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Entrevista com Einstein

Ligia Valente, Marcília Barcellos, Joao Zanetic

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XVII
Ano
2007
Data
01/02/2007
Linha de pesquisa
Arte, Cultura E Educaçao Científica
Tipo
Pôster

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Texto completo

## ENENTREVISTA COM EIEINSTEIN

Ligia Valentea ea [l[ligiavalente@if.usp.br] br] Marcília Elis Barcellos b [marcilia@if.usp.br]r] João Zanetic c [zanetic@if.usp.br]

a IFUSP - Programa de Pós Graduação Ensino de Ciências Modalidade Física b IFUSP - Programa de Pós Graduação Ensino de Ciências Modalidade Física c Instituto de Física da USP

## RESUMO

Esse trabalho é a apresentação de um texto, que pode ser explorado em contexto didático de diversas formas. Trata -se da simulação de uma entrevista atual, que fizemos, com Albert Einstein, a partir de registros seus, com os quais dialogamos, formulando perguntas. Visando explorar as várias facetas desse cientista, cuja imagem é tão presente na mídia, o texto traz de uma forma lúdica a visão de Einstein sobre Ciência, Educação, Política e Sociedade. A principal potencialidade do texto é que, o tipo de abordagem apresentada, permite fazer pontes entre o conhecimento físico e outros tipos de conhecimentos além de trazer uma visão de ciência mais ampla. Essa visão de ciência demonstra uma conexão com a sociedade e com as pessoas que a constróem, evidenciando assim os aspectos humanos de um dos grande s mitos da ciência, que foi Albert Einstein. A intenção é fazer com que os estudantes, ao trabalharem com o texto, conheçam melhor as idéias do físico Albert Einstein, o que permite a eles verificarem que não era somente a física o foco de suas reflexões. Na entrevista as respostas atribuídas a Einstein são fragmentos fielmente retirados de seus livros e outros escritos deixados por ele. Consideramos também que esse tipo de atividade, além de ter um aspecto lúdico e divertido, explora a faceta da leitura, já que se trata de um texto que pode ser utilizado em diversos contextos, na sala de aula ou fora dela, no desenvolvimento de atividades da escola ou como sugestão de leitura para o professor.

## INTRODUÇÃO

Tendo em vista que a figura do Einstein é muito conhecida pelos jovens do mundo atual, e é uma presença "mararcante" da Física e da imagem que é amplamente divulgada da ciência, sendo freqüentemente invocado como um modelo (imagem de cientista), criamos, com base em seus escritos publicados em português, uma pretensa entrevista com ele, para estudantes do Ensinino Médio. A intenção é fazê-los conhecer melhor as idéias do físico Albert Einstein, permitindo-lhes verificar que não era somente a física o foco de suas reflexões. Nosso intuito é mostrar um Einstein mais completo, tentando distanciá-á-lo da visão do cientista "inatingível", "louco", que apenas fazia teorias incompreensíveis, que "mostrava a língua para tirar foto" e que dizia sempre que "tudo é relativo". Utilizando

citações de seus escritos é possível perceber que ele era uma pessoa com preocupações sociais, as mais variadas, e que, como qualquer ser humano, também cometia erros.

Nosso intuito com esse trabalho não é abordar a figura do físico Albert Einstein com o foco em suas teorias físicas e implicações para a área de Ensino, mas sim passar sua vivisão de mundo e fazer um paralelo com os dias atuais, verificando se algumas de suas idéias e concepções, ou mesmo da maneira dele ver o mundo, se aplicariam nas situações contemporâneas.

Acreditamos que esse tipo de abordagem possa contribuir para uma vivisão de ciência mais ampla, evidenciando os aspectos humanos de um grande mito da ciência. Consideramos também que esse tipo de atividade, além de ter um aspecto lúdico e divertido, traz à tona a possibilidade de fazer a ponte entre a Física e outras áreas do conhecimento. Outra faceta que pode ser explorada é a da leitura, já que se trata de um texto que pode ser utilizado em diversos contextos, na sala de aula ou fora dela, no desenvolvimento de atividades da escola ou como sugestão de leitura para o prof essor.

Para incentivar a leitura, podemos utilizar textos de autores que utilizam a ciência no enredo dos seus escritos, como é o caso de Júlio Verne, em Viagem ao redor da Lua, e H. G. Wells, em A máquina do tempo, por exemplo. Seriam exemplos de escritores com veia científica. Nessa pretensa entrevista, que apresentamos a seguir, estamos trabalhando com outro tipo de autor que é um cientista com veia literária, como é exatamente o caso de Albert Einstein (ZANETIC, 1998). Dessa forma, estaremos enfrentando também a crise de leitura que assola nossa realidade, eventualmente fazendo a aproximação entre as aulas de física e de português.

Com esse tipo de atividade podemos motivar para o estudo de física aqueles alunos que gostam de ler e que se afastam da físísica quando apresentada apenas por meio de sua linguagem matemática. Assim, nossos alunos do Ensino Médio poderão aprender

"...muito por meio da leitura das grandes obras de cientistas, romancistas, poetas, filósofos e historiadores, mesmo quando distantes de suas especialidades mais específicas, não como se fossem "donos da verdade", mas como indivíduos de extrema sensibilidade que produziram reflexões que podem nos auxiliar no diálogo inteligente com o espaço-tempo em que vivemos." " (ZANETIC, 2006, p. X)

Em nossa entrevista simulada, as respostas atribuídas a Einstein foram retiradas dos vários livros escritos por ele em diferentes fases da sua vida e de algumas coletâneas em que são reunidas cartas e frases proferidas por ele. Ao fazer esse trabalho fomos bem rigorosas em relação às falas, de maneira que as transcrevemos de acordo com a bibliografia citada, não acrescentando ou retirando palavras. As expressões sublinhadas

entre parêntesis foram comentários nossos, e as expressões entre colchetes foram inserções nossas para dar continuidade à entrevista. Podemos perceber como algumas de suas "respostas" são extremamente interessantes e atuais.

## A A ENTREVISTA

Um dos maiores Físicos de todos tempos, Albert Einstein, em sua visita a São Paulo em julho de 2005 como parte da comemoração do Ano Mundial da Física, aceitou o convite para nos conceder essa entrevista e compareceu, com seus sapatos sem meias e seu jeito despreocupado de se vestir, na nossa sala do corredor do ensino do Instituto de Física da USP. Comementou informalmente que quando era jovem descobriu que o dedão do pé acaba sempre fazendo furo nas meias, portanto parou de usá -las (CALAPRICE, 1998, p. 215). Começamos nos apresentando como recém formadas em física e logo escutamos um comentário:

"Poucas mulheres são criativas. Eu não mandaria uma filha minha estudar física." (CALAPRICE, 1998, p. 209)

Recompostas do susto e dando certo desconto ao comentário, iniciamos a entrevista.

Acreditamos que entrevistar Einstein seja um grande sonho, para qualquer admirador da física. É inegável que você se tornou um símbolo dessa ciência e que é considerado por muitos como um dos maiores mitos de todos os tempos. Qual a sua opinião a esse respeito? Você se considera um mito?

## Einstein, um mito?

Parece -me injusto, e até mesmo de mau gosto, selecionar alguns poucos indivíduos para admiração incondicional e atribuir-lhes poderes super humanos de mente e caráter. Essa tem sido a minha sina, e o contraste entre os méritos que o povo me atribuiu e as minhas reais conquistas é simplesmente grotesco... (CALAPRICE, 1998, p. 37) Não tenho talentos especiais. Sou apenas apaixonadamente curioso... (CALAPRICE, 1998, p. 41) Como é que ninguém me entende e todo mundo gosta de mim? (CALAPRICE, 1998, p. 40)

Mas, Einstein, você nã o pode negar que é uma figura muito famosa! Como você lida com isso?

A fama fez com que eu me tornasse mais e mais estúpido, o que é, claro, um fenômeno muito comum. ( (CALAPRICE, 1998, p. 36)

E como você lida com o fato de seu trabalho ter se tornado uma das referências mais importantes no campo da física? Você esperava por isso?

Cem vezes por dia, eu relembro a mim mesmo que minhas vidas interiores e exteriores são baseadas nos trabalhos de outras pessoas vivas e mortas. Relembro -me também que preciso me me esforçar para dar na mesma medida em que recebi e continuo recebendo. (CALAPRICE, 1998, p. 38)

## Einstein e outros cientistas

De que maneira os trabalhos dessas pessoas foram importantes para você? Quem você citaria?

Na minha opinião, os maiores gênios crcriativos são Galileu e Newton, que para mim, em um certo sentido, formam uma unidade. E nessa unidade, Newton é aquele que realizou o maior feito no reino da ciência... Por todos os tempos, suas grandes e lúcidas idéias manterão sua significância única como mo os fundamentos de toda a nossa moderna estrutura conceitual na esfera da filosofia natural. (CALAPRICE, 1998, p. 91)

E sobre os cientistas contemporâneos de sua época, o que você diria?

As pessoas não se dão conta de quão grande foi a influência de Lorenentz no desenvolvimento da física. Não podemos imaginar o que estaria acontecendo, não houvessem sido tantas e tão grandes as contribuições dele. ( (CALAPRICE, 1998, p. 90)

Quão diferente e quão melhor seria a humanidade se existissem mais alguns como ele. [Planck] (CALAPRICE, 1998, p. 93)

Ele [Bohr] é realmente um homem de gênio... Tenho plena confiança em sua maneira de pensar... Ele expressa suas opiniões como alguém que está sempre tateando, e jamais como alguém que acredita possuir a verdade absolutata. (CALAPRICE, 1998, p. 82)

## Einstein e a teoria da relatividade

Por falar em Planck, foi ele que atribuiu o nome Relatividade à sua Teoria, que acabou se consagrando apesar de inadequado. Sabemos que você teria preferido "Teoria da invariabilidade". No que isso acarretou?

No que diz respeito ao nome "Teoria da Relatividade" admito que é infeliz e já deu motivos a muitos mal entendidos filosóficos. (CALAPRICE, 1998, p. 177)

De todas as sua contribuições em vários campos da física a que ficou mais famosa foi realmente a Teoria da Relatividade. Você poderia nos contar um pouco sobre como você chegou até ela?

(Após uma longa expirada ele responde com entusiasmo.) Após dez anos de estudo o princípio surgiu, resultando de um paradoxo com o qual me defrontara quando tinha dezesseis anos: se um raio luminoso for perseguido a uma velocidade c (velocidade da luz no vácuo), observamos este raio de luz como um campo eletromagnético em repouso, embora com oscilação espacial. Entretanto, aparentemente não existe tal coisa, quer com base na experiência, quer de acordo com as equações de Maxwell. Desde o início, tive a intuição clara de que, segundo o ponto de vista desse observador, tudo devia acontecer de acordo com as mesmas leis aplicáveis a um observador que estivess e em repouso em relação à terra. Pois, como poderia o primeiro observador saber ou determinar que está em estado de movimento rápido uniforme? Vemos nesse paradoxo o germe da Teoria da Relatividade Restrita. (EINSTEIN, 1982, p. 55)

E sobre a famosa equação E=mc2 c2 , como foi sua formulação original?

(Novamente ao falar sobre sua Teoria expressa certo orgulho.) ) Se um corpo libera a energia E na forma de radiação sua massa é diminuída em E/c 2 . A inércia de um corpo depende de seu conteúdo de energia. (CALAPRICE , 1998, p. 173)

O que o levou, tantos anos depois de formulada a Teoria da Relatividade Restrita, a descobrir a Teoria da Relatividade Geral?

A palavra 'descoberta', em si mesma, deve ser condenada. Isso porque descoberta é o equivalente a ter consciência de uma coisa que já está formada; isso leva à prova, que já não tem mais o caráter de 'descoberta', mas, em última instância, dos meios que a propiciaram... Na verdade, a descoberta não é uma ação criativa. (CALAPRICE, 1998, p. 176)

Está bem Einstein, re formulando... O que o levou à formulação da Teoria da Relatividade Geral?

O fato de ser a Teoria da Relatividade Restrita apenas o primeiro passo de um desenvolvimento necessário só se tornou evidente para mim quando procurei representar a gravitação na estrutura dessa Teoria. (EINSTEIN, 1982, p. 63) Estava sentado no escritório de patentes em Berna, quando uma idéia me ocorreu subitamente: se uma pessoa cai livremente não sentirá seu próprio peso. Fiquei espantado. O simples pensamento me impressionou muitito e me impeliu ao caminho da Teoria da Gravitação. (CALAPRICE, 1998, p. 178)

A sua Teoria da Gravitação entrava em conflito com a Teoria da Gravitação de Newton, que na época constituía um paradigma dominante e bastante sólido. A confirmação experimental l da sua Teoria veio vários anos depois com o eclipse, que foi visto também aqui no Brasil. Como a comunidade científica reagiu na época? Você ficou ansioso esperando esse resultado?

[Planck, por exemplo, que] foi uma das melhores pessoas que conheci... rea lmente não entendia de Física [porque] durante o eclipse de 1919 ficou acordado a noite inteira para ver se confirmaria à curvatura da luz pelo campo gravitacional. Se houvesse realmente entendido [a Teoria Geral da Relatividade], , teria ido para a cama como eu. (CALAPRICE, 1998, p. 93)

Existe uma frase sua muito disseminada: "Deus não joga dados". Ela teria algo a ver com a Teoria Quântica?

Admiro enormemente a conquista da nova geração de físicos que leva o nome de Mecânica Quântica. Acredito mesmo quque há um profundo nível de verdade na Teoria. Mas creio também que a restrição às leis estatísticas será passageira... Quanto mais caçamos quanta, mais eles se escondem... De qualquer modo estou convencido de que Ele não joga dados... (CALAPRICE, 1998, p. p. 179)

Einstein e a educação

Você tinha apenas 26 anos quando publicou seus artigos revolucionários de 1905. Era, portanto, ainda um jovem pesquisador. O que o despertou tão cedo para o estudo da Física?

Aos quatro ou cinco anos experimentei esse sentimento [pensamento de estranheza], quando meu pai mostrou-u-me uma bússola... Me lembro que essa experiência causou-u-me uma impressão profunda e duradoura. Devia haver algo escondido nas profundezas das coisas... (EINSTEIN, 1982, p. 18) Além de mim, fora de mim, m, estava um mundo imenso, que existe independente dos seres humanos e que se apresenta a nós como um enorme e eterno enigma, em parte acessível à nossa observação e ao nosso pensamento. (EINSTEIN, 1982, p. 15)

Existe uma lenda sobre você ter sido um mau aluno na escola. O você poderia nos falar sobre a educação e sobre a escola?

Aprender fatos não é importante para uma pessoa. Não é para isso que ela precisa de educação. Os fatos ela pode obter nos livros. O valor da educação num colégio de artes liberais não é ensinar muitos fatos, mas treinar a mente para pensar algo que não pode ser aprendido nos livros...(CALAPRICE, 1998, p. 63)

Sou de opinião que a pior coisa para uma escola é trabalhar com os métodos do medo, da força e da autoridade artificial. Tal l tratamento destrói os sentimentos saudáveis, a sinceridade e a autoconfiança do aluno. Produz o sujeito submisso. (CALAPRICE, 1998, p. 64) ... O problema era que como estudantes, éramos obrigados a acumular noções em nossas mentes para os exames. Esse tipo de coerção tinha para mim um efeito frustrante. Depois de ter passado nos exames finais, passei um ano inteiro durante o qual qualquer consideração sobre problemas científicos me era extremamente desagradável. (EINSTEIN, 1982, p. 25)

Fica clara a sua crítica aos exames. O que você diria sobre o vestibular, exame que é exigido para o ingresso dos estudantes nas universidades brasileiras, atualmente?

Considero que violentar indivíduos é o pior mal do capitalismo. Todo o nosso sistema de educação sofre desse mal. Uma exagerada atitude competitiva é inculcada no estudante, treinado para adorar qualquer sucesso aquisitivo como preparação para sua futura carreira... O ensino deveria ser tão bom a ponto de ser visto como um valioso presente e não como um duro dever. (CALAPRICE, 1998, p. 65)

## Einstein e a ciência, política e sociedade

Ultimamente tem se falado muito, principalmente na área de Ensino de Ciências sobre CTS, relacionando ciência, tecnologia e sociedade. Como você vê o papel da ciência na sociedade?

Há duas maneiras da Ciência afetar as atividades humanas. A primeira todos conhecem... a Ciência produz formas de ajuda que vem transformando completamente a existência humana. A segunda maneira tem caráter educativo - trabalha sobre a mente. Embora possa parecer menos óbvia num exame superficial, não é menos incisiva que a primeira. O efeito prático mais evidente da Ciência é que torna possível a invenção de coisas que enriquecem a vida, embora ao mesmo tempo a compliquem. (EINSTEIN, 1983, p. 118)

Nesse caso como você explicaria, por exemplo, que os homens são capazes de descobrir a estrutura do átomo, mas não os meios de controlá -lo?

Isso é simples, minhas amigas: porque política é mais difícil que Física. (CALAPRICE, 1998, p. 152)

Quando você fala em popolítica, estaria fazendo alguma referência à construção e ao uso da bomba atômica? Poderia nos contar algo sobre o que você teve a ver com essa história toda?

Minha responsabilidade na questão da bomba atômica se limita a uma única intervenção: escrevi uma a carta ao presidente Roosevelt... (EINSTEIN, 1981, p. 114)

## O que dizia na carta?

[Que] trabalhos recentes de E. Fermi e L. Szilard, que me foram comunicados por um manuscrito, faz[iam]-me crer que o elemento urânio pode[riam] se tornar uma nova e importante fonte de energia no futuro imediato... Esse novo fenômeno [energia atômica] também conduzir[ia] a produção de bombas. (CALAPRICE, 1998, p. 137)

Você considera que a sua carta tenha incentivado o governo dos EUA no projeto de construção da bomba?

Não dedeveríamos esquecer que a bomba atômica foi produzida neste país [EUA] como medida preventiva; para impedir os alemães de a usarem, caso conseguissem fabricá-á-la... Ganhamos a guerra, mas não a paz. (CALAPRICE, 1998, p. 139)

Podemos dizer que você trabalhou u efetivamente no projeto da bomba atômica ou que foi a Teoria da Relatividade Restrita e seus resultados os responsáveis pela fissão atômica e pela própria bomba?

Não trabalhei, não trabalhei de modo algum. (CALAPRICE, 1998, p. 138) (Responde em tom incisivo) ) Não me considero o pai da liberação da energia atômica. Minha parte no projeto foi absolutamente indireta. Na verdade, não previ que seria liberada no meu tempo... Nunca houve a menor indicação de qualquer aplicação potencialmente tecnológica. (CALAPRIRICE, 1998, p. 142) Ela se tornou prática apenas pela descoberta acidental da reação em cadeia. E isso era algo que eu não poderia prever. (CALAPRICE, 1998, p. 139)

Então você não se considera responsável pela construção da bomba?

A responsabilidade cai sosobre aqueles que fazem uso das novas armas e não sobre aqueles que contribuem para o progresso do conhecimento. Logo, a responsabilidade cai sobre os políticos e não sobre os cientistas... (CALAPRICE, 1998, p. 141) Cometi um erro na minha vida quando esc revi aquela carta ao presidente Roosevelt advogando a produção da bomba atômica. Talvez eu possa ser perdoado pelo fato de que todos pensávamos ser grande a probabilidade dos alemães estarem trabalhando no mesmo problema... (CALAPRICE, 1998, p. 143)

Você considera um equívoco essa confusão entre política e ciência?

Na minha opinião, não é direito trazer a política para dentro da área científica, nem os indivíduos deveriam ser responsabilizados pelo governo do país ao qual por acaso pertencem... Devemos dividir nosso tempo entre política e equações. Mas nossas equações são mais importantes para mim. (CALAPRICE, 1998, p. 153)

Mas, mesmo assim, você tem algum posicionamento sobre o momento vivido pela humanidade, não é mesmo? Que mensagem você gostaria de deixixar aos estudantes para finalizar esta entrevista?

A produção é levada avante visando o lucro, não a utilidade... Existe quase sempre um "exército de desempregados". O trabalhador vive no constante temor de perder o seu emprego. Já que os trabalhadores desempregados e os mal pagos não fornecem um mercado lucrativo, a produção dos bens de consumo é restringida e grandes dificuldades de vida são a conseqüência. O progresso tecnológico freqüentemente resulta em maior desemprego, em lugar de facilitar a carga de trabalho para todos... A competição ilimitada leva ao grande desperdício de trabalho e àquela deturpação da consciência social dos indivíduos... Essa deturpação dos indivíduos é o que considero o pior malefício do capitalismo. Todo o nosso sistema de eduducação sofre desse mal... (EINSTEIN, 1983, p. 114)

## REFERÊNCIAS

CALAPRICE, Alice, Assim falou Einstein. Rio de Janeiro: Civilizações Brasileiras, 1998.

EINSTEIN, Albert. Notas autobiográficas (2ªed). Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1982.

EINSTEIN, Albert. Pensamento político e últimas conclusões. (Mário Schenberg) São Paulo: Editora Brasiliense, 1983.

EINSTEIN, Albert. Como vejo o Mundo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.

ZANETIC, João. Literatura e cultura científica. In: ALMEIDA, Maria José P. M. de; SILVA, Henrique C. da (orgs.). Linguagens, leituras e ensino da ciência. Campinas: Mercado de Letras, 1998, p. 11-36.

ZANETIC, João. Física e literatura: construindo uma ponte entre as duas culturas. Rio de Janeiro: História, Ciência, Saúde - Manguinhos, , v. 13, (suplemento), p. XX, 2006. (A ser publicado.)

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