RELAÇÕES DE PROFESSORES E ALUNOS COM OS LIVROS DIDÁTICOS DE FÍSICA
Tânia Maria F. Braga Garcia
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVIII
- Ano
- 2009
- Data
- 27/01/2009
- Linha de pesquisa
- Formação Inicial E Continuada Do Professor Em Todos Os Níveis De Escolaridade
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## RELAÇÕES DE PROFESSORES E ALUNOS COM OS LIVROS ÁÍ DIDÁTICOS DE FÍSICA
Tânia Maria F. Braga Garcia 1 *
1 Universidade Federal do Paraná -PPGE/NPPD , taniabraga@pq.cnpq.br
## Resumo
Apresenta resultados parciais de pesquisa apoiada pelo CNPq cujo objetivo é aprofundar a compreensão sobre as formas pelas quais os professores de ensino fundamental e médio se apropriam dos livros didáticos em suas atividades de ensino. Em uma das vertentes da investigação, têm sido desenvolvidos estudos para compreender elementos das relações que professores em formação inicial e professores já em exercício profissional estabelecem com os livros didáticos. A justificativa para esses estudos pode ser encontrada em algumas constatações: a) a presença dos livros didáticos nas aulas, como recurso de ensino praticamente universalizado devido aos programas de distribuição gratuita aos alunos da escola fundamental; b) a ampliação do atendimento do programa para as escolas de ensino médio, nos últimos anos, que disponibiliza livros de Física a partir de 2009 para uso dos alunos; b) as transformações ocorridas nos livros a partir da produção das orientações curriculares nacionais, na década de 1990; c) a pequena presença de pesquisas sobre relações entre professores, alunos e livros no ensino, apesar do número significativo de estudos já realizados sobre livro didático. Neste trabalho são apresentados resultados de reflexões derivadas de investigação com professores de Ensino Médio e com alunos de Licenciatura em Física, para identificar a presença dos livros didáticos na sua formação anterior e para mapear seus conhecimentos prévios sobre os programas nacionais de avaliação e distribuição aos alunos das escolas públicas brasileiras. Destaca-s-se, entre outros resultados, a presença na amostra de um número significativo de alunos que não utilizaram livros de Física no Ensino Médio e que estudaram em seus cadernos com apontamentos de aula, bem como a ausência de informações sobre o PNLD e o PNLEM. Desses resultados, derivam-m-se considerações sobre dificuldades e possibilidades do uso do livro como recurso didático e apontam-m-se indicativos para professores formadores de professores.
Palavras -c -chave: Didática , Livro didático de Física , Formação de professores, Relações entre professores e livros didáticos. s.
## Introdução
" Livros didáticos são caleidoscópios" - afirma Johnsen (2001) ao discutir como esse objeto abre a perspectiva de uma diversidade de olhares aos pesquisadores interessados em estudar os livros, mas também as relações que estão envolvidas em sua produção, circulação e consumo. Nesse sentido, diz o mesmo autor, a maneira como a investigação se dirige a esse objeto depende da visão que o pesquisador tem sobre a cultura, a escola, o currículo, bem como o significado que atribui aos processos de ensinar e aprender.
A presença desse recurso nas escolas brasileiras atravessou todo o século XX e se intensificou a partir da década de 1980, quando teve início o Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) - denominação que se mantém até hoje - para
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atender todas as disciplinas escolares e com o objetivo de universalizar a distribuição para todos os alunos de escolas públicas do ensino de 1ª. a 8ª. Série. Na década de 1990, especialmente a partir dos Parâmetros Curriculares Nacionais, os livros passaram a ser avaliados em um programa - - sem equivalente em outros países - que define critérios aos quais as Editoras devem atender se desejarem incluir seus títulos nos Guias para a escolha p pelos professores.
Nos primeiros anos do século XXI, o Governo Federal instituiu o Programa Nacional do Livro de Ensino Médio (PNLEM), realizando um projeto piloto que adquiriu 1,3 milhão de livros de Matemática e Língua Portuguesa para as regiões Norte e Nordeste. Esse programa seguiu o o mesmo modelo de avaliação, aquisição e distribuição já existentes no PNLD e, atualmente, já foi estendido a todos os Estados e a todas as disciplinas que compõem tradicionalmente os currículos escolares - a Física foi incluída na última etapa.
Ora, a presença de livros nas salas de aula, como resultado de uma política pública nacional, representa um alto investimento de dinheiro público e, em outra dimensão, significa a presença de um tipo específico de recurso para apoiar o trabalho dos professores em suas aulas. O que pensam os professores sobre isso? Que relação tiveram e têm com os livros didáticos? Em que medida esse investimento público pode significar retorno aos alunos e professores em termos de conhecimento? Que espaço os livros didáticos podem ocupar nas aulas de Física?
Essas e outras questõtões devem ser tomadas pela pesquisa educacional, na direção de explicitar possibilidades e dificuldades derivadas da presença do livro nas aulas. Afinal, os dados oficiais indicam cerca de 55 milhões de matrículas de Ensino Fundamental e Médio no Brasil, no último censo escolar1 r1 , o que reafirma a importância dessa temática entre os pesquisadores ainda que fosse apenas pela dimensão quantitativa do problema.
Por outro lado, não se pode esquecer que o programa de avaliação tem, hoje, a assessoria de grupos liligados às universidades, cuja função é indicar os títulos que poderão chegar às escolas e os que não deverão ser adquiridos, fato que impõe, aos professores, alternativas que nem sempre coincidem com suas escolhas pessoais.
Com essas questões contextuais anunciadas, pode-s-se defender a posição de que os livros didáticos devem ainda ser tomados como tema de investigação, em abordagens específicas, o que será feito na primeira parte deste texto. LoLogo a seguir, serão apresentados e discutidos resultados de estutudos realizados com professores de Física no Ensino Médio e alunos de Licenciatura em Física, nos quais estão em foco as s suas relações com os manuais didáticos dessa disciplina.
## A pesquisa sobre livros didáticos
Apesar da forte presença dos livros didáticos na cultura escolar e de sua reconhecida importância na definição dos conteúdos a serem ensinados e na
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difusão de métodos de ensino ao longo do último século, é apenas a partir da 2 década de 1950 que as pesquisas voltadas a essa temática ganham espaço2 p o2 .
Segundo Choppin (2004, p. 549), negligenciado pelos historiadores e bibliófilos durante muito tempo "os livros didáticos vêm suscitando um vivo interesse entre os pesquisadores de uns trinta anos para cá", o que evidencia a expansão e o fortalecimento de um campo de investigação específico ao mesmo tempo em que alerta para as dificuldades inerentes a essa situação, mesmo porque, segundo o autor, se trata de um objeto "complexo". (p.552).
Para Choppin, as preocupações com a investigação desse tema podem ser justificadas pela "onipresença - - real ou bastante desejável - de livros didáticos pelo mundo e, portanto, o peso considerável que o setor escolar assume na economia editorial nesses dois últimos séculos" (2004, p. 551), ), o que não evita um conjunto de dificuldades, algumas derivadas do caráter recente desse campo de pesquisa, outras da ausência de obras de síntese, ou ainda da impossibilidade de recenseamento das inúmeras obras produzidas em diferentes línguas, em diferentes países .
Quanto à natureza das investigações, estudos que mapearam a produção de pesquisas sobre os manuais permitem identificar a existência de diferentes linhas ou abordagens, que já agregam um número significativo de estudos e permitem constatar o fortalecimento quantitativo e qualitativo desse campo, particularmente com relação aos estudos de natureza histórica sobre livros e edições. (Choppin, 2004).
Em estudo avaliativo sobre os manuais escolares, Reiris (2005) aponta algumas linhas de investigação que têm sido desenvolvidas em diferentes países, com diferentes abordagens e finalidades. Uma primeira linha refere-se aos estudos críticos, históricos e ideológicos sobre o conteúdo dos livros, os quais assumem que eles são um importante recurso na configuração do conhecimento nas aulas, e "indagam o que se diz, como se diz e, especialmente, aquilo que se omite". (REIRIS, 2005, p. 26). A autora inclui, aqui, os numerosos estudos sobre a história dos próprios livros.
Uma segunda linha de investigação reúne estudos formais, lingüísticos e psicopedagógicos sobre a legibilidade e compreensibilidade dos livros, sua apresentação e adequação geral (didática geral e específica). Entendido como recurso significativo nos processos de escolarização, nesta linha também é o livro que está em análise, não pelas suas implicações ideológicas, mas principalmente pela efetividade de seu uso, pela informação que contém, pelo conhecimento que apresenta ao leitor.
Um terceiro grupo identificado por Reiris agrupa estudos sobre as políticas culturais, editoriais e e a economia política do livro que se materializam na produção, circulação e consumo. Estudos no campo da sociologia crítica, baseados em Apple (1995), por exemplo, discutem os processos de seleção cultural na produção dos textos escolares, difundindo a idéia de que os livros, para além de artefatos culturais, devem ser vistos também como mercadoria.
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Como se pode depreender do exposto, há um conjunto diverso e amplo de investigações sobre os livros didáticos. Apesar disso, a busca em diferentes bases de dados os revela, ainda, uma pequena presença, no conjunto de pesquisas educacionais, de estudos que aprofundam a compreensão dos modos pelos quais os professores produzem suas aulas, particularmente, quanto à apropriação que fazem dos conteúdos e métodos presentes nos livros que utilizam. A produção do conhecimento escolar a ser ensinado nas aulas e aprendido pelos alunos resulta, em grande parte, da relação do professor com os livros didáticos, processos esses ainda pouco estudados cientificamente, tanto no Brasil como em outros países, dentro do campo das análises epistemológicas e didáticas (Choppin, 2004, p. 558).
Do ponto de vista do mapeamento de Reiris (2005), esta é a linha de estudos mais incipiente. Trata-se daquela que investiga a vida dos livros nas escolas e nas aulas, isto é, sua presença na produção do "currículo real" ou do " currículo -em - - ação". Na perspectiva do currículo como construção social, trata-se de uma linha de investigação que busca integrar o nível prescritivo e o nível interativo (Goodson, 1995, p. 78) e que precisa ser desenvolvida em uma linha menos psicologicista, segundo (Apple, 1995).
Quanto aos livros de Ciências, em estudo que tomou como material empírico os artigos publicados em periódicos da área, com a finalidade de mapear a a produção científica sobre o tema, Ferreira e Selles (2004) apontam temáticas e tendências nas pesquisas realizadas por r diferentes autores. O que se observa , também , nos resultados desse levantamento é que predominam pesquisas que examinam o conteúdo dos lilivros didáticos, sob diferentes perspectivas. Para as autoras, ainda que tenham sido apontados como os materiais educativos mais investigados, tanto em artigos publicados em anais como em dissertações e teses, é preciso destacar que o "foco da análise recai predominantemente sobre os conteúdos de ensino" (Ferreira e Selles, 2004, p. 2), indicando uma concentração temática por parte dos investigadores.
Também o livro didático de Física a tem sido objeto de investigações, como mostra o mapeamento feito pelas autoras. Ao examinar dezessete artigos produzidos a partir da década de 1980, onze dos quais referidos a esta disciplina, Ferreira e Selles concluem sobre a existência de várias formas de abordagem do objeto, mas apontam, também no caso da Física, a concentração absoluta dos estudos em torno de questões relativas ao conteúdo - erros conceituais, estruturação na forma de apresentação, assuntos/ temas específicos, comparação com idéias alternativas ou espontâneas ou de senso comum dos alunos, presença de analogias, uso do cotidiano, entre outros.
Com tais argumentos, justifica-a-se o projeto de pesquisa do qual faz parte este trabalho, denominado "O uso do livro didático no cotidiano escolar", em torno do qual se articulam investigações já concluídas e em andamento sobre os livros didáticos de Ciências, de Física e de História, nos diferentes níveis de ensino. Alguns dos estudos tomam o livro como objeto de análise, e outros focalizam as relações que professores e alunos estabelecem com esse artefato da cultura escolar.
Serão apresentadas, a seguir, questões derivadas de estudos empíricos com essa segunda abordagem, nos quais se procurou compreender elementos das relações entre professores de Ensino Médio e de alunos da Licenciatura com os livros didáticos de Física. Destaca -s -se que tais estudos se localizam no âmbito da
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Didática Geral e da Didática Específica e que, por isso, implicam a atenção do pesquisador em duas dimensões principais: quanto às dificuldades teórico-ometodológicas para captar as relações, que demandam investigações qualitativas, com uso de instrumentos além de questionários e de entrevistas estruturadas ou semiiestruturadas; e quanto às dificuldades derivadas da necessidade de aproximação com os conteúdos e métodos das ciências de referência, exigindo do pesquisador conhecimentos da Didática E Específica ou parcerias na investigação .
## Relações s entre professores e livro didático de Física
Dentro da perspectiva assumida pelo Núcleo de Pesquisas em Publicações Didáticas, estruturou-se a investigação sobre o uso do livro didático no cotidiano escolar em uma abordagem qualitativa , sustentada no pressuposto da existência de uma estrutura objetiva que organiza o mundo social, que pode ser conhecida e explicada de maneira científica, em processos de produção e e sistematização do conhecimento.
No entanto, o reconhecimento da existência dessa estrutura está fortemente associado à compreensão de que os sujeitos - - agentes sociais - - cumprem um papel relevante na apreensão e na produção do mundo social e, que, portanto, podem ser tomados como sujeitos que, por suas ações, transformam esse mundo. Assim, justifica-a-se a inserção no campo empírico para apreender duas dimensões que se articulam na esfera da vida cotidiana: de um lado, as determinações que impõem aos indivíduos uma dada estrutura social; de outro, os significados das ações dos sujeitos ao se relacionarem consigo mesmo, com os outros e com as objetivações nos diferentes espaços da vida social .
Para compreender o significado atribuído pelos docentes ao seu trabalho com o livro didático, foram realizadas entrevistas e questionários com um grupo de professores de Física que atuam no Ensino Médio, durante o ano de 2007 e início de 2008, selecionados a aleatoriamente dentro de um grupo que mantém alguma relação com a Universidade --alguns em processo de formação inicial e outros e em processo de formação continuada, em nível de pós -g-graduação. Todos os sujeitos têm formação específica em Física: cinco são licenciados em Física e dois encontravamse então em fase de conc lusão do curso, atuando com contrato temporário de trabalho na rede pública de ensino. 3
- O instrumento de pesquisa foi estruturado em duas partes. Na primeira, foram propostas questões para verificar a presença do livro didático no processo de escolarização dos professores, especialmente em seu curso de nível médio. Na segunda, colocou-se em questão o o uso do livro didático na atuação profissional desses sujeitos, por meio de questões fechadas, com escala, e questões abertas, de 4 caráter opinativo (Ghiglione e Matalon, 2005). 4 Aqui serão destacadas apenas as análises referentes à primeira parte do instrumento.
A pesquisa sobre formação de professores tem colocado em destaque, há algum tempo, a importância que as trajetórias pessoais de formação têm na construção de diferentes formas de ser professor. Ao lado dos estudos sobre
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memória e identidade profissional, uma outra possibilidade teórica de análise dessas relações se ancora no conceito de experiência, como elaborado em Dubet (1996). Para esse autor, "a identidade social não é um 'ser', mas um 'trabalho'." (p. 16). Nessa perspectiva, compreender as relações dos professores com os livros didáticos implica a compreensão do "jogo de tensões" em que são construídas as suas experiências didáticas com esse recurso o de ensino.
No estudo realizado com sete sujeitos (GARCIA, GARCIA e PIVOVAR, 2007), "apenas dois professores referiram-se à presença do livro didático em sua formação no ensino médio, em algumas disciplinas e em alguma série do curso. Desses, apenas um utilizou, enquanto aluno, o livro didático de Física" a" . Para os demais sujeitos, os estudos foram feitos com apoio em algum texto ou apostila. No entanto, destaca-s-se a referência, feita também pela maioria (cinco professores), às práticas de estudar com os cadernos, contendo anotações copiadas dos apontamentos e exercícios registrados pelos professores no quadro de giz.
Esta questão é relevante diante da idéia de que a experiência social dos sujeitos nos processos de formação afeta a forma como compreendem sua a ação profissional e influencia a construção de determinados modelos de trabalho na sala de aula. A ausência de livros didáticos para uso dos alunos na maior parte das escolas públicas e a conseqüente construção de um modo de dar aulas de Física anotando conceitos e exercícios no quadro de giz - experiência vivida pelos professores em sua própria formação - - são elementos que se incorporam ao repertório de estratégias para "dar aulas de Física" no Ensino Médio e que são freqüentemente relatadas tanto por pes quisadores como pelos alunos em formação e por professores ao descreverem suas rotinas de trabalho .
Quanto às formas de uso, a maioria dos sujeitos participantes referiu-s-se ao planejamento de aulas como atividade em que os livros didáticos estão presentes . Neles, os professores afirmam buscar referências, exercícios e experimentos para o trabalho com os alunos. Nesse sentido, as orientações metodológicas que têm, hoje, presença obrigatória nos livros como exigência do Programa Nacional de Livros Didáticos e do Programa Nacional de Livros para o Ensino Médio, foram consideradas necessárias pela maioria dos sujeitos. Informaram que lêem e aproveitam as sugestões em seu trabalho, ressaltando que essas orientações podem melhorar a qualidade das aulas para muitos professores.
Um, dos sujeitos indicou os elementos que espera encontrar nas orientações a fim de utilizáálas na construção de suas aulas: "O apoio pedagógico feito por alguns livros é um fator de grande importância ao professor, o mesmo pode ter soluções estratégicas para discernir dúvidas, que frequentemente acometam os alunos e, muitas vezes o próprio professor..." . Esta posição sugere o entendimento de que os professores usam os livros também para estudar, definindo um outro tipo de relação com esse recurso: tem funções no seu ensino, mas também na sua aprendizagem.
Quanto às características do livro didático que seriam desejáveis pensando nos seus alunos, dois dos professores em formação inicial convergiram para a presença de enfoques "mais conceituais" . Os professores licenciados apresentaram opiniões mais detalhadas e ampliadas, fato que pode ser indiciário de que " a experiência com o ensino e a continuidade dos estudos após a formação inicial permitem a eles um olhar multiperspectivado sobre o livro didático" o" (GARCIA, GARCIA e PIVOVAR, 2007). Entre as indicações feitas por esse grupo para um livro
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de Física ideal, destacam-se entre outros: linguagem menos formal , inserção de problemas -d-desafio; situações cotidianas; experimentos de fácil manuseio; deve ve ser colorido e bem apresentatado, para que o aluno sinta prazer em utilizá-lo; mostrar o processo de construção da ciência; permitir a integração dos conteúdos da Física e também com as mais variadas ciências.
## Relações dos alunos de Licenciatura em Física com os livros didáticos
Com objetivos semelhantes à pesquisa realizada com professores de Física, foi desenvolvido um estudo com alunos de licenciatura em Física a da Universidade Federal do Paraná, no momento em que começavam a cursar as chamadas "disciplinas pedagógicas". O instrumento, na forma de questionário, incluiu uma primeira parte para verificar a presença do livro didático no processo de escolarização dos alunos durante o Ensino Médio, bem como seu grau de conhecimento sobre os programas de avaliação e distribuição de livros pelo Governo Federal; e uma segunda parte com questões fechadas, para levantar sua opinião em relação a afirmações sobre o papel do livro para alunos e professores 5 .
Em um grupo de vinte e seis alunos, embora dezoito informassem ter usado livros didáticos no Ensino Médio, treze e não tiveram contato com livros de Física nessa etapa da sua escolarização. Apostilas foram materiais bastante citados pelos alunos, mas um número significativo de alunos (sete) indicou que as práticas de de ensino eram caracterizadas pela exposição oral, apoiada no quadro de giz, com anotações para copiar no caderno. Também houve referências à prática do ditado do conteúdo pelo professor.
Apenas um dos sujeitos participantes negou ao livro algum papel na formação dos alunos. Os demais apontaram algumas contribuições, com destaque ao fato de que evitam para o aluno as cópias do quadro, apontam os conteúdos (programas) de forma mais completa, orientam os professores e os alunos, ampliam o tempo para explicações.
Uma das respostas destaca a positividade da convivência do aluno com dois tipos de explicação - - a do livro e a do professor - o que, para este sujeito, amplia a possibilidade de compreensão do assunto, pois é "uma outra forma de explicação do conteúdo", afirma ele. Essa possibilidade de acesso a outras explicações também foi apontada como um papel que os os livros podem cumprir em relação ao próprio professor: "Dão idéias ao professor de novos pontos de vista e abordagens".
Das respostas apresentadas na segunda parte do questionário, respondido por vinte e seis alunos, pode-s-se destacar a predominância de opiniões positivas com relação à presença de livros didáticos nas salas de aula de Física. A necessidade dos livros para os professores foi apontada por catotorze alunos, mas em outra afirmação dezoito relacionam a importância do uso do livro ao fato de que nem todos os professores são bons professores. Portanto, para esses sujeitos, o reconhecimento de maior qualidade profissional está associado a uma menor
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necessidade de utilizar livros didáticos. Por outro lado, nenhum aluno negou que o livro didático pode ser um bom apoio ao professor, no preparo de suas aulas.
Para sete alunos, o livro tem a função de ensinar Física, mas a maior parte dos sujeitos entende que o ensino é função do professor, e o livro exerce um papel secundário, de apoio ou direcionamento, e também como fonte de "estudo" para o aluno. Nesse sentido, os alunos estabelecem uma diferenciação entre estudo e ensino - - revelando indícios de uma determinada compreensão sobre o papel mediador que o professor desempenha em relação ao conhecimento.
Um ponto interessante a destacar é que dezenove alunos não tinham informações sobre os programas de distribuição de livros às escolas públicas e, quando tinham, as informações eram inadequadas. Apenas um deles fez referências mais precisas, demonstrando conhecimento parcial, porém adequado. Considerando -se que esses alunos já haviam cursado, em sua maioria, alguma das "disciplinas pedagógicas" em semestres anteriores e que cursavam outras no momento da aplicação do questionário, é relevante apontar e problematizar esse desconhecimento em relação ao tema, pelos mesmos motivos que são utilizados para justificar r as pesquisas: recursos públicos investidos e presença a universalizada desse artefato da cultura escolar nas aulas das escolas públicas brasileiras.
## Considerações finais
Os resultados apresentados representam recortes de uma pesquisa mais ampla, que tem o objetivo de articular diferentes elementos da relação de professores e alunos com os livros didáticos em algumas áreas de conhecimento. Nos estudos relatados, alguns pontos merecem destaque na forma de indicativos para o trabalho com alunos em formação para a docência.
Um primeiro ponto está relacionado à constatação da ausência dos livros na formação de ensino médio de muitos alunos - eles informaram que não tiveram experiências de sala de aula apoiadas nesse recurso didático, e que seu aprendizado em Física se deu algumas vezes com apostilas ou materiais preparados pela própria escola e, boa parte das vezes, por meio da cópia e ditado de conteúdos preparados pelo professor. Atividades dessa natureza têm uma característica predominante de reprodução, com vistas à memorização, uma vez que acabam por impor ao docente a seleção de fórmulas e definições a serem registradas pelos alunos, acrescidas de exercícios/problemas para resolver.
Também entre os professores entrevistados foi constatada a ausência de livros em sua formação, observando-se, portanto, aqui, a rereprodução das condições de formação predominantes no grupo, uma vez que a maioria dos alunos de Ensino Médio desses professores não apóia seus estudos e aprendizagens em livros didáticos utilizados nas aulas, mas em textos fotocopiados ou nas anotações de aulas em seus cadernos.
Um segundo ponto de convergência entre os dois estudos está na pouca informação sobre os programas de distribuição de livros do Governo Federal. Alunos e professores conhecem pouco sobre o tema. Nas escolas, a escolha dos livros é fefeita, segundo os professores, com poucos debates, e a análise dos títulos nem sempre é feita coletivamente; muitas vezes, quem escolhe o livro em um ano já não se encontra mais na mesma escola no ano seguinte. Por outro lado, os alunos em
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processo de formação para a docência são pouco estimulados a conhecer, analisar e discutir alternativas para se utilizar os livros didáticos em aulas de Física.
Entende -se que os resultados dos estudos realizados já são suficientes para alertar os formadores de professores para a necessidade de incluir a temática dos livros didáticos e em seus cursos e disciplinas. A universalização do atendimento pelo Programa do Governo Federal nesta última década - - ensino fundamental e médio, em todas as disciplinas que compõem a estrutura ra curricular tradicional -, acrescida das transformações que os livros vêm sofrendo por força das avaliações oficiais e o volume de recursos públicos investidos parecem ser argumentos suficientes para justificar essa a inserção . Além disso, a convergência das as pesquisas quanto ao fato de que os livros foram e continuam sendo um recurso o freqüente e intensamente utilizado nas aulas também pode estimular pesquisadores na direção de investigações que favoreçam novas combinações para se olhar, como sugerido por Johnsen, esse "caleidoscópio".
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