O OLHAR DAS PESQUISAS ACERCA DAS PROFESSORAS QUE ENSINAM CIÊNCIAS NOS ANOS INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL: PARA ALÉM DO DISCURSO DA AUSÊNCIA DE CONTEÚDOS
Sheila Alves De Almeida, Orlando Gomes Aguiar Júnior
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVIII
- Ano
- 2009
- Data
- 27/01/2009
- Linha de pesquisa
- Formação Inicial E Continuada Do Professor Em Todos Os Níveis De Escolaridade
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## O OLHAR DAS PESQUISAS ÊACERCA DAS PROFESSORAS QUE ENSINAM Q CIÊNCIAS NOS ANOS INICIAIS DO ENSINO FUNDAMENTAL: PARA ALÉM DO DISCURSO DA AUSÊNCIA DE CONTEÚDOS
## Sheila Alves de Almeida 1 Orlando Gomes Aguiar r Júnior2 r2
Escola Municipal Aurélio Pires/Universidade Federal de Minas Gerais , sheilaalvez@uol.com.br 2 1 Universidade Federal de Minas Gerais, orlando@o@fae.u.ufmg.br 2
Palavras -chave:Educação e ciências, professoras das séries iniciais.
## Resumo
No mestrado, ao interrrrogar como as professoras ensinam ciências nos anos iniciais do Ensino Fundamental, recorri a alguns estudos, procurando descobrir como essas professoras se tornam visíveis, compreendidas pelas pesquisas. Assim, ouousamos, no presente trabalho, fazer uma incursão por várias pesquisas com o objetivo de procurar compreender e analisar os muitos modos de pensar e falar sobre as professoras que ensinam ciências nas séries iniciais. Neste estudo apresentamos as principais reflexões, as metodologias, os modos de prorodução e práticas que envolvem algumas pesquisas realizadas no Brasil por mestrandos e doutorandos sobre as professoras que ensinavam Ciências nas séries iniciais no período compreendido entre 1996 a 2003. E ao examinar as pesquisas concluímos que a preocupupação em enquadrar, comparar e classificar a ação e dizeres ajusta os indivíduos em modelos abstratos, orientados por comportamentos previamente estabelecidos congela a dinâmica dos processos de constituição dos sujeitos no cotidiano. Contudo, nonossa intenção, além do reconhecimento das contribuições desessas investigações, é apontar outros caminhos para além do discurso da ausência de domínio de conteúdo científico das professoras dos anos iniciais do Ensino Fundamental. E também fomentar a necessidade de pesquisas que nos levem à compreensão de como os pensamentos e práticas são forjados, como a experiência vai se inscrevendo no discurso, perdura ou se esvai...
A força da estrada do campo é uma se alguém anda por ela, outra se a sobrevoa de aeroplano . (Benjnjamin)
## Introdução
Pesquisas não são apenas para descrever ou documentar, mas, refletem além dos achados pensamentos, compreensões. O exame de teses e dissertações permite identificar uma grande preocupação com a falta de um conhecimento específico das profefessoras nos anos iniciais para atuar no ensino de ciências.
É importante salientar que, embora os artigos, dissertações e teses internacionais sejam numericamente muito mais expressivos , a opção pelo estudo de pesquisas de mestrado e doutorado realizadas no Brasil foi feita na tentativa de uma análise menos generalizada das práticas e imagens dessas professoras.
Para localizar as teses e dissertações, recorremos aos catálogos dos trabalhos defendidos nas universidades, às pesquisas disponíveis na Internet e à consulta direta nos acervos das bibliotecas nas universidades. Mas, foi o Centro de Documentação em
Ensino de Ciências - CEDOC da Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas, a nossa principal fonte de informação. O CEDOC possui, desde 191987, um serviço de identificação, classificação e divulgação da pesquisa educacional na área de Ciências, no Brasil, em especial fruto de teses e dissertações. Como resultado desse serviço, foi editado, em 1998, o catálogo O ensino de ciências no Brasil: cacatálogo analítico de teses e dissertações (1972 -1995). Esse catálogo reúne resumos de 572 teses e dissertações na área de Ciências defendidas no Brasil até 1995, bem como a classificação dos documentos e índice remissivo por área de conteúdo, nível escolar , assunto, instituição, ano de defesa e orientador. Esse trabalho possibilita a recuperação de informações, estudos de revisão bibliográfica e pesquisa sobre o estado da arte da produção acadêmica e científica na área. Da seleção dos títulos por meio de descritores e assuntos, nesse catálogo e em outras fontes, chegamos a 25 dissertações e 2 teses sobre o ensino de Ciências nas séries iniciais que, pela leitura do título e do resumo correspondia às nossas expectativas. Entretanto, uma primeira leitura desses trabalhos mostrou que nem todas abordavam o ensino de Ciências e as professoras das séries iniciais. Isso provocou nova seleção da qual obtivemos uma amostra de 14 dissertações e 2 teses. Mas, ao lê -las, deparamos com pesquisas que mostraram, implicitamente, preocupações com o ensino de ciências mas não adotaram a formação das professoras como referencial teórico/metodológico. Assim, das 16 pesquisas apresentadas, apenas 9 foram selecionadas para representar as discussões mais freqüentes nas investigações . Feitas essas considerações, focalizarei, de forma sucinta, cada pesquisa estudada.
## Dos modos de pesquisar e falar das professoras...
A pesquisa de Nilsa Alves de Melo (1996), intitulada A formação do pedagogo e o ensino de ciências de 1 a a 4a 4a séries, busca identificar limites e possibilidades para a a construção de uma cultura científica através da montagem de uma sala ambiente por alunas de um curso de pedagogia no contexto de formação. Esse estudo tem como ponto de partida a prática pedagógica de futuras professoras e visa à obtenção de conhecimentos didáticos pedagógicos no enfrentamento do trabalho. A autora dessa pesquisa verificou desconhecimento das alunas dos conteúdos no exercício de montagem do laboratório. Durante a experiência, as alunas solicitavam mais prática, o que, para a pesquisadora se traduzia em dar receitas, atividades destituídas de fundamentos teóricos. Quanto à metodologia utilizada pela pesquisadora, ela se apoiou em observações, anotações, visitas, questionários, relatórios, entrevisistas, depoimentos
escritos das graduandas, professoras e alunas da escola. A autora concluiu a pesquisa considerando que a pedagoga pode atuar como professora de Ciências nas classes de 1a 1a a 4a 4a a séries se bem preparada em seu curso de formação. Ainda de acorordo com a autora, para ensinar é preciso que a professora domine o saber, ou seja, os conteúdos a ensinar, demonstrando habilidade e criatividade.
Já Sônia Beatris Balvedi Zakrzevski (1996), em sua pesquisa Um olhar sobre o ensino de ciências e sobre a fo rmação de professores para séries iniciais no Rio Grande do Sul, considera que ainda predomina em nossos dias, nas aulas de Ciências para as crianças, os métodos de ensino tradicional, baseado no enfoque de transmissão cultural. As professoras sustentam uma concepção positivista da ciência e, devido a isso, tanto o conteúdo do currículo quanto à maneira de ensinar dão pouca ou nenhuma ênfase às próprias concepções das crianças e à participação deles no processo de ensino e aprendizagem. Na opinião dessa pes quisadora, a Ciência é vista pela professora primária como área do conhecimento de segunda categoria, pois apenas a aprendizagem da leitura e da escrita, bem como os cálculos e problemas matemáticos são encarados pelas professoras das séries iniciais como fundamental. Nesse estudo, ela afirma que as professoras primáriaias, de modo geral, não têm claro o a razão desse ensino, nem tão pouco o que ensinar e nem como ensinar. Outro ponto focalizado nessa pesquisa diz respeito à falta de conhecimentos da matéria e de conhecimentos teóricos sobre a aprendizagem das Ciências. Isso torna as professoras simples transmissoras dos conteúdos do livro didático. Com relação à metodologia utilizada pela pesquisadora, ela se apoiou em mais de cinqüenta questionários respondidos pelas professoras da Rede Municipal do município de Santa Maria. Ao final da pesquisa, a autora sugere a atuação de professores especialistas em Ciências para as séries iniciais para assumirem tarefas específicas e desenvolver trabalhos conjuntos em diversos níveis.
Por sua vez, em sua dissertação de mestrado O ensino de ciências na formação continuada de professores das séries iniciais do ensino fundamental, l, Rita de Cássia Dallago Machado (1997) investigou em que medida um programa de formação continuada, com encontros de duas horas a cada quinze dias, realizado no âmbito da escola, proporcionou às professoras aí envolvidas o aperfeiçoamento de suas concepções sobre o processo-o-ensino aprendizagem de ciências nas séries iniciais. Em sua experiência na Secretaria de Educação, participando de um programa de formação continuada, a autora teve a oportunidade de observar as dificuldades das professoras ao
ensinar ciências dada a falta de domínio do conteúdo científico. Esse programa durou cerca de dez meses e envolveu cinco professoras de 2a 2a a séries de uma escola estadual do município de Curitiba. Para a autora, sem conhecer o conteúdo, as ações pedagógicas das professoras ficam extremamente limitadas. A assessoria às professoras visava prepará-las para a implementntação de uma proposta de ensino de Ciências, que, segundo a autora, seria mais p progressista. Para tanto, foram realizados 22 encontros, no período de fevereiro a dezembro de 1994. Desse total, 12 foram destinados ao planejamento das aulas e às discussões sosobre as atividades desenvolvidas; 6 encontros foram reservados para as filmagens das aulas preparadas e ministradas; 3 encontros foram destinados às discussões sobre as aulas, após as professoras terem assistido aos vídeos de suas próprias aulas. E no último encontro, foi realizada uma avaliação final do trabalho. Todos os encontros foram gravados em fita cassete e posteriormente transcritos. Ao realizar a análise dos dados, a pesquisadora buscou pistas que evidenciassem a incorporação ou não das idéias que foram discutidas no grupo; pistas de algum tipo de desenvolvimento nas reflexões e ações das professoras sobre suas atividades pedagógicas. O trabalho com ecossistema, a partir da construção de um terrário foi o tema central dessa proposta. Uma questão a apresentada nesse trabalho refere-e-se à à falta de tempo para que as professoras apresentassem o resultado da aprendizagem das crianças o que indicaria, na visão das professoras, que seus alunos estariam aprendendo. Aliás, a maior parte do tempo nos encontros fofoi ocupado com elucidações de dificuldades relativas aos conteúdos científicos. Por fim, a pesquisadora avalia que, se por um lado essa f falta de tempo a deixava ansiosa, dada a preocupação de esgotar o conteúdo, por outro lado, as professoras sentiram que trabalhar, segundo as propostas da pesquisa, exigia mais do que o conhecimento do conteúdo proposto.
Em 1997, em sua tese de doutorado, Maria Elisa Rezende Gonçalves concentrou seus esforços no estudo das atividades de conhecimento físico na formação do prorofessor das séries iniciais. Essa investigação desenvolveu-u-se no desenrolar de um curso planejado para professores das séries iniciais, no qual foi apresentada uma proposta de ensino de Ciências a partir de algumas atividades de conhecimento físico. Além de de trabalhar os conteúdos de ciências com as professoras, o curso pretendia incentivá -las a testar as atividades em suas próprias classes. Essa pesquisadora partia a do princípio de que o curso cumpriria seu objetivo se conseguisse obter o reconhecimento das idéias que pretendia desenvolver. Para que as idéias fossem compreendidas, , foram
utilizados vários recursos de ensino, como textos sobre as atividades em pauta, trabalhos práticos, discussões em grupo, programas de vídeo mostrando alunos trabalhando essas atividades além de aulas de participantes aplicando as atividades em suas salas. Ela concluiu, nesse trabalho, que, no processo de formação das professoras é preciso não negligenciar as idéias, as crenças e a visão sobre o ensino e a aprendizagem de ciênciaias que as professoras elaboram na vida. Em síntese, essa pesquisa revelou que os cursos de formação não devem ser estruturados com vistas somente à proposta de ensino que vai apresentar mas também às diversas formas de reflexão que levam às professoras à análise crítica da proposta em relação à sua identidade docente.
Já a tese de doutorado a Circunstância e a Imaginação: o ensino de ciências, a experimentação e o lúdico - Estudo de crenças, idéias e perspectivas de professores de 1 a . a 4a 4a . série do 1o 1o o . grau de Eugênio Maria de França Ramos, apresentada em 1997 estuda as crenças que aparecem no discurso das professoras de uma maneira implícita, sutil e velada. Todavia, ainda que apareçam de maneira velada, elas constituem a realidade plena e autêntica da vida das professoras. Quanto aos dados desse estudo, foram obtidos por meio de entrevistas semi-i-estruturadas realizadas em cinqüenta professoras que atuavam em seis escolas públicas estaduais da cidade de Marília, Estado de São Paulo. As entrevistas foram or ganizadas de forma que o diálogo entre professora e pesquisador fosse espontâneo, deixando cada professora falar sobre suas experiências no magistério e sobre as razões para ministrar ou não as aulas de Ciências. A análise desses depoimentos evidenciou diversos fatores que interferem na qualidade do ensino os quais são normalmente considerados como aspectos problemáticos e barreiras ao trabalho pedagógico. O primeiro deles é a falta de formação profissional específica. É interessante salientar, segundo os dadados, que as professoras não se sentem incapazes, mas sem formação e sem informações. O segundo fator diz respeito às condições sociais da população atendida pela escola , condições essas determinadas pela circunstância dos alunos e da população que vive em m torno da escola. De acordo com França Ramos tais elementos latentes não formam apenas um cenário de pesquisa, mas a realidade vivida pela professora. Portanto, o conjunto de crenças exerce um papel decisivo na adoção ou alteração de metodologias didáticas por parte das professoras.
Regina Nascimento Martins Costa, em sua dissertação Saber ciências e saber ensinar ciências: a escola, as professoras e a educação em Ciências nas séries
iniciais do ensino fundamental (1998), investigou como as professoras lidam com a precária formação em ciências e a necessidade de ensiná-á-la nas séries iniciais. Assim, para detectar e caracterizar essa investigação focalizou o ensino de Ciências na perspectiva das próprias professoras. A autora investigou como elas elaboravam, preparavam e desenvolviam suas aulas, e quais eram suas concepções de ciências. Para tanto, ela optou pela utilização de entrevistas semi-i-estruturadas com um roteiro de temas. Foram entrevistados 15 professores atuantes desde a pré-escola até a 4a 4a . série da Rede Municipal de Juiz de Fora. No roteiro das entrevistas, foram incluídas questões ligadas à história pessoal e profissional das professoras, à prática de ensino de Ciências bem como o relato das principais dificuldades que as professoras encontravam para ensinar esse conhecimento. Quanto aos resultados dessa pesquisa, os dados evidenciaram desvalorização do ensino de Ciências desde o tempo em que as professoras entrevistadas foram alunas; o lugar secundário atribuído ao ensino de Ciências comparado ao ensino de Português e Matemática; a restrita autonomia didática das professoras em uma estrutura escolar hierárquica e burocrática e as precárias condições de trabalho das professoras nas escolas. O distanciamento entre o que preconizam e o que realizam em termos de ensino de Ciências se devem também, segundo a leitura dos dados, a a pouca autonomia didática das professoras e à ausência de trabalho coletivo e reflexivo nas escolas. Com referência às práticas de ensino de Ciências, de acordo com o relato das s professoras, geralmente as aulas de ciências são desenvolvidas com base em uma prática livresca, que exige certa passividade dos alunos. A pesquisa também evidenciou que, para as entrevistadas, o ensino de Ciências está mais voltado para atender a determininações burocráticas da instituição escolar, como cumprir o programa e assegurar as notas bimestrais, do que para o desenvolvimento de uma prática pedagógica que propicie aprendizagem significativa desse conhecimento. Ao contrário, quando falam de suas conc epções sobre o ensino de Ciências, a visão das professoras é ao mesmo tempo crítica e bastante atualizada. Assim, de modo geral, insistem na necessidade de privilegiar a vivência e experiência das crianças e de incluir atividades práticas/experimentais. Cororroboram essas idéias, os ricos exemplos que aparecem nas lembranças relacionadas com episódios positivos de ensino de Ciências. Na opinião dessa autora, as justificativas apontadas para as deficiências do ensino de Ciências nas primeiras séries da escola fundamental, como falta de material, tempo, apoio, orientação e conhecimento aprofundado da matéria escondem razões mais profundas, vinculadas ao desconhecimento da importância desse ensino na escola
fundamental. Para Martins Costa , a ação docente das profefessoras se articula com a estrutura, organização e funcionamento da instituição a que pertence e é, em parte, determinada. Assim, a problemática do ensino de Ciências nas séries iniciais deve necessariamente incluir uma discussão do contexto institucional em que se desenvolvem as práticas docentes.
O trabalho realizado por Arlete Teresinha Esteves Brandi, em 1999, intitulado A Alfabetização com / em Ciências: redimensionando a prática pedagógica de alfabetização em parceria, teve como objetivo investigar prococessos e resultados do desenvolvimento de atividades de alfabetização com/e/em ciências. Segundo a pesquisadora, apesar da grande experiência que as professoras das séries iniciais apresentavam quanto à alfabetização, o ensino de Ciências constituía uma dificuldade para elas. A falta de domínio do conteúdo tornava-a-se um obstáculo para o modo como o ensino de Ciências deve ser ensinado. Para a pesquisadora, essa situação se agrava perante a articulação do ensino de Ciências com o processo de alfabetização. A pesquisa configurou-u-se na perspectiva da investigação-ação, uma vez que a pesquisadora almejava mudanças e/ou inovações na prática pedagógica existente. O desenvolvido dessa pesquisa realizou-se com um encontro semanal para planejamento e análise das práticas pedagógicas da professora, seguido de outros dois encontros para observação das práticas e/ou intervenção nas ações planejadas. A partir de um diagnóstico da prática docente da professora realizado na fase exploratória do estudo, um projeto pedagógico ararticulando o ensino de Ciências com o processo de alfabetização foi traçado e implementado através de discussões e reflexões sobre as atividades realizadas. Assim, depois de um período de observação e discussão, a pesquisadora passou a planejar, junto com a professora, as aulas e, no fim da pesquisa, a professora colocou em prática, esse planejamento elaborado por professora e pesquisadora. Os registros da investigação foram feitos em fita cassete, anotações em diário de campo, fotografias e vídeos. Tais registros e análises serviam de subsídios permanentes para o preparo das aulas subseqüentes. U Uma das conclusões da pesquisadora é que, apesar do sucesso dessa experiência, as professoras das séries iniciais ainda possuem formas arraigadas de ver o mundo e nã o ousam inovar por medo do novo.
A dissertação de Sandra Carpinetti Tinoco, defendida no ano de 2000; intitulada A A mudança nas concepções dos professores sobre ensino e aprendizagem de ciências, investiga as mudanças nas concepções dos professores do ciclo fundamental,
sobre ensino e aprendizagem de Ciências, quando submetidas à uma proposta metodológica levada por um curso sobre o conhecimento físico nas séries iniciais. Os dados para análise da pesquisa foram colhidos das respostas das professoras participipantes aos questionários veiculados durante o curso. Sandra ressalta, em sua pesquisa, que as professoras possuem idéias pouco refletidas sobre o ensino de Ciências. Ela trabalha com a hipótese de que mudanças na metodologia de ensino são possíveis se os professores vivenciarem experiências alternativas de ensino. Verificou, em sua pesquisa, que a experiência do curso propiciou, para algumas professoras, reflexão sobre a prática e sobre a maneira de ensinar Ciências. Para outras, ele representou uma reflexã o sobre o ensino sem que significasse alteração da prática. E, para um número menor de professoras, o curso não provocou mudanças de concepções ou práticas. Com efeito, pelo seu potencial formador e pelo espaço de encontro, o curso, constituiu, na avaliação da pesquisadora, espaço imprescindível de formação das professoras.
Ely Maués, em seu trabalho de pesquisa realizado em 2003, analisou as estratégias utilizadas pelas professoras das séries iniciais para ensinar Ciências. O objetivo dessa pesquisa, era enentender a relação entre conhecimento de conteúdo e conhecimento pedagógico nas práticas de Ciências de professoras das séries iniciais cujo conhecimento do conteúdo era considerado precário. Para tal, o pesquisador procurou compreender como essas professoras, que não dominam o conteúdo de Ciências, criam estratégias para ensinar seus alunos e que saberes elas mobilizam quando se deparam com a falta ou a falha de determinado saber específico. A investigação realizou-se com nove professoras das séries iniciaisis. Nas entrevistas, o pesquisador buscou o olhar das professoras através da descrição da realidade das próprias aulas delas. Segundo o autor, as professoras entrevistadas apresentaram alguns traços semelhantes como: assumiam o risco de ensinar um conteúdo que lhes era pouco familiar; admitiam a falta de conhecimento na área de ciências afirmando que, no curso de magistério ou pedagogia, poucas disciplinas tratavam dessa área do conhecimento. A propósito, segundo Maués, quando as professoras tentavam explicar ar detalhadamente um conteúdo, apresentavam dificuldades, confundiam conceitos, algumas vezes não conseguiam perceber as dúvidas subjacentes às questões dos alunos, demonstravam dificuldade em reconhecer quais os conteúdos faziam parte da física, química e Biologia e, em alguns casos, afirmavam que sabiam tanto quanto às crianças. Recomenda, então, o pesquisador que tanto os formadores como os pesquisadores devem ser mais
generosos s ao analisar os trabalhos das professoras. O conhecimento pedagógico delas abrange inúmeros recursos, elas possuem inúmeras estratégias de ensino e aprendizagem, são prudentes e perspicazes na tarefa de ensinar. Ao concluir sua pesquisa, o autor indica que é possível acompanhar a criança no seu questionamento do mundo sem ser um profofessor especialista em Ciências.
## O olhar das pesquisas: jogo de espelhos q que reflete e refrata a realidade...
A leitura dessas pesquisas leva-a-nos a concluir que existe um modelo hegemônico de pensar as professoras que ensinam Ciências nas séries iniciais. Este olhar que identifica as professoras através do que elas não sabem passa a ser forma dominante e de dominação. Essas investigações revelam que a formação das professoras é ineficiente e inadequada. Dessa forma, a tônica desses estudos recai no domínio io do conteúdo.
A maioria das investigações é de autoria feminina, especialista em ciências, biologia, química ou física que investigam o trabalho das professoras, em geral, pedagogas. Ora, se o que vemos é determinado pelo lugar de onde vemos, e, se essas pesquisas são realizadas por pesquisadores formados em Ciências, todos os trabalhos são prisioneiros da idéia de que o problema do ensino de Ciências nas séries iniciais é uma questão de formação.
O examame da metodologia utilizada nas dissertações e teses s sobre as professoras que ensinam ciências mostra que a maioria estuda um caso, seja ele um curso, uma disciplina, uma turma, um professor. O levantamento de dados e a a análise de depoimentos, quase sempre , é realizada a partir de questionário ou entrevista. A maioria dos pesquisadores assume uma postura clássica de observação; outros buscam a formação das professoras como forma de modificá-las por meio de intervenções. Assim, apesar das s pesquisas se mostrarem preocupadas em falar com m as professoras, acabaram falando s sobre elas.
Nessa perspectiva, esses estudos centram-se mais nas descrições das práticas das professoras do que na compreensão da construção diária feita por elas em seu trabalho. Exilados das suas condições de produção e silenciados os processos por meio dos quais as singularidades vão sendo produzidas, os pesquisadores criam perfis
genéricos das professoras distanciados da discussão dialética com o mundo no cotidiano em que está se transformando.
Consideramos pertinente trazer uma outra dimensão a ser explorada: as perguntas do dia -a-dia, os problemas que as próprias professoras se colocam ao ensinar ciências para as crianças e, sobretudo, o que as professoras aprendem ao ensinar ciências. A possibilidade de fazer pesquisas a partir da vivência de uma experiência com as professoras possibilita a escuta do outro, permite a visão das imagens embaçadas, confusas, dinâmicas, fluidas, fragmentadas do interior da sala de aula.
Assim, o olhar da pesquisa sobre o trabalho das professoras com m ciências nos os anos iniciais do Ensino Fundamental poderia, nesse outro cenário que defendemos, consisistir não em simplesmente efetivar um saber na professora, mas buscar seu desenvolvimento como sujeito capaz de atuar no processo em que aprende. Trata-a-se de tentar conf igurar outra imagem das professoras, não o que as professoras são, mas aquilo que vão se tornando no curso das pesquisas.
## Referências
BRANDI, Arlete Teresinha Esteves, Alfabetização com / em Ciências: r edimensionando a prática pedagógica de alfabetizaçãção em parceria, 1999.
COSTA, Regina Nascimento Martins, Saber ciências e saber ensinar ciências: a escola, as professoras e a educação em Ciências nas séries iniciais do ensino fundamental,1998.
GONÇALVES, M.E.R., Atividades de Conhecimento Físico Na Formação de Professores das Séries Iniciais. Tese de Doutorado, orientada por Anna Maria Pessoa de Carvalho, Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo, 1997.
MAUÉS, ELY da Costa Roberto, Ensino de Ciências e Conhecimento Pedagógico de Conteúdo: narrativas e práticas de professoras das séries iniciais, Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG, 2003.
MACHADO, Rita de Cássia Dallago , O ensino de ciências na formação continuada de professores das séries iniciais do ensino fundamental, l, 1997.
MELO, Nilsa AlAlves de, A formação do pedagogo e o ensino de ciências de 1 a a 4 a séries, 1996.
RAMOS, Eugênio Maria de França, A Circunstância e a Imaginação: o ensino de ciências, a experimentação e o lúdico - Estudo de crenças, idéias e perspectivas de professores de 1 1 a . a 4 a a . série do 1 o . grau, 1997
TINOCO, Sandra Carpinetti, A mudança nas concepções dos professores sobre ensino e aprendizagem de ciências, 2000.
ZAKRZEVSKI, Sônia Beatris Balvedi, Um olhar sobre o Ensino de Ciências Naturais e sobre a formação de pro fessores de séries iniciais no RS , 1996.
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