Uma comparação entre as Propriedades Gerais da Matéria nos livros didáticos de Física e livros didáticos de Ciências: o caso da impenetrabilidade
Luciani Bueno Tavares, Cristiano Rodrigues De Mattos, Roberto Bovo Nicioli Junior
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVIII
- Ano
- 2009
- Data
- 30/01/2009
- Linha de pesquisa
- História, Filosofia E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## Uma comparação entre as Propriedades Gerais da Matéria nos livros didáticos de Física e livros didáticos d de Ciências: o caso da impenetrabilidade
Luciani Bueno Tavares 1 Roberto Bovo Nicioli Junior 1 Cristiano Rodrigues Mattos 1
1 Universidade de São Paulo
## RESESUMO
Em épocas passadas e atualmente o livro didático vem sendo uma importante ferramenta na sala de aula. Principal suporte dos professores, o conteúdo presente nos livros didáticos, às vezes, são transmitidos pelos professores quase que fielmente como está escrito nos livros. Pesquisadores mostram que devido às varias funções que os livros podem assumir, as pesquisas sobre o assunto tornam -se complexas e podem abranger diversas vertentes, sendo uma delas sobre o conteúdo dos livros. Em nosso trabalho eststamos interessados no no tópico das Propriedades Gerais da Matéria nos livros de Física do início do século XX e nos livros de Ciências das décadas de 70, 80 e 90. Temos como objetivo fazer uma comparação e análise desse tópico entre os livros dos diferentes períodos. Para isso analisamos sua ua estrutura nos livros , mais especificamente a a impenetrabilidade. Partimos da idéia de Gaspar e Mattos (2002) sobre uma ma "ciência do livro didático" na qual sugere-se uma dissociação entre a ciência produzida e a ciência transmitida, e que pode ser detectada quando se analisa um conteúdo ultrapassado, mas ainda presente como as Propriedades Gerais da Matéria. Isso mostra que apesar da ciência evoluir, os livros didáticos ainda apresentam determinados conteúdos , evidenciando umuma 'vida própria escolar". Considerando o livro como uma ferramenta fundamental na sala de aula, acreditamos que a análise de seu conteúdo apresenta resultados próximos da vivência escolar. Através de exemplos mostraremos que muito pouco se mudou na forma como é apresentada a impenetrabilidade mesmo para uma diferença de períodos de 80 anos.
## ININTRODUÇÃO
Levandoose em consideração que o livro didático é um dos instrumentos de maior influência na educação escolar, a escolha em estudar este instrumento se deve ao fato do livro ser o mediador preferencial nas interações discursivas realizadas em sala de aula de Ciência (BITTENCOURT 2004) , o que enfatizou a opção pelo tema , bem como a discussão de alguns conceitos presente nos livros. Os resultados são de trabalhos s de final de curso e mestrado , bem como um paralelo com outros trabalhos já realizados sobre o assunto.
No Brasil e no exterior as pesquisas sobre o livro didático têm-m-se multiplicado nas últimas décadas com diversas abordagens e enfoques, que discutiremos os mais detalhadamente durante este artigo. Este crescimento explica-se evidentemente por seu caráter simbólico, associado fortemente à vida escolar, seja por ser objeto cultural mais evidente do material didático associado, seja por ser o guia mandatário do do professor de ciências. Segundo o Banco Mundial, o livro didático está em quarto lugar em importância do processo de aprendizagem dos estudantes e considera mais importante que o conhecimento, a experiência e o salário do professor (MATTOS et al. l. 2002), o que evidencia que o estudo do conteúdo no o livro didático é uma forma de compreender o ensino de ciências nos dias de hoje .
No que se refere à área de Física, existem evidências que os livros didáticos têm reforçado conteúdos que se mantêm desde o século XIXIX até os dias atuais. Visto que, as novas idéias da Física surgidas no início do século XX só começaram a aparecer em livros didáticos de muitos países nas últimas décadas do século passado. No Brasil, até hoje, algumas destas idéias estão ausentes de quase a totalidade dos textos didáticos de física para o ensino fundamental e médio e, por conseqüência, da sala de aula. Há fortes evidências de que os conteúdos trabalhados em sala de aula originam-m-se predominantemente dos conteúdos apresentados nos livros didáticos (MATTOS et. al. 2002).
A seleção de conteúdos e sua relação com a ciência contemporânea à época em que o livro é produzido é uma das formas de se revelar como evolui no tempo o tratamento de certos conteúdos de Física. Gaspar e Mattos (2002) propopõem a necessidade de se considerar uma "ciência do livro didático". Estes autores partem da idéia de que existe uma dissociação entre a ciência produzida e a ciência transmitida, sendo que esta pode adquirir vida própria independentemente uma da outra. Para os autores uma forma de obter indicações da validade desta hipótese, é o estudo de um conteúdo ultrapassado, mas ainda a em vigor, na maioria dos livros didáticos de Ciências do ensino fundamental: as "propriedades gerais da matéria". Neste mesmo trabalho os autores concluem, a partir de um questionário aplicado com professores do ensino fundamental e médio, que a crença neste conteúdo pelos professores é quase absoluta. Tendo como ponto de partida a hipótese da existência da " ciência do livro didático" o" , ananalisaremos neste artigo como modificou a abordagem dispensada ao conteúdo específico de "Propriedades Gerais da Matéria" em m livros didáticos de Física e de Ciências.
## OBJETIVO E REFERENCIAL TEÓRICO
Os conceitos das Propriedades Gerais da Matéria, de um modo geral, são o explicitadodos nos livros de Física do início do século XX até a década de sessenta, e também m nos livros didáticos de ciências brasileiros a partir da década de 1970. Foi constatado que nas décadas s de 60 e 70 houve uma transferência das Proprie dades Gerais da Matéria dos livros de Física para os livros de Ciências que, inclusive, apresenta traços até hoje (NICIOLI & MATTOS 2005). Faremos aqui i uma comparação entre o tratamento dado a este tópico o nos livros didáticos de Física do início do século XX e os livros de ciências das décadas de 70, 80 e 90. Tendo em vista exemplificar essa comparação citaremos a abordagem da impenetrabilidade nos livros didáticos mostrando as permanências e mudanças nesse conteúdo. Fazendo o este recorte procuraremos responder à questão:o:
Quais as modificações ocorridas na estrutura das Propriedades Gerais da Matéria e, em especial, l, a abordagem da impenetrabilidade , na transferência do conteúdo dos livros de Física do início do século XX X para os livros de Ciências das décadas de 70, 80 e 90?
Para explorar r essa questão utilizamos como referencial teórico Alain Choppin (2004), estudioso dos livros didáticos e de sua história a mais de 30 anos. Para o autor este ramo de pesquisa defronta-se com uma série de dificuldades, entre elas: a própria definição do objeto, o caráter recente do campo de pesquisa, a inflação de publicações que se dedicam aos livros didáticos, sem que haja um esgotamento de produções e a barreira da língua que limita seu alcance, embora revistas especializadadas forneçam publicações em inglês, o que não substitui a leitura do original. Mas ao mesmo tempo afirma que a abundância das atividades científicas deve -se a complexidade do objeto "livro didático", a multiplicidade de suas funções, a coexistência de outros os suportes e a diversidade de agentes que ele envolve.
Os livros podem assumir quatro funções essenciais (CHOPPIN 2004), que variam consideravelmente segundo a época, o ambiente sociocultural, os níveis de ensino, as formas e métodos de utilização. o. Entre elas estão o a F Função referencialna qual se trata o livro didático como a fiel tradução do programa, constituindo-se de um suporte dos conteúdos educativos, depositário dos conhecimentos, técnica ou habilidades, ou seja, um manual; l; a Função instrumental na qual o o livro serve para a prática de métodos de aprendizagem, propondo exercícios ou atividades que visem, por exemplo, a facilitar a memorização dos conhecimentos, métodos de análises ou de resolução de problemas; a Função ideológica em que afirma o livro o didático como um dos vetores essenciais da língua, da cultura e dos valores das classes dirigentes, sendo um instrumento privilegiado de construção de identidade ; a F Função documentalonde o o livro didático pode fornecer um conjunto de documentos, textuais ou icônicos que propiciem o desenvolvimento do espírito crítico do aluno. Assim, as pesquisas científicas sobre livros didáticos fazem parte da multiplicidade de abordagens possíveis, consistindo-se essencialmente em artigos isolados o que dificulta abarcá-la em seu conjunto, apesar disso Choppin (2004) arrisca duas vertentes de pesquisa. A primeira, aquelas que consideram o livro didático como um objeto físico, ou seja, como produto fabricado, comercializado e distribuído concebido como utensílio de consumo em determinado contexto. E a segunda, aquelas que consideram o livro didático como um documento histórico igual a qualquer outro no qual l analisam o conteúdo em busca de informações estranhas a ele mesmo, ou as que só se interessam pelo conteúdo ensinado por meio do livro didático.
Neste trabalho estamos interessados na segunda vertente. Transformando o livro em documento, ele passa a ser parte da investigação, sendo objeto e fonte de estudo (BITTENCOURT, 1997). Para o caso das ciências há uma tendência em denotar o caráter ideológico implícito pelas necessidades apontadas no papel da formação de gerações preparadas para o mundo tecnológico e, por vezes, destaca as funções profissionais e pragmáticas das disciplinas das ciências da natureza, como Física, Quíuímica e e Biologia (BITTENCOURT, 2003). Muitas vezes os livros didáticos seguem essas tendências refletindo em seu conteúdo as necessidades impostas pelas necessidades do cenário histórico em que está inserido.
## METODOLOGIA
Para o levantamento dos livros didáticos que analisamos foi realizada uma pesquisa no Banco de Dados LIVRES - Livros Escolares Brasileiros (1810 - 2007) 1 - que possui em seu cadastro cerca de 10000 livros didáticos de diversas bibliotecas, inclusive da Biblioteca do Livro Didático da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (BLD-FEUSP). O O Banco de Dados LIVRES tem como principal objetivo: referenciar o maior número possível de livros didáticos a partir de 1810, favorecer pesquisas diversas sobre livros didáticos, indicar lugares de conservação e estado das obras, favorecer a coleta de outras fontes relativas aos livros didáticos, desenvolver fontes de pesquisa via internet em colaboração com instituições de outros países.
Apesar da amostra disponível na biblioteca do livro didático já ser significativa, fizemos um levantamento de livros didáticos nas bibliotecas da Universidade de São Paulo da Escola Politécnica (Biblioteca Paulo Bourroul) e do Instituto de Física. Os critérios usados para leitura e comparação dos tratamentos dados a o conteúdo será a observação da abrangência do tema no livro, a extensão do tratamento do conteúdo, se há existência de exercícios e exexemplos associados ao conteúdo. Além disso, consideramos em alguns casos o número de edições e a popularidade dos autores. Para os livros didáticos de Física do inicio do século XX selecionamos os seguintes livros:
Tabela 1: Lista de livros didáticos de Física utilizados para amostra.
Para a amostra dos livros de ciências foi encontrado um vasto número de exemplares disponíveis no acervo da BLD-FEUSP, ocorrendo em alguns casos várias edições de um mesmo autor, como no caso dos livros didáticos de Carlos Barros. Levando -se em consideração este fator, optamos por restringir nossa amostrtra em três exemplares para as décadas s de 1970, 1980 e 1990. Para esta amostragem tomamos como critérios de seleção, o número de edições, quantidade de autores, a a abrangência do tema no livro, a extensão do tratamento do conteúdo, se há existência de exercícícios e exemplos associados ao conteúdo, visto que nossa intenção foi de comparar estes livros didáticos de Ciências com livros didáticos de Física do início do século XX. Sendo assim, abaixo temos a tabela 2 que contém os livros didáticos de Ciências utilizados na análise:
## Livros Didáticos de Ciências
Tabela 2: Lista de livros didáticos de Ciências utilizados para amostra.
## Análise e Discussão dos Resultados
## 1. Análise dos Livros Didáticos
## 1a. Livros didáticos de Física do início do século XX
Em relação a nossa amostra dos livros de Física, as propriedades gerais da matéria são tratadas, em geral, no primeiro capítulo dos livros denominado "Noções Preliminares". Neste mesmo capítulo introdutório os autores comentam sobre constituição dos cor pos, instrumentos de medida de precisão e estados da matéria, não necessariamente nesta ordem. D De uma forma geral são citadas as seguintes propriedades: extensão, impenetrabilidade, divisibilidade, porosidade, elasticidade, compressibilidade, dilatabilidade, mobilidade e inércia. Muitos conceitos são explicados da mesma forma em todos os livros. Citamos como exemplo, a definição usada por Guedes (1868) da impenetrabilidade no livro "Curso de Physica Elementar" .
"A propriedade em virtude da qual dois corpos não podem simultaneamente ocupar o mesmo logar tem o nome de impenetrabilidade. Esta propriedade é geral, porque pertence a todos os corpos, e também essencial, porque seria absurdo admitir a existência de um corpo que podesse occupar o logar de outro, sem m que este fosse deslocado" (Guedes, 1868, p. 14).
Apesar da explicação teórica ser parecida entre os livros, há muita diferença entre os exemplos citados sobre o conteúdo nos diferentes livros. Por exemplo , Guedes (1868) explica que "Mergulhando n'água ou n'outro liquido um vaso de vidro com a boca para baixo, observa-a-se que o vaso não se enche de líquido, por mais que se profunde, porque o ar que o vaso contém não pode ser deslocado, em virtude da impenetrabilidade. Do mesmo modo collocando um funil na bôca estreita do frasco, tapando com massa a comunicação entre a superfície externa do funil e a bôca do frasco, e vertendo no funil um líquido, vê -se que este não pôde entrar no frasco porque o ar que lá existe lhe impede o accesso" (p.14), O livro não apresenta nenhuma ilustração que demonstre os exemplos citados pelo autor.
Nobre (1904) ) cita os os exemplos do prego cravado na madeira e o vapor d' água que se apresenta na atmosfera: "Um prego cravado na madeira não penetra - toma o lugar das fibras lenhosas que afasta. O mesmo acontece ao vapor d'água espalhado na atmosfera, ou aos corpos dissolvidos nos líquidos: as moléculas dos diversos corpos não cessam de ocupar a porção do espaço que pertence a cada uma delas" (N(Nobre, 1904, p.6)6). Diferentemente de Guedes (1(1868), verificamos a ocorrência de um número menor de exemplos.
No livro "Lições de Física" de Gouveia (1907), o autor define impenetrabilidade de uma forma generalizada: "Assim se chama a propriedade que tem a matéria de não poder ocupar, simultaneamente com outra, o mesmo lugar no espaço. Em todos os casos em que parece haver excepção a esse princípio, a verificação demonstra a generalidade desta propriedade da matéria." (Gouveia, 1907, p. 7). Gouveia (1907) não apresenta nenhum exemplo sobre impenetrabilidade e nenhuma ililustração no livro do autor.
No livro de Menezes (1912), o autor primeiramente apresenta alguns exemplos sobre impenetrabilidade antes de definir a propriedade. Para isso, introduz um texto explicativo incluindo a figura 1 para ra maior entendimento do leitor: "Quando dizemos que um vaso aberto está vazio, não
exprimimos a verdade. Vazio estaria o vaso que nada tivesse dentro e todo o vaso aberto contém sempre ar, porque este penetra em toda a parte. Mas lanç amos água dentro de um copo, esta pepenetra ali sem encontrar resistência. Então o ar fica ali no mesmo lugar que a água? Não" (Menezes, 1912, p.16).
Figura 1: Figura ilustrativa do livro Noções de Physica Elementar (Menezes, 1912).
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O autor apresenta a figura 1 após introduzuzir o texto acima descrito, e novamente segue com a citação de exemplos: "Se collocarmos azeite em um copo e deitarmos, água por cima, esta que é mais pesada que o azeite, vai ao fundo e elle vai para cima" (p.16). A seguir, Menezes cita o exemplo ilustrado na figura 1: "... Tomemos um copopo, viremo-lo de bocca para baixo o introduzamo -lo em um vaso com água de sorte que o ar não possa sair, veremos essa entrar ali um pouco e depois parar. Podemos assim levar o copo até o fundo do vaso, a água não penetrará mais. Por que entrou alguma água e entretanto não entrou bastante para encher o copo? Porque a primeira que entrou apertou, comprimiu o gaz, que estava dentro do copo, mas o ar depois de apertado, de comprimido, resistiu e não deixou entrar mais água, de sorte que no lugar em que se acha a água não há ar e onde a água não pode chegar está cheio de ar" (Menezes, 1912, p.17).
Finalizando temos o livro de Dias (1920), "C"Curso Elementar de Physica", que traz apenas a definição de impenetrabilidade: "Dois ou mais s corpos não podem ocupar, ao mesmo tempo, o mesmo lugar no espaço" (Dias, 1920, p. 9). Não constam m exemplos nem ilustrações da propriedade.
## 1b. Livros didáticos de ciências das décadas de 70, 80 e 90
Em relação aos livros didáticos de Ciências, as Propriedadades Gerais da Matéria são apresentadas, em geral, no primeiro capítulo do conteúdo de Química, sendo abordados os seguintes conceitos: massa, extensão, impenetrabilidade, inércia, divisibilidade, peso (em um exemplar), compressibilidade, descontinuidade ou porosidade, elasticidade, mas não necessariamente nesta ordem. No que diz respeito à força peso, poucos livros a apresentam como Propriedade Geral da Matéria , a maioria deles deixa claro que massa e peso são conceitos diferentes, sendo que a explicação quque prevalece é a seguinte: "peso é a força com que um corpo é atraído pela Terra" (Gomes et al. 1995, p.12), ou seja, não se trata de uma propriedade geral da matéria.
Sobre a impenetrabilidade destacamos a citação no livro de Duarte (1973) "C"Ciências Físic as e Biológicas": "Duas porções de matéria não podem, ao mesmo tempo, ocupar o mesmo lugar no espaço" (Duarte, 1973, p. 18). Mais uma vez a diferença está nos exemplos. Por exemplo , Duarte (1973) explica : "Colocando-se açúcar na água, esta aumenta de volumeme; pregando-o-se um prego numa tábua, este ao penetrar separa as fibras da madeira" (Duarte, 1973, p.18). Não foi constatado no livro nenhum exercício ou ilustração que demonstra a propriedade.
Sartori et al. (1974) apresentam as Propriedades Gerais da Matéria a partir de uma experiência em que são utilizados tubo de ensaio e um comprimido efervescente, sendo estes acoplados a uma balança de precisão. Primeiro o livro faz uma descrição do procedimento a ser realizado e, em seguida, propõe ao aluno algumas questões para investigação. Entre os procedimentos estão a pesagem do tubo de ensaio, juntamente com água e o comprimido. Posteriormente o aluno deve acrescentar o comprimido dentro do tubo de ensaio, tampando-o com uma rolha atravessada por um fio plástico, em seguida esta extremidade livre deve ser colocada no interior de uma proveta graduada cheia de água e emborcada num recipiente com água. Sendo assim o comprimido se dissolverá, produzindo bolhas de gás carbônico o (figura 2). Após esta descrição o livro traz perguntas de investigações em que questiona o aluno sobre onde o gás carbônico foi armazenado, qual o espaço que este ocupa, bem como qual seu peso. Não constatamos exercícios sobre o assunto.
Figura 2: experiência utilizada por Sartrtori et al, 1974, para introduzir os conceitos de impenetrabilidade.
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No livro "Física e Química", de Moretti et al. (1979), as Propriedades Gerais da Matéria são apresentadas no oitavo capítulo, sendo que este começa com a seguinte pergunta: "De que é feita esta máquina?" (MORETTI et al. 1979, p.63). Os autores fazem uma descrição dos componentes que formam um automóvel, fazendo comparações entre as partes do mesmo, com o intuito de fazer com que o estudante perceba que as partes são formadas de materiais didiferentes. Sendo assim, o texto introduz os conceitos das Propriedades Gerais da Matéria através das semelhanças da estrutura da matéria entre as partes do carro, como por exemplo, um pára-a-lama e um pneu. Sobre a impenetrabilidade o o texto propõe que se m mergulhe um prego em um copo cheio de água para que se tire dúvida se dois corpos ocupam o mesmo lugar no espaço. A seguir, o livro cita outro exemplo para explicar a impenetrabilidade. Desta vez, a pergunta refere-e-se ao ao exemplo do prego fincado na madeira, seguido da pergunta: "O pedaço de madeira ocupa mais espaço quando fincamos um prego nele?" (MORETTI et al. 1979, p.65) . Em seguida o livro faz a seguinte afirmação: "Quando fincamos um prego numa tábua, as fibras da madeira se afastam. Assim, o espaço ocupapado pelo prego deixa de ser ocupado pela madeira: onde o prego se encontra não existe madeira. Podemos notar esse fato quando retiramos o prego, pois fica um buraco na tábua" (MORETTI et al. 1979, p.65).
Barros (1986), em seu livro "Química e Física", introduz o conceito de impenetrabilidade através do mesmo exemplo do prego mergulhado em um copo d'água, porém com sal. Não constatamos ilustrações explicativas sobre o assunto. Assim como no livro de Moretti (1979), Barros finaliza com o exemplo do prego na mamadeira. No final do capítulo, temos o tópico "Questões para fixação", em que consta uma pergunta sobre impenetrabilidade: "Por que não podemos colocar, ao mesmo tempo, dois corpos no mesmo lugar do espaço?" (BARROS 1986, p.22).
A impenetrabilidade é definidida da seguinte maneira, no livro de Santos & Berbel (1986), "É a propriedade segundo a qual duas quantidades de matéria não podem ocupar, ao mesmo tempo, o
mesmo lugar no espaço" (p.11), sendo esta acompanhada pelo exemplo "Se você encher uma banheira com água e entrar nela uma parte da água transbordará." (SANTOS & BERBEL 1986, p.11) . Ao final do capítulo há um questionário com dezessete questões, sendo uma referente à impenetrabilidade, "Como você provaria a impenetrabilidade da matéria?" (SANTOS & BERBEL 1986, p.14).
No livro de Carvalho & Fernandes (198-)-), a impenetrabilidade é apresentada de forma sucinta, sendo utilizado um exemplo ilustrativo e outro descritivo. O livro define o conceito da seguinte forma: "Dois corpos não podem ocupar, ao mesmo tempo, um mesmo lugar no espaço" (CARVALHO & FERNANDES 198-, p. 84). Neste livro o autor refere-e-se à força peso como sendo uma das propriedades gerais da matéria, mesmo enfatizando que se trata de uma força e que esta varia de lugar para lugar: intensidade da foforça de gravidade com que a Terra puxa para o seu centro todos os corpos situados nas proximidades" (CARVALHO & FERNANDES 198-, p. 85). Verificamos no final do capítulo um questionário constituído de seis perguntas. Apenas no sumário os autores resumem as Propriedades Gerais da Matéria explicadas no início do capítulo.
- O livro "Ciência e Realidade" de Blinder et al. (1994), aborda o conceito iniciando com o exemplo de um copo de vidro, completamente cheio de água, em que se joga cuidadosamente uma bolinha de de vidro: "Notamos que o nível da água se eleva, mostrando que a bolinha de vidro ocupou um lugar no copo, deslocando parte da água" (BLINDER et al. 1994, p. 96). Finalizando o capítulo, os autores apresentam um resumo e seguem com um questionário de treze questões .
- O livro de Gomes et al. (1995) "C iências a caminho do futuro", apresenta o exemplo: "Talvez você já tenha feito a experiência do funil para comprovar que o ar ocupa lugar no espaço. Se ainda não fez observe a ilustração e procure entendê-la. Por m meio desta experiência comprova -se que o ar e a água não ocupam ao mesmo tempo lugar no espaço. Para que a água entre, o ar tem que sair" (Gomes et al, 1995, p. 15). O livro cita mais dois exemplos, o de um prego na madeira e da xícara com leite em que se acrescenta açúcar. Vale ressaltar que o livro explicita a definição três vezes no decorrer do texto. Constam ao final do capítulo exercícios de fixação e atividades práticas . A atividade é divida em três partes: material, procedimento e discussão.
- O livro o de Cruz (1995), define a impenetrabilidade através de uma pergunta: "V"Você já tentou colocar dois objetos no mesmo lugar? Ou ficará ao lado do outro ou por cima eu na frente, mas nunca exatamente no mesmo lugar. Fazer com que ambos ocupem o mesmo espaço é totalmente impossível, pois dois corpos não podem ocupar, simultaneamente um mesmo lugar no espaço" ( CRUZ 1995, p. 15). Há novamente a citação do exemplo da xícara de café, com a adição de açúcar e o exemplo do copo invertido imerso em um tanque com água. Ao final do capítulo na seção "Vamos recordar" consta apenas uma pergunta sobre Propriedades Gerais da Matéria , sendo esta: "Relacione as propriedades gerais da matéria e defina cada uma" (CRUZ 1995, p. 17).
## CONCLUSÃO
Neste trabalho tivemos o intuito de rerealizar um recorte na abordagem do conceito de impenetrabilidade em livros didáticos, visto que este conteúdo era tratado nos livros didáticos de Física do início do século XX e a partir da década de sessenta passou a ser apresentado nos livros de Ciências s do ensino fundamental. Em todos os livros analisados a definição de impenetrabilidade é apresentada, praticamente, com as mesmas palavras. Como vimos, o conceito é abordado quase da mesma forma que nos livros do início do século XX . O conteúdo ligado às Propriedades Gerais da Matéria é abordado, na maioria dos livros didáticos de Ciências, nos capítulos introdutórios dos conteúdos de Física e Química. Da nossa amostra, apenas em dois livros os autores não separam
explicitamente os conteúdos de Física e Quíuímica. Já nos livros de Física, constatamos que os autores apresentam o conteúdo no capítulo introdutório denominado "Noções Preliminares" .
Entre as diferenças que verificamos entre os livros didáticos de Ciências do período analisado e os do início do século XX, foi o aparecimento de exercícios e a proliferação de ilustrações. Apesar de alguns exemplos utilizados nos livros analisados serem, na maioria das vezes, similares aos livros do início do século XX, nos livros mais recentes há um maior número de exemplos e ilustrações. Por exemplo, dos nove livros analisados, oito apresentaram o exemplo de um recipiente com água, leite ou café, no qual era acrescentado açúcar, ou seja, os autores enfatizam com exemplos de mudança de volume para demonstrar a impenetrabilidade. Vale ressaltar que existem variações nos exemplos, como o uso de colheres de sal, bolinhas de vidro, no lugar de açúcar. Em quatro livros, foram encontrados exemplos que descreviam que o ar ocupa lugar no espaço. Através da figura 10 podemos verificar claramente estas reincidências no uso de exemplos, o que constata a não modificação da abordagem do conceito nos livros didáticos, mesmo quando analisamos períodos distintos de oitenta anos.
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Figura 3: Exemplos de impenetrabilidade utilizados nos livros de Menezes (1912) e Cruz (1995).
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Como podemos observar na figura acima, a modificação ocorrida nos livros mais recentes, como no caso do livro de Cruz (1995), remete a ilustração mais rebuscada com a utilização de cores e a utilização de uma vela acesa. O autor explica que o ar e água são matérias e por isso a água não entra no copo, o que faz com a vela mantenha-se acesa. A definição do conceito segue um modelo padrão em ambas amostras, como verificamos na análise dos livros.
Podemos verificar neste trabalho que obtivemos poucas mudanças no tratamento das Propriedades Gerais da Matéria , em particular a impenetrabilidade . Isto leva a conclusão de que mesmo com os avanços científicos que ocorreram na Física do o século XX, existe um distanciamento no que é produzido pela ciência e o que consta nos livros didáticos, o que vêm a afirmar a hipótese de que existe uma dissociação entre a ciência produzida e a ciência transmitida (Gaspar & Mattos, 2002). Dessa forma tivivemos o intuito de fazer r uma reflexão desta ferramenta tão presente na vida escolar dos professores ficando o clara a importância desse tópico o não só como uma introdução aos conceitos que são tratados no ensino fundamental, como os estados da matéria, mas tamambém os conteúdos que serão tratados no ensino médio.
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