A INTERDISCIPLINARIDADE ENTRE FISICA E ARTE: O BARROCO E O MODERNISMO EM UMA AULA DE CIENCIAS
Luciana Maria Dos Santos Azevedo, Maria Conceiçao Barbosa-Lima, Gloria Pessoa Queiroz
- Evento
- Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
- Edição
- XVII
- Ano
- 2007
- Data
- 30/01/2007
- Linha de pesquisa
- Interdisciplinaridade E Ensino De Física
- Tipo
- Pôster
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Texto completo
## A ININTERDISCIPLINARIDADE E ENTRE FÍFÍSICA E ARARTE: O O BARROCO E O MODERNISMO EM UMA AULA DE CIÊNCIAS
Luciana Maria dos Santos Azevedo a Maria Conceição Barbosa -Lima b Gloria Pessoa Queirozb zb
- a UERJ (Licencianda em Física pelo Instituto de Física Armando Dias TaTavares)
- b UERJ (Professora do Instituto de Física Armando Dias Tavares do Departamento de Física Aplicada e Termodinâmica - Núcleo de Pesquisa, Ensino e Extensão)
## RESUMO
Neste artigo mostramos a possibilidade de se trabalhar interdisciplinarmente em uma sala de aula de Ensino Fundamental (8ª série). As duas propostas apresentadas são de aulas de ciências onde trabalhamos com o Ensino de Física e de Artes. Ambas as propostas foram realizadas em duas turmas diferentes por uma mesma professora de Ensino Fundamental da rede pública do município do Rio de Janeiro. A primeira proposta é um projeto desenvolvido e aplicado há vários anos por esta professora e que relaciona o Ensino de Física Moderna, mais especificamente o estudo de partículas fundamentais com a Artrte Moderna - neste caso, o abstracionismo e o pontilhismo são os principais estilos utilizados - e que desta vez contou com a colaboração da professora de artes plásticas da turma colégio. A segunda proposta fez parte de um projeto de parceria entre o colégio Reverendo Martin Luter King e o Núcleo de Pesquisa Extensão, Educação e Ensino - NPE3 - do Instituto de Física Armando Dias Tavares da UERJ. Esta proposta tem como tema central a luz, que é abordada do ponto de vista da Física dentro do conteúdo de óptica, e do ponto de vista da Arte através do barroco, especificamente das obras do pintor holandês Johannes Vermeer. O objetivo de se apresentar as duas propostas é mostrar que um mesmo tema geral - interdisciplinaridade entre a Física e as Artes - pode ser relacionado de maneiras diferentes, ou melhor dizendo, pode ter abordagens diferentes. Na primeira proposta temos a Arte aparecendo como linguagem para a compreensão da Física e em contrapartida temos a Física como tema para a compreensão de alguns estilos artísticos desenvolvidos dentro de uma aula de artes. Na segunda proposta a Física aparece como instrumento para a Arte - com equipamentos desenvolvidos através do desenvolvimento das teorias Físicas - e a Arte como instrumento para a aula de Física - os quadros mostrando os efeitos de cor, luz, sombra e formação de imagens.
Palavras -c -chaves: ciência, arte, interdisciplinaridade, praticas interdisciplinares
## INTRODUÇÃO
O tema interdisciplinaridade tem sido freqüentemente abordado no meio acadêmico. Quando o pensamos em interdisciplinaridade, vemos que é um conceito intimamente ligado ao conhecimento e não ao assunto. Por exemplo, vamos ver o estudo da Energia. A interdisciplinaridade se dá não pelo fato de matérias, como a Física e a Biologia, explicarem sobre óticas diferentes a energia e sim pelo fato da contribuição que uma matéria dá à outra para se entender melhor o assunto e assim enriquecerem seus conteúdos. Enfim, a interdisciplinaridade se dá na relação entre as matérias e não nelas separadamente para explicarem a mesma coisa. Nas palavras de Piaget (1972 apud SANTOMÉ, 1998, p. 70)
"Interdisciplinaridade. Segundo nível de associação entre disciplina, em que a cooperação entre varias disciplinas provoca intercâmbios reais, isto é, existe uma verdadeira a reciprocidade nos intercâmbios e, conseqüentemente, enriquecimento mútuos"
Ou ainda segundo Erich Jantsch no Seminário da OCDE (Organização Para A Cooperação Econômica e o Desenvolvimento) de 1979:
- "A interdisciplinaridade propriamente dita é algo diferentnte, que une estudos complementares de diversos especialistas em um contexto de estudo de âmbito coletivo. A interdisciplinaridade implica em uma vontade e compromisso de elaborar um contexto mais geral, no qual cada uma das disciplinas em contato são por susua vez modificadas e passam a depender claramente umas das outras. Aqui se estabelece uma interação entre duas ou mais disciplinas, o que resultará em intercomunicação e enriquecimento recíproco e, consequentemente, em uma transformação de suas metodologias de pesquisa, em uma modificação de conceitos, de terminologias fundamentais, etc." (SANTOMÉ , 1998, p. 73)
Porém, em meio a tanta discussão teórica é interessante mostrar a prática da interdisciplinaridade em sala de aula, por isso neste artigo mostramos duduas propostas que deram e estão dando certo. Ambas as propostas tratam da relação entre a Física e a Arte nas aulas de Ciências de turmas da 8ª série do Ensino Fundamental.
A vantagem de um ensino interdisciplinar
"é que este possui um grande poder estrutururador (...). Além disso, depois fica mais fácil realizar transferências das aprendizagens assim adquiridas para outros contextos disciplinares mais tradicionais."( ( SANTOMÉ,1998, p.73)
## Mas, porque Artes e Física?
Um dos motivos é dinamizar as aulas de Física ca e mostrar que as aulas de ciências, em especial a Física, não precisam ser frias e impessoais, mostrando o Mundo como se estivéssemos fora dele, ou aparentemente sem nenhuma sensibilidade. Outro motivo é usar
um "pretexto" para aproximar os alunos das Artes dando oportunidade, que muitos não têm, de ter algum contato com obras de arte de pintores famosos e expandir sua cultura.
É comum encontrar na sociedade os estereótipos de que o artista é um sujeito muito sensível e o cientista puramente racional e que ambos vivem num mundo particular. Mas na realidade vemos que a medida certa da mistura de razão e sensibilidade é que forma o cientista e o artista. Com isso percebemos que ambos são mais parecidos do que se pensa.
Continuando a comparação entre o artista ta e o cientista, ambos, diferentemente do que parece possuem uma sensibilidade diferenciada, e enxergam a natureza com outro olhar, coisa que pessoas comuns não conseguem, pelo menos não sozinhas. Mas essa percepção é algo que foi construído através da obs ervação e do estudo sobre o assunto e por isso são mais "sensíveis" a certas nuanças.
Outra observação é a de que ambos também se valem dos avanços tecnológicos para aperfeiçoar, experimentar, ou abrir novas possibilidades para suas obras.
Baseados nestas observações vamos mostrar as propostas de aula sobre Física e Arte.
## AS CORES E O BARROCO
Estas aulas foram inspiradas nas obras do pintor Vermeer e baseadas no projeto Ciência, Arte e Filosofia: A relevância Cultural da Física, de autoria do grupo NPE3 do do Instituto de Física Armando Dias Tavares da UERJ.
Neste projeto o tema central é a Luz que é estudada do ponto de vista da Óptica e do Barroco, na sociedade holandesa do século XVII. Naquela época a Luz era algo como um "éter", permeava toda a cultura de e maneira tão marcante que isso se refletiu na produção do conhecimento da época. Então vimos a luz como tema de obras de arte como as do pintor Vermeer, a luz como estudo de cientistas como Huygens e Leeuwenhoek ao "descobrirem" o mundo macro e microscópico, respectivamente, através das lentes e na ciência e na arte através do uso das câmaras escuras.
Este projeto foi levado para varias salas de aula do ensino médio do Rio de Janeiro onde foi abordado o estudo das lentes e formação das imagens através do estudo da câmara escura.
Porém, nas aulas do Ensino Fundamental obteve um resultado diferente, pois o projeto foi baseado no estudo das cores - pigmento e luz - - além do estudo da formação de imagens. Então, com o auxilio de alguns estagiários que participavavam do projeto na UERJ, a professora levou os alunos a perceberem a diferença na formação das cores através de oficinas de pintura e mistura das luzes coloridas. Mas o projeto também enveredou para a filosofia ao fazer um paralelo entre o filosofo Spinoza e e "patrono" da escola Martin Luter King.E também valendo-se do fato das aulas serem de ciências e não especificamente de Física, entrou no conteúdo de química e ensinado os alunos a criarem tintas como no faziam os pintores antigamente usando óleo de linhaça, flores secas e outras matérias. Com as tintas prontas os alunos pintaram os bancos do laboratório de ciências fazendo deles suas telas de pintura.
Mas o resultado obtido foi além dos novos bancos do laboratório. Os alunos fizeram um trabalho de pesquisa sobre materiais ópticos onde um grupo construiu uma câmara escura, outro conseguiu lentes de diversos graus, outra microscópio, lunetas,
caleidoscópios... E com todo esse material a professora montou no colégio uma exposição semelhante à Luz, Ciência e Arte que aconteceu na UERJ. E a exemplo desta exposição que se tornou itinerante, a exposição dos alunos foi levada às aulas de prática de ensino especifica de Física da UERJ.
A montagem da exposição do colégio pode contar com a mobilização das famílias dos alunos que os ajudaram a conseguir os objetos para a exposição, como por exemplo o caso pai de uma aluna que trabalhava numa Ótica e ajudou a conseguir lentes de diversos graus.
Nesta proposta vemos a ciência como uma ferramenta para a arte, pois os alunos utilizaram o conteúdo aprendido em sala para criarem suas próprias obras e a exposição.
## A ARARTE MODERNA E A FÍSICA MODERNA
Esta segunda proposta faz parte do projeto chamado a Dança do Universo elaborado pela professora Solange Cardozo, e baseado na expxposiçãoLa danse de l'univers do GLACS, Groupe de Liaison pour r l'Action Culturelle Scientifique (1974-4-1983), que se realizou no espaço UFF, na década de 80.
- O projeto A Dança do Universo relaciona a Física Moderna e a Arte Moderna e visa principalmente mostrar que o artista e o cientista descrevem de maneiras diferentes a natureza, em particular o mundo subatômico.
- O interessante deste projeto - e da exposição também - é que ela faz uma correlação diferenciada da Física Moderna e Arte Moderna. Uma rápida leitura em qualquer bibliografia que faça essa correspondência, logo se percebe que qualquer correlação feita entre Física e Arte, é relativa à mudança na concepção do espaço, do tempo e da luz. Neste trabalho a relação é feita com a Física de Partículas.
No período moderno a virada do século, ou o clima de quebra de ruptura que o pósguerra trouxe, permeou a Arte com o modernismo e a Física com os novos conceitos, a Física moderna. Ambas quebraram um paradigma, romperam com o velho e isso abriu caminho para ra novas possibilidades, conceitos e descobertas (quebra da perspectiva, "quebra" da luz e da matéria em partículas, quebra das regras...)
Esta proposta possui como característica uma grande adequação ao conteúdo programático da disciplina o que permite que ela toma um rumo diferente em cada turma. Podendo partir do conteúdo de energia e chegar às partículas e levando as ligações químicas ou partindo do estudo da matéria, ou ainda tomando outros rumos.
- O mundo subatômico é muito difícil de ser compreendido pelos alunos, principalmente porque não se consegue representa-lo figurativamente. Então, para trabalhar com a capacidade de abstração do aluno e leva -lo a compreender que a Física trabalha com modelos da natureza, ele é levado a representar a sua visão do universo das partículas.
Assim como o aluno não consegue entender este modelo de matéria discreta, também não consegue perceber que as partículas que as compõe estão em movimento.Ou seja, que este universo subatômico "dança". A Dança do Universo.
Para que os alunos compreendam o movimento das partículas e a composição da matéria é feito todo um trabalho em cima das concepções alternativas dos alunos através de atividades experimentais e de recursos audiovisuais.
Depois de toda uma discussão feita apoiada na s atividades realizadas a professora introduz a Arte como uma maneira de representar a natureza e mostra diversas obras de artistas modernos que fizeram parte da exposição La danse de l'univers e de outros.
- E dividindo a turma em grupos a professora propõe temas (verbetes) para eles representarem o mundo feito de partículas.
Geralmente esta atividade é realizada somente nas aulas de Ciências, contudo desta vez contou coma colaboração da professora de artes do colégio que se encarregou de orientar os alunos na suas criações, com o auxilio de uma bolsista do grupo NPE3 do Instituto de Física da UERJ.
Após os alunos terem concluído seus trabalhos, a professora retoma o tema partículas, e faz a ligação final entre a Física e a Arte, para que o aprendizado seja concretizado.
- O projeto se dá por concluído com uma exposição feita com os trabalhos dos alunos no colégio.
Este projeto, como já dito, possui uma grande flexibilidade abrindo caminho para novas possibilidades e com a participação da professora de arte o prpróximo passo será montar uma exposição com esculturas inspiradas nos mesmos verbetes e que também entrará na exposição. E ainda há a possibilidade destes trabalhos serem expostos na Semana da Física da UERJ.
Nesta segunda proposta vemos claramente a Física a como tema das aulas de arte e ambas sendo usadas como linguagens para descrever a natureza.
## CONSIDERAÇÕES FINAIS
As duas propostas contidas neste trabalho mostram que temas interdisciplinares não se esgotam em si mesmo e que o mesmo tema pode ser repetidido sobre uma nova perspectiva.
- O trabalho com projetos é ideal quando se trabalha com toda a escola, ou com a participação de duas ou mais disciplinas, mas vemos que a falta de apoio não impossibilita um trabalho interdisciplinar de qualidade e que este podode ser realizado individualmente.
Observando o comportamento dos alunos vimos um maior interesse nas aulas, tanto de artes quanto de ciências quando se trabalha de uma forma diferenciada. A principio os alunos não se mostraram muito participativos, mas aos os poucos, e com a possibilidade de ver seus trabalhos expostos em uma Universidade, os alunos se motivaram e surgiram trabalhos bem interessantes e criativos.
Os alunos realizaram experimentações tanto em Física quanto em Arte, o que é uma característica do estilo modernismo, experimentar novas possibilidades. Vimos nesta característica outra relação entre ciência e artes visto que a experimentação é algo intrínseco ao trabalho cientifico.
Como pudemos ver nesta rápida apresentação a Arte e a Ciência possueuem relações muito mais extensas do que percebemos.
## REFERENCIAS
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Discografia - Quanta de Gilberto Gil
Filmografia - O mundo Invisível de National Geographic; A moça com o Brinco de Pérola com direção de Peter Webber e roteiro de Olivia Hetreed, baseado em livro de Tracy Chevalier.
## Homepages
http://www.pitoresco.com.br/espelho/valeapena/mistifica/mistifica.htm
http://www.pitoresco.com.br/espelho/destaques/vermeer/vermeer.htm
http://www.rainhadapaz.g12.br/projetos/artes/quatrofases/vermeer.htm
http://www.conviteafisica.com.br/
Instituto Arte na escola. art br. SP: Instituto Arte na Escola, 2003
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