08h30
Paulo Henrique De Souza, João Zanetic
- Evento
- Encontro de Pesquisa em Ensino de Física ↗ (EPEF)
- Edição
- XI
- Ano
- 2008
- Data
- 22/10/2008
- Linha de pesquisa
- Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E O Ensino De Física
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## UM DIÁLOGO ENTRE A CULTURA E O PERFIL EPISTEMOLOGICO DO CONCEITO DE TEMPO NO ENSINO DE FÍSICA
## A DIALOGUE BETWEEN THE CULTURE AND THE EPISTEMOLOGICAL PROFILE OF TIME CONCEPT IN PHYSICS TEACHING.
## Paulo Henrique de Souza 1
## João Zanetic 2
1 2
U
Universidade de São Paulo/Instituto de Física/hspaulo2004@yahoo.com.br
2
Universidade de São Paulo/Instituto de Física/zanetic@if.usp.br
## Resumo
Pensar o tempo é pensar em uma idéia, conceito, sentimento, sensação, percepção, fluxo, experiência. É pensar em algo que não é exclusividade de nenhuma área específica. É pensar no múltiplo, no interdisciplinar. É pensar em uma categoria ontológica. É pensar na vida.
Dentro desse contexto, a pesquisa em ensino de ciências e, mais especificamente, no ensino de física, pode contribuir para o entendimento desse conceito que é um dos mais importantes, intrigantes e interdisciplinares, além de ser o alicerce das principais teorias físicas.
Depara-s-se assim, com a necessidade de adotar-s-se uma definição para o tempo, pois, muitas vezes, apenas enfatiza-a-se o seu caráter matemático. Os livros didáticos mais utilizados em sala de aula não abordam, na maioria dos casos, esse conceito de forma consistente. Isso se constitui em um paradoxo, pois o conceito de tempo, juntamente com os conceitos de de espaço e massa, formam um conjunto de conceitos básicos extremamente importantes no ensino de física.
Portanto, é importante buscar na história e nas diferentes culturas elementos que indiquem as diferentes concepções propostas para esse conceito, além da sua influência no desenvolvimento tecnológico e social da humanidade
Assim, desenvolve-s-se um trabalho de pesquisa na forma de dissertação de mestrado, que analisa as influências culturais e condutas pessoais sobre o conceito de tempo, tendo como referencncial a noção de perfil epistemológico proposta por Gaston Bachelard. Essa pesquisa está sendo realizada com os alunos de educação básica e superior de uma Instituição privada da grande São Paulo. Para a construção empírica de tal perfil esses alunos responderam a três questionários relativos ao conceito de tempo e dois relativos às suas vidas e vivências culturais.
Embora essa pesquisa ainda esteja sendo finalizada, os dados até agora analisados permitem avançar algumas conclusões parciais aqui apresentados.
Palavras -
chave: tempo, história, epistemologia, cultura, filosofia
## Abstract
Thinking about time is to think about an idea, a concept, feelings, sensations, perception, flow, experience. It is to think about something, which is not exclusive of any specific area. It is to think about life.
Within this concept, the research in science teaching, specifically in Physics teaching, can contribute to the understanding of this concept which is one of the most important, intriguing and inter-twined one, bebesides being the basis of the main physical theories.
The necessity of adopting a definition for time is revealed, because in many times, only the mathematical aspect is emphasized. Most of the educational books used in the classroom do not tackle, in most of the cases, this concept in a solid way. It consists of a paradox because the concept of time, together with concepts of space and mass, make a group of extremely important basic concepts in Physics teaching.
Therefore, it is important to search for, in History and in different cultures, elements which indicate the different proposed conceptions for this concept, besides its influence in humanity's social and technological development.
This way, a research in a master's degree dissertation has been developed to analyze the cultural influence and personal behavior about the concept of time, concerning the notion of the proposed epistemological profile by Gaston Bachelard. This research has been done with students of basic and upper education in a private institution in the city of São Paulo. For the empirical construction of such configuration those pupils answered three queries relative to the concept of time and two relative at your lives and cultural activities.
In spite that research is still being accomplished , the data as yet evaluated permit advance a few conclusions herein presented.
Keywords: Time, History, epistemology, culture, Philosophy
## 1. INTRODUÇÃO
Atualmente o ensino de ciências, mais especificamente o ensino de física, tem privilegiado o caráter matemático que sem dúvida tem grande importância. Porém, pensando em um contexto mais amplo, os alunos aprendem mal uma cinemática descontextualizada com relação à dinâmica e, logo no primeiro bimestre do primeiro ano, passam a a detestar a física e confundi-la com um mero formulismo.
Assim, ao pensar na educação científica das escolas brasileiras, tem-s-se quase um consenso quanto à necessidade de novas possibilidades de ensino que atinjam um número maior de estudantes pela natureza diversificada da atividade. A música, a literatura, a ficção científica e a história da ciência são ferramentas que podem compor possibilidades diferentes de ensino, em que o conceito aparece não
apenas como uma simbologia matemática aparentemente sem sentido. Para Einstein e Infeld (1980, pág. 222):
"o pensamento e as idéias, e não as fórmulas, são o princípio de toda teoria física. As idéias devem assumir posteriormente a forma matemática de uma teoria quantitativa, para possibilitar uma comparação com a experiência."
Além disso, é importante apresentar a física como elemento cultural. Zanetic afirma o seguinte (1989, pág 146):
"Quando se comenta sobre a cultura, de um modo geral, raramente a física comparece de imediato na argumentação, ou outra reprpresentante das ciências naturais dá o ar de sua graça. Cultura, quando pensada "academicamente" ou com finalidades educacionais, é quase sempre evocação de alguma obra literária, alguma grande sinfonia ou pintura famosa; cultura erudita, enfim. Tal cultura traz à mente um quadro de Picasso, uma sinfonia de Beethoven, um livro de Dostoyevsky, enquanto que a cultura popular faz pensar em capoeira, num samba de Noel ou num tango de Gardel. Dificilmente, porém, cultura se liga ao teorema de Godel ou às equações de Maxwel."
Neste trabalho o tempo será o conceito explorado tanto por sua importância no desenvolvimento da física, quanto pelas possibilidades de relacioná-lo com diferentes contextos culturais. Junta -se a isso o interesse do pesquisador (primeiro autor deste trabalho) sobre o conceito de tempo, originário dos primeiros dias de suas atividades como professor, tendo ficado, como muitos professores em início de carreira, submetido ao livro didático, escolhido e adotado pela escola, apresentando um conc eito dessa magnitude apenas como um valor numérico colocado no "eixo horizontal " ou um parâmetro físico para o estudo dos movimentos (PCNs- - parte III,1998). Os parâmetros curriculares (PCNs- parte III, 1998, pág. 25) indicam a necessidade de diferentes abordagens para esse conceito:
"(...). Assim, a competência para reconhecer o significado do conceito de tempo como parâmetro físico, por exemplo, deve ser acompanhada da capacidade de articular esse conceito com os tempos envolvidos nos processos biológicos ou químicos, e mesmo sua contraposição com os tempos psicológicos, além da importância do tempo no mundo da produção e dos serviços(...)"
Para elaboração de atividades diferenciadas das atividades tradicionais de física, faz-s-se necessário entender as diferentes concepções do conceito de tempo presentes entre os alunos.
Para o desenvolvimento desta pesquisa o trabalho de Martins (2004) se constituiu no referencial fundamental. Ele baseou sua investigação na obra de Gaston Bachelard, pois:
"(...) verificamos que é possível atribuirmos aos alunos um perfil epistemológico para o conceito de tempo, na medida em que eles manifestam elementos de diversas zonas de hierarquia bachelardiana. a. " (Martins, 2004, pág.202)
Além disso, Martins aponta uma necessidade de explorar a relação entre o perfil e a cultura:
"(...) Vinculado a isso, temos uma quarta questão a explorar: a relação entre o perfil e a cultura . Esse ponto, para o qual deliberadamente demos pouca atenção ao longo deste estudo, abre novas possibilidades de investigação e de interpretação, tanto das concepções dos estudantes quanto da própria idéia de perfil." (Martins, 2004, pág.207)
Assim, este trabalho tem o objetivo de apresentar parte de uma pesquisa de mestrado que busca relacionar o perfil epistemológico do conceito de tempo e a cultura dos alunos envolvidos.
## 2. Conceito de tempo
São destacados, nesta seção, alguns elementos da evolução histórica do conceito de tempo que serão úteis na discussão do perfil epistemológico desse conceito, que será tratado na próxima seção.
Na antiguidade os primeiros pesquisadores observavam os ciclos naturais para construir uma interpretação, ainda que muito básica, do ciclo da vida. Nas civilizações egípcias e babilônicas, por exemplo, encontra-se uma correlação entre os eventos naturais e sociais. Ambas ficavam nas margens de grandes rios que influenciavam e marcavam os principais momentos do ano, permitindo situar diferentes momentos do ciclo de fertilidade da terra, ou seja: a estação da inundação, a estação da semeadura e a estação da colheita. Para estabelecerem uma orientação , a observação astronômica foi fundamental, além de levá-los à construção de calendários razoavelmente precisos, já com 365 dias. O império romano, por sua vez, destaca-s-se pela criação do calendário Juliano com 365,25 dias que só foi superado pelo calendário gregoriano, já na idade média, com 365,2425 dias.
A medida do tempo também passou por uma evolução histórica. O relógio de sol foi o primeiro "instrumento" utilizadado para medir o tempo em escala menor. Esses povos, durante a noite, utilizavam o relógio de água, também conhecido como clepsidra. Por outro lado, os chineses utilizaram também o relógio de fogo e incenso, em que a chama queima em ritmo constante servindo para medir a divisão do dia religioso e para outros fins, tendo o cheiro como indicador. Com o avanço tecnológico, surgem os relógios mecânicos que utilizavam o escape e o pêndulo. Já na modernidade aparecem os relógios de quartzo, que só perdem em precisisão para os relógios atômicos. A precisão desses últimos relógios é da ordem de nanosegundos. Assim, a definição atual do segundo é baseada na freqüência de ressonância do átomo de césio. Essa definição foi adotada em 1967.
No aspecto filosófico, o conceito de tempo também passou por diferentes definições. Na Pérsia, por exemplo, propunha-se um tempo indivisível que é o eterno agora, e um tempo divisível em partes sucessivas. Uma das concepções dos hindus compreendia um tempo perceptível pelas suas qualidades ligadas ao movimento, possuindo qualidades de objetos sensíveis. (G.J. Whitrow 1993). Para os árabes, o aspecto filosófico do conceito de tempo aparece com maior intensidade com o pensador Moisés Maimônides. Na sua obra, "O guia para os perplexos " do século XII, encontram-s-se afirmações quanto à composição atômica do tempo, ou seja, ao dividir-r-s-se o tempo encontra-se uma parte indivisível. Idéias similares também foram encontradas na Grécia.
Ainda na Grécia, papara Platão, o o tempo é esse elemento de mudança que separa o real do ideal e é produzido pelo arquiteto junto com o universo, que Platão descreve com estas palavras:
"Então ele lembrou -s -se de fazer uma imagem móvel da eternidade e, ao mesmo tempo em que organizava o céu, fez da eternidade que resta da unidade esta imagem eterna que progride segundo o número, e a que nós chamamos o tempo." (Platão, sem data, pág. 266)
Aristóteles, discípulo de Platão, rejeitava as concepções de tempo como um produto do universo, identificado como qualquer forma de movimento ou mudança. Para Aristóteles, o movimento pode ser uniforme ou não e sua definição é dada pelo tempo que, por sua vez, não poderia ser definido por ele mesmo. Portanto, para
Aristóteles o tempo é definido pela nossa percepção mental de uma seqüência de eventos, ou seja, é na mudança que temos a consciência do tempo.
Interrompendo aqui essa breve narrativa, descreve-se um pouco da história do tempo na época da temporalização da mecânica. Na física, fazendo um recorte do conceito de tempo, Galileu é a primeira referência. Quando ele estabelece a lei de queda dos corpos, a mudança da velocidade está ligada ao tempo decorrido e não ao espaço percorrido, como se pensava. Galileu expõe sua visão de um tempo contínuo como infinitos instantes, conforme aponta Martins (1998, pág. 126/127), citando a obra de Galileu:
"Salviati - (...) E, visto que em todo intervalo de tempo, por menor que seja, existem infinitos instantes, estes são suficientes para corresponder aos infinitos graus de velococidade que diminui.."
Após Galileu, Isaac Newton, reconhecido como grande físico e matemático e partidário da concepção mecanicista de mundo, em que tudo funcionava com um grande relógio, abriu o caminho para uma concepção de tempo matemática e, conseqüentetemente, mensurável. Com isso, já não se pensava em tempos eternos e construções mentais, ou seja, o tempo era mensurável e absoluto. Assim, logo no início do Principia , Newton (1990, pág. 7)7), define:
"O "O tempo absoluto, verdadeiro e matemático, por si mesmo e da sua própria natureza, flui uniformemente sem relação com qualquer coisa externa e é também chamado de duração.o."
Cabem aqui alguns comentários sobre a conservação de energia que é fundamentalmente uma expressão da homogeneidade do tempo, isto é, da uniformidade do fluir do tempo. E isso ocorre mesmo em processos não reversíveis. Por outro lado, o princípio da conservação de energia, mais especificamente da energia mecânica, nos leva também a refletir sobre a irreversibilidade do tempo, ou sejeja, se a energia mecânica fosse conservada existiria possibilidades de reversão temporal. Porém, não é isso que acontece, pois outras formas de energia participam do processo privilegiando um sentido temporal único (Menezes, 2005, págs. 54/59).
É importante destacar que a visão absoluta do tempo nos influencia e é a mais conhecida entre o pensamento de senso comum, ou seja, nossa visão teórica dominante de tempo é extremamente newtoniana. Apesar das críticas, o tempo de Newton perdurou por dois séculos, até a chegada das criticas que nasceram ao final do século XIX e culminaram na relatividade de Einstein.
Nesse contexto, no ano de 1905, sintetizando o trabalho de uma série de físicos daquele período, Einstein, em um artigo histórico, postula a chamada teoriria da relatividade especial que trazia como principio básico a validade das leis da física para qualquer observador, de modo que, qualquer observador mediria a mesma velocidade da luz. Definindo novos invariantes, como a velocidade da luz, Einstein muda a a natureza do tempo e o absoluto de Newton cede lugar ao tempo relativo. Dez anos depois, Einstein desenvolveu a chamada teoria da relatividade geral que relaciona a aceleração da gravidade com uma geometria do espaco-t-tempo curvo incorporando sistemas de rereferência acelerados. Com isso Einstein desenvolveu também uma nova teoria da gravitação.
Por fim, pensando no mundo quântico Davies (2000, pág. 218) afirma que:
"A incerteza da energia pode ser trocada pela incerteza no tempo, mas você jamais eliminará ambas as indeterminações simultaneamente: a natureza não nos permitirá saber tudo sobre uma partícula de uma vez."
Portanto, no mundo quântico, a a medida do tempo é limitada pelo principio da incerteza de Heisenberg, que afirma não ser possível determinar a energia de uma partícula em um instante definido.
## 3. Tempo, cultura e perfil epistemológico
Na sua obra "A filosofia do não", Bachelard propõe a idéia de perfil epistemológico. Essa concepção de perfil mental mede a ação cognitiva e psicológica das diversas escolas filosóficas, propostas por ele, dando-lhes uma distribuição. Assim, Bachelard destaca cinco escolas filosóficas e analisa a sua noção do conceito de massa, traçando seu próprio perfil epistemológico. Ao analisar a noção de massa, ele utiliza a idéia de continuidade e ruptura. Portanto, encontrase nessa obra (1978, pág 25) um perfil epistemológico pessoal do conceito de massa:
"Quando nós próprios nos interrogamos, damo-o-nos conta de que as cinco filosofias que consideramos (realismo ingênuo - empirismo claro e positivista - racionalismo newtoniano ou kantiano - racionalismo completo - racionalismo dialético) orientam em direções diversas utilizações pessoais da noção de massa. Tentaremos então pôr grosseiramente em evidência a sua importânância relativa colocando em abscissas as filosofias sucessivas e em ordenadas um valor que - se pudesse ser exato - mediria a freqüência de utilização efetiva da noção, a importância relativa das nossas convicções. Com uma certa reserva relativamente a esta medida muito grosseira, obtemos então para o nosso perfil epistemológico pessoal da noção de massa um esquema do tipo seguinte (fig. 1)". (Bachelard, 1978, pág. 25)
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Percebe -s -se que a coluna mais alta é a do racionalismo clássico que deve ser atribuída à sua formação matemática e a uma longa prática de ensino de física básica. Outra coluna de destaque é a do empirismo, que possui uma explicação devido a longos anos de prática na utilização da balança nos correios e no laboratório de química - - ele chega a a falar em conduta da balança. Essa relação entre o perfil epistemológico, conduta pessoal e cultural, são destacados por Bachelard (1978, pág. 25) como fatores para compreensão do perfil:
"Insistimos no fato de um perfil epistemológico dever sempre referirir-se a um conceito designado, de ele apenas ser válido para um espírito particular que se examina num estádio particular da sua cultura.(...). Para melhor nos fazermos compreender, comentemos o nosso perfil epistemológico, fazendo uma curta confissão acerca da nossa cultura relativamente ao conceito que nos atrai a atenção(...)."
Embora Bachelard insista que o perfil sempre se refere a um determinado conceito de um particular indivíduo, é possível indicar elementos que estarão presentes, em diferentes intensidades, para qualquer indivíduo. Assim, com relação ao conceito de tempo e seu potencial perfil epistemológico, pode-s-se estabelecer
uma conceituação do tempo em função das escolas filosóficas e estados científicos propostos por Bachelard e diferentes épocas históricas, conforme a tabela abaixo:
Tabela 1: Potencial perfil epistemológico do conceito de tempo
É importante definir também um recorte para a idéia de cultura abordada neste trabalho. Santos (2001, pág 327) propõe um conceito de cultura que será utilizado neste trabalho:
" A cultura, esfera não inatata mas indissociável da individualidade, é um capital social que confere características próprias à sociedade humana. Diz respeito a normas, valores, crenças, expectativas e acções convencionais de um grupo. É "um patrimônio informacional constituído por saberes, perícia, regras e normas próprias de uma sociedade" (Morin, s/d. b: 228). Este patrimônio de "natureza fenomênica" produz -se e reproduz -se de geração em geração"
Santos (2001) faz uma caracterização histórica da cultura resumida na tabela a seguir:
Tabela 2: Cultura: caracterização histórica
A coluna ESTADO foi introduzida neste trabalho com o intuito de se fazer um paralelo desses estágios culturais com os períodos históricos propostos por Bachelard. É importante perceber que as aproximações entre os estágios culturais e os estados científicos ocorreram dentro de um contexto maior e correspondem a uma relação didática e não exatamente histórica do ponto de vista temporal, ou seja, por exemplo, existe uma relação entre a época da sociedade de consumo e a época histórica do novo espírito científico proposta por Bachelard, que temporalmente se inicia com os trabalhos de Einstein. Pode -se interpretar que os trabalhos de Einstein e da física quântica abriram as portas para o avanço tecnológico da sociedade atual e, conseqüentemente, devevido ainda a uma conjunção de outros fatores, ao aparecimento da sociedade de consumo. Volta-s-se a enfatizar que não se trata de um reducionismo dos diversos fatores presentes nos mecanismos que desencadeiam determinados comportamentos. Trata-s-se apenas de uma aproximação geral, didática e de interesse no trabalho aqui realizado.
Quanto à coluna CULTURA, sua relação com as épocas sociais propostas por Santos (2001) é um marco de sua origem, ou seja, elas permeiam as relações contemporâneas e não apenas exis tiram na época indicada.
É importante relacionar também o tempo com a cultura. Em seu livro "Sobre o tempo" Elias (1998, pág 22) propõe que o tempo antes de tudo é uma construção social:
"O fato de essa regulação social do tempo começar a assumir um aspec to individual, desde uma etapa muito precoce da vida, contribui em larga escala, certamente, para consolidar nossa consciência pessoal do tempo e torná-la inabalável(...).."
- G.J. Whitrow (1993, pág 19), em concordância com Elias, comenta uma experiência feita com crianças aborígines :
- "(...) Crianças australianas aborígines de capacacidade mental equivalente à de crianças brancas consideram também extremamente difícil dizer a hora pelo relógio - algo que a maioria das crianças ocidentais em geral já aprendeu a fazer bem aos seis ou sete anos. As crianças aborígines conseguem ler os ponteiros do relógio como um exercício de memória, mas têm dificuldade em relacionar a hora que lêem ali com a hora efetiva do dia. A explicação que se propôs é que suas vidas, diversamente das nossas, não são dominadas pelo tempo."
Portanto, entende-s-se aqui que essas diferenças culturais e de concepções sobre o conceito de tempo são enriquecedoras do conhecimento humano, ou seja, embora historicamente a cultura ocidental busque uma supremacia sobre as outras culturas, não existem concepções melhores que as outras e sim culturalmente, socialmente e talvez cientificamente diferentes.
## 4. A pesquisa
A pesquisa está sendo realizada no Centro Universitário Metropolitano de São Paulo, também conhecido por Faculdade Integrada de Guarulhos (UNIFIG), localizado na cidade de Guarulhos, na grande São Paulo. Essa Instituição atua no ensino infantil, fundamental e médio com o nome de Colégio Integrado de Guarulhos (CIG) e possui em torno de 500 alunos. No ensino superior atuando com o nome de UNIFIG, possui cursos em todas as áreas (exatas, humanas e biológicas) que totalizam algo próximo de 3000 alunos.
Neste artigo apresenta-s-se apenas os dados do 9º ano do ensino fundamental (9ºEF) e 3º ano de e Pedagogia (3º Ped), pois estão nos extremos das idades pesquisadas. A escolha se justifica pelo fato de o pesquisador ser professor dessa instituição, o que facilita o acesso e contato com os alunos. A tabela abaixo resume a distribuição de idades dos alunos
Tabela 3: Distribuição das idades
Como característica geral, os alunos do 9ºEF dedicam-s-se apenas às às aulas e cursos extras, não atuam no mercado de trabalho, moram com os pais ou avós e pertencem à chamada classe média. Por outro lado, as alunas da Pedagogia têm
sua origem escolar pública, atuam como professoras de ensino infantil ou agente de desenvovolvimento infantil (cuidam dos bebês) mesmo sem a devida formação
Como metodologia, utilizou-se de questionários para atingir um número maior de alunos. A seguir temos um resumo dos tipos de questionários utilizados.
Tabela 4: Ferramentas de pesquisa
É importante ressaltar que o questionário 1 pedia os alunos listassem 4 palavras que se relacionavam com a palavra tempo e em seguida as justificassem. O questionário 2 possuía oito definições sobre o tempo, elaboradas por Aristóteles, Platão, Einstein, Newton, entre outros. Já o questionário 3 propunha 8 questões sobre a natureza do tempo, sua relação com o ser humano. Esses três primeiros questionários servem para investigar as concepções sobre tempo, sendo que o terceiro por ser dissertativo auxiliará na a análise qualitativa dos dados. O questionário sobre a vida buscava identificar a rotina e as relações familiares e pretensões profissionais dos alunos. O questionário de cultura geral buscava identificar práticas e gostos pessoais quanto à literatura, música, programas de TV, sites preferidos, etc.... Ambos têm o intuito de identificar um certo perfil cultural dos alunos. Os dados dos questionários 1 e 2 estão na tabela a seguir:
Tabela 5: Categorias
Portanto, a partir do questionário 1, pode-s-se, ainda que preliminarmente, identificar três categorias: fenômenos climáticos, mensuração do tempo e percepção do tempo. No 9º EF, na categoria fefenômenos climáticos, as palavras de maior incidência foram: clima, sol, chuvas; na categoria mensuração do tempo: relógio, horário; e na categoria percepção: passado, vida e futuro. Já no 3º Ped. tem-se quanto aos fenômenos climáticos as palavras: clima e previsão com maior incidência; na categoria mensuração encontra-s-se as palavras: relógio e meses; e na categoria percepção tem-se: v vida e futuro.
Assim, ao olhar o resultado numérico do questionário 1, encontra-se pequenas diferenças. No 9º EF a categoria fenômenos climáticos (FC) e percepção do tempo (PT) possuem quase que a mesma incidência. Aliás, pensando em dados numéricos a categoria mensuração do tempo (MT) não estaria muito distante. No 3ºPed. há uma diferença maior entre as categorias, sendo que a PT tem maior destaque.
Quando se olha para as justificativas das palavras é que se percebe maiores diferenças e pode-s-se relacioná-las com a cultura do grupo (pesquisados nos questionários 4 e 5). As justificativas do 9ºEF estavam fundamentadas na sua idade, rotina de vida, atual e da infância. A grande maioria desses alunos desde 1,5 anos aproximadamente, já se encontrava na escolinha e com uma rotina de vida bem definida. Na rotina atual isso continuava com muitas atividades extracurriculares, como: giginástica, inglês, espanhol, além de informática. Além disso, a idéia de velocidade, rapidez sempre esteve presente nas justificativas, sendo um indício de influência da tecnologia, pois já nasceram em um mundo digital (todos têm computadores com acesso à internet e celulares de última geração). As explicações sobre a percepção do tempo possuíam um caráter de lazer, atividades prazerosas e com os amigos, constituindo outro traço marcante da idade. Além disso, os fenômenos climáticos por sua vez surgem talvez como fruto da experiência concreta e de observação, própria da idade e da limitação que essas mudanças trazem na sua rotina. Ou seja, de certa forma estão ligados à percepção temporal. É importante ressaltar também que esse grupo é um dos mais bomba rdeados pela sociedade de consumo, ou seja, pela cultura de massa.
- O grupo da pedagogia traz explicações diferentes, pois suas justificativas quanto à percepção de tempo tem um caráter nostálgico, sofrido, além da presença de religiosidade. Apesar de vive rem em uma sociedade tecnológica, muitos ainda trazem consigo a experiência de infância pobre e com uma ligação com a natureza no sentido do trabalho na lavoura. Trazem também a reflexão da mãe de família preocupada com o futuro e que, a cada dia, enfrenta as dificuldades de trabalho e estudo. A ligação com os fenômenos climáticos é de contemplação, segundo muitas justificativas. É um grupo que indica uma grande ligação com a família e com a religião, em um sentido próximo da cultura humanística.
O questionário 2 mantém uma situação muito homogênea entre os grupos, sendo que em ambos a percepção e medida do tempo estão em destaque, apesar das justificativas diferentes. As afirmações sobre tempo na relatividade e tempo absoluto, matemático tiveram pouca simpatia. Sabe-se que os alunos do 9ºEF ainda estavam sendo apresentados às matérias de física e química e as alunas da pedagogia, em sua maioria, estudaram na escola pública, em que há uma ausência de professores de física, o que pode ser um indício, ou ficararam muito tempo sem estudar e voltaram no supletivo, a fim de "acelerarem" a sua formação.
Sendo assim, traça-s-se um perfil nos moldes s do perfil epistemológico de Bachelard para os grupos.
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Contudo sabe -s -se que o perfil epistemológico deve ser proposto, segundo Bachelard (1978, pág. 28):
"Tais álbuns, necessariamente individuais, serviriam de testes para a psicologia do espírito científico. Sugeriríamos, pois, de bom grado uma análise filosófica espectral que determinaria com precisão a forma como as as diversas filosofias reagem ao nível de um conhecimento objetivo particular"
Porém, essa idéia, como passo intermediário, pode ajudar o professor a entender o universo dos seus alunos e avançar na busca dos perfis epistemológicos dos alunos como proposto to por Bachelard. Cabem aqui algumas palavras de Martins (2004, pág. 206) extraídas de seu estudo relacionado com as concepções de estudantes sobre o conceito de tempo com base na epistemologia de Bachelard:
"(...) acreditamos que o nosso estudo forneça, especificamente com relação à construção do conceito de tempo, subsídios para que o professor interprete também a sala de aula em termos dos compromissos epistemológicos dos seus alunos, identifique a presença de obstáculos de natureza epistemológica, e tenha mais elementos para enfrentá-á-los, explorando as visões dos estudantes para auxiliá-los na construção de outras."
Além disso, essa visão gráfica permite observar-se uma homogeneidade nas concepções dos grupos. Pode-s-se inferir que a nossa sociedade tecnológica e de consumo interfira. Santos (2007, pág 67/68), em seu livro "O que é cultura" comenta:
"A industria cultural parece homogeneizar a vida e a visão de mundo das diversas populações"
Assim a globalização através da industria cultural (TV, Rádio, Jornais, Internet), ou seja, meios de comunicação de massa, são como instrumentos homogeneizadores da cultura, configurando outro fator que deve ser considerado na construção dos perfis epistemológicos.
## 5. Considerações finais
Apresentou-se aqui, uma pepequena parte da pesquisa em andamento, que busca analisar as concepções dos alunos a partir da noção de perfil epistemológico de Bacherlard e sua relação com a cultura.
Percebe -s -se que é possível identificar grandes traços das escolas filosóficas propostas por Bachelard nas concepções dos alunos, além de observar indícios de influências culturais nessas concepções. Contudo ainda é muito difícil traçar efetivamente os perfis epistemológicos de Bachelard a partir apenas dessas atividades. O máximo que se conseguiu foi um esboço geral dessas escolas. Assim sendo, trabalha-s-se no sentido de aumentar a base de dados com alunos do ensino
médio (já foram apresentados à física) de outros cursos como o de ciências biológicas (escolha função da atuação do professor), além de alunos de outras instituições que o pesquisador não conheça.
Além disso, trabalha-s-se também na analise individual de casos, revendo respostas dos questionários e vislumbrando no futuro a utilização de entrevistas, além de atividades curriculares que possam acessar essas concepções.
Por fim, acredita-se que no futuro próximo, com outras pesquisas nessa direção, consiga-se efetivamente traçar perfis epistemológicos do conceito de tempo. Porém, só o tempo dirá.
## 6. Referências
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BACHELARD, G. A formação do espírito científico. Tradução. E. S. Abreu. Rio de Janeiro: Contraponto, 1996.
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MENEZES, L. C. (coord.). Parâmetros Curriculares Nacionais (Área de ciências da natureza, matemática e tecnologia). Brasília, 1996.
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Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.