08h30
Sérgio Camargo, Roberto Nardi
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XI
- Ano
- 2008
- Data
- 23/10/2008
- Linha de pesquisa
- Formação E Prática Profissional De Professores De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
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## ESTUDANDO O PROCESSO DE REESTRUTURAÇÃO CURRICULAR DE UM CURSO DE LICENCIATURA EM FÍSICA
## STUDYING A PHYSICS EDUCATION UNDERGRADUATE PROGRAM CURRICULAR REESTRUCTURATION PROCESS
Sérgio Camargo 1 , Roberto Nardi 2 2 ,
1 Grupo de Pesquisa em Ensino de Ciências - Doutor em Educação para a Ciência. Faculdade de Ciências UNESP -Campus de Bauru [s[scamargo@fc.unesp.br ] - Apoio: Capes.
2 Grupo de Pesquisa em Ensino de Ciências - Professor Livre Docente - Depto. de Educação Faculdade de Ciências -Programa de Pós -Graduação em Educação para a Ciência UNESP - Campus de Bauru [nardi@fc.unesp.br ] - Apoio: CNPq.
## Resumo
Este estudo trata da formação inicial de professores de física, tendo o como pano de fundo o processo de reestruturação de um projeto político-pedagógico de um curso de licenciatura em Física de uma universidade pública. Durante o processo foram analisados, discursos de licenciandos, docentes universitários e professores em exercício ouvidos procurando-se entender como as demandas dos diversos grupos influenciaram na estrutura curricular resultante. Para a leitura e interpretação dos efeitos de sentidos presentes em documentos e discursos dos sujeitos envolvidos foram adotados s referenciais teórico -metodológicos embasados em teorias críticas sobre o desenvolvimento curricular e na Análise de Discurso (AD) de linha francesa. Discute-se a natureza da proposta pedagógica final, que se situou entre as exigências legais e a realidade acadêmica. A legislação consultada, os professores em exercício, os licenciandos e os formadores na Universidade, cada qual falando a partir de posições definidas, forneceram subsídios ou sinalizaram o que e como a estrutura curricular e o projeto pedagógico deste Curso de Licenciatura em Física poderia ter ou ser alterado.
Palavras -chave: Licenciatura em Física, Formação de Professores de Física, Ensino de Física, Pesquisa em Ensino de Física, Análise de Discurso, Reestruturação Curricular.
## Abstract
This s research deals with physics teachers pre-service education, having as background a physics education undergraduate program' curriculum reestructuration process, carried out in a public university. It was analyzed pre-service, in-service physics teachers and university professors' discourses occurred during the process, searching for understanding how the claims from these different groups influenced the resultant curricular structure. For the interpretation of sense' effects present in documents and subjects evolved in this process' discourses it was adopted theoretic-c-methodological approaches based on critical theories about curricular development and French discourse analysis. It is discussed the restructured pedagogical proposal form, placed between the legal demand and the academic reality. The legislation consulted, the inservice teachers, the future teachers and the university professors, which one speaking from defined position, whether provided subsides or signalized what and how the curricular structure and the pedagogical project should have or be changed.
Keywords: Physics teacher development; Physics teachers' pre-service education; Curriculum reestructuration; Discourse analysis.
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## Introdução
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei de nº. 9.394/96) marca o início de mais uma fase de reformas ocorridas nas Instituições de Ensino Superior (IES) no Brasil. A partir da promulgação dessa lei e, com base em seu artigo 53, inciso II, o Ministério da Educação e Cultura (MEC) propõe, dentre outras medidas complementares à lei, a criação de Diretrizes Curriculares Nacionais para todos os cursos de Ensino Superior do país.
Considerando a necessidade de se definirem diretrizes específicas para cada curso, a Secretaria de Educação Superior (SESu) do MEC convocou, através do Edital nº. 4/97 1 , as Instituições de Ensino Superior a apresentarem propostas para o estabelecimento dessas Diretrizes.
No ano de 2002 o Conselho Nacional de Educação aprova as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação o de Professores de Educação Básica, a, em nível superior, curso de licenciatura, de graduação plena, dando início às discussões sobre a reformulação dos Cursos de Graduação nas diversas Instituições de Ensino Superior. Em seu artigo 3º, essas Diretrizes enunc iam os princípios norteadores essenciais a serem observados para a formação do futuro professor que atuará nas diferentes etapas e modalidades de ensino.
- O documento defende que seja invertida a lógica de formação de professores, ao invés de partir de uma listagem de disciplinas obrigatórias com suas respectivas cargas horárias, recomenda que se tome como ponto de partida o conjunto de competências que se quer que o professor adquira no decorrer do curso. Desse modo, de acordo com essas Diretrizes, são as competências que orientam a seleção e o ordenamento de conteúdos dos diferentes âmbitos de conhecimento profissional bem como a alocação de tempos e espaços curriculares. O planejamento da matriz curricular para a formação de professores, segundo esse documento, constitui o primeiro passo a ser dado para a transposição didática a (CHEVALLARD, 1991) que o formador de professores precisa realizar para transformar os conteúdos selecionados em objetos de ensino de seus alunos, futuros professores.
Nesse sentido, as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores estabelecem critérios para a organização da matriz curricular, sendo os mesmos expressos por meio de eixos em torno dos quais se busca articular as dimensões a serem contempladas na formação profissional do futuro professor e sinalizam o tipo de atividades de ensino e aprendizagem que podem materializar o planejamento e a ação dos formadores de professores.
Na área da Física, foram recebidas propostas de diversas Instituições de Ensino Superior do país. No parecer sobre as Diretrizes Curriculares Nacionais para os Cursos de Física2 a2 , o relator afirma ter havido um consenso entre as propostas recebidas, ou seja, a formação em Física deveria caracterizar-s-se pela maleabilidade do currículo de modo a oferecer alternativas aos alunos que estão concluindo o curso. Resumidamente, o
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esquema geral defendido pelas Diretrizes Curriculares Nacionais dos Cursos de Física ficou assim configurado: um núcleo Comum, com aproximadamente cinqüenta por cento (50%) da carga horária, e um complemento chamado Módulos Seqüenciais Especializados, destinados a formar o Físico-o-Pesquisador r (Bacharelado em Física), FísicooEducador r (Licenciatura em Física), 3 Físico Interdisciplinar r (Bacharelado ou Licenciatura em Física e Associada 3 ), Físico-o-Tecnólogo o (Bacharelado em Física Aplicada). No módulo seqüencial referente à formação do Físico-Educador é dada ênfase à formação do licenciado em Física, sendo que, neste caso, as diretrizes aconselham a realização de um trabalho conjunto com docentes da área da Educação: no caso desta modalidade, os seqüenciais estarão voltados para o ensino da Física e deverão ser acordados com os profissionais da área de educação, quando pertinente.
A aprovação das Diretrizes Curriculares Nacionais nas duas áreas levou u as Instituições de Ensino Superior do país procederam às reformulações de seus cursos de graduação, envolvendo , para tanto , seus Conselhos de Curso e várias outras instâncias ou órgãos internos responsáveis pelo processo de reestruturação c curricular.
No caso específico da Instituição de Ensino Superior (IES) estudada, essa tarefa de organizar a reestruturação curricular dos cursos de graduação foi delegada pela PróReitoria de Graduação, numa primeira instância e às coordenações das três áreas de conhecimento: Ciências Humanas, Exatas e Biológicas. Particularmente no caso da graduação em Física, a IES vem oferecendo cinco cursos, localizados em cinco campi, os quais oferecem a modalidade Licenciatura e, em duas dessas unidades , é também ofertrtado o curso de bacharelado.
A partir do final do segundo semestre de 2001 teve início algumas ações, no âmbito da universidade para desencadear o processo de reestruturação dos Projetos Políticos -- Pedagógicos dos Cursos de Graduação. No curso de licenciatura em Física do campus universitário em questão, no primeiro semestre de 2002, a Chefia do Departamento de Física indicou uma Comissão responsável para conduzir o processo de reestruturação do Curso. Essa Comissão inicialmente era composta por seis docentes do Departamento de Física, sendo, posteriormente, ampliada com a inclusão de um docente convidado do Departamento de Educação. A mesma tinha a como meta discutir e analisar as novas Diretrizes, com a finalidade de elaborar o novo projeto do Curso.
Uma das primeiras questões que essa Comissão de Reestruturação teve pela frente foi resolver o impasse gerado pela incoerência entre as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica e as Diretrizes Curriculares Nacionais para ra os Cursos de Física. a. Qual das duas diretrizes deveria ser levada em consideração na reestruturação?
Esse impasse, ou seja, essa discrepância entre as duas diretrizes, foi levado ao conhecimento da Pró -Reitoria de Graduação da IES, em maio de 2002. Essa açação, junto ao Programa de Coordenação por Áreas do Conhecimento e à Pró -Reitoria da Graduação, provocou a constituição da Comissão de Estudos de Formação de Professores com a finalidade de contribuir na condução dos trabalhos de reestruturação curricular dos cursos de licenciatura.
A partir de junho de 2002 essa Comissão de Estudos de Formação de Professores iniciou seus trabalhos mapeando e analisando diversos documentos que diziam respeito à formação de professores . Seus membros examinaram tanto aqueles
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documentos produzidos pelo MEC e CNE, quanto os produzidos pelo Conselho Estadual de Educação (CEE/SP), percebendo que os mesmos, também, nem sempre são concordantes. Além desses, analisam vários outros documentos no âmbito da IES, Associação Nacional para a Formação de Profissionais da Educação (A(ANFOPE) e algumas propostas em vigor em diferentes universidades brasileiras. Ao mesmo tempo analisaram publicações sobre a temática, presentes em registros de eventos, periódicos e livros, destacando-s-se, de modo peculiar, um número especial de Educação e Sociedade 4 .
Depois de finalizado esse trabalho, esta Comissão encaminhou o documento produzido aos Coordenadores de Área, sendo posteriormente submetido à apreciação da Comissão Central de Graduação (CCG). A seguir, em sessão de 28/11/2003, a CCG, com o objetivo de regulamentar as reestruturações curriculares das licenciaturas, aprovou o documento produzido por esta Comissão, denominado "P "Pensando a Licenciatura na UNESP " ", tornando-o fundamento, junto com as outras resoluções nacionais 5 , para a reestruturação curricular dos cursos de licenciatura da IES.
Dando seqüência às atividades de reestruturação do curso de licenciatura em Física, instituiu-se no ano de 2005, pela chefia do Departamento de Física de Bauru, uma nova Comissão responsável por estudar, discutir e desenvolver o processo de reestruturação curricular do curso. A mesma foi composta pelo Coordenador do Curso, que tinha feito parte da Comissão dos Coordenadores de Curso da IES, cinco docentes do Curso de Licenciatura em Física (Depto. de Física), o professor de Prática de Ens ino de Física (Depto. Educação) e e o pesquisador , um dos autores desta ta comunicação. Na seqüência descreveremos o desenvolvimento da pesquisa.
## A pesquisa
A pesquisa a aqui relatada a trata de estudo sobre formação inicial de professores de Física, tendo como pano de fundo o acompanhamento do processo de reestruturação de um curso de licenciatura em Física de uma universidade pública. Esse processo de reestruturação curricular já vinha sendo acompanhado desde 2002 quando, em estudo preliminar, Cortela (2004) analisou discursos de docentes universitários que atuavam nesse curso, cujos temas versavam sobre formação acadêmica, práticas de ensino e suas interpretações e demandas sobre a reestruturação curricular que estava na iminência de se iniciar .
Nesse e percurso foram constituídos os dados, com a utilização de diversas técnicas próprias da pesquisa qualitativa, tais como análise documental, observação participante, gravação de encontros, questionários e anotações em diário de campo, que geraram uma quantidade significativa de informações e se constituíram no corpus de análise .
Portanto, os resultados de pesquisa realizada por Cortela (2004), que mostravam o desconhecimimento dos documentos considerados essenciais para o processo de reestruturação o pela maioria dos docentes, surgiu à idéia de elaboração de um Caderno de Textos , o qual foi organizado de forma a conter os principais documentos gerados e homologados tanto em âmbito federal, quanto internrnamente à IES. Os documentos
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contidos nesse Caderno foram divididos entre os membros da Comissão de 2005 para estudos e posterior discussão, cocom intenção de contemplá-los na elaboração do projeto político-pedagógico.
Além desses documentos, a Comissão procurou levar em consideração: 1) Dados de avaliações realizadas continuamente pela Coordenação do Curso junto a discentes e docentes nos últimos anos; 2) Decisões derivadas de discussões ocorridas nas reuniões do Conselho de Curso e da Comissão de Reestruturação do curso de Licenciatura em Física; 3) O documento final da Comissão de Estudos de Formação de Professores constituída pela Pró-Reitoria de Graduação da IES, considerando-s-se, logicamente, as particularidades do campus em questão; 4) Pesquisas sobre diferentes aspectos desse Curso de Licenciatura em Física realizados no âmbito do programa de Pós-graduação em Educação para a Ciência; 5) Dados de avaliações realizadas anualmente pelos docentes das disciplinas de Prática de Ensino, por meio de questionários contidos em relatórios de Estágios Supervisionados de Observação e Regência, realizados nos últimos anos; 6) Dados referentes a avaliações periódicas realizadas pelo Conselho de Curso sobre o desempenho de docentes e discentes nos últimos anos e; 7) A esestrutura curricular do curso em andamento desde 1990, em vigor até então .
Acrescentam -se aos dados acima, duas outras atividades que forneceram subsídios que puderam auxiliar a Comissão sobre o processo de reestruturação curricular. Uma delas ocorreu no segundo semestre de 2005, mais precisamente no mês de agosto. Após consulta à Equipe Técnica da Diretoria de Ensino, foi realizado um encontro com os professores de Física do Ensino Médio da rede pública, contando com a presença de quarenta e seis professoreres atualmente em exercício na região. Dois docentes da IES, o pesquisador e três professoras do quadro técnico da Diretoria Regional de Ensino, (uma supervisora, e duas assistentes técnico-o-pedagógicas; uma de Matemática, e outra de Ciências) também participam nessa atividade. O encontro foi registrado em videocassete.
Basicamente, procurou-s-se verificar junto aos professores da rede pública de ensino: 1) Quais eram as dificuldades encontradas no cotidiano de sala de aula que poderiam ser resultado de possíveis falhas decorrentes de seus cursos de formação inicial 2) O que os professores em exercício destacariam em suas práticas pedagógicas que merecesse registro e contribuísse para o processo de reestruturação do Curso 3) O que os professores entendiam ser importante de ser levado em consideração na implementação de um novo projeto político-o-pedagógico de um curso de Licenciatura em Física.
A outra atividade, acordada entre os membros da Comissão de Reestruturação Curricular do Curso de Licenciatura em Física, constitui-s-se na realização da Mesa Redonda intitulada " As Grandes Questões do Ensino de Física " ", aprovada e incluída na programação da VIII Semana da Física, evento organizado anualmente pelo próprio Departamento de Física local, ocorrida no mês de outubro ro de 2005. Participaram dessa mesa redonda três professores doutores, pesquisadores experientes da área de Ensino de Física de universidades públicas paulista.
Todo esse processo de reestruturação curricular, acima descrito, foi acompanhado inicialmente em estudo anterior por Cortela (2004) e, posteriormente, a partir de 2002, na pesquisa, aqui relatada, cujos registros foram sistematicamente constituídos desde aquela data até esta etapa que culminou com a aprovação de uma nova estrutura curricular e um novo projeto político-o-pedagógico, implantado a partir de 2006.
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Os registros acumulados no decorrer de todo esse processo pelo pesquisador permitiram analisar e interpretar os discursos presentes, tanto nos documentos oficiais, como nas falas dos diversos sujujeitos envolvidos nesse processo de reestruturação, principalmente daqueles que colaboraram nas consultas acima citadas, realizadas com a finalidade de subsidiar todo o processo de reestruturação desse Curso de Licenciatura.
Para a leitura e análise dos acontecimentos acompanhados neste estudo, optamos por adotar referenciais teóricos embasados em teorias críticas (FREIRE, 1987; APPLE, 1989; BERNSTEIN, 1996; PETER MCLAREN, 1999; GIROUX, 1999; GOODSON, 1992, 2001; MOREIRA, 1990; LOPES e MACEDO, 2002; SILVA, 2004), entendendo que estas são coerentes entre si e apropriadas para responder às questões de pesquisa a que nos propusemos, uma vez que as mesmas nos levam a refletir criticamente sobre desenvolvimento curricular e processos como este.
Como apoio teórico o na escuta e interpretação dos efeitos de sentidos presentes nos discursos dos sujeitos envolvidos neste processo procuramos nos fundamentar na Análise de Discurso (AD) de linha francesa, conforme proposta por Michel Pêcheux (2002), bem como em noções derivadas dos estudos deste autor desenvolvidas no Brasil por Orlandi (2001; 2003). Para esses autores, a língua é analisada em sua materialidade como um local de manifestação das relações de força e de sentidos , que refletem os confrontos de caráter ideológico. Podemos afirmar que a AD nesta linha configura-se como uma teoria crítica na qual toda palavra, para significar, origina sentido a partir de formulações que a sedimentam historicamente. Dessa maneira, as palavras fazem referência ao discurso no qual se constituíram ou significaram. Daí a importância de se analisarem essas várias instâncias decisivas na estruturação de projetos e cursos destinados à formação do professor, verificando a interdiscursividade que ocorre nesse processo de construção curricular r e como isso gera significações.
Levando -se em consideração o processo, as leituras, os referenciais teóricos adotados e a análise dos discursos dos grupos participantes dos eventos assistidos no período, procurou-s-se responder a questões como: Que efeitos de sentidos emergem de documentos oficiais, nas falas de licenciandos, de professores de Física do Ensino Médio e de docentes universitários relacionados ao processo de reestruturação curricular de um curso de Licenciatura em Física de uma Universidade pública? Como as reivindicações de licenciandos, professores em exercício e docentes e pesquisadores universitários estão contemplados na versão final deste projeto político-o-pedagógico e na reestruturação curricular subjacente a ser implantada?
Na resposta a essas questões buscou-s-se nos discursos produzidos, a interpretação das manifestações e correlações de forças decorrentes do perfil acadêmico e político das partes envolvidas nesse processo de reestruturação curricular. Procurou-se mapear e interpretar algumas manifestações de caráter ideológico presentes na legislação, na literatura sobre a formação de professores e pesquisadores da área de ensino de Física, nos próprios conflitos internos entre posicionamentos dos professores envolvidos na reestruturação, como também de seus pares.
## Os discursos dos futuros professores de Física
Na consulta aos licenciandos procurou-s-se interpretar os efeitos de sentido presentes em seus discursos sobre vários aspectos do processo de reestruturação curricular do Curso de Licenciatura em Física. Os discursos foram analisados a partir da leitura e interpretação de respostas dadas, em situações diferentes, a três questionários
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aplicados nos últimos anos anteriores ao início do processo de reestruturação do Curso. É importante observar que os questionários analisados foram aplicados aos licenciandos nos últimos anos pela Coordenação do Curso e pelos docentes das disciplinas de Prática de Ensino e Estágio Supervisionado. Além disso, as respostas foram dadas em estágios diferentes do percurso de formação dos licenciandos. Essa observação é pertinente uma vez que e em análise de discurso, as condições de produção do discurso são de grande relevância para o analista.
Percebe -s -se através da análise de de seus discursos que em todas as diferentes avaliações realizadas e inseridas neste estudo há pontos comuns, ou seja, os imaginários dos licenciandos os apontam claramente para algumas sugestões que parecem ser recorrentes e carecem de ser destacadas: a qualidade do corpo docente em suas diversas áreas de formação e de pesquisa; a deficiência de formação didático-o-pedagógica da maioria dos docentes que ministram disciplinas de conhecimento específico no curso de licenciatura; a ambigüidade do curso em termos de definição entre bacharelado ou licenciatura; a distinção, mesmo que sutil, da maioria dos docentes em falar da formação para o bacharelado ou ou para a pesquisa em Física; a a dicotomia teoria - prática, nas disciplinas de Física (teoria/laboratório); a necessidade de aumento da carga horária das disciplinas de Prática de Ensino e Estágio Supervisionado; a necessidade de contratação de docentes ligados ao ensino de Física para lecionar no curso de Física; maior atenção às disciplinas do Departamento de Educação, principalmente as Prática de Ensino e Estágio Supervisionado.
É possível perceber, na análise dos discursos dos licenciandos, que muitos dos problemas assinalados por eles estão presentes também na literatura sobre formação de professores. Como por exemplo: a disciplina de Prática de Ensino de Física e Estágio Supervisionado vinham sendo o oferecidas apenas no último ano do curso, sugerindo os licenciandos que essas disciplinas de cunho pedagógico começassem desde o primeiro ano do curso. Os licenciandos afirmam que muitas vezes os docentes adotam uma concepção sobre a relação entre ensino e aprendizagem fundamentada em um processo que envolve exclusivamente a memorização e a fixação dos conteúdos ministrados, focando apenas e em aspectos ligados à resolução dos exercícios passados na lousa e ou através de listas de exercícios e problemas fechados . Reclamavavam da concepção de avaliação utilizada pelos docentes , principalmente aqueles que ministram as disciplinas de conhecimento específico: a qual se baseia em uma concepção que favorece uma correlação mecânica entre aqueles conteúdos de Física ministrados durante as aulas com os que os licenciandos devem responder nas provas. Discordam da ênfase demasiada nos aspectos instrumentais e procedimentais da Física, procurando torná-los competentes apenas na resolução mecânica de exercícios em detrimento de uma formação conceitual e mais relacionada à formação para a docência. Fizeram críticas à organização curricular das disciplinas do curso, salientando a existência de uma desarticulação entre os conteúdos, os objetivos, a metodologia e a avaliação. Entendiam os licenciandos que os conteúdos de Física são trabalhados na maioria das vezes descontextualizados e desprovidos de significados, sem relação com o cotidiano dos futuros professores de Física, acabando por prejudicar na transposição didática dos conteúdos trabalhados para os alunos do Ensino Médio. Sugerem que seja realizada a articulação entre os conhecimentos específicos e os conhecimentos de natureza pedagógica e entre teoria e prática. Criticam o fafato de os docentes que ministram disciplinas de conhecimento específico muitas vezes desconsiderar que o curso deveria ser voltado à formação de professor.
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As reivindicações sinalizavam para mudanças na organização das disciplinas contidas na estrutura curricular, dando relevância à formação do professor, visto que o curso é uma licenciatura. Os discursos da maioria dos licenciandos apontaram para a necessidade de se elaborar uma reestruturação curricular cujas disciplinas fossem em organizadas de modo inter-relacionadas oferecendo um conjunto de conhecimentos que resultem num corpo sólido para a formação de professores de Física.
## Os discursos dos membros da comissão de reestruturação curricular de 2005
Foram discutidos vários assuntos no decorrer dos encontros da Comissão Responsável pela Reestruturação Curricular do Curso nas reuniões que ocorreram entre os meses de julho a dezembro do ano de 2005. A Comissão foi composta de oito docentes formados em Física, a fim de garantir o anonimato dos mesmos os denominaremos de D1, D2, D3, D4, D5, D6, D7 e D8, dentre os quais o pesquisador, sendo que três deles atuam mais diretamente com a pesquisa em ensino de Física (D2, D7 e D8). Interpretando os efeitos de sentido produzidos pelas falas dos membros nota-se que, algumas temáticas apareceram, ao longo do processo, muitas vezes de forma recorrente.
Destacam -s -se, entretanto, temáticas que foram objetos de atenção especial que, por se mostrarem controversas, mereceram destaque na análise. Assim, ressaltamos e procuramos analisar as falas dos membros da Comissão relativas, por exemplo, ao perfil dos alunos ingressantes no Curso de Licenciatura em Física; ao perfil do professor a ser formado; ao papel do curso de licenciatura em Física na formação de professores; as relações entre Ciência, Tecnologia, Sociedade, Ambiente e Desenvolvimento Humano; História da Ciência; História da Física; Introdução à pesquisa em Ensino de Ciência, Didática das Ciências; sobre a questão da disciplina "Física Conceitual Introdutória", a questão o da transposição didática a e introdução da Filosofia da Ciência no currículo, dentre outras temáticas relacionadas às disciplinas propostas para a nova estrutura curricular.
Observou -se nas falas, durante as reuniões, que uma das questões centrais foi a identidade do profissional a ser formado, quando D7 7 procura levar os demais membros da comissão a refletir sobre as seguintes questões: : "O que a sociedade espera desse profissional? Quem tem competência para definir o que é ser um bom profissional? Quem define? O que é ser um bom professor?" Percebe-se que alguns membros da Comissão concordam que, nesse momento, deveriam focalizar o perfil do professor de Física.
No entanto, ao salientar o fato de que a constituição do Departamento é majoritariamente de bacharéis, D1 tem em mente que precisava satisfazer a essa condição. Mostra-se preocupado em atender também a essa parcela de docentes e, ao mesmo tempo, seus interesses em orientar os licenciandos em suas áreas de pesquisa, conduzi -los para programas de pós-graduação em Física. Essa preocupação, embora atenda aos anseios desses docentes, acaba por descaracterizar o perfil do profissional a ser formado numa licenciatura (um professor) fato que tem sido notado como um dos problemas do Curso por parte dos licenciandos.
Percebe -s -se que existe aí uma nítida relação de forças entre os próprios docentes membros da Comissão que tinham a tarefa de fazer a reestruturação de um Curso de Licenciatura, sem, no entanto, se descuidarem daquilo que estava no imaginário da maioria do Corpo Docente do curso, ou seja, alguns membros da Comissão acabavam atendendo, embora de forma inconsciente, às aspirações da maioria dos membros do Departamento.
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Os reflexos dessas aspirações divergentes entre bacharelado e licenciatura, e que se encontra presente nessas falas, acaba por refletir no corpo discente, conforme mostraram as falas dos licenciandos nas respostas aos questionários e constam nos trechos analisados, bem como na fala dos professores em exercício na rede, como mostraremos posteriormente nesta comunicação .
Somam -s -se a esse fato as incoerências entre as Diretrizes para os Cursos de Física e para Formação de Professores, que acabaram por confundir os trabalhos da Comissão, colaborando para reforçar uma compreensão equivocada a respeito do que seria um curso de licenciatura e/ou bacharelado. Essas incoerências também têm origem em esforços dadas próprias entidades representativas (associações e sociedades) desses es profissionais .
Finalizado o processo de reestruturação , os docentes da comissão chegaram a um consenso sobre os eixos básicos que configurariam a estrutura curricular do curso: Formação de conhecimentos básicos da Física e Ciências afins e seus instrumentais matemáticos (eixo 1); A formação didático-o-pedagógica do professor de Física (eixo 2); Ciência, Tecnologia, Sociedade, Ambiente e Desenvolvimento Humano (eixo 3) e o eixo articulador que seria a Prática de Ensino de Física. E, também, concordaram com a duração de cinco anos para o curso.
## O que dizem os professores da rede e estadual de ensino
- O encontro com os professores da rede estadual foi agendado a partir de sugestão de um dos membros da Comissão (D7), o qual entendia que a consulta a professores em exercício seria importante como subsídio para as atividades da 6 Comissão6 o6 , ocorrendo no segundo semestre de 2005, nas dependências da Diretoria de Ensino local, órgão da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo.
Dos 46 professores participantes, 14 deles haviam se licenciado nos últimos anos pelo Curso de Licenciatura em estudo e, portanto, através da estrutura curricular até então vigente, que estava em processo de reestruturação. Quatro deles cursaram Física em outras instituições, dois eram formados em Engenharia Elétrica; quanto aos demais, 20 eram formados em Matemática, um em Química e os outros cinco haviam concluído Licenciatura Curta em Ciências, com habilitação em Física (Resolução 30/74).
- A tônica das discussões esteve relacionada a temas como a a divergência licenciatura/bacharelado presentes nos cursos de licenciatura; a falta de preparação pedagógica dos docentes nos cursos de graduação, ausência de atividades de iniciação científica na área de ensino de Física; questões relacionadas ao número reduzido de aulas de Física no Ensino Médio, as condições insatisfatórias de trabalho e as dificuldades na transformação de conhecimentos específicos em conhecimentos pedagógicos, a chamada t transposição didática .
As demais demandas que, de certa forma surpreenderam a Comissão, foram relacionadas à inclusão em sala de aula de alunos portadores de necessidades especiais, exigida recentemente pela SEED; à reinvidicação antiga de que licenciandos em Física também pudessem lecionar a disciplina Ciências no Ensino Fundamental que, além de aumentar seu campo de trabalho e, conseqüentemente, a carga horária em uma mesma escola, evitaria que trabalhassem em diversas escolas da rede.
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Na reivindicação, um dos professores (P2) procura em sua memória discursiva trazer, da época em que cursara a licenciatura, questões relativas à postura metodológica de alguns docentes: "... que ministravam aulas, que trabalhavam com a gente como se fosse um curso de bacharelado". Na verdade, procura compartilhar com os demais professores presentes a experiência que teve no curso de licenciatura em Física; quer dizer, embora estivesse num curso de formação de professores "'a gente' se sentia realmente num curso de bacharelado e não num curso de licenciatura".
Em seguida, P2 2 procura esclarecê-los, que embora o curso fosse de formação de professores, não sentiam isso, ou seja, "Q"Quando 'a gente' se sentia num curso de licenciatura? Quando nós tínhamos aula de Metodologia e Prática de Ensino com [...], Didática com [...], que davam ênfase maior ao ensino de Física".
Observa -se também que os professores levantam questões importantes a serem consideradas no processo de reestruturação curricular como, por exemplo, " É É a mesma pçpp equipe que vai dar bacharelado? É a mesma equipe que vai dar licenciatura? Eles vão 'puxar a sardinha' para quem? Quem é o foco?" Percebe-s-se na fala desses exlicenciandos, hoje professores em exercício, o reflexo da divergência licenciatura/bacharelado para sua atuação no Ensino Médio. Nota-se que os docentes estão apontando que não basta a reorganização curricular, mas também é necessário investir na formação desses profissionais da educação (Formadores).
## Considerações finais
Finalizado o processo de reestruturação percebe-s-se que a combinação de forças acabou por apontar para uma proposta, ou estrutura curricular que se afigura ou parece, aparentemente, ter resolvido impasses: atende parcialmente às legislações, aparentandose com um curso de formação de professores e não deixa de ter suas características de bacharelado, que pretensamente formará pesquisadores.
Estrutura pronta, sendo importantete, daqui para frente, questionar como funcionará; a quem atenderá e que profissionais poderá ela gerar e, se quisermos ir além nesta linha de pensamento, que impacto essa acarretaria na sociedade.
Uma estrutura curricular assim planejada sem se pensar, contudo, nos os conteúdos e objetivos das disciplinas que a comporão, nos docentes que atuarão e nos alunos que lhe darão vida e consistência, por certo pouco representa. Essa construção só se completa em sala de aula e é exatamente como esta estrutura funcionará rá é que deve ser a discussão daqui para frente. E, em decisões desta espécie, a Coordenação de Curso, as Representações de Docentes e de Alunos terão responsabilidade no papel que assumirão.
Assim, independentemente de pensarmos em formar bacharéis ou licenenciados, uma vez que ambos podem acabar na docência, como o faz atualmente a maioria dos cientistas do país, esse estudo mostra que as disciplinas do currículo precisam ser ministradas por profissionais com formação adequada. Também, no caso específico deste projeto concluído, seus eixos integradores e disciplinas que o constituem precisam ser respeitados, sob pena de toda estrutura vir a ruir.
Embora seja importante destacar o papel dessas representações, das dependências entre eixos, disciplinas, metodologias e outras demandas do projeto reestruturado, fica claro nas discussões anteriores que, se a estrutura universitária não
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ceder, ou seja, se uma reforma universitária considerável não tiver espaço, o, pouco mudará.
Por outro lado, independente de formar físicos educadores ou educadores em física, é necessário que essa instituição promova estudos para a elaboração de uma política explícita de formação de educadores para todos os níveis. E que esta seja amplamente discutida e claramente exposta à sociedade. Em m instituições públicas, como é o caso desta cujo processo de reestruturação foi es tudado, a sociedade subvenciona seu funcionamento, então aumenta a demanda por profissionais críticos, capazes de transformar a realidade que hoje se apresenta.
## Referências
BRASIL. Lei 9.394 de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Brasília, 1996.
CORTELA, B. S. C. Formadores de professores de Física: uma análise de seus discursos e como podem influenciar na implantação de novos currículos. Bauru, UNESP, 2004, 268f. D Dissertrtação (Mestrado em Educação para a Ciência)- Faculdade de Ciências, Universidade Estadual Paulista. Bauru, 2004.
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