Física e Literatura: intersecções possíveis em sala de aula
Ana Maria S Menezes, Andreia Guerra
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVIII
- Ano
- 2009
- Data
- 29/01/2009
- Linha de pesquisa
- Arte, Cultura E Educação Científica
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## FÍFÍSICA E LITERATURA: INTERSECÇÕES POSSÍVEIS EM SALA DE AULA
Ana Maria Santos Menezes a (anamaria.menezes@gmail.com) Andréia Guerra de Moraes b (guerrareis@tekne.pro.br)
a CEFET -RJ e Fundação Osório - RJ b CEFET -RJ
## ININTRODUÇÃO:
Em 2005, comemorou-se o Ano Mundial da Física. A época escolhida coincidiu com o centenário da publicação de um importante artigo para o conhecimento científico: "Sobre a Eletrodinâmica dos Corpos em Movimento" de Albert Einstein (1879-1955).
O ano de 1905 foi denominado "ano miraculoso" o" para Einstein, pois junto àquele artigo, ele publicou outros quatro, abordando vários assuntos: efeito fotoelétrico, conceito de quantum de luz, movimento browniano, equivalência entre massa e energia e o novo método de determinação de dimensões das momoléculas, demonstrando uma grande produção acadêmica. Em 1916, continuando sua produção, Einstein publicou um artigo, "Fundamentos da Teoria da Relatividade Geral", apresentando o que ficou conhecido como Teoria da Relatividade Geral.
Qual a importância da s Teorias da Relatividade de Einstein e seus princípios?
Segundo Rindler e Beiglböck k (1977), pode-se perceber relevância deste trabalho, em comparação aos de outros cientistas, como Newton.
Como boa teoria, contudo, a Relatividade Restrita não lançou luz sobre fatos já conhecidos. Ela abriu novos campos de pesquisa. A situação pode ser comparada àquela da astronomia à época do intricado sistema geocêntrico (correspondente à teoria de Lorentz) quando apareceram as idéias libertadoras de Copérnico, Galileu e Newton. Em ambos os casos, o progresso foi alcançado por mudanças de referenciais.
Portanto, houve uma revolução científica, um novo paradigma emergiu.
O que se aprende na escola sobre esta teoria de tão grande impacto no meio científico?
Terrazan (1992) responde, indicando que a física escolar é a física clássica:
Na verdade, a prática escolar usual exclui tanto o nascimento da ciência, como a entendemos, a partir da Grécia Antiga, como as grandes mudanças no pensamento científico ocorridas na virada deste século e as teorias daí decorrentes. A grande concentração de tópicos se dá na física desenvolvida entre 1600 e 1850[ ... ] Assim, os conteúdos que comumente abrigamos sob a denominação de física moderna não atingem os nossos estudantes. O que se pode esper ar de uma física escolar que esteja tão descompassada/ defasada no tempo?
Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs, 1999) vinculam conteúdos ao cotidiano do aluno e ressaltam a omissão dos desenvolvimentos realizados durante o século XX, no ensino de física.
Contudo, segundo pesquisa realizada (OLIVEIRA et al, 2007), de dez professores entrevistados, sete nunca trabalharam com Física Moderna e Contemporânea. Apesar do que apontam os documentos oficiais, houve pouca mudança em relação aos conteúdos ensinados, além de poucos trabalhos que envolvem projetos interdisciplinares.
## CONSTRUINDO UMA PROPOSTA DE TRABALHO:
As indagações em torno ao papel da Teoria da Relatividade Restrita e Geral para a ciência e da ausência do ensino dessa teoria na escola de Ensino Médio, levarammnos a desenvolver uma proposta pedagógica, com o objetivo de levar ao aluno da primeira série, alguns conceitos básicos e princípios.
Procurando realizar tal objetivo uma questão surge: como ensinar a alunos do ensino médio a Teoria da Rela tividade Restrita e Geral sem restringir o trabalho à abordagem matemática e operacional de tal teoria?
A partir da reflexão do professor Zanetic (1998) de que "a ciência tem vários componentes culturais que podem ser trabalhados em sala de aula", esse trabalho escolhe o caminho da Literatura, da História e da Filosofia da Ciência com vistas à aproximação entre as duas culturas, humanista e científica, tão polarizadas como revelou Charles P. Snow (1905-1987), rumo ao ensino das Relatividades de Einstein no grau médio.
A interconexão entre Literatura e Física já foi apontada em vários trabalhos.
Segundo Klaus R. Mecke (2004), físico do Instituto Max Planck:
A Literatura e a Física habitam o mesmo ambiente. Não só a Física influencia a Literatura como vice -versa. Não no sentido de uma causalidade direta, mas sim no de um quadro interpretativo comum, de uma língua comum, de imagem e metáforas comuns. Porque a Física vive de metáforas poderosas.
Entretanto, a utilização criteriosa de metáforas no ensino é necessárária. Lemke (1997) ressalta o uso indevido da metáfora no ensino, que ao invés de ajudar pode prejudicar a aprendizagem.
Paralelamente, no livro Física e Filosofia (2000, p. 46), Mário Bunge defende:
[ ... ] o modelo envolvido em cada teoria... não precisa ser er pictórico e não deve ser confundido com as analogias ou metáforas que tantas vezes são meios para o nascimento (e ulterior tuturvamento) de uma teoria.
Apesar de responsabilizar a metáfora ou analogia de um posterior mal-l-entendimento de uma teoria, Bunge rereconhece o papel das analogias e metáforas no nascimento de uma teoria.
Nessa mesma linha de pensamento, as experiências de pensamento podem ser consideradas metáforas. Segundo Arruda (1993), "a "as metáforas também são muito usadas na Física... aparecendo sob a forma de experiências de pensamento."
Imaginação, criatividade não são privilégios das Artes, aparecendo também na construção do conhecimento científico. Da mesma forma, a História e a Filosofia da Ciência colaboraram junto à Literatura para o estudo do do desenvolvimento dos conceitos físicos e das rupturas conceituais trazidas ao longo do tempo (Martins, 2006).
Porém, como aproximar a Física e a Literatura, as duas culturas, com vistas ao ensino das relatividades de Einstein no grau médio?
## METODOLOGIA:
Buscando responder à questão anteriormente destacada estão sendo construídos cinco textos de leitura para alunos. Os alunos a que os textos se destinavam estudavam Física numa escola regular, com uma carga horária de 3 tempos semanais. O tema central do cururso, mecânica, foi desenvolvido a partir de aulas expositivas e atividades experimentais. O primeiro assunto abordado foi o estudo do movimento, numa perspectiva cinemática. Depois o destaque foi o estudo das Leis de Newton, trabalhando -se as três leis mais is a Teoria da Gravitação Universal. As Teorias da Relatividade Restrita e Geral não eram temas oficiais do curso, mas foram assuntos discutidos, a partir das leituras dos textos entregues aos alunos.
Os alunos receberam os textos por meio eletrônico, leram individualmente, fora de sala de aula, e responderam a questões, cujas respostas foram entregues à professora. A análise das respostas norteou tanto os debates em sala de aula, em torno aos temas estudados, quanto a confecção dos novos textos.
Todos os textos foram desenvolvidos a partir de um eixo comum: utilizar um texto de literatura para construir com os alunos uma reflexão em torno a um assunto específico da Física. Como o objetivo primeiro do trabalho era trazer à sala de aula a Teoria da Relativididade Restrita e Geral, os cinco temas escolhidos visavam permitir ao leitor reflexões em torno ao estudo do movimento ao longo da história.
Para iniciar o trabalho, foi elaborado um texto que discute o papel da ciência no mundo contemporâneo, a partir de um romance do Machado de Assis, o Alienista. Por que escolher o
primeiro texto sobre a ciência se o tema central da proposta era a Teoria da Relatividade Restrita e Geral?
Pierre Thuillier (1994, p.25) escreveu a respeito da ciência moderna:
A revolução científica foi de certo modo sobre determinada; a convergência de múltiplos fatores favoráveis, segundo a expressão consagrada, é que a tornou possível e até inevitável l [ ... ] conjunto de transformações sócio culturais que dizia respeito aos modos de produzir, aos modos de viver, aos modos de sentir e aos modos de pensar.
Portanto, para se compreender uma teoria científica, além do aspecto conceitual, é necessário abordar o contexto filosófico, político e cultural da época de sua concepção.
Neste sentido, a Hisistória e a Filosofia da Ciência apresentam caminhos para o entendimento da evolução do pensamento científico.
Como revoluções científicas, as Teorias da Relatividade de Einstein tiveram repercussões além da Física, rompendo com o senso comum.
Escolher o texto de Machado de Assis teve a finalidade de levar o aluno a refletir sobre a ciência, como construção humana, histórica e filosoficamente contextualizada.
De um lado, no início da pesquisa, o mago ou "bruxo do Cosme Velho", Machado de Assis escrevendo sobrbre o trabalho do cientista, Doutor Bacamarte, que abalou a sociedade com suas teorias sobre a loucura. Do outro lado, mais adiante na pesquisa, o "mago" da Física Moderna, Albert Einstein, sintetizando uma nova teoria sobre a luz, a partir de conceitos científicos e idéias filosóficas abalando a sociedade de sua época.
E essas duas culturas, apresentadas para o aluno pelos "magos" se interpenetram no campo da imaginação e da criatividade, privilégios da humanidade.
O segundo texto trata de um assunto muito importante à compreensão das mudanças trazidas pela Teoria da Relatividade Restrita, o conceito de referencial. Nesse texto o foram exploradas as transformações de Galileu, com base no conto A Luneta Mágica, de Joaquim Manuel de Macedo. Tem como ponto de partrtida uma citação de Galileu Galilei i sobre movimento, em sua obra Diálogo Sobre os Dois Maiores Sistemas do Mundo. Em uma perspectiva histórico-filosófica, descreve -se sucintamente, a época e a sociedade em que Galileu vivia e tempos anteriores, com referêncncia a filósofos naturais e artistas. A questão do "ponto de vista" é contextualizada no texto literário, entremeado com menções aos ensinamentos de Galileu.
- O terceiro texto apresenta a Teoria da Gravitação Universal de Newton e o conceito de espaço absoluto, partindo do texto de literatura de cordel, Issac Newton (Gonçalo Ferreira da Silva, 2007).
O quarto discute a idéia de éter no século XIX. E o quinto, partindo de trechos do livro O Sonho de Einstein de Alan Lightman, apresenta as teorias da relativid ade, restrita e geral.
## AVAVALIAÇÃO DE UM PROCESESSO:
O trabalho aqui apresentado encontra-se em processo. Porém a avaliação das respostas de alguns textos, assim como a análise do desenvolvimento do curso em sala mostrou que os alunos se envolveram no processo. As respostas construídas pelos alunos foram cuidadosas, eles escreveram muito e, em sala de aula, retomaram, em alguns momentos, assuntos discutidos nos textos.
Almeida e Silva (1998) destacam, em um trabalho sobre produção de leitura em aulas de Físic a, adotando o ponto de vista de Orlandi (1987; 1988), o sentido do texto para o sujeito que lê é efeito, também, de outras leituras e histórias de vida desse sujeito.
Na análise das respostas, esta perspectiva está sendo considerada. A análise das respostas dos alunos às questões do primeiro texto forma fundamentais para o desenvolvimento dos outros textos. Nesse sentido, torna -se importante destacar as avaliações referentes a esse momento.
## Análise das respostas às questões propostas do primeiro texto (anexo 1):
O primeiro texto procura apresentar as idéias sobre o método de experimentação e o uso da matemática, trazidos pela ciência moderna à época de Galileu e Newton, em contraste às idéias de Karl Popper sobre a construção do conhecimento.
A citação inicial de Albert Einstein, cuja autoria não fora revelada aos alunos, deu margem a duas das três questões colocadas
"A ciência, considerada como um conjunto pronto e acabado de conhecimento é a mais impessoal das produções humanas; mas, considerada como um projeto que se realiza progressivamente, ela é tão subjetiva e psicologicamente condicionada como qualquer empreendimento humano." (apud, .
## Thuillier, 1994)
Questão 1: A ciência, considerada como um conjunto pronto e acabado de conhecimentos é a mais impessoal das produções humanas. Você concorda com essa afirmação? Cite partes do texto que justifiquem sua resposta.
Nas respostas analisadas, 42% concordaram com a afirmativa e 58% discordaram.
Destacammse as seguintes respostas:
Aluno 4 -"concordo com a citaçãção mencionada acima, pois a ciência abrange não só algo em particular e sim um determinado conjunto em geral... Inicia-se a investigação pela observação dos fenômenos até se chegar a leis gerais. Pressupõe que a ciência deva partir de um fenômeno (ou caso particular) a ser estudado."
Comentários: há uma confusão entre impessoal e geral. Além disso, para ele, o conhecimento científico parte da observação do fenômeno, não prestando atenção à época em que foi colocado.
Aluno 7 -"nãnão, popois a ciência sempre está se colocando a provas, através de novas teorias que discordam com as anteriores. A parte do texto em que está visualmente colocado isso é: De acordo com o filósofo da ciência Karl Popper (1902 -1994), não se pode dizer que uma teoriria científica é provavelmente verdadeira a partir da observação...".
Questão 2: A ciência considerada como um projeto que se realiza progressivamente é tão subjetiva e psicologicamente condicionada como qualquer empreendimento humano. Você concorda com essa afirmação? Cite partes do texto que justifiquem sua resposta.
Na questão 2, 50% dos alunos concordaram e 50% discordaram da afirmação. Algumas respostas:
Aluno 10 -"Sim, pois cada cientista, por mais impessoal que deseje ser, estará sujeito às suas concncepções, que acabarão norteando sua pesquisa... tão preocupado em ser o mais objetivo possível, o doutor Bacamarte torna-se cada vez mais subjetivo na escolha dos pacientes."
Aluno 6 -"Não, não concordo. Não há como a ciência ser subjetiva a partir do ponto em que se busca ser objetivo e estudar o que pode ser explicado.... os fenômenos observados são a base do conhecimento científico, assim como em Aristóteles..."
Analisando paralelamente as questões 1 e 2, ressaltamos:
- 1) Alunos que discordam da questão 1 e e concordam com a questão 2: 33% dos alunos.
- 2) Alunos que concordam com a questão 1 e discordam da questão 2: 30% dos alunos.
- 3) Alunos que concordam com ambas as questões: 17% alunos.
- 4) Alunos que discordam de ambas as questões: 20% alunos.
Questão 3: O Dr. Bacamarte era um cientista ou um louco?
Nesta questão, somente 20% dos alunos afirmaram que o doutor Bacamarte era um cientista, enquanto a maioria afirmou que era louco.
Aluno 6 -"Um louco, pois ele nãnão tem nenhum método parara estudar e diagnosticar quem era louco e quem não era."
Aluno 5 -"O doutor Bacamarte nãnão era um louco, ele era um cientista; só apenas via os defeitos de cada ser humano como uma loucura; ele não imaginava que cada pessoa tinha sua mania e e que isso era mais comum do que ele pensava."
As respostas dos alunos no primeiro texto expõem várias idéias deles a respeito da ciência. Eles referem -se à ciência como um processo não fechado; algo que progride com acúmulo de conhecimentos; um conhecimentnto associado à tecnologia. Destacam a observação como ponto de partida para o conhecimento científico.
Apesar dos elementos apontados, não podemos dizer que os alunos possuem uma visão de ciência formada. Apesar de a maioria discordar da ciência como prodututo impessoal, mais da metade dos alunos discordou, também, da ciência subjetiva e em processo.
A conclusão de que os alunos não possuem uma visão de ciência formada foi fundamental para a construção dos textos seguintes. Em todos os textos houve a preocupação de trazer uma reflexão sobre o modo de produção da ciência, junto com a discussão do tema propriamente dito. Por exemplo, no segundo texto sobre referencial houve uma preocupação em trazer questões históricas, como a da invenção da perspectiva, para confrontar com o conto A Luneta Mágica, de Joaquim Manuel de Macedo, de forma a permitir ao leitor perceber como a visão da natureza em uma certa época é fundamental à ciência que ali está sendo construída.
## COMENTÁRIOS FINAIS :
Finalmente, pretende-se responder à questão: a Literatura pode ser um caminho para introduzir as Teorias da Relatividade Restrita e Geral no Ensino Médio?
A resposta a essa pergunta pode ser de certa forma encontrada em alguns trabalhos em torno ao ensino de ciências. Um estudo de caso da relação entre Arte e ensino dessas teorias, empreendido por Guerra et al (2007), mostra que a Literatura como as artes plásticas pode ser um caminho para ensinar as Teorias da Relatividade Restrita e Geral, dando um significado maior ao estudo que o do do formalismo matemático. Zanetic (1998) discutiu as relações entre Literatura e Ciência e, Meck (2004) mostrou as várias formas de interconexão entre Física e Literatura.
A presença da imaginação, de metáforas e analogias é demonstrada no nascimento destas teorias. Einstein, aos 16 anos freqüentava uma escola na Suíça, segundo Reis et al (2005), cujas atividades curriculares procuravam desenvolver a visualização e a intuição como meios para se chegar ao conhecimento, proposta do educador Johann Heinrich Pestalozzi. Ao realizar, nesta época, uma experiência de pensamento que mostrou um paradoxo na Teoria Eletromagnética, Einstein concebeu uma resposta que levou ao novo conhecimento científico sobre a luz.
Assim, a imaginação foi um fator preponderante na conc epção das Teorias da Relatividade de Einstein.
A proposta pedagógica aqui discutida está sendo aplicada no ano letivo de 2008. Logo o que se tem é uma avaliação parcial do processo. Porém a análise das respostas dos alunos até o momento, assim como o envolvimento deles com a leitura e com a realização do trabalho mostra que a leitura de textos literários é uma atividade que favorece a construção de imagens, despertando a fantasia que também estava presente na experiência de pensamento de Einstein. O objetivo foi atingido, pois os alunos estão refletindo sobre a Física de forma mais ampla, considerando outros contextos junto a Matemática.
Seja como veículo para despertar a imaginação, seja como veículo para contextualizar o ensino dos conceitos científicos das Teorias da Relatividade de Einstein, a Literatura favorece a aquisição e construção dos conceitos propostos, como os trabalhos acima citados sugerem, procurando-o-se ratificar esta afirmação através do futuro resultado desta pesquisa.
## A Ciência
- "A ciência, considerada como um conjunto pronto e acabado de conhecimento é a mais impessoal das produções humanas; mas, considerada como um projeto que se realiza progressivamente, ela é tão subjetiva e psicologicamente condicionada como qualquer empreendimento humano." 1
- A declaração acima revela dois pontos de vista a respeito da ciência: ciência pronta, acabada, impessoal e ciência como projeto, longe de terminar, sujeita a aspectos psicológicos, subjetivos, como qualquer obra humana. Qual dele s descreve melhor a ciência? Ou serão ambos, ou, talvez, nenhum?
Antes de responder, convém tomar conhecimento do trabalho de um cientista que morou durante alguns anos em Itaguaí, no Estado do Rio de Janeiro. Quem conta a estória é Machado de Assis, em sua obra de ficção, O Alienista.
- O relato servirá de base para algumas perguntas relacionadas direta ou indiretamente às questões acima, além de ajudar o leitor a optar por um dos pontos de vista sobre a ciência.
- As crônicas da Vila de Itaguaí dizem que em em tempos remotos vivera ali um certo médico, o Dr. Simão Bacamarte, filho da nobreza da terra e o maior dos médicos do Brasil, de Portugal e das Espanhas. Estudara em Coimbra e Pádua. Aos trinta e quatro anos, regressou ao Brasil, não podendo el-rei alcançaçar dele que ficasse em Coimbra, regendo a universidade, ou em Lisboa, expedindo os negócios da monarquia.
- - A ciência, disse ele a Sua Majestade, é o meu emprego único. Itaguaí é o meu universo.
Dito isso, meteu -se em Itaguaí e entregou-se de corpo e almlma ao estudo da ciência, alternando as curas com as leituras, e demonstrando os teoremas com cataplasma. 2 2 (cap. 2, 2 o parágrafo)
- O Dr. Bacamarte chega a Itaguaí com muitas idéias e, depois de pesquisa, decide inaugurar com o apoio político dos vereadores, um asilo de loucos, a Casa Verde, com o intuito de "estudar profundamente a loucura, os seus diversos graus, classificar-r-lhes os casos, descobrir enfim a causa do fenômeno e o remédio universal", conforme suas palavras.
Neste ponto, caro leitor, o autor aponta como a ciência era estudada no tempo dessa estória. Através da observação sistemática, precisa dos fenômenos, da análise e classificação dos resultados obtidos pela experimentação, chega -se a conclusões e generalizações e ao "r "remédio universal" l" .
Esse modo de proceder em ciência segue um método chamado "indutivo". Inicia-se a investigação pela observação dos fenômenos até se chegar a leis gerais. Pressupõe que a ciência deva partir de um fenômeno (ou caso particular) a ser estudado.
Um pouco de Filosofia e História da Ciência é necessário à compreensão do modo de pesquisa do Dr. Bacamarte.
- O filósofo Francis Bacon (1561 - 1626) e alguns de seus contemporâneos entendiam que a experiência era a fonte de conhecimento e achavam um erro a preocupação de filósofos naturais medievais com a leitura de obras de Aristóteles e até mesmo de textos religiosos, como fonte do conhecimento científico.
A revolução científica que teve seu ápice 3 durante o século XVII trouxe a idéia de que através da experimentação e da matemática o homem poderia conhecer plenamente o Universo.
Dessa forma, defende -se que através dos órgãos dos sentidos normais e inalterados, registrando-se fielmente o que acontece e utilizando a linguagem matemática para relacionar os registros, chega -se ao conhecimento verdadeiro da Natureza. Mas o que é conhecimento verdadeiro? Será o científico ou haverá outros?
Nem sempre a investigação sobre a natureza foi feita seguindo-se um método constituído por etapas que deveriam ser seguidas em certa ordem, e, nem sempre, esta investigação partia dos fenômenos observados.
Na Antiga Grécia, Heráclito que vivia em um lugar chamado Éfeso, daí ser conhecido como Heráclito de Éfeso (544 - 484 a.C.) empenhou-se na questão do coconhecimento dos seres e da Natureza. Como entender os seres se eles mudam constantemente? Para ele e seus seguidores, tudo está em constante movimento. Os fenômenos observados nos revelam o dinamismo de todos os seres. Ao tomarmos banho em um rio hoje, seserá uma ação nunca mais repetida. Amanhã, não será mais o mesmo rio em que nos banharemos.
Na contramão o das idéias de Heráclito, apareceu Parmênides da cidade de Eléia, Parmênides de Eléia (acerca de 540 - 470 a.C.) que alegava: para chegarmos ao verdadeiro o conhecimento dos seres é preciso usar a mente e não através da observação dos fenômenos. O verdadeiro ser não muda, é perfeito, acabado. As mudanças percebidas pelos sentidos são enganosas e falsas. Não há início, nem fim do ser verdadeiro. Só há o presentnte eterno.
Platão (428 - 347 a.C.), outro filósofo grego que se destacou na busca do conhecimento verdadeiro sobre os seres e a Natureza, procurou conciliar as idéias de Parmênides e Heráclito. Para ele, as mudanças estavam nas aparências, no mundo sensíve l dos fenômenos e do movimento. O mundo das idéias, aquele comum à mente de todos os homens, era imutável e imóvel.
Aristóteles (384 - 322 a.C.) discípulo de Platão discordou de seu mestre. Harmonizando as idéias de Heráclito e Parmênides com as suas próprprias idéias, dizia haver um mundo repleto de mudanças (mundo sublunar, abaixo da Lua) imperfeito, e outro mundo perfeito, eterno (mundo supralunar, acima da Lua). Elaborou uma nova teoria do conhecimento, onde a observação dos fenômenos nos daria pistas importantes.
Retornando às idéias que foram sedimentadas no século XVII (Revolução Científica), os fenômenos observados são a base do conhecimento científico, assim como em Aristóteles. Mas, a diferença está em um método ordenado de observação e experimenta ção e na descrição matemática das leis que regem os fenômenos, objetiva, o mais livre possível da subjetividade do pesquisador.
Com m Galileu e seus contemporâneos inaugura-se a Ciência Moderna.
Dr. Bacamarte certamente estava convencido que as observações dos casos de loucura levariam diretamente à formulação correta de uma teoria sobre as causas de insanidade. A Casa Verde, de domínio público, foi inaugurada e, a partir de então, aqueles que viviam reclusos em seus lares mudaram -se para o novo endereço, com o diagnóstico confirmado de doença mental para internação.
Porém, um dia o Dr. Bacamarte revela ao seu amigo boticário 4 , o Sr. Crispim Soares:
- - Estou muito contente, disse ele.
- - Notícias do nosso povo? perguntou o boticário com a voz trêmula.
- O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:
- Trata -s -se de coisa mais alta, trata -s -se de uma experiência científica. Digo experiência, porque não me atrevo a assegurar desde já a minha idéia; nem a ciência e outra coisa, Sr. Soares, senão uma investigação constante... A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente. (cap.4, 3 o parágrafo)
Para provar sua teoria sobre a loucura que afetaria muita gente, o Dr. Bacamarte recolhe muitas pessoas à Casa Verde, muitos cidadãos queridos pelo povo da cidade.
Neste ponto, merece atenção o procedimento do Dr. Bacamarte. Os casos de loucura agora verificariam sua teoria ou os casos de sanidade ou equilíbrio mental refutariam suas idéias?
Eis ai um fator que pode ser inconveniente à pesquisa científica: tão preocupado em ser o mais objetivo possível, o Dr. Bacamarte torna-se cada vez mais subjetivo na escolha dos pacientes. De acordo com o filósofo da ciência Karl Popper (1902 - 1994), não se pode disser que uma teoria científica é provavelmente verdadeira a partir da observação. A teoria é uma suposição dos cientistas para superar problemas criados por teorias anteriores. Antes da observação do fenômeno há uma teteoria, cuja validade é testada pelos experimentos.
Gaston Bachelard (1884 - 1962), outro filósofo da ciência atesta que a ciência progride por tentativa e erro e a teoria que explica o fenômeno é a melhor que se dispõe no momento. Além disso, o contexto hihistórico e social influencia a escolha de uma teoria científica. Como?
- A população de Itaguaí atribui muitas causas ao comportamento do doutor e ao que acontecia:
- ...O alienista dizia que só eram admitidos os casos patológicos, mas pouca gente lhe dava cr crédito. Sucediammse as versões populares. Vingança, cobiça de dinheiro, castigo de Deus, monomania do próprio médico, plano secreto do Rio de Janeiro com o fim de destruir em Itaguaí qualquer gérmen de prosperidade... (Cap.5, 28 o parágrafo)
Após a internação de diversos cidadãos, a população ficou aterrorizada e começou uma revolta, liderada pelo barbeiro Porfírio.
Cerca de trezentas pessoas encaminharam-m-se à casa do Dr. Bacamarte, exigindo que a Casa Verde fosse demolida. A polícia interveio, mas, para susurpresa geral, inicialmente alguns e, depois muitos destes policiais se juntaram à causa dos rebeldes. O governo da cidade foi deposto e quem assumiu foi o Sr. Porfírio, líder dos revoltosos.
Estabelecido o novo governo, o Sr. Porfírio visitou o Dr. Bacamamarte e afirmou, para espanto geral:
- - Engana-se Vossa Senhoria, disse o barbeiro... Com razão ou sem ela, a opinião crê que a maior parte dos doidos ali metidos estão em seu perfeito juízo, mas o governo reconhece que a questão é puramente científica e nãnão cogita em resolver com posturas as questões científicas... Demais, a Casa Verde é uma instituição pública... (Cap. 9, 2 o parágrafo)
Poucos dias depois, cerca de cinqüenta aclamadores do novo governo foram colocados na Casa Verde, pelo Dr. Bacamarte e mamais indignação provocou entre a população. A crise só foi debelada por ordem do vice-rei e mais pessoas foram recolhidas. A autoridade do Dr. Bacamarte era incontestável. Até Crispim Soares e o presidente da Câmara não foram poupados. "Tudo era loucura" (Cap. 10, 5 o parágrafo).
Mas, de repente... deixo o final dessa estória para o leitor curioso em saber como tudo terminou.
A crítica ao Cientificismo, filosofia em que a ciência é a única fonte de conhecimento verdadeiro está presente nesse texto de Machado de Assis.
E agora, caro leitor, está pronto para responder às questões iniciais sobre a ciência? Vou enumeráálas, novamente, acrescentando outras também relevantes.
## Questões:
- 1 -A ciência, considerada como um conjunto pronto e acabado de conhecimentos é a a mais impessoal das produções humanas. Você concorda com essa afirmação? Cite partes do texto que justifiquem sua resposta.
- 22A ciência considerada como um projeto que se realiza progressivamente é tão subjetiva e psicologicamente condicionada como qualquer empreendimento humano. Você concorda com essa afirmação? Cite partes do texto que justifiquem sua resposta.
- 3 -O Dr. Bacamarte era um cientista ou um louco?
## REFERÊNCIAS:
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