CARACTERÍSTICAS DOS TEXTOS INTRODUTÓRIOS PARA ENSINO DE DINÂMICA EM LIVROS DIDÁTICOS DE FÍSICA PARA O ENSINO MÉDIO
Luiz Gustavo Pampu, Tânia Maria F. Braga Garcia
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVIII
- Ano
- 2009
- Data
- 27/01/2009
- Linha de pesquisa
- Didática Da Física: Materiais, Métodos, Estratégias E Avaliação
- Tipo
- Comunicação
Abrir o PDF original ↗ Baixar referência .bib Ver todos do SNEF 2009
Texto completo
## CARACTERÍSTICAS DOS TEXTOS INTRODUTÓRIOS PARA ENSINO DE DINÂMICA EM LIVROS DIDÁTICOS DE FÍSICA PARA O ENSINO MÉDIO
Luiz Gustavo Pampu 1 , Tânia Maria F. Braga Garcia 2
1 UFPR/NPPD/ Licenciatura em Física , luizpampu@yahoo.com 2 UFPR/PPGE/NPPD , taniabraga@p.cnpq.br
## Resumo
Os livros didáticos de Física, recurso freqüentemente utilizado pelos professores e alunos, são estruturados dentro de determinados modelos que vêm sendo reproduzidos ao longo do tempo, apesar das críticas por parte de educadores e dos processos de avaliação dentro do Programa Nacional de Livros Didáticos para o Ensino Médio. Nesse modelo, os textos introdutórios têm grande importância no que se refere à aproximação do aluno com o conteúdo a ser trabalhado em cada capítulo. Neste trabalho, apresenta-s-se resultado de estudo exploratório desenvolvido com o objetivo de construir e testar categorias de análise dos textos de livros didáticos escritos para o aluno e das orientações metodológicas dirigidas ao professor. Para tanto, foram testadas categegorias originadas, de um lado, de trabalhos que examinam a linguagem dos livros didáticos (Sousa, 2000; Giraldi, 2005) e, de outro, categorias que permitem identificar os enfoques pedagógicos presentes nos textos tendo como referencial Becker (2001), Delizozoicov, Angotti e Pernambuco (2002). Neste estudo de natureza exploratória foi analisado um livro bem aceito pelos professores, editado em 2008, e no estudo final serão examinados três livros mais solicitados no PNLEM 2009. Os resultados apontaram para a necessidade de ajuste em algumas categorias, mas permitiram identificar características do livro examinado com relação a alguns pontos, entre os quais: a) linguagem predominantemente descritiva, com poucos elementos que contribuam para a interação com o leitor; b) ênfase no sentido único do texto, que não se abre a outras possibilidades de leitura; c) os conhecimentos são muitas vezes descontextualizados temporalmente, em especial do ponto de vista epistemológico . Entende -se que investigações com esta temática contribuem para a discussão sobre a importância de incluir debates sobre os livros didáticos na formação inicial e continuada de professores.
Palavras -c -chave: Didática da Física – – – Ensino Médio - Livros Didáticos
## Introdução
Entre as políticas que reorganizaram o sistema educativo brasileiro nas últimas duas décadas, a partir da promulgação, em 1996, da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei Federal 9.394), várias ações foram implementadas pelo Ministério da Educação com o objetivo de reorgrganização curricular, como os Parâmetros Curriculares e as Orientações Curriculares para a Educação Básica. Entre outros resultados, essas ações provocaram mudanças nos livros didáticos, em todas as disciplinas escolares, uma vez que os programas nacionais passaram a definir critérios de avaliação baseados em tais orientações os quais, aplicados à análise dos livros, determinam sua inclusão ou exclusão nos Guias para a escolha dos professores. No caso do Ensino Médio, o programa (PNLEM) é mais recente e as pesquisas começam a ser mais freqüentes à medida
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
http://www.sbf1.sbfisica.org.br/eventos/snef/xviii/
26 a 30 de Janeiro de 2009
que estão sendo incluídos os livros de disciplinas como a Física 1- - que apenas em 2009 estarão sendo usados nas escolas públicas 1 .
A abrangência do programa, os altos investimentos de dinheiro público e a presença dos livros em sala de aula, como um dos recursos que o governo federal está disponibilizando de forma praticamente universalizada são motivos que justificam a necessidade e a relevância de pesquisas sobre esse tema2 a2 . Considerando -se também que os livros de Física passam, a partir desse momento, a ser incluídos no cotidiano das salas de aula das escolas públicas, considera-se relevante investigar relações entre as orientações curriculares nacionais e os conteúdos e métodos propostos nos livros. Pesquisisas realizadas antes do PNLEM são indicativas de distanciamentos entre parte significativa dos livros e as recomendações didático-o-metodológicas feitas em tais orientações, relativas a diversos aspectos como, por exemplo, a presença da História da Ciência (CARVALHO, 2007).
Nesta direção é que se propôs uma pesquisa cujo objetivo é analisar as características dos textos introdutórios a um tema específico no ensino de Física - - a Dinâmica. Os textos serão examinados na forma como são apresentados pelos autores de livros didáticos, seja do ponto de vista da linguagem, seja do ponto de vista dos indícios que podem fornecer para que se compreendam os modelos epistemológicos e pedagógicos privilegiados pelo autor. Neste trabalho, apresentamse resultados do estudo de natureza exploratória, realizado de março a setembro de 2008, com o objetivo de construir as categorias de análise e testá-las em um caso específico, para o desenvolvimento do estudo definitivo no segundo semestre de 2008 e início de 2009. 3 3 Após considerarações iniciais sobre o livro didático e sua presença na literatura no campo da Educação e do Ensino de Física, serão apresentadas as idéias dos autores que sustentaram a construção das categorias e, em seguida, serão apresentados os resultados da análise dedesenvolvida. Ao final, serão indicadas considerações finais sobre o estudo e sua continuidade.
## Livro didático em pesquisa
Apesar do seu uso nas escolas ao longo de todo o século XX, os livros didáticos têm sido desprestigiados tanto no discurso educacional de forma geral como pelas pesquisas, que só recentemente começam a tomá-lo como objeto. No entanto, como o importante elemento da cultura escolar (FORQUIN, 1996), podem ser entendidos como artefatos do currículo e como produtos do mercado (APPLE, 1995) e como recursos que, articulados a outras mediações, contribuem para a produção e desenvolvimento das aulas pelos professores (GARCIA, 2007).
Segundo Garcia, Garcia e Pivovar (2007), são numerosas as pesquisas que estudam a produção e circulação dos livros didáticos, a história do livro didático, as relações entre os livros e a formação de professores, e, ainda, a especificidade de alguns conteúdos do ensino, nas disciplinas escolares . No entanto, segundo esses
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
autores, ainda são pouco privilegiados pelos pesquisadores os trabalhos que investigam o seu uso por professores e alunos. Pode-s-se afirmar, também, que as pesquisas existentes sobre conteúdos específicos das disciplinas escolares apontam para novas abordagens, especialmente no no momento em que os livros de Física passam a ser distribuídos para todos os alunos de Ensino Médio. Em mapeamento feito por Ferreira e Selles (2004), foram examinados dezessete artigos produzidos a partir da década de 1980, relacionados ao livro de Ciências, onze dos quais referidos à à Física, levando as autoras a concluírem sobre a existência de várias formas de abordagem dos livros como objeto. ApApontam também a concentração dos estudos em torno dos conteúdos - - erros conceituais, estruturação na forma de apresentação, assuntos/ temas esespecíficos, comparação com idéias alternativas/ espontâneas/ senso comum dos alunos, presença de analogias, uso do cotidiano, entre outros.
Na direção dos estudos sobre o conteúdo, Carvalho (2007) pesquisou como a História da Ciência é contada em livros didáticos de Física. Sabe -s -se que as orientações curriculares nacionais enfatizam a importância da inclusão de temas relativos à História da Ciência, defendendo, da mesma forma que especialistas do campo, a contribuição que essa abordagem pode dar na constituição de um determinado modo de entender a produção do conhecimento científico. Cabe, no entanto, perguntar se e como os livros didáticos de Física incorporam a indicação dos documentos oficiais, objetivo colocado por Carvalho. Segundo afirma o autor, as análises permitem concluir que nos casos estudados, embora como exceção, foram encontrados exemplos do uso da História da Ciência que a mostraram como um processo, como resultado de construção coletiva, cotejada por erros e acertos .
Pode -s -se identificar, também, a existência de pesquisas que examinam os livros didáticos a partir do pressuposto de que, ao estudá-los, podem ser compreendidos elementos da transposição didática, entendida como o processo de transformação dos conhecimentos da ciência em objetos de ensino (CHEVALLARD, 2005). Entre os trabalhos que assumem essa perspectiva, destaca-a-s-se aqui o artigo de Rodrigues e Oliveira (1999). Para esses autores, o livro didático do ensino médio se insere como elemento do contrato didático e sua importância está no o fato de que eles, muitas vezes, são o único material ao qual o professor tem acesso para organizar suas aulas.
Ao assumir o conceito de transposição didática para examinar os livros, é preciso lembrar, segundo os autores, que esse processo de transformaç ão dos conhecimentos para serem ensinados tem algumas conseqüências, entre as quais: a) a d despersonalização , que faz com que o conhecimento seja divulgado de forma impessoal; b) a desincretização, isto é, o processo que, por efeito da textualização do saber, conduz à delimitação de saberes parciais que se expressam em discursos aparentemente autônomos, e que introduz uma diferenciação entre aquilo que pertence propriamente ao campo delimitado e o que não é identificado formalmente como tal; c) a descontextutualização - - processo que faz com que a história ligada à produção do conhecimento seja suprimida, e o que se apresenta para o ensino não tenha ligação com a problemática a que deu origem à criação daquele conhecimento.
Os problemas derivados desse entendimento são claramente visíveis do ponto de vista da historicidade, o que se constitui em um desafio a ser enfrentado tanto pelos autores como pelos professores e alunos ao usarem livros didáticos. As orientações curriculares nacionais (BRASIL, 2006, p. 51) chamam a atenção para a
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
"necessidade de se fazer a contextualização histórica dos problemas que originaram esse conhecimento científico e culminaram nas teorias e modelos que fazem parte do programa de conteúdos escolares a ser apreendido pelo aluno". E essa é uma questão relevante que justifica a pesquisa nos livros didáticos de Física.4 4
Um outro grupo de estudos sobre os livros escolares examina questões relativas à linguagem, em particular quanto à criação de significados que o autor pretende produzir, utilizando-se de conceitos e métodos da análise de discurso; enquanto escreve, o autor pode se colocar no lugar do leitor, para com isso prever possíveis significados que seu texto possa produzir. Considerando que todo discurso carrega uma postura ideológica, o autor como portador de ideologia trará um discurso próprio que, por suas características, apresenta dizeres e não-dizeres, sendo estes dois os portadores da significância que o autor pretende produzir em seu leitor. De acordo com Sousa (2000), as caracteterísticas dos discursos presentes nos textos didáticos podem ser divididas em categorias, sendo que cada uma teria suas condições e conseqüências, assim explicadas: "Como condições entendemos o que estaria materializado nos textos e como conseqüência o res ultado dessa materialização quando o sujeito (professor/aluno) lê o texto, já que entendemos que o sentido não está colado ao texto e sim que o sentido depende do leitor, cuja história, conhecimentos e perspectivas influem sobremaneira nessa leitura." (p.56).
Giraldi (2005), em trabalho que analisa a linguagem em textos didáticos de citologia, observa o seu uso por meio de analogias, apoiando-se na categorização construída por Sousa (2000). O autor chega à conclusão, depois da análise sistemática do livro, que as analogias, além de serem incluídas como em uma linguagem impessoal, exercem uma obrigatoriedade com relação aos sentidos. Outro elemento apontado por ele é o caráter de completude que o autor tenta produzir no texto didático. A revisão sucinta destes trabalhos teve o objetivo de indicar os elementos que foram considerados adequados e relevantes para o desenvolvimento do estudo exploratório cujos objetivos e metodologia serão apresentados a seguir.
## A definição do material empírico e das categorias para análise dos livros didáticos
O projeto de pesquisa em andamento foi construído com o objetivo de analisar os textos introdutórios ao conteúdo de Dinâmica, produzidos pelos autores de manuais didáticos de Física incluídos no PNLEM 2009. Para o estudo exploratório aqui apresentado, com a finalidade de testar a adequação das categorias escolhidas foi analisado um livro editado em 2008. Na continuidade, serão analisados os três títulos mais solicitados pelos professores 5 . Para a análise, optou-se por tomar como material empírico apenas os textos introdutórios ao assunto. Entende -se que estes textos são responsáveis por problematizar o tema que será tratado e, em conseqüência, espera-s-se que possuam características que façam o leitor ampliar seus horizontes, bem como para ele possa se colocar como participante do processo de apropriação do conhecimento. Estes textos, portanto,
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
não devem distanciar o leitor da questão focalizada, nem do contexto em que ela tem significado.
A definição do que se entende aqui como texto de introdução foi derivada diretamente da proposta de Delizoicov, Angotti e Pernambuco (2002) que examinam possibilidades de estabelecer uma dinâmica de sala de aula em que o primeiro momento trabalho é a Problematização inicial, afirmando que "a finfinalidade deste momento é propiciar um distanciamento crítico do aluno, ao se defrontar com as interpretações das situações propostas para discussão." (p. 201). Segue-s-se a etapa de Organização do conhecimento, com características de sistematização por meio de atividades de conceituação e de exercícios e problemas, incluindo os apresentados pelos livros didáticos; e por último propõe-se o momento de Aplicações do conhecimento, buscando a generalização dos conceitos apresentados e desenvolvendo atividades como os problemas abertos, explorando-s-se "o potencial explicativo e conscientizador das teorias científicas" (p. 202). De acordo com os autores, a problematização inicial deve estimular os alunos a refletir, de forma crítica, sobre a importância do conhecimento. Isto pode ser feito pelo questionamento de posições diferentes, de convergências e divergências e, ainda, cotejando os conhecimentos - - - aqueles que os alunos trazem de suas experiências e aqueles que são produzidos nas atividades de aula - com o conhecimimento científico que o professo pretende ensinar.
Portanto, entende-se que esta também poderia ser, em alguma medida, a função dos textos introdutórios propostos pelos autores dos livros didáticos de Física. Tomando esses textos como material empírico da pesquisa, para efetuar a análise definiu -s -se como introdução a parte que antecede a sistematização do conteúdo do capitulo, a partir dos elementos de classificação usados por Delizoicov, Angotti e Pernambuco (2002).
A definição das categorias se deu pela decisão de examinar o discurso construído pelo autor para, a partir dele, localizar elementos que contribuam para compreender a perspectiva epistemológica e pedagógica que o texto introdutório do livro didático assume. É interessante relembrar que a idéia de um modelo pedagógico relacional (Becker, 2001) está presente nas Orientações Curriculares Nacionais, documento que faz a crítica ao modelo pedagógico diretivo, no qual o aluno é considerado objeto na relação ensino - - aprendizagem, que tem como característica a existência de apenas um transmissor e um receptor; e também ao modelo pedagógico não-diretivo que possui uma estrutura que não corrobora o contrato didático, já que o aluno é senhor de suas próprias ações tendo o professor apenas um papel orientador. A abordagem relacional, defendida por Becker, supõe uma interação efetiva do professor e dos alunos com o conhecimento, que só poderá ocorrer em um espaço de desafio e de diálogo, no qual as experiências dos sujeitos sejam tomadas como ponto de referência para a construção de conhecimentos. Nessa perspectiva, ensinar e aprender estão associados à produção compartilhada de significados, e os textos didáticos podem contribuir em maior ou menor medida para que isso efetivamente aconteça.
Com a finalidade de e observar as características dos textos que estão presentes em livros didáticos, particularmente na introdução de alguns capítulos referentes à Dinâmica, procurou-s-se analisar de que forma o autor produz significados em sua escrita, usando o quadro de categorias estabelecido por Sousa (2000). Em sua pesquisa, para a construção dos instrumentos, tomando como
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
referência a análise do discurso, ela considerou os seguintes elementos, a partir dos pressupostos assumidos:
Quadro 1: : Elementos para análise dos textos didáticos
Fonte: Souza, 2000.
Giraldi (2005) discute sobre a linguagem usada em livros didáticos, utilizando estas mesmas categorias. Levando em conta a dimensão discursiva da linguagem, analisa analogias em um livro didático de biologia e conclui que sua presença se dá por meio de formas diferenciadas ao longo dos capítulos examinados; a naturalização das analogias produz "um apagamento das mesmas"; e, ainda, a tentativa de aproximação com o leitor se faz pelo uso da linguagem comum.
A partir desses trabalhos, foram selecionados os elementos para compor as categorias que foram usadas na análise dos textos introdutórios de Dinâmica, neste estudo de natureza exploratória, buscando verificar sua adequação a a este caso específico. São elas: a) Linguagem comum/cientifica - esta categoria será utilizada para distinguir de que forma o autor se dirige ao leitor, verificando-s-se possibilidades de afastamento ou aproximação com o leitor a partir da linguagem utilizada; b) Superficialidade ou profundidade no tratamento das questões -o livro didático também é produto de consumo ou mercadoria, portanto deve dar ao leitor a sensação de completude, de que ele contém tudo que é necessário para o conteúdo ser aprendido. A A tetentativa de contemplar todos os temas e assuntos produz superficialidade e dificulta a abordagem em profundidade; c) espaço do autor/leitor para produção dos sentidos - é possível discutir se a voz do autor se torna autoritária no texto , esquecendo das experiências dos alunos , e e silenciando questões importantes para a problematizaçação da ciência; ou se a a escrita do autor abre espaço para que se estabeleça alguma forma de diálogo e interação entre diferentes experiências ; d) Presença/ausência da a temporalidade - a ausência de temporalidade nos textos didáticos contribui para a construção da idéia de neutralidade da ciência, priorizando seus resultados e não sua produção.
## Resultados da análise
A análise foi realizada tomando como material empírico nove textos introdutórios aos capítulos do livro, que desenvolvem os seguintes subtemas: Leis de Newton; Peso equilíbrio estático; o; Aplicações das leis de Newton (I); Aplicações das leis de Newton (II); Movimento circular (I); Movimento circular (II); Trabalho; Potência; Impulso e quantidade de movimento .
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
## a) A linguagem utilizada pelo autor
Em todos os capítulos examinados, exceto um, o autor usa uma linguagem puramente descritiva, tornando seu discurso impessoal. Pode-s-se observar as formas utilizadas no trecho destacado: "O intervalo de tempo em que a parede modifica o movimento da bola determina a força média que ela exerce sobre a bola e vice-eversa." (p.168) . Na maior parte dos textos introdutórios, não há formas de escrita que sugiram tentativas de interagir com o leitor. Apenas no capitulo 14 o autor ensaia um questionamento ao leitor, ao formular a pergunta "Mas como ele torna tão fácil a elevação do automóvel?" (p.135) . No entanto, ela acaba se constituindo em uma pergunta meramente retórica, já que é respondida pelo autor em seguida, sem outras possibilidades de que o leitor inclua suas contribuições para a produção do significado.
## b) a completude/i/inincompletude dos textos
Em todos os capítulos analisados o autor só faz referência a um aspecto relativo à característica de incompletude do conteúdo apresentado por ele. Ao se referir a questões que são caracterizadas como dificuldades matemáticas, relacionadas ao uso de ferramentas para resolver determinados problemas, informa que elas não serão trabalhadas - - portanto, indica que algum conteúdo não foi incluído no livro por decisão do autor. Não foram encontrados, nos capítulos analisados, indicativos que pudessem ajudar o leitor a compreender que qualquer texto, inclusive o científico será, em certo sentido, incompleto, na medida em que ele é produzido no contexto de escolhas e seleções feitas pelo autor, e isso implica que o conteúdo abordado admitirá, em outras perspectivas, informações, particularidades, graus de aprofundamento diferenciados. Também não foram encontrados elementos que, ao apontar lacunas, contribuíssem para o entendimento de que a ciência, neste caso, a Física é um processo em construção.
## c) Possibilidades de atribuição de sentidos pelo leitor
A forma impessoal da linguagem, com características puramente descritivas, faz com que o autor torne obrigatório um determinado tipo de leitura para o texto, enfatizando os significados previamente decididos pelo autor. Pode-se perceber a direção imposta para o leitor em trechos como este: "é fácil perceber que a a bola exerce força sobre a tela da raquete e esta exerce força sobre a bola." (p.78). Uma outra característica que reduz as possibilidades de atribuição de sentidos pelo leitor refere -se à forma que faz com que a linguagem usada na Física tenha significado em si mesma, não necessitando de maiores explicações, com o se observa no trecho a seguir: "Nessa deformação elástica a a bola armazena energia" (p.168, grifo nosso).
## d) A localização temporal das proposições
Os textos introdutórios examinados permitem afirmrmar que o autor, além de descontextualizar o conteúdo, retirando-o -o de seu meio histórico , também o faz em relação ao seu meio epistemológico. A forma como trata as informações, além de reforçar a criação de figuras de "cientistas heróis", como a de Isaac NeNewton, dirige os leitores para um significado de ciência como um processo de desenvolvimento linear, sem controvérsias, sem embates, sem lacunas. Isto pode ser observado a partir de afirmações como esta: "Estabelecida no século XVII por Isaac Newton, um dos maiores físicos de todos os tempos (...) " . (p.78).
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
## Considerações finais
O estudo exploratório realizado possibilitou testar as categorias sugeridas por Souza (2000), que se mostraram adequadas, de forma geral, mas poderão ser complementadas e revistas a partir de outras leituras, especialmente com o aprofundamento de leituras sobre o discurso pedagógico. Pretende-se ampliar os elementos que serão examinados no estudo definitivo. Nesta etapa, foi possível estabelecer algumas relações entre a linguagem utilizada nos textos introdutórios aos capítulos da Dinâmica de um livro em particular, e as discussões no campo do Ensino de Física , agrupadas, a seguir, em dois pontos principais , os quais serão aprofundados no estudo definitivo.
Um primeiro ponto diz respeito às relações entre livros didáticos e alfabetização cientifica. Para Delizoicov, Angotti e Pernambuco (2002), o senso comum pedagógico faz com que se trate de maneira simplista e ingênua as questões relacionadas à à apropriação do conhecimento científico o pelos alunos, nas escolas. Para esses autores, ainda é muito forte a presença, nas escolas, da idéia de que a finalidade do trabalho nas aulas é "formar cientistas" (p. 34). Nessa direção, defendem a idéia de que a meta a ser colocada é a de "ciência para todos", chamando a atenção para o fato de que a universalização do acesso à escola para todos os segmentos sociais exige uma revisão de objetivos, conteúdos e métodos de ensino.
Para esses e outros autores que discutem as finalidades do ensino de Ciências e de Física, em particular, o objetivo do trabalho escolar com os conhecimentos científicos é proporcionar aos sujeitos a condição de ler e compreender o mundo cientificamente, construindo relações com a própria vida, e permitindo também a ação sobre o mundo. Para esses autores, a finalidade do ensino escolar é contribuir para a alfabetização científica. No livro examinado, o autor apresenta uma ciência com tendências puramente tecnocráticas; seus silêncios no que diz respeito à historicidade e contextualização do conhecimento reafirmam um caráter de ciência neutra, que as discussões epistemológicas contemporâneas recusam. Entende-s-se que os textos introdutórios aos conteúdos de ensino poderiam cumprir função relevante no sentido de demarcar uma posição difeferente em relação ao conhecimento científico enquanto produção humana e, portanto, histórica, seja por sua linguagem, seja pela escolha da problematização como primeiro momento pedagógico.
Essa questão se relaciona com a categoria da completude, utilizada a para examinar os textos e que parece ser uma característica que o autor procura imprimir ao seu trabalho, já que seus leitores precisam ficar inteiramente satisfeitos com o produto adquirido - aqui se relembra a idéia de que o livro didático também é uma mercadoria (APPLE,1995) e que, portanto, está sujeito às leis de funcionamento do mercado. Resulta dessa questão o esforço em apresentar todo o conteúdo, como se isso fosse possível, optando-se pela superficialidade e não pelo aprofundamento das questões. Resulta também a construção da idéia de que se pode apresentar, nos livros, uma ciência completa. Essa questão se relaciona também com a perspectiva defendida nas orientações curriculares oficias de que a História da Ciência é uma abordagem fundamental para o ensino de Física. No estudo realizado, observou-se que nos poucos capítulos em que a História da Ciência esteve presente, o autor contribuiu para a construção da idéia de "cientistas heróis" que desenvolveram todos os conhecimentos sozinhos, para serem úteis à sociedade. Seus silêncios em
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
26 a 30 de Janeiro de 2009
relação aos avanços e embates em determinados momentos históricos e à estrutura epistemológica aparecem como um meio de propagar o pensamento de uma ciência com desenvolvimento linear, sem rupturas. Essas características, de forma geral, não apontam para a possibilidade de que esses textos contribuam para que os sujeitos escolarizados sejam capazes de ler o mundo cientificamente, proposição bastante presente nas propostas de ensino de Física contemporâneas.
Um segundo ponto que pode ser destacado dos resultados das análises se refere à postura didática que está expressa no texto, e que pode se reproduzida por leitores menos atentos a essa dimensão . As discussões teóricoometodológicas sobre o ensino de Física apontam , há algumas décadas e em diferentes abordagens, para a necessidade de que os modelos pedagógicos contemplem a produção de significados pelo sujeito que aprende. Esta ênfase está presente, em Becker (2001) na idéia de um modelo relacional, apoiado em uma perspepectiva epistemológica construtivista. Com um caráter prpredominantemente descritivo, o texto didático se torna obrigatoriamente diretivo.
Esta característica fica bem nítida à medida que o autor expõe o que está acontecendo no exemplo explorado, muitas vezes es sem ligação com o cotidiano do aluno - em um dos capítulos aparece um homem esquiando, para servir de referência à construção o do conceito de plano inclinado. Muitas vezes usa um vocabulário próprio da Física sem discutir seu significado, desconsiderando que as palavras possam ter r pouco significado para o aluno ou que possuam um significado diferente daquele atribuído o pelo autor. O que está em questão, aqui, é a idéia 6 equivocada de que o uso de uma situação do cotidiano 6 - - neste caso, esquiar - seria suficiente para o aluno o estabelecer r relações conceituais associadas àquela situação particular, mas que necessariamente não estão explícitas na própria situação. Outro elemento presente nos textos analisados diz respeito ao fato de que o autor procura responder r a questões antes que elas possam ser problematizadas e , com esta prática , direciona os sentidos para uma interpretação préré-d-definida, forma esta que não c coloca o leitor em situação de desafio cognitivo. Relembra-se que esta seria uma das condições essenciais para aprender, na perspectiva pedagógica relacional .
Esses elementos aqui apresentados de forma sintética a permitem afirmar que o livro analisado, do ponto de vista da linguagem usada pelo autor, mantém a maneira tradicional de abordagem da Física no ensino escolar, com textos descritivos, com poucas possibilidades de interação com os leitores. NoNos capítulos analisados não foram encontrados elementos indicativos de uma compreensão de que autores não detêm todo o saber e de que leitores são mais do que receptores passivos de significados pré-d-definidos. Para o estudo definitivo, em fase de desenvolvimento, serão utilizadas as categorias de análise que se mostraram adequadas ao exame da linguagem, mas aponta-s-se a necessidade de buscar autores que contribuam para ampliar as perspectivas de relação entre a linguagem e a dimensão didática. Isto é particularmente relevante quando se considera o papel que os livros escolares desempenham na configuração dos conhecimentos a serem ensinados.
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
## Referências
APPLE, Michael . Cultura e comércio do livro didático. In APPLE, M. Trabalho docente e textos. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995, p. 81-105.
AULER, D; DELIZOICOV, D. Alfabetização Cientifica - - Tecnológica para quê?. Revista Ensaio, volume 3, número 1, junho 2001.
BECKER, , F. Educação e construção do conhecimento. 1. ed. Porto Alegre: Artmed, 2001.
BRASIL. Ciências da natureza, matemática e suas tecnologias . Secretaria de Educação Básica. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação Básica, 2006. (Orientações curriculares para o Ensino médio; volume 2)
CARVALHO, Cristiano. A história da indução eletromagnética contada nos livros didáticos de Física. Dissertação (Mestrado em Educação) - - Programa de Pós -Graduação em Educação, Universidade federal do Paraná, 2007.
CHEVALLARD, Yves. La transposición didáctica: del saber sabio al saber enseñado. Buenos Aires: Aique Grupo Editor, 2005.
DELIZOICOV, D. ; ANGOTTI, J. A ; PERNAMBUCO, M. M. (2002). Ensino de Ciências: Fundamentos e métodos. 1. ed. São Paulo: Editora Cortez, , 2002.
FERREIRA, M. S.; SELLES, Sandra Escovedo. Análise de Livros Didáticos em Ciências: entre as Ciências de Referência e as Finalidades Sociais da Escolarização. Educação em Foco, Juiz de Fora, v. 8, n. I e II, p. 63-78, 2004.
FORQUIN, Jean-Claude. Escola e cultura: as bases sociais e epistemológicas do conhecimento escolar. Tradução Guacira Lopes Louro. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.
FRACALANZA, H. e MEGID NETO, Jorge (orgs.). O livro didático de Ciências no Brasil. Campinas: Komedi, 2006.
GARCIA, T. M. F. B. . O uso do livro didático em aulas de História do ensino fundamental. In: Encontro Nacional Perspectivas do Ensino de História, 6, Natal, 2007 . Anais ... N Natal: Editora da UFRN, 2007. v. 1. p. 1-11.
GARCIA, T. M. F. B; GARCIA, N. M. D; PIVOVAR, L. L. E. O uso do livro didático de Física: estudo sobre a relação dos professores com as orientações metodológicas . In: Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciência, 6, Florianópolis, 2007. Anais... Florianópolis, UFSC, 2007.
GIRALDI, P. M. Linguagem em textos didáticos de citologia: : investigando o uso de analogias. Dissertação (Mestrado em Educação Científica e Tecnológica). Programa de Pós-Graduação, Universidade Federal de Santa Catarina, 2005.
RODRIGUES, C. D. O; OLIVEIRA, M. P . A abordagem da relatividade restrita em livros didáticos do ensino médio e a transposição didática . . In: Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências, 2, Valinhos, São Paulo, 1999, 1-12. Anais... São Paulo, 1999.
SOUZA, S. C. Leitura e Fotossíntese: proposta de ensino numa abordagem cultural. Tese (Doutorado em Educação) Programa de Pós -Graduação em Educação . Universidade Estadual de Campinas, 2 2000.
\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_\_
Texto extraído automaticamente do PDF: podem existir erros de conversão, especialmente em fórmulas, tabelas e figuras.