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SIGNIFICADOS DAS ORIENTAÇÕES METODOLÓGICAS NOS LIVROS DIDÁTICOS DE FÍSICA DO PONTO DE VISTA DOS PROFESSORES

Tânia Maria F. Braga Garcia, Luiz Eduardo Pivovar

Evento
Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
Edição
XI
Ano
2008
Data
22/10/2008
Linha de pesquisa
Didática, Currículo E Avaliação No Ensino De Física
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## SIGNIFICADOS DAS ORIENTAÇÕES METODOLÓGICAS NOS ÁÍ Ç LIVROS DIDÁTICOS DE FÍSICA DO PONTO DE VISTA DOS PROFESSORES 1

## MEANINGS OF THE METHODOLOGICAL ORIENTATION IN PHYSIC TEXTBOOKS ACCORDING TO THE POINT OF VIEW OF THE TEACHERS

Tânia Maria F. Braga Garcia 1

Luiz Eduardo Pivovar

2

1 UFPR/DTPEN - PPGE, E, bolsista CNPq – [taniabraga@terra.com.br]

2 UFPR/Licenciatura em Física (b(bolsista PIBIC) – [edu03\_2@hotmail.com]

## Resumo

Apresenta resultados de investigação que tem como objetivo analisar as relações que os professores estatabelecem com o livro didático, aqui entendido como um recurso relevante nas aulas da escola pública fundamental e média. A investigação, de caráter qualitativo, utiliza instrumental da etnografia - - observação participante, entrevistas e questionários e ananálise documental e busca: a) analisar as formas pelas quais os professores se apropriam dos manuais didáticos para a produção de suas aulas; b) explicar as formas que o conhecimento escolar assume a partir da produção de conhecimento feita pelos professores em suas aulas, utilizando o manual escolar; c) compreender o significado atribuído pelos professores às orientações didático-o-metodológicas apresentadas pelos autores no livro didático. Os resultados apresentados, relativos à primeira fase do trabalho de campo, analisam elementos da relação dos professores com as orientações metodológicas que compõem os manuais didáticos por exigência dos programas federais de distribuição de livros às escolas públicas.

Palavras -chave: Didática, manuais didáticos, formação de professores de Física.

## Abstract

This work presents results of a research that aims to analyze the relations that the teachers establish with the text books, taken as an important tool on the basic and high school classes in the public schools. The qualitative research uses ethnographic methods - - such as the observant participation, interviews, surveys and documentation analysis - - and has as its main goals: a) to analyze the means through which the teachers get involved with the text books to elaborate their classes; b) to explain the means scholar knowledge takes on based on the production of knowledge made by the teachers at their classes, using the text books; c) to

understand the meaning conferred by the teachers to the didactic -methodological orientations presented by the authors in the text books. The results presented, regarding the first phase of the first phase of the field work, analyze elements of the relation between teachers and the methodological orientation that compose the textbooks.

Keywords: Didactic, textbooks, Physic teacher formation.

## Introdução

Apesar da forte presença dos livros didáticos na cultura escolar e de sua reconhecida importância na definição dos conteúdos a serem ensinados e na difusão de métodos didáticos ao longo de totodo o século XX, é apenas a partir da década de 1950 que as pesquisas voltadas a essa temática ganham espaço3 o3 . Segundo Choppin (2004, p. 549) "os livros didáticos vêm suscitando um vivo interesse entre os pesquisadores de uns trinta anos para cá", o que evidencia a expansão e o fortalecimento de um campo de investigação específico ao mesmo tempo em que alerta para as dificuldades inerentes a essa situação, mesmo porque se trata de um objeto caracterizado por ele como "complexo". (p.552).

Para esse autor, as preocupações com a investigação desse tema podem ser justificadas pela "onipresença - - real ou bastante desejável - de livros didáticos pelo mundo e, portanto, o peso considerável que o setor escolar assume na economia editorial nesses dois últimos séculos" (Choppin, 2004, p. 551). No caso brasileiro, as pesquisas sobre livros didáticos podem ser justificadas também pela abrangência dos programas de distribuição de livros promovidos pelo governo federal. Em termos de recursos, afirma-a-se que em 2006, foram investidos R$ 121,9 milhões e em 2007, cerca de R$ 220 milhões (BRASIL/MEC, 2007).

Quanto à natureza das investigações, estudos que mapearam a produção de pesquisas sobre os manuais permitem identificar a existência de diferentes linhas de investigação, que já agregam um número significativo de estudos, e permitem constatar o fortalecimento quantitativo e qualitativo desse campo, particularmente com relação aos estudos de natureza histórica sobre livros e edições. (Choppin, 2004). Apesar disso, a a busca em diferentes bases de dados revela, ainda, uma pequena presença, no conjunto de pesquisas educacionais, de estudos que aprofundam a compreensão dos modos pelos quais os professores produzem suas aulas, particularmente, quanto à apropriação que fazem dos conteteúdos e métodos presentes nos livros que utilizam . A produção do conhecimento escolar a ser ensinado nas aulas e aprendido pelos alunos resulta, em grande parte, da relação do professor com os livros didáticos, processos esses ainda pouco estudados cientificamente, tanto no Brasil como em outros países, dentro do campo das análises epistemológicas e didáticas (Choppin, 2004, p. 558).

No que se refere particularmente aoaos livros de Ciências, em estudo que tomou como material empírico os artigos publicados em periódicos da área, com a finalidade de mapear a produção científica sobre o tema, Ferreira e Selles (2004) apontam temáticas e tendências nas pesquisas realizadas por diferentes autores. O

que se pôde observar também nos resultados desse levantamento é que predominam pesquisas que examinam o conteúdo dos livros didáticos, sob diferentes perspectivas. Para as autoras, ainda que tenham sido apontados como os materiais educativos mais investigados, tanto em artigos publicados em anais como em dissertações e teteses, é preciso destacar que o "foco da análise recai predominantemente sobre os conteúdos de ensino" (Ferreira e Selles, 2004, p. 2) , indicando uma concentração temática por parte dos investigadores .

Também o livro didático de Física a tem sido objeto de ininvestigações, como mostra o mapeamento feito pelas autoras. Ao examinar dezessete artigos produzidos a partir da década de 1980, onze dos quais referidos a essa disciplina, Ferreira e Selles concluem sobre a existência de várias formas de abordagem do objeto, mas apontam, também no caso da Física, a concentração absoluta dos estudos em torno de questões relativas ao conteúdo - - erros conceituais, estruturação na forma de apresentação, assuntos/ temas específicos, comparação com idéias alternativas/ espontâneas/ senso comum dos alunos, presença de analogias, uso do cotidiano, entre outros.

Portanto, justifica-s-se a necessidade de ampliar as investigações sobre os livros didáticos de Física, no sentido de buscar compreender a apropriação que os professores fazem quando produzem seus planejamentos e desenvolvem suas aulas usando esse recurso, entendido aqui como objeto da cultura escolar que pode ser apenas uma referência eventual entre outras, mas as pode também tornar-se o guia principal das ações docentes. Este é o objetivo da investigação que aqui será relatada, em fase de conclusão, cujo objetivo é estudar as relações que professores de Física do Ensino Médio estabelecem com o livro didático, suporte do qual se apropriam em determinados momentos do trabalho, com finalidades específicas e de forma articulada a outros materiais de ensino.

Para compreender essa relação, estruturou-se uma investigação coordenada pelo Núcleo de Pesquisa e PuPublicações Didáticas as (NPPD/UFPR), na qual uma das vertentes é a análise didática das orientações incluídas pelos autores nos manuais de Física para o Ensino Médio e das formas pelas quais professores de 4 Física delas se apropriam 4 . Neste texto, serão apresentados alguns elementos teórico -metodológicos que fundamentam a pesquisa e os resultados da primeira fase do trabalho de campo .

## Referências teórico -metodológicas

De forma geral, no conjunto significativo de produções sobre o livro didático no Brasil - seja do ponto de vista quantitativo ou qualitativo - - as investigações sobre o uso de manuais didáticos pelos professores ainda são pouco freqüentes. Pode-s-se afirmar que esta questão de natureza didática tem sido pouco abordada por investigações empíricas. Efetivamente, já se têm produzido trabalhos relevantes do ponto de vista da produção e circulação dos livros didáticos (ver, por exemplo, Munakata, 2003), outros no campo da História da Educação que privilegiam tanto a história do livro didático (Bittencourt, 1993) como as relações entre os livros e a

formação de professores (Vidal, 2001; Garcia, 2003), e, ainda, do ponto de vista da especificidade de alguns conteúdos do ensino, nas disciplinas escolares (Zamboni, 1996; Abud, 1998; Valente, 2000; Wuo, 2000; Schmidt, 2003; Batista e Val, 2004; Fracalanza e Megid Neto, 2006; Garcia, Garcia e Higa, 2007).

Entretanto, a busca em diferentes bases de dados ainda revela um reduzido número de investigações cujo objetivo é compreender a utilização dos livros pelos professores em suas aulas 5 . Se à primeira vista a preocupação pode parecer pouco relevante, pelo menos dois argumentos podem ser apresentados aqui para justificar a necessidade de investigações dessa natureza e com esse foco.

- O primeiro argumento é de natureza quantitativa: considerando-s-se apenas o programa de livros didáticos para o ensino fundamental (PNLD) em 2006, o MEC contabiliza a aquisição e distribuição de 102,5 milhões de exemplares, nos diferentes conteúdos de ensino que compõem o currículo escolar com investimento de R$ 563,7 milhões e previsão para 2007 de R$ 620 milhões. Em relação ao Ensino Médio , em 2007, a informação oficial indica que foram adquiridos 7,2 milhões de volumes de Biologia e 1,9 milhão de livros de Português e Matemática para reposição dos que foram distribuídos no ano anterior. Em 2008, serão incluídas as disciplinas de Geografia e Física, "completando a universalização do atendimento do ensino médio". (BRASIL/MEC, 2007). A abrangência do programa e o volume de recursos destinados a ele justificam a preocupação acadêmica não apenas com as características dos livros distribuídos, mas também - - e principalmente - com o uso que os professores fazem dos livros que recebem.
- O segundo argumento está relacionado à pequena presença, ainda, no conjunto das pesquisas educacionais, de estudos voltados à compreensão dos modos pelos quais os professores produzem suas aulas, particularmente quanto à relação que esestabelecem com o livro didático ao se apropriarem desse recurso em seu trabalho de ensino. A produção do conhecimento escolar a ser ensinado e aprendido resulta, em grarande parte, da relação do professor com os conteúdos de ensino, mediada pelos livros didáticos. É, portanto, no campo da investigação didática que se insere a investigação cujos resultados parciais serão objeto de apresentação e discussão neste texto.

A peperspectiva privilegiada na investigação que vem sendo realizada é, pois, de aproximação e compreensão das relações que os professores estabelecem com os livros didáticos e, neste caso, particularmente com os livros didáticos de Física. Na perspectiva escolhida, que privilegia a dimensão sociológica e antropológica da experiência didática, entende-se que é possível e necessário aproximar-se do espaço em que os professores produzem o seu trabalho com a intenção de compreender a constituição dos processos pelos quais os manuais se tornam instrumentos ou guia de ação durante as aulas (Freitag, Costa e Motta, 1993).

Trabalhos clássicos categorizam dentro dessa tipologia as formas pelas quais os professores usam o livro didático e isso tem contribuído para explicar até certo ponto a ação docente. No entanto, trabalhos de natureza etnográfica - - como o de Edwards (1997) - contribuem para esclarecer os processos de produção do conhecimento escolar nas aulas, indicando que cada professor, tomado como sujeito

histórica e socialmente constituído, marca de forma particular esse trabalho de produção, dando formas diferentes ao conhecimento escolar, identificados por esta autora como formas de conhecimento tópica, operacional ou situacional. Trata-se, portanto, de afirmar a a necessidade de pesquisas que, como defende Silva (2003), reexaminem as relações estabelecidas entre professores, alunos e conhecimentos, mediadas pelos livros didáticos, buscando verificar e ampliar a categorização dessas formas que o conhecimento escolar r assume no interior das escolas e das aulas .

## Livro Didático: um objeto situado no espaço de relação entre a cultura escolar e a cultura da escola

Também chamados de manuais didáticos ou manuais escolares, os livros didáticos podem ser compreendidos apenas como um recurso didático ou um suporte para o ensino. Como afirma Batista (2002), este "objeto variável e instável", apresenta inúmeras características que contribuem para fazer dele um artefato cultural desprestigiado: "Livro 'menor' dentre os 'maiores', de 'autores' e não de 'escritores', objeto de interesse de 'colecionadores' mas não de 'bibliófilos', manipulado por 'usuários' mas não por 'leitores', o pressuposto parece ser que o seu desprestígio, por contaminação, desprestigia também aqueles que dele se ocupam, os pesquisadores neles incluídos" (p. 530).

Entendidos como elemento da cultura escolar, os livros didáticos têm sido tomados como fonte e utilizados por historiadores da educação para compreender elementos constituidores dos modos de educar da sociedade brasileira ao longo dos anos, dando-s-se grande ênfase ao estudo dos métodos didáticos e das metodologias específicas dos conteúdos escolares. Neste sentido, alguns trabalhos se apóiam nos debates sobre as disciplinas escolares (Chervel, 1990; Goodson, 1997), o que permite analisar, sob a ótica da história, a presença deste objeto na escola. Destaca-ase aqui a existência de estudos realizados por Schmidt (2006) que apontam a relevância do conceito de código disciplinar - construído por Cuesta Fernandes para examinar elementos explicativos da constituição da História como disciplina escolar - - no desenvolvimento de estudos sobre o livro didático, entendido como elemento visível l desse código que contribui p para materializar as disciplinas .

Em outra perspecectiva de análise, os livros são situados como mercadoria (Apple, 1995), reconhecendo-se então que são produzidos, distribuídos e consumidos tendo -se em vista um mercado específico - o escolar. Essa forma de compreender o livro didático permite afirmar que este mercado coloca em circulação, no caso brasileiro, milhões de exemplares e movimenta um altíssimo valor de recursos, disputados anualmente por editoras que atuam no Brasil, mas que hoje, em grande parte, representam a presença de grandes grupos editoriais de capital estrangeiro.

No entanto, a existência dos livros escolares pode indicar outras direções para se discutir seu valor social: é preciso relembrar a importância didática que têm dentro do sistema escolar brasileiro, seja para os alunos, seja para ra os professores , em um modelo de distribuição gratuita, muito próprio da cultura escolar brasileira , que inclui um sistema o oficial e estruturado de avaliação o e seleção das obras .

As avaliações realizadas nas duas últimas décadas, como parte destes programas, constituíram padrões de produção e estabeleceram critérios editoriais, formais e de conteúdo. Preconceitos e estereótipos, erros conceituais e incoerências teórico -metodológicas tornaram-s-se menos freqüentes segundo análises das equipes

que produzem os Guias para orientar as escolas 6 , cujos integrantes, em muitos casos, pertencem aos quadros de diferentes universidades. O envolvimento das universidades nos processos de avaliação tem resultado, entre outras coisas, em um compromisso mais efetivo de pesquisadores de diferentes áreas na produção de conhecimentos sobre os livros didáticos, seja para examinar a aproximação dos livros com os novos padrões que foram sendo elaborados e exigidos, seja para verificar a presença de determinados elementos teórico-o-metodológicos que, admitidos como desejáveis pelos especialistas nos conteúdos específicos, também passaram a compor os critérios oficiais de avaliação (por exemplo, a presença de fontes para o ensino de História, a valorização da geometria para a Matemática, a, a experimentação no ensino de Ciências).

Esta questão é essencial para se compreender a justificativa teórica e a relevância social da investigação aqui apresentada. As novas exigências normalizadas pelas equipes de avaliação que prestam serviços ao MEC na forma de consultorias, além de criarem novos padrões editoriais, também estabeleceram a presença obrigatória de orientações metodológicas no manual do professor, detalhadas em elementos específicos para cada disciplina escolar, e que incluem, por exemplo, sugestões de atividades, sugestão de leituras complementares, sugestões para avaliação dos alunos. A obrigatoriedade dessas orientações coloca uma nova exigência para as pesquisas sobre o tema, uma vez que possibilita estabelecer, em princípio, algumas aproximações entre o livro didático - - inicialmente pensado para o aluno - e os chamados "manuais destinados à formação de professores" - produzidos especialmente para ensinar professores a ensinar -classificadas como obras de Didática Específica ou como obras de Metodologia do Ensino.

Por outro lado, a participação dos professores na escolha do livro, ainda que muitas vezes reduzida à aceitação de decisões tomadas fora do âmbito das escolas, contribuiu para a constituição de novas rotinas no interior da escola, que não são encontradas em outros países, pois decorrem diretamente do modelo de distribuição universalizada que se implantou no Brasil. Pesquisas recentes (Santos , 2007) têm se debruçado sobre a questão das escolhas e dos critérios envolvidos nesses processos escolares , revelando a existência de um embate entre alguns elementos da cultura escolar -as normatizações e definições que regulam, de fora para dentro, as atividades escolares - - e a cultura da escola - - os modos próprios de regulação e de transgressão, os ritmos e ritos que são produzidos no movimento da vida das escolas (Forquin, 1993).

Tem -s -se, então, na complexidade desse objeto, uma justificativa relevante para a proposição de estudos que contribuam, de diferentes pontos de vista, para a ampliação dos conhecimentos sobre o livro didático, seja do ponto de vista de sua produção e avaliação, seja do ponto de vista das escolhas feitas pelos professores nas escolas e, especialmente, sobre seu uso nas aulas, por professores e alunos. Considerando -se que em muitas situações os livros são usados como um guia e,

ainda, que esse suporte pedagógico muitas vezes se constitui como fonte única de informações sobre as quais se organiza o trabalho de ensino, são os livros didáticos que acabam por estabelecer grande parte das condições materiais para o ensino e a aprendizagem nas salas de aula.

Portanto, para o objetivo central da investigação - - compreender elementos relacionados à apropriação que os professores fazem do livro didático em suas aulas -a existência do "Manual do Professor" assume fundamental importância e se estabelece como uma condição objetiva a ser explorada e analisada, originando algumas questões iniciais: que relação os professores estabelecem com essas orientações didático-o-metodológicas sugeridas no livro didático, ao organizar e desenvolver as suas aulas? Como essas orientações se entrecruzam com suas decisões e definições no ensino? Que elementos os manuais podem trazer para colocar em movimento as reflexões do professor sobre seu trabalho de ensino? Que papel os professores e os livros podem cumprir na produção do conhecimento escolar que é apresentado aos alunos?

A investigação pode contribuir, em diferentes âmbitos do trabalho que envolve os manuais escolares, seja para a discussão de e modelos de produção e avaliação, seja para os debates curriculares e definição dos conteúdos de ensino e, particularmente para examinar processos de formação inicial e continuada de professores, instância esta em que praticamente o estudo e o debate sobre os livros escolares têm sido esquecidos.

## Professores de Física e orientações metodológicas nos livros didáticos: análises e considerações

Dentro da perspectiva assumida pelo grupo de Pesquisa Cultura, Saberes e Práticas Escolares, ao qual se articula o Núcleo de Pesquisas em Publicações Didáticas, estruturou-se a investigação em uma abordagem qualitativa , sustentada no pressuposto da existência de uma estrutura objetiva que organiza o mundo social, que pode ser conhecida e explicada de maneira científica, em processos de produção e sistematização do conhecimento. No entanto, o reconhecimento da existência dessa estrutura está fortemente associado à compreensão de que os sujeitos - - agentes sociais - - cumprem um papel relevante na apreensão e na produção do mundo social e, que, portanto, podem ser tomados como sujeitos que, por suas ações, transformam esse mundo. Assim, justifica-a-se a inserção no campo empírico para apreender duas dimensões que se articulam na esfera da vida cotidiana: de um lado, as determinações que impõem aos indivíduos uma dada estrutura social; de outro, os significados das ações dos sujeitos ao se relacionarem consigo mesmo, com os outros e com as objetivações nos diferentes espaços da vida social .

Para compreender o significado atribuído aos sujeitos ao seu trabalho com o livro didático, são privilegiadas as entrevistas e questionários que objetivam colocar o seu ponto de vista como elemento essencial na compreensão de tais processos. A análise documental incorpora-se como técnica complementar, porém essencial, para a produção de determinados tipos de dados.Deve-se ressaltar que a construção de instrumentos de investigação para apreender as relações entre os sujeitos e os elementos que configuram atividades constitutivas do cotidiano escocolar tem sido um desafio para os pesquisadores. No caso da pesquisa aqui relatada, as entrevistas foram definidas a partir dos resultados obtidos com o instrumento inicial, aplicado a

um grupo de professores de Física que atuam no Ensino Médio, no ano de de 2007, cujo desenvolvimento e resultados serão apresentados a seguir.

Considerando -s -se a importância que as orientações foram ganhando nos processos avaliativos do livro didático, o que se pretende saber na investigação realizada é se e como os professores se e apropriam dessas orientações, exigidas pelo Programa Nacional de Livros Didáticos para o Ensino Fundamental e Médio, objetivo que conduziu a pesquisa empírica que será relatada a seguir.

## Os sujeitos

O questionário foi aplicado a sete professores que atuam no Ensino Médio, selecionados aleatoriamente dentro de um grupo que mantém alguma relação com a Universidade, seja por ainda estarem em processo de formação inicial ou em processo de formação continuada, em nível de pós-graduação. Esse grupo não foi entendido como amostra estatística, mas como amostra por objetivo, uma vez que no estudo final pretende-se incluir tanto profissionais formados como aqueles que ainda se encontram em processo de formação inicial - - situação freqüente nas redes públicas de ensino, derivada da falta de professores de física, concursados, mas que também existe em escolas particulares. Todos os sujeitos participantes do estudo têm formação específica em Física: cinco são licenciados em Física e dois estão em fase de conclusão do curs o, estes últimos atuando com contrato temporário de trabalho na rede pública de ensino.

## Os instrumentos utilizados

O instrumento de pesquisa foi estruturado em duas partes. Na primeira, as questões privilegiaram a presença do livro didático no processo de e escolarização dos professores, indagando se usaram esse recurso durante o período de sua formação no Ensino Médio, em que disciplinas isso ocorreu e, ainda, que outros materiais utilizaram para estudar na situação específica de ausência de livros. A segunda parte buscou respostas para o uso do livro didático na atuação profissional desses sujeitos, por meio de questões fechadas, com escala, e questões abertas, de caráter opinativo (Ghiglione e Matalon, 2005).

## Resultados

A pesquisa sobre formação de professores tem colocado em destaque, há algum tempo, a importância que as trajetórias pessoais de formação têm na construção de diferentes formas de ser professor. Ao lado dos estudos sobre memória e identidade e profissional, uma outra possibilidade teórica de análise dessas relações se ancora no conceito de experiência, como elaborado em Dubet (s/d). Para esse autor, "a identidade social não é um 'ser', mas um 'trabalho'." (p. 16). Nessa perspectiva, compreender as relações dos professores com os livros didáticos implica a compreensão do "jogo de tensões" em que são construídas as suas experiências didáticas com esse recurso de ensino. Apenas dois professores referiram -s -se à presença do livro didático em sua formação no ensino médio, em algumas disciplinas e em alguma série do curso. Desses, apenas um utilizou, enquanto aluno, o livro didático de Física. Para os demais - - três que ainda estão em formação e dois já licenciados - os estudos foram feitos com apoio em algum texto ou apostila. No entanto, destaca-s-se a rereferência, feita também pela maioria (cinco

professores), às práticas de estudar com os cadernos, contendo anotações copiadas dos apontamentos e exercícios registrados pelos professores no quadro de giz.

Esta questão é relevante diante da idéia de que a experiência social dos sujeitos nos processos de formação afeta a forma como compreendem sua ação profissional e influencia a construção de determinados modelos de trabalho na sala de aula. A ausência de livros didáticos para uso dos alunos na maior parte das escolas públicas e a conseqüente construção de um modo de dar aulas de Física anotando conceitos e exercícios no quadro de giz - experiência vivida pelos professores em sua própria formação - - são elementos que se incorporam ao repertório de estratégias para "dar aulas" no Ensino Médio e que são freqüentemente relatadas tanto por pesquisadores como pelos alunos em formação e por professores ao descreverem suas rotinas de trabalho .

Considerando -s -se a recente implementação do PNLEM pelo Governo Federal, que disponibilizará livros didáticos de Física aos alunos do Ensino Médio, esta se torna uma questão relevante de pesquisa: como os professores se relacionarão com os livros? Que uso farão desse recurso? Como ele será incorporado ás práticas já estabelecidas em suas rotinas de aula? Nesse sentido, o estudo realizado o indicou a necessidade de incluir questões nos demais instrumentos a serem aplicados, para buscar captar elementos que possam contribuir para explicitar a natureza da relação que os professores estabelecem com o livro didático, tanto na situação em que referem à utilização desse recurso como na situação em que referem à ausência de livros na sua formação no Ensino Médio.

A segunda parte do instrumento - com questões de múltipla escolha, de escala, e questões abertas - procurou saber se e de que forma esses professores utilizam livros didáticos para ensinar Física no Ensino Médio, qual é o livro utilizado por eles e que características destacam como necessárias ao livro de Física, seja do ponto de vista do trabalho do professor, seja para o aluno. Em especial, duas questões foram dirigidas à relação que estabelecem com as orientações didático-ometodológicas incluídas nos manuais destinados aos professores.

Para a maioria dos sujeitos participantes (86%), o uso do livro está restrito a suas atividades de planejamento das aulas, busca de referências, exercícios e experimentos para o trabalho com os alunos, observando-se, portanto, aqui, a reprodução das condições de formação predominantes no grupo - a maioria dos alunos de Ensino Médio desses professores não apóia seus estudos e aprendizagens em livros didáticos utilizados nas aulas, mas em textos fotocopiados ou nas anotações de aulas em seus cadernos.

Quanto aos livros utilizados para apoio às suas aulas , os professores apontaram: o de autoria de Bonjorno (único com duas indicações); o de Ramalho, Nicolau e Toledo; de Alberto Gaspar; do GREF; de Antonio Máximo e Beatriz Alvarenga; de Fernando Cabral e Alexandre Lago. Apenas um dos professores tem livros didáticos disponíveis para o uso dos seus alunos, neste caso o de Aurélio e Toscano .

Perguntados sobre o que consideram um livro ideal, é relevante distinguir as respostas dadas pelos professores que estão em processo de formação inicial l da opinião dos já licenciados, a maioria em atividades de formação continuada. O primeiro grupo indica que um bom livro para o professor é aquele que traz orientações sobre o conteúdo e como realizar as atividades, inclusive roteiros para as práticas. Já o segundo grupo apontotou a necessidade do livro permitir escolhas ao

professor, seja do ponto de vista das atividades, seja dos conteúdos que pudessem ser mais interessantes para cada grupo de alunos, evidenciando a defesa do espaço de autonomia docente no encaminhamento das atitividades didáticas.

Quanto às características do livro didático que seriam desejáveis pensando nos seus alunos, dois dos professores em formação inicial convergiram para a presença de enfoques "mais conceituais" e um deles referiu-s-se a "orientações sobre como estudar" 7 . Os professores licenciados ampliaram significativamente os elementos desejáveis, fato que pode ser visto como indício de que a experiência com o ensino e a continuidade dos estudos após a formação inicial permitem a eles um olhar multiperspectivado sobre o livro didático. Entre as indicações, destacamse: "linguagem menos formal, pela contextualização dos conceitos"; "inserção de problemas -desafio"; "buscar em situações cotidianas experimentos de fácil manuseio"; "trazer figuras que chamem a atenção;" "deve ser colorido e bem apresentável, para que o aluno sinta prazer em utilizá-lo"; mostrar "o processo de construção da ciência, sendo evidenciada a presença humana como peça fundamental no processo de desenvolvimento científico"; permitir "a integração dos conteúdos da Física (...) e também com as mais variadas ciências".

Finalmente, perguntados sobre a utilidade das orientações metodológicas disponíveis nos livros didáticos, contrariando a afirmação de senso comum de que os professores não as lêem, todos os sujeitos que participaram do estudo exploratório indicaram que as orientações são lidas e, em parte, aproveitadas em suas aulas. Reconhecem limites e necessidades de adequação, mas ressaltam o fato de que as orientações e sugestões contribuem para que encontrem outras possibilidades no ensino que realizam. . A maioria concordou que elas são necessárias e que podem melhorar a qualidade das aulas para muitos professores , ainda que quatro tenham apontado que elas são distanciadas da realidade dadas escolas e de que os professores não as lêem, pois sabem o que fazer em suas aulas - - resultados que indicam a necessidade de investigação sobre a relação dessas orientações com a realidade das escolas, o que está sendo esclarecido pelas entrevistas em andamento.

- O instrumento também possibilitou que os professores completassem, de foforma aberta, sua opinião a respeito das orientações metodológicas. Um deles É ppçg destacou o distanciamento das orientações em relação à realidade das escolas: "É uma importante ferraramenta para o planejamento da aula. No entanto, em algumas situações, tais orientações podem ser deixadas de lado pela impossibilidade de aplicação a realidade escolar, seja por ausência de recursos didáticos ou mesmo pela inadequação a proposta pedagógica a da escola". Um segundo professor esboçou uma opinião crítica em relação às orientações, no caso de serem usadas por professores que não apresentam domínio de conteúdo: "Em relação às orientações, acredito que possam contribuir sim, mas apenas para o professor que já tem um domínio do conteúdo em questão. Pois, para um professor que não tem um domínio pleno da disciplina em si, poderia funcionar como uma 'biblia' ' de como se dar uma aula de física".

Por fim, um professor apresentotou os elementos que espera encontrar nas orientações a fim de utilizá-á-las na construção de suas aulas: "O apoio pedagógico feito por alguns livros é um fator de grande importância ao professor, o mesmo pode

ter soluções estratégicas para discernir dúvidas, que frequentemente acometam os alunos e, muitas vezes o próprio professor..." . Esta posição sugere a possibilidade de que os professores usam os livros também para estudar. Os demais professores não acrescentaram comentários aos p posicionamentos feitos nas questões fechadas.

De forma a geral, as respostas obtidas na primeira fase do estudo confirmaram a validade e adequação de utilização do questionário, para conhecer a posição dos professores colaboradores em relação às orientações metodológicas , indicando que sua aplicação permite também localizar diferentes experiências que poderão ser exploradas nas entrevistas e observações de aulas durante o estudo final. Justifica -s -se também, a partir dos resultados obtidos, a relevância de centrar as análises no uso das orientações metodológicas pelos professores, de forma a verificar e discutir as formas como delas se apropriam para a produção de suas aulas. Essas questões orientaram a segunda fase da investigação, particularmente a elaboração dos roteiros das entrevistas que estão em andamento e que s serão objeto de análise em textos futuros.

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