ANALISANDO O DISCURSO DE FÍSICOS, PROFESSORES DE FÍSICA E LICENCIANDOS SOBRE O PROCESSO DE REESTRUTURAÇÃO CURRICULAR DE UM CURSO DE LICENCIATURA EM FÍSICA
Sérgio Camargo, Roberto Nardi
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVIII
- Ano
- 2009
- Data
- 27/01/2009
- Linha de pesquisa
- Formação Inicial E Continuada Do Professor Em Todos Os Níveis De Escolaridade
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## ANALISANDO O DISCURSO DE FÍSICOS, PROFESSORES DE FÍSICA E LICENCIANDOS S SOBRE O PROCESSO DE REESTRUTURAÇÃO CURRICULAR DE UM CURSO DE LICENCIATURA EM FÍSICA
## Sérgio Camargo 1 , Roberto Nardi 2
1 Universidade Federal do Paraná/á/Setor de Educação/Departamento de Teoria e Prática de Ensino (DTPEN)/UFPR , s.camargo@ufpr.br
2 Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho" / Faculdade de Ciências/ Departamento de Educação/ Programa de Pós-graduação em Educação para a Ciência /UNESP , nardi@fc.unesp.br
## Resumo
Este estudo trata da da formação inicial de professores de Física, tendo como pano de fundo o processo de reestruturação c curricular de um curso de licenciatura em Físísica de uma universidade pública. A questão central que procuramos responder foi a seguinte: Que efeitos de sentidos emergem de documentos oficiais, nas falas de licenciandos, de professores de Física do Ensino Médio e de docentes universitários relacionadodos ao processo de reestruturação curricular de um curso de Licenciatura em Física de uma Universidade pública? Para tanto, os dados foram constituídos a partir do acompanhamento do processo que inclui: a) registro das reuniões da comissão encarregada pelo processo de reestruturação; b) análise de documentos oficiais e diretrizes que regulamentam as licenciaturas; c) análise dos discursos dos formadores; d) análise dos discursos dos licenciandos e professores da rede estadual de ensino. No registro a essas questões, buscou -se, nos discursos produzidos, a interpretação das manifestações e correlações de forças decorrentes do perfil acadêmico e político das partes envolvidas nesse processo de reestruturação curricular. A análise desses dados foi embasada na teteoria crítica e nos referenciais da Análise de Discurso de linha francesa, onde a língua é analisada em sua materialidade como um local de manifestação das relações de força e de sentidos que refletem os confrontos de caráter ideológico. A legislação consultatada, os professores em exercício, os licenciandos e os formadores na Universidade, cada qual falando a partir de posições definidas, forneceram subsídios ou sinalizaram o que e como a estrutura curricular e o projeto pedagógico deste Curso de Licenciatura e em Física poderia ter ou ser alterado.
Palavras -c -chave: Licenciatura em Física; Formação de professores de Física; Ensino de Física; Reestruturação Curricular; Análise de Discurso.
## Introdução
A aprovação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei nº. 9.394) marca o inicio de mais uma fase de reformas ocorridas nas instituições de Ensino Superior no Brasil. A partir da promulgação dessa lei, nos anos posteriores, é proposta a criação das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica, em nível superior, curso de licenciatura, de graduação plena (DCNs) .
No ano de 2002 após muitas reflexões, discussões e críticas tanto entre as comissões de estudo formadas pelos órgãos superiores (MEC) quanto de docentes
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26 a 30 de Janeiro de 2009
das instituições superiores envolvidos com os cursos de licenciatura , as diretrizes são aprovadas pelo lo Conselho Nacional de Educação totornando-s-se documento imprescindível no auxílio à reformulação dos cursos de licenciatura.
- As Diretrizes Curriculares NaNacionais para a Formação de Professores estabelecem critérios para a organização da matriz curricular, sendo os mesmos expressos por meio de eixos, em torno dos quais se busca articular as dimensões a serem contempladas na formação profissional do futuro professor e sinalizam o tipo de atividades de ensino e aprendizagem que podem materializar o planejamento e a ação dos formadores de professores.
- O documento fornece algumas referências que podem auxiliar tanto na construção do projeto político-o-pedagógico de determinado cucurso como na sua reestruturação, tais como: seleção de conteúdos para garantir uma formação da escolaridade básica, o desenvolvimento de competências que contemple a formação nos diferentes âmbitos do conhecimento profissional do professor, como desenvolver os conteúdos a serem tratados de modo articulado com suas didáticas específicas, o ensino visando à aprendizagem do aluno, o acolhimento e o trato da diversidade, o exercício de atividades de enriquecimento cultural.
As DCNs orientam e apontam para a posossibilidade de que no no processo de reestruturação , o ensino e a formação de professores sejam pensados em novas bases epistemológicas. Recomendam, dentre outras coisas, que no momento de planejamento do curso, sejam considerados: os princípios da ação - reflexão - ação, articulando teoria e prática em todos os momentos, desde o início do Curso. Instam os responsáveis pela reestruturação a repensarem o ensino em uma nova concepção, de modo que a relação teoria e prática sejam trabalhadas de uma forma compartilhada e equilibrada. Sugerem reflexão sobre o processo de formação considerando o contexto da escola em que o futuro professor irá atuar, buscando o estabelecimento de parcerias entre as universidades e as escolas de ensino básico.
As diretrizes sugerem também que se invista em práticas investigativas, na elaboração e execução de projetos de desenvolvimento dos conteúdos curriculares, no uso de tecnologias da informação e da comunicação e de metodologias, estratégias e materiais de apoio inovadores, no desenvolvimento de hábitos de colaboração e de trabalho em equipe. Recomendam aos docentes algumas formas de se conduzir o processo de avaliação procurando com isso orientar o trabalho e gerar autonomia aos futuros professores em relação ao seu processo de aprendizagem e também a qualificação de profissionais proporcionando condições É para que estes possam exercer a carreira de maneira competente. ç É possível perceber que esse documento sugere que as disciplinas de cunho pedagógico se iniciem já desde o primeiro ano com as Práticas de Ensino.
Na área da Física, resumidamente, o esquema geral defendido pelas Diretrizes Curriculares Nacionais dos Cursos de Física ficou assim configurado: um núcleo Comum, com aproximadamente cinqüenta por cento (50%) da carga horárária, e um complemento chamado Módulos Seqüenciais Especializados, destinados a formar o Físico -P -Pesquisador r (Bacharelado em Física), Físico-o-Educador r (Licenciatura em Física), 1 Físico Interdisciplinar r (Bacharelado ou Licenciatura em Física e Associada ) 1 ), Físico-Tecnólogo o (Bacharelado em Física Aplicada). No módulo
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seqüencial referente à formação do Físico-o-Educador é dada ênfase à formação do licenciado em Física, sendo que, neste caso, as diretrizes aconselham a realização de um trabalho conjunto com docentes da área da Educação: no caso desta modalidade, os seqüenciais estarão voltados para o ensino da Física e deverão ser acordados com os profissionais da área de educação, quando pertinente.
Percebe -s -se, portanto, que as Diretrizes Curriculares Nacionais para os Cursos de Física sugerem que as disciplinas de natureza didático-o-pedagógicas se iniciem no curso somente a partir do segundo ano, sendo os dois primeiros anos para as disciplinas especificas da Física e os outros dois para as disciplinas de natureza pedagógicas (seria um sistema 2+2).
A aprovação das Diretrizes Curriculares Nacionais nessas áreas levou u as Instituições de Ensino Superior do país procederam às reformulações de seus cursos de graduação, envolvendo, para tanto, seus Conselhos de Curso e várias outras instâncias ou órgãos internos responsáveis pelo processo de reestruturação curricular.
No caso específico da Instituição de Ensino Superior (IES) estudada, essa tarefa de organizar a reestruturação curricular dos cursos de graduação foi delegada pela Pró-Reitoria de Graduação, numa primeira ins tância e às coordenações das três áreas de conhecimento: Ciências Humanas, Exatas e Biológicas. Particularmente no caso da graduação em Física, a IES vem oferecendo cinco cursos, localizados em cinco c campi, i, os quais oferecem a modalidade Licenciatura e, em duas dessas unidades, é também ofertado o curso de bacharelado.
A partir do final do segundo semestre de 2001 teve início algumas ações, no âmbito da universidade para desencadear o processo de reestruturação dos Projetos Políticos - - Pedagógicos dos Cursos os de Graduação. No curso de licenciatura em Física do campus universitário em questão, no primeiro semestre de 2002, a Chefia do Departamento de Física indicou uma Comissão responsável para conduzir o processo de reestruturação do Curso. Essa Comissão inic ialmente era composta por seis docentes do Departamento de Física, sendo, posteriormente, ampliada com a inclusão de um docente convidado do Departamento de Educação. A comissão tendo como meta discutir e analisar as novas Diretrizes, com a finalidade de elaborar o novo projeto do Curso.
Uma das primeiras questões que essa Comissão de Reestruturação teve pela frente foi resolver o impasse gerado pela incoerência entre as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de Professores da Educação Básica a e as as Diretrizes Curriculares Nacionais para os Cursos de Física. a. Qual das duas diretrizes deveria ser levada em consideração na reestruturação?
Esse impasse, ou seja, essa discrepância entre as duas diretrizes, foi levado ao conhecimento da Pró -Reitoria de Graraduação da IES, em maio de 2002. Essa ação, junto ao Programa de Coordenação por Áreas do Conhecimento e à Pró -Reitoria da Graduação, provocou a constituição da Comissão de Estudos de Formação de Professores com a finalidade de contribuir na condução dos trtrabalhos de reestruturação curricular dos cursos de licenciatura.
A partir de junho de 2002 essa Comissão de Estudos de Formação de Professores iniciou seus trabalhos mapeando e analisando diversos documentos que diziam respeito à formação de professores . Seus membros examinaram tanto aqueles documentos produzidos pelo MEC e CNE, quanto os produzidos pelo
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Conselho Estadual de Educação (CEE/SP), percebendo que os mesmos, também, nem sempre são concordantes. Além desses, analisam vários outros documentos no 2 âmbito da IES, ANFOPE 2 2 e algumas propostas em vigor em diferentes universidades brasileiras. Ao mesmo tempo analisaram publicações sobre a temática, presentes em registros de eventos, periódicos e livros, destacando-s-se, de modo peculiar, um número especial de E Educação e Sociedade3 e3 .
Depois de finalizado esse trabalho, esta Comissão encaminhou o documento produzido aos Coordenadores de Área, sendo posteriormente submetido o à apreciação da Comissão Central de Graduação (CCG). A seguir, em sessão de 28/11/2003, a CCG, com o objetivo de regulamentar as reestruturações curriculares das licenciaturas, aprovou o documento produzido por esta Comissão, denominado 4 "Pensando a Licenc iatura na UNESP"4 "4 , tornando-o -o fundamento, junto com as outras resoluções nacionais 5 , para a reestruturação curricular dos cursos de licenciatura da IES.
Dando seqüência às atividades de reestruturação do curso de licenciatura em Física, instituiu-se no ano de 2005, pela chefia do Departamento de Física de Bauru, uma nova Comissão respons ável por estudar, discutir e desenvolver o processo de reestruturação curricular do curso. A mesma foi composta pelo Coordenador do Curso, que tinha feito parte da Comissão dos Coordenadores de Curso da IES, cinco docentes do Curso de Licenciatura em Física (Depto. de Física), o professor de Prática de Ensino de Física (Depto. Educação) e o pesquisador, um dos autores desta comunicação. Na seqüência descreveremos o desenvolvimento da pesquisa.
## A pesquisa
A pesquisa aqui relatada trata, portanto, como dito anteriormente de um estudo sobre formação inicial de professores de Física, tendo como pano de fundo o acompanhamento do processo de reestruturação de e um curso de licenciatura em Física de uma universidade pública. Esse processo de reestruturação curricular já vinha sendo acompanhado desde 2002 quando, em estudo preliminar, Cortela (2004) analisou discursos de docentes universitários que atuavam nesse curso, cujos temas versavam sobre formação acadêmica, práticas de ensino e suas interpretações e demandas sobre a reestruturação curricular que estava na iminência de se iniciar.
Os resultados de pesquisa realizada por Cortela (2004) mostravam o desconhecimento dos documentos considerados essenciais para o processo de reestruturação pela maioria dos docentes, assim s surgiu à idéia de elaboração de um Caderno de Textos, o qual foi organizado de forma a conter os principais documentos gerados e homologados tanto em âmbito federal, quanto internamente à IES. Os documentos contidos nesse Caderno foram divididos entre os membros
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da Comissão de 2005 para estudos e posterior discussão, com intenção de contemplá-los na elaboração do projeto político-pedagógico.
Além desses documentos, a Comissão procurou levar em consideração: 1) Dados de avaliações realizadas continuamente pela Coordenação do Curso junto a discentes e docentes nos últimos anos; 2) Decisões derivadas de discussões ocorridas nas reuniões do Conselho de Curso e da Comissão de Reestruturação do curso de Licenciatura em Física; 3) O documento final da Comissão de Estudos de Formação de Professores constituída pela Pró-Reitoria de Graduação da IES, considerando -s -se, logicamente, as particularidades do campus em questão; 4) Pesquisas sobre diferentes aspectos desse Curso de Licenciatura em Física realizados no âmbito do programa de Pós-graduação em Educação para a Ciência; 5) Dados de avaliações realizadas anualmente pelos docentes das disciplinas de Prática de Ensino, por meio de questionários contidos em relatórios de Estágios Supervisionados de Observação e Regência, realizados nos últimos anos; 6) Dados referentes a avaliações periódicas realizadas pelo Conselho de Curso sobre o desempenho de docentes e discentes nos últimos anos e; 7) A estrutura curricular do curso em andamento desde 1990, em vigor até então.
Acrescentam -se aos dados acima, duas outras atividades que forneceram subsídios que puderam auxiliar a Comissão sobre o processo de reestruturação curricular. Uma delas ocorreu no segundo semestre de 2005, mais precisamente no mês de agosto. Após consulta à Equipe Técnica da Diretoria de Ensino, foi realizado 6 um encontro com os professores de Física do Ensino Médio da rede pública6 a6 , contando com a presença de quarenta e seis professores atualmente em exercício na região. Dois docentes da IES, o pesquisador e três professoras do quadro técnico da Diretoria Regional de Ensino, (uma supervisora, e duas assistentes técnicopedagógicas; uma de Matemática, e outra de Ciências) também participam nessa atividade.
A outra atividade, acordada entre os membros da Comissão de Reestruturação Curricular do Curso de Licenciatura em Física, constitui-se na realização da Mesa Redonda intitulada As Grandes Questões do Ensino de Física , aprovada e incluída na programação da VIII Semana da Física, evento organizado anualmente pelo próprio Departamento de Física local, ocorrida no mês de outubro de 2005.
Todo esse processo de reestruturação curricular, acima descrito, foi acompanhado inicialmente em estudo anterior por Cortela (2004) e, posteriormente, a partir r de 2002, na pesquisa, aqui relatada, cujos registros foram sistematicamente constituídos desde aquela data até esta etapa que culminou com a aprovação de uma nova estrutura curricular e um novo projeto político-pedagógico, implantado a partir de 2006.
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Os registros acumulados no decorrer de todo esse processo pelo pesquisador permitiram analisar e interpretar os discursos presentes, tanto nos documentos oficiais, como nas falas dos diversos sujeitos envolvidos nesse processo de reestruturação, principalmente daqueles que colaboraram nas consultas acima citadas, realizadas com a finalidade de subsidiar todo o processo de reestruturação desse Curso de Licenciatura.
Para a leitura e análise dos acontecimentos acompanhados neste estudo, optamos por adotar referenciais teóricos embasados em teorias críticas (FREIRE, 1987; APPLE, 1989; PETER MCLAREN, 1999; GIROUX, 1999; GOODSON, 1992, 2001; MOREIRA, 1990; LOPES e MACEDO, 2002; SILVA, 2004), entendendo que estas são coerentes entre si e apropriadas para responder r às questões de pesquisa a que nos propusemos, uma vez que as mesmas nos levam a refletir criticamente sobre desenvolvimento curricular e processos como este.
Como apoio teórico na escuta e interpretação dos efeitos de sentidos presentes nos discursos dos sujeitos envolvidos neste processo procuramos nos fundamentar na Análise de Discurso (AD) de linha francesa, conforme proposta por Michel Pêcheux (2002), bem como em noções derivadas dos estudos deste autor desenvolvidas no Brasil por Orlandi (2001; 2003). Para esses autores, a língua é analisada em sua materialidade como um local de manifestação das relações de força e de sentidos, que refletem os confrontos de caráter ideológico. Podemos afirmar que a AD nesta linha configura-se como uma teoria crítica na qual toda palavra, para significar, origina sentido a partir de formulações que a sedimentam historicamente. Dessa maneira, as palavras fazem referência ao discurso no qual se constituíram ou significaram. Daí a importância de se analisarem essas várias instâncias decisivas na estruturação de projetos e cursos destinados à formação do professor, verificando a interdiscursividade que ocorre nesse processo de construção curricular e como isso gera significações.
Levando -se em consideração o processo, as leituras, os referenciais teóricos adotados e a análise dos discursos dos grupos participantes dos eventos assistidos no período, procurou-se responder a questões como: Que efeitos de sentidos emergem de documentos oficiais, nas falas de licenciandos, de professores de Física do Ensino Médio e de docentes universitários relacionados ao processo de reestruturação curricular de um curso de Licenciatura em Física de uma Universidade pública? Como as reivindicações de licenciandos, professores em exercício e docentes e pesquisadores universitários estão contemplados na versão final deste projeto político-pedagógico e na reestruturação curricular subjacente a ser implantada?
Na resposta a essas questões buscou-s-se nos discursos produzidos, a interpretação das manifestações e correlações de forças decorrentes do perfil acadêmico e político das partes envolvidas nesse processo de reestruturação curricular. Procurou -se mapear e interpretar algumas manifestações de caráter ideológico presentes na legislação, na literatura sobre a formação de professores e pesquisadores da área de ensino de Física, nos próprios conflitos internos entre posicionamentos dos professores envolvidos na reestruturação, como também de seus pares.
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## Discursos dos licenciandos sobre o processo de reeststruturação curricular
Os discursos dos licenciandos foram analisados a partir da leitura e interpretação de respostas dadas, em situações diferentes, a três questionários aplicados nos últimos anos anteriores ao início do processo de reestruturação do Curso. É importante observar que os questionários analisados foram aplicados aos licenciandos nos últimos anos pela Coordenação do Curso e pelos docentes das disciplinas de Prática de Ensino e Estágio Supervisionado. Além disso, as respostas foram dadas em estátágios diferentes do percurso de formação dos licenciandos. Essa observação é pertinente uma vez que em análise de discurso, as condições de produção do discurso são de grande relevância para o analista.
Percebe -s -se por meio da análise de seus discursos que em todas as diferentes avaliações realizadas e inseridas neste estudo há pontos comuns, ou seja, os imaginários dos licenciandos apontam claramente para algumas sugestões que parecem ser recorrentes e carecem de ser destacadas: a qualidade do corpo docente em suas diversas áreas de formação e de pesquisa; a deficiência de formação didático-pedagógica da maioria dos docentes que ministram disciplinas de conhecimento específico; a ambigüidade do curso em termos de definição entre bacharelado ou licenciatura; a distinção, mesmo que sutil, da maioria dos docentes em falar da formação para o bacharelado. Ou para a pesquisa em Física; a dicotomia teoria -prática, nas disciplinas de Física (teoria/laboratório); a necessidade de aumento da carga horária das disciplinas de Prática de Ensino e Estágio Supervisionado; a necessidade de contratação de docentes ligados ao ensino de Física para lecionar no curso de Física; maior atenção às disciplinas do Departamento de Educação, principalmente as Prática de Ensino e Estágio Supervisionado.
É possível perceber também por meio da análise de seus discursos que os licenciandos demonstram dificuldades na compreensão de algumas matérias das disciplinas de conhecimento específico atribuindo isso à falta de utilização de métodos e recursos didáticos e científicos apropriados pelos docentes. Essa questão metodológica é marcante na atuação futura dos licenciandos como constatou em pesquisa anterior (CAMARGO e NARDI, 2003), refletindo-se posteriormente nas práticas pedagógicas dos lic enciandos quando no ensino médio.
As reivindicações sinalizaram para mudanças na organização das disciplinas contidas na estrutura curricular, dando relevância à formação do professor, visto que o curso é uma licenciatura. Os discursos da maioria dos licenciandos apontaram para a necessidade de se elaborar uma reestruturação curricular cujas disciplinas fossem organizadas de modo inter-relacionadas oferecendo um conjunto de conhecimentos que resultem num corpo sólido para a formação de professores de Física.
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## O que dizem os membros da comissão de reestruturação curricular de
## 2005
Foram discutidos vários assuntos no decorrer dos encontros da Comissão7 o7 Responsável pela Reestruturação o Curricular do Curso nas reuniões que ocorreram entre os meses de julho a dezembro do ano de 2005. Interpretando os efeitos de sentido produzidos pelas falas dos membros nota-se que, algumas temáticas apareceram, ao longo do processo, muitas vezes de forma a recorrente.
Destacam -s -se, entretanto, temáticas que foram objetos de atenção especial que, por se mostrarem controversas, mereceram destaque na análise. Assim, ressaltamos e procuramos analisar as falas dos membros da Comissão relativas, por exemplo, ao peperfil dos alunos ingressantes no Curso de Licenciatura em Física; ao perfil do professor a ser formado; ao papel do curso de licenciatura em Física na formação de professores; as relações entre Ciência, Tecnologia, Sociedade, Ambiente e Desenvolvimento Humano; História da Ciência; História da Física; Introdução à pesquisa em Ensino de Ciência, Didática das Ciências; sobre a questão da disciplina "Física Conceitual Introdutória", a questão da transposição didática e introdução da Filosofia da Ciência no currículo, dentre outras temáticas relacionadas às disciplinas propostas para a nova estrutura curricular.
Observou -s -se nas falas, durante as reuniões, que uma das questões centrais foi à identidade do profissional a ser formado, quando D7 7 procura levar os demais membros da comissão a refletir sobre as seguintes questões: "O que a sociedade espera desse profissional? Quem tem competência para definir o que é ser um bom profissional? Quem define? O que é ser um bom professor?" Percebe-s-se que alguns membros da Comissão concordam que, nesse momento, deveriam focalizar o perfil do professor de Física.
No entanto, ao salientar o fato de que a constituição do Departamento é majoritariamente de bacharéis, D1 D1 tem em mente que precisava satisfazer a essa condição. Mostra-se preocupado em atender também a essa parcela de docentes e, ao mesmo tempo, seus interesses a orientar os licenciandos em suas áreas de pesquisa, conduzi-los para programas de pós-graduação em Física. Essa preocupação, embora atenda aos anseios desses docentes, acaba por descaracterizar o perfil do profissional a ser formado numa licenciatura (um professor) fato que tem sido notado como um dos problemas do Curso por parte dos licenciandos.
Percebe -s -se que existe aí uma nítida relação de forças entre os próróprios docentes membros da Comissão que tinham a tarefa de fazer a reestruturação de um Curso de Licenciatura ra sem, no entanto, se descuidarem daquilo que estava no imaginário da maioria do Corpo Docente do curso. Assim, alalguns membros da Comissão acabavam atendendo, embora de forma inconsciente, às aspirações da maioria dos membros do Departamento.
Os reflexos dessas aspirações divergentes entre bacharelado e licenciatura, e que se encontra presente nessas falas, acaba por refletir no corpo discente, conforme mostraram as falas dos licenciandos nas respostas aos questionários e
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constam nos trechos analisados, bem como na fala dos professores em exercício na rede, como mostraremos posteriormente nesta comunicação.
Somam -s -se a esse fato as incoerênc ias entre as Diretrizes para os Cursos de Física e para Formação de Professores, que acabaram por confundir os trabalhos da Comissão, colaborando para reforçar uma compreensão equivocada a respeito do que seria um curso de licenciatura e/ou bacharelado. Essas incoerências também têm origem em esforços das próprias entidades representativas (associações e sociedades) desses profissionais.
Finalizado o processo de reestruturação, os docentes da comissão chegaram a um consenso sobre os eixos básicos que confifigurariam a estrutura curricular do curso: Formação de conhecimentos básicos da Física e Ciências afins e seus instrumentais matemáticos (eixo 1); A formação didático-pedagógica do professor de Física (eixo 2); Ciência, Tecnologia, Sociedade, Ambiente e Desesenvolvimento Humano (eixo 3) e o eixo articulador que seria a Prática de Ensino de Física. E, também, concordaram com a duração de cinco anos para o curso.
## O discurso dos p professores e em exercício na rede pública
O encontro com os professores da rede estatadual 8 f 8 foi agendado a partir de sugestão de um dos membros da Comissão (D7), o qual entendia que a consulta a professores em exercício seria importante como subsídio para as atividades da 9 Comissão9 o9 . Este ocorreu no segundo semestre de 2005, nas dependências da Diretoria de Ensino local, órgão da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo.
A tônica das discussões esteve relacionada a temas como a divergência licenciatura/bacharelado presentes nos cursos de licenciatura; a falta de preparação pedagógica dos docentes nos cursos de graduação, ausência de atividades de iniciação científica na área de ensino de Física; questões relacionadas ao número reduzido de aulas de Física no Ensino Médio, as condições insatisfatórias de trabalho e as dificuldades na transformação de conhecimentos específicos em conhecimentos pedagógicos, à chamada transposição didática, dentre outras.
Na reivindicação, um dos professores (P2) procura em sua memória discursiva trazer, da época em que cursara a licenciatura, questões relativas à postura metodológica de alguns docentes: " ... que ministravam aulas, que trabalhavam com a gente como se fosse um curso de bacharelado". Na verdade, procura compartilhar com os demais professores presentes a experiência que teve no curso de licenciatura em Física; quer dizer, embora estivesse num curso de formação de professores "'a gente' se sentia realmente num curso de bacharelado e não num curso de licenciatura".
Em seguida, P2 2 procura esclarecê-ê-los, que embora o curso fosse de formação de professores, não sentiam isso, ou seja, "Q"Quando 'a gente' se sentia
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num curso de licenciatura? Quando nós tínhamos aula de Metodologia e Prática de Ensino com [...], Didática com [...], que davam ênfase maior ao ensino de Física"a".
Observa -se também que os professores levantam questões importantes a serem consideradas no processo de reestruturação curricular como, por exemplo, "É "É a mesma equipe que vai dar bacharelado? É a mesma equipe que vai dar licenciatura? Eles vão 'puxar a sardinha' para quem? Quem é o foco?" Percebe-s-se na fala desses exxlicenciandos, hoje professores em exercício, o reflexo da divergência licenciatura/bacharelado para sua atuação no Ensino Médio. Nota-se que os docentes estão apontando que não basta a reorganização curricular, mas também é necessário investir na formação desses profissionais da educação (Formadores).
## Considerações finais
Este estudo teve o objetivo de analisar o prorocesso de reestruturação de um curso de licenciatura em Física, de uma unidade universitária, de uma instituição de ensino superior pública. Para tanto, foram cerca de três anos de coleta e análise de documentos, referenciais e falas de diversas espécies, pertencentes a diferentes grupos interessados ou arrolados neste processo.
As falas dos sujeitos envolvidos na pesquisa partem de posições diferentes, com perspectivas acadêmicas ou profissionais distintas, uma vez que pertencem a estruturas diferentes, ou a hierarquias diferenciadas dentro da esfera educacional; sendo uns docentes universitários, outros, de nível fundamental ou médio, outros, ainda, licenciandos. Preocupações e demandas que nem sempre são convergentes.
Analisando as falas dos sujeitos foi i possível interpretar suas posições na hierarquia desenhada pelas instituições as que pertencem e definem, por conseguinte, posições de onde falam detalhes de suas pretensões acadêmicas ou profissionais e até outras particulares de retaguarda institucional, científica ou social que têm e o reconhecimento que a sociedade lhes confere.
A decisão da Comissão de Reestruturação em consultar os fundamentos legais que embasariam as reformas exigidas pela lei, futuros professores, professores em exercício da rede púpública e ainda docentes universitários e seus pares, em assembléia de Departamento, envolveu, assim, demandas, aspirações convergentes e divergentes. Forças diferentes, que nem sempre se somam, porque em direções e sentidos nem sempre únicos.
A combinação de forças acabou por apontar para uma proposta, ou estrutura curricular que se afigura ou parece, aparentemente, ter resolvido impasses: atende parcialmente às legislações, aparentando-s-se com um curso de formação de professores e não deixa de ter suas características de bacharelado, que pretensamente formará pesquisadores.
Estrutura pronta, sendo importante, daqui para frente, questionar como funcionará; a quem atenderá e que profissionais poderá ela gerar e, se quisermos ir além nesta linha de pensamento, que impacto essa acarretaria na sociedade.
Os referenciais citados neste estudo mostram que processos dessa natureza, embora possam academicamente ser bem intencionados, definem estruturas a serem habitadas ou seguidas por sujeitos que serão intencionalmenente moldados como futuros profissionais. E essas estruturas são sempre resultado de
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escolhas que, contigenciais ou não, conscientes ou não, acabam sendo resultantes de forças que prevalecem umas sobre as outras até que a resultante seja constituída.
Uma estrutura curricular assim planejada sem se pensar, contudo, nas disciplinas que a comporão, nos docentes que atuarão e nos alunos que lhe darão vida e consistência, por certo pouco representa. Essa construção só se completa em sala de aula e é exatamente comomo esta estrutura funcionará é que deve ser a discussão daqui para frente. E, em decisões desta espécie, a Coordenação de Curso, as Representações de Docentes e de Alunos terão responsabilidade no papel que assumirão.
Assim, independentemente de pensarmos em formar bacharéis ou licenciados, uma vez que ambos podem acabar na docência, como o faz atualmente a maioria dos cientistas do país, é prudente que as disciplinas do currículo sejam ministradas por profissionais com formação adequada. Também, no caso específico deste projeto concluído, seus eixos integradores e disciplinas que o constituem precisam ser respeitados, sob pena de toda estrutura vir a ruir.
Embora seja importante destacar o papel dessas representações, das dependências entre eixos, disciplinas, metodologias e outras demandas do projeto reestruturado, fica claro nas discussões anteriores que, se a estrutura universitária não ceder, ou seja, se uma reforma universitária considerável não tiver espaço, como exemplo, questionamento das relações entre departamento e coordenações de cursos, possibilidades de mudança, parecem estar distante.
Por outro lado, independente de formar Físicos Educadores ou Educadores em Física, é necessário que a instituição promova estudos para a elaboração de uma política explícita de formação de educadores para todos os níveis. E que esta seja amplamente discutida e claramente exposta à sociedade. Em instituições públicas, como é o caso desta cujo processo de reestruturação foi estudado, a sociedade subvencionar seu funcionamento, então aumenta a demanda por profissionais críticos, capazes de transformar a realidade que hoje se apresenta.
## Referências
APPLE, M. W. Educação e poder. Tradução de Maria Cristina Monteiro. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.
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26 a 30 de Janeiro de 2009
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