FORMAÇÃO DE PROFESSOR-PESQUISADOR: A IMPORTÂNCIA DA PRÁTICA DOS PROCESSOS DE COLETA E DE ANÁLISE DE DADOS NA INICIAÇÃO À PESQUISA
Suzana Maria Coelho, Juliana Mariani Santos, Rita Mara Bueno Timm
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVIII
- Ano
- 2009
- Data
- 27/01/2009
- Linha de pesquisa
- Formação Inicial E Continuada Do Professor Em Todos Os Níveis De Escolaridade
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## FORMAÇÃO DE PROFESSOR Á -PESQUISADOR: A IMPORTÂNCIA Ç DA PRÁTICA DOS PROCESSOS DE COLETA E DE A ANÁLISE DE DADOS NA INICIAÇÃO À PESQUISA
Suzana Maria Coelho¹, Rita Mara B BuenoTimm², Juliana Mariani Santos³
1 Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul/Faculdade de Física/a/Grupo de Pesquisa em Didática das Ciências , coelho@pucrs.br , suzanacoelho@terra.com.br
2
Rede Metodista de Educação do Sul - Colégio Metodista Americano/ Grupo de Pesquisa em
Didática das Ciências
,
ritamarab@yahoo.com.br
## Resumo
O presente trabalho discute a importância da prática dos processos os de coleta e de análise de dados em atividades investigativas na formação inicial e continuada de professores. A coleta e a análise qualitativa de dados têm-se constituído numa dificuldade dos estudantes nos cursos de Graduação e de Pós-graduação . Tais dificuldades tornam -se evidentes nos trabalhos finais de conclusão ou nos relatórios finais no caso dos cursos de Mestrado. No contexto de projetos desenvolvidodos na Graduação e na Pós-graduação com alunos do Ensino Fundamental e Médio , são apresentados exemplos de técnicas de coleta de dados, como a da observrvação participante e a da entrevista, assim como de análise desses dados a partir ir de representações gráficas, de conteúdo de transcrições de produções orais, de diários de bordo e de avaliações de estudantes-p-professores-p-pesquisadores . São também exemplificadas análises de avaliações considerando a percepção do aluno a respeito dos processos os de ensino-aprendizagem. Destaca-s-se a importância dos processos de coleta e análise e de dados na pesquisa e da necessidade desta prática desde a formação inicial do professor-r-p-pesquisador, no sentido de possibilitar-r-lhe uma maior compreensão das dificululdades dos alunos, dos próprios processos os de ensinoaprendizagem e da apropriação de ferramentas indispensáveieis em sua iniciação à prática da pesquisa. Desta forma, o o professor-r-p-pesquisador adquire melhores condições e habilidades para escolher e aplicar métodos e instrumentos de coleta e análise de dados em atividades de pesquisa. Além disso, a integração entre alunos da Graduação e da Pós -graduação, possibilitada em projetos comuns, , constitui-i-se em um fator responsável por trocas de experiências e aquisição ão de novos saberes e visões.
Palavras -chave: Formação de professor-pesquisador; iniciação à pesquisa; prática de processos de coleta e análise de dados.
## Introdução
É comum observar -se em trtrabalhos finais de conclusão de de cursos de Graduação ou relatórios de cursos de MeMestrado uma ênfase na fundamentação teórica, em detrimento da coleta e da análise dos dados. Embora vários autores que tratam da metodologia da pesquisa sejam referendados neste tipo de trabalho, resultados apresentados demandam , com freqüência , detalhamento na
análise. A realização meticulosa da coleta e da análise de dados constitui, assim, uma dificuldade em função de uma formação que não contempla esses processos inerentes a atividades de pesquisa. Em pesquisas com abordagem metodológica qualitativa ou quali-quantitativava , a análise é, muitas vezes, um ponto que deixa a desejar.
Por essa razão , considera -se importante criar oportunidades para que os estudantes , desde sua formação inicial , possam apropriar-se de técnicas básicas como a da entrevista, observação participante, questionários , entre outros instrumentos de coleta , integrantes de metodologias aplicadas na prática da pesquisa .
Neste trabalho, são apresentados exemplos de técnicas de coleta de dados, como a da observação participante e a da entrevista, assim como de análise desses dados. Essas atividades foram precedidas por estudos realizados na disciplina de Didática das Ciências, envolvendo trabalhos de pesquisadores na área de ensino de Ciências, tais como Astolfi (2001, 1988), Giordan (1996,1989), Coelho (2006, 2005, 2002, 2000, 1991), Pérez (1988), Halbwachs (1975), S Séré (2003), Demo (2000), Moraes (2000), Arcá (1989).
A utilização dessas técnicas exige um saber-fazer que pode ser aprimorado pela experiência, como saber filmar, fotografar, gravar, elaborar questões para entrevistas e questionários.
Da mesma forma, no que se refere à análise de dados, habilidades para transcrever, criar categorias, analisar representações gráficas são fundamentais na formação de professores-pesquisadores.
## Entrevista com alunos de Ensino Fundamental sobre a percepção do meio ambiente e questões ambientais
Em curso de Mestrado , na disciplina de Didática das Ciências foi realizada esta pesquisa que objetivou identificar conhecimentos e percepções de alunos de Ensino Fundamental sobre questões ambientais atuais. Foram entrevistados três alunos de quinta a sétima séries de escolas de Porto Alegre.
Foi escolhida a entrevista semi -aberta como forma de coleta de dados , havendo um roteiro com questões-chave sobre o tema de interesse (Figura 01) , mas havendo também flexibilidade, estando o pesquisador aberto à possibilidade de trabalhar com questões que surgem no decorrer da entrevista . Existem outras formas de entrevista nas quais não se faz uso de um roteiroro , entrevista dita aberta ou, ao contrário, este instrumento pode ser rígido , havendo um roteiro a ser seguido do inicio ao fim, e, neste caso a entrevista é dita diretiva. A escolha do tipo de entrevista semi-aberta deu-se pelo caráter exploratório da pesquisa, o roteiro ajuda o entrevistador a seguir uma linha de pensamento, a não se desviar r do tema de interesse, promovendo alguma estrutura às conversas. Ao mesmo tempo, este tipo de entrevista permite que novos assuntos que não estavam programados surjam e que os entrevistados
possam fazer novos questionamentos, o entrevistador podendo levá-los em conta nos diálogos estabelecidos .
As questões-chave permitiram que os diferentes sujeitos da pesquisa abordassem os mesmos temas e, a partir destes, desenvolvessem suas idéias e opiniões, expondo suas idéias prévias sobre os diversos assuntos referentes ao meio ambiente e preservação. No decorrer da entrevista , surgiram assuntos que não estavam na lista de perguntas do roteiro previamente elaborado; assim , a entrerevista foi conduzida de acordo com o que os sujeitos elaboravam e expunham. No final da entrevista, os sujeitos foram solicitados a representarem por meio de um desenho o o meio ambiente, d da forma como o consideravam.
Quadro 01: Roteiro da entrevista semi -aberta com exemplos de questões-chave
- 1. O que você entende por meio ambiente?
- 2. Qual a importância dele para você?
- 3. Quais os cuidados que você e sua família têm com o meio ambiente?
- 4. O que você sabe a respeito da questão do aquecimento global?
- 5. Como as mudanças climáticas afetam a vida na Terra?
- 6. O que nós, humanos, temos a ver com essas questões?
- 7. Há alguns meses atrás foi ao ar uma propaganda da Petrobrás que dizia: "A natureza é fonte de recursos inesgotáveis". O que você pensa sobre essa idéia?
- 8. Essas informações que você tem, vieram da escola, de sua família ou de outro meio de comunicação (televisão, revistas, jornais, internet, rádio, propagandas)?
- 9. Desenhe o meio ambiente. O que ele é, o que representa para você, como você enxerga o meio ambiente.
Existem estratégias que possibilitam o confronto das idéias e a reflexão por parte do entrevistado e auxiliam o entrevistador a esclarecer algumas falas durante a entrevista. É possível observar questões envolvendo a semântica, contradições, conhecimentos de senso comum e evoluções em conceitos científicos. Assim, as estratégias e intervenções, ou não intervenções, do entrevistador são importantes na pesquisa, algumas utilizadas neste trabalho são: a técnica de repetir um conjunto de palavras, chamada de eco ou espelho, a reformulação de partes do discurso do sujeito, a utilização de silêncio, a reformulação da pergunta, o reforço da fala do sujeito com outra pergunta e a formulação de questões "neutras", pedindo para o aluno explicar, repetir ou dizer se concorda com alglgo dito (COELHO, 2000):
Mestranda -Vocês já ouviram falar que nós temos que cuidar também da nossa água?
Todos - "Sim".
Mestranda -E porque cuidar da água?
Sujeito 3- "Porque um dia pode acabar".
Mestranda -Vocês acham que a água pode acabar?
Sujeito 3"Sim".
Sujeito 2- "Um dia vai acabar".
Sujeito 1- "Eu acredito que sim. Porque as geleiras que tem são tudo de água salgada, tem de água doce, mas é pouco".
A entrevista foi registrada com gravador e transcrita. A transcrição, assim como a análise qualitatativa dos dados , é um processo longo e que requer atenção. A metodologia utilizada foi a da análise textual discursiva (MORAES , 2007, 2004) na qual foi feita uma leitura cuidadosa do material após a transcrição, seguida por uma unitarização das informações. Com as as falas dos alunos , primeiramente organizadas em unidades por semelhança de idéias, foi feita uma categorização agrupando melhor e organizando novamente as informações contidas nos depoimentos. Após processo de elaboração das categorias , é possível interpretar as informações, a fim de confeccionar um novo texto, com novas idéias e percepções sobre as informações brutas.
Os resultados da análise das falas e dos desenhos colocaram em evidência a presença de contradições entre as idéias expressas nestas duas formas de linguagem. Os desenhos contradizem alguns depoimentos falados. Nestes, os alunos falam na poluição e na sujeira que vêem todos os dias na rua e na escola. Por exemplo, quando se referem ao lixo:
Sujeito 1 - "Na hora de botar no caminhão, se põe tudo junto".
Sujeito 3 - "Cada um tem que fazer sua parte".
Sujeito 2 - "Quando não tem lixeira boto o lixo no bolso da mochila".
Mestranda - O que é, pra ti, a pior coisa que fazemos em relação ao meio ambiente?
Sujeito 3 - "Jogar lixo na rua. Porque ue entope os bueiros e transborda".
Sujeito 1- "Andar de carro. Aquele negócio que fazem com o carvão, na Amazônia... que cortam as árvores e queimam par fazer carvão. Carvoaria né? A fumaça e tão desmatando ela".
Sujeito 2 - "Jogar lixo na rua".
Sujeito 1 - "Usar carro. Acho que os elétricos que estão fazendo são melhores, os que usam água também."
Mestranda - Porque vocês acham que tantas pessoas não cuidam ou não se preocupam com o meio ambiente?
Sujeito 2 - "Acho que não dão valor pras coisas".
Sujeito 1 - "Porque não tem ninguém pra dizer essas coisas pra elas. A televisão tem que falar mais sobre isso que ta acontecendo".
Mestranda - E vocês acham que se as pessoas tivessem esse conhecimento elas cuidariam?
Sujeito 2 - "Aí sim".
Sujeito 1 - "Se tivesse alguém pra ficar em cima, tipo, se uma pessoa joga o lixo no chão a outra pedisse pra juntar, acho que melhoraria muito".
Sujeito 3 - "Elas têm que aprender que não pode ficar jogando lixo em todo lugar".
Sujeito 2 - "O chiclete leva milhões de anos até... se acabar".
Sujeito 1 - "A garrafa de vidro é tempo indeterminado, a PET leva 500 a 600 anos".
Durante a entrevista , os sujeitos comentam freqüentemente sobre as ações negativas da humanidade perante a natureza, fazem referêrência a hábitos cotidianos, como sujar o chão, desrespeitar a natureza , agredi-la e aparece também a descrença na humanidade pela destruição do meio ambiente , através dos processos de desmatamento e depredação. Ao final da entrevista, entretanto, quando lhes foi solicitado um desenho do meio ambiente surgiram imagens sem a presença humana, com água abundante e limpa, paisagens bonitas e preservadas. Pôde-se observar que os alunos, de acordo com os depoimentos, manifestaram sentimentos de que o meio ambiente é essencial para a sobrevivência dos seres vivos, têm consciência de que ele pode estar poluído ou não. Sobre as falas dos sujeitos e o conflito entre as idéias presentes nos diálogos e as representações gráficas do meio ambiente, a mestranda relata:
Os alunos falaram muito em poluição, em sujar o chão, em não ter respeito com a natureza. Disseram que acreditavam que o homem destruiria a natureza se continuasse com os hábitos de hoje. Mas, quando foi pedido que fizessem o desenho do meio ambiente, surgiram imagens de uma natureza bonita, a, do meio ambiente limpo, saudável e sem a presença do homem .
Figura 01: Representações do meio ambiente por alunos de EnEnsino Fundamental
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O desenho seria uma representação de nossa linguagem verbal? l? Uma maneira de representar o pensamento e não tem necessariamente relação com o que é dito? Será que os desenhos expressam a vontade dos alunos de um meio ambiente saudável e em equilíbrio? Nesta pesquisa ficou claro que houve uma discrepância entre o que f foi dito e o que se representou graficamente.
A partir desta análise, surgiu o questionamento do porquê desta diferença entre a linguagem oral e gráfica. Uma nova hipótese para investigação
aparece em conseqüência da interpretação das informações obtidas dos dados desta entrevista exploratória.
É possível perceber que a neutralidade não existe . Durante os diálogos é difícil não influenciar os sujeitos. Nesta coleta de dados , surgiram muitas dúvidas acerca da atitude a ser tomada pelo entrevistador. Freqüentemente os entrevistados esperavam em silêncio uma nova pergunta ou comentário por parte da entrevistadora, até mesmo esperavam que respondesse a própria pergunta. Mesmo com o roteiro , é importante lembrar-se de não direcionar as respostas dos sujeitos para o que se deseja ouvir. Manter uma certa neutralidade foi um desafio.
Esta prática foi importante para o conhecimento dos sujeitos, de seus saberes e interesses e , também , da própria entrevistadora. O pesquisador acaba por pesquisar a si mesmo, acaba por colocar-se na pesquisa por meio de seus próprios interesses, crenças, conhecimentos, dúvidas e curiosidades. É possível dizer que somente se pesquisa o que se quer vir a conhecer, assim, a pesquisa em si não é neutra. Isso somente é possível perceber pela prática.
Buscar as concepções dos alunos, identificar dificuldades e possíveis obstáculos com o auxilio da entrevista é importante para o professorpesquisador aperfeiçoar sua prática docente e conhecer melhor seu público.
Com a entrevista [...] pude perceber novas formas de conhecer, questionar, escutar e de relacionar-me com os alunos.
Tive muita incerteza quanto ao método e a maneira de entrevistar. Sem saber quando interromper ou falar algo para não influenciar os alunos. Manterrse neutra em uma pesquisa é impossível. Mas tentar ser imparcial e não direcionar os alunos ao que se quer ouvir é algo que requer muita prática.
[...] tornei-i-me agente construtora de meu próprio conhecimento e formulei novas teorias ao longo da pesquisa .
Um dos aspectos mais interessantes da prática da pesquisa foi, na visão do professor-pesquisador, perceber que nem tudo ocorre conforme o planejado, surgindo, muitas vezes, novas possibilidades de trabalho, os sujeitos da pesquisa podendo c contribuir muito além do esperado.
## Observação participante no ensino de conceitos de Física
O objetivo desta investigação foi compreender como alunos do Ensino Fundamental e Médio constroem conceitos científicos a partir de seus conhecimentos prévios, investigar reações e atitudes desses alunos, assim como dificuldades e obstáculos evidenciados durante as situações de ensinoaprendizagem propostas com atividades experimentais no campo da eletricidade. O projeto foi um trabalho integrado por seis estudantes da Graduação da Faculdade de Física, cursando a disciplina Metodologia do Ensino de Física, e pela mestranda, cursando a disciplina Didática das Ciências, sob a orientação e coordenação da professora dessas disciplinas.
As atividades propostas visaram trabalhar os seguintes conceitos e noções: circuito elétrico simples, circuito aberto e fechado, a função dos diferentes elementos de um circuito, a noção de isolantes e condutores, a caracterização das associações em série e paralelo e a explicação física dos fenômenos considerando o conceito de energia.
A abordagem metodológica da investigação foi qualitativa, tendo-se utilizado a técnica da observação participante. A importância desta técnica reside no fato de aprofundar todo um universo de "significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à o operacionalização de variáveis" (Minayo, 2004).
Participaram, como sujeitos da investigação, três alunos da EJA cursando a oitava série do Ensino Fundamental e segundo ano do Ensino Médio, e, ainda, quatro alunos do primeiro ano do Ensino Médio, ambos os grupos de escolas particulares de Porto Alegre. As atividades foram realizadas em dois encontros, totalizando oito horas.
Os dados foram coletados a partir r de gravações em áudio e vívídeo das manifestações dos envolvidos, das produções escritas dos alunos, fotos, de observações efetuadas pelos estudantes-professores-pesquisadores em um diário de bordo, assim como observações de dois observadores externos, estudantes de Física. As gravações transcritas, com possibilidade de recurso ao áudio para precisar as informações duvidosas, foram importantes para o estudo da dinâmica do processo d de produção do conhecimento.
Diferentes tarefas foram realizadas durante o processo da pesquisa, tais como controlar os gravadores, filmar, interagir com os alunos, fotografar, distribuir materiais, coordenar as atividades, observar determinados aspectos do comportamento e reações dos alunos, foram inicialmente atribuídas aos estudantes -professores-pesquisadores, mas algumas delas acabaram por ser compartilhadas no decorrer do desenvolvimento das atividades, criando-se uma dinâmica cooperativa na realização das tarefas.
Os dados obtidos foram analisados pela técnica de análise de conteúdo para que se pudesse compreender como os alunos foram construindo seus conceitos a partir das suas experiências.
Após a realização das transcrições, revisadas por vários dos pesquisadores, efetuou-u-se a seleção das categorias de análise, com diferentes leituras do material transnscrito, mediadas em discussões durante as aulas das disciplinas de Metodologia do Ensino de Física e de Didática das Ciências.
A análise dos dados , coletados pelos diferentes instrumentos de coleta citados anteriormente , permitiu uma reflexão a respeito do conhecimento prévio dos alunos, de suas atitudes e do processo de mediação tendo por base a concepção construtivista.
As múltiplas possibilidades de intervenções, as dificuldades de mediação e o papel das intervenções na construção do conhecimento científífico
a partir do do conhecimento prévio do aluno são alguns exemplos de categorias construídas ao longo do processo de análise .
A análise dos documentos escritos, relatórios e desenhos, foram reinterpretados pelos estudantes que reconstruíram as representações reais dos circuitos, realizadas pelos alunos, transformando-as numa representação simbólica, segundo a norma científica. Esse procedimento auxiliou os pesquisadores a identificar as estratégias adotadas pelos sujeitos da pesquisa, permitindo-lhes a busca de intervenções necessárias para a correção dos erros conceituais e a construção do conhecimento dos alunos.
As Figuras 02 e 0 03 ilustram exemplos destas representações.
Figura 02: Desenho de aluno representando o curto circuito em um circuito elétrico
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Figura 03: Representação simbólica do circuito da Figura 02 realizada pelo estudanteprofessor-r-p-pesquisador.
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Assim, por exemplo, nas FiFiguras 02 02 e 03 é possível identificar o erro cometido pelo sujeito na representação do circuito em paralelo.
Na disciplina de Metodologia do Ensino de Física, os estudantespesquisadores analisaram as representações gráficas dos alunos, interpretandoas e transformando numa linguagem científica essas representações. Isso permitiu aos estudantes analisar e interpretar como os sujeitos da pesquisa compreenderam os conceitos e noções associados ao estudo dos circuitos elétricos. A análise de representações gráficas, construídas pelo aluno, abre ao professor possibilidades de novas compreensões a respeito de como o aluno pensa e aprende.
Exemplo de análise da percepção dos processos de ensinoaprendizagem dos alunos do Ensino Fundamental participantes respondendo às perguntas do Quadro 0 02.
Quadro 02: Exemplo de questionário da auto-avaliação dos alunos participantes do projeto
- 1. O que você pensa a respeito da aprendizagem de Ciências (Física) baseada na pesquisa através da experimentação?
- 2. Quanto à aprendizagem de conceitos, o que foi possível aprender?
- 3. Que aspectos positivos ou negativos você registrou? Dê sugestões.
Foram elaboradas três categorias de análise a partir das respostas a essas perguntas , as quais são apresentadas a seguir com alguns exemplos de extratos ilustrativos:
- -A importância da relação entre a teoria e a prática.
Sujeito C -Podemos percebê-l-los somente quauando vamos utilizar os conceitos na prática ou em experimentos, daí é que percebemos os conceitos na prática ou em experimentos daí é que percebemos o quão importantes são os conceitos e pra que servem.
- -Importância de aspectos relacionados a processos de aprendizagem.
Sujeito B -Ao meu modo devemos estimular e aprimorar esses conceitos de aprendizados, pois aumenta o censo crítico a área de debates e amplia mais os conceitos para acusar a capacidade de raciocino dentro de um trabalho democrático em busca do conhecimento.
- -Aspectos atitudinais, como a motivação, curiosidade etc.
Sujeito A - Eu acho que a aprendizagem de ciências (física) baseada na pesquisa, muito mais interessante, pois desperta nossa curiosidade, fazendo com que quanto mais descobrimos, mais resultados queremos buscar. Encontrei maior facilidade de compreensão, as tarefas são realizadas com mais prazer e interesse.
A seguir , são apresentados exemplos de avaliações de estudantesprofessores-pesquisadores, assim como de observadores externos.
Na percepção da Mestranda:
Essa experiência favoreceu a tomada de consciência sobre o papel do ensinar e do aprender na missão do professor, a compreensão do ensinar e do aprender na perspectiva do educar pela pesquisa que exige todo um envolvimento e um contínuo estudar por parte do professor. O papel da escola deve ser construído na perspectiva da pesquisa, pois este é um caminho a vislumbrar pelo professor instigando as capacidades de criação, oferecendo ao aluno condições para desenvolver-se enquanto cidadão .
Três exemplos de diário de bordo de graduandos de Física em experiência de iniciação à pesquisa:
Estudante -p -professor-p-pesquisador A -Adorei realizar o projeto de iniciação científica. Desde a sua construção a sua realização e pósdiscussão. A construção foi muito interessante e muitas vezes, nada agradável, pois a dificuldade de encontrar um conceito a ser trabalhado e o que seria trabalhado em cima deste conceito, que alunos iríamos convidar, o que observar neles gerou nos colegas de turma um certo choque de focos diferentes, mas que após muito diálogo foi resolvido. Percebi que a forma que nossa turma se organizou para trabalhar com os estudantes foi muito produtiva. Pois através das próprias respostas dos alunos conseguimos questioná-l-los novavamente.[...] Por exemplo, diferenciar um circuito aberto de fechado, lâmpadas em paralelo e em série, materiais condutores e isolantes. Posso destacar que senti que os alunos saíram satisfeitos dos dois encontros e que vieram com muita disposição para o segundo encontro. Uma porque nosso trabalho envolveu muita coisa do dia -a-dia de cada um deles, outra porque deixou um pouco mais claro alguns conceitos de Física. Adorei o momento em que eles tomaram a liberdade de desafiar a nós, os seus professores, sobre a montagem da chave hotel. Fiquei muito satisfeito e espero que possa realizar mais atividades nesse sentido, pois com certeza iria poder aproveitar bem mais os momentos, pois já terei uma certa prática. Espero que um dia eu consiga aplicar algumas coisas na minha sala de aula.
Estudante -p -professor-p-pesquisador B -No primeiro encontro experimental com os alunos da educação básica puderam-se analisar alguns fatores os quais puderam ter sido pré-determinantes no comportamento dos alunos envolvidos, tais como: inexperiência com tais ocasiões e fatos que viriam a ocorrer, introversão perante situações de interação social, receio de expor idéias e opiniões e principalmente o medo de errar. Com o decorrer das atividades, pode-ese analisar que os mesmos foram intererpretando as propostas e adequando-se cada vez mais com a situação apresentada. Isso talvez indique uma possibilidade de continuação do trabalho proposto, o, podendo-se até, quem sabe, ser aplicado em sala de aula pelos futuros professores de Física. Algumas observações puderam ser consideradas relevantes, em relação aos aspectos atitudinais apresentados pelos alunos participantes, tais como: interação-ocomunicação, curiosidade, espírito crítico e iniciativa. Puderam-se
relatar, durante o desenvolvimento do trababalho, algumas passagens em que os alunos externam algumas destas características citadas.
Estudante -p -professor-p-pesquisador C -Nessa passagem ficou evidente minha dificuldade ao retornar a questão principal que era o estudo de circuito aberto e fechado. FiqFiquei muito incomodado com os erros conceituais sobre chave disjuntor sua aplicação em um circuito elétrico. A questão do circuito do chuveiro e principalmente seu funcionamento, percebi que era uma questão do dia a dia de todos e que seria muito proveitos o para todos explicar-l-lhes como é o real funcionamento e como devemos proceder para a troca perfeita da peça. No entanto ao final da explanação altamente técnica apesar do meu esforço para torná -l -la o mais simples e na tentativa de usar conceitos e terminologias comuns ao entendimento de todos e ao mesmo tempo muito preocupado com a terminologia física destes conceitos já que estava sendo observado por professores e colegas fui totalmente inábil ao discorrer sobre o tema causando mais confusão e apenas com o sentido por parte destes alunos de que o professor sabe como funciona, mas se vocês quiserem realmente entender o funcionamento disso terão que se esforçar muito mais! Dessa forma não atingi o objetivo simples de relacionar o chuveiro e sua chave de contato por diferença de pressão hidráulica a uma chave de contato de pressão mecânica como a da lâmpada.
Exemplo de diário de bordo de estudante de Física como observador externo:
O trabalho dos estudantes es do curso de graduação em Física [...] na disciplina de Metodologia do Ensino de Física, propôs uma aula experimental-teórica, a respeito de sistemas elétricos e aplicações, em busca das idéias previas dos alunos da educação básica. O ambiente em que há grande proximidade professor-r-aluno, proporciona maior interação, responsável no construtivismo, pela formação do conhecimento. O método interrogativo o qual o professor faz perguntas estratégicas, foi eficiente na busca das concepções prérévias, cumprindo o objetivo do projeto. Na utilização de tal método, o professor deve estar ciente da carência na expressão formal-científica em cada estudante iniciante. Isso exige outros métodos de expressão da parte do aluno, dirigido pelo professor, além da expressão oral, desenhos, outras experiências em analogia e até mesmo a expressão corporal.
Percebe -se, no discurso dos participantes do projeto, o papel conferido aos processos de coleta e análise de dados, no sentido de terem contribuído a uma tomada de consciência, por parte dos estudantes-professorespesquisadores, das dificuldades dos alunos, de suas próprias dificuldades como mediadores da aprendizagem e , também , dos fatores e estratégias que favoreceram a aprendizagem dos alunos.
## Considerações Finais
As aprendizagens referentes à iniciação a prática da pesquisa em disciplinas de cursos de formação de professores constituem ferramentas imprescindíveis para a construção de uma visão mais crítica e um olhar mais atento com relação ao conhecimento prévio dos alunos, a suas dificuldades e reações , aos materiais instrucionais e aos processos de ensino-aprendizagem. Em nível de cursos de Programas de Pós-Graduação em Educação em Ciências, repercutem na formação de professores, não somente no que se refere à prática docente, mas também na própria construção e realização do projeto de de dissertação de mestrado. O professor-pesquisador adquire, assim, melhores condições e habilidades para escolher e aplicar métodos e instrumentos de coleta e análise de dados em atividades de pesquisa. A integração entre alunos da Graduação e da Pós-graduação em projetos comuns constitui -se em um fator responsável por trocas de experiências e aquisição de novos saberes e visões, sobretudo no que tange à prática da pesquisa.
## Referências
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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.