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Planejamento e Execução de Atividades Didáticas com Temas Controversos: futuros professores de Física e o Aquecimento Global

Luciano Fernandes Silva, Frederico Augusto Toti, Alice Helena Campos Pierson

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XVIII
Ano
2009
Data
27/01/2009
Linha de pesquisa
Didática Da Física: Materiais, Métodos, Estratégias E Avaliação
Tipo
Comunicação

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Texto completo

## Planejamento e Execução de Atividades Didáticas com Temas Controversos: futuros professores de Física e o Aquecimento Global

Luciano Fernandes Silva1 a1 Frederico Augusto Toti 2 Alice Helena Campos Pierson 3

1 UNIFEI/DFQ, lufesilva@uol.com.br

2 UFSCar/DME/PPGE, toti@iris.ufscar.br

- 3 UFSCar/DME/PPGE, apierson@ufscar.br

## Resumo

As controvérsias de natureza sócio -científica têm um potencial pedagógico para o desenvolvimento de um ensino de Física mais próximo da realidade dos processos científicos. Ao mesmo tempo , possibilitam realizar um ensino de Física mais adequado à formação de cidadãos capazes de utilizar a Ciência na análise de questões sócio-científicas. Tendo em conta essas considerações, desenvolveu-se uma investigação com licenciandos de Física no âmbito o das disciplinas de práticas de ensino e estágio supervisionado I e II. Na condição de formadores, e tendo em vista a necessidade de preparar os licenciandos para uma prática docente atenta aos chamados temas controversos, elaboramos a seguinte questão: que dificuldades um grupo de futuros professores de Física apresenta diante do planejamento e da execução de atividades de ensino com o tema Aquecimento Global? Nosso objetivo foi avaliar as dificuldades que se apresentam aos licenciandos que tratam do tema Aquecimento Global em suas atividades de ensino. Por meio de informações coletadas em diversas situações, tais como textos produzidos pelos licenciandos, materiais utilizados nas atividades de estágio, planos de ensino, entrevistas semi-estruturadas, registro das aulas dos licenciados, anotações de aulas e notas de campo, foi possível localizar e compreender melhor as dificuldades apresentadas pelos grupos, a fim de orientar ações futuras neste contexto formativo. As análises apontam como principais dificuldades dos licenciandos, diversos aspectos de natureza conceitual, a dificuldade de buscar material de referência diversificado, distorções da compreensão do efeito estufa como fenômeno necessário para a manutenção da vida no planeta, além de dificuldades em buscar articulações específicas do problema do Aquecimento Global e os interesses/implicações econômicos, políticos e sociais de modo geral e suas relações com o desenvolvimento da Ciência e da Tecnologia.

Palavras -c -chave: Temas Controversos, Aquecimento Global, Ensino de Física.

## Introdução

Do ponto de vista educacional, a abordagem dos temas controversos em atividades educativas oferece situações de aprendizagem que colocam em jogo valores relevantes para o exercício da cidadania na medida em que coloca os os estudantes frente a perspectivas múltiplas em relação a uma determinada questão.

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26 a 30 de Janeiro de 2009

Nesse sentido, o trabalho educativo com temas controversos possibilita ao professor articular os conteúdos científicos com aspectos econômicos, políticos, ambientais e outros que tornam a atividade científica mais próxima da realidade.

Alguns temas da Ciência e da Tecnologia oferecem a oportunidade de trabalhar numerosas situações de natureza controversa como, por exemplo, a produção e utilização da energia nuclear, os alimentos modificados geneticamente e a clonagem de animais. Para alguns autores (BRIDGES, 1986; WELLIGTON, 1986; GAYFORD, 2002; LEVISON, 2002; SILVA e e CARVALHO, 2002, 2006; REIS, 2004) a abordagem dos temas controversos a partir de atividades de ensino pode auxixiliar na compreensão dos complexos processos de construção das mais diferentes atividades científicas. Esses temas possibilitam explorar aspectos da natureza da Ciência que, normalmente, são pouco trabalhados nas salas de aula, tais como os dilemas éticos que acompanham as modificações ambientais e sociais decorrentes da aplicação de certas tecnologias. Além disso, conforme destaca Reis (2004), a discussão de temas controversos na sala de aula promove a construção de uma idéia mais real e humana do empreendimento científico. Nesse sentido, essa abordagem contribui para desvincular a idéia da Ciência enquanto produto e promove a sua compreensão enquanto processo histórico em constante transformação.

- A Física, nesses termos, é apresentada como uma atividade huhumana e, como tal, sujeita às influências de natureza sócio-histórica, econômica, política, filosófica e ambiental. A partir desses encaminhamentos podemos levantar a seguinte questão: quais as possibilidades de desenvolvermos trabalhos educativos com temas as controversos a partir de nossas atividades de ensino de Física?

## O ensino de Física a partir dos temas controversos

Na área de ensino de Física os trabalhos de Silva e Carvalho (2002 e 2006), têm apresentado exemplos do tratamento de alguns temas a partir r das controvérsias a eles associados. Os autores enfocam, de modo específico, a possibilidade de trabalhos educativos com os temas Aquecimento Global e produção de energia elétrica em larga escala. Segundo os autores, o trabalho educativo com temas controveversos possibilita ao professor de Física apresentar uma atividade científica mais distante da neutralidade, das verdades absolutas ou das lógicas unitárias.

No entanto o autor Silva (2007), destaca que as experiências escolares que os professores vivenciaram ao longo dos seus processos formativos influenciam o que eles compreendem por Ciência e ensino de Ciências, situação que quase sempre os leva a privilegiar r abordagens tradicionais focadas exclusivamente em conteúdos da Ciência. O ensino de Física, em paparticular, freqüentemente tem se prestado a reforçar a imagem de uma Ciência neutra, portadora da verdade, universal, reduzida a um conjunto de leis que traduzem um Universo ordenado, determinado, harmônico, impessoal, idealizado e livre de qualquer subjetividade.

Além disso, a urgência em cumprir todo o conteúdo curricular, as concepções de conhecimento que os professores possuem (REIS, 2004), a dificuldade em tratar aspectos não científicos em aulas de Ciências Naturais (GAYFORD, 2002) e o tipo de formação que adquiriram na escola básica e superior são outros fatores que também desfavorecem a discussão de temas controversos nas atividades de ensino de Física. Gayford (2002), ), aponta que o trabalho com temas controversos exige dos professores não só um novo entendimento do

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processo científico, mas a possibilidade de novos entendimentos do que seja importante levar para a sala de aula em se tratando de conteúdos.

Podemos dizer que as controvérsias sócio-científicas possuem um potencial pedagógico, explicitando elementos desencadeadores de discussões sobre o significado do conhecimento. Os temas controversos podem ser compreendidos como um princípio metodológico para o desenvolvimento de práticas pedagógicas. Isto significa tomar a controvérsia como uma idéia-chave para organizar e orientar metodologicamente o trabalho em sala de aula. Um exemplo interessante de controvérsia sócio -científica que apela significativamente para conhecimentos de Física é aquele diretamente relacionado com a compreensão do tema Aquececimento Global.

## Algumas considerações sobre o tema Aquecimento Global

Do ponto de vista científico há importantes controvérsias relacionados ao tema Aquecimento Global. De um lado há grupos que consideram o Aquecimento Global um fenômeno complexo, altamente prejudicial aos ambientes social e natural e diretamente relacionado à histórica forma de produção e organização das sociedades industrializadas. De outro lado, há importantes grupos que afirmam que ainda existem muitas dificuldades para compreendermos adequadamente a complexidade dos fenômenos que o compõem, daí derivam algumas considerações segundo as quais ainda é prematuro enfatizar que este fenômeno seja única e exclusivamente de origem antrópica. Diferente daquilo que a grande mídia coloca quando trata do tema Aquecimento Global, é importante termos em mente que muitas questões complexas ainda estão abertas, distanciando-nos muito de alguma forma de consenso na comunidade científica.

Alguns cientistas enfatizam que o clima é um exemplo típico de sis tema dinâmico complexo. A história geológica do planeta indica que, ao longo dos anos, o clima da Terra modificou -se diversas vezes. Os desvios de temperatura verificados nas últimas décadas, mesmo considerando-s-se um intervalo de tempo muito menor do que aqaquele mencionado anteriormente, podem ser explicados a partir de várias perspectivas como, por exemplo, a diminuição do albedo planetário - sistema que controla a quantidade de energia solar absorvida pelo sistema Terra-atmosfera uma menor atividade vulcânica no último século, as variações das circulações atmosféricas e oceânicas, as mudanças dos parâmetros orbitais da Terra, ou ainda algumas variações na produção de energia solar.

- O fato de levantarmos essas questões não significa, em absoluto, estar indiferentes às grandes modificações provocadas na natureza pelo ser humano. Essas modificações estão, na maior parte das vezes, amparadas numa crença na possibilidade de um crescimento ilimitado e na negação de limites impostos pela própria natureza. Em nome e de um progresso ilimitado observamos o surgimento de complexos e profundos problemas sociais e ambientais. Essa situação é um forte indicador do colapso do estilo de desenvolvimento moderno, no plano econômico, social e ambiental.

Além dos aspectos controversos relacionados ao tema Aquecimento Global produzidos no âmbito interno da comunidade científica, há também importantes condições controversas diretamente relacionadas com dimensões econômicas e políticas. Não podemos deixar de considerar que uma drástica diminuição da

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emissão de CO2O2, como aquela proposta por algumas organizações, exige uma profunda e complexa mudança na base produtiva mundial.

Ao tratar do tema Aquecimento Global, somos da opinião de que o professor de Física deve estar preparado não só para explicar os mecanismos que levam as moléculas de CO2 a absorver radiação na faixa de comprimento de onda do infravermelho, mas a contextualizar o significado dessas emissões para a sustentação da sociedade industrial que inventamos, tendo em vista que os combustíveis fósseis constituem a matriz energética preponderante em nossas sociedades. Simplesmente situar de um lado as atividades econômicas baseadas nos combustíveis fósseis como algo do mal, e de outro lado as novas tecnologias, entre elas os sistemas fotovoltaicos, como sendo do bem, e entregar-se ao quixotismo de querer simplesmente anular a história leva-nos apenas a encobrir as questões que realmente importam ser pensadas e discutidas, pois é necessário levar em conta o fato de que não há meio de produção de energia que deixe de provocar impactos ambientais ou que não esteja diretamente relacionado o com grandes interesses econômicos e políticos.

Consideramos também importante destacar que a sugestão de trabalhos com temas controversos não pode ser confundida com posições que descaracterizam o que é básico na construção da Física. É importante reconhecer qual é o seu espaço específico na compreensão de um fenômeno complexo como o do Aquecimento Global e nesta perspectiva, ensinar Física também inclui mostrar quais caminhos essa Ciência percorre para compreender certos aspectos da realidade, apontar suas possibilidades e seus limites.

A partir dessas observações, e tendo em conta nossa possibilidade de trabalho com futuros professores de Física em em aulas de Prática de Ensino e Estágio Supervisionado, elaboramos a seguinte questão: que dificuldades um grupo de futuros professores de Física apresenta diante do planejamento e da execução de atividades de ensino com o tema Aquecimento Global? A partir dessa questão, nosso objetivo foi avaliar as dificuldades que se apresentam a futuros professores de Física que tratam do tema Aquecimento Global em suas atividades de ensino.

## O contexto da pesquisa

Os dados foram coletados em 2002, a partir da elaboração e execução de um projeto de intervenção nas disciplinas Prática de Ensino e Estágio Supervisionado de Física I e II. Isso aconteceu de foforma paralela às discussões e às atividades de ensino pertinentes ao curso de Prática de Ensino. Nesta disciplina os fututuros professores têm um contato mais direto com a escola e com a prática docente para a qual estão se preparando. Além disso, os futuros professores são estimulados a articular os conteúdos específicos com os conteúdos pedagógicos . Uma das nossas primeiras iniciativas foi a de negociar com o grupo de estudantes, constituído por 18 licenciandos, a coleta de dados durante alguns episódios da disciplina.

Por conta da natureza dos dados coletados, também é significativo destacar que, dentre as atividades pertinentes ao curso, fornecemos aos licenciandos subsídios para desenvolverem trabalhos educativos que pudessem tratar de temas controversos, sobretudo aqueles que possibilitassem abordar o tema Aquecimento Global em aulas de Física. Com relação aos Estágios, os licenciandos se

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organizaram em seis grupos de no máximo quatro integrantes, formados pelos próprios estudantes, conforme suas afinidades e/ou conveniências.

Foi proposto aos grupos que elaborassem um mini-curso3 o3 com quatro aulas de cinqüenta minutos cadada. Esses grupos tiveram total liberdade de escolha dos temas a serem trabalhados com alunos do Ensino Médio de uma escola pública. Todas as aulas do mini -curso foram filmadas, assim como foram coletados todos os materiais construídos e/ou utilizados pelos licenciandos. Após a realização dessas atividades, todos os licenciandos foram entrevistados pelo pesquisador/ professor.

## Procedimentos Metodológicos

A possibilidade de realizar uma intervenção planejada pareceu-nos a alternativa mais viável para o proces so de coleta de dados. Conforme explicita André (1998), nesse tipo de investigação, o pesquisador realiza a coleta dos dados enquanto se desenvolvem as atividades de ensino e aprendizagem em sala de aula.

Na primeira etapa - planejamento - elaboramos os objbjetivos da pesquisa e o plano de ensino para as disciplinas Prática de Ensino e Estágio Supervisionado de Física I e II, oferecidas seqüencialmente. A partir desses planos, foi possível planejar alguns eventos mais significativos em termos de coleta de dados para esta pesquisa. Foi também nessa etapa do trabalho que elaboramos e construímos atividades de ensino que, além de sintonizadas com os objetivos pedagógicos do curso, deveriam contemplar a possibilidade de coleta de dados da pesquisa.

Na segunda etapa - - monitoramento - - realizamos a intervenção nas aulas de Prática de Ensino e Estágio Supervisionado de Física I e II. Nessa fase, monitoramos o processo de desenvolvimento das disciplinas e realizamos a coleta dos dados relevantes para a pesquisa. Nessa segunda etapa, também trabalhamos com os estagiários a possibilidade de tratarem de temas controversos em aulas de Física. Discutimos algumas possibilidades de abordarmos o tema Aquecimento Global e alguns conceitos de Física associados a ele.

Como procedimento de coleta de dados utilizamos: questionários abertos, entrevistas semi -estruturadas, observações diretas de seqüências de aulas, coleta de documentos (planos de ensino elaborados pelos professores estagiários e todo o tipo de registro escrito que eles produziram, tais como: roteiros, redações e materiais didáticos produzidos e/ou utilizados nas práticas de ensino do estágio) e notas de campo.

Na seqüência, procedemos à leitura dos documentos coletados com a intenção de estabelecer um primeiro contato com os textos. Posteriormente, realizamos outras leituras e procuramos definir nossas unidades de registro. Nesse caso, adotamos como unidade de registro as passagens ou excertos, material privilegiado na análise, que tratavam do tema Aquecimento Global. Procuramos dados que indicassem a forma como os estagiários lidavam com o tema Aquecimento Global em seus planejamentos e em suas atividades de ensino.

Após essa fase inicial, procedemos à construção de categorias. Nessa etapa foram geradas c classes que reuniam um grupo de elementos da unidade de registro.

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Essas classes foram compiladas a partir da correspondência entre a significação, a lógica do senso comum e a orientação teórica do pesquisador. Procuramos, dessa forma, determinar os núcleos de sentido que compõem os textos e cuja freqüência tem o potencial de fornecer um importante significado às nossas considerações. Por fim, realizamos a triangulação dos dados obtidos através dos diferentes procedimentos de coleta.

## Futuros professores de Física e o planejamento e a execução de atividades de ensino com o tema Aquecimento Global

Os dados analisados indicam que grande parte dos estagiários que participaram desta investigação possuem algumas dificuldades em construir e realizar atividades de ensino mais articuladas com temas de natureza controversa.

Um dos primeiros obstáculos está relacionado com a dificuldade dos futuros professores procurarem ser criativos ao pensar seu futuro fazer profissional. Os licenciandos encontravam, freqüentemente, obstáculos ao tentar elaborar e desenvolver abordagens de ensino de Física com a qual não tiveram experiências anteriores. De fato, a proposta de trabalho com temas controversos se apresentava muito nova para a maioria dos futuros professores que, provavelmente, tiveram poucas oportunidades de vivenciar atividades dessa natureza em seus cursos de formação básica e superior, dado a influência destas etapas de formação sobre o trabalho docente, como mostrado em diversas pesquisas. Nossos registros apontam que, dos seis grupos existentes na prática de ensino, três fizeram uma tentativa de tratar de temas controversos em suas atividades do estágio e desses dois grupos trataram alguns aspectos do tema Aquecimento Global em suas atividades de ensino do estágio supervisionado - - grupos 1 e 4.

Desses dois grupos - grupos 1 e 4 - - avaliamos que o grupo 4 foi o que apresentou maior dificuldade em tratar esse tema em suas atividades de ensino. O grupo 4 procurou tratar de alguns aspectos do tema Aquecimento Global na última aula de um mini -curso de 4 aulas que tratava de ondas eletromagnéticas.

A partir de dados obtidos na entrevista semi-estruturada realizada alguns dias após o término do mini-curso, os estagiários relatam que escolheram o tema Aquecimento Global porque gostariam de tratar temas controversos em suas aulas de estágio e o tema é atual. Os excertos a seguir demonstram algumas p posições:

Daniel: -A gente trabalhou com ondas eletromagnéticas. A gente achou várias opções de trabalhar esses temas controversos como, por exemplo, o efeito estufa.

Douglas: - A gente trabalhou com este tema porque é uma coisa atual. A gente resolveu colocar isso porque é uma coisa importante e está relacionado com o jeito do mundo. Você tem que ter consciência de que o escapamento do seu carro está afetando a atmosfera e outras coisas. Porém, esquecemos de mencionar que o efeito estufa é um efeito natural. Na verdade não é só um efeito nocivo, se não fosse o efeito estufa não teria como haver vida na terra e outras coisas. A abordagem desse assunto é legal porque fala muito disso na TV. [sic]

Daniel: -Eu acho legal também. Todo mundo já ouviu falar de efeito estufa e este assunto é da Física também.

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Podemos notar que Douglas aponta o fato de não terem apresentado para os estudantes do Ensino Médio o que é o efeito principal do efeito estufa e o significado de sua intensificação. De fato, nossos registros sobre as aulas de estágio do grupo 4 apontam que eles não mencionaram em nenhum momento que o efeito estufa é um fenômeno natural importante, dentro ro de certos limites, para a manutenção da vida sobre a Terra.

Ao iniciar a apresentação do tema no estágio, estes estagiários destacaram que o efeito estufa é um fenômeno prejudicial ao homem e à natureza, não levando em conta o fato de que este é um fenômeno natural de importância vital para a manutenção da vida na Terra, nas formas conhecidas. O grupo abordou alguns aspectos relacionados com a intensificação do efeito estufa sobre a Terra a partir da discussão dos efeitos decorrentes da utilização de algumas máquinas que emitem gases antropogênicos na atmosfera. Eles mencionaram que esses gases originados na atividade humana induzem ao Aquecimento Global, sobretudo porque esses gases - o exemplo mais conhecido é o do CO2 - - interagem com a radiação eletromagnética do comprimento de onda na faixa do infravermelho.

Em relação aos recursos didáticos produzidos/utilizados, os dados coletados evidenciam que o grupo 4 trabalhou o tema Aquecimento Global em sala de aula a partir de um texto de um jornal de grande circulação que estava à disposição na Internet. Porém, este texto era muito limitado e apresentava importantes equívocos conceituais. O texto misturava o que é efeito principal do efeito estufa com as alterações que nele são provocadas pela ação direta e indireta do homem sobre o ambiente. Além disso, este texto não mencionava vários aspectos significativos relacionados ao efeito estufa, tais como a contribuição significativa do vapor de água para a constituição do efeito principal, ou as inúmeras incertezas as inerentes às teorias científicas que estudam o tema.

O grupo 4 não propôs nem realizou atividades de ensino que levassem os estudantes do Ensino Médio a questionar nossos padrões de relacionamento com a natureza. Os dados coletados, a partir das gravações das aulas do estágio, indicam que esses futuros professores não promoveram uma abertura para o diálogo em sala de aula.

Contudo, concebemos que os temas controversos oferecem importantes oportunidades para questionarmos e avaliarmos nossos padrões de relalacionamento com a natureza e a forma como nos organizamos em sociedade. Ao mesmo tempo em que fazemos uso dos benefícios dos avanços científico e tecnológico, também sofremos as graves conseqüências dos efeitos sociais e ambientais diretamente atrelados a ele. O trabalho educativo com temas controversos permite explicitar alguns dilemas morais e éticos relacionados com a aplicação dos produtos e dos processos da Ciência e da Tecnologia.

Já o grupo 1 abordou alguns aspectos do tema Aquecimento Global ao final da última aula - - 4ª aula -- do mini -curso que versava sobre conceitos básicos de termodinâmica. O grupo 1 tratou esta temática como sendo um exemplo de aplicação dos conceitos introduzidos e trabalhados nas três aulas anteriores. A estratégia do grupo foi apresentar aos estudantes do Ensino Médio um texto de divulgação científica e, ao final da aula, iniciar uma discussão sobre o tema. Especificamente em relação ao material didático de apoio utilizado pelos professores-estagiários do grupo 1, chama a nossa atenção o fato de terem utilizado um texto de divulgação científica sobre o efeito estufa produzido pelo astrônomo

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norte -americano Carl Sagan. O texto, segundo nossa avaliação, possui vários pontos importantes como, por exemplo: (i) não apresentar o efeitito estufa como algo essencialmente maléfico, mas dizer que a intensificação deste efeito traz conseqüências aos meios social e natural ainda não compreendidas suficientemente; (ii) mencionar de forma explícita que os modelos para analisar este fenômeno são considerados controversos dentro do próprio meio científico; (iii) diferenciar, ainda que rapidamente, as contribuições de diferentes gases estufa para a intensificação do efeito estufa, inclusive considerando a importância do vapor d'água neste processo; (iv) apontar outros aspectos relacionados ao tema, como os políticos e econômicos.

Entretanto, o texto não apresentou de forma mais explícita as profundas divergências que estão diretamente relacionadas aos posicionamentos políticos e econômicos dos atores sociais. Mesmo assim, somos da opinião de que esse texto do Carl Sagan poderia vir a ser uma importante ferramenta pedagógica, mas, a provável falta de experiência do grupo 1 com estudantes do Ensino Médio e a idéia de tratar o tema como um apêndice do curso acabaram levando os estagiários a explorarem de forma superficial o texto apresentado aos alunos.

De modo geral, apontamos que o grupo 1 não problematizou o texto de Carl Sagan em sala de aula. Os estagiários simplesmente entregaram o texto para os estudantes no final da penúltima aula do mini-curso - - terceira aula --, solicitando que eles o lessem em casa, durante a semana que os separavam do último encontro, aparentemente reproduzindo procedimentos usuais do Ensino Superior. Entretanto, os estudantes do Ensino Médio não realizaram a leitura do texto em casa. Esta situação exigiu uma situação de improviso dos professores-estagiários em sala de aula. É curioso observarmos que, diante do inesperado, recorre -se ao tradicional. Mesmo tratando -se de um assunto cuja relevância foi reconhecida pelos estagiários por tratar-r-se de temática atual, presente na mídia, a abordagem selecionada para discutir o efeito estufa foi uma aula expositiva sobre os temas tratados pelo texto. A expectativa inicial de trabalhar um tema que não fosse estranho aos alunos, um assunto sobre o qual eles deveriam ter algo a dizer, foi totalmente esquecida e a possibilidade de uma abordagem mais dialógica abandonada.

Também queremos destacar que os integrantes do grupo 1, em entrevista realizada após as aulas do Estágio II, forneceram importantes informações sobre os caminhos percorridos por eles para planejar as atividades de ensino nas quais abordaram o tema Aquecimento Global. Inicialmente, solicitamos ao grupo 1 indicações sobre o processo de escolha do material que serviu para alicerçar o planejamento e a execução das atividades de ensino.

Segundo os integrantes do grupo, um único material foi utilizado para preparar o tema em suas atividades de ensino de Física. Esse material foi retirado do livro de divulgação científica, escrito pelo astrônomo norte-americano Carl Sagan (Bilhões e Bilhões), ao qual já fizemos referência. Os estagiários fizeram uso de um capítulo do referido livro. Nesse capítulo o autor apresenta e discute alguns aspepectos da intensificação do efeito estufa na Terra.

É interessante observarmos que os estagiários escolheram um texto que apresentava na forma de informação algumas das conclusões que esperamos que os alunos Ensino Médio cheguem ao longo do trabalho educativo com temas controversos: a não existência de consenso no meio científico em relação à alguns temas e o cuidado em não classificarmos, a priori, fenômenos como benéficos ou

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maléficos para a sociedade e/ou espécie humana, excluindo a dificuldade de análise dos processos. Aparentemente os estagiários precisavam de um autor reconhecido, de um cientista de renome, para falar aquilo que eles gostariam que os alunos do Ensino Médio passassem a crer, e assim, recaem numa "velha armadilha": ao invés de levar os alalunos do Ensino Médio a tirarem suas próprias conclusões, utilizaram um autor autorizado para apresentá-las.

É significativo que este tenha sido o único texto utilizado pelo grupo para explorar um tema que, como já vimos, mostra-se complexo e controverso, até mesmo do ponto de vista estritamente científico e técnico. Esse fato reforça uma das nossas avaliações que se apóia na idéia de que os estagiários encontraram dificuldades em obter textos didáticos e paradidáticos da área de Física que tratem de temas controversos como, por exemplo, o Aquecimento Global.

## Considerações Finais

É relevante perceber que, para alguns estagiários, os conteúdos da Física possibilitam explorar temas de natureza controversa. A entrada nesses temas parece dar-r-s-se justamente pela abordagem crítica de algumas implicações negativas da interferência do homem na natureza através de equipamentos tecnológicos. Nesse sentido, mais do que os benefícios associados à atividade científica e tecnológica, espera-se que o futuro professor de Físísica possa abordar alguns dilemas éticos, ambientais e sociais que acompanham o desenvolvimento técnico e científico. Contudo, como já observamos, há inúmeras situações que dificultam a utilização dos temas controversos em atividades de ensino. Mesmo do ponto de vista mais conceitual, notamos certas dificuldades dos estagiários em lidar com um tema de natureza controversa em sala de aula.

Observamos, por exemplo, que em nenhum momento, durante as aulas do estágio, os grupos que trabalharam com o tema Aquec imento Global trataram do balanço radioativo entre a Terra e o Sol, aspecto relevante para explicarmos, do ponto de vista físico, parte dos efeitos naturais que interferem nas variações da temperatura terrestre. É importante destacar que ao longo da disciplina prática de ensino, apresentamos aos estudantes o significado do balanço radioativo entre a Terra e o Sol e indicamos que ele não poderia ser desprezado em um tratamento físico do tema.

Em relação aos processos de trocas energéticas realizadas na atmos fera, destaca -s -se o fato dos dois grupos não mencionarem que as moléculas de vapor de água existentes na atmosfera contribuem de modo significativo para a existência do efeito estufa principal. Segundo alguns autores (XAVIER; KERR, 2004; GOLDEMBERG, 2001) o o vapor de água contribui com algo em torno de 65% do efeito estufa principal e o CO2 com aproximadamente 32%. Nesse sentido, os grupos não diferenciaram o efeito principal, necessária à vida no planeta, de suas variações.

As análises realizadas com modelos s matemáticos mostram que a absorção de ondas eletromagnéticas longas pelo vapor de água é tão significativa que outros gases, que também absorvem radiações de ondas longas, contribuem muito pouco para com o efeito estufa principal. Entretanto, há uma região do espectro de ondas longas em que a absorção de radiação infravermelha pelas moléculas de vapor de água e CO2 é menor. Essa região do espectro de ondas longas é conhecida como janela atmosférica.

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Vale então destacar que os estagiários também não mencionaram as diferentes janelas atmosféricas pelas quais algumas freqüências de radiação infravermelha estão deixando de sair da Terra. A presença maciça de gases artificiais na atmosfera (CFC 11, CFC 12, HCFC 22, CF4) provoca uma intensificação significativa do efeito estufa principal (XAVIER; KERR, 2004; GOLDEMBERG, 2001). Os diferentes gases estufas contribuem de diferentes maneiras para a intensificação deste fenômeno, sobretudo por conta dos diferentes comprimentos de radiação infravermelha que podem absorvrver e do tempo de residência de cada gás na atmosfera (XAVIER; KERR, 2004).

No entanto, o aspecto mais importante, do nosso ponto de vista, foi a ausência de consideração por parte dos estagiários de complexas variáveis que envolvem o estudo e a discussão desse fenômeno, fato que indica inúmeras incertezas nos modelos explicativos atuais da Ciência (INTERGOVERNMENTAL PANEL ON CLIMATE CHANGE, 2001). Nenhum dos grupos colocou em pauta para discussão, por exemplo, o fato de que estas teorias são modelos da realidade e que representam uma tentativa do homem explicar um fenômeno extremamente complexo. Em nenhum momento foi mencionado o complexo sistema de realimentação do sistema climático, situação que leva à ocorrência de incertezas bastante significativas. Diferente disso, os estagiários abordaram o fenômeno a partir de seus pontos principais, apresentando o efeito estufa como algo maléfico, desdobrando -s -se disso uma visão mais catastrófica do fenômeno.

Além das questões mais conceituais, não houve, por parte dos professores estagiários, uma abordagem que articulasse outros aspectos da realidade diretamente relacionados com a discussão do Aquecimento Global, sobretudo as importantes questões políticas e econômicas. Uma explicação para este encaminhamento pode seser o fato dos estagiários tratarem desse tema como um apêndice dos conteúdos da Física, um simples exemplo de aplicação dos conceitos anteriormente apresentados. Diferente disso, insistimos para que o tema sirva para construir um contexto para a apresentação e discussão dos conteúdos básicos da Física.

- O grupo 4, por exemplo, ofereceu aos estudantes um texto sobre o efeito estufa retirado de um jornal diário de grande circulação, no qual é destacado a importância política do protocolo de Kyoto. Porém, o tempo da aula para as discussões sobre o significado deste evento mundial foi limitado. Os estagiários se limitaram a construir poucas críticas endereçadas aos Estados Unidos - o maior produtor mundial de gases estufa. Destacaram o fato desse país não ter assinado o protocolo de Kyoto.

Neste caso, faltou uma discussão que pudesse levar o estudante do Ensino Médio a refletir sobre as forças políticas e econômicas que estão por trás das posições tomadas pelos países. A simples indicação de que os EUA detêm as maiores empresas multinacionais do mundo no ramo petrolífero, além das maiores montadoras de veículos automotores e das maiores indústrias de produtos químicos já possibilita que o estudante tenha novos elementos para entender esta complexa realidade. Da maneira como o grupo 4 abordou o tema, tudo se passa como se os Estados Unidos fossem uma entidade abstrata.

A partir da concepção de Ciência exigida pela apresentação e discussão de um tema controverso, somos levados a repensar nossa forma de organizar atividades de ensino. A construção de um contexto para a discussão dos temas

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controversos e a apresentação dos conceitos básicos de Física auxilia, com certeza, a aproximar a Ciência das condições mais próximas da realidade.

Por fim, é importante destacar que e há uma importante escassez de recursos didáticos que tratem do Aquecimento Global. Os professores, muitas vezes, ficam restritos aos textos encontrados na grande mídia. Porém, infelizmente, estes são textos que veiculam importantes equívocos sobre o tema, além de ficarem restritos a uma argumentação de caráter mais catastrófico e menos explicativo.

## Referências

ANDRÉ, M.E.D.A. Desafios da pesquisa sobre a prática pedagógica. In: V V Encontro Nacional de didática e Prática de Ensino, 9., 1998, Lindóia. Anais...Lindóia: Endip, 1998.

BRIDGES, D. Dealing with controversy in the curriculum: a philosophical perspective. In: WELLINGTON, J. J. (Org.). Controversial issues in the curriculum . Oxford: Basil Blackwell, 1986. p. 19-38.

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26 a 30 de Janeiro de 2009

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