, ou é insuficiente o número de pesquisas realizadas para se combater esta problemática, ou pouco se tem divulgado a este respeito por parte de instituições e veículos especializados. Na perspectiva de uma educação inclusiva, faz-se necessário modificar tal situação e este papel cabe, talvez predominantemente, às universidades e centros de pesquisa. Desta forma esperamos que o trabalho ora apresentado, incite a discussão a respeito do ensino de Física para a comunidade surda, tanto no que se refere à pesquisa acadêmica, quanto à prática docente.
Assim, além dos temas abordados nesta seção, estabeleceremos a diferença entre alfabetização e letramento, de forma a fundamentar e nortear este trabalho, o qual discute a problemática do ensino de física para alunos surdos.
## Alfabetização e Letramento
Para apresentarmos os conceitos referentes ao letramento e à alfabetização, baseamo -nos principalmente no trabalho de Paula e Lima (2007). Estes autores, dentre outros, indicam que ambos os conceitos, de letramento e de alfabetização, têm em si um processo de significação histórica, sendndo que o termo alfabetização tem origem na palavra alfabetizado, que normalmente está relacionada, ou é tida como referente, àquele que é capaz de ler e escrever. No entanto, muitos sujeitos considerados alfabetizados são incapazes de compreender/interpretar o que lêem, e é neste ponto, ao entendermos que saber ler e escrever é muito mais que apenas se apropriar de símbolos, que o significado de letramento é então dimensionado como sendo o sujeito capaz de conduzir um processo no qual possa expressar seus pontos de vista, desejos e dúvidas por meio da leitura, escrita, fala ou de outras formas expressão. Neste processo, conhecer os símbolos e representações são fatores indispensáveis. Apontam assim a necessidade de alfabetização, no entanto este processo se constitui apenas da aquisição de símbolos necessário a uma leitura e não a mobilização de tais símbolos. A proposta então é que se constitua o letramento, ou seja, o processo de aprendizagem, que segundo Ulhôa et al (2008), a própria origem e o significado contemporâneo da palavra, tem por perspectiva a mobilização dos símbolos com conceitos em diversas situações, a fim de possibilitar uma aprendizagem contínua para e por toda a vida.
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## Alfabetização e Letramento Científico
Os significados atuais de alfabetização e letramento científico, como dito anteriormente , possuem diferenças e ambos se relacionam à expectativa de formar cidadãos aptos a tomar r decisões com responsabilidade sobre os assuntos da ciência, apesar de possuírem características próprias. Assim , a alfabetização científica está para a aprendizagem dos conteúdos e linguagem científica, enquanto que o termo letramento científico compete, de uma forma simplista, ao uso do conhecimento e linguagem científica. Para tanto é necessário que ele conheça os termos científicos e que, por fim, seja capaz de refletir, expor suas posições e tomar decisões.
Tal conceito é complementado, ou mesmo ampliado, por Bybee (apud Araújo et al, 2006) como sendo um conjunto de conhecimentos e práticas sobre o mundo natural l e artificial em constante construção, que inclusive assume características culturais, históricas e do meio social.
## Educação de Surdos
No decorrer da história, segundo Lorenzini (2004), diversos educadores propuseram variadas formas de educar o aluno surdo, alguns utilizaram a língua oral e outros se atreviam ao uso da língua de sinais, e hoje em que a política de educação inclusiva homologa o direito de toda criança ter acesso a educação, independente de sua origem étnica, cultural ou lingüística, este aluno está conquistando seu espaço na sala de aula e ainda encontra grandes barreiras de comunicação (Lacerda e Góes, 2000).
A aprendizagem inicia nas relações interpessoais, e o resultado de fracasso ou de sucesso depende em muitos dos casos, da linguagem. Alguns autores, como Lorenzini (2004) e Lacerda e Góes (2000), propõem que a aprendizagem das línguas de sinais e portuguesa deve ocorrer precocemente , à medida que e este processo influencia na constituição do cognitivo, da subjetividade e nas interações sociais, pois são as formas do sujeito surdo se relacionar com o meio social. Para Vigotski (apud Lorenzini, 2004), a linguagem possui além da função comunicativa, a função de constituir o pensamento. O processo pelo qual a criança adquire a linguagem segue ue o sentido do exterior para o interior, do meio social para o individual.
- O trabalho de Lacerda e Góes (2000) expõe algumas dificuldades encontradas por um grupo de alunos surdos matriculados no ensino regular, e como resultado aponta para a falta de capacitação dos professores às peculiaridades de linguagem do aluno surdo. Ainda neste contexto as autoras defendem, similarmente com as proposições de Lorenzini (2004), que a linguagem é fator fundamental no processo de aprendizagem do aluno surdo, considerando que é por meio dela que o sujeito constrói as representações simbólicas da cultura científica e tecnológica.
Compreendemos que para o aluno se constituir em meio à cultura científica e tecnológica, de forma incluída e que seja capaz de exercer sua cidadania, é necessário que seja habilitado a ler os símbolos da linguagem científica e fazer uso
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de tais conceitos no cotidiano e mais, como discutido anteriormente, é necessário que o aprendiz construa a capacidade de aprender a aprender e de saber fazer, habilidades essenciais para a tomada de decisões.
## Ensino de Física
Um ponto importante a ser caracterizado é que o ensino atual está imerso em uma perspectiva diferente da tradicional, em que o ensino era apenas focado na assimilação de conteúdos. Atualmente os modelos teóricos de ensino enfocam a construção de habilidades e competências, a fim de se constituir a aprendizagem significativa. Compreendemos que não exista uma definição clara e definitiva de habilidades e competências, mas segundo Perrenoud (2001), competência se relaciona com a capacidade de um sujeito de mobilizar o todo ou parte de seus recursos cognitivos e afetivos para enfrentar uma família de situações complexas .
Os PCN do Ensino Médio apontam para esta perspectiva de construir competênciaias no ensino de Física, voltada para a formação do cidadão contemporâneo, atuante e solidário, com instrumentos (habilidades e conhecimento) para compreender, intervir e interagir na realidade. Os PCN estabelecem um conjunto de competências que permitam ao aluno compreender o cotidiano e o universo distante com o uso da linguagem Física, a partir de princípios, leis e modelos teóricos.
Não se esquecendo também que para o ensino de Física ser realmente significativo, deve-se atentar para as concepções prévias dos alunos, que podem dificultar a aquisição dos conceitos científicos, devido ao fato do conhecimento baseado no senso comum estar diretamente relacionado com observações realizadas no cotidiano. O ensino de Física é fortemente influenciado por este conhecimento, tornando-s-se um objetivo desta disciplina , proporcionar uma mudança conceitual nos alunos, para que possam , ao menos , aprimorar seus conceitos, pois a maior dificuldade encontrada é a resistência à mudança a cerca da compreensão dos fenômenos naturais (Arruda, 1994).
Compreendemos então que as expectativas de ensino, adequado ao aluno surdo, realmente possam se concretizar e para isso é fundamental que exista o diálogo entre o conhecimento científico e o aluno surdo. E para que o aluno surdo dialogue com o conhecimento científico é necessário que sua língua (LIBRAS) possua sinais que contemplem o significado dos conceitos tecno-c-científico.
## O projeto "Sinalizando a Física"
O projeto surge num contexto atual de inclusão de alunos com necessidades especiais, numa dimensão das dificuldades vislumbradas sobre o ensino de Física para alunos surdos e na carência de trabalhos e pesquisas desenvolvidas neste tema. Assim o projeto vem a contribuir para a melhora na realidade educacional brasileira, que sente a necessidade de atender a todos os alunos
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independentemente de sua origem social, étnica ou lingüística. As ideologias do projeto se justificam ao passo que se estima, que no Brasil, existem cerca de seis milhões de pessoas com deficiência auditiva, sendo que aproximadamente 400 mil estão em idade escolar e apenas 60 mil estão matriculados na rede de ensino. Ainda, segundo o MEC, destes 60 mil, apenas 2 mil se encontram no ensino superior.
Com a pretensão de contribuir para a educação brasileira o projeto visa a pesquisa sobre surdez, língua de sinais, ensino de Física; a produção e divulgação de materiais didáticos (vídeos, apostilas, livros didáticos, experimentos) sobre conceitos da Física, em LIBRAS, voltados para estudantes surdos ou de audição difícil; e criar e implantar no campus da UFMT de Sinop, o grupo de pesquisa em Educação de Surdos "Édouard Houet", com a finalidade de expandir as pesquisas às outras áreas do conhecimento (química, biologia, matemática) . Ainda neste processo de desenvolvimento, o projeto tem oferecido cursos de capacitação em LIBRAS para a equipe e comunidade em geral. Estes cursos, designados por "Aprendendo LIBRAS", são compostos por quatro (04) módulos de quarenta horas (40h) cada, e compreendem os níveis básico e intermediário da língua. Até o momento, estão em funcionamento duas turmas de "Básico II" e um turma de "Básico I".
Em meio às discussões propostas pelo projeto, sentiu-se a necessidade de se elaborar um Glossário de Física, a fim de contribuir para reduzir a defasagem de vocabulário da língua (LIBRAS) e e definições necessárias no ensino de Física para surdos. O glossário compreenderá as temáticas propostas pela pesquisa do projeto, que inicialmente compreende a Mecânica. Tal glossário será confeccionado de acordo o com a produção de material didático e do desenvolvimento das pesquisas sobre surdez, língua de sinais, educação de surdos e ensino de Física.
## A proposta de um glossário
- O trabalho de Lorenzini (2004, p.10-11) expõe em algumas linhas a problemática da educação do surdo servindo de justificativa para a pretensão deste glossário, que é de expandir o vocabulário com conceitos científicos a respeito da Cinemática. A autora expõe que por meio da dificuldade de socialização e, por vezes, a ausência de concepções prévias (...), vocabulário restrito e dificuldades de abstração, é possível inferir que alunos surdos tenham dificuldade na compreensão de alguns conceitos científicos (grifo nosso).
- A proposta do glossário de LIBRAS tem por finalidade de auxiliar professores, intérpretes e principalmente o aluno surdo, que é o maior protagonista neste contexto de ensino e aprendizagem. A princípio , o glossário contempla a Cinemática, que também tem sido cada vez menos discutida nas aulas de Física.
Notadamente a justific ativa para esta necessidade se deu pela confirmação de uma das hipóteses do projeto: a de que havia pouca produção científica a cerca do ensino de Física para alunos surdos na língua brasileira de sinais. Quando da nossa pesquisa buscamos encontrar os sinais, na LIBRAS, que contemplassem a dimensão das definições e dos conceitos da Física, a princípio da Cinemática, todavia, não encontramos sinais para a maioria dos conceitos e a falta desses sinais prejudica aprendizagem, já que impossibilita a comunicação eficiente entre o
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professor ou intérprete com o aluno. Devido à dificuldade encontrada pela equipe do projeto, buscamos trabalhos em línguas de sinais estrangeiras, que acreditamos ser passiveis de serem aproveitadas e adaptadas às necessidades e especificidades de LIBRAS. Semelhante situação, de ausência ou insuficiência de sinais técnicocientíficos, ocorreu nos Estados Unidos, o que levou o governo americano a fomentar pesquisas relacionadas à educação de surdos. Ao final da pesquisa segundo Caccamise e Lang (1996) houve grandes resultados e o acesso de forma mais eficiente ao conhecimento científico se tornou uma realidade.
Na tabela abaixo (Tabela 01) segue uma amostra da proposta do Glossário de Cinemática com o conceito de velocidade, juntamente com algumas variações, velocidade média, e velocidade vetorial. . É necessário frisar que não atentamo -nos aqui em conceituar os termos velocidade, velocidade média e vetorial, mas apenas expor os sinais propostos pela equipe do projeto aos conceitos.
Esperamos que após disponibilizarmos o glossário, a comunidade surda possa analisar os sinais apresentados e propor sugestões, críticas e alterações. Desta foforma, apesar de buscarmos um conjunto de sinais padrão para a Física, acreditamos que neste momento, o glossário pode e deve estar sujeito a mudanças.
Tabela 01: : amostra da proposta de sinais para alguns conceitos de Cinemática.
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## Considerações Finais
A realidade da educação de surdos, em especial aquela relacionada ao Ensino de Ciências e Física, está se transformando diariamente. Contudo, estas mudanças ainda não contemplam todos os pontos necessários para uma educação realmente inclusiva. Desta forma, acreditamos que discussões a respeito desta temática, aliadas com a proposta de um glossário de sinais para o Ensino de Física, poderão contribuir positiva e significativamente para o letramento científico da comunidade surda .
## Agradecimentos
Os autores agradecem à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Mato Grosso (FAPEMAT) pelos apoios financeiros dados os ao projeto de pesquisa "Sinalizando a Física" e ao projeto de iniciação científica "Sinalizando a Física: Cinemática".
## Referencial Bibliográráfico
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## Bibliografia Consultada
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