Pular para o conteúdo
Buscador da Pesquisa em Ensino de Física Busca em texto completo · v0.3.0

ENSINO DE FÍSICA PARA PORTADORES DE DEFICIÊNCIA VISUAL: ATIVIDADES DESENVOLVIDAS NUM CENTRO DE CIÊNCIAS.

José Roberto Tagliati, Lucimar Fernandes Grégio, Diego De Souza Moreira, Marina Ribeiro Teixeira

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XVIII
Ano
2009
Data
30/01/2009
Linha de pesquisa
Ensino De Física E Estratégias Para Portadores De Necessidades Especiais
Tipo
Comunicação

Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do SNEF 2009

Texto completo

## ENSINO DE FÍSICA PARA PORTADORES DE DEFICIÊNCIA VISUAL: ATIVIDADES DESENVOLVIDAS NUM CENTRO DE CIÊNCIAS.

José Roberto Tagliati 1 Diego de Souza Moreira 2 2 Marina Ribeiro Teixeira 3 Lucimar Fernandes Grégio 4

1 UFJF/Departamento de Física, Centro de Ciências 2 , tagliati@fisica.ufjf.br p 2 UFJF/Centro de Ciências, fisp\_diego@yahoo.com.br 3 UFJF/Centro de Ciências, marinaribeiroteixeira@yahoo.com.br 4 UFJF/ Assuntos Educacionais, lucimarfernandes.gregio@ufjf.edu.br

## Resumo

O presente trabalho apresenta ta resultados prereliminares de um trabalho em parceria desenvolvido entre a Associação de Cegos de Juiz de Fora, uma entidade sem fins lucrativos que tem como missão promover a inclusão do portador de deficiência visual, l, resgatando-lhe o direito à cidadania e oferecendo-lhe condições para qualificação educacional e profissional, l, com vistas à inserção no mercado de trabalho, e o Centro de Ciências da Universrsidade Federal de Juiz de Fora. São descritas atividades s de ensino desenvolvidas a partir das necessidades de aprendizagem na área de ciências, dada à dificuldade natural com que se deparam no ensino , convencional. Relata -se todo processo inicial de dificuldades encontradas, levando-se em conta a falta de vivência no ensino , para portadores de deficiência visual, l, por r pesquisisadores e bolsistas do Centro ro de Ciências e a restrita bibliografia específica encontrada . São relatadas algumas estratégias de ensino no tratamento de conteúdos científicos, utilizando como referência ia teórica as idéias de Vygotsky e desenvolvidas atividadedes experimentais , envolvendo alguns tópicicos de física, cujos resultados obtidos mostram a importância de se realizar mais pesquisas sobre aprendizagem científica dos portadores de deficiência visual.

Palavras - chave: Ensino - Aprendizagem, Deficiência visual, Vygotsky

## Introdução

De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), há 24 milhões de pessoas portadoras de algum tipo de deficiência física ou mental no País, sendo metade delas cegas. O número de alunos portadores de necessidades especiais na rede regular de ensino cresceu 229% de 1998 a 2003. Esse aumento significativo faz surgir a necessidade de se investigar como a ciência, em particular a física, está sendo passada para esse público. Quais as dificuldades encontradas tanto pelos alunos quanto pelos professores envolvidos?

O presente trabalho apresenta resultados preliminares de uma parceria entre a Associação de Cegos de Juiz de Fora, que tem como missão promover a inclusão do cego resgatando-lhe o direito à cidadania e oferecendo-lhe condições para qualificação educacional e profissional com vistas à inserção no mercado de trabalho e com o Centro de Ciências da UFJF, cuja missão é levar os visitantes a perceberem a importância da prática de investigação científica. Assim, almejamos despertar um olhar para a ciência com mais curiosidade, consciência, rigor e espírito crítico, fazer ver que a ciência não é constituída de respostas prontas.

Esse trabalho conjunto vem desenvolvendo ações de ensino de física e ciências, para portadores de deficiência visual, tendo o envolvimento de professores, estudantes de graduação e bolsistas lotados no Centro de Ciências, a partir do primeiro semestre do ano de 2 2008 .

A grande dificuldade, primeiramente, foi a falta de publicações sobre o assunto que pudessem nos auxiliar para um melhor desenvolvimento deste trabalho. A princípio pudemos detectar grande dificuldade dos deficientes visuais, quanto ao entendimento da fenomenologia científica e falta do saber teórico do conteúdo da física.

Um estudo sobre o ensino de física para portadores de deficiência visual deve investigar barreiras escolares existentes, indicando caminhos para construir maneiras mais efetivas, a fim de possibilitar uma aprendizagem que satisfaça razoavelmente as necessidades de pessoas com necessidades especiais. Acreditamos ser o alvo principal de qualquer pesquisa, que pretenda minimamente atender aos anseios destes, a compreensão de seu universo escolar.

Trabalhamos com estudantes portadores de deficiência visual do Ensino Médio. Nossa expectativa foi desenvolver uma análise dos dados encontrados para coletar e estruturar r elementos que possam vir a contribuir r para a composição de um ensino de física mais adequado às necessidades específicas desses educandos.

Percebemos inicialmente que a forma de sanar essas dificuldades foi a apresentação do conteúdo por meio de experimentos, que pareceu levar a um melhor entendimento do fenômeno bem como sua associação com a matemática.

Mais do que verificar a aprendizagem dos conteúdos científicos, nosso objetivo nesse trabalho foi o de iniciar uma investigação de quais estratégias , ou estruturas , o portador de deficiência visual utiliza para estudar ciência. Optamos por assuntos ligados à Física, até pelo fato de permitir uma melhor intnteratividade nas atividades experimentais. Decidimos por uma metodologia de mediação direta, onde um ou dois bolsistas instrutores acompanhavam o estudante durante todo o tempo, até mesmo em atividades experimentais nas quais era possível que o portador de deficiência pudesse trabalhar sozinho. Pretendíamos observar e registrar todas as reações dos estudantes de modo a não perder detalhes sobre seu comportamento durante a atividade.

Algumas questões surgiram no desenvolvimento desse trabalho: como fazer a rerealização destes experimentos e se as estratégias utilizadas eram de fato produtivas.

As respostas a essas indagações não foram imediatas e nem conclusivas num primeiro momento; elas foram se revelando ao desenvolvimento deste trabalho promissor.

## O Centro de Ciências da UFJF

A Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) ocupa posição de liderança na área educacional, numa região do Estado de Minas Gerais que engloba a Zona da Mata, as Vertentes, o Sudeste e ainda o Oeste do Estado do Rio de Janeiro. Em consonância com a perspectiva de consolidação e expansão da vocação de ensino, extensão e pesquisa da UFJF, a renovação do ensino dos conteúdos científicos em uma abordagem multidisciplinar, muitas iniciativas vêm sendo dirigidas à extensão, no campo da educação, para a ciência e tecnologia.

Nesse sentido, e após grande esforço de profissionais interessados, numa verdadeira rede de ações que pudesse auxiliar a escola básica, principalmente no que diz respeito à formação continuada de professores de ciências e áreas afins, foi inaugurado em agosto de 2006 o Centro de Ciências da UFJF.

- O Centro de Ciências da UFJF apresenta uma concepção de ensino multidisciplinar e concentra atividades de educação científica e tecnológica, de formação inicial e continuada de professores, de pesquisa em educação não formal e de interação com escolas e espaços não formais de educação já existentes na Universidade.
- Várias atividades estão sendo desenvolvidas no Centro de Ciências da UFJF, e já é possível perceber a mudança de p postura, interesse e motivação pelas aplicações científicas e tecnológicas, que fazem com que estudantes e, principalmente professores, passem a discutir ciência como algo mais próximo de seu dia a dia.
- O processo contínuo de visitas das escolas, as atividades de observação astronômica, os experimentos de laboratório, além de palestras e exposições interativas, formam um conjunto de ações que envolvem os estudantes num clima científico agradável e desafiante.

Para professores do ensino fundamental e médio é oferecido o curso de formação continuada sobre astronomia, com conteúdo adequado para ser desenvolvido na sala de aula. O primeiro curso foi realizado de agosto a dezembro de 2007 e, em 2008, iniciou suas atividades em março, com previsão de término em outubro. Já neste ano com a utilização de um telescópio de alta resolução e de um planetário Inflável, adquiridos com recursos de projetos desenvolvidos por pesquisadores do Centro de Ciências.

Além disso, as disciplinas "Prática Escolar em Ciências Biológicas" e "Prática Escolar em Química" da Faculdade de Educação da UFJF utilizaram em suas aulas kits de experimentos, disponíveis no Centro de Ciências, para posteriormente em seus estágios supervisionados, aplicarem a metodologia

desenvolvida no curso, bem como incorporarem essa metodologia de ensino em suas futuras ações docentes profissionais.

## Buscando Um Referencial Teórico

Os Parâmetros Curriculares Nacionais brasileiros indicam que o grande desafio para a implantação de uma escola inclusiva é a situação dos docentes das classes regulares, que precisam ser capacitados de forma efetiva para adequar sua prática educacional à realidade caracterizada pela diversidade (Brasil, 1998).

A inclusão contempla três aspectos centrais. (a) A aceitação da pessoa portadora de deficiência no ambiente educacional; (b) A adequação do ambiente educacional às características de todos os seus participantes; (c) A adequação, mediante o fornecimento de condições, dos participantes do ambiente às características do mesmo. . Para (Sassaki apud Camargo, 2005) a inclusão constitui um processo bilateral no qual as pessoas portadoras de deficiências e elementos do seu ambiente social buscam, em parceria, equacionar problemas, decidir sobre soluções e efetivar a equiparação de oportunidades para todos. Em outras palavras, a inclusão escolar bem sucedida implica em aceitar r todos os alunos, independentemente de condições sensoriais, cognitivas, físicas, e requer sistemas educacionais organizados que ofereçam respostas adequadas às diversas características e necessidades (Carvalho apud Camargo, 2005).

Procuramos desenvolver no curso uma metodologia tomando como referencial teórico a teoria do psicólogo russo Vygotsky (1987), segundo a qual a aprendizagem é o processo pelo qual o indivíduo adquire informações, habilidades, atitudes, valores, etc., a partir de seu contato com a realidade, o meio ambiente e as pessoas em geral. É um processo que se diferencia das posturas inatistas e dos processos de maturação do organismo e das posturas empíricas que enfatizam a supremacia do meio no desenvolvimento.

Pela ênfase dada aos processos sócio-históricos na teoria Vygotskyana, a idéia de aprendizagem inclui a interdependência dos indivíduos envolvidos no processo. A concepção de que é o aprendizado quque possibilita o despertar de processos internos do indivíduo, liga o desenvolvimento da pessoa a sua relação com o ambiente sócio -cultural em que vive e reconhece que a situação do homem como organismo não desenvolve plenamente sem o suporte de outros indivíduos de sua espécie.

O conhecimento mítico acerca da deficiência visual assume de forma simultânea, interpretações extremas sobre as reais potencialidades das pessoas cegas ou com baixa visão. Nesta perspectiva ela é associada com infelicidade, invalidez, medo supersticioso e grande respeito. Paralelamente à idéia de invalidez, aparece a idéia de que nos portadores de deficiência visual se desenvolvem as forças místicas da alma, como um acesso à visão espiritual (Vygotsky, 1997). Graças a este conhecimentnto mítico, a cultura popular o define

como uma pessoa que possui visão interior dotada de conhecimento espiritual, não acessível a outras pessoas.

Este tipo de conhecimento acerca da deficiência visual baseia-se na substituição de órgãos do sentido, como no caso dos órgãos pares rins e pulmões, isto é, na ausência ou não funcionamento de um deles, o outro exerceria suas funções (Vygotsky, 1997). Ao contrário de tal concepção, nos cegos não existe o desenvolvimento supernormal das funções do tato e da audição. Fenômenos como o da agudeza tátil nos deficientes visuais, não surgem da compensação fisiológica direta da limitação visual, mas sim, de uma via indireta, muito complexa da compensação sócio-psicológica geral. Em outras palavras, o tato ou a audição nunca ensinarão o cego realmente a ver, portanto, conforme assinala Vygotsky (1997) é preciso compreender a substituição, não no sentido de que outros órgãos assumam diretamente as funções fisiológicas da vista, mas sim, no sentido da reorganização complexa de toda a atividade psíquica, provocada pela alteração da função visual e dirigida por meio da associação da memória e da atenção, ou seja, a criação de um novo tipo de equilíbrio do organismo em função do órgão afetado.

Vygotsky (1997) afirma que os cegos não percebem a luz da mesma maneira que os que enxergam com os olhos tapados a percebem, isto é, eles não sentem e nem experimentam diretamente que não têm visão, portanto, a capacidade para ver a luz tem um significado prático e pragmático para o cego e não um significado instintivo-orgânico, o que significa que eles sentem sua deficiência de um modo indireto, refletido unicamente nas conseqüências sociais.

Dessa forma, é fato que o desconhecimento de características, potencialidades, especificidades, inerentes a uma pessoa portadora de deficiência visual, constitui-se em um dos principais fatores causadores de dificuldade na perspectiva do ensino de Física. Os mitos e a idéia da substituição sensorial, verdadeiros paradigmas comportamentais e educacionais, ao constituírem-se como referenciais na compreensão do fenômeno da deficiência visual, produzem uma série de tabus que geram por sua vez, uma relação dialética entre distanciamento e desconhecimento, relação esta, que tende a ser estável, mas que pode ser r desestabilizada em contextos sociais como o da escola (C(Camargo, 2005).

De qualquer modo, acreditamos que o perfil sócio-histórico abordado pela teoria vygotyskiana pode se servir com razoável presteza ao propósito de levar os portadores de deficiência visual a se interessarem , a se motivarem, a buscarem também colaborarem com estratégias e metodologias que deverão subsidiar o ensino de Física e de ciências em geral.

## O Desenvolvimento do Trabalho

## A primeira experiência

Este trabalho teve seu início em maio de 2008. Foram grandes as dificuldades apresentadas e as formas para resolução foram desafiadoras e constantes.

A metodologia utilizada foi inicialmente de forma individualizada, com a participação de um esestudante ligado à Associação de Cegos . Este estudante foi escolhido de acordo com critérios estabelecidos em comum acordo entre representantes do Centro de Ciências e a Associação dos Cegos. A partir de então os bolsistas, supervisionados por um professor pesquisador iniciou o trabalho, inicialmente apenas com os conteúdos de física, com uma freqüência de dois dias por semana. O estudante chegava sozinho ao Centro e um bolsista o acompanhava desde a entrada até o laboratório ou sala onde a atividade daquele dia seria desenvolvida.

Aos poucos, o que percebemos foi certa dificuldade de assimilação da pessoa, que além de não demonstrar conhecimento anterior, necessário para o desenvolvimento do conteúdo a ser tratado, oferecia certa resistência à estratétégia utilizada, que não era de simples exposição do conteúdo, mas de discussão e interatividade, necessitando de uma relação bastante dinâmica entre os bolsistas instrutores e o estudante.

Num primeiro momento, pensamos em reforçar a parte matemática, mas uma grande surpresa se mostrou quando num exercício vimos uma operação matemática -2 + 2 = 4, o que reforçou nossa constatação inicial de pouca bagagem matemática do aluno. O resultado que deveria ser zero, teve como resposta o número 4, numa clara dificuldade mostrada pelo estudante quanto à utilização de de operação com número negativo. Depois desse fato pensamos em cancelar esse tipo de ensino para cegos, mas uma aluna nos procurou querendo ajuda. Compreendemos que tínhamos que fazer algo diferente.

## A primeira mudança

Ainda sem muitas idéias que parecessem inovadoras, no primeiro encontro com essa aluna fizemos uma espécie de entrevista, sendo a proximidade obtida essencial. Primeiramente ela revelou constrangimento por não ter muito domínio dos conteúdos. Nessa entrevista soubemos um pouco mais de sua história e dos seus reais interesses, que era realmente aprender o máximo possível do conteúdo de física do ensino médio, e colaborar conosco para que isso acontecesse, diminuindo assim nossos receios e aumentando sua confiança em trabalhar conosco.

Em seguida fomos ao laboratório e apresentamos um Kit experimental sobre o "ar quente sobe e o ar frio desce expansão e contração térmica do ar",

sendo incrível sua reação. Anteriormente não sabia o que ocorria com o aquecimento do ar, mas com o desenvolvimento do experimento auxiliado com a sensação tátil e grau de visão (7%) percebeu todo o conteúdo do experimento.

- O que mais chamou sua atenção foi quando colocamos uma lamparina acesa debaixo de uma ventoinha e esta começou a girar. Com o interesse que demonstrou, percebemos que se apenas falássemos que o ar quente sobe provavelmente ela esqueceria; mas com certeza não esqueceria que, colocando uma fonte de calor debaixo de uma ventoinha esta giraria, e com isso lembraria melhor de tal fenômeno ocorrer. Em vista deste fato, nos propomos a desenvolver um projeto experimental sem fugir da lógica matemática, na nossa concepção, necessária para um melhor trabalho com esses alunos.

Pensamos assim em aglutinar ações de acordo com a estrutura disponível no centro de Ciências da UFJF. Numa primeira fase organizamos nossas ações como se segue:

- 1º -um curso experimental utilizando principalmente kits de atividades experimentais que fazem menção a calor e seus desdobramentos, indo além para aqueles com maior acuidade visual;
- 2º -noções básicas de matemática, como operações básicas e notações relevantes;
- 3º -interação com brinquedos de física: aprender na prática alguns conteúdos apresentados na física;
- 4º -e ainda um espaço aberto para as outras áreas da ciência, como por exemplo, o "jardim dos sentidos", na biologia, e o laboratório de química, com experimentos que pudessem motivar os deficientes cada vez mais pelas aplicações científicas.

Tentamos passar para os alunos que nosso objetivo não é preparar para vestibulares ou outros concursos e sim desenvolver o lado crítico e cientifico e conseqüentemente formar cidadãos em potencial.

Logo no primeiro encontro nos deparamos com um problema a ser resolvido. Havia alunos com certo grau de visão e aqueles totalmente cegos. Então começamos a trabalhar com eles em horários diferentes.

## A mudança da primeira experiência

Começamos nosso trabalho com um dos alunos com cerca de 15% de visão. As experiências eram sobre a existência do ar, a expansão térmica do ar, o comportamento deste, e a pressão atmosférica. Num primeiro encontro demos a ele um balde com água, um copo e um pedaço de papel com a seguinte missão: colocar o papel dentro do copo e colocar o copo dentro do balde sem molhar o

papel. Depois dele refletir um pouco, na na maneira correta; a surpresa ainda veio na explicação do porquê, sem muita intervenção nossa; ele "provou"a existência do ar e começou a se indagar sobre conceitos de pressão, o que foi para nós grande surpresa. . Era notável a diferença no seu comportamento nas aulas teóricas, seguindo a linha na aula particular, para as aula práticas, quando seu interesse em querer saber qual seria o próximo experimento nos animava

Até então tudo estava muito fácil já que todos os experimentos que propusemos foram bem aceitos e a realização com esse aluno foi bem tranqüila; abordamos a resistência do ar e suas propriedades, pressão atmosférica em sólidos e em líquidos e princípios de hidrodinâmica, mas as reais dificuldades ainda se mostrariam.

Como havia alunos que não possuíam nenhum tipo de acuidade visual, e a princípio tentamos abordar os mesmos assuntos já trabalhados, alguns problemas surgiram. Não seria mais possível usar todos os kits disponíveis e com isso tivemos que correr atrás de novas estratégias para realização dos experimentos; tais experimentos deveriam ser mais simples de modo até a poderem ser feitos em casa. Fizemos assim os mesmos experimentos mencionados anteriormente.

Num dos experimentos relacionados com pressão, utilizamos uma garrafa com dois furos na vertical e a enchemos com água; o objetivo era discutir a razão de no furo de cima o alcance da água ser diferente do alcance do furo debaixo. Queríamos explorar a relação entre os conceitos de pressão e velocidade. Foi interessante como utilizando o tato eles percebiam a diferença dos alcances.

Para a investigação do conceito de pressão, os alunos foram levados para conhecerem a cama de prego, onde lançamos o desafio de quem deitaria nela. Ninguém se dispôs de inicio a deitar na cama. Com alguma insistência e mostrando que ninguém se machucaria alguns criaram coragem e deitaram, percebendo assim que seu peso se distribuía pelos pregos, ocasião em que foi explorada a relação matemática da pressão definida como a razão entre força a área.

A seguir trabalhamos em um conteúdo que se constituiu num grande desafio. Seria estudar ótica com pessoas que nada enxergavam. Um dos alunos relatou que em sua aula de ótica ele saía ía da sala, pois não poderia ver a formação de imagens e nem mesmo os espelhos e as lentes. Iniciamos nosso trabalho com a ótica primeiramente mostrando como são os espelhos utilizando colheres para explicar a diferença entre o espelho côncavo e convexo; no caso das lentes utilizamos isopor, pregos e barbante, para mostrar as trajetórias dos raios de incidência e reflexão, as posições dos focos, do centro de curvatura e a formação das imagens.

Percebemos o grande desafio do ensino com este tipo de aluno, mas por outro lado também vislumbramos como a investigação de métodos e estratégias adequadas podem ser importantes no desenvolvimento de tal aspecto didáticopedagógico.

## Considerações Finais

A inclusão de pessoas com necessidades especiais deve ser uma preocupação permanente da sociedade. O desenvolvimento deste trabalho contribuiu para despertar o interesse dos pesquisadores do Centro de Ciências da UFJF para uma questão bastante presente nas escolas. Aprender ciências parece constituir um obstáculo a mais para professores e estudantes no caso particular dos portadores de deficiência visual. A A sensação de impotência de quem quer ensinar, e a frustração daquele que tem sua capacidade de aprendizagem limitada pela falta da visão é algo que merece uma atenção diferenciada. Parece serem poucas as referências existentes para subsidiar pesquisas sobre essa questão, o que motivou ainda mais a realização desta investigação. Percebe-se claramente a necessidade de se procurar mais elementos que possam ancorar estratégias de ensino para essa questão. A nosso ver, as iniciativas de pesquisas a respeito do assunto merecem ser aglutinadas numa rede de troca de experiências e informações para se ter disponibilizada uma bibliografia a ser utilizada com propriedade nos espaços de ensino onde se faça necessário. O que se sugere com base nos resultados preliminares de nosso trabalho é que mais investigações dessa natureza sejam alvo de interesse de pesquisadores. Assim será possível dotar de melhores condições pedagógicas, psicológicas e de estratégias de tratamento do conteúdo aqueles que se encontram lidando diretatamente com essas pessoas.

## Referências

BRASIL. Ministério da Educação, Secretaria de Educação Média e Tecnológica. Parâmetros curriculares nacionais: ensino médio. Brasília: MEC 1998.

CAMARGO, E.P. (2005). O ensino de Física no contexto da deficiência visual: elaboração e condução de atividades de ensino de Física para alunos cegos e com baixa visão. Campinas, Tese de Doutorado em Educação, Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, SP, Brasil.

VYGOTSKY, L. S. Pensamento e Linguagem. São Paulo: Martins Fontes. 1987.

VYGOTSKY, Lev Semenovich. A Formação Social da Mente. 6. ed. São Paulo : Martins Fontes, 1997.

Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.