Um Estudo sobre a Influência da História e Filosofia da Ciência na Formaçao de Estudantes de Física
Elder Sales Teixeira, Olival Freire Jr.
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVII
- Ano
- 2007
- Data
- 01/02/2007
- Linha de pesquisa
- Filosofia, História E Sociologia Da Ciência E Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## Um Estudo sobre a Influência da História e Filosofia da Ciência na Formação de Estudantes de Física
Elder Sales Teixeira b
a
Olival Freire Jr.
a Depto. de Física – – – UEFS; Programa de Pesquisa e Pós-Graduação em Ensino, Filosofia e
Hisistória das Ciências – – – UFBA/A/UEFS
b Instituto de Física – –
– UFBA; Programa de Pesquisa e Pós-Graduação em Ensino, Filosofia e
Hisistória das Ciências – – – UFBA/UEFS
## RESUMO
Através deste trabalho se investiga, em um estudo de caso, as influências e contribuições que a História e Filosofia da da Ciência exercem na formação dos estudantes de Física, no que diz respeito à compreensão destes acerca dos conceitos da Física relacionados com a 'síntese newtoniana', bem como sobre a natureza da ciência. AtAtravés de um método quali-quantitativo avalia -se suas concepções prévias sobre determinados conceitos de Física; suas visões sobre a a natureza da ciência; compara-as com suas concepções após terem cursado uma disciplina informada por uma abordagem contextual de Ensino de Física (ou seja, uma abordagem de ensino apoiada na História e Filosofia da Ciência); e discute-se a influência desta abordagem no processo de mudança conceitual e de aprendizagem significativa, bem como nas concepções sobre a natureza da ciência para avaliar r a sua eficácia na melhoria da a qualidade da formação dos estudantes de Física.
Palavras -Chave : Ensino de Física; Abordagem Contextual, l, Síntese Newtoniana.
## INTRODUÇÃO
Este trabalho investiga, em um estudo de caso, as possíveis influências e contribuições que uma abordagem contextual de e ensino exerce na formação dos estudantes de Física, no que diz respeito à compreensão destes acerca dos conceitos de Física, bem como sobre a natureza da ciência. A abordagem contextual é uma abordagem metodológica de ensino, segundo a qual o ensino das ciciências e, em particular, o de Física, é informado pela História da Ciência e pela Filosofia da Ciência (H.F.C.). Infelizmente, tem sido usual nos currículos dos cursos de graduação em Física no Brasil, uma subestimação dos aspectos históricos e epistemológicos da ciência. Tais currículos, em suma, relevam apenas o aspecto operacional da Física, o que caracteriza como um ensino em Física, mas não, sobre Física 1 . O ensino que tem sido praticado segue a forma tradicional, essencialmente formal e baseada na excxclusiva "matematização" de um conteúdo linear e fragmentado, exigindo tão somente a memorização de equações sem que se estabeleçam os seus significados e sua contextualização.
Esta perspectiva parece estar em contraposição ao movimento que passou a tomar cocorpo principalmente a partir das duas últimas décadas, em que tem sido feita uma reflexão sobre a necessidade de que os cursos das ciências sejam mais contextualizados, mais históricos e mais reflexivos, o que requisita uma íntima relação entre a História e a Filosofia das Ciências e o Ensino das Ciências (MATTHEWS, 1994).
Ao investigar as tendências curriculares de física nos anos noventa, CARVALHO e VANNUCCHI (1996) detectaram uma forte tendência, por parte dos pesquisadores em ensino de física, em caminhar na mesma direção apontada por MATTHEWS (1994), ou seja, no sentido de incluir H.F.C. nos currículos escolares. No mesmo trabalho, aquelas autoras acentuaram também que parece haver uma dificuldade de se colocar em prática de sala de aula a inclusão da H.H.F.C. e, conforme argumenta MATTHEWS (1994), a principal razão para esta dificuldade parece estar na formação do professor. Isto tudo aponta para uma maior necessidade de implantação de propostas
curriculares com ênfase em H.F.C., bem como para o aumento das investigações sobre o impacto de tais propostas no ensino.
Em conformidade com essa tendência apontada por Matthews, bem como por Carvalho e Vannucchi, experiências recentes do uso de abordagem contextual - que usa elementos da H.F.C. no ensino das ciêncncias - - têm sido realizadas em Cursos de Física de Universidades baianas (a exemplo da UFBA e UEFS), o que têm propiciado a oportunidade para uma investigação acerca da sua influência na formação dos estudantes de Física, em particular, a influência desta abordagem na compreensão dos estudantes de conceitos da Física e sobre a natureza da ciência. Recentemente, alguns trabalhos de pesquisa têm sido desenvolvidos nesta direção no âmbito do Programa de Pósgraduação em Ensino, Filosofia e História ia das Ciências s (UFBA/UEFS), (como exemplo, ver TEIXEIRA, 2003). Este Programa, como o próprio nome sugere, busca um diálogo entre esses três campos (Ensino das Ciências, Filosofia das Ciências e História das Ciências) e, portanto, apóia fortemente investigações relacionanadas com as implicações de uma abordagem contextual no ensino das ciências (ver FREIRE JR. e TENÓRIO, 2001).
## REFERENCIAIS TEÓRICOS
As recomendações a favor da incorporação de H.F.C. no ensino das ciências têm crescido substancialmente nas últimas décadas, o que está bem documentado na literatura (ver BELL et al., 2001), e inúmeras são as razões apresentadas para que haja tal inclusão.
MATTHEWS (1994: 7) pontua seis aspectos que podem representar contribuições da H.F.C. para o ensino de ciências:
- (i) Humanização das ciências e sua conexão com preocupações pessoais, éticas, culturais e políticas (segundo este autor, há evidências de que a H.F.C. torna os programas mais atrativos para muitos estudantes);
- (ii) Aumento de habilidades de raciocínio e pensamento críticos a partir de discussões que tornam as aulas mais provocativas;
- (iii) Entendimento mais pleno da matéria científica e possibilidade de superação do formato de ensino no qual fórmulas e equações são recitadas sem referência aos seus significados;
- (iv) Melhoria na formação do professor por ajudá-lo a desenvolver um mais rico entendimento da ciência e seu lugar na sociedade;
- (v) Subsídio aos professores para compreender melhor as dificuldades de aprendizado dos estudantes em função de alertar para as dificuldades históricas do desenvolvimento científico e das mudanças conceituais;
- (vi) Apreciação mais clara acerca dos debates educacionais da atualidade.
CARVALHO e VANNUCCHI (2000), no mesmo sentido, reportrtam que a H.F.C. pode influenciar de forma positiva na educação científica, poisis, discussões histórico-filosóficas podem contribuir para o desenvolvimento de habilidades cognitivas e de argumentação. Além disso, análises de narrativas históricas acerca do desenvolvimento da ciência podem ser úteis para se identificar características essenciais dessa atividade humana. Por fim, as autoras argumentam que a H.F.C. pode ajudar a desmistificar a ciência por propiciar uma visão mais realista do potencial e das limitações do conhecimento científico, o que é essencial na atual sociedade.
Um oututro aspecto acerca desta questão que leva em consideração, inclusive, o seu contexto no Brasil, foi abordado por CARVALHO e VANNUCCHI (1996). Estas autoras fizeram uma análise das propostas e tendências curriculares de física nos anos noventa a partir das atas, memórias e proceedings s dos simpósios, encontros, reuniões e congressos de ensino de física com dimensões nacional, latino -americana e européia que foram realizados naquela década. Foi chamada a atenção para o fato de que a H.F.C. aparece como um fator de contribuição para os novos modelos de ensino -aprendizagem propostos. Por exemplo, no V RELAEF (Reunião Latino-Americana sobre Educação em Física) a H.F.C. foi indicada como importante fator para a formação de professores em função de proporcionar:
dificuldades dos alunos; 4 - uma concepção das ciências como empresa coletiva e histórica e o entendimento das relações com a tecnologia, a cultura e a sociedade" (CARVALHO e VANNUCCHI, 1996: 4).
Em praticamente todos os eventos analisados, das ênfases curriculares propostas que fizeram parte da investigação (cotidiano, interdisciplinaridade, físicica moderna e/ou contemporânea, H.F.C. e ensino cognitivista), a H.F.C. aparece como a categoria predominante, conforme afirmam as autoras:
"Outra prioridade apontada nos eventos nacionais e internacionais é a inclusão da História e Filosofia da Ciência nos currículos escolares. Esta é a categoria cuja inclusão curricular apresenta maior consenso" (CARVALHO e VANNUCCHI, 1996: 8).
Entretanto, esta predominância só ocorre quando se tratam das propostas curriculares indicadas nos eventos através de mesas -redondas, conferências, grupos de trabalho e encontros. Ao investigar os relatos de pesquisas empíricas apresentadas nos mesmos eventos em comunicações orais e painéis, foi observada a ocorrência de um número consideravelmente menor de trabalhos cuja temática trata da inclusão da H.F.C. no ensino, em comparação com o número de propostas curriculares.
Isto mostra uma discrepância entre o que se propõe no ensino de física (em termos de ênfases curriculares sugeridas nos eventos) e o que se pratica (em termos de currículos adotados na prática pelos educadores) o que parece refletir uma dificuldade de se traduzir propostas baseadas no uso de H.F.C. em prática de sala de aula (CARVALHO e VANNUCCHI, 1996). Esta dificuldade encontra eco no trabalho de MATTHEWS (1994), no qual, ao fazer uma defesa crítica e bem fundamentada do papel da H.F.C. no ensino das ciências, aponta também suas dificuldades. Segundo este autor, a principal delas diz respeito à formação do professor que necessita de três competências: o conhecimento e a apreciação da ciência que ensina; algum entendimento da H.F.C. a fim de ensinar melhor a matéria e fazer avaliações mais inteligentes sobre muitos debates científicos e educacionais presentes nos currículos; alguma teoria ou visão educacional que dê supuporte às suas atividades na sala de aula e que defina um propósito para sua tarefa pedagógica. Desta forma, acrescenta: "Professores têm um importante, mas oneroso papel social" (MATTHEWS, 1994: 6).
Portanto, pode-se perceber que o uso da H.F.C. no ensino de ciências como forma de estabelecer ou melhorar a compreensão dos conceitos científicos e as concepções sobre a natureza da ciência dos estudantes, constitui um amplo objeto de pesquisa e com um vasto espectro de questões a serem investigadas e respondidas. Portanto, muitos esforços de pesquisas precisam ser empreendidos com o intuito de se avançar e amadurecer neste importante problema de pesquisa que há muito vem instigando os educadores.
Adicionalmente, conforme argumentam ABD-EL-KHALICK e LEDERMAN (2000), a despeito da necessidade de argumentos teóricos que venham servir como referencial para sustentar alguns dos principais posições encontrados neste problema de pesquisa, parece haver também uma real necessidade de que sejam implementados esforços de pesquisas empíricas que procurem examinar criticamente a influência de uma abordagem do tipo contextual nas concepções sobre a natureza da ciência, bem como, na compreensão de conceitos científicos dos aprendizes, a fim de se averiguar a eficácia daquela abordagem e sua influência no ensino das ciências.
Uma experiência deste tipo fora realizada no Curso de Física da UEFS (Licenciatura e Bacharelado), em cuja grade curricular há uma série de disciplinas denominadas "Fundamentos de Física I, II e III" que visam o estudo dos conceitos da Física informado por uma abordagem contextual. Mais recentemente, no escopo da disciplina "Introdução à Prática do Ensino em Física", incluiuuse discussões explícitas sobre Filosofia da Ciência com referências históricas. Experiência similar tem sido realizada no Curso Noturno de Licenciatura em Física da UFBA, através da Disciplina "Física Básica I", também informada a por História e Filosofia da Ciência.
Portanto, conforme as pesquisas que têm sido realizadas há uma tendência apontando para a um aumento do uso da História e da Filosofia da Ciência como uma forma de contribuição para a melhoria do Ensino de Física. A dissertação de mestrado defendida no ano de 2003 popor um m dos
autores do presente trabalho, no âmbito do Programa de Pós-graduação em Ensino, Filosofia e História das Ciências (UFBA-UEFS), em que se investigou a influência de uma abordagem contextual nas concepções sobre a natureza da ciência de estudantes de Física da UEFS, apapontou para o mesmo sentido (ver TEIXEIRA, 2003; ver também TEIXEIRA, EL-L-HANI e FREIRE, 2001) . Ainda, as as dissertações de mestrado de ROSA (2006) e MASSONI (2005), bem como a tese de doutorado de OKI (2006) são exemplos de trabalhos recentes que convergem para a mesma direção. Desta forma, acrescendo -se ainda os atuais debates a este respeito que têm conduzido a diferentes opiniões, tem-m-se no presente contexto um relevante e atual problema de pesquisa em Ensino de Física, a saber, qual a influência que a História e Filosofia da Ciência exerce na formação dos estudantes de física. Isto ilustra o papel do presente trabalho na tentativa de contribuir com este debate e com a melhoria da qualidade do ensino de Física em nosso estado, sobretudo, por se tratar de um trabalho empírico sobre experiências recentes de uso de abordagem contextual em Cursos de Graduação em Física no estado da Bahia, considerando que, no Brasil, poucas experiências de uso de abordagem contextual nos currículos dos cursos de Física têm sido relatadas, conforme acentuam CARVALHO e VANNUCUCCHI (1996) .
Ao argumentar que a H.F.C. pode contribuir para uma melhor compreensão da matéria científica, ou seja, uma melhor compreensão dos conceitos, leis, teorias etc. assentados pela comunidade científica, é necessário esclarecer que o entendimento que se tem aqui pela expressão 'melhor compreensão da matéria científica' é no sentido de uma aprendizagem significativa e a conseqüente superação de uma aprendizagem mecânica, conforme encontrado na teoria de Ausubel.
A teoria da aprendizagem significativa de Ausubel afirma que uma nova informação (conceito, lei, teoria etc.) interage com os subsunçores já existentes na estrutura cognitiva do aprendiz e, assim, toma significado para este. Os subsunçores são conceitos, idéias ou proposições relevantes e inclulusivos (mais gerais), já existentes de maneira clara na estrutura cognitiva e que estão disponíveis para servir de suporte para acomodar a nova informação fazendo com que esta tenha significado para o aprendiz. Esta interação além de fazer com que ocorra a a aprendizagem significativa, modifica os subsunçores tornando-os mais inclusivos, elaborados e estáveis (AUSUBEL, 2003; MOREIRA, 2000).
AUSUBEL (2003) define - - em contraposição a aprendizagem significativa - - a aprendizagem mecânica através da qual l as novas s informações não interagem com os subsunçores presentes na estrutura cognitiva se armazenando nesta de maneira arbitrária e, assim, contribuindo pouco para sua elaboração. A mera memorização de fórmulas, leis e conceitos é um exemplo de aprendizagem mecânicica 2 (MOREIRA, 2000).
Uma condição importante para que haja aprendizagem significativa é que o aprendiz apresente disposição para fazer interagir a nova informação com sua estrutura cognitiva de maneira não arbitrária, e que o novo conhecimento a ser incorporado seja passível de interação com os subsunçores de maneira substantiva, isto é, que seja "potencialmente significativo" (A(AUSUBEL, 2003; MOREIRA, 2000). Se o aprendiz não dispõe dos subsunçores necessários, essa interação poderá ser mediada pelos "organinizadores prévios" que são materiais instrucionais apresentados antecipadamente ao conteúdo a ser aprendido e com maior grau de inclusão (mais geral) que este último, para que se possam desenvolver os subsunçores e, assim, propiciar a aprendizagem significativa, funcionando como uma espécie de "ponte cognitiva" entre "lo que el aprendiz ya sabe y lo que precisa saber para que pueda aprender significativamente la tarea frente a la que se encuentra" (AUSUBEL, 1978 3 , citado por MOREIRA, 2000: 38).
A construção de um organizador prévio depende de vários fatores, tais como, a própria natureza do conteúdo a ser aprendido, o grau de maturidade do aprendiz e sua familiaridade com o objeto de estudo, assim, não se pode determinar em termos absolutos se um particular material pode ou não ser um organizador prévio. Desta forma, cabe ressaltar que " Uma discusión, uma demonstración, o, quién sabe, un filme o video, pueden funcionar como organizador, dependiendo de la situación de aprendizaje." (MOREIRA, 2000: 39).
Ao apresentar os conteúdos da matéria científica usando como abordagem metodológica de ensino a H.F.C., através, por exemplo, de narrativas históricas ou mesmo com o uso de textos originais, conforme argumenta MATTHEWS (1994), pode-se estar propiciando um aumento do material potencialmente significativo do aprendiz. O uso de textos históricos e discussões de natureza epistemológica acerca da evolução de determinado conteúdo científico pode conduzir o estudante a uma melhor compreensão do objeto de estudo. Conforme argumenta Zanetic (in: CRUZ, 1988) uma forma de se entender bem um conceito é compreender também o que 'não é' tal conceito, isto é, compreender que aspectos do conceito que, embora contribuindo para a formatação do próprio conceito, ficaram de fora do paradigma da ciência vigente, e a H.F.C. teria um papel essencial para uma compreensão deste processo e, portanto, para propiciar uma aprendizagem significativa do conteúdo da matéria científica em estudo.
Portanto, em conformidade com a tendência atual de reaproximação apontada por MATTHEWS (1994) e em atenção ao sustentado por CARVALHO e VANNUCCHI (1996) quanto à necessidade de adoção prática pelos educadores de currículos com ênfase em H.F.C., aliado ao fato de se ter na Bahia experiências recentes do uso de abordagem contextual em Cursos de Física, temmse um panorama propício para se realizar uma investigação empírica sobre tal problemática, que tem sido objeto de muita discussão e estudo entre os pesquisadores. Realizar uma investigação desta natureza, bususcando contribuir com este debate, através de um trabalho empírico sobre a influência deste tipo de abordagem na formação de estudantes de Física na Bahia, constitui o foco central deste trabalho .
## A INTERVENÇÃO EM SALA DE AULA
O Curso de Física da UEFS (implementado em 1997) e o Curso Noturno de Licenciatura em Física da UFBA (implementado em 1999) contêm, em seus respectivos currículos, as disciplinas 'Fundamentos de Física I' e 'Física Básica I', que abordam os conteúdos da Mecânica Clássica através da a H.F.C. , valendo -se da apresentação e discussão de tópicos que vão desde os conceitos dos gregos antigos, passando pela contribuição dos medievais e culminando com m a 'Síntese Newtoniana'. São utilizados textos originais (de Galileu, Newton, Descartes) e textos didáticos como Projeto Física de Harvard 4 , Pierre Lucie 5 dentre outros, além de discussões explícitas sobre a natureza da ciência . Para investigar a influência deste tipo de abordagem na compreensão dos estudantes acerca dos conceitos físicos tratados, bem como das concepções sobre a natureza da ciência - - objetivo deste trabalho - - as aulas das referidas disciplinas são observadas , questionários são aplicados e entrevistas são realizadas com os estudantes.
## METODOLOGIA
## Considerações Gerais
Segundo BERICAT (1998), existem certas estratégias de orientação metodológica, através das quais se pode alcançar os objetivos desejados na investigação social. Dentre elas, há a estratégia de integração dos métodos qualitativo e quantitativo que, segundo este autor, tetem sido diversamente
classificada na literatura. Uma classificação adotada por ele atribui três tipos de estratégias de integração: complementação , combinação e triangulação (BERICAT, 1998: 106; GRECA, 2001).
- O presente trabalho é orientado por um modelo de de pesquisa quali-quantitativo. A estratégia de integração usada, em função da sua adequação aos objetivos do trabalho, é de combinação dos métodos qualitativo e quantitativo que consiste do uso deste último como forma de subsidiar a análise feita de maneira eminentemente qualitativa, a fim de aumentar r a a qualidade dos resultados obtidos.
BOGDAN e BIKLEN (1994), assim como LÜDKE e ANDRÉ (1986) apresentam cinco características básicas da pesquisa qualitativa em educação e que se refletem no presente trabalho. Tais características podem ser assim resumidas:
- (i) O ambiente natural funciona como a fonte direta de dados e o pesquisador como o principal instrumento. O pesquisador deve estar em contato direto e prolongado com o ambiente e com a situação em estudo para melhor compreender a influência que estes (ambiente e situação investigada) sofrem do contexto;
- (ii) Os dados coletados devem ser eminentemente descritivos. O material coletado para análise é rico em descrições, depoimentos, entrevistas etc. "citações são freqüentemente usadas para subsidiar uma afirmação ou esclarecer um ponto de vista" (LÜDKE e ANDRÉ, 1986: 12). O pesquisador deve estar atento para todos os elementos envolvidos na situação, pois podem ser importantes para a compreensão do problema em estudo;
- (iii) A preocupação com o processo deve ser maior do que com o produto. "O interesse do pesquisador ao estudar um determinado problema é verificar como ele se manifesta nas atividades, nos procedimentos e nas interações cotidianas" (LÜDKE e ANDRÉ, 1986: 12);
- (iv) O "significado" que as pessoas dão às coisas e à sua vida deve ser foco de atenção especial. O pesquisador tem como enfoque a "perspectiva dos participantes", portanto, deve tomar cuidados especiais quanto à fidedignidade dos dados, tais como, checar as informações por meios de entrevistas e/ou confrontar as análises com outros pesquisadores;
- (v) A análise dos dados tende a ser indutiva. A preocupação central não é buscar evidências para comprovação de hipóteses pré-definidas. Ao contrário, "As abstrações se formam ou ou se consolidam basicamente a partir da inspeção dos dados num processo de baixo para cima" . (LÜDKE e ANDRÉ, 1986: 13).
## Local e Participantes
A pesquisa é realizada na Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) e Unive rsidade Federal da Bahia (UFBA), com uma amostra significativa e aleatoriamente escolhida de estudantes das disciplinas 'Fundamentos de Física I' do Curso de Física da UEFS (Licenciatura e Bacharelado) e 'Física Básica I' do Curso Noturno de Licenciatura em Física da UFBA .
## Instrumentos
Como fontes de coleta de dados são usados questionários e entrevistas semi-estruturadas. Os questionários utilizados - - aplicados antes e depois das intervenções didáticas (início e final das disciplinas) ) que tratam m os conceitos relacionados com a 'Síntese Newtoniana' através de abordagem contextual de ensino - são constituídos de perguntas abertas contendo a solicitação de informações de natureza sócio -cultural l permitindo conhecer o perfil dos sujeitos da pesquisa; contendo perguntas abertas sobre conceitos de Física relacionados com a 'Síntese Newtoniana' (gravitação ununiversal, pêndulo, referenciais inerciais) permitindo mensurar a capacidade de resolução de problemas, capacidade de explicação conceitual e e habilidade na resolução de problemas práticos, com o objetivo de revelar a compreensão dos estudantes (sua aprendizagem significativa) acerca de tais conceitos, conforme objetivo do presente trabalho; e contendo ainda perguntas sobre concepções acerca da natureza da ciência , permitindo avaliar o processo de amadurecimento dos estudantes frente às discussões explícitas sobre a natureza da ciência feitas em sala, conforme objetivo deste trabalho .
Além da aplicação dos questionários sãsão realizadas entrevistas semi-estruturadas, sobre os mesmos conceitos abordados nos questionários, gravadas em fita K-7 e transcritas. Este procedimento tem a finalidade de atribuir um maior grau de fidedignidade aos dados da pesquisa, aumentando a confiabilidade nos mesmos.
## Análise de Dados
A análise dos dados, será feita a partir r da leitura das respostas aos questionários e entrevistas, é procedida como segue: sãsão estabelecidas algumas categorias para classificação das respostas em cada item dos questionários. As categorias são construídas mediante a reunião de respostas que contenham teor similar, ou seja, a mesma idéia central sobre o tema abordado em cada item dos questionários. Cada categoria representa, portanto, uma síntese da idéia central compartilhada por um determinado conjunto de respostas. Vale ressaltar, que tais categogorias não são pré-estabelecidas, mas, ao contrário, são elaboradas a partir da leitura dos dados e validadas por outros pesquisadores não envolvidos no processo de coleta de dados para evitar vieses de interpretação .
Em seguida, é feita a análise qualitativiva que envolve: (i) uma apreciação do significado de cada categoria em termos da sua adequação em relação aos conceitos da Física supracitados e referenciados nos saberes partilhados pelos especialistas, bem como às concepções acerca da natureza da ciência a referenciadas na Filosofia da Ciência; (ii) uma apreciação das transformações sofridas nas concepções dos estudantes acerca dos conceitos da Física e acerca da natureza da ciência, após uma intervenção feita com o uso de uma abordagem explícita de ensino informada pela História e Filosofia da Ciência; (iii) uma apreciação da relação destas transformações com a própria abordagem, ou seja, a identificação dos aspectos específicos que se mostram determinantes na influência da referida abordagem sobre o processo de aprendizagem significativa e de amadurecimento nas visões sobre a natureza da ciência ; (iv) o tratamento estatístico dos dados aumentando a validade dos mesmos. Esta a parte quantitativa da pesquisa toma o modelo estatístico da análise multivariada, no qual, várias variáveis (t(tais como, capacidade de resolução de problemas, capacidade de explicação conceitual e e habilidade na resolução de problemas práticos) geram m um índice para medir uma única grandeza (compreensão dos conceitos relacionados com a 'Sínt ese Newtoniana') . A integração (neste caso, do tipo combinação, segundo a definição de BERICAT , 1998) dos dois métodos tem o objetivo de usar os resultados obtidos com o método quantitativo para se integrar à análise feita com o método qualitativo visando aumentar a qualidade dos resultados finais.
Como forma de garantir maior consistência à interpretação dos dados brutos se toma o cuidado de submetê -los à validação por outros pesquisadores que não estão diretamente envolvidos produção dos dados, para que seja feita uma análise crítica a fim de evitar vieses subjetivos e ruídos de interpretação tais como: super-r-interpretação, atribuindo-se aos estudantes idéias não efetivamente detectadas em suas respostas; sub-interpretação, perdendo-se informações relevantes dos dados brutos.
## CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este trabalho está sendo desenvolvido no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ensino, Filosofia e História das Ciências da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) como tese de doutoramento do primeiro autor Elder Sales Teixeira com a orientação do segundo autor Olival Freire Jr.
## REFERÊNCIAS
1. ABD -EL -KHALICK, F.; LEDERMAN, N. G. Improving Science Teachers' Conceptions of Nature of Science: a Critical Review of the Lititerature. International Journal of Science Education, n, [S.l.], v. 22, n. 7, p. 665-701, 2000.
- 2. AUSUBEL, D. Aquisição e Retenção de Conhecimentos: Uma Perspectiva Cognitiva . Tr. Lígia Teopisto. Lisboa: Plátano Editora. 2003.
- 3. BELL, R. et al. The Nature of Science and Science Education: A Bibliography. Science & Education, n, Netherlands: Kluwer Academic Publishers, v. 10, p. 187-204, 2001.
- 4. BERICAT, E. La Integración de los Métodos Cuantitativo e Cualitativo em La Investigación Social. Barcelona: Ariel, 1998.
- 5. BOGDANAN, R.; BIKLEN, S. Investigação Qualitativa em Educação. Uma Introdução à Teoria e aos Métodos. Porto: Porto Editora. 1994.
- 6. CARVALHO, A. M. P.; VANNUCCHI, A. I. O Currículo de Física: Inovações e Tendências nos Anos Noventa. Investigações em Ensino de Ciências, Porto Alegre: IF-UFRGS, v. 1, n. 1, abr. 1996. Disponível em: <www.ufrgs/ufrgs/>. Acesso em: 18 jun. 2002.
- 7. CARVALHO, A. M. P.; VANNUCCHI, A. I. History, Philosophy and Science Teaching: Some Answers to "How?". . Science & Education, n, Netherlands: Kluwer Academic Publishers, v. 9, p. 427 -448, 2000.
- 8. CRUZ, F. F. S. (Coord.). Mesa-redonda: Influência da História da Ciência no Ensino de Física.
- Caderno Catarinense de Ensino de Física, Florianópolis, n. 5, p. 76-92, junun. 1988. Edição especial.
- 9. FREIRE JR., O.; TENÓRIO, R. M. A Graduate Programme in History, Philosophy and Science Teaching in Brazil. Science & Education, n, Netherlands: Kluwer Academic Publishers, v. 10, n. 6, p. 601-608, 2001.
- 10. GRECA, I. Tópicos de Pesquisa em Ensino. Salvador: Mestrado em Ensino, Filosofia e História das Ciências da UFBA/UEFS, 2001. 74p. (notas de aula).
- 11. LÜDKE, M.; ANDRÉ, M. E. D. A. Pesquisa em Educação: Abordagens Qualitativas. São Paulo: EPU, 1986.
- 12. MASSONI, N. T. Estudo de Caso Etnográfico sobre a Contribuição de Diferentes Visões Epistemológicas Contemporâneas na Formação de Professores de Física . Porto Alegre: UFRGS, 2005. (dissertação de mestrado).
- 13. MATTHEWS, M. R. Science Teaching: The Role of History and Philosophy of Science . New York: Routledge, 1994.
- 14. MOREIRA, M. A. La Teoria del Aprendizaje Significativo. Actas del PIDEC, Porto Alegre, vol. II, p. 31-68, 2000.
- 15. OKI, M. C. M. A História da Química Possibilitando o Conhecimento da Natureza da Ciência e uma Abordagem Contextualizada de CoConceitos Químicos. Salvador: UFBA, 2006. (tese de doutorado).
- 16. ROSA, K. D. A Inserção de História e Filosofia da Ciência na Formação de Professores de Física: a Experiência da UFBa e da UFRGS. Salvador: UFBA, 2006. (dissertação de mestrado).
17. TEIXEIRA, E. S. A Influência de uma Abordagem Contextual nas Concepções sobre a Natureza da Ciência: Um Estudo de Caso com Estudantes de Física da UEFS. Salvador: UFBA, 2003. (dissertação de mestrado).
18. TEIXEIRA, E. S.; EL-L-HANI, C. N.; FREIRE JR., O. Concepções de Estudantntes de Física sobre a Natureza da Ciência e sua Transformação por uma Abordagem Contextual do Ensino de Ciências. Revista Brasileira de Pesquisa em Educação em Ciências, [S.l.], v. 1, n. 3, p. 111-123, set./dez. 2001.
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