O GÊNERO HISTÓRICO PRIORIZADO EM TEXTOS DIDÁTICOS DE FÍSICA: CONTRIBUIÇÕES OU DISTORÇÕES PARA O ESTUDO DA NATUREZA DA LUZ
Ana Carolina Staub De Melo, Frederico Firmo De Souza Cruz
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XI
- Ano
- 2008
- Data
- 22/10/2008
- Linha de pesquisa
- Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## O GÊNERO HISTÓRICO PRIORIZADO EM TEXTOS DIDÁTICOS DE FÍSICA: CONTRIBUIÇÕES OU DISTORÇÕES PARA O ESTUDO DA NATUREZA DA LUZ
## GENDER HISTORY IN PHYSICAL DIDATICAL TEXTS: CONTRIBUTIONS OR DISTORTION FOR THE STUDY OF NATURE OF LIGHT
## Ana Carolina Staub de Melo 1 * , Frederico Firmo d de Souza Cruz 2
1 UFSC/Doutoranda d do Programa de Pós-Graduação em Educação Científica e Tecnológica , anacarolina2512@yahoo.com.br
2 UFSC/Departamento de Física/ / Programa de Pós-Graduação em Educação Científica e Tecnológica , Fred@fsc.ufsc.br
## Resumo
Neste artigo, analisa-a-se o conteúdo de História da Ciência, referente à natureza da luz, apresentado em três livros didáticos de Física do Ensino Médio. Nesta análise, buscamos evidenciar os objetivos da inserção histórica, em termos do tema delimitado; a extensão e o gênero da informação histórica; a possível conjugação dos conteúdos escolares com a exposição histórica; o papel da natureza da ciência junto ao contexto histórico explorado; e a presença ou não de atividades relacionadas ao conteúdo histórico. Como síntese da pesquisa pode-se enfatizar que o gênero histórico comum no contexto educativo e, de fato, presente entre os manuais escolares examinados, caracteriza-s-se por distorcer, simplificar, reconstruir e resignificar os fatos e episódios cicientíficos, em uma dimensão danosa, um expediente que pode repercutir em equívocos de distintas ordens. Propõe-s-se explorar as implicações, em termos conceituais e epistemológicos, decorrentes do viés histórico, referentes à natureza da luz, priorizado nos livros didáticos pesquisados.
Palavras -chave: História da Física; Livros Didáticos; Ensino de Física .
## Abstract
In this paper the History of Science content about the nature of light presented in three didactical books were analysed. . In this analysis we trtry to figure out the objective of insertions ,taking into account the historical topics touched, the deepnesss and reliability of the historical information, the role of the contents on the conceptual development of the text ,how it is related to the physicics treatment, the role of the contents on the unveiling of the ways of science, the presence or not of activities concerning the historical content . As a summary of the research may be to emphasize that the common gender history in the context educational and, in fact, among the school manuals examined, distorts, simplifies and reconstructs the scientific facts and episodes, in a dimension harmful, an expedient which can pass on misunderstandings of different orders. It is proposed to explore the implications , in
terms conceptual and epistemological, stemming from bias prioritized in history textbooks concerning the nature of light.
Keywords - History of Physics; Textbooks; Teaching of Physics .
## A História da Ciência e suas Diferentes Faces
Com freqüência, a literatura especializada expressa como pertinente a incursão da dimensão histórica e filosófica no ensino em geral, configurando um posicionamento relativamente consensual entre pesquisadores em Ensino de Ciências. Contudo, algumas vozes críticas expressam am oposição à articulação da História da Ciência (HC) em termos didáticos. Além disso, evidencia-s-se uma dissonância acentuada entre a defesa explícita no universo acadêmico das contribuições da HC e o controverso contexto da sala de aula, ainda bastante distante de articulações dessa natureza (PEREIRA; AMADOR, 2007; PAGLIARINI, 2007; WUO, 2000; MATTHEWS, 1995).
Os obstáculos à HC no ensino surgem com diferentes ênfases, no próprio contexto educativo, por parte dos professores que, em muitos casos, expõem: a) a) a possibilidade da HC desviar os estudantes dos temas que na verdade são "importantes", ou ainda, de potencializar o desenvolvimento de posições cépticas face aos saberes científicos ao relativizar este tipo de conhecimento; b) a ausência de material didático adequado, da mesma forma que a inexpressiva presença de abordagens com viés histórico nos manuais escolares; c) a atual configuração dos currículos escolares que convergem para o desafio "vestibular", um contexto que desencoraja intervenções pedagógicicas inovadoras; d) o "tempo insuficiente" para apresentar os conteúdos de HC, uma convicção que possibilita evidenciar a visão estanque, de natureza disciplinar, da HC em termos didáticos; e) a forte resistência dos estudantes e da própria escola em se contrapor e romper com o modelo ortodoxo, "tradicional" e pouco sensível à contextualização histórica, que se naturalizou na Educação; f) e por fim, a formação inicial e continuada de professores de ciências , gênese, em muitos casos, dessas inquietações educacionais, por se ver alheia a discussões dessa natureza a (PEREIRA; AMADOR, 2007; MARTINS, 2007; STAUB, 2005) .
Em contrapartida, os historiadores da ciência sugerem uma diligência constante face às lacunas e reinterpretações incorretas, de fato abusivas , da HC com fins didáticos. Em larga medida, tais "deformações" históricas podem se caracterizar ingênuas, conseqüência de desconhecimento por parte de professores e autores de manuais, contudo, podem também se configurar suficientemente conscientes, buscando transmitir mensagens ideológicas, em sintonia com a corrente historiográfica whiggismo que surge como ideal de um partido político britânico que acomodava a história aos seus próprios interesses. A extensão dessa perspectiva à HC exprime-se na primazia dedicada às teorias e episódios históricos pertinentes à ciência atual (B(BALDINATO; PORTO, 2007; PEREIRA; AMADOR, 2007; MARTINS, 2007; ALLCHIN, 2004; GIL-PÉREZ, 2001; MATTHEWS, 1995; WHITTAKER, 1979a; 1979b).
Contudo, descaracterizar a ciência e, em muitos casos, falsificar os episódios históricos , de modo a disfarçar r a história genuína , pode ser a imagem de uma realidade cuja matriz não é puramente ideológica mas, para além dos obstáculos j já explicitados, traço o das dificuldades inerentes à transposição dididática do saber
científico aos textos escolares (TEIXEIRA; KRAPAS, 2005) . Os obstáculos presentes na transposição didática exigem contínua "vigilância epistemológica" para que o conhecimento de referência não seja distorcido de tal modo que se torne irrecononhecível, sem domínios de correspondência, em termos educativos (CHEVALLARD, 1998, p.49) .
- A " descontextualização dogmática " " presente, freqüentemente, nos livros de física oculta a gênese e os problemas que inspiram e desafiam o trabalho científico, um movimento que se traduz por empobrecer o significado dos conceitos científicos e, em uma extensão mais ampla, reforçar uma visão epistemológica equivocada (ASTOLFI; DEVELAY, 2002, p.48). ).
- O presente trabalho busca evidenciar o gênero e a extensão histórica priorizada a na abordagem da natureza da luz em textos didáticos do ensino médio com o objetivo de analisar os possíveis impactos, contribuições ou distorções, da dimensão histórica no estudo deste tema. Nesse sentido, obter subsídios para, na continuidade do trabalho, delinear estratégias de ensino que articulem a natureza da luz ao seu contexto histórico, significando os conceitos científicos presentes neste estudo. Cabe enfatizar que, quando se faz referência à "natureza da luz" demarcamos como contexto da pesquisa a Óptica a e a Ondulatória . Torna -se pertinente esclarecer que não é objetivo da pesquisa localizar e detalhar r a esfera responsável por "dogmatizar" a ciência no sentido da transposição didática. No entanto, é fato que os autores de livros didáticos os não estão isentos às críticas e apresentam parcela significativa de responsabilidade sobre o que escrevem.
## Contexto da Pesquisa
Com base em uma detalhada apreciação crítica das coleções didáticas sugeridas pelo PNLD/2006 1 foi possível evidenciar uma incididência expressiva de extratos da HC , no contexto da natureza da luz , em dois manuais escolares particularmente: : "Curso de Física" (MÁXIMO; ALVARENGA, 2005) e "Física: ondas, óptica e termodinâmica" (GASPAR, 2001). Em virtude do destaque conferido ao livro didático o "Física" (GUIMARÃES; FONTE BOA, 2004) por MEDEIROS (2007), um personagem símbolo da História da Ciência, em especial da História da Física, no contexto brasileiro que, o referencia como um bom exemplo do uso criterioso da história da Física, considideramos pertinente, nestes termos, incluí-í-lo aos manuais analisados, embora não se apresente como um livro sugerido pelo PNLD/2006 . Logo, desenhou-s-se o contexto da pesquisa, caracterizada pela análise destes três manuais didáticos q que serão designados por m manual A, B e C, respectivamente .
Como critério de análise consideramos o contexto de ensino da natureza da luz, em termos históricos, priorizado nos manuais escolares, buscando evidenciar: os objetivos da inserção histórica, a, em termos do tema delimitado; o gênero/versão histórica priorizada (viés histórico é simplificado, distorcido, se assemelha ao whiggismo?); a extensão da informação histórica (detalhamento da história); ); a ênfase didática dispensada aos recortes históricos (a informação histórica é abordada junto à exposição dos conteúdos científicos ? ou lateralmente, como um "box" complementar?r?); a possível conjugação dos conteúdos escolares com a
exposição histórica; o papel da natureza da ciência junto ao contexto histórico explorado; e a presença ou não de atividades relacionadas ao conteúdo histórico .
## Análise do gênero e extensão histórica nos manuais escolares no contexto da natureza da luz
## Análise manual didático A
Os autores apresentam de forma sucinta a controvérsia científica da naturereza da luz , expondo o confronto entre o modelo de partículas , defendido por Newton , e o modelo ondulatório , de Huygens , em uma leitura complementar2 r2 , na seqüência do conteúdo "refração da luz". Neste contexto, enfatizam am fortemente os trabalhos de Newton ao detalhar a interpretação da teoria corpuscular à variação de velocidade da luz em diferentes materiais, explicitando que Newton concebia a velocidade da luz maior em meios mais densos em virtude de uma suposta atração sofrida pelo feixe de luz ao incidir em um meio de maior refringência, como a água, por exemplo. Logo, essa força de atração seria responsável pelo desvio na direção de propagação da luz .
Em seguida, , reforçam que esta característica contrasta com os pressupostos teóricos defendidos pela teoriria ondulatória quanto à velocidade da luz. Entretanto, não expressam, neste momento porque a velocidade da luz para a visão ondulatória deveria ser menor em meios mais densos, abordando o tema apenas no capítulo seguinte quando tratam ondas. Deste modo, há uma extensa lacuna na apresentação da controvérsia científica, que suprime a discussão do ponto de vista ondulatório, enfatizando apenas a dimensão corpuscular. Apesar do modelo ondulatório ser retomado em capítulo seguinte, apresenta-se em outro contexto , caracterizado por um propósito didático distinto, não o da narrativa de um episódio controverso na ciência, no sentido histórico, mas sim, para ilustrar a base do 'princípio de Huygens', analisado em termos geométricos e, em seguida, em um contexto atual, articulando a idéia de periodicidade . Contudo, um fato estranho é que o texto nem sequer menciona que o modelo mecânico explorado para a refração de uma onda corresponde a uma idealização genuína de Huygens.
A primazia dedicada a Newton deve-se possivelmente às suas contribuições a Mecânica e, por conseqüência, seu prestígio junto à comunidade científica, um julgamento freqüentemente presentes nos "arremedos históricos" disseminados nos textos didáticos , que buscam a história das sínteses racionais (MARTINS, 2006a; ZAZANETIC, 1989) como evidência de e uma ciência sem desvios ou falhas, a "ciência dos vencedores". O estilo e a extensão da narrativa valorada possibilita julgar como intrínseco ao texto um gênero histórico equivocado, resultado de uma reconstrução que não está isenta a distorções de natureza conceitual e epistemológica (BALDINATO; PORTO; 2007). ).
A A exposição histórica da natureza da luz, priorizando o modelo de Newton, parece bastante coerente com a visão de que a utilização didática da HC deve ser direcionada como mais um conteúdo a ser incorporado no Ensino de Física. O papel desta perspectiva parece resumir-r-se ao de mera ilustração, uma curiosidade sobre peculiaridades dos cientistas ou de um fato científico, uma distração ao estudante,
cansado do formalismo matemático da Física. Logo, os equívocos ou supressões parecem atenuados diante do propósito do texto. A história estritamente racional e vencedora, evidenciada pela ênfase a Newton, mesmo que no estudo da natureza da luz seu êxito não seja comparado ao da Mecânica (MARTINS, 2006a), justifica , com base nestes argumentos, a primazia dada a este cientista.
Defende -se, por outro lado, que a utilização da HC como estratégia didática parece articular conceitos, significar e contextualizar os conhec imentos estudados, cumprindo uma função mais crítica. Nestes termos, uma história puramente cronológica/factual não se adequaria para este fim .
Uma característica simplificada da natureza e construção da ciência apresentada pelos autores refere-se à idéia de experimento crucial , evidenciada quando o os autores encerram a discussão sobre a luz afirmando a experiência de Foucault (1850) como fato científico determinante para o abandono definitivo do modelo corpuscular newtoniano da luz , sugerindo que a controvérsia da luz estivesse concluída:
Em 1862, um acontecimento importante dava fim a esta disputa que vinha se prolongando por mais de 150 anos. Como foi mencionado no Tópico Especial do capítulo anterior, p.182, nesse ano o físico francês Foucault conseguiu medir a velocidade da luz na água, verificando que seu valor era menor do que no ar. A teoria corpuscular de Newton, conforme vimos, ao explicar a refração, previa exatamente o contrário. Desta maneira, as idéias de Newton sobre a natureza da luz tiveram de ser definitivamente abandonadas, pois elas levam a conclusões que estavam em desacordo com os resultados experimentais. (MÁXIMO; ALVARENGA; 2005, p. 226)
Desta forma, simplificam equivocadamente a história da física e distorcem conceitualmente a naturereza da luz, justamente porqrque não referenciam, mesmo brevemente que a história desta controvérsia científica continua, uma vez que a interpretação da a luz atualmente aceita não se assemelha ao modelo delineado por Huygens e Newton. Nesse sentido, torna-s-se inadequado um texto com este perfil conceitual e histórico, o, por não possibilitar uma compreensão crítica da natureza da luz, da mesma forma que uma discussão histórica significativa por, em virtude desta lacuna , trtransmititir r a idéia de que o contexto polêmico o da natureza da luz se encerraria, pacifica e linearmente, com o experimento de Foucault . A primazia conferida às idéias de Newton, mesmo que caracterize propósito do texto, conforme 3 sugere o título da leitura complementar3 q r3 , reforça estas deformações de conteúdo e contexto histórico.
Embora a interrupção dada à seqüência histórica, sugerindo o experimento de Foucault como experimento crucial na controvérsia da natureza da luz pareça sem propósito, evidenciou-se na obra "Origens Históricas da Física Moderna" (GIBERT, 1982, p.126), com perfil histórico específico e distinto do livro analisado com fins didáticos --, a presença dessa idéia:
A teoria da emissão [teoria corpuscular de Newton] não pode resistir à experiência crucial de Foucault. t. Nem o prestígio de de Newton lhe valeu. Teve
que ceder perante o resultado experimental, repetível, controlável, isto é, com sentido indiscutível. E é bom que assim seja em todo o conhecimento que se queira científico.
Em síntese, a narrativa histórica da natureza da luz articulada pelo texto didático examinado abriga distorções que comprometem a compreensão de conceitos físicos , como a dualidade onda -partícula da luz , e o polêmico contexto histórico da luz. De fato, as simplificações para fins didáticos, em especial o expediente adotado, merecem alerta. Os autores deveriam deixar o tema em aberto e não caracterizáálo de forma conclusiva, não incorrendo assim, em possíveis equívocos como a idéia de que a síntese racional da natureza da luz cabe à experiência de Foucault unicamente. Oculta-se, por exemplo, neste desenho 4 histórico, a retomada anterior do modelo ondulatório por Young 4 e Fresnel (ABRANTES, 1998) . A gênese e e o desenvolvimento da natureza da luz apresenta um caminho irregular, sinuoso, que dificilmente se reverenciariria a um fato científico estanque.
A análise deste livro didático permite enfatizar a necessidade de delinear objetivos claros ao tratar determinado episódio histórico ou conteúdos de ensino. Com que propósito os autores apresentam a natureza da luz em um texto complementar com primazia às idéias de Newton? A breve menção a a Huygens e a interrupção da discussão com o experimento de Foucault pode contribuir r para uma visão contextual e conceitual d da controvérsia da natureza da luz?
Apesar da apreciação crítica percebemos que há um avanço, ainda que de forma tímida, quanto ao tipo de história articulada a este texto complementar, pois, diverge do perfil usual de apresentar vida e obra dos cientistas, contudo, não explicita de forma transparente a controvérsia científica da natureza da luz .
## Análise manual didático B
A estratégia de abordagem dos elementos históricos , utilizada pelo autor , prioriza quadros, semelhantes às tiras de desenhos em quadrinhos , destacados do texto principal, apresentando de forma breve os episódios científicos. Este espaço também apresenta outras dimensões dos conhecimentos físicos estudados, como por exemplo, articulações ao cotidiano, às tecnologias, explora os sentidos de termos científicos e confronta -os com o senso comum, aprofunda a conceitos, deduções matemáticas, entre outros (BASSO, 2004) .
Embora consideramos válidas as tentativas da utilização didática da HC em livros escolares , porque acreditamos que textos dessa natureza desafiam pesquisas e a própria sala de aula, espaço que pode ou não referendar propostas desse gênero e, também, por exprimirem um esforço de mudança, ainda que gradativo, não se pode ocultar e disfarçar a insuficiência de tais abordagens históricas. A forma sintética e descolada do texto principal, verdadeiros arremedos históricos , lançam uma idéia de pouco valor ao texto , que será explorado se o tempo for suficiente, como uma curiosidade que distrai o espírito cansado do formalismo matemático
priorizado no ensino de física. Por outro lado , este autor apresenta a algumas menções relâmpago a fatos históricos no decorrer do texto base de cada capítulo. Dedicaremos nossa apreciação às referências históricas articuladas à natureza da luz nas duas formas que se apresentam os elementos históricos.
No espaço dispensado ao estudo das ondas, em um quadro destacado do texto base, apresenta as características essenciais das ondas e das partículas com o propósito de distinguir estes objetos científicos, sugerindo, contudo, que não correspondem a idéias opostas (GASPAR, 2001, p.32). Expõe, então, o contexto de inquietação na ciência em fins do século XIX e início do século XX , em virtude da interpretação dual da luz e e dos elétrons. Na seqüência, com o propósito de esclarecer a natureza eletromagnética da luz discute sucintamente te a idéia de éter (em um "box" específico) para evidenciar a resistência histórica em tratar ondas na ausência de um meio para propagação. Nestes termos, referencia a experiência de Michelson -Morley, contudo, delineando como gênese desse fato científico a busca de evidencias que corroborassem a existência/presença do éter, uma visão histórica equivocada, pois disfarça a história genuína. Embora , com relativa freqüência , os textos didáticos, de nível médio e universitário, veiculem essa idéia, a real fonte de de inspiração do interferômetro de Michelson-Morley (1887) era a de medir a velocidade da luz no éter (VILLANI, 1981) . Em contraposição, a versão da historiografia tradicional enfatiza "o resultado negativo da experiência", fazendo alusão à idéia de que se b buscava realmente corroborar ou refutar a existência do éter.
Esse tipo de história exemplifica claramente a versão whig g da história, por falsear e distorcer a HC em face da ciência atual. Logo, a perspectiva priorizada busca analisar o passado à luz do presente, em um sentido unívoco, marcado por deslocar os episódios científicos de seus contextos históricos ao interpretá-los em um sentido atual e, em muitos casos, deformando sua essência em virtude dessa "reconstrução racional" 5 . Em geral, a própria polêmica que se estendeu em virtude das conseqüências da experiência do interferômetro e que, desencadearam uma sucessão de tentativas na busca de invalidá -la não é apresentado nos livros didáticos, quando há referência histórica a este fato científico. Uma aparente "sutileza", "detalhe" histórico que, no entanto, deixa clara a resistência à mudança de rede conceitual de uma comunidade científica, ilustrando mais uma característica humana da ciência não revelada aos estudantes.
Uma análise extensa dessa coleção ão didática (PAGLIARINI, 2007, p.81) acentua que a marca expressiva do texto prioriza "as idéias aceitas atualmente e, no geral, ignora as contribuições de outros pesquisadores sobre o assunto explorado, centralizando em personagens principais " , em síntese, uma história tipicamente whig .
No que tange o estudo da refração o autor enfatiza que esse fenômeno nem sempre foi interpretado à luz do modelo ondulatório , estendendo o debate em um quadro destacado do texto base, caracterizando a discussão mais expressiva dos episódios históricos presentes na controvérsia científica da natureza da luz. Em contraste ao livro anteriormente analisado, este apresenta a controvérsia sem uma visão tendenciosa a uma das interpretações da natureza da luz, abordando na
perspectiva dos dois modelos a refração, exibindo inclusive figuras para ilustrar tais concepções.
Neste contexto , detalha que o modelo ondulatório previa uma velocidade menor para a luz em meios mais densos. Com pressupostos contrários, o modelo corpuscular previa que a velocidade da luz, ao passar para um meio mais denso, como do ar para a água, deveria aumentar. A hipótese corpuscular sugeria a existência de uma força atuando no sentido de acelerar as partículas de luz para dentro da água, aumentando, por conseguinte, sua velocidade. Ao contrário do manual didático A este autor não sugere a experiência de Foucault t como crucial , categórica , no sentido popperiano (POPPER, 1982), mas como pertinente para sustentar a hipótese e ondulatória, sem depreciar outras contribuições que fortaleceram esse modelo da natureza da luz , em oposição à perspectiva corpuscular.
Como é possível evidenciar, as informações históricas apresentam-s-se mais timidamente em alguns casos, em outros com um detalhamento maior, contudo sempre através de breves referências colocadas ao longo do texto, abordada em um quadro estanque que, embora se articule ao texto central por um l link, continua como um adereço, meramente. Essa estratégia de uso da HC não favorece uma abordagem significativa dessa dimensão da ciência , justamente porque interrompe o texto estudado e, por isso, muitas vezes é esquecida pelo professor e pelo estudante , que encaram esse tipo de abordagem como mais figurativa, uma curiosidade e, não como uma informação realmente pertinente que contribua para contextualizar e significar o tema de estudo. Além disso, o produto final da ciência ganha destaque nos livros didáticos. Quando se faz referência à HC, o estilo mitificado dessas descrições ilustram uma face da ciência que não apresenta uma interlocução sólida com os conteúdos estudados . De um lado, a linha contínua, que segue o curso cronológico de fatos científicos "vencedores", "realmente" pertinente aos estudantes . Do outro, um pouco da história, em geral caricatural, para divertir.
## Análise manual didático C
O livro C não foi selecionado pelo PNLD, contudo, como se caracteriza por um texto diferenciado (MARTINS, 2007) consideramos pertinente incluí-í-lo em nossa apreciação crítica , por apresentar de forma expressiva elementos da HC.
Em oposição à estratégia de abordagem priorizada nos demais textos didáticos, que apresentam a HC em "arremedos" dissociados do texto base, o referido livro articula a HC ao longo da apresentação dos conteúdos ordinários, com o objetivo de contextualizar e conduzir as discussões. Essa característica pode ser evidenciada no tratamento conferido ao tema natureza da luz por explorar os principais fatos científicos presentes nesta controvérsia científica junto ao desenvolvimento do texto principal, em uma perspectiva que diverge da idéia "anedótica", que se esgota em um quadro ilustrativo estanque, usualmente presente em termos didáticos. O contexto histórico da natureza da luz articula -se ao estudo das ondas , explicitado no terceiro volume da coleção 6 , por contraste a seqüência didática com freqüência adotada pelos livros texto que abordam a ciência ondulatória junto à Óptica e à Termologia no segundo volume. Nestes termos, os
autores discorrem sobre uma visão histórica da luz z em uma seção específica, na seqüência do estudo das ondas sonoras .
A dimensão histórica ilustrada pelo autor confere primazia ao contexto científico do século XVII com o confronto dos modelos de Newton e Huygens explicitando com detalhes, quando trata a refração da luz, a contradição presente entre as duas teorias: para a ondulatória o desvio deveria ser acompanhado de uma diminuição na velocidade da luz, quando por exemplo, passa do ar para água, enquanto para a teoria corpuscular, deveria ocorrer o contrário. Os autores expõem, seguindo uma seqüência cronológica dos fatos científicos mais expressivos para o delineamento da interpretação atual da luz. As contribuições de Young e Fresnel no início do século XIX com as experiências de interferência e difração que evidenciam as características tipicamente ondulatórias da luz. Articulados a isso as medidas da velocidade da luz no ar e na água por Fizeau e Foucault, respectivamente, contribuem para a consolidação da interpretação ondulatória. A idéia de que a gênese da ciência está em um problema é ililustrada pelos autores que enfatizam a busca dos cientistas por uma imagem mais clara sobre o que é a luz. Os trabalhos de Maxwell que conduzem à natureza eletromagnética da luz são destacados.
É possível destacar que, em sentido oposto aos manuais escolares examinados anteriormente, não foram encontradas incorreções significativas na informação histórica disponibilizada, fundamentalmente por expor a polêmica em termos da natureza da luz sem ênfases a personagens "geniais" ou a experimentos "cruciais", comum no tratamento conferido a Newton e a experiência de Foucault e Fizeau, respectivamente, uma característica que se expressa pela simetria no espaço dedicado às discussões do modelo da luz de Newton e Huygens e pela referência, mesmo que tímida, às contribuições de Young e Fresnel na estruturação do modelo ondulatório da luz. O fato de não encerrar a polêmica deste tema sugerindo um experimento "crucis" que, além de interromper a história, interpretando-a como acabada, também induz facilmente à visão individualista do trabalho científico, exprime o olhar atento dos autores à perspectiva histórica delineada, embora a ausência dos detalhes relativos aos trabalhos de Young e Fresnel, personagens apenas citados no texto, simplifique a história.
Por outro lado, a inexistência de um esclarecimento das idéias da época, das "imagens de natureza" presentes no modelo de Newton e Huygens conduz à visão de que suas idéias se encerram em si mesmas, e por isso, não contemplam um "contexto de referência" que, neste caso, s se caracterizava pelo mecanicismo.
## Considerações finais
A apreciação crítica dos livros didáticos buscou ilustrar r as contribuições ou distorções da abordagem histórica no contexto da natureza da luz e suas possíveis repercussões no ensino deste tema. . Com base nisso, foi possível l delinear um amplo espectro das características presentes nas referências históricas exploradas no contexto de pesquisa demarcado .
Uma característica pertinente, evidenciada na análise, tange a ausência de referências às fontes bibibliográficas que contribuíram para descrever r os enxertos históricos da natureza da luz. Entre os livros didáticos examinados, os manuais A e B dispõe de uma extensa lista bibliográfica relacionada à HC, contudo, não é possível precisar a real incursão des sas fontes nas narrativas, justamente porque não há referência junto à exposição histórica delineada para a natureza da luz. Por
outro lado, o manual C simplesmente oculta as fontes de pesquisa, a julgar pela inexistência de bibliografias no livro.
No que e se refere à ênfase didática dispensada à abordagem histórica da natureza da luz foi possível sinalizar dois estilos distintos: de natureza essencial/básico ou de natureza complementar. Os manuais A e B apresentam a dimensão histórica da ciência com a função didática "complementar", em enxertos estanques, prioritariamente, à margem da exposição dos conteúdos habitualmente considerados "essenciais". O manual didático C prioriza como estratégia para abordagem das informações históricas a exposição junto ao texto principal, um estilo que destoa do perfil freqüentemente dedicado às narrativas históricas em livros didáticos . Nestes termos, cabe destacar que a a inexpressiva interlocução entre os trechos históricos e os conteúdos de ensino representa um forte obstáculo à real incursão de discussões históricas nas aulas de física, além disso, compromete a possível eficácia, em termos didáticos, da História da Ciência na Educação em Ciências .
Um traço comum presente nos três livros didáticos analisados, que pode se configurar revelador do real papel das informações históricas veiculadas, refere-se à ausência de propostas de atividades que envolvam a HC. Característica que parece sugerir, em princípio, a falta de clareza quanto aos objetivos didáticos que se busca com a História da Ciência no contexto educativo, em particular no Ensino de Física. A dimensão histórica priorizada nos manuais escolares propõe possibilitar uma imagem mais crítica da natureza da ciência? Pretendem expor os episódios científicos em uma perspectiva informativa, em contrapartida à idéia formativa? Buscam clarificar os conceitos científicos?
Além disso, o gênero e a extensão histórica da natureza da luz presentes nos livros didáticos remetem a questões mais específicas da história da natureza da luz. O gênero histórico comum no contexto educativo e, de fato, presente entre os manuais escolares examinados, quque distorce, simplifica, resignifica e reconstrói os fatos e episódios científicos pode repercutir em equívocos de distintas ordens. No exemplo na natureza da luz uma apreciação atemporal das contribuições de Huygens e Newton pode conduzir à idéia que esses cientistas são precursores da interpretação atual da luz , um equívoco de ordem conceitual . Por outro lado, esesta visão histórica imprime, nenecessariamente, uma imagem cumulativa da evolução histórica do conhecimento que, pressupõe a visão de que as teorias somam-s-se umas às outras sem respeitar os distintos contextos em que têm origem, um equívoco de ordem epistemológica que incide sobre a natureza da ciência (SILVA, 2006) .
Evidentemente, se tem clareza que uma versão histórica que articule as inúmeras faces da ciência é intangível, assim, torna-se uma defesa necessária, para não dizer forçosa, propor estudos de caso para a história da ciência no contexto educativo, contudo, em hipótese alguma, dissociada dos conteúdos científicos, como em breves referências, para não fadar a dimensão histórica ao esquecimento. Delineada, nestes termos, com o objetivo de clarificar os problemas-gênese da ciência, retratar as facetas das controvérsias científicas para, além de propor a ciência como uma atividade humana, como um processo histórico sutil, e em muitos contextos irracional à luz dos positivistas, apresentar r a HC de modo a contribuir, fundamentalmente, para o estudo dos conceitos científicos, facilitados por uma
abordagem contextual e significativa para os estudantes, alheia aos traços insípidos de uma ciência tediosamente racional.
## Referências s Bibliográficas
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