Problematização Permanente
André Penna-Firme
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVIII
- Ano
- 2009
- Data
- 27/01/2009
- Linha de pesquisa
- Didática Da Física: Materiais, Métodos, Estratégias E Avaliação
- Tipo
- Comunicação
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Texto completo
## Problematização Permanente .
## André Penna -Firme
Prof. Adjunto. Pratica de Ensino e Didática Especial da Fisica Fac. Educação da UFRJ
Resumo: Baseados em relatos de professores do Ensino médio, e na experiência com a disciplina de Prática de Ensino de Física, fazemos uma discussão do perfil das expectativavas, frustrações e dificuldades dos professores em relação ao Ensino da Física. Embora em sua maior parte seja possível identificar o desejo de ver na prática a utilidade e aplicabilidade dos conceitos, algumas outras questões interessantes surgem e merecem uma análise. Propomos aqui a noção de Problematização Permanente como único verdadeiro elemento capaz de ressignificar as práticas tradicionais em Ciências.
## 1. Introdução
Cada vez mamais o professor de Física hoje se identifica como educador enfrentando desafios como a formação de atitudes e valores no aluno, na perspectiva da busca de uma consciência crítica e independente . Isso seguramente configura-se algo muito além dos objetivos cocognitivos expressos nas habilidades e competências previstas para a disciplina . Cada vez mais atatuar como professor hoje é tarefa instigante e complexa, dada que as exigências surgidas na sala de aula são cada vez mais complexas e as expectativas que se apreresentam ao profissional se inserem num quadro geral de conhecidas dificuldades de condições adequadas ao trabalho docente .
Uma importante concepção derivada da pesquisa em Ensino das Ciências, fundamentada nos chamados grandes projetos pedagógicos, tem cocomo idéia marcante, o fato de que se deve oferecer ao aluno a oportunidade de uma vivência ativa e real do método de trabalho nas Ciências Físicas. Estimular o gosto pelo conhecimento dos fenômenos da natureza, transmitindo um certo fascínio pela descoberta e , mais importante , propiciar ao aluno situações em que alguma curiosidade , seja ela cientifica ou mesmo ingênua, se manifeste. Essas são questões das quais a Física Escolar se afastou perigosamente, indo de encontro a um modelo enciclopédico, formal e conteudista, completamente distanciado de questões usuais e práticas do cotidiano.
É sabido que a Física representa uma cultura, uma visão de mundo , e um valioso e importante olhar sobre a natureza , no meio de outros saberes presentes em nosso cotidiano . O nosso aluno deveria, em principio, ser capaz de compreender as características desta cultura e suas peculiaridades. Nesse sentido podemos nos referenciar pelo que diz os Parâmetros Curriculares NaNacionais com base na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional , apoiados amplamente na idéia de que o Ensino de Física deve prover as condições mínimas ao aluno para que possa compreender as linguagens cientificas colocadas no nosso cotidiano. Essa dimensão ,
que ficou conhecida como a Alfabetização Cientifica, a, prepara o aluno para ra ler melhor o mundo ao seu redor. .
O conceito de cotidiano do aluno é mais complexo do que aparentemente pode parecer. Traz, a meu ver, uma idealização, uma generalização que se configura como uma entidade abstrata e universal , carente, pois, de uma definição conceitual mais precisa. Em segundo lugar nos parece apropriado a idéia de que o aluno possa ler melhor o mundo, compreendendo-o melhor. Porem, de modo igualmente relevante, podemos pensar nunuma educação mais voltada à preparar as futuras gerações para escrever o mundo, atuar nele dinamicamente e com possibilidades de muda-lo de forma consciente. Uma educação cientifica que não vá de encontro a esses ideais se definiria mais convenientemente como uma educação reprodutora de uma sociedade que se caracteriza fundamentalmente pela exclusão e pelas desigualdades. Para o propósito de escrever o mundo, é necessário problematizá-lo de forma aberta livre e dialogar com as diferenças culturais, representadas, dentro da da escola , pelas diferent es disciplinas e com as comunidades. Há na escola um diálogo horizontal entre os pares que não se reproduz na mesma naturalidade entre os diferentes planos hierárquicos. Para isso um dialogo vertical deveria dar lugar cada vez mais a uma ética da horizontalidade e da igualdade. Isso se traduziria possivelmente em uma prática que verdadeiramente valoriza e estimula a livre expressão e de intervenção de seus alunos . Nessa perspectiva, nós professores educamos, necessariamente , atitudes, uma Ética, mesmo que de de forma inconsciente, não intencional. O ideal é que mantivéssemos o compromisso em contribuir para o desenvolvimento de uma consciência do mundo e dos seus problemas, bem como uma discussão dos benefícios e limites da própria ciência e do papel que a Física pode desempenhar nesse quadro .
A questão dos conteúdos e de sua organização é hoje menos relevante, nos parece, do que uma educação voltada para uma problematização permanente e que favoreça ao aluno encontrar estratégias e formas independentes na busca de soluções. Os problemas abordados tradicionalmente em Ciências, em geral não possuem origens claras, no sentido de que suas motivações não são explicitadas, não são dados que partem de uma realidade concreta e nem tampouco conduzem a uma atitude de proroblematizações e ressignificações posteriores. A ênfase se coloca na correta manipulação e manuseio das técnicas. Nesta conduta, perde-se a dimensão fundamental para a formação de uma cultura cientifica, que é a da curiosidade espontânea, do questionamento de enunciados, da busca de novos problemas, e de situações que conduzam a busca de sentidos e ao desconhecido ou mesmo a formulação de novas questões, de caráter mais aberto, relacionadas às anteriores. Paulo Freire já argumentava que o essencial no processo educativo é conduzir o aluno de uma curiosidade ingênua para uma curiosidade epistêmica (P. Freire, 2001).
Os livros didáticos mais utilizados, bem como os cursos de formação de professores, foram gradativamente adotando uma cultura cientifica completamente afastado de uma dimensão humana mais realista. Não se percebe quase a presença humana em seus contextos históricos na
maior parte dos livros de Física. Este é apresentado como um conhecimento dado a priori, sem uma trajetória histórica de interesse, numa sucessão quase sempre impressionante de sucessos e vitorias. Não se conhece ou mesmo não há interesse em contar a história dos fracassos, dos erros cometidos, e por que não dizer dos acasos e coincidências. Vale lembrar que esses desempenharam papeis absolutamente cruciais na construção da Física. A não contextualização histórica conduz a perda da idéia da Física enquanto uma construção coletiva e cultural de toda a humanidade, e que consequentemente deve ser direito de todos, universalmente ter acesso a ela.
Ainda permanecem vivos os estereótipos de uma conhecimento científico elaborado por um pequeno grupo de iluminados, gênios , altruístas e abnegados que nos legaram toda essa tradição de forma mágica e sem uma origem clara, sem os problemas e questionamentos, bem como as dúvidas e incertezas que cercaram o processo de descoberta. Importante destacar que um certo fascínio , fruto de alguma curiosidade epistêmica sobre o mundo e os fenômenos naturais exerce enorme influência nas motivações que conduziram às grandes descobertas. .
Um olhar mais criterioso sobre a historia das idéias nas ciências da Natureza nos leva a perceber que , mais importante do que conhecer todos as razões subjacentes e explicações causais para os fenômenos da natureza , saber fazer as perguntas a ela e indagar-se permanentemente sobre o porque das . coisas serem do jeito são, é uma atitude fundamental na ciência. Pode -se afirmar que a raiz do método experimental, aspecto crucial da Revolução Cientifica no Séc. XVII, consiste exatamente em inquirir a natureza, fazer as perguntas a ela de modo sistemático e consistente. O Ensino em larga escala praticado hoje em Física, parece cada vez mais voltado exclusivamente para a solução de problemas-exercicios, que partem quase sempre de modelos já muito bem conhecidos. O aspecto mais relevante ainda é, a despeito das novas Diretrizes Curriculares, o treino para o correto manuseio e aplicação das equações. Há , portanto, uma lacuna a ser preenchida, uma etapa anterior a essa que caracterizada pela busca de sentido através de indagações e questionamentos simples que todos fazemos ao longo de nossas vidas aparentemente sem sentido. Importante a nosso ver, que o aluno seja capaz de perceber que na Física, mais importante do que conhecer os porquês, é fafazer perguntas, questionar e duvidar sempre de tudo e se possível buscar as respostas que dêem algum sentido a esse mundo.
A questão da contextualização é outro ponto extremamente relevante no sentido de correlacionar os avanços da Física com os movimentos sociais e culturais que lhe deram origem , e as condições históricas para que surgisse. Isso seguramente humanizaria os tradicionais conteúdos , e propiciaria uma Ciência , mais vinculada diretamente ao mundo das relações sociais e concebida como uma construção coletiva, historicamente determinada. Essa tarefa , se mostra um novo desafio importante para o novo Professor de Física, fundamental para a busca de diálogo permanente com as diferentes áreas do conhecimento. o. Nesse sentido é importante transmitir ao aluno um quadro mais completo e próximo das realidades sociais e culturais, sem nos reduzirmos ao recorte, de certo modo, limitado que a ciência se propõe a fazer.
De certo modo a Física em sala de aula, vêm se reduzindo há algum tempo a uma disciplina axiomática de natureza lógico-matemático e dedutiva. As relações com o mundo real se dissiparam quase completamente, tendo se transformado num problema menos importante. Esse aspecto vem levando a disciplina a herdar historicamente, uma boa parte dos velhos e bem conhecidos problemas do Ensino da Matemática, uma vez que na escola hoje pouco se distingue entre o ensino dessas duas disciplinas. Uma breve leitura dos PCN do ensino médio nos faz claramente perceber a idéia embutida de que a Ciência, e a Física em particular, representa uma linguagem e conseqüentemente uma cultura. Cabe à escola preparar seus alunos para que tenham acesso, e ingressem nessa cultura através de um processo de Alfabetização Cientifica que deve prover as mínimas condições para uma veverdadeira idéia do que significa o "fazer ciência" . Isso pode se traduzir, em termos mais concretos, na discussão em sala de aula de temas atuais e que estejam presentes em nossos cotidianos como a geração e transmissão de Energia, a origem da Luz das estrelas, o funcionamento de aparelhos Eletrodomésticos, o CD, o DVD, a Internet e uma seriem de fenômenos com os quais s alunos tenham algum contato.
O Ensino da Física se transformaria, dessa forma, numa prática mais informativa, mais rica na descrição de fenômenos que, supostamente, estimulariam mais nossos alunos. É comum encontrar nos eventos e encontros de pesquisadores em Ensino de Física, comentários como os de um famoso professor de Física da USP, a cerca dos conteúdos trabalhados nas primeiras séries do Ensino Médio como uma "... memecânica Renascentista obsoleta e enfadonha sendo ensinada num ritual oco e sem nenhum sentido " . PaPareceenos que , na busca de novos significados, há também o risco de partir-se para uma estratégia igualmente sem fundamento e que portanto se afasta da própria Física, uma construção coletiva, historicamente determinada.
A ênfase na excessiva matematização dos conceitos, acompanhada de uma forte perda de significados, representa uma das grandes dificuldades para os nossos alunos atualmente. O verdadeiro drama da situação, ao que parece , é ainda ser impossível realizar uma Física sem as equações, considerando principalmente que a matemática é a linguagem e o idioma natural da Física. A questão , portanto, não é trivial e ainda se mantém distante de uma melhor compreensão . Ao evitar as equações corre-se o risco também de caminhar a um extremo oposto igualmente pobre de significados, algo novo, tal como uma nova Física Baconiana de caráter puramente qualitativo, fenomenológico e empírico .
Apesar de todas essas questões, é quase unanimidade entre os Educadores e Especialistas em Ensino de Ciências, que o desafio de renovar e transformar a sala de aula num espaço mais dinâmico, mais atraente e estimulante, e, permanece mais vivo e aberto cocomo nunca. Pequenas atividades qualitativas se tornaram cruciais para despertar o interesse e a motivação do aluno. Nesse sentido venho trabalhando no sentido de compreender até que ponto a dimensão do problema e da busca de solução e da formulação de hipótóteses, surge inequivocamente como a matriz de uma nova didática. Uma nova concepção que aponta na direção de uma cultura mais aberta e renovada de compreender o processo de educação em Ciências .
## 2. Uma velha Escola para novos alunos
A experiência em sala de aula e na formação de professores nos faz perceber que o tempo é de fato um dado cultural e porque não da própria história. Hoje o tempo disponível que o aluno dispõe para o professor vem se tornando cada vez mais exíguo. Para um adolescente de classe média hoje numa cidade como São Paulo ou Rio de Janeiro, um tempo de aula de 50 minutos é simplesmente enorme, quase uma eternidade e uma tortura brutal nos tempos de Youtube, do DVD e do iPod. A leitura dos livros didáticos pesados e ultrapassados, hoje é quase uma tarefa impossível, e a atenção concedida ao professor não dura muito mais do que alguns poucos minutos. Certa vez um Educador ao ser indagado sobre os grandes problemas da EdEducação Brasileira nos dias de hoje, afirmou que o controle remoto era o grande responsável. Diante de uma platéia estarrecida e confusa, ele completou dizendo que o aluno não podendo zapear o tédio de um conteúdo desinteressante e de um professor enfadonho, se desligam completamente e em alguns casos extremos passam a adotar posturas mais hostis e agressivas com relação ao professor. Certa vez Rubem Alvez afirmou que estamos diante de uma escola que não fala mais a mesma língua do aluno e que se cristalizou no tempo, presa a um modelo já ultrapassado. A esse professor cabe bubuscar alternativas para tentar sobreviver e cumprir minimamente os currículos enciclopédicos que ainda temos hoje. De acordo com Rubem Alvez há há a muito tempo, sem duvida nenhuma, uma crise de valores e princípios na sociedade e na família que se reproduz na escola, o que de certo modo é natural, dado que essa escola que não sobrevive à margem da sociedade, mas integrada à cultura . Vive por isso toda a crise de valores humanos éticos pelos quais a sociedades vem passando. Essa escola nada mais é do que a representação dos interesses e valores da sociedade de base. Alem disso não é claro o projeto mais amplo, para o qual nossas escolas apontam, considerando que não termos em nossas elites um projeto minimamente esboçado de que Brasil esse pretende construir. A educação formal se insere estrategicamente no quadro mais geral do projeto de desenvolvimento para um pais, e neste sentido devemos considerar um Ensino de Física voltado para a plena cidadania e a consciência critica. No tema da alfabetização Cientifica nos parece falta uma dimensão vital que é a de preparar nossos alunos não somente para ler o mundo mas fundamentalmente para escrever o mundo. Toma-lo em suas mãos e realizar os sonhos que a gerações passadas não conseguiram realizar. Assim pensamos um ensino de Física que integra pessoas, que as prepare para a cooperação e para o trabalho coletivo e não simplesmente para o sucesso e destaque individual. A própria Física hoje é maior prova disso. Não se trabalha mais em Pesquisa de alto nível em Física individualmente. As pesquisas são realizadas hoje em grandes grupos colaboração e cooperação.
Os vestibulares de acesso às às universidades são uma etapa importante numa possível mudança de mentalidade. Há um enorme e avassalador impacto exercido pelos vestibulares na escola media. Nada será possível de ser substancialmente modificado sem que se mude a regra dos vestibulares. Esta pois colocado para nossa geração o grande desafio de promover uma
reestruturação geral do Ensino da Física e também da própria escola tal como a concebemos hoje. Não há resposta pronta e precisa para essa questão. Importantes acrescentar que uma atualização curricular no sentido de trazer a Física um pouco mais próximo do século XXI é fundamental bem como abrir as portas para a construrução de um ambiente propicio em sala de aula para a discussão e debate livre, onde o aluno tenha total liberdade de expressão e manifestação critica.
## 3. Problematização total e permanente
A idéia de uma Educação alicerçada na Resolução de Problemas não é nova, temos consciência plena disso, mas acreditamos que o resgate de uma nova abordagem e da reafirmação do seu papel nos parecem ainda relevantes. Em primeiro lugar é importante começar nossa exposição pela concepção de que a ênfase e o centro de nossas atenções em sala de aula é com a Aprendizagem. Devemos persegui-la com obsessão e convicção se possuímos verdadeiramente compromisso com uma educação cientifica e a Aprendizagem Significativa por nossos alunos. Não podemos nos permitir a perda da capacidade de interferir no processo, para atuar e intervir de forma progressiva e permanente nas dificuldades e nos obstáculos enfrentados , de modo que rumos e caminhos adotados sejam reprogramados. Repensar sempre todos os procedimentos, mantendo uma autocrítica permanente, olhares atentos na aprendizagem e atuar dinamicamente é um fator fundamental no sentido de que seja possível promover uma verdadeira aprendizagem . . Avaliar no inicio como diagnose, avaliar no meio, avaliar sempre, adquirem importância mais que central no sentido de avaliar para formar, avaliar para educar melhor e educar parta sermos mais felizes e modificar todo o processo o tempo todo. O professor deve se permitir ser avaliado, ouvir as vozes discentes, afinal ele faz parte do processo inteiro ro e não esta ali somente para classificar e cririar listas de desempenho individual .
A partir de minha experiência com o trabalho na Formação de Professores, especialmente nas disciplinas de Prática de Ensino e Estagio Supervisionado de Física, bem como nas discussões conduzidas na Disciplina Didática Especial de Física, venho compreendendo e construindo a visão de que o eixo central de qualquer aprendizagem cientifica, é o trabalho com verdadeiros Problemas. Esses se configuram na minha visão como o eixo artrticulador de todo o processo, o começo, o meio e o fim de toda a pratica em educação. O que temos hoje e um ritual ultrapassado, monótono na imensa maioria das vezes, e desatualizado da forma dinâmica e intensa como os jovens constroem seu conhecimento em tempos de tanta mudança tecnológica e novos paradigmas. A aula deve ser mais intensa e desafiadora, proporcionar ao aluno uma experiência onde seus conhecimentos sejam expostos e duvidados, criticados . Para isso é necessário partir de um problema qualquer, desafiador de preferência , mas que seja estimulante, alegre, lúdico e que se permita desenvolver uma discussão. Novos conteúdos e modelos se constroem articulados a esse mesmo problema e tudo termina com uma síntese e sistematização de conhecimentos em outros possíveis problemas. Fui levado a compreender que devemos radicalizar a função do
problema, levando ele às ultimas conseqüências e o tornando mais do que a simples oportunidade de aplicação de conteúdos aprendidos previamente. Há na verdade aqui nessa proposta uma mudança de paradigma muito forte a meu ver, uma mudança na ênfase nos Conteúdos e de toda a sua lógica de acumulação para os Problemas e sua Lógica de transformação, busca e adaptação. Cada vez mais me sinto compelido a afirmar que Conteúdo se transforma em Informação e essa por sua vez, desaparece gradativamente, não sendo retida nos gestos, na cultura, nem nas lembranças . Não conduz o aluno à formação de novas atitudes, não traz uma experiência com os procedimentos e os diversos modos de fazer típicos da ciência. Os conteúdos conceituais quase sempre são concebidos como pura informação sem significado nenhum para um aluno desinteressado, que diante dela é levado talvez à única alternativa viável, a memorização e a decoreba de fórmulas matemáticas. Não se pode jamais propor um pensar critico nesse contexto em que é exigida a memória e a pura e simples reprodução e repetição de procedimentos impostos pelos sistemas de ensino. É preciso ter consciência de que os alunos mobilizam os recursos que estão à sua disposição para se mover socialmente passando de ano. Precisamos nos libertar dessa educação tradicional, fundada na transmissão da herança cultural das gerações passadas e cujo ideal central é a reprodução pelo aluno de formulas prontas e rotinas de pensamento pré estabelecidas. Precisamos caminhar para uma educação que recupere o sonho de transformar o mundo, transformar o individuo, enfrentando o desafio de transformar sem doutrinar, sem direções previamente fechadas, abertos para os caminhos que o aluno julgar apropriados.
Problemas podem nos libertar e favorecer o surgimento de uma nova educação voltada essencialmente para a autonomia e o pensamento independente e critico. Precisamos reconstruir uma educação cientifica que recupere a capacidade e força para problematizar o mundo, a sociedade e enfrentar desafafios e situações que na vida aparecerão sempre como problemas a serem enfrentados. Um verdadeiro problema envolve vários aspectos importantes que dedeveriam ser mais considerados seriamente, sendo a busca de soluções apenas um dos seus muitos aspectos. Há uma multiplicidade enormemente rica envolvida como por exemplo na na identificação de novos problemas , na formulação de questões, na na oportunidade de cooperar e trabalhar numa perspectiva da da integração e do esforço coletivo na busca de soluções, no estimulo e resgate da curiosidade tão relegada na educação vigente em nossas escolas. Essa que tem sido historicamente a verdadeira razão de ser, a força vital que impulsionou a evolução do conhecimento cientifico, está distanciada da escola, divorciada das regras e dos modos corretos de se fazer educação. Não tem sido prática comum a procura em preservar esse verdadeiro bem, esse tesouro que uma verdadeira escola deveria estimular. Me parece que são tantos aspectos relevantes para uma verdadeira educação que não cabe aqui uma lista completa de todo os atributos relacionados.
Problematização permanente é a proposta que defendo aqui nesse texto, para uma educação em Ciências e na Física em particular, alicerçada e articulada em problemas verdadeiros e significativos para o aluno. As classes devem se iniciar pelos problemas desenvolver-se por
problemas e concluir em outros tantos problema. Conteúdos serão trabalhados, bem como continuarão a ser abordados todos os temas clássicos da Física. Devem ser, no entanto, ressignificados, reelaborados e repensados naturalmente num novo contexto, adquirindo por certo um novo papel na estrutura cognitiva do aluno. Possuo elementos reais para essa afirmação já que venho tentando aplicar essa técnica nas classes de Didática especial e Pratica de Ensino de Física e avançado lentamente na aquisição de dados que me reforçam na crença dessa proposta.
Nas disciplina de Prática de Ensino e na Didática Especial de Física, a idéia tem sido a de problematizar permanentemente a prática docente e colocando sempre a construção de seqüências didáticas como problemas a serem enfrentados pelos alunos . A questão de conteúdos abordados surge e novavas idéias didáticas aparecem de forma incrivelmente rica, dada a característica dinâmica e desafiadora das seqüências a serem construídos pelos alunos. Sempre procuramos colocar aos alunos o tipo de escola, a classe e o perfil social dos alunos a serem trabalhados e os conteúdos de Física a serem abordados. O resultado tem sido excelente e me levaram a reforçar a convicção nos problemas como verdadeira e única proposta de mudança paradigmática em educação Cientifica.
## 4. Conclusão Final
Nesse trabalho procurei expor, fundamentalmente, o processo segundo o qual vevenho consolidando a idéia da problematização permanente como uma nova perspectiva da educação cientifica e particularmente na Formação de Professores de Física. Importante destacar que ainda há um longo caminho a percorrer e as experiências concretas com a metodologia ainda estão em fase inicial. Embora ciente de que a idéia não é nova, já abordado em vários autores previamente, pretendi radicalizar o papel dos problemas como elemento fundamental e sobre o qual se apoiarão e convergirão totodos os conteúdos. Educar me parece cada vez mais abrir oportunidades para o pensar aberto e livre, descompromissado com prévios padrões definidos pelo sistema e ao qual alunos devem reproduzir e memorizar. Somente uma nova educação totalmente ancorada e articulada a verdadeiros problemas é capaz de romper com os vícios de uma educação tradicional centralizada na figura do Mestre que detém o saber e transmite os conteúdos prontos, fechados e preparados para o aluno. Possuo elementos convincentes para afirmar, e minha experiência vem demonstrando que acrescentar temas de Física moderna e Contemporânea não será capaz de melhorar o quadro atual de dificuldades de maneira substancial. A inclusão de Contextos Históricos e a presença da Filosofia da Ciência no Ensnsino da Física também não é capaz, em hipótese alguma, de apontar caminhos e sugerir uma nova pratica desde o inicio. Na verdade me parece que a proposta aqui elaborada vai no sentido de buscar uma mudança de paradigma muito grande, uma transferência de papeis onde conteúdos e informações abrem espaço aos problemas e a toda rearticulação que isso pressupõe necessariamente. Importante, nesse ponto final, acrescentar que não se trata, nem se pretende em hipótese alguma, caminhar no sentido dos velhos projetos de
Ensino, como o PSSC por exemplo, onde a vivência do método cientifico e os métodos de Ensino rígidos, programados e elaborados por especialistas era proposta. Não há nessa proposta, uma concepção fechada e rígida de Método Cientifico , que a verdade, no caso do PSSC, mostrou-se uma idealização positivista e Indutivista que transformou o Professor em refém de métodos rígidos e pré programados. É necessário recuperar na educação a dimensão da busca, da curiosidade epistêmica e da problematização do mundo , da sociedade e da vida em geral. Esses são aspectos tão fundamentais na construção histórica da ciência, dos quais a escola se afastou e hoje se vê presa a um paradigma anacrônico, reprodutivista e conteudista. É necessário repensar os conteúdos, repensar as rotinas rígidas e a suposta homogeneidade de pensamentos tão característica de uma educação fechada e centradas na transmissão de conteúdos sem utilidade e significatividade nenhuma para os alunos. A abordagem de problematizar tudo e permanentemente, abrindo as esferas do pensamento ao questionamento, e a liberdade de imaginação e associação são a meu ver a única e convincente saída para o Ensino das ciências e particularmente como mencionei na Formação de Professores.
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