A ALFABETIZAÇÃO CIENTÍFICA NO ENSINO DE FÍSICA PARA A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS: UMA EXPERIÊNCIA COM O CHUVEIRO ELÉTRICO
Ary De Souza Vivas, Ricardo Roberto Plaza Teixeira
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVIII
- Ano
- 2009
- Data
- 29/01/2009
- Linha de pesquisa
- Alfabetização Científica E Tecnológica E Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do SNEF 2009
Texto completo
## A ALFABETIZAÇÃO CIENTÍFICA NO ENSINO DE FÍSICA PARA A EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS: UMA EXPERIÊNCIA COM O CHUVEIRO ELÉTRICO
Ary de Souza Vivas a [aryvivas@yahoo.com.br] Ricardo Roberto Plaza Teixeira b [rrpteixeira@bol.com.br]
a Centro Federal de Educação Tecnológica de São Paulo
b Centro Federal de Educação Tecnológica de São Paulo e Pontifícia Universidade Católica de São Paulo
## 1. RESUMO
Este trabalho trata do ensino de física para Educação de Jovens e Adultos utilizando a história da tecnologia e a história da ciência, sob a perspectiva da alfabetização científica. Nele é apresentada uma experiência com o uso do chuveiro elétrico em uma turma de terceiro ano de ensino médio de escola pública, analisando os seus aspectos positivos e as suas limitações. A metodologia utilizada foi abordar historicamente o chuveiro, bem como o surgimento da necessidade de se banhar e as concepções de cada civilização sobre esse hábito, destacando as suas influencias culturais. Após isso, relaciona-a-se a noção de higiene que surgiu no século XIX na Europa, com forte ligação entre a emergência da teoria microbiana de Pasteur, com o inicio da conscientização da importância do ato de tomar banho para os europeus, favorecendo o surgimento do chuveiro. Em seguida, focou-se na chegagada do chuveiro para o Brasil, justificando o porquê este teve a necessidade de se tornar elétrico, pois nas outras nações, o chuveiro funcionava com outras fontes de geração de energia, no caso o gás natural. Com isso, iniciou-se o desmonte do chuveiro elélétrico, discutindo seus conceitos físicos amparado com teorias da história da ciência, especificamente a física, promovendo uma discussão conceitual entre a corrente elétrica e o calor, e a similaridade existente na construção de suas teorias. s. Os pontos positivos destacados foram o despertar da curiosidade dos alunos devido, sobretudo, as inúmeras perguntas dirigidas por eles associadas aos fenômenos ocorridos no chuveiro elétrico e a presença destes em situações vivenciadas por eles e as intervenções na abobordagem histórica sobre o banho.
Palavras -chave: Alfabetização Científica , História da Ciêiência,História da Tecnologia, , Educação de Jovens e Adultos.
## 2. INTRODUÇÃO
No Brasil, a Educação de Jovens e Adultos (EJA), historicamente nunca recebeu a atenção ne necessária do poder público. Em muitos casos, a sociedade organizada e muitos intelectuais, principalmente da área de educação, mobilizaram-m-se, visando concretizar o direito à educação desse público, cuja maioria é oriunda de classes populares. Na década de 1960, Paulo Freire e muitos outros educadores criaram grandes movimentos de educação popular, objetivando erradicar o analfabetismo. Para isso, elaborou um método crítico para alfabetizar adultos, tendo como base o respeito à identidade cultural do educandndo, permitindo uma emancipação de sua condição e possibilitando uma compreensão crítica do ato de ler e escrever. Esse método teve muitos méritos e grande parte de seus conceitos continuam sendo aplicados não só na alfabetização de jovens e adultos, mas também nas fases posteriores dessa modalidade.
A preocupação de Paulo Freire e de muitos teóricos da educação popular na época era, sobretudo, com a alfabetização em ciências humanas. Entretanto, Paulo Freire (1985) iniciou suas reflexões sobre alfabetização o em ciência associada à curiosidade epistemológica e relacionado à
apreensão e forma do objeto para a construção do conhecimento. Mas as contribuições sobre este assunto não se ampliaram significativamente. Devido às grandes transformações ocorridas na sociedade em virtude do desenvolvimento científico e tecnológico e suas implicações, é importante pensar também numa alfabetização em ciência naturais de modo mais abrangente e voltada às necessidades atuais. Para Chassot (2000), a alfabetização científica consiste na tarefa de fazer os educandos se apropriarem do conhecimento científico como linguagem para compreender melhor o mundo em que vivem para transformá-á-lo para melhor. A emergência desse conceito busca superar os problemas vividos pela utilização do conhecimentnto científico que privilegia decisões particularistas e tecnocratas e fazer com que o ensino da ciência seja mais vinculado à realidade do educando, permitindo sua maior participação na sociedade frente aos avanços científicos e tecnológicos. Dessa forma, o conceito de alfabetização científica abrange as relações entre ciência, tecnologia e sociedade (CTS). Nesse sentido, a alfabetização científica, por conter pressupostos das interações entre CTS, associa "o ensino de conceitos à problematização de de construções históricas associadas à suposta neutralidade da ciência e da tecnologia, como a superioridade do modelo de decisões tecnocráticas, a perspectiva salvacionista e redentora atribuída à ciência e à tecnologia e o determinismo tecnológico" (AULLER 2003, p.02). Deste modo, pode-e-se dizer que a alfabetização científica signifique possibilidades de que a grande maioria da população possua conhecimentos científicos e tecnológicos necessários para se desenvolver na sua vida diária, ajudar a resolver os problemas e as necessidades de seu cotidiano, tomando consciência das complexas relações existentes entre a ciência e sociedade (FÚRIÓ, 2001). Atualmente a área de investigação envolvendo Ciência, Tecnologia, Sociedade e Ambiente (CTSA) é cada vez mais impoportante, e o presente trabalho também engloba, desta forma, as questões ambientais.
Os avanços científicos e tecnológicos do século passado foram devidos, em grande parte aos conhecimentos e progressos nos estudos de física. A televisão, o rádio, o computador e a internet, por exemplo, proporcionaram mudanças e impactos em todos os âmbitos da sociedade. As distâncias se encurtaram e as notícias chegam com uma velocidade jamais vista, resultando em uma mudança de paradigma significativa, devido às modificaçõeões nas relações econômicas, sociais, políticas e culturais. Assim, o ensino de física tem um papel fundamental para promover os principais objetivos da alfabetização científica.
O desenvolvimento da física e da tecnologia praticamente não foi acompanhado pela grande maioria da população. O parque industrial brasileiro, por exemplo, se modernizou proporcionando menor tempo de trabalho e baixo custo de produção, fazendo os preços diminuírem; por conseguinte, muitas pessoas passaram a ter a possibilidade de coconsumir diversos produtos. Em contrapartida, a inserção dessas novas tecnologias criou um grande contingente de desempregados, pois a modernização das indústrias foi feita com a introdução de máquinas que fazem o trabalho de muitas pessoas. Armas de guerra foram desenvolvidas com um poder de destruição inimaginável. A poluição aumentou em todas as suas formas e algumas delas estão desestabilizando o clima do planeta, pondo em risco a vida nele. Estes problemas ocorreram porque o desenvolvimento científico e e tecnológico foi orientado por grupos restritos e com interesses particulares. Se grande parte da população compreendesse de maneira crítica as implicações da ciência e da tecnologia em suas vidas, certamente esses problemas não estariam em situação tão alalarmante. Para tentar reverter esse quadro e democratizar os rumos da ciência e da tecnologia é importante pensar em alfabetização científica para a Educação de Jovens e Adultos, pois esse público constitui uma parcela significativa da população que mais sofre com as conseqüências dos rumos inadequados do conhecimento científico e tecnológico. Para esta alfabetização científica de jovens e adultos ter eficácia, não basta apenas ensinar ao jovem e ao adulto os conteúdos de física dos materiais tecnológicos e fazer uma discussão sobre os seus impactos na sociedade. Deve -se também considerar nesse processo, a realidade cultural do educando, pois não se pode trabalhar com tecnologias distantes do educando jovem ou adulto e que não farão sentido a ele. É inviável, na etapa de alfabetização científica, falar de tecnologias muito avançadas, se o educando nunca teve contato com isso, e, portanto, é algo alheio à sua realidade cultural. Isto não significa que saber sobre tais tecnologias seja insignificante, mas apenas que neste momento inicial isto não é
adequado. Dessa forma, este trabalho tem uma proposta de alfabetização inicial que propicia abordar mais a frente conceitos físicos e tecnologias mais complexas. Com isso, segundo Pinto (1982) os saberes desenvolvidos devem recusar qualquer origem inata ou a priori i para as idéias, que devem derivar da experiência e das práticas sociais. Isso aposta para a utilização de materiais tecnológicos de uso cotidiano dos educandos da EJA para alfabetizá-los cientificamente.
Além de todas essas questões, é importante que os educandos da EJA tenham uma apreensão mais crítica das interações da física com a tecnologia. Para isso, a história da ciência tem elementos essenciais. Para Chassot (2000), a história da ciência é uma facilitadora da alfabetização científica do cidadão e da cidadã. As Orientações Curriculares Nacionais para o Ensino de Física (BRASIL, 2006) apontam a necessidade de um ensino de física contextualizado com a história da ciência, para proporcionar uma concepção mamais ampla do desenvolvimento científico e de suas influências na sociedade. Elas também colocam como proposta de currículo, o ensino da tecnologia. Como a tecnologia produz saberes, deve -se trabalhar também a sua história. Neste trabalho, a história da tecnologia é referência para o processo de alfabetização científica. Com a abordagem histórica da ciência concomitante com a história da tecnologia, os educandos da EJA evitarão uma visão presenteísta (CHASSOT, 2000) da ciência e da tecnologia. Os diversos conontextos nos quais surgiram a ciência e a tecnologia são relevantes na aprendizagem de conceitos científicos. Essa abordagem histórica da física e da tecnologia com os educandos da EJA contribui para a sua alfabetização científica por eles terem uma compreenensão maior do surgimento de alguns avanços científicos e tecnológicos contemporâneos a eles quando comparados aos adolescentes.
Dessa forma, o presente trabalho pretende por meio da experiência com o chuveiro elétrico, contribuir para ampliar as concepções sobre a tecnologia, mostrando os seus aspectos positivos e suas limitações, pretendendo servir também como uma alternativa para o trabalho com a tecnologia em sala de aula para professores de física da EJA.
## 3. DESCRIÇÃO DAS ATIVIDADES DESENVOLVIDAS
## 3.1 METODOLOGIA
Este trabalho foi desenvolvido numa turma de EJA de terceiro ano de ensino médio em uma escola da rede pública estadual de São Paulo com cerca de 40 alunos, a maioria deles com idade maior que 20 anos. No momento da atividade proposta, o professor responsável pela disciplina de física estava desenvolvendo conteúdos referentes à eletricidade. Por isto, foi proposta uma atividade com o chuveiro elétrico. Para a sua execução foram estabelecidos dois dias com duas aulas cada para a realização da ativividade.
Primeiramente, aplicou-u-se, um questionário visando conhecer a realidade cultural dos alunos e os eletrodomésticos e materiais tecnológicos que eles possuem, para selecionar o aparato tecnológico a ser usado no trabalho em sala de aula. No critério de seleção do aparato foram determinantes também a coerência com os conteúdos que estavam sendo trabalhados, a facilidade em trazê -lo para a sala de aula em quantidade suficiente e a facilidade em desmontá-lo. Escolheu-use, portanto, o chuveiro elétrico devivido ao fato de que este "é "é um aparelho comum no cotidiano da maioria dos estudantes da educação básica e de funcionamento relativamente simples " (B(BORCELLI, 2007, p.26). O desmonte do chuveiro elétrico foi pensado para ser realizado em grupos de no máximo trtrês alunos. Optou-se em ter como foco da aula o chuveiro elétrico, trabalhandooo numa perspectiva histórica e levando em consideração elementos da história da ciência e a sua origem no Brasil. Deste modo, partiu-se de um recorte histórico sobre a importância do banho durante a história da humanidade, tendo como referência a civilização ocidental que influenciou consideravelmente a história da sociedade brasileira. Com isso, teve -se como objetivo mostrar para os alunos a presença de uma necessidade social (E. C. RICARDO et al., 2007), para o surgimento do chuveiro elétrico bem como o momento e as condições sociais, políticas, econômicas e culturais que tornaram o banho como um dos hábitos de higiene e de prevenção de doenças. A
importância das condições naturais brasileiras foi destacada e associada aos recursos energéticos cruciais para a adoção e seleção de uma dada tecnologia, como a do chuveiro elétrico.
Paralelamente à discussão sobre o chuveiro elétrico, foram trabalhados os conceitos físicos envolvidos para o seu funcionamento, a partir de algumas perguntas dirigidas aos alunos, como sobre o motivo do chuveiro elétrico não ligar imediatamente quando se abre o registro da água, sobre o motivo pelo qual ao se ir fechando o registro de água no chuveiro elélétrico, esta fica mais quente e sobre a utilidade do fio terra. A história da ciência e especificamente a história da física, foi utilizada para uma discussão conceitual relacionada à natureza da eletricidade. O confronto entre os modelos elaborados pelos alunos e as diferentes teorias da física que surgiram ao longo da história associadas à compreensão do calor e da eletricidade, foi pensado de forma a permitir a percepção por parte dos alunos do caráter não absoluto de uma teoria científica e dos elementos responsáveis para a sua construção. As teorias da história da física trabalhadas se basearam em referências como Cherman (2004) e Cindra (2005). As teorias da eletricidade abordadas foram a teoria dos dois fluídos de Du Fay (1698-1730) e a teoria do fluídído único de Benjamin Franklin (1706-1790). Para a aprendizagem do efeito joule associado à resistência do chuveiro elétrico ser interessante é necessário apontar e discutir alguns modelos para os fenômenos térmicos como os desenvolvidos por Francis Bacon (1561-1626), por Benjamin Thompson, o conde Rumford (17531814) e por James P. Joule (1818-1889) 9) que acabou associando o calor ao movimento bem como as suas similaridades com os fenômenos elétricos.
## 3.2 DESENVOLVMENTO DAS ATIVIDADES
No primeiro dia de atividade, compareceram quinze alunos e foram trazidos cinco chuveiros elétricos. Como a abordagem com o chuveiro elétrico priorizava a sua história e a história da física, não objetivou-u-se uma interação inicial mais efetiva com esse aparato tecnológico. Dessa forma, a sala de aula foi disposta em semicírculo para permitir um maior contato entre os alunos. Nesse caso, o desmonte posterior do chuveiro foi sendo realizado conforme o andamento da aula.
No desenvolvimento histórico do banho, os egípcios tiveram importância, pois estabeleceram a relação do banho com a religião a partir da influência do Rio Nilo para esta civilização. A partir de um mapa da região do Egito, foram retomadas algumas características de sua formação social. O estudo dos gregos priorizou mostrar a sua outra concepção sobre o banho. Enquanto que para os egípcios e outras civilizações da Mesopotâmia o banho era muito associado a um ritual religioso, para os gregos, devido à influência das idéias de Hipócrates (460- 365a.C.), o banhnho começou a ser estudado racionalmente e utilizado para promover o bem-m-estar físico e mental das pessoas, conforme visto em seu texto Ares, Águas e Lugares s encontrado em Cairus (2005). Os romanos herdaram o hábito de tomar banho dos gregos como pode ser vivisto nas termas públicas comuns em muitas ruínas de cidades romanas em torno de todo o Mediterrâneo. No momento em que foi realçada a importância das termas como lugar de encontro social, a turma iniciou uma interação significativa com a aula, pois essa informação gerou uma inquietação relacionada a valores culturais dos alunos. Dessa forma, um aluno perguntou: "Eles ficavam pelados perto um dos outros?" Esta pergunta permitiu explicar por que isso não era problema para eles, pois no auge de seu império, os romanos eram pagãos, acreditando em diversos deuses, não havendo nenhum valor religioso severo com relação à nudez perante outras pessoas nos balneários e nas termas.
Já durante a idade média, ocorreu uma perda intensa do hábito de tomar banho devido aos valores culturais do período, sobretudo do cristianismo, pois os cristãos consideravam a nudez como uma forma de pecado. Dessa forma, os banhos públicos tão presentes no cotidiano do povo romano e de suas antigas colônias passaram a não ser mais utilizados . De acordo com Aushenburg (2008), os banhos na idade média eram raros, sendo que cada pessoa, sobretudo os membros da igreja, não chegava a tomar três banhos ao ano. Quando os alunos foram questionados sobre qual motivo teve grande influência nesse momentnto histórico para a escassez do hábito de tomar banho,
uma aluna respondeu: "É a nudez, a questão da vergonha". Nessa situação uma outra aluna interveio apontando a presença de diferenças culturais na questão do hábito de tomar banho.
Um outro aspecto que propiciou a manutenção de uma concepção negativa do ato de tomar banho foi a crença do banho como causador de doenças. Nos Séculos XVI e XVII, considerava -se que a água era capaz de se infiltrar no corpo e supunha -se que a água quente, especialmente, fragigilizasse os órgãos, abrindo os poros para os ares malsãos (CORRÈA, 2003). Colocado isso, uma aluna remeteuuse a uma experiência de sua vida defensora desse argumento: "Eu me lembro de quando morava no interior, logo que eu saía do banho, minha mãe dizia pa ra não sair na friagem para não ficar doente". Aproveitando essa fala da aluna, apontou-u-se para os outros alunos a validade desse pensamento, devido a corrermos o risco de ficar resfriado ou até de pegarmos uma pneumonia.
Paralelamente a isso, foi destacacado um dos fatos marcantes na história da civilização ocidental e de grande influência para o surgimento da noção de higiene: a teoria microbiana de Pasteur que culminou no surgimento do processo de pasteurização. "N"Na segunda metade do século XIX, com a ememergência da teoria microbiana das doenças, que refutou a concepção dos miasmas, houve uma radical mudança na visão da saúde pública..." (VELLOSO, 2006). Com relação ao processo de pasteurização, destacou-u-se o problema econômico vivido na França devido aos vinhos azedarem durante as viagens, fazendo com que Napoleão III interviesse, pedindo a Pasteur que tentasse compreender e encontrar uma solução para o azedamento do vinho, ajudando-o com o financiamento de suas pesquisas. (MATOS , 1997).
Uma outra contribibuição citada responsável para a construção de hábitos de higiene, foi a descoberta de Semmelweis que associa a falta de higiene das mãos com a transmissão de doenças, requerendo à todos " os médicos e estudantes a lavagem de suas mãos com uma solução de ca l clorada antes de procederem a qualquer exame" (FERNANDEZ;OLIVEIRA, 2007, p.52). Isso fez com que as pessoas passassem a se preocupar com o bem-m-estar e a higiene do corpo, pois agora as doenças podem ser causadas por microorganismos que podem existir nele. Portanto, diversos fatores influenciam uma descoberta científica, proporcionando mudanças de hábitos em uma sociedade.
O surgimento do chuveiro está relacionado aos valores culturais, sociais, econômicos e às características climáticas da Europa. As sociedades européias, na metade do século XIX tinham como identidade cultural o cristianismo, tendo como uma de suas características a noção de vergonha quanto à nudez em público. Eram, em sua maioria, sociedades divididas em classes e individualistas, sendo que essa divisão de classes é muito influenciada pelos seus modelos de produção de riquezas. Com respeito ao fator climático, a Europa é uma região de clima temperado, tendo um inverno bem rigoroso. Essas relações permitem compreender como o hábito de tomar banho foi estendido à grande parte da população, o motivo do banho ser em local privado e a razão da necessidade de se aprimorar as técnicas de aquecimento da água: Tudo isso culminou no chuveiro.
Os primeiros chuveiros produzidos nos Estados Unidos e na na Europa, tinham como fonte de aquecimento da água o gás natural, fazendo um contraponto com o Brasil, onde predomina o chuveiro elétrico. Nesse caso, foi realçado um fator fundamental que propiciou ao Brasil, no início do século XX, adotar e priorizar o chchuveiro elétrico: a disponibilidade de recursos energéticos de forma hídrica. No Brasil, como o recurso energético mais abundante é a água, foi sempre mais predominante a construção de usinas hidrelétricas para a produção de energia elétrica.
Após a apresentação histórica sobre a origem e a concepção do banho para a sociedade ocidental e as condições que propiciaram o surgimento do chuveiro elétrico, iniciou-se o seu desmonte. Foram trazidos cinco chuveiros elétricos e estes foram sendo desmontados conjuntamente com os alunos. A atividade desenvolvida utilizou elementos do material do GREF (2000) e se baseou em questões problematizadoras dirigidas aos alunos. Primeiramente, perguntouse para os alunos qual a função principal do chuveiro elétrico. Eles respononderam facilmente que sua função é esquentar a água. Explorando essa resposta, pediu-se para eles falarem qual conceito físico possibilita o surgimento do calor no chuveiro.. Com isso, trabalhou-se com o conceito de
conservação da energia, relacionando-o didiretamente ao chuveiro. "P"Primeiro, a energia elétrica chega até o interior do chuveiro e depois ocorre algo dentro dele, fazendo com que essa energia elétrica se transforme em calor . Portanto, a energia elétrica transforma -se em m energia térmica". Partindo dessa explicação, perguntou-se para os alunos que mecanismo existente no chuveiro possibilita o aquecimento da água. Os alunos responderam facilmente ser a resistência. Dessa forma, eles foram orientados a retirar a parte do chuveiro onde se encontra a resistência. Ao abrirem o chuveiro, muitos alunos ficaram impressionados, pois uma boa parte deles, sobretudo de mulheres, nunca tinham aberto um chuveiro e visto uma resistência. Muitos revelaram um grande encantamento com o aparato tecnológico. .
No segundo do dia de aula, vieram mais alunos e fez-se um resumo geral de tudo o que foi abordado antes. A sala, assim como no primeiro dia, foi disposta em semicírculo. Os trabalhos começaram efetivamente no desmonte do chuveiro elétrico, explicando os seus componentes e o funcionamento da resistência. Para chegar à explicação sobre a resistência elétrica, perguntou-se o motivo pelo qual a chave da posição inverno deixa a água mais quente. Os alunos não responderam de imediato. Alguns relataram haver alguma relação com a resistência. Mediante a isso, partiu-se para a compreensão da resistência elétrica. Foi pedido para os alunos observarem os fios presentes nas resistências em diferentes tipos de chuveiro elétrico. Por meio disso, foi introduzida a noção de corrente elélétrica e foram estabelecidas as relações entre o comprimento do fio da resistência e sua área para construir a fórmula matemática da resistência. O método utilizado envolveu perguntas como: " Se tivermos uma corrente elétrica passando por esse fio e este for or diminuído em área, ficaria mais fácil ou mais difícil para a corrente passar?" " Também foram feitas analogias de modo a comparar o aumento do comprimento do fio com um aumento de número de obstáculos na qual a corrente deve passar. Os alunos não demonstraram dificuldades em compreender a relação entre as grandezas relacionadas com a resistência bem como a sua fórmula matemática. Para encerrar a discussão sobre a resistência elétrica, os alunos abriram a parte superior do chuveiro para enxergarem às chaves que ligam os fios a resistência, mostrando que enquanto a chave do chuveiro está numa posição, há passagem de corrente elétrica nesta, e na outra posição não.
Outras questões foram feitas sobre o motivo do chuveiro aquecer a água imediatamente após a abertrtura do registro e sobre a importância do fio terra. Essas perguntas proporcionaram uma grande interação entre os alunos, levando a outros questionamentos propostos por eles, sendo esse o momento mais significativo em termos de participação dos alunos. Um aluno que trabalhava com materiais eletrônicos e que já trabalhou com o chuveiro elétrico começou a intervir bastante querendo responder as perguntas colocadas para os seus colegas. A sua ansiedade era tanta que acabou respondendo à primeira: "N"No chuveiro ocorre que, essa parte de cima precisa encher de água, levantando uma borracha que conecta os fios " . Ao se comentar sobre o fio terra e sua importância para a prevenção de choques, uma aluna perguntou: "P"Por que quando tomo banho e estou com uma ferida, eu levo um choque?". Um outro aluno queria entender porque, perto de onde mora, as crianças brincam num escorregador e saem com os cabelos arrepiados. Uma outra aluna se manifestou também, perguntando por que ela levava um choque ao colocar a mão na maçaneta da porta.
Após esse momento, iniciou-se uma discussão conceitual referente à eletricidade e ao calor a partir da história da física. Dessa forma, perguntou-u-se para os alunos o que seria a eletricidade presente no chuveiro elétrico. Não houve respostas. Com isso, sugeriu-se que ela poderia ser um fluido, tendo como argumento a semelhança do movimento da água dentro de um cano com uma corrente elétrica percorrendo um fio. Discutiu-se então a idéia de a eletricidade ser um fluido era um modelo para tentar expxplicar a sua natureza ou uma verdade absoluta. A partir disso, foi apresentada a teoria dos dois fluidos de Du Fay e a teoria do único fluido de Benjamin Frankilin, estabelecendo uma relação com as teorias do calor associadas a um fluido e a movimento, tentando mostrar as similaridades na construção dos conceitos de calor e eletricidade. Os alunos não demonstraram tanto entusiasmo com a discussão, não havendo perguntas.
## 4. RESULTADOS
As atividades desenvolvidas tiveram momentos bastante significativos de de interação por parte dos alunos.
Durante a abordagem histórica sobre o banho na civilização ocidental, algumas questões chamaram a atenção dos alunos, como o hábito de tomar banho em termas públicas na Roma antiga, a influência do aspecto religioso com rerelação ao hábito de tomar banho na idade média, associado à nudez e à vergonha e a crença que existiu na idade moderna do banho abrir os poros e causar doenças. Estas discussões tiveram um impacto positivo, pois se relacionaram com a identidade cultural dos alunos e com as suas experiências. Segundo Pinto (1997), o trabalho com Educação de Adultos deve partir de elementos constituintes da realidade dos alunos e das suas relações sociais, suas crenças, seus valores, etc. Dessa forma, a abordagem histórica permitiu uma melhor compreensão sobre a evolução do hábito de tomar banho por parte dos alunos .
O desmonte do chuveiro elétrico despertou um maior interesse dos alunos em toda atividade, fato associado ao fascínio pelo aparato tecnológico e demonstrado pelalas questões levantadas sobre o chuveiro que acabaram levando a outras questões por parte dos alunos. Um elemento motivador foi a metodologia empregada para o trabalho de desmonte com o chuveiro elétrico, que ao propor questionamentos, problematizou o chuveiro elétrico, possibilitando uma abertura para os alunos se posicionarem e colocarem as suas impressões e estimulando sua curiosidade, pois é "fundamental que professor e aluno saibam que a postura deles é dialógica, aberta, curiosa e indagadora e não apassiva enquanto fala ou enquanto ouve. O que importa é que professor e alunos se assumam epistemologicamente curiosos" (FREIRE, 1996, p.96).
Na explicação dos conceitos físicos associados aos componentes do chuveiro elétrico, como a resistência e fio terra, , os alunos não demonstraram ter dificuldades conceituais, pois já estavam de certa forma, familiarizados com os conteúdos de eletricidade devido às aulas anteriormente dadas pelo professor - titular da turma. A fórmula matemática da resistência mostrada para os alunos não causou o espanto comum em outras situações de aprendizagem com o público de Educação de Jovens e Adultos. Neste caso, ela permitiu trabalhar com as relações causais, muito importantes para o entendimento do pensamento matemático na física clássica. Isso é mostrado com os resultados do trabalho de Locatelli e Carvalho (2007) com as falas dos alunos na tentativa de descrever o fenômeno físico e para isso utilizam as relações causais.
A metodologia desenvolvida, em termos gerais, foi enriquecida pela inserção, mesmo em linhas gerais, da história da tecnologia, no caso a do chuveiro elétrico, mostrando a necessidade para seu surgimento ele e como este está vinculado a complexas relação políticas, econômicas, sociais, culturais e ambientais. Essa sa abordagem aprofunda as relações interdisciplinares entre os diversos conceitos envolvidos. Esta interdisciplinaridade foi percebida nas aulas na fala de um aluno ao término da atividade: "F"Foi bem interessante, você falou de história, química, biologia. FoFoi uma grande viagem." Outro ponto a ser destacado foi a tentativa de aliar o ensino da tecnologia com o ensino de física, pois além de apresentar um recorte breve da história do chuveiro elétrico e desmontar o chuveiro, buscouuse também o entendimento dos conceitos físicos envolvidos para o seu funcionamento.
As atenções dos alunos se concentraram, sobretudo, no chuveiro elétrico. O desmonte do chuveiro levou boa parte de uma das aulas em conseqüência dos inúmeros questionamentos advindos dos alunos.
Duas questões relevantes para a implementação de atividades desse tipo são a grande quantidade de alunos no segundo dia de aula e o pouco tempo da aula. Uma grande quantidade de alunos faz decrescer o rendimento da atividade, pois não permite um contato mais efetivo entre eles: todos tentam falar ao mesmo tempo e não é possível atendê-los e trabalhar em cima de todas as suas dúvidas de forma adequada. Alguns alunos não chegaram a participar apesar do esforço para integrá-los e um dos fatores para isso ocorrer foi a falta de espaço físico na sala para inserí-í-los no
semicírculo formado no meio desta: em alguns momentos, por exemplo, houve dispersão. Com respeito ao tempo de aula fornecido, ele não foi suficiente para a natureza desse trabalho que amplia muito as possibilidades de discussão.
## 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Em face de todas essas questões, uma possível maneira de se trabalhar a tecnologia no ensino de física para EJA seria focar o desmonte do chuveiro elétrico buscando uma maior interação com esse aparato tetecnológico durante um maior tempo, de modo a criar um ambiente de aprendizagem mais propício no qual os alunos possam se expor e construir modelos para a compreensão de fenômenos físicos, elaborando hipóteses, testando-as e discutindo-o-as. Um aprofundamento o da discussão sobre tópicos da história da física poder ter mais significado para os alunos da EJA, pois permite comparar os modelos criados por eles com os modelos físicos que surgiram, permitindo o "encontro de consciências" (PINTO, 1997 p.116) característico da educação.
A experiência descrita nesse trabalho foi bastante produtiva e oferece uma alternativa para se trabalhar com o ensino de física na EJA, de modo a torná -lo crítico e significativo.
## REFERÊNCIAS
AULER. Alfabetização científico-tecnoló gica: um novo paradigma? P Pesquisa em educação em ciências. Vol.5, n°1, 2003.
AUSHENBURG, Katherine. Passando a limpo: O banho da Roma antiga até os dias de hoje. 1 ed. São Paulo:Larousse, 2008.
BORCELLI, A. F. A Animação interativa: Um material potencialmente significativo para aprendizagem de conceitos em física. Porto Alegre: Trabalho de Conclusão de Curso (PUC-RS), 2007.
BRASIL. Ministério da Educação: Secretaria de Educação Básica. Orientações Curriculares Nacionais para o Ensino Médio : Ciências da N Natureza, Matemática e suas Tecnologias. Brasília DF, 2006.
CAIRUS, S, H H.F. e RIBEIRO JR ., W.A . Textos hipocráticos: o doente, o médico e a doença . Rio de Janeiro: Fiocruz, 2005.
CINDRA, José Lourença;TEIXEIRA, Odete Pacubi. E Evolução das idéias relacionadas aos fenômenos térmicos e elétricos: Algumas similaridades. Cad. Brás. Ens. Fís., v. 22, n. 3: p. 379399, dez. 2005 .
CORRÊA. . da Silva Margareth -Limpeza e Higiene através dos tempos. 2003. Disponível em: <h <http://www.enut.ufop.br/nutline/artigos/artigo07/artigo07.html l >.Acesso em: 03/08/08.
CHASSOT, Attico. A Alfabetização científica: questões e desafios para a educação. Ijuí: Editora Unijuí 2000.
CHERMAN, A. Sobre os ombros de gigantes: uma história da Física . Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004.
FERNANDEZ, Brena Paula; OLIVEIRA, Marcos Barboza. H Hempel, Semmelweis e a verdadeira tragédia da febre puerperal. l. Scientia ia e Studia, São Paulo, v. 5, n. 1, p. 49-79, 2007 .
FREIRE, P & FAGUNDEZ, A. P Por uma pedagogia da pergunta . Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.
FREIRE, P. P Pedagogia da Autonomia: Saberes necessários à prática educativa . São Paulo: Paz e Terra, 1997 .
FURIÓ, C., VILVHES, A., GUISASOLA, J., ROMO, V.Finalidades de la enseñanza de las ciencias en la secundaria obligatoria. Alfabetización científifica o propedéutica?Enseñanza de las ciencias, s, v. 19, nº 3, 2001.
GRUPO DE REFORMULAÇÃO DO ENSINO DE FÍSICA. Física 1: Mecânica / GREF 5ª. Ed. São Paulo: EDUSP. 1999; Física 2: Física Térmica e Óptica / GREF 3ª. Ed. São Paulo: EDUSP, 1996; Física 3: Eletromagnetismo / GREF 4ª. Ed. São Paulo: EDUSP, 2000.
LOCATELLI, Rogério José; CARVALHO, Ana Maria Pessoa. Uma análise do raciocínio utilizado pelos alunos ao resolverem os problemas propostos nas atividades de conhecimento físico. Revista Brasileira de Pesquiuisa em Educação em Ciências, v.7, nº3, 2007.
MACETI, H., LEVADA, C. L. e LAUNTENSCHLEGUER, I. J. Ciência e cotidiano: a física do chuveiro. Scientia Plena. Aracaju: v. 3, n. 8, p. 313-318, 2007.
MATOS. João Augusto. P Pasteur: ciência para ajudar a vida. Química Nova na Escola Pasteur N° 6, Novov. 1997. Disponível em: < < http://qnesc.sbq.org.br/online/qnesc06/historia.pdf f >. Acesso em: 03/08/08.
PINTO, A. V. S Sete lições sobre educação de adultos. 10 ed. São Paulo: Cortez, 1997.
RICARDO, E. C., CUSTÓDIO, J. F; REZENDE JUNIOR, M. F. A tecnologia como referência para os saberes escolares: perspectivas teóricas e concepção dos professores. Revista Brasileira de Ensino de Ensino de Física. São Paulo: v. 29, n. 1, p.135-147, 2007.
VELLOSO . Marta Pimenta. Os Restos na História: Percepções sobre Resíduos. Revista Ciência e Saúde Coletiva. 2006. Disponível em:
<h <http://www.abrasco.org.br/cienciaesaudecoletiva/artigos/artigo\_int.php?id\_artigo=502>.Acesso em: 30/07/08.
Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.