FORMAÇÕES DISCURSIVAS PRESENTES NA INTERPRETAÇÃO DE UM TEXTO SOBRE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E ASPECTOS SOCIAIS POR UM PROFESSOR UNIVERSITÁRIO
Luiz Eduardo Pedroso, Maria José P. M. De Almeida
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XI
- Ano
- 2008
- Data
- 23/10/2008
- Linha de pesquisa
- Formação E Prática Profissional De Professores De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## FORMAÇÕES DISCURSIVAS PRESENTES NA INTERPRETAÇÃO DE Ê ÇÇ UM TEXTO SOBRE CIÊNCIA, TECNOLOGIA E ASPECTOS SOCIAIS POR UM PROFESSOR UNIVERSITÁRIO
## DISCOURSIVE FORMATIONS PRESENT IN THE TEXT ABOUT SCIENCE, TECHNOLOGY AND SOCIAL ASPECTS BY A UNIVERSITARIAN PROFESSOR
## Luiz Eduardo Pedroso 1 , Maria José P. M. de Almeida 2
1 UFAC/CCBN/lepedroso@gmail.com.br
2 UNICAMP/gepCE/FE,mjpma@unicamp.br
1
## Resumo
O estudo aqui apresentado aborda alguns aspectos do funcionamento do discurso de um professor universitário sobre as relações entre ciência, tecnologia e aspectos sociais. A questão de estudo foi enunciada com o objetivo de se compreender como foram produzidos sentidos pelo professor de uma licenciatura em Ciências na leitura do texto Física e Química: a construção de uma propososta educacional, elaborado durante um movimento que buscou provocar mudanças nesse curso. Buscou -s -se encontrar posições do professor numa entrevista cuja formulação e análise apoiou-s-se na análise de discurso, com aportes principalmente no trabalho divulgado no Brasil por Eni Orlandi. Pautamo-nos principalmente na consideração da não transparência da linguagem e nas noções de condições de produção e formação discursiva. A A principal contribuição do estudo foi evidenciar a possibilidade de reflexão sobre a temátática do texto a partir de dififerentes formações discursivas. Concluímos afirmando que, entrevistando outros professores e analisando as entrevistas, formuladas nas mesmas condições de produção imediatas, certamente estaríamos remetendo para outras formações discursivas, que seriam manifestas em seus interdiscursos.
Palavras -chave: f formação discursiva, análise de discurso, entrevista, interpretação, ideologia .
## Abstract
The study presented here broaches some aspects of the functioning of the discourse of a Professor about the relations among science, technology and social aspects. The question of study was enunciated with the objective of understanding how meaning were produced by a Professor of a licentiateship in science in the reading of a text "Physics and chemistry: a construction of an educational proposal" l" , elaborated during a movement that searched to provoke formulation and analyse supported itself in the analyse of discourse, based principally in the work divulgated in Brazil by Eni Orlandi. We ruled principally in the consideration of no transparence of the language and in the notions of conditions of productions and discoursive formation. The principal contribution of the study was to evidenciate the possibility of
reflection. About the text thematic from the different discoursive formations, we conclude affirming that, interviewing other professors and analyzing the interviews formulated in the same conditions of immediate production, certainly we would be sending to other discoursive formation, that would be displayed in their interdiscourse.
Keywords: discourse formation, analyse of discourse, interview, interpretation, ideology.
## Introdução e Justificativa e Questão de Estudo
- O texto denominado Física e Química: a construção de uma proposta educacional , produzido e publicado em meados dos anos noventa do século passado , numa universidade federal brasileira, foi pensado com a finalidade de subsidiar as discussões de um conjunto de professoreres dessa universidade. Esses professores, juntamente com alunos de uma licenciatura curta em Ciências2 s2 , reivindicavam modificações , nesse curso , pela implantação de habilitações em Física e Química. Essas discussões também tinham por objetivo conseguir a melhoria das condições de trabalho institucionais e a acadêmicas as nas áreas de Física e Química, às quais o os professores pertenciam .
Funcionando como balizador das reivindicações desse conjunto de professores, o referido texto fazia menção a diversos itens das atividades acadêmico -institucionais , tais como: organização curricular, relações entre ensino, pesquisa e extensão, rerelações entre a universidade, relações entre os cursos de formação de professores e o sistema de ensino; formas de organização do trabalho na estrutura burocrática das coordenações de curso e de departamentos, e, ainda, menções a relações entre ciência, tecnologia e aspectos sociais. Para exemplificar essas menções, citamos:
A ciência tem ramificações em vários domínios da vida humana, fazendo parte da história de sua racionalidade e cultura devendo, pois, ser criticamente apropriada por todos; eis o principio básico da universalização do saber e da ciência p.3.
- O corpo do conhecimento científico tem sido continuamente enriquecido pelo fluxo das conquistas efetuadas no terreno da teoria e experimentação. O conjunto de conhecimentos, longe de ser acumulativo e linear, se viabiliza aos tropeços, com avanços e recuos, num processo que engloba, em maior ou menor grau, o formalismo, a teoria e a experimentação p.7.
Esse conjunto de assertivas e exortações, relativas à ciência, fazem parte do texto citado, e foram ali colocados sem que uma fundamentação teórica fosse explicitada para lhes dar plausibilidade. Assim, constituem-se apenas em fragmentos de idéias, nos quais as abordagens sobre relações entre ciência, tecnologia e aspectos sociais são entrelaçadas com considerações sobre educação.
O primeiro autor do estudo aqui apresentado é membro da equipe de professores de Física daquela universidade, tendo participado das citadas reivindicações. Quase dez anos depois, vivendo um novo momento de reformulações curriculares na referida universidade, e , participando de estudos relativos à área de educação em ciências, nos quais estavam sendo estudadas questões relativas à produção de significados na leitura de textos, julgou pertinente procurar compreender como professores , que haviam sido o protagonistas daquele movimento reivindicatório, interpretavam, depois de quase uma década , trechos do texto mencionado . Essa compreensão consistiria no discernimento de aspecectos do movimento desses sujeitos-professores e da produção de sentidos, que deveriam estar r implícitos no funcionamento do discurso dos mesmos. Esse foi o foco o de um estudo aqui parcialmente apresentado .
A questão que esta apresentação focaliza centraliza-a-se na produção de sentidos por um dos professores e foi assim formulada: como foram produzidos sentidos por um professor do curso na leitura do texto Física e Química: a construção de uma proposta educacional? Ou, formulada de outra maneira: de que posições es um professor do curso interpreta o texto Física e Química: a construção de uma proposta educacional?
## Apoio Teórico e Procedimentos de Coleta de Informações
Nos apoiamos teoricamente na vertente da análise de discurso originada na França por Michel Pêcheux, pautados principalmente em trabalhos produzidos no Brasil por Eni Orlandi. Nessa vertente a linguagem não é considerada como se fosse transparente e o seu funcionamento põe em relação sujeitos e sentidos afetados pela língua e pela história. Estabelece-s-se assim um complexo processo de constituição de sujeitos e de sentidos e não somente transmissão de informações. Para dar conta desses processos, em que são constituídos sujeitos e sentidos, é proposta a noção de discurso compreendido como efeito de sentidos entre locutores.
Já a noção de ideologia, nessa vertente , não é compreendida como ocultação o da realidade, mas como possibilidade de produção das evidências, necessárias, tanto do sentido quanto da "existência" do sujeito. Segundo Rodriguez (2000):
A ideologia é entendida na AD como a relação necessária existente entre o sujeito e suas condições materiais de existência, relação política que se constitui na/pela linguagem num processo que excede a consciência do sujeito p. 152.
Nesse "excede a consciência do sujeito" há uma nuance que é o lugar de inscrição de uma outra característica a da análise de discurso o na perspectiva em que estamos trabalhando: a relação da linguagem com o inconsciente e com o simbólico. Isso significa dizer que o sujeito não tem acesso direto à realidade, que a relação entre o ele e o mundo ao qual faz referência é mediada pelo trabalho simbólico.
Uma outra noção relevante para a análise que fazemos neste estudo é a de condições de produção. Para Orlandi (2002), as condições de e produção:
- (...) compreendem fundamentalmente os sujeitos e a situação. Também a memória faz parte da produção do discurso. A maneira como a memória 'aciona' faz valer, as condições de produção é fundamental p. 30
A autora considera que as condições de prprodução em seu sentido estrito abrangem as circunstâncias da enunciação; ou seja, o contexto imediato. Já as condições de produção em seu sentido amplo, incluem o contexto sócio-histórico, ideológico.
Queremos ressaltar que a noção de condições de produção o tem características próprias quando empregada para analisar determinadas situações, tais como, por exemplo, os dizeres da escrita e os dizeres da fala. Exemplificando , no caso da produção dos dizeres do professor que foi entrevistado, devemos admitir que as falas do entrevistador, seu colega de curso, com a entonação o que manteve durante a entrevista, os tipos de questões formuladas , o local da a entrevista, constituem, dentre outraras, as condições de produção dos discursos do o professor.
Outra noção que utiliz amos neste estudo é a de formação discursiva, que, segundo Brandão (2002), constitui um conjunto de enunciados marcados pelas mesmas regularidades, pelas mesmas "regras de formação"p.90. A autora também afirma que a formação discursiva determina "o que pode e deve ser dito" num dado lugar. Cada formação discursiva é atravessada por outras formações, e é preciso considerar o lugar do interdiscurso, ou memória discursiva nessas formações que, conforme afirma Orlandi (2002), "disponibiliza dizeres, determinando, pelo já dito, aquilo que constitui uma formação discursiva em relação à outra" p.44. Em outros termos, o interdiscurso é a memória do dizer que "fornece a 'cada sujeito' sua 'realidade', enquanto sistema de evidências e de significações percebidas - - aceitas - - experimentadas", conforme Pêcheux (1997, p. 162).
A noção de texto, na vertente da análise de discurso a que estamos nos referindo, é pensada "como uma unidade de análise afetada pelas condições de produção" (Orlandi, 2001, p. 60). Como objeto histórico o texto não tem o sentido de documento, , e sim o de discurso e , daí, associarmos essa noção à de ideologia.
Finalmente, como se trata de um estudo que envolveu um trabalho de análise da produção de sentidos pelo sujeito; sentidos inscritos no funcionamento do discurso do professor r sobre trechos do texto Física e Química: a construção de uma proposta educacional , mencionamos que a a questão da interpretação o não pode ser evitada. Esta é um trabalho contínuo que envolve o simbólico e o ideológico. Segundo Orlandi (2001, p.18), a interpretação "...é um 'gesto', ou seja, um ato no nível simbólico". Ela se dá de algum lugar da história e da sociedade e é importante destacarmos a diferenciação que a autora faz entre os gestos de interpretação por parte dos distintos sujeitos: a do analista e a do autor r do discurso. Para o analista "o "o objetivo é compreender, ou seja, é explicitar os processos de significação que trabalham o texto: compreender como o texto produz sentidos, através de seu mecanismo de funcionamento" p. 84, e, diferentemente, do autor, ele tem o apoio de um dispositivo teórico.
No que se refere aos procedimentos de obtenção de informações, o professor r foi entrevistado pelo primeiro autor deste estudo, com a a mediação de trechos do texto Física e Químic a: a construção de uma proposta educacional . Segundo Almeida (2007) a análise de seqüências verbais, incluindo as obtidas em entrevista, segundo a análise de discurso a que estamos nos referindo:
...implica em buscar determinar as condições de produção dos os dizeres e os efeitos de sentido produzidos, ou seja, quem disse, para quem disse, quando disse e onde disse, considerando que as posições a serem analisadas são as imaginárias e não as concretas imediatas. p.123
Antes de entrevistar o professor, o entrevistador entregou-lhe uma folha com trechos do texto Física e Química: a construção de uma proposta educacional incluindo uma questão abrangendo trechos do referido texto. Além disso, o professor recebeu um exemplar daquele texto completo. Dessa forma, a pretensão era a de fazer com que ele não só pudesse fazer o confronto da leitura dos trechos citados com a leitura do exemplar do texto original, mas, também, a de contribuir para que sua memória discursiva fosse reavivada .
- O enunciado da a questãtão, acompanhado dos trechos do texto Física e Química: a construção de uma proposta educacional l solicitava que fossem fefeitas considerações sobre três trechos do texto original, na forma aqui reproduzida:
## Prezado (a) colega
- O texto da proposta educacional que entrereguei a você foi produto de várias discussões que realizamos há cerca de sete anos atrás. Muita coisa pode ter mudado desde então, tanto no plano educacional como no plano de nossas convicções pessoais. Dada a importância que esse texto teve para as discussões que fazíamos e que ainda são feitas sobre os rumos s do curso de Ciências s e das habilitações em Física e Química, considerei importante retornar ao texto da proposta, sobretudo no que diz respeito às menções sobre ciência a e tecnologia que ali são feitas. Depois desse tempo e das discussões que foram feitas , à época , como é que você "vê", hoje, os trechos abaixo que foram extraídos da proposta?
Para além das equações, dos pressupostos lógicos, das teorias, a ciência e tecnologia têm conexões com o real, com o chamado campo de aplicação tecnológica e explicação dos fenômenos naturais. Ainda que haja desconfianças quanto ao uso que dela se faz - e este ponto merece uma discussão profunda porque diz respeito à vida de todos nós - a ciência pode, e, é o que se pretende, contribuir para a promoção da existência material e espiritual do homem p. 3.
Isto posto, vemos que a educação poderá auxiliar no desvendamento dos "segredos" da ciência e da tecnologia, sendo possível pensar para o futuro, numa população mais apta a discutir e escolher, com critérios, as soluções técnicas que possam suprir suas necessidades ao menor custo humano, social e ambiental e também ser usuária dessas soluções sem incorrer em riscos desnecessários em uma sociedade cada vez mais dominada pela cibernética, multimídia e biodiversidade p.12 .
Entretanto, a tendência a reduzir o conhecimento a tais aspectos tem contribuído para que a ciência perca, cada vez mais, o contato com a realidade fenomênica e material que cerca a existência humana. Avança -se
nos conhecimentos sobre termodinâmica, por exemplo, e mal sabemos como funciona uma geladeira; aprofundamos os estudos sobre ligações químicas, e mal sabemos os efeitos de um produto no organismo humano p. 8.
Entregue o roteiro com as as questõtões, a entrevista com o professor foi realizada três dias depois nas dependências do laboratório de Química, anexo do departamento de Ciências da Natureza, órgão da universidade onde o referido professor que havia participado das discussões que redundaram na proposta , continuava trabalhando. A entrevista foi gravada em fita cassete. Entrevistas realizadas no s moldes da que aqui estamos descrevendo podem ser encontradas em Pedroso (2004).
## Análise de Alguns Dizeres do Professor
Analisamos fragmentos das verbalizações do professor considerando-os como discursos, colocados a funcionar em relação a outros discursos. Ao buscarmos compreender como a questão formulada e os fragmentos de texto produziram sentidos, nos apoiamos em noções da análise de discurso comentadas as no item anterior, como condições de produção do discurso e formação discursiva.
Na entrevista propriamente dita , o entrevistador mencionou aspectos gerais do texto com a questão que lhe havia sido entregado três dias antes. Ao se referir a esses aspectos ele remeteu para desconfianças e temores a respeito do uso da ciência e solicitou ao professor que fifizesse considerações sobre esses a aspectosos:
Entrevistador: (...)"Para além das equações, dos pressupostos lógicos, das teorias, a ciência e tecnologia têm conexões com o real, com o chamado campo de aplicação tecnológica e explicação dos fenômenos naturais. Ainda que haja desconfianças e temores quanto ao uso que dela se faz", ou seja, da ciência, né?, "...e este ponto merece uma discussão profunda porque diz respeito à vida de todos nós - a ciência pode, e, é o que se pretende, contribuir para a promoção da existência material e espiritual do homem". Aqui, como é que você vê essa...esse comentário final do trecho em que se menciona, por exemplo, aa...aa...desconfianças e temores quanto ao uso que se faz da ciência, né?, Mas ao mesmo tempo o fato dela contribuir para a existência material e espiritual do homem?
## O que levou o professor à seguinte formulação:
Professor: -Pois é...o fato de contribuir para a existência espiritual e material do homem, em certos aspectos, ela até pode contribuir. Mas eu não entendo a ciência e a tecnologia contribuindo de uma forma cabal, nem chegando próximo da forma cabal, da concepção espiritual e material do...do homem, né? Isso por que? Porque eu compreendo que o homem, o ser humano, é muito mais complexo. Se a ciência e a tecnologia pode auxiliar? Pode. Se não fosse a ciência e a tecnologia nós não estaríamos gravando, por exemplo, aqui. Mas será que a ciência e tecnologia realmente, pelo fato de produzir um gravador, vai me satisfazer plenamente às minhas emoções, aos meus desejos, às minhas pretensões, aa...àquilo que mais...àquilo que mais éé...chega próximo da....do...meu ser? Pois é, aa...eu compreendo...eu não compreendo o ser humano como uma coisa
apenas éé...que ele esteja envolvido apenas com a questão da ciência e da tecnologia. Ou que as concepções materiais, de matéria, venha satisfazendo plenamente. Para mim o ser humano é muito mais complexo, ele tem uma complexixidade, para mim, enorme que nem a ciência e a tecnologia, a ciência e a tecnologia, por si só, não satisfaz todo a ele. Não é o fato de o cara, por exemplo, tem um carro da...da Ferrari que ele se sinta...que ele diz que é satisfeito, quer dizer, que tenha satisfação de vida. Não é o fato dele ter acesso a essa tecnologia que ele tenha satisfação. A ciência e a tecnologia, a meu ver, elas não dão satisfação completa ao ser humano. Aa...a tecnologia, a meu ver, elas não dão satisfação completa ao ser humano. Aa...a gente...a gente vê, dentro do contexto, que a ciência e a tecnologia, nesse aspecto, elas excluem, por exemplo, outros pensamentos que eu tenho na vida. Que, por exemplo, eu nunca discuti teologia; dentro da universidade você não discute teologia.
Nas formulações do professor r notamos uma série de relações, em que termos como material l e espiritual l fazem efeitos e produz em sentidos . Nos dizeres do trecho " Mas eu não entendo a ciência e a tecnologia contribuindo de uma forma cabal..., nem chegando próróximo da forma cabal, da concepção espiritual e material do...do homem, né? ", logo no início de sua fala, nota-s-se, pelo uso da adversativa mas um gesto de dúvida à pretensa autoridade que a ciência e a tecnologia poderiam ter no preenchimento das necessidades espirituais do homem.
Nos dizeres do trecho "Mas será que a ciência e tecnologia realmente, pelo fato de produzir um gravador, vai me satisfazer plenamente às minhas emoções, aos meus desejos, às minhas pretensões", novamente a adversativa mas sinaliza a mudança na direção do discurso. Estão presentes, nenesse e discurso do professor dizeres anteriores em que o gravador r pode ter sido o objeto sobre o qual recaem as interrogações que dizem respeito a pretensões da tecnologia , colocada em confronto com a a sua subjetividade .
Nos dizeres "Para mim o ser humano é muito mais complexo, ele tem uma complexidade, para mim, enorme que nem a ciência e a tecnologia, a ciência e a tecnologia..., por si só, não satisfaz todo a ele", na atribuição de uma complexidade ao ser humano, notamos indícios de uma argumentação a favor de seus questionamentos sobre a a capacidade de e completude da ciência e da tecnologia no que diz respeito ao todo de sua subjetividade.
A A menção à exclusão de um espaço para discussão da teologia, no ser humano, por parte da ciência, parece configurar, ainda, um gesto to de delimitação de fronteiras, que é manifestado com o discurso:
" Aa...a gente....a gente vê, dentro do contexto, que a ciência e a tecnologia, nesse aspecto, elas excluem, por exemplo, ououtros pensamentos que eu tenho na vida. Que, por exemplo, nunca eu discuti teologia; dentro da universidade, você não discute teologia."
Nessas formulações os termos material e espiritual fazem os seus efeitos e produzem sentidos. Pelos deslizes, o lugar da subjetividade, da satisfação o plena do homem, seria ocupado pela espiritualidade; o lugar da satisfação material estaria na esfera da ciência e da tecnologia. Configura-se ai a produção de de um efeito de não simetria entre o plano espiritual e o plano material com tensões no lugar de uma
subjetividade que, pelo embate/recusa com/do outro (ciência, tecnologia) reivindica, por uma aproximação, sua identificação com a espiritualidade. Não simetria, que, em alguns dizeres, é atenuada pelo reconhecimento de que a ciência e a tecnologia poderiam contribuir com a existência material e espiritual do homem, tal como no início do discurso: "Pois é ...o fato de contribuir para a existência material e espiritual do homem, em certos aspectos, ela até pode contribuir".
Nas formulações do professor, notamos deslocamentos, com produção de sentidos. Em suas formulações, os dizeres sobre ciência e tecnologia estão emaranhados com outros dizeres . O professor, ao falar sobre a ciência e tecnologia e suauas relações, com aspectos sociais , significa e é significado pelo que diz, produzindo sentidos e deslocamamentos, ocupando posições para ser sujeito desses/nesses dizeres. Como o professor universitário que ensina disciplinas da área de Química, utiliza a os protocolos dessa área de conhecimento e e trabalha com a ciência no campo da pesquisa a e do ensino. Entretanto, ao discorrer sobre aspectos relacionados à ciência e à tecnologia, o faz pelo deslocamento de posições, compelido popor outro chamamento ideológico, inscrito no simbólico e no imagaginário , que as condições de produção da entrevista provocaram .
Todo sujeito está fadado a interpretar r e com este professor não f foi diferente. Ele se apoiou em termos como material l e espiritual l para interpretar a "sua realidade" em relação à q questão que lhe f foi colocada e para a qual f foi i solicitado a fazer as suas considerações. Sua interpretação foi feita a partir de posições que ocupa; posições que são oscilantes e têtêm relações com as diferentes formações discursivas em que se insere. Se , num momento ele faz suas considerações da posição de um sujeito aparentemente religioso, , em outros momentos, essa posição é momentaneamente suspensa para dar lugar à posição de um sujeito que considera benéficas as contribuições da ciência e da tecnologia para o desenvolvimento espiritual e material do homem. Uma a formação discursiva é, assim, atravessada por outra formação .
## Considerações Finais
Entre as condições de produção dos dizeres do professor incluem-s-se as imediatas; entre outras, as organizadas pelo entrevistador, ao entregar os textos, e a própria entrevista. Mas também estão presentes inúmeras condições sóciohistóricas de difícil acesso.
Lembramos os jogos de resistência convocados pelos/nos dizeres do professor que, tomando o sentidos distintos , revela um sujeito que encontra, na complexidade da sua subjetividade, o lugar para se dizer, se e resguardar e resistir contra aspectos do objeto do seu trabalho de docente e de pesquisador, quando é convidado a refletir: a tecnologia e a ciência com seu materialismo. Entretanto, revelando contradições em suas formulações, o professor reconhece as contribuições trazidas pelos produtos tecnológicos para o cotidiano das pessoas, suspendendo, momentaneamente, o seu resguardo em relação à ciência e à tecnologia.
No modo do professor significar a ciência e a tecnologia, a evocação de papéis que são atribuídos a uma d das imagens de tecnologia é objeto de comentário de Gilbert (1992, p. 564/565). Esse autor, citando os trabalhos de Margolis, publicados em 1984, faz referência ao que chama de ambivalência social da tecnologia que, num de seus papéis, é qualificada como "satânica" porque os sujeitos investigados consideravam-na com poder destrutivo quando aliada a uma
perspectiva instrumental sobre o meio ambiente. O qualificativo "satânica", usado para descrever o efeito de domínio/maldade da tecnologia sobre o meio ambiente, com todos os qualificativos que poderiam ser evocados, tais como o de "destruição", "degradação", "decadência", remete, por associações implícitas, ao efeito que podemos discernir nos dizeres do professor r ao fazer menção a sua subjetividade como lugar de resistência à tecnologia que parece amedrontá-lo . Qualificativos semelhantes parecem ter produzido efeitos em dizeres do referido professor.
- O questionamento inicial, que culminou na realização deste estudo, relacionava -s -se com a ausência de referenciais teóricos explícitos no texto Física e Química: a construção de uma proposta educacional; entretanto, ao procurarmos identificar como um dos professores do curso interprpretava os dizeres desse texto, notamos a presença forte nos seus dizeres de uma outra formação discursiva. Supomos que tal formação discursiva, ainda que presente no processo do movimento reivindicatório que culminou na produção do texto, parece não ter interferido na sua participação , naquele momento , e, tampouco, há indícios visíveis de sua interferência na atividade diária do professor.
- O aqui exposto não modifica nosso posicionamento pela necessidade de sustentação teórica, histórica e filosófica, para ra as idéias colocadas em circulação no que se refere à ciência, tecnologia e aspectos sociais. Entretanto, consideramos que a principal contribuição do estudo aqui apresentado foi evidenciar a possibilidade de reflexão sobre o assunto a partir de diferentes formações discursivas, conforme o sujeito em questão, se criadas condições adequadas para tal. Entrevistando outros professores e analisando as entrevistas, formuladas nas mesmas cocondições de produção imediatas, certamente estaríamos remetendo para diversas outras formações discursivas que seriam manifestas em seus interdiscursos.
## Referências
ALMEIDA, Maria José P. M. Entrevista e representação na memória do ensino de ciências: uma relação com a concepção de linguagem. In: NARDI, Roberto. A pesquisa em Ensino de Ciências no Brasil: alguns recortes. São Paulo: Escrituras, 2007. 117 -130.
BRANDÃO, Helena H. I Introdução à análise do discurso. 8 ed. Campinas: Editora da UNICAMP, 2002. 96 p.
GILBERT, John K. The interface between science education and technology education. International Journal of Science Education, vol. 14, n. 5, p. 563-578, 1992.
ORLANDI, Eni P. Interpretação - autoria, leitura e efeitos do trabalho simbólico. 3 ed. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2001aa. 150 p.
\_\_\_\_\_. A Análise de discurso - princípios e procedimentos. 4. ed. Campinas: Pontes Editora, 2002. 100 p.
PECHEUX, Michel. Semântica e discurso: uma critica à afirmação do óbvio. Tradução por Eni P. Orlandi et al. 3. ed. Campinas: Editora da UNICAMP, 1993. 96 p.
PEDROSO, Luiz E. Ciência, tecnologia e aspectos sociais nos dizeres de professores: movimento de sujeitos e de sentidos. 2004. 168 p. Tese (Doutorado em Educação). Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas.
RODRIGUEZ, Carolina M. Língua, nação e nacionalismo - - um estudo sobre o guarani no Paraguai. 2000. Tese (Doutorado em Lingüística). Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas.
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