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O QUE JUSTIFICA UM ASSUNTO DE FISICA SER LEMBRADO POR UM TRABALHADOR?

Ivan Meskauskas Gneiding, Nilson Marcos Dias Garcia

Evento
Simpósio Nacional de Ensino de Física ↗ (SNEF)
Edição
XVII
Ano
2007
Data
30/01/2007
Linha de pesquisa
Educaçao Científica E Formaçao Profissional
Tipo
Pôster

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Texto completo

## O QUE JUSTIFICA UM ASSUNTO DE FÍSICA SER R LEMBRADO POR UM TRABALHADOR?R?

Ivan Meskauskas Gneidinga ga1 [ivangneiding@yahoo.com.br] Nilson Marcos Dias Garciab ab2 [nilson@utfpr.edu.br]

a Departamento Acadêmico de Física da UTFPR e Departamento de Física da UFPR b Departamento Acadêmico de Física e Programa de Pós-Graduação em Tecnologia da UTFPR e Programa de Pós-Graduação em Educação da UFPR

## RESUMO

O presente trabalho analisa resultados parciais de uma pesquisa mais ampla, que envolve indústrias de diversos segmentntos produtivos, na qual tem-m-se procurado identificar os assuntos escolares de Física presentes nas atividades de trabalhadores industriais. No âmbito desse trabalho a empresa investigada se insere no ramo industrial da produção de motores elétricos e a amostra de participantes foi formada por trabalhadores com escolaridade equivalente ao Ensino Médio. Os dados brutos foram obtidos a partir das respostas dadas a um instrumento de pesquisa que solicitava a indicação de assuntos de Física julgados estarem presentes na atividade profissional. l. Neste instrumento, num primeiro momento, era tomado como referência apenas a lembrança, sem nenhuma consulta , e num segundo momento tomando como referência uma listagem dos assuntos propostos para serem desenvolvidos em aulala . A partir dos indicadores de escolaridade dos participantes e das respostas dadas aos instrumentos, procurouuse estabelecer relação entre o tipo de Ensino Médio realizado pelos participantes da pesquisa (se regular, técnico ou supletivo) e a data de sua conclusão e a natureza das respostas dadas ao instrumento de pesquisa. Os resultados apontaram que as respostas mais densas foram dadas por aqueles que realizaram cursos técnicos e que concluíram seus cursos mais recentemente. Além disso, apontaram também que havia um grupo de assuntos presentes na maior parte das respostas, independentemente da data de conclusão e um outro grupo, que dependia da natureza do curso realizado, indicando haver uma influência do tipo de escolarização na percepção da presença de assuntos escolares de Física nas atividades profissionais.

PALAVRAS CHAVE: escolarização, ensino de física, assuntos lembrados

## INTRODUÇÃO

Com a incorporação de um sem número de descobertas científicas e de inovações nas formas de produção e gestão, tem sido observada uma tendência de mudança nos paradigmas da produção industrial e, sob certos aspectos, de superação daqueles característicos do fordismo.

Nesse sentido e ao mesmo tempo, ao incorporar nas máquinas e nos seus controles alguns dos avanços conseguidos através das pesquisas no campo das ciências, tem também ocorrido uma mudança nas exigências impostas aos trabalhadores (Hirata, 1994; Assis, 1994; Moraes, 1999). Se num processo produtivo de concepção fordista, exige-se do trabalhador força e habilidade para operar as máquinas, na produção flexível há intensificação de novas tecnonologias de base

microeletrônica incorporadas à produção industrial e as exigências passam pela escolarização e pelo desenvolvimento de novas habilidades.

Essa tendência de aumento da necessidade de novos conhecimentos tem influenciado significativamente a forma com que os trabalhadores vêem a importância da escolarização e do conhecimento . Entretanto, apesar de estarmos presenciando uma significativa participação da ciência na produçução tecnológica, principalmente nas últimas décadas do último século, e da Física ser uma das ciências que proporciona uma razoável sustentação a esse desenvolvimento, a sua contribuição como disciplina escolar não tem acompanhado essas exigências.

Por essas razões, e na expectativa de contribuir para o avanço da interação enentre o saber escolar e o saber tecnológico, realizou-u-se pesquisa que buscou identificar conhecimentos de Física que podem estar presentes no processo produtivo industrial, l, haja a vista o sem número de elementos de alta tecnologia que podem estar incorporados às máquinas e equipamentos envolvidos na produção de bens pela indústria.

## DESCRIÇÃO E IDENTIFICAÇÃO DOS PARTICIPANTES DA PESQUISA

Durante a pesquisa de campo, realizada numa a indústria situada numa cidade de pequeno a médio porte, o parque industrial da Empresa foi visitado por diversas vezes, foram aplicados questionários e realizadas entrevistas com alguns de seus funcionários, selecionados de forma a contemplar diversos graus hierárquicos da indústria. Assim, além dos funcionários do Serviço de Recrutamento de Pessoas e dos gerentes, que expressam ou representam as posições da Empresa , foram também entrevistados supervisores e técnicos, que exercem uma função de intermediação entre os interesses da Empresa e os trabalhadores, e os funcionários da manutenção e operadores de máquinas, que atuam na produção propriamente dita.

As análises da investigação foram conduzidas de forma a explicitar: 1) os conhecimentos de Física presentes no processo produtivo da Empresa investigada; 2) os espaços de circulação desses conhecimentos; 3) o significado e a importância desses conhecimentos tanto para os trabalhadores como para a Empresa; 4) as percepções dos trabalhadores a respeito das práticas escolares relativas ao conhecimento de Física, e 5) o papel da escolarização e do conhecimento de Física na obtenção e manutenção do emprego, para os diferentes grupos de entrevistados.

No que se refere especificamente à identificação dos conhecimentntos de Física lembrados pelos trabalhadores, havia dois momentos: um primeiro, no qual se solicitava que os trabalhadores identificassem, usando apenas sua memória, os assuntos escolares de Física que eles percebiam estarem presentes em suas atividades na fábrica; e um segundo, no qual se solicitava que eles identificassem esses assuntos a partir de uma listagem elaborada a partir de índices de livros didáticos usualmente adotados.

Após a obtenção desses dados brutos, eles foram tabulados e permitiram diversrsas conclusões a respeito dos assuntos de Física que ainda são percebidos pelos trabalhadores e que têm sido divulgadas em diversos momentos (Garcia, 2000).

Como o objetivo desse trabalho foi, tomando como referência os dados obtidos na pesquisa supra citada, procurar estabelecer uma relação entre os assuntos de Física lembrados pelos trabalhadores e a natureza da sua escolarização e o tempo de afastamento do contato com a escola, das respostas de todos os participantes, foram selecionadas aquelas cujos respondentes tivessem no

máximo a escolarização equivalente ao Ensino Médio (propedêutico, supletivo ou técnico). Após, esses mesmos trabalhadores foram agrupados em função da natureza do curso realizado e do tempo de conclusão do último curso, cujos quantitavivos podem ser observados na tabela a seguir:

Tabela 1 - - Quantidade de participantes por grupo

Percebe -se, dessa tabela, que o Grupo A, aquele cujos participantes se afastaram mais recentemente da escola, é o mais numeroso quando comparado com os demais. Percebe-se também que é evidente a presença de trabalhadores com formação técnica dentre os participantes da pesquisa.

## LEMBRANÇAS E NATUREZA A DA ESCOLARIZAÇÃO

Para cada um dos grupos e cada uma das modalidades , foi registrada a quantidade de assuntos de Física que foforam lembrados, e para efeito comparativo entre os diversos grupos, foi criado um coeficiente, denominado densidade de lembranças.

A densidade de lembrança foi uma ferramenta criada no intuito de relacionar a quantidade de lembranças com a quantidade de integrantes de cada um dos grupos e as suas respectivas escolarizações, possibilitando comparações. Porém, devido ao grande número de colaboradores com poucas lembranças ou que não conseguiram m registrar uma sequer, esta ferramenta não se revelou muito adequada, servindo somente como referência para essas comparações .

Uma síntese dos resultados obtidos pode ser verificada na tabela 2, a seguir.

Tabela 2 - - - Quantidade de lembranças por grupo

- d: densidade de lembranças (indica a quantidade média de lembranças pro trabalhador participante)
- Tot: total de lembranças no grupo
- M: Ensino Médio
- S: Supletivo
- T: Curso Técnico, área Exata
- O: Curso Técnico, outras áreas
- N: número de ordem do tópico de Física, apresentado no instrumento de coleta de dados preenchido por todos os trabalhadores participantes

Tópico: tópico de assunto de Física ao qual se relacionam as lembranças explicitadas pelos trabalhadores

Algumas lembranças de assuntos de física podem depender não somente do cargo e das funções exercidas pelos trabalhadores, mas também do tipo e qualidade de escolarização a que essas pessoas tiveram acesso, o tempo de afastamento que estes têm da escola e o meio social ao qual estão submetidos. É de se constatar então que o resultado dessa pesquisa sofrerá influluência não só da natureza do estudo dos colaboradores como também da comunidade que os abriga.

Consultando pesquisas anteriores feitas em três empresas de outras linhas, de uma cidade de grande porte, capital do Estado, uma vez que os empregos que requerem m alto nível de escolarização são muitos, foi possível observar que mesmo essas três empresas tendo áreas distintas de atuação, os resultados foram semelhantes entre si, porém distintos da empresa atual, que se situa na cidade de menor porte, no interior do Estado. Assim podemos inferir que o tipo de cidade e sua localização, assim como o tipo de comunidade formada, pode influenciar diretamente na natureza da relação que se estabelece entre o conhecimento escolar de Física e a sua identificação na atividade p profissional.

A situação dos colaboradores que não apresentaram qualquer lembrança de Física, foi trabada com atenção, pois entendemos que não é seguro afirmar se tais colaboradores realmente não tiveram lembranças dos tópicos de Física estudados ou se, por qualquer motivo não quiseram cita-alos.

Tendo em vista os dados apresentados na tabela 2, ao Grupo A foi dada maior atenção, pois é o de maior número de integrantes. Por possuírem poucos participantes, os outros grupos não permitem que se faça uma análise mais detalhada, e é estatisticamente inviável fazer uma análise detalhada desses dados. Nesse sentido, a opção foi por fazer uma comparação da densidade de lembranças deste grupo principal com a dos demais, tentando relacionar que tópicos são independentes do tempo de afastamento dos bancos escolares e que, por essa razão, adquirem uma natureza especial.

## ALGUMAS ANÁLISESES

Os técnicos da área de exatas do Grupo A, A, que representam 69% de toda a amostra, possuem a maior densidade de lembranças (5,65) de todo o grupo, seguido dos colaboradores de ensino propedêutico (2,67) que somam 10,3%, e depois peloos que são formados em ensino supletivo (1,80) , que representam 17,2% . Como o único colaborador técnico de outras áreas, representando 3,4% do total de colaboradores, não registrou nenhuma lembrança, ele foi desconsiderado .

No Grupo A é possível observar claramente que a densidade de lembrança é proporcional à natureza do curso, fato que é evidenciado pelo gráfico abaixo .

## Densidade de lembranças em função da natureza da escolarização

Gráfico 1 - Densidade de lembranças segundo a natureza do curso

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Este gráfico nos mostra que pessoas com curso técnico têm maior densidade de lembranças que as pessoas com o ensino propedêutico, que por sua vez tem uma maior densidade de lembranças que o supletivo. Fica visível que a diferença na concentração de lembranças entre os ensinos propedêutico e supletivo não é tão grande quando comparados quaisquer um desses ensinos com o ensino técnico. Isto porque os cursos técnicos, além de possuíuírem m duração maior com relação ao propedêutico, há uma a grande carga de atividades de laboratório, quer seja na disciplina de Física ou em disciplinas técnicas, o que possibilita um reforço de conceitos pelo fato de que eles são apresentados tanto sob seus aspectos teóricos quanto práticos.

Já os cursos propedêutico e supletivo diferem m bastante dos cursos técnicos, mas nem tanto entre si. Levando em consideração que a metodologia de trabalho utilizada para essas duas formas de cursos são as mesmas, e na maioria dos casos não são desenvolvidas práticas de ensino em laboratório e os livros -textos de referência em geral são os mesmos, a a diferença entre essas duas formas de ensino pode ser atribuída ao tempo de atividades destinado a cada uma delas, onde o propedêutico é realizado normalmente em três anos e o supletivo num tempo bastante inferior, em torno de um ano e meio. Esse tempo de conclusão é um fator muito importante, pois no ensino

propedêutico, com um tempo maior de duração do curso, as disciplinas podem ser vistas com maior atenção que no caso do ensino supletivo, talvez justificando a diferença de densidade de lembranças entre esses tipos de cursos.

A natureza do curso pode também ser evidenciada pelo fato de que apenas colaboradores com formação técnica registraram algumas lembranças, tais como o tópico ferramentas e mecanismos , de caráter mais técnico.

Chamou a atenção o fato de que tópicos tais como Cinemática e Leis de Newton n foram lembrados por todos os colaboradores , independente da natureza da escolarização e do tempo de conclusão de seus estudos, reforçando inclusive observações anteriores, da existência de assuntos de Física que são lembrados por um grande número de trabalhadores.

## CONSIDERAÇÕES

Como já era esperado, pode-se concluir que a natureza do curso influencia fortemente nas lembranças dos tópicos de Física presentes no dia-a-dia de trabalho dessas pessoas. Percebeu-u-se que os cursos com maior tempo de duração e aprofundamento são responsáveis pela maior parte dos registros das lembranças.

Também se pode observar que à medida que o tempo de afastamento da escola vai aumentando, mais tópicos vão deixando de ser percebidos pelos trabalhadores. É interessantnte registrar, porém, que alguns desses assuntos não são esquecidos com o passar do tempo, e mesmo esses trabalhadores que estão há mais tempo longe da escola elas são capazes de recordarem esses conceitos que permanecem fixos em suas memórias.

Tais tópicos, como Cinemática e Leis de Newton , já registrados em pesquisas anteriores como aqueles aos quais todos os trabalhadores fazem menção, são também lembrados pela grande maioria dos trabalhadores que colaboraram para a pesquisa , independentemente do tempo de afastamento escolar. Observando que nas pesquisas anteriormente feitas e já comentadas , esses tópicos se mantêm os mesmos, e que esses concnceitos não são relacionados direta e visivelmente com as funções de trabalho dessas pessoas, há de se concluir que tais conceitos são aprendidos na escola e se mantêm na memória independentemente da natureza do trabalho realizado e suas funções, passando a a fazer parte, inclusive da cultura aprendida na escola e que passa a permear a sociedade .

## REFERÊNCIAS

HIRATA, Helena. Da polarização das qualificações ao modelo da competência. In: FERRETTI, Celso, ZIBAS, D., MADEIRA, F. e FRANCO, M.L. (orgs.) Novas Tecnologias, Trabalho e Educação - um debate multidisciplinar. r. p. 128 a 142. Petrópolis, RJ, Vozes, 1994.

ASSIS, Marisa de. A educação e a formação profissional na encruzilhada das velhas e novas tecnologias. In: FERRETTI, Celso, ZIBAS, D., MADEIRA, F. e FRANCO, M.L. (orgs.) Novas Tecnologias, Trabalho e Educação - um debate multidisciplinar. r. Petrópolis, RJ, Vozes. 1994.

MORAES, Carmen Sylvia V. e FERRETTI, Celso João (coords.) Diagnóstico da formação profissional, ramo metalúrgico. São Paulo, Artchip, 1999.

GAGARCIA, Nilson M. D. Física escolar e novas tecnologias de produção: o desafio da aproximação. Tese de doutorado. FE USP, 2000.

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